• Michele Costa

Mario Cesar Santos: o homem do cobertor de elefantes

Atualizado: Nov 20

Na cultura ocidental, o elefante significa determinação, sabedoria e perseverança. Por conta de seu significado, o animal foi o herói, em 2008, do escritor português José Saramago. Treze anos depois, o elefante ressurge na literatura - na obra do escritor e jornalista brasileiro Mario Cesar Santos. Em "O Homem Que Dormia Com Elefantes" (Uiclap Editora), Mario narra a história de um homem sem identificação que fica conhecido pelo seu cobertor de elefantes.


Misturando ficção e realidade, com foco na questão dos moradores em situação de rua de todo o país, o autor reflete sobre a falta de compaixão de nós, humanos, com o próximo, ou seja, aqueles que são considerados invisíveis pela sociedade. A obra conta a saga do morador de rua a partir de sua morte, numa manhã chuvosa e fria, atravessando a rua, atrapalhando o trânsito da pequena São Félix do Mar, sem que ninguém soubesse sequer seu nome. Todo o mistério começa a ser desvendado quando um morador da cidade, que doava roupas ao idoso de vez em quando, tenta evitar seu enterro como indigente.


Segundo dados divulgados pelo Movimento Estadual da População em Situação de Rua de São Paulo, atualmente, cerca de 66 mil pessoas vivem sem moradia na capital paulista. De acordo com o presidente do movimento, Robson Mendonça, o aumento de famílias vivendo nas ruas de São Paulo se deu por conta da pandemia da Covid-19. O livro de Mario faz com que tenhamos a sensibilidade necessária para enxergar o outro.


"Seu nascimento foi um decreto de morte. Ao mesmo tempo, somente a primeira das várias tentativas decretadas pelos homens. Viveu toda a sua vida assim, perseguido de perto pela morte. Um viver tão ameaçado, que houve tempo em que andou pelas ruas com o próprio atestado de óbito embaixo do braço."

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Como surgiu o enredo do livro? Aliás, o que te levou a tratar sobre uma pessoa em situação de rua?

Então, como disse, surgiu o título do meu cobertor que tem desenhos de elefantes. Tinha um título sem uma estória. Dois meses depois, resolvi contar a história de um cidadão que tinha um cobertor com desenhos de elefantes, mas ninguém sabia quem era ele. Optei pelo morador de rua por se encaixar neste perfil pensado. Como muitos que vemos diariamente, que tem sua história, mas que nunca paramos para perguntar qual é. E foi isso que me incentivou a escrever.

Depois de 30 anos de jornalismo, poucos assuntos você ainda não fez matérias. E eu tinha feito uma matéria na Cracolândia, uma no Juqueri. Queria juntar as realidades. Quem vive abandonado nas ruas e quem vive abandonado, ainda nos dias de hoje, nas unidades psiquiátricas, apesar do Movimento Antimanicomial, que fechou várias destas unidades, inclusive o Juqueri - que, na verdade, ainda estava com alguns pacientes, justamente abandonados pelas famílias ou simplesmente tido como mortos.


Durante a obra, ficção e realidade se misturam. Como foi esse processo?

Meus livros trazem sempre esta mistura. Como jornalista, eu adoro essa química. No "Semente", eu sou um jornalista saharaui que conta a luta do Povo Saharaui que vive em campos de refugiados há mais de 40 anos e pouca gente sabe que eles existem. Aí eu o coloquei dentro da Primavera Árabe, como um jornalista que passa pelos quatro países onde o povo derrubou seus ditadores. E ele vai aprendendo pra voltar e ajudar seu próprio povo.

"O Homem Que Dormia Com Elefantes" tem a minha infância e adolescência. Toda a luta contra a morte é a minha história de vida. Do tétano pediátrico aos sustos de moto, represa e mar, são aventuras minhas. Quando [o protagonista] vira líder sindical, daí pra frente, tem um pouco de mim, por sempre estar liderando a luta entre meus amigos de redação, sempre cobrando o melhor para os trabalhadores. Mas o coloco no período da ditadura militar porque é o mesmo período ruim para sindicalistas e Manicômios Judiciários, como o Juqueri. Pelo Juqueri passaram também presos políticos, levados escondidos e torturadores nestes locais.


"O Homem Que Dormia Com Elefantes" é o seu segundo livro. Muita coisa mudou (em você e na sua escrita) durante esse período?

Eu realmente me preocupo com a minha escrita. Porém, em não ter erros ortográficos, gramaticais, essas coisas que possam denegrir a minha imagem de escritor e jornalista. Apesar disso, ainda escapam erros e isso me irrita profundamente [risos].

Quanto ao estilo de escrita e temas, eu não tenho nenhuma preocupação ou predileção. O Mundo Árabe me veio a partir do meu blog que falava apenas de assuntos brasileiros, mas que, de repente, estava sendo lido por pessoas do Mundo Árabe. Ao saber o porquê, acabei enverando pelo Mundo Árabe. Lancei o "Blog do Marroquino" no dia de primeiro aniversário da Primavera Árabe - e todos achavam que eu era um marroquino, morando no Brasil, e que fez um blog em homenagem à Primavera Árabe. Não era, mas virou. Aí fui ler sobre a Primavera Árabe e além de colocar no livro vários fatos reais, entrevistas reais, descobrir a história do Sahara Ocidental, aproveito e conto a saga do Povo Saharaui. É uma "viagem" tão maluca que o "Semente", eu assino como um jornalista saharaui. Me dei o nome de Oiram Rasec - meu nome é Mario Cesar - ou seja, o contrário do meu nome é o nome mais árabe que encontrei para ser o jornalista da história e assinar o livro contado em primeira pessoa.


Além dos leitores, o livro pretende conquistar novos doadores para ONGs que trabalham no apoio e ressocialização desta população. Assim surgiu a campanha "Literatura Solidária" - cada livro comercializado reverte R$ 1,00 para a entidade assistencial indicada pelo próprio leitor. "É pouco, diante da necessidade de investimentos nesta área, mas a campanha pretende atrair mais pessoas para tentar minimizar o problema", comenta Mario.


Como surgiu a ideia da “Campanha Literária Solidária”?

Estou sempre em busca de projetos que possam auxiliar [pessoas]. O "Semente da Primavera" reverte parte dos lucros para o Povo Saharaui, através do Crescente Vermelho Saharaui, que é a Cruz Vermelha islâmica que auxilia, neste caso, os saharauis. Já criei projetos para gerar renda para refugiados aqui em São Paulo, e esta decisão de criar a "Literatura Solitária", acabou sendo algo natural. Os dois livros lançados fazem isso.

Para "O Homem", eu entrei em contato com ONGs que atendem populações em situação de rua e pedi apoio na divulgação para tentar ampliar esta ajuda, mesmo que revertendo apenas R$ 1 real. A cada exemplar vendido, eu recebo R$ 5 reais da editora. Então, reverto R$ 1 real e fico com R$ 4 reais, como escritor. Livro só paga suas contas se você vender milhares de unidades e a ideia é sempre esta. E com este livro, a ideia era conseguir vender milhares para repassar milhares de reais para ONGs.


O homem que dormia com o cobertor de elefantes teve uma vida antes de passar por eventos desagradáveis, digamos assim. O diário dele, que contém apenas boas memórias, momentos, sentimentos e reflexões, me chamou atenção. Podemos compreender que foi a escrita que deu força para ele continuar vivendo?

A ideia foi alimentar o sonho de ser escritor que ele passou a ter depois de ser perseguido como líder sindical e foi preso. Ele sonhava em ser escritor e passou a escrever para alimentar seus sonhos. Quando começou sua sina nas prisões, como “criminoso” ou como paciente, ele não tinha mais nada, a não ser suas memórias, por isso, o sonho dele era contar tudo que aconteceu com ele e viver da venda do seu trabalho. Era a única coisa que poderia fazê-lo se sentir útil e produtivo depois de tudo aquilo que havia passado. O livro era seu único elo com a realidade.



O narrador da história não tem nome, diferente do desconhecido. Existe uma explicação para isso? Aliás, esse detalhe foi pensado para que o leitor viva o que o narrador está contando?

Normalmente eu faço isso em meus livros. No "Semente" também tem momentos de "histórias sem autor". Acredito que isso coloque o leitor dentro da história - mas não é um estilo, projeto, coisa pensada. Eu vejo como uma coisa natural dentro das minhas histórias. O que acaba dando certo trabalho, na revisão, porque aí vem as conjugações, a primeira pessoa, a terceira pessoa… Na revisão a atenção é redobrada porque sei que faço isso naturalmente, mas, às vezes pedem um link pra ficar uma leitura fácil, sem dúvidas ou obstáculos. Não é pensado, como eu disse, mas como está lá, eu costumo, na revisão, fortalecer essa característica para colocar o leitor dentro da história.


Infância, adolescência e juventude se misturam com acontecimentos, como é o caso da ditadura civil-militar e os anos presos em sanatórios. Como foi abordar diferentes épocas e temas que podem ser aplicados nos dias de hoje?

Como disse anteriormente, resultam de matérias e leituras que fiz como jornalista. Para fazer minha matéria no Juqueri, eu cheguei a alguns casos de presos que foram parar ilegalmente lá. Um deles, inclusive, comprovadamente morto por torturas lá. Então, juntar as realidades, de alguém preso nas celas, nas enfermarias, nas ruas, era uma questão que acabava levando também à prisão em seus próprios pensamentos. A única coisa que lhe sobrava eram suas lembranças e o livro era sua vida contada. O seu livro mostra a todos que é alguém.


Quando terminei o livro, tive a impressão de que a história do homem sem nome aconteceu de verdade com você. Você pode confirmar?

Não aconteceu comigo. Mas sabemos que sempre tem alguém que doa roupas, ajuda com comida, quer ser alguém para este que ele acredita não ter ninguém. E quando o amigo desconhecido morre, a situação piora. Porque, mesmo não sabendo seu nome, ou sua história, não poderia deixar o amigo ser enterrado como indigente. Neste ponto, a ideia do livro é mesmo fazer um convite à reflexão para o leitor em seu cotidiano.


O narrador consegue dar um fim digno ao homem que dormia com os elefantes. Te pergunto: você consegue ver essa doçura e preocupação com o próximo na realidade dos dias de hoje?

Sim, vejo. Todos os dias. O que há de ruim nas ruas todos sabemos e lamentamos. Então, fazer algo ou falar do pouco que vemos ou imaginamos, que possa ser um alento, também é muito importante.


"No aprendizado para compreender a vida, optei por momentos escolhidos: os felizes, aqueles que me fizeram entender que minha batalha sempre foi pela vida e não contra a morte."

Em mais de 70 páginas, acompanhamos o narrador na descoberta da identidade do homem que dormia com o cobertor de elefantes. Poético, extremamente sensível e com um toque de esperança na sociedade, Mario nos faz relembrar que é possível ser humano novamente.


Acompanhe os passos de Mario através de seu Facebook. Para comprar o livro "O Homem Que Dormia Com Elefantes, acesse: https://loja.uiclap.com/titulo/ua9958/


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