50 anos de Alucinação: a crônica íntima de Belchior sobre o desencanto coletivo
- Michele Costa
- há 2 horas
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Em plena ditadura civil-militar, Belchior lançou Alucinação (1976), uma obra-prima que sintetiza, em dez faixas, as angústias, os medos e as esperanças de uma geração - porém, com um diferencial: a escrita sob a ótica de um migrante nordestino em busca de alívio e de lugar no eixo Sudeste.
Desde a abertura com "Apenas um Rapaz Latino-Americano", Belchior se apresenta como um sujeito deslocado, crítico e consciente de sua posição no mundo ("Mas não se preocupe meu amigo / Com os horrores que eu lhe digo / Isso é somente uma canção / A vida realmente é diferente / Quer dizer / Ao vivo é muito pior"). A canção funciona como um manifesto pessoal e político, ao recusar heroísmos e idealizações. É impressionante notar como esse sentimento de não pertencimento permanece atual em um Brasil no qual jovens ainda enfrentam frustrações semelhantes, agora atravessadas pela precarização do trabalho e por crises de identidade.
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Em "Velha Roupa Colorida", o compositor aponta a necessidade de romper com discursos e práticas do passado, mas sem ingenuidade. O aviso de que "o novo sempre vem" carrega ambiguidade: a mudança é inevitável, porém não garante avanço. Já em "Como Nossos Pais" - eternizada na voz de Elis Regina (1945 - 1982) - o conflito entre gerações se transforma em um retrato íntimo e doloroso. A frustração diante da impossibilidade de uma ruptura total ecoa com força nos dias atuais, quando muitos percebem que, apesar das tentativas de transformação, continuam presos às mesmas estruturas sociais e afetivas herdadas.
O verso "ano passado eu morri / mas esse ano eu não morro", de "Sujeito de Sorte", tornou-se um lema coletivo ao longo das décadas, ressurgindo em diferentes contextos históricos. Hoje, segue como um grito de sobrevivência em meio a crises sucessivas, reafirmando a persistência como forma de existir.
Já em "Alucinação", faixa-título, Belchior aprofunda sua crítica à alienação, ao consumo e às ilusões vendidas como felicidade. A estrofe "Eu não estou interessado em nenhuma teoria / Nem nessas coisas do oriente, romances astrais / A minha alucinação é suportar o dia a dia / E meu delírio é a experiência com coisas reais" transforma a música em um retrato de esgotamento emocional que dialoga diretamente com o presente, marcado por ansiedade, excesso de informação e desgaste mental.
Outras faixas, como "Não Leve Flores" e "Fotografia 3x4", ampliam esse panorama ao abordar afetos frágeis, despedidas e a construção da própria identidade. Dessa maneira, Belchior se coloca como cronista do indivíduo comum, alguém que observa o mundo com lucidez, sem abrir mão da sensibilidade e, consequentemente, da esperança. Com arranjos do pianista José Carlos Bertrami (1946 - 2012), a sonoridade do álbum se ancora no folk e na MPB, mas é atravessada pela rebeldia roqueira da juventude e pela influência dos versos satíricos de Bob Dylan e The Beatles.
Cinquenta anos depois, Alucinação segue sendo um disco de formação. Suas canções amadurecem junto com o ouvinte e continuam a oferecer novas camadas de sentido a cada retorno. Celebrar seu cinquentenário, em 2026, não é um exercício de nostalgia, mas o reconhecimento de que Belchior construiu uma obra viva, inquieta e capaz de traduzir, com rara honestidade, as contradições de um país e de quem vive nele.
