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  • Foto do escritorMichele Costa

A nave pássaro de Malu Maria

Você consegue imaginar uma nave pássaro? Não são todos que conseguem, é preciso querer ser abduzido pelo mundo de Malu Maria para compreender o seu poder. Sob a imagem de uma ave, o espaço é grande e ideal aos indivíduos que desejam liberdade. Nele, não existem preocupações, inseguranças e negatividade; o tempo é gentil e demora para passar. 


Em 9 faixas autorais, Malu Maria desenvolve paisagens sonoras com a vida real, mas sem deixar o desejo de lado. O sonho (inconsciente ou não) molda o disco, apresentando símbolos a cada estrofe, que são despertados pela paixão da cantora em criar. Inclusive, é com esse sentimento que iniciamos a conversa. Após três anos de pandemia, seis anos de desgoverno, mudanças climáticas e perdas, como mantemos a paixão? Com um sorriso, ela responde: "Acredito que é doando que a gente recebe. O movimento tem que se dar a partir dessa coragem de doar e de receber." Mas ela não para por aí, aproveita para explicar sobre sua visão de paixão: "A relação da lógica - quando eu não entendo algumas coisas, mas elas me tocam, eu começo a classificá-las como algo que me apaixona. O que é a paixão, senão aquilo que a gente não consegue entender, mas a gente fica mesmo numa fissura. É tão potente a ponto da gente se inspirar e criar a partir disso." 


Atriz, cantora, compositora e professora, Malu está sempre se transformando. Ao lado de Dustan Gallas, ela acaba de lançar NAVE PÁSSARO, um projeto difícil de ser classificado, mas que traz a potência da artista que já expôs elementos distintos em Diamantes na Pista (2018) e Ella Terra (2020). 


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Você muda muito, mas uma coisa que não muda - e é visível em suas músicas - é a questão da natureza, ela tá sempre muito presente. O que ela significa para você? 

Não sei, mas acredito que sem natureza não tem nada. Se a gente tá aqui, na terra, já começa pelo fato da gente tá na terra, se a gente não tiver capacidade de dialogar com a natureza de uma forma ou de outra, a gente só tá realmente passando e derrubando o que tiver na frente, totalmente oposto de uma relação aberta de troca. Eu sou daquelas que abraça árvore mesmo e que sente energia [risos]. É muito inspirador, sabe? A gente tem toda hora coisas na nossa frente, se não tem uma parede, tem a casa do vizinho, um prédio, um carro… Poder olhar o horizonte, o céu - o disco novo é muito sobre olhar o céu, enquanto Ella Terra era sobre olhar a terra. Acho que se a gente ficar sempre fechado no nosso olhar, ele se torna limitado também, se torna apegado a coisas que tenham fim - e a gente tem o infinito para desbravar! A gente não conhece porque sai da lógica, e é isso que eu tento trazer também pro disco novo, é [sobre] dialogar e a gente tentar ser mais amigo, sabe? Lembrar de olhar pro céu, de sonhar ou lembrar o que sonhou e trazer o sonho mais próximo da nossa vida. A brincadeira desse disco foi tentar falar, de certa forma, "pessoal, vamos criar uma amizade com essas possibilidades". 


É curioso a maneira que o álbum veio, através de um sonho, porque hoje são poucas pessoas que conseguem sonhar, a gente tá tão cansado em uma sociedade capitalista, que a gente só quer deitar e "descansar", sendo que não descansamos…

É o modo sobrevivente, né? 

Exatamente! Aí você vem com o sonho e fala que não é bem assim, é possível descansar, sonhar e viver de outra maneira. 

E é possível extrair do sonho realidades que sejam suspiros, esperanças e que sejam novas possibilidades para esses lugares que já estão quebrados, né. Sobreviver… Sendo que é tão bonito ter uma vida, acontecem tantas coisas em nossas vidas que parecem uma dança. 


Eu realmente sinto que NAVE PÁSSARO convida o ouvinte para entrar em um outro mundo, com o objetivo de fazer com que o ouvinte seja livre, já que não somos livres neste mundo…

Eu tava doida pra contar essa história, porque tem uma história atrás desse disco - e entrego sem explicação, então, quando você me conta que viu isso, fez mais sentido ainda, é um alívio saber que tô conseguindo contar sim! [risos] 


Na sua nave, você está disposta a aceitar todo mundo?

Sim, se eu pudesse todo mundo e mais um pouco – e de todos os outros mundos, não só do planeta terra [risos]. É o meu sonho! É o meu sonho trazer todo mundo pra curtir essa viagem, porque, pra gente, quanto mais a gente consegue se expressar e tocar o outro, enquanto artista, é o máximo da realização. 


"A cada disco que lanço é uma Malu diferente. É tão didático, tão interessante, porque é como uma foto: olha como eu era novinha, olha como era a forma de compor, o jeito de cantar e a textura da voz, os elementos escolhidos, os caminhos que percorri… Cada disco é uma viagem que eu fiz, algo bem importante que eu percorri."

Eu acho muito bonito a imagem do pássaro que você traz no disco, porque tem diferentes interpretações. Na canção "Pássaro", você canta sobre um pássaro que precisa ser solto, livre para cantar e cantar. Pensando hoje, na nossa realidade, você acha que um dia as pessoas vão ser livres?

A esperança é a última que morre, né? Por isso que eu não vou falar não [risos]. Em termos de liberdade... É super complexo falar de liberdade, porque ela é um estado de espírito, mas ao mesmo tempo, ela pode ser resumida em um pássaro preso em uma gaiola e um pássaro com a gaiola aberta voando [faz barulho de voo, enquanto mexe as mãos]. Acho que é uma boa imagem para liberdade quando a gente tem esse contraste que falamos no começo. A gente precisa da gaiola para entender o que é liberdade, né? Se não for a gaiola, a gente não vai entender o que é liberdade, porque a liberdade é a não gaiola. Acho que o voo do pássaro é muito... Quando a gente olha um pássaro voando, acho que a gente se torna um pássaro, inclusive. É xamânico. 


malu maria
(Foto: Reprodução/Divulgação)

As suas letras trazem metáforas e quando as ouvimos, refletimos. Chegamos à conclusão de que é necessário olhar a vida de outra maneira. Essa construção foi pensada? 

Não, ela é um recurso que praticamente eu tenho como minha língua de origem. Tipo, quando eu vou me expressar, utilizo os símbolos o tempo inteiro. Sou muito desse lugar dos símbolos, admiro quem não seja, porque eu sou muito. Os símbolos estão o tempo inteiro disponíveis para quem consegue ou quer enxergar. Pra mim, os símbolos acontecem o tempo inteiro – a gente tá aqui conversando, você me pergunta, eu respondo, mas imagina quantas coisas que não estão rolando dentro do nosso inconsciente, coisas que eu vi, que você falou. Tudo é tão amplo, tão profundo, quando se trata dos símbolos, né?! É a partir daí que uso as ferramentas que eu utilizo e que eu tô sempre alimentando esse olhar para as coisas. Acho que é daí que vem o olhar poético, sobre a existência – e eu adoro! Os sonhos falam muito através de símbolos, aí a gente percebe que os símbolos também falam muito, eu percebo que posso ler a minha vida através de símbolos – não dá pra fazer isso o tempo inteiro, porque se não a gente fica esquizofrênico [risos] – e esse olhar é muito rico. [A partir disso] Você consegue entender o tempo de maneira diferente, percebe que as coisas são um pouco mais circulares, não tão lineares. De repente, uma palavra pode ser um portal, uma cor pode ser um portal... São vários portais que a gente pode acessar... É o lugar que me interessa como compositora, fico encantada com essas possibilidades, são como ingredientes para uma alquimia. As palavras são alquimias, se juntar uma palavra com outra... Por isso que até brinco com coisas do tipo: nave e pássaro. Aí você fala "oi?", tipo, bate mas ao mesmo tempo não bate. Então, a brincadeira seria um pouco a história do ideograma. É [sobre] juntar um elemento com outro elemento para gerar uma terceira coisa. É essa ideia! Não é [sobre] trazer um nome composto, que feche nele mesmo, mas trazer algo que seja fértil, um encontro que seja fértil para a imaginação do outro. Assim, o outro é obrigado a desvendar esse enigma. Diamantes na Pista, o primeiro álbum que lancei, não existe, como assim diamantes na pista? Parece que é um negócio que já existe, né. Pra mim, na minha cabeça, é uma coisa que existe, mas que não existe. 

O que significa NAVE PÁSSARO para você? Existe um conceito? 

Um dos conceitos é esse mesmo, de trazer elementos diferentes, mas que são próximos, a se unirem para mexer com a criatividade de quem ouve. Eu acho que pra muita gente incomoda, sabe? Para outras pessoas traz uma curiosidade, tem gente que prefere nem ouvir [risos] e tem gente que acha legal… [O nome do álbum] São duas músicas, uma chama "NAVE" e a outra chama "PÁSSARO", que foi o single, e que também veio a partir um sonho. Então, eu juntei as duas músicas que são o tema central do disco e como eu não queria trazer nenhum nome de música para o título do disco - e pra mim era bem importante o conceito de nave e pássaro -, aí eu fiz essa conexão, mas na minha cabeça, existe uma nave pássaro e também existe um pássaro que é uma nave. Tem essa relação também com a natureza, né? A gente tá falando do espaço, de objetos não identificados, mas a gente também tá falando da natureza, que é pelo pássaro, o repertório que a gente conhece. Então, [é sobre] juntar os dois mundos.



Enquanto conversamos, suas palavras me levam para outro mundo, consequência do poder de Malu Maria. Lembro da estrofe de "Abrem-se os Portais": "Venha ver quanta diversão / Venha ver outra dimensão / Venha ser outra dimensão" e percebo que já estou na nave. Uma vez dentro, não se sai nunca mais. Torço para me tornar em um pássaro para ser livre, mas enquanto isso não acontece, fico nessa dimensão, em outra percepção.

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