• Desalinho

Impressões: Ho-Ba-La-Lá: À Procura de João Gilberto

"O que levou um gringo aprender português e vir ao Brasil procurar um músico que nunca quis ser encontrado?", foi a primeira pergunta que fiz para mim mesma quando vi a capa do livro "Ho-ba-la-lá: À Procura de João Gilberto" (Companhia das Letras, 2011), de Marc Fisher, pela primeira vez. A mesma pergunta reapareceu quando o documentário "Onde Está Você, João Gilberto?", de Georges Gachot (2018) estreou por aqui. Não demorou muito para que a resposta chegasse em minha mente: "porque é isso que o músico fez com todo mundo: picou as pessoas com sua arte, que impregna a alma".


O próprio jornalista respondeu a minha questão nas primeiras páginas: "quero, portanto, encontrá-lo, porque não está claro se se trata de um louco, de um excêntrico, de um fantasma, de um homem invisível, de um monge ou de alguém alérgico ao sol". Desse modo, percebemos que Fisher queria ver com seus próprios olhos o músico que mudou sua vida - e não é só isso: ao chegar no Brasil e procurar em todos os lugares João Gilberto, além de refazer os passos do músico, Marc quer que João cante para ele a música "Ho-Ba-La-Lá", presente no álbum "Chega de Saudade" (1959). "Quem ouvir o ho-ba-la-lá / terá feliz o coração", canta baixinho João. Assim como nós, Marc quer ter a felicidade.


A história entre João e Marc deu início no Japão: o jornalista estava viajando - "tentando esquecer um amor" como diz no livro -, quando foi à uma festa. Foi seu amigo que mostrou-lhe a canção, consequentemente o primeiro álbum do músico - foi paixão à primeira vista. Assim, Marc deu início ao seu plano: aprender português, refazer os passos de João até chegar ao mestre. Um bom plano para ter a felicidade sonhada.


Leia também:

As mutações de MEL

Impressões: Carnage

Rodrigo Eugênio: o cancioneiro sentimental


Ao lado de sua fiel escudeira - retratada no livro como Watson -, Raquel Balassiano, Fish caminha pelas ruas do Rio em busca do músico que mudou sua vida. Enquanto conhece a cidade, Fisher percebe que sua missão é impossível, pois João não quer ser encontrado - mesmo os amigos não tem mais notícias do músico. Para tentar entender o motivo do desaparecimento de João, o jornalismo passa a entrevistar nomes importantes da MPB, como Roberto Menescal, João Donato, Marcos Valle e Joyce; além de conversar com Miúcha, ex-mulher de João, e com a jornalista Claudia Faissol, com quem Gilberto tem uma filha.


"Há trinta anos vive escondido em seu apartamento, levando uma vida oposta à das pessoas: levanta-se quando os outros vão dormir e vai se deitar quando os outros estão acordando, como um fantasma"

Enquanto ouve histórias e teorias, o jornalista chega à conclusão que o músico só pode ser uma imortal criatura da noite. No entanto, não fica contente com as respostas que recebe e decide ir à Diamantina, em Minas Gerais, cidade onde o biografado viveu por uma temporada durante a década de 50, na casa da irmã. Recolhendo depoimentos de todo mundo que conviveu com o músico baiano, Fish retrata as viagens e pequenas descobertas que fez sobre o músico que deveria ter cantado "Ho-ba-la-lá" para ele.


"- Por que a gente não conseguiu apanhar ele, Watson? Tentamos de tudo!
- Porque anseio é coisa que ninguém consegue apanhar, Sherlock. E João é isto: anseio"

O livro de Marc Fischer inspirou Georges Gachot a procurar o músico. Marc se suicidou em 2011 e não teve tempo para ver com seus olhos o impacto de sua obra pelo mundo. Fazendo os mesmos passos que o jornalista fez no passado, Georges - também picado por João Gilberto -, tinha o objetivo de conhecer o músico e fazer com que ele cantasse a canção preferida de Fischer. Fiel ao livro, emocionante do início ao fim.


(Foto: Reprodução)


É difícil imaginar que um músico que revolucionou a bossa nova tenha escolhido se esconder; não dar continuidade ao legado que criou - se bem que Torquato Neto dizia que quando o artista não tem mais o que entregar, acaba-se a vida. João Gilberto sempre foi complexo, para o setor musical e para nós, seres humanos, porém, nunca precisamos procurá-lo para confirmar sua existência: ele sempre esteve presente pelas ruas cariocas, cantando baixinho suas canções, levando a felicidade que sempre procuramos.


4 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo