• Michele Costa

Desalinhando Bruce Springsteen: o dono de Nova Jersey

Foi aos quinze anos que Bruce Frederick Joseph Springsteen comprou sua primeira guitarra, após assistir uma apresentação de Elvis Presley na TV. Em seguida, começou a tocar em bandas de rock com seus amigos de escola. Desde então, nunca parou. Aos 71 anos (recém completados), Bruce continua com seu espírito de jovem, reafirmando o apelido que recebeu: é o boss dos palcos.


O garoto de Nova Jersey, criado no seio da igreja católica e protegido por sua avó, se encontrou na música, fugindo da realidade que vivia. Aos 20 anos, tocava guitarra nas ruas de Asbury Park, ficando conhecido em sua cidade. Em sua autobiografia “Born To Run” (LeYa, 2016), Bruce deixa de lado a humildade para descrever seu talento. No capítulo dez, “Showman”, ele escreveu: “O meu talento para shows começou cedo. Incitado pelo sangue dos Zerelli [família materna] que corria em minhas veias, era um artista de primeira desde que nasci.” Ele não está errado.

“Pensem nisso dessa forma: em 1964, milhões de jovens viram os Stones e os Beatles e pensaram: “Aquilo parece divertido”. Alguns deles foram às ruas e compraram instrumentos. Alguns deles aprenderam a tocar um pouco. Alguns deles ficaram bons o suficiente para talvez se juntarem a uma banda local. Alguns talvez tenham chegado a gravar uma demo. Alguns talvez tenham tido a sorte de obter um contrato discográfico. Uns poucos deles podem ter vendido alguns álbuns e feito alguns shows. Uns poucos deles talvez tenham alcançado um pequeno sucesso, uma curta carreira na música, e conseguido obter um modesto ganha pão. Muitos poucos deles talvez tenham conseguido ganhar a vida como músicos, e pouquíssimos podem ter alcançado um sucesso contínuo que lhes tenha trazido fama, fortuna e um imenso reconhecimento - e, nessa noite, um deles acabou entre o Mick Jagger e o George Harrison, um Stone e um Beatle. Não tive ilusões acerca das probabilidades de que, em 1964, esse único pudesse ser o garoto de 15 anos de Freehold, com a cara cheia de espinha e uma guitarra Kent usada.”

Em 1973, o garoto tímido lança seu primeiro álbum, o “Greetings From Asbury Park, NJ”. Vendendo 25 mil cópias, o álbum passou despercebido pelo público, mas foi elogiado pela crítica. Inclusive, comparam Bruce à Bob Dylan.


Entretanto, foi só em 1975 que Bruce recebeu a atenção que sempre mereceu ao lançar “Born To Run”. Ao lado de Clarence Clemons, o Big Man, o cantor fala sobre a vida, romances e momentos. Porém, o ponto alto fica por conta da parceria com a E Street Band, entregando arranjos impecáveis. Com diversas inspirações, que vão do blues ao jazz, esse álbum caiu no gosto do público e até hoje é celebrado - tornando um dos mais importantes álbuns de rock. É engraçado pensar que Bruce não queria lançar essa obra-prima, pois acreditava que não era bom o suficiente.


A parceria e amizade entre Springsteen e Clemons só cresceu. Em sua biografia, o autor relata o porquê de querer o saxofonista ao seu lado: “Durante anos, por todos os lados, andei à procura de um verdadeiro saxofonista de rock. Não queria que um cara do jazz que se juntasse a nós por curiosidade, mas sim alguém que sentisse no sangue a nossa música e o nosso estilo.” Sorte a nossa!


Suas ideologias em suas músicas

Em uma entrevista à revista Variety, Bruce comentou sua relação e objetivo com a música: “A minha prioridade foi sempre a música e a vida das pessoas, não a questão ideológica. Nem sequer me sinto habilitado a doutrinar quem quer que seja… Eu sempre optei por não esconder os meus pontos de vista, até em função do conhecimento que fui ganhando do país, de todos os que vou contatando e que têm sempre uma história para me contar”.


Born in the USA” (1984) é um bom exemplo. A música surgiu com o objetivo de criticar o american way of life, porém muitas pessoas acreditavam que era um símbolo patriótico - até mesmo o ex-presidente Reagan. “The River“ (1980), “Wrecking Ball” (2012) e “High Hopes” (2014) também entram na lista. Política e justiça encabeçam a ideologia do cantor.


Em 2004, Bruce ficou encarregado de dar voz ao “Vote For Change”. O boss reuniu 20 bandas, que passaram por 28 cidades americanas, para mostrar a importância de votar contra a reeleição de George W Bush. Infelizmente, Bush ganhou.


Em mais de quarenta anos de carreira, Bruce nunca escreveu uma música falsa, ou seja, todas as suas canções são inspiradas em histórias reais, desde o proletariado de firma de Nova Jersey até o genocídio negro. O cantor também já passou por tudo: policiais recusaram fazer a proteção do show, após ele criticar e cantar a música “American Skin (41 Shots)”, que aborda o caso de Amadou Diallo que foi morto pela polícia com 41 tiros; fãs invadindo o palco para dançar e abraçá-lo; coração quebrado e a depressão. Dez anos atrás, Bruce foi diagnosticado com a doença. “Fiquei bem, mas voltou após um ano. É algo que jamais te abandona, independente de quem você seja”, disse em uma entrevista.


A tristeza voltou quando Clarence morreu por conta de complicações decorrentes ao derrame cerebral em 2011. Em uma entrevista para a Rolling Stone americana, Bruce disse que ficou sentado em uma cadeira, em seu estúdio caseiro, chorando por horas. Em sua biografia, ele descreve como foi o adeus ao Big Man.


O coração quebrado em Tunnel Of Love

Tunnel Of Love” (1986) é um dos discos de Bruce que foi renegado, pois não falava dos trabalhadores de fábricas ou os diversos problemas econômicos que o país estava passando. No entanto, esse álbum aborda um lado de Springsteen que os fãs não conhecia: o seu casamento estava por um fio.


Casado com a atriz e modelo Julianne Phillips, há dois anos, o casal não estava mais no mesmo ciclo. Bruce abordou isso em seu livro: “Julianne era jovem, estava no início da carreira, ao passo que, com 35 anos, eu me sentia realizado, razoavelmente amadurecido e controlado, mas por dentro continuava emocionalmente acanhado e secretamente indisponível.”


Ainda no livro, Bruce assume sua culpa por ter deixado que o curto casamento acabasse de um jeito tão ridículo (já que não encontrei uma palavra que descreva melhor para situação). Inseguro, o cantor acreditava que Julianne tinha casado com ele por interesse e que usasse seu nome para se promover - sem contar os pontos que não eram compatíveis. Talvez, nunca tenham parado para conversar, para se conhecerem melhor. Além disso, Bruce estava apaixonado por Patti Scialfa [hoje sua esposa].


Tunnel Of Love” aborda o luto do coração quebrado. Com guitarra, bateria eletrônica e sintetizadores, as músicas são pessoais de um homem que está perdido - impossível para serem tocadas com E Street Band. A primeira música do álbum, “Ain’t Got You”, diz sobre a dor e o que esperar das outras questões: “Well I gott all the riches honey / any man every knew / but the only thing I ain’t got, honey / I ain’t got you”. A penúltima música, “When You’re Alone” relata o fim e como o cantor estava se sentido: “Times were through love was not enough / So you said sorry Johnny / I’m gone, gone, gone / You said my act was funny / But we both knew was missing honey”.


Quando foi lançado, o álbum alcançou número 1 nos EUA. Pouco tempo depois, Julianne pediu o divórcio.


“Tunnel Of Love” é uma boa indicação para ouvir e reouvir após um pé na bunda. No entanto, o álbum é muito mais do que isso: conhecemos um lado de Springsteen que nunca víamos, mostrando que ele é igual a todo mundo - tem coração.


Bruce continua com o espírito de jovem

A última vez que esteve no Brasil, em 2013, seu show em São Paulo durou 3h15. Aliás, foi nesse show que cantou em português (!) “Sociedade Alternativa”, de Raul Seixas. Assim que as luzes se apagaram, a plateia gritava.


Quando está no palco, Bruce se doa por inteiro. Ele vai além do 100%. Muito mais! Nos últimos anos, a banda não segue uma playlist: Bruce faz um círculo com o dedo sobre a cabeça, o que significa que é o horário para seguir com os pedidos dos fãs. Ele olha para a plateia, em busca de cartazes com as solicitações. Seu show conta com tudo, transportando o ouvinte para outro mundo, onde o requebrado e a guitarra telecaster de Springsteen são protagonistas.


Sua idade não significa nada. Ele corre, pula, se joga na plateia e chama fãs, de qualquer idade, para cantar com ele. Um artista de verdade que quer conhecer, estar ao lado de seu público. Quando esteve em Helsinki, na Finlândia, seu show durou 4h06, batendo o recorde de Bruce Springsteen & E Street Band.


No final, Bruce é tudo o que precisamos: um chefe que sinta e diga o que queremos.

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