• Michele Costa

As boas-vindas de Sofiya

Três países e três idiomas em uma pessoa. Os sentimentos do mundo dentro de Sofiya ressoam nas canções (e poemas) que canta. Com os instrumentos ao fundo, a cantora e compositora se inspira na realidade para escrever suas músicas, mas não deixa de lado sua personalidade. Realidade e ficção se misturam.


Filha de pais músicos, em 2018, a artista lançou seu primeiro EP, "Eu, Lua". Acompanhada do violão, Sofiya transformou suas músicas em folk, dando as boas-vindas aos ouvintes. Dois anos depois, lançou "Daydreaming", apresentando duas canções poéticas e sua nova versão: ao escrever, Sofiya cria imagens que surgem em nossas mentes, trazendo a nostalgia de um amor que acabou no verão ou um passeio na infância [“Will this wound heal faster if I leave?”]. No ano passado, ao lado de Pedro Silveira, compartilhou com o público "Vindas", composto por cinco canções que ganham potência com guitarra, bateria e colagens sonoras. Novamente, as paisagens se formam.


Quando pergunto sobre o motivo de continuar fazendo música, ela me responde: "Faço música muito mais por mim do que para os outros". E completa: "Inclusive, as pessoas me perguntam que tipo de música eu faço e eu respondo "eu não sei". Eu tô curtindo muito essa parada que o Pedro tá fazendo ultimamente, meio "sem nexo" [colagens, guitarras, sem um gênero musical específico] e eu percebi que adoro!". Agora, escrevendo esse texto, me pergunto se ao escrever, ela se alivia da náusea da vida. Independente da resposta, Sofiya continua dando as boas-vindas ao ouvinte e espera que, ao ser ouvida, entremos em sua energia e dancemos com ela, afinal, as músicas curam as cicatrizes.


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Quando foi o momento que você percebeu que queria fazer música?

É curioso, porque os meus pais são músicos e foi assim que eles se conheceram. Meu pai toca violino e minha mãe é cantora lírica, então, eu fui sempre muito exposta a música. [Quando pequena] fiz aula de piano, cantei no coro de crianças da Sala São Paulo. Quando eu tinha uns 9 ou 10 anos, eu comecei a escutar Metallica e falei “vou ser roqueira” - pedi uma guitarra, ganhei e foi assim que começou. Aos 14 anos, escrevi a minha primeira música, era uma coisa meio high school music, sabe? Porque era o que eu tinha de referência de música naquele tempo. Com os anos passando, eu nunca parei. Sempre gostei de ler e escrever, acabou virando uma brincadeira minha mesmo de colocar uma melodia nos poemas que eu escrevia, por exemplo. Nunca foi algo que eu desejei, inclusive, por incrível que pareça, meus pais sempre incentivaram tudo que decidi fazer, mas nunca incentivaram ao ponto de eu me sentir obrigada a fazer música. Foi uma coisa que aconteceu meio que por acaso. Gosto muito de tocar, de escrever, é uma válvula de escape; como eu gosto muito de música, acabou… Juntou bem as coisas.


Quando você percebeu que gostaria de gravar essas músicas?

Fiquei com medo, na verdade, e sem pretensão nenhuma. Eu sei que é uma área muito difícil, eu fiz meio que numa vibe “o que eu fizer, será”, sabe? Eu tenho família em todos os cantos, é uma família muito espalhada, eu pensei [que a música] poderia ser uma alegria para os dias das minhas avós, sabe? Elas ligarem o Spotify ou o Youtube e escutarem; se elas estiverem com saudade de mim… Como eu não tinha um objetivo em mente, tava numa mistura entre nervosismo e calma.


A música te dá liberdade para brincar e misturar linguagens e gêneros musicais?

Sim, total. Eu percebi e percebo isso hoje em dia que foco muito na letra. Quando escuto uma música pela primeira vez, a primeira coisa que eu pego é para ver se tem o texto, na minha opinião, o texto faz tão parte da música quanto a melodia. Então, foi um ótimo meio para se expressar esse turbilhão de coisas que eu sinto.


Você tem brincado muito entre suas músicas, existem diferenças entre as suas primeiras e últimas músicas. Queria saber de você, o que mudou em você e em suas canções.

Desde 2017 tive um processo bem grande de descobrimento pessoal, uma descoberta pessoal, acho que o meu primeiro EP tem muito isso, sabe? Aí no segundo EP, que na verdade são só duas músicas, mas que significaram muito pra mim, foi o momento que eu me mudei para Alemanha. Eu ter me mudado, cedo, com 17 anos, tava indo para essa aventura, por mais que eu tenha tido a oportunidade de ir pra lá, eu ainda tava me sentindo sozinha em um país novo, choque de cultura por todos os lados, pessoas novas… Eu acabei de me descobrindo de novo em outras questões, como a liberdade, como um ser pensante e livre. Ao mesmo tempo que eu me sentia livre e rodeada por pessoas, teve muitos momentos, obviamente, que eu me senti sozinha. Depois dessas coisas novas, eu consegui sentir saudade pela primeira vez de casa, pensava “tô muito sozinha”... Então, esses processos mexeram comigo para fazer, por exemplo, “Daydreaming”, que na minha opinião é a música mais bonita e mais significativa que eu já fiz até agora. Depois disso, vem um novo eu, eu gosto de pensar em mim no que eu era até 2016, comecinho de 2017, e o que era eu depois disso, o que era eu depois na minha vida na Alemanha. O que eu vivi lá foi o impulso para fazer as novas músicas [disponíveis em “Vindas”].



Em "Pequeno Léxico de Palavras Incompreendidas", primeira canção de "Vindas", você fala sobre o tempo, que ele é circular. Essa denominação de tempo segue a mesma nos dias de hoje?

Ele não foi mais o mesmo, acho que esses três anos dentro da Alemanha, ressignifiquei o tempo várias vezes, por exemplo, durante a pandemia, eu tinha a sensação de que o tempo não passava… Agora, ele tá de volta linear. Sinto que na medida do tempo que foi passando, tive menos coisas para ficar entrando nessa espiral…

E hoje em dia, quem é Sofia? Ela pode ser vista nas próximas canções?

Sim, definitivamente. Cheguei aqui em São Paulo, cortei o meu cabelo, nunca tive o cabelo tão curto… Não só das minhas emoções, como tô me sentindo solta, mas a minha voz… Se eu pegar a minha voz de cinco anos atrás, não é a minha voz de agora, então, tô me sentindo mais segura para cantar e gritar, tô me sentindo mais confortável na minha voz. Eu espero conseguir escrever mais esse semestre, desde o começo do ano, eu tive pouquíssimo tempo, acabei não produzindo mais do que, na minha opinião, poderia ser publicado. Nessas pequenas coisas que escrevi, eu sinto sim que tô mais livre pra gritar, não pra gritar literalmente, mas para gritar quem eu sou. Espero que as pessoas consigam pegar cada composição minha e perceber como evolui.


As músicas em português do EP soam como poemas falados, diferente das outras canções. Existe um motivo?

Da gente ter colocado isso ou ser poemas falados?

Tudo.

Eu vou começar pelo fim: isso de misturar os idiomas começou com um desafio meu, que coloquei pra mim mesma, pra escrever música em alemão, porque achei que seria o ápice de aprendizado da língua se eu fosse capaz de escrever uma música. Essa música, que foi a última que eu escrevi, "Dich Vergessen Will Ich Nicht", foi uma música que precisou ser em alemão porque era a língua que mais combinava com o estilo. Agora, isso de falar e colocar uma melodia, eu só me inspirei em algumas ideias que eu tinha visto naquela época. Essas músicas que a gente colocou no EP não dava para virar uma música, eram coisas que tinham que ser lidas porque, na minha opinião, foram dois textos que eu tinha que expressar os meus sentimentos muito melhores se eu pudesse ler, sabe? Eu conseguiria teatralizar muito melhor os meus sentimentos.

Tem alguma diferença entre cantar e falar?

Sim, sim. É como eu falei, quando eu falo, eu posso mostrar mais o que tô sentindo, inclusive, fiz vários testes e o som fica diferente se você lê alguma coisa sorrindo [sorri enquanto fala] ou se você lê alguma coisa falando com os olhos fechados… Enfim, eu queria mostrar isso.


“Vindas” tem uma narrativa diferente, tem colagens e guitarras, diferente dos outros EPs. Como foi trabalhar com o Pedro, que tem umas ideias mirabolantes?

Foi muito legal [risos], é realmente o que você falou, ele tem umas ideias mirabolantes dele e eu tenho 100% de confiança no trabalho dele e sem falar que ele toca guitarra e violão muito melhor do que eu, ele tem as técnicas muito mais avançadas… Achei genial a forma que ele interpretou os meus poemas. Foi uma honra mesmo ter ele tocando as guitarras e fazendo os efeitos especiais. Acho que ele se divertiu bastante, porque no meio desse processo, ele aprendeu várias coisas durante a gravação.

Você não tem medo de experimentação?

Não, não tenho. Inclusive, tô gostando bastante dessa vibe nova.


Me chama a atenção a narrativa em seus EPs. Essa narrativa está também nas melodias?

As músicas em si são uma pequena história, mas a primeira vez que eu fiz isso, contar uma história, foi com o Pedro. A gente desenvolveu juntos essa ideia de cada música se conectar com a outra, de ter mesmo uma subida e uma descida, um amor que começa para um amor que termina e o encontro com a paz quando termina - por isso que a gente chamou de "Vindas".


Na próxima quinta-feira, 6 de outubro, Sofiya se apresenta no Cardeal Pub & Adega, em Pinheiros, ao lado da banda Lentes. Os ingressos adiantados custam R$ 10, enquanto, na porta, R$ 15. Sobre o show, ela avisa o que podemos esperar: "Vai ser uma coisa muito maluca, não esperem linearidade, vai ter ups e downs, vai ter círculos, vai ter montanhas, vai ter depressões, vai ter água, fogo, terra e ar, vai ser muito legal! É sobre tocar os corações das pessoas, fazer com que elas sintam as vibrações dos amplificadores… A única coisa que eu peço é: dancem! Acho que as músicas que a gente tá fazendo, essa história que a gente vai contar, da primeira até a última música, vai ser uma história mesmo".

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