• Michele Costa

Bonança de Raphael Thebas

Na literatura, Odisseu demorou dezessete anos para retornar para sua casa, enquanto Dante, de "A Divina Comédia", passou por uma longa travessia para chegar ao paraíso. Para retratar a passagem, Milton Nascimento e Fernando Brandt escreveram a canção "Travessia", que retrata sobre o sofrimento diante do amor e angústia deixada por alguém que foi embora. A travessia mostra as mudanças que os artistas passaram ao escrever suas obras. Raphael Thebas segue o mesmo ritmo e, depois de uma tempestade, encontra a tranquilidade em seu primeiro álbum solo.


Mergulhado em influências da MPB dos anos 70, diferente do som da Kanduras, banda que faz parte, "Bonança" exalta a beleza dos momentos do cotidiano que variam entre o sossego e a aflição, como é a vida. Ao lado do seu violão, Thebas dá voz aos sentimentos que carrega dentro de si, trazendo a suavidade após dois anos conturbados. "Às vezes, a gente tem que passar por um momento, tomar umas pancadas para aprender com o erro, conseguir o conhecimento através da experiência prática", explica. Agora, ao lado de amigos músicos, o cantor está pronto para viver, pois se reencontrou.


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O primeiro registro solo tomou forma em 2020 e 2021, ou seja, durante a pandemia. O isolamento social contribuiu para o processo de criação?

O processo começou em 2020 sem eu saber, eu não tinha ideia que eu ia fazer um disco. Na verdade, no começo da pandemia, eu tinha certeza que ia durar uns três meses… A gente tinha marcado um show com a Kanduras no antigo Centro Cultural Rio Verde pra lançar nosso primeiro disco e aí veio a pandemia e a gente não pode lançar. Falei para eles [a banda]: "fiquem tranquilos que lá pra agosto [cinco meses depois do início da quarentena], no máximo, chutando alto, a gente tá de volta e a gente faz o show de lançamento lá", acabou que nunca aconteceu porque a pandemia foi terminar, nem terminou, mas as coisas foram voltar ao normal ou quase ao normal só agora e aí, durante a pandemia, em 2020, com a impossibilidade de trabalhar direito com música e trabalhando loucamente com jornalismo, a rotina era a mesma - acho que a rotina foi a mesma para todo mundo, pra quem só ficou em casa e pra quem só ia ao trabalho e não podia fazer nada. Nesse processo, eu comecei a escrever, fui compondo algumas coisas, mas sem nenhuma pretensão de lançar um disco, gravar um disco solo… Até que no ano passado, depois de muito tempo, o Gabriel Martini, meu amigo, baterista do Guilherme Arantes e um produtor muito massa, tava no telefone com ele e ele já conhece meu trabalho, algumas músicas e tal, ele me deu a ideia de ir pra casa dele para começar a trabalhar minhas músicas e eu achei uma boa ideia, porque esteticamente são muito diferentes do estilo da Kanduras. Na Kanduras, a gente junta todo mundo, não sou só eu ali trabalhando diretamente na produção musical, as músicas são minhas mas o arranjo é de todo mundo junto. Nesse caso, as músicas estavam mais no violão, achei que seria uma boa registrar esse momento, aí foi assim que rolou.


A questão de se lançar sozinho, rolou aquele medo de se expor demais?

Sim e não, mas acho que dá pra dizer que sim, porque fazer sozinho é muito mais… Eu não fiz sozinho, chamei um monte de amigo pra gravar, mas pensar sozinho ou quase sozinho é muito mais difícil. Com a banda, a gente se junta, toma uma cerveja em casa ou na casa do outro, aí sempre tem algum selo, algum produtor, é muito mais fácil, contato com plataforma digital, distribuidora de música, ainda que seja independente é muito mais fácil do que [fazer] sozinho - sozinho eu tive que pensar nos arranjos, junto com o Gabriel, tive que pensar no que eu queria fazer, como comunicar, o que eu iria fazer depois de gravar, como que eu iria fazer tudo. Enfim, é muito mais difícil. Cheguei à conclusão que eu não devia pensar em nada, se eu pensasse eu não ia fazer… Aí pensei "vou fazer do meu jeito, já que é desse jeito e eu não sou milionário para impulsionar meu conteúdo todo dia, vou fazer do meu jeito e foda-se" e aí eu fiz do meu jeito [risos] que foi gravando instrumento por instrumento, indo para casa do Gabriel; a gente ficava lá pensando, gravava um violão, gravava uma bateria, aí eu falava "apaga tudo e vamo fazer tudo de novo", foi uma coisa bem lenta e dane-se, foi o que achei que tinha que ser feito.

Agora que o álbum tá no mundo, como você se sente?

Tô aliviado, né, de verdade, porque eu sou péssimo com rede social, péssimo com a ideia de fazer a arte do disco, pensar nessa coisa que não é só música, com a pós parte musical. Meu pensamento era gravar as músicas e mixar, o som tava lindo, mesmo que tivesse demorado, tava gostando. Aí depois eu tive que parar e pensar "bem e agora, o que eu vou fazer com isso? Qual vai ser o nome do disco? Quem eu vou chamar pra fazer a capa?". Foi a Yasmin [Kalaf que fez a capa] que é muito massa… Aí eu fui ficando mais estressado, porque eu via que muitas coisas fugiam das minhas mãos, aí foi mais estressante, mas lancei e falei "tudo bem, vou lançar do jeito que tá". É um disco mais difícil do que as coisas da Kandura que é um rock mais alternativo, com muita influência pop, de indie rock; meu disco não, eu fiz com um monte de camada de violão, violino, com saxofone… Tinha a consciência de que não é todo mundo que vai gostar, entendeu? Então pensei "dane-se, vou fazer o que tenho que fazer, vou lançar e o que tiver que ser, será".

Justamente essas camadas, têm muito violão, são canções leves. Você traz uma suavidade muito grande, que desperta diversos sentimentos. Essa suavidade foi consequência do momento que a gente passou?

Foi. Não vou dizer que foi a minha intenção, fui perceber depois de já ter feito as músicas, levei isso para as ideias dos arranjos. É um disco sobre o processo de travessias pela as coisas que eu passei na minha vida pessoal, pela pandemia, por tudo. É um disco de travessia, não chama travessia porque já tem vários discos com esse título - um lindo do Milton! -, então não cometeria essa atrocidade artística e comercial. Tentei achar um nome que fizesse sentido para isso, para um processo de travessia, que sempre tem sossego, tranquilidade e sempre tem aflição, medo e insegurança. Tentei achar uma dicotomia entre as duas coisas… As músicas são bem assim, as músicas são leves, tem violão de nylon e de aço, tem essas camadas e ao mesmo tempo tem uma certa aflição em algumas coisas; letras que falam de alguma incerteza…A primeira faixa que é a "A Noite Vai Cair" é uma música que não tem refrão, são dois minutos de música, a letra não se repete em nenhum momento, começa leve com um violão e aí entra um arranjo de violino, de coisas que vai aumentando, aumentando, aumentando para dar essa sensação de travessia, de aflição e puft! acaba a música; e ao mesmo tempo, o arranjo é mais leve… Em algumas músicas, eu tentei com esse ar, com esse conceito.

Inclusive, em "A Noite Vai Cair", você canta: "Seu desespero vai cair". Pergunto: o seu desespero já caiu?

Meu desespero? Caiu… A gente se desespera toda hora, né. Mas eu sou bem tranquilo, então, meu desespero caiu, ele cai fácil.



"Bonança" é um disco solo, mas que tem muita gente ao seu lado, participando. Como foi o processo de gravação?

Foi uma sorte, porque é um pessoal muito legal e muito bom. Desde o princípio, minha ideia não era fazer um disco solo que fosse só eu tocando, voz e violão ou que fosse… Que não tivesse só eu e o violão. Minha ideia era chamar as pessoas que eu conhecia, meus amigos ou conhecidos e foi isso que eu consegui fazer com muita sorte. Tem a participação do Gabriel, ele tocou um milhão de instrumentos, teve também o André Bedurê, que é um baixista incrível, que tocava junto com o Zeca Baleiro e Luiz Melodia, ele é o baixista da Kanduras, teve o Mário [Amaral], que é amigo do Gabriel que gravou baixo em alguma das músicas, o Marcelo [Gasperin] que é o ex-baterista da Kanduras e que também gravou baixo… Chamei um monte de gente, a Thais [de Souza] fez violinos lindos, enfim, muita gente tocou no disco com a intenção de trazer todo mundo para junto do trabalho… As escolhas de como ia fazer isso foi surgindo ao longo do processo de gravação: eu tava na casa do Gabriel, só eu e ele, a gente tocava música uma ou duas vezes, pensava como tinha que ser e a gente falava "putz, essa música combina com fulano, vamo chamar o fulano", a gente chamava a pessoa e ela ia lá e tocava, foi mais ou menos assim.


O título do álbum me chama atenção, "Bonança" significa sossego. Você encontrou esse sossego depois da tempestade?

Encontrei sim, em diversos setores da vida. Encontrei, em outros não, em outros tá lá no começo do processo de "Bonança". O próprio lançamento é o desfecho desse momento mais aflitivo, agora tô mais tranquilo. Acho que o nome "Bonança" retrata justamente isso.. A tentativa de achar o nome foi muito difícil, encontrei o bonança justamente para retratar essa disparidade de sentimento e ao mesmo tempo o sossego.


A gente falou anteriormente sobre a suavidade nas suas canções, não só na melodia, mas também nas letras. O que você pretende proporcionar para o ouvinte?

[breve pausa] Ixi, que pergunta difícil. Na verdade, eu nunca penso no que eu pretendo fazer com o que a outra pessoa vai achar, normalmente, muita gente faz assim, já toca pensando na consequência de um mercado. Eu só queria registrar as músicas como eu achava que devia fazer, sem forçar a mão, sem forçar a barra. As escolhas estéticas do disco são todas nessa direção. Não pensei muito onde queria chegar ou quem eu queria encontrar, só queria me encontrar.

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