• Michele Costa

A Lokomotiva de Guardiano

Segundo a história das ferrovias, o primeiro trilho de trem surgiu - ainda não com esse nome e nem desenvoltura - na Grécia Antiga, por volta de 600 A.C. No século XVI, a ideia ganhou um upgrade: na Alemanha surgia um transporte formado com trilhos de madeira e puxado por animais. Os trilhos elétricos surgiram, definitivamente, no início da década de 1880, desenvolvidos por engenheiros alemães. Formado por aço e eletricidade, os trilhos, colocados em lugares estratégicos, levam a diversos lugares - dependendo da locomotiva e do local, é possível viajar ao lado de uma linda paisagem; com sorte, até mergulhar em sentimentos que estavam adormecidos. Guardiano sabe bem disso: construindo os seus próprios trilhos há anos, ele canta, recita e dá partida em sua própria lokomotiva.


"Lokomotiva" (2021), preste atenção no nome e na letra que foi trocada, de Guardiano não é propriamente um trem, mesmo que dê a ideia no início do disco, é possível imaginar diversos formatos - para o cantor, a lokomotiva é uma montanha-russa, que oscila entre os trilhos, correndo, parando, criando expectativas, dando medo e até ansiedade quando para, por um breve momento. Esse "meio de transporte" é como a vida: cheia de alterações, mas é importante segui-la, dar continuidade, e no meio do caminho, com sorte, é possível conhecer uma nova paisagem - uma nova pessoa.


O trajeto de Guardiano se inicia com uma viola caipira, despertando memórias afetivas nos outros passageiros. A primeira estação leva o nome de “Cancioneiro” e avisa o ouvinte que é preciso se sentar confortavelmente e em segurança, pois o trajeto será longo e emocionante. "Lokomotiva" conta com dez estações, terminando com “Viva!”, com ponto de exclamação, relembrando os viajantes que é possível viver com dores e que a viagem é uma loucura necessária.


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Uma coisa que me chamou atenção, tanto nas suas músicas, quanto no release, é que "Lokomotiva" é uma tentativa de mostrar quem você é. Começo perguntando: quem é você?

Quem sou eu? Poxa… Eu acho que eu sou uma junção de momentos, percepções, experiências, personalidades que diariamente tentam se adequar a situações sociais do mundo - e como quase todo artista, uma alma em constante mudança em polvorosa.

Como em um trem e seus trilhos?

Trem, trilhos… Ou talvez, posso dizer, que um trem que às vezes sai um pouco dos trilhos e vai se ajustando, porque uma coisa que eu queria trazer - penso muito na "Lokomotiva" é que… Eu gostaria muito que a ideia aparecesse tanto um trem, no trilho, certinho; penso mais em uma montanha-russa e [ruído no áudio] no trilho.

Faz todo sentido, por conta das oscilações…

Justamente. Essa montanha-russa passa para outros universos, outros cenários, outras sensações… Enfim, penso mais sobre isso, quase como uma "Stairway to Heaven" [do Led Zeppelin]. Penso nos trilhos subindo, descendo…

Dando voltas… Aproveitando esse pequeno diálogo, pergunto: esses trilhos foram alterados do tempo em que você começou até agora?

Foram, passaram por muitos caminhos. Passaram por caminhos mais turbulentos, quando eu comecei… Já passaram pelos trilhos do rock’n’roll, já passaram pelos trilhos da MPB, hoje estão passando pelos trilhos do folk. Eu também sou artista plástico, então já passaram por muitas tintas… Esses trilhos sempre tiveram por aí, me acompanhando.


Durante o isolamento social, você consegue ver as mudanças em você, na sua comunicação, nos seus trilhos?

Consigo, consigo. Consigo ver que nesse momento de isolamento, talvez eu tenha consigo me aceitar muito mais, nesse estado artístico da coisa; muito porque o meu trabalho, no dia a dia, eu tenho um trabalho fora da música, que engloba, trabalhar em escritório e como hoje, eu ainda trabalho com esse mesmo público, mas eu estou no virtualmente, então, eu posso dizer que eu tenho muito mais espaço para o meu eu artístico falar, desde o momento que acordo até a hora que eu vou dormir - coisa que talvez, a minha rotina anterior tivesse que dedicá-la em momentos mais específicos, entende? Penso nisso: acho que é mais um encontro muito maior com a arte em mim.


Queria que você contasse um pouquinho sobre a criação, como surgiu, "Lokomotiva".

"Lokomotiva" é um trabalho que, acho que como construir uma ferrovia, como construir os trilhos, eles não surgem do nada… Eu sou músico desde os meus 12 anos, já tive bandas de vários estilos e em 2018 eu tomei a atitude de começar um trabalho solo, autoral, e eu lembro que esse trabalho, muito voltado ao folk de início, que era onde estava me localizando e ainda me localizo bastante, fiz "Aurora" [sua primeira composição solo]. "Aurora" foi um aceitamento - onde estou e como que é. Eu comecei com "Aurora" e começou a dar tudo certo, as pessoas gostavam e eu me sentia muito bem fazendo, acima de tudo, esse é o mais importante. Em 2019, lancei "Aurora", em 2020, veio "Presente", que é outra música que está em "Lokomotiva" e essas duas músicas tem muitas coisas parecidas, porém, em 2020, eu sempre compus muito, só que em 2020, eu compus o dobro - assim, se "Lokomotiva" tem dez músicas, eu tenho guardado trinta ou quarenta [músicas]. Eu percebia que as músicas, conforme eu montava, elas estavam indo para caminhos diferentes das coisas que eu gosto de fazer e na hora de colocar tudo isso em um lugar, eu falei: "poxa, isso dá um álbum". Não é um single, não é um EP, é um álbum, porque eu queria contar esse começo, meio e fim das histórias. Queria construir uma narrativa tal qual que você entrasse em um trem, sentar no seu lugarzinho e sentir a viagem acontecendo, em diversos momentos.


Como foi o processo de dar um start?

Olha [breve pausa], aconteceram algumas situações, mas quando eu resolvi dar o start da coisa, eu tava de férias do trabalho e eu tenho a felicidade de trabalhar com a pessoa física, com a arte, mas [voltada] para a publicidade, e é um pouco cansativo. Eu tava, anteriormente, na casa em que eu morava e o meu computador tinha quebrado e eu fui concertá-lo em um técnico que ficava na minha rua. Eu cheguei na casa desse técnico e ele muito solícito, falou: "eu trabalhei na IBM durante anos, aí chegou um tempo que a tecnologia começou a mudar e eu vi também que não era mais aquilo, passei por isso e aquilo e agora eu trabalho de casa". Ele era bege! Tudo era bege [no ambiente], tudo era um biombo… Eu lembro que eu fui pra casa muito confuso, porque… Eu tinha acabado uma banda e pensei: "eu não posso acabar assim". Eu lembro de começar, não só a compor, mas começar um processo realmente de planejamento para fazer as músicas, ou seja, um processo de muita coragem, um pouco solitário, mas eu também tive a sorte de ter pessoas na minha vida que me acompanham que, indiretamente, apoiam esse projeto, como participantes da minha vida - por isso que "Lokomotiva" é tão intimista, porque "Lokomotiva" é um processo solitário e acompanhado ao mesmo tempo, como eu acho que é a vida. A vida é assim: solitária e ao mesmo tempo, a gente vai conhecendo gente.

Como você disse, uma montanha-russa.

Justamente!



Guardiano não tem vergonha de se mostrar. Sentado em uma cadeira, com instrumentos por todos os lados, aprofunda-se na narrativa que criou em "Lokomotiva". Com inspirações que vão de Os Mutantes até Kings Of Leon, o artista segue em sua montanha-russa. Sabe que não é fácil e que as diversas voltas podem dar enjoo, mas se sente preparado para seguir os seus trilhos. "É um disco que fala dessa sabedoria em contemplar uma calmaria, mas que também há de se aproveitar os momentos mais enérgicos. Nossa dualidade, essa coisa de ninguém ser 100% tudo ao mesmo tempo. "Lokomotiva" é um pouco sobre isso", diz.


"Lokomotiva" com k me fez lembrar o "Loki" do Arnaldo Baptista e aí tem uma brincadeira, talvez não pensada…

Foi pensado!

Tem alguma história de louco, de loucura ou eu tô viajando nos trilhos?

É uma história que eu resolvi acessá-la com o álbum "Lokomotiva" e o próprio conflito da persona que habita em mim na música. Quando eu era mais novo, comecei a conhecer o meu lado artístico, eu estava em um colégio público, em Guarulhos. Eu lembro que quando eu fui para esse colégio, por alguma razão, eu fui chamado de deficiente mental. Isso foi gratuito, eu nunca entendi a razão. A galera me chamava de louco e eu não lembro se era porque eu era quieto, se eu era agitado… Lembro que nessa época eu era muito aplicado nos meus desenhos. Talvez eu tenha projetado [esse trauma] na música - esse bullying que eu sofri, acarretou graves traumas durante a minha adolescência. Então, eu acreditava que eu tinha algum problema. Eu acreditei que de fato eu fosse imitado, acreditei de fato que eu fosse louco… O que me fez localizar na música foi que era o contrário: talvez eu fazia coisas que aquelas pessoas não entendiam. A forma que eu tinha de me manifestar [naquele tempo], poderia ser um tipo de loucura - e o que você chama de loucura é tudo aquilo que você não entende. Mais tarde, eu fui expulso daquele colégio, porque me deixou muito transtornado, boa parte da minha vida, dos meus 15 até os meus vinte e poucos anos, foi com conflito na arte. Então, eu acredito que quando eu fiz esse álbum, ele seja um entendimento de quem eu sou ou de como a arte, sempre, me acompanhou, porque foi a arte que me fez superar vários problemas que eu tive em relação a sociedade em geral e é isso que representa "Lokomotiva".


No início de "Lokomotiva", você começa a recitar/cantar/conversar: "Na melodia, encontrei uma maneira de enganar o tempo, criar memória de minha história". Duas perguntas: você está tentando recontar a sua história, fazer com que esses traumas tenham um impacto, talvez diferente? Você também está tentando ajudar o outro?

Sobre recontar a minha história, não acredito que seja isso. Acho que a história tá aí e a história é o que é. Acho que tenho o dom de mudar a forma como eu a vejo. Eu acredito que a música, a arte em geral, seja uma tentativa de todo artista, de maneira até um pouco egoísta, de se eternizar. Então, eu faço, sobretudo, a dualidade de "Lokomotiva" e da arte. Eu faço arte pra mim do futuro. Eu quero ter acesso às minhas memórias e aos meus estados de hoje - e acredito que uma das melhores formas de fazer isso é com a música. Então, é como se fossem cartas para o futuro, que talvez um dia eu escute e fale: "poxa vida, eu escrevi isso em um passado, olha que louco!". Ao mesmo tempo que também é para ajudar o outro. Raul Seixas tinha uma música chamada "Carpinteiro do Universo" e fala: "o meu egoísmo, é tão egoísta / que o auge do meu egoísmo é querer ajudar", então, eu acredito que é uma maneira egoísta de ajudar o outro para gerar inspiração e a coragem para tomar as atitudes das coisas que você quer fazer, que você gosta de fazer. É uma maneira muito triste, você seguir uma regra que alguém determinou para você.


Após vinte e cinco minutos e quarenta e dois segundos, o passeio nos trilhos se encerra. "Viva!", a última estação, faz mais sentido agora. O viajante se sente próximo do artista e sai renovado - Guardiano consegue ajudar o outro com letras bem escritas e melodias encantadoras, seu objetivo foi alcançado com sucesso. Após passar por tantas oscilações nos trilhos dele, respire fundo - e lembre-se: viva!


"Lokomotiva" está disponível em todas as plataformas de streaming de músicas.


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