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  • Foto do escritorMichele Costa

A granada existencial da DINGO

Uma granada de mão leva seis segundos para explodir, causando danos irreparáveis. O impacto da granada da DINGO também é poderosa e incurável: em três minutos e vinte e seis segundos, o indivíduo é arremessado para outra dimensão após ouvir "A Vida É Uma Granada" - canção que dá título ao terceiro álbum da banda.


Trazendo questões existenciais desde 2015, quando estrearam com "Maravilhas da Vida Moderna", DINGO apresenta ao público um novo álbum maduro (e um nome simplificado) que traz as mudanças repentinas da vida, assim como o lado bom e ruim da vida. Se durante o isolamento social nos perguntamos como seria o mundo e suas consequências, a banda traz a resposta em uma granada: não é possível saber como serão as coisas após o apocalipse, afinal, a vida está em constante mudança (ainda bem).


No decorrer dos 41 minutos do álbum, Diogo Brochmann, Fabricio Gambogi, Felipe Kautz e Rodrigo Fischmann, passeiam por diversos gêneros musicais para dançarem, celebrarem, rirem, chorarem e se amarem - sentimentos também presente dentro de nós. Logo, é impossível não se juntar a eles, pois também queremos extravasar e ter liberdade.


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"A Vida É Uma Granada" marca um novo período na banda. Houve troca de nome, um álbum amadurecido que relembra que existe vida após a escuridão e todas as questões existenciais. Como vocês estão se sentindo?

Olha, eu acho que é uma sensação… Ter lançado e os shows de lançamento… É uma sensação muito boa de realmente colocar no mundo a coisa, é um projeto que veio sendo levado com o tempo pra além do que a gente gostaria até porque ele foi gravado no final de 2020, em Porto Alegre. Ele foi sendo mixado com o tempo e a gente já gostaria de ter lançado antes, mas o que foi proporcionado foi fazer tudo isso agora, depois de todo esse tempo. Então, uma coisa que nos acompanha é uma ideia, um projeto que nos acompanhou por todo esse período muito tenebroso, de medo, de incertezas… Então, ele vem com esse significado de uma coisa muito boa - uma coisa que foi começada em um ponto e tá sendo lançada agora, quase como um ciclo inteiro que, enfim, a gente encerra e abre outro, né. Então, esse constante movimento de terminar uma coisa e ainda ser o início de tudo. É uma sensação esquisita e é sempre esquisita porque ela traz esse fim e esse começo ao mesmo tempo.


Vocês gravaram o álbum durante um tempo que não existem nem palavras para descrever como foi, mas vocês lançaram o álbum em um tempo diferente, onde a gente consegue ter esperança e começa a voltar a sonhar. Como foi gravar naquele tempo e compartilhar essas novas notícias com o público em outro momento?

Olha, a gente se reuniu em Porto Alegre, no Estúdio Pedra Redonda, que foi o que deu pra fazer na época por questões pessoais de cada um, um jeito logístico… A gente fez como se fosse uma bolha, onde a gente se isolou e garantiu a segurança de todo mundo, testados e ainda não tinha vacina… Então, estar nessa condição, onde a gente saiu de uma incerteza, se haveria música, banda, projetos - a gente não sabia nada; e sair daquilo pra estar gravando um disco novo foi uma sensação maravilhosa e até pelo fato da gente tá isolado e com a certeza de que tava tudo bem ali, entre nós, naquela circunstância, foi um alívio. Então, ele [o álbum] tem muito desse respiro. Claro, a gente começa a simbolizar tudo depois, quando vai escutando, vai lembrando… Essa sensação de alívio, esse abraço, tá presente também no próprio disco em vários simbolismos sonoros e até visuais da capa, ele tem algo de aconchegante de alguma forma… Como sempre, é uma marca da DINGO, uma melancolia, porque a gente gosta muito, a gente trata muito da melancolia, mas nunca jogando ela num lugar como algo ruim, mas algo que faz parte de todo mundo e que a gente gosta de abraçar ela, mas é uma melancolia que vem acompanhada de cores quentes e algo terno, então, é um abraço também. Eu acho que isso também pode ser uma das descrições do que tava se vivendo naquele momento, né? Existia uma melancolia no ar "meu deus do céu, o que é isso?", ninguém viu se isso acabou ou vai acabar, não sabia mais nada, então, é melancólico. O mundo girando muito em torno disso e ao mesmo tempo "não, aqui tá se aquecendo e aquecendo nossos corações, nutrindo algo, gerando". O processo de criação é uma indicação de vida, é a criação de algo, é muito necessário e faz muito bem pra todo mundo que tá envolvido, então, acho que foi mais ou menos essa sensação: tentando retomar um período que até dá vontade de esquecer.


Depois que passa essa melancolia, qual o outro sentimento que domina?

Eu acho que é um sentimento muito bom e um desapego também - é muita coisa. Acho que ao mesmo tempo a gente sai… A gente entra nesse processo de disco novo com uma leveza de ter passado por um processo de talvez nem existir mais como banda pra tá lançando um disco. Então, isso reconstruiu muita ponte dentro da gente, entre nós também e com o público. É engraçado que o público, os fãs, estão ali e muitas vezes não tem ideia do que tá acontecendo, o que a gente tá sentindo... Agente comunica, transparece… São pessoas que colocam nossas músicas dentro de suas vidas e que transformam e que estão sempre presentes e isso é muito massa! Então, sempre que lançar vai ser esse sentimento bom de tá lidando com pessoas que querem muito bem e amam aquilo mesmo e fazem questão de demonstrar. Depois de tudo isso, lançar um disco e ter essa recepção e até a questão de depois de tanto tempo lançar um álbum novo, com outro nome, eu acho e tô achando uma recepção muito legal, muito calorosa, muito querida e muito amável. Elas estão sendo muito legais, demonstrando como, talvez, sempre fizeram isso, mas agora tá bem nítido como nos querem bem, como banda, como pessoas. Acho que é muito difícil não se levar por esse sentimento de carinho quando se lança um álbum.


As questões existenciais estão sempre muito presentes na DINGO. Queria saber se é natural escrever sobre esse tema.

Acho que é uma coisa que a gente acaba tendo… [pausa] É natural pra gente sim, porque a questão existencial toca todos, né? Quem reflete sobre sua existência e quem faz as perguntas e tem curiosidade e gosta de ser curioso… Acho que a gente é curioso, é uma brincadeira nossa, a gente poderia ter vários podcasts falando sobre diversos assuntos que não domina completamente, mas que a gente tem diversas teorias sobre. A gente gosta de pensar sobre a vida, a gente se olha bastante no espelho e reflete. Acho que esse processo individual, de entendimento de análise - terapêutica ou comum - é muito constante entre nós e isso acaba tornando um elo de ligação entre cada um de nós como projeto, como banda, como artista, entre nós, na DINGO com o mundo; essa conexão se dá nessa reflexão sobre a existência porque é o que a gente pode propor e se sente à vontade em termos de reflexões dentro do nosso papel na sociedade. A gente quer universalizar dessa forma, assim como se fala sobre o amor, se fala sobre coisas que tocam e que não tem uma barreira necessariamente é onde a gente se sente natural para falar. O que não é existencial? É muita coisa.

E pós isolamento social e quatro anos de desgoverno, acho que a gente se pergunta quem somos, porque estamos aqui e qual a nossa finalidade.

Perfeito, porque essa questão existencial pode significar, inclusive, não é algo que a gente aborda, mas tem tanto artista que fala… O que eu chamo de existencial é a simples afirmação pelo direito de existir no mundo - isso também é uma forma de existencialismo, muito mais concreta que a filosofia pode propor. De fato, eu existo, eu sou o que sou e tenho esse direito de ser e é isso aí, ninguém vai dizer que eu não posso.


Ainda falando sobre questões existenciais, acho que todo mundo passa por aquele momento em que é preciso estar antenado a tudo, produzir muito, enfim, não conseguimos pegar leve com a gente mesmo. Fiquei me perguntando sobre a música "Lindo Não". Seria um pedido de desculpas pra vocês também, vocês se perdoarem pelas demandas do dia a dia e, além, é claro, de lembrar ao público que a gente precisa estabelecer um não e cuidar da gente?

Essa composição é uma das músicas que o Felipe trouxe para o disco e a gente se identificou na hora e isso é uma coisa que sempre vai acontecer, acho que nunca vai existir uma música que entra no disco se todos não estão se identificando com aquilo, porque depois todos estão carregando aquela mensagem adiante pra sempre. Pra mim, "Lindo Não" não bate especificamente em algo como peso nas costas… É muito mais a sensação de liberdade de poder assumir não. Agora, uma interpretação válida se tem a haver com esse peso. Pra mim, não foi o que pesou quando escutei a música, porque naturalmente identifiquei muito no olhar o Felipe e o que ele tava querendo dizer naquilo. Eu me lembro, inclusive, na pré-produção, quando veio a demo, ela era um pouco mais arrastada, um pouco mais melancólica, lembro que propus, mandei uma versão no violão, mais parecida como ela ficou. Pra mim, essa música, dizer não, é um processo de libertação e a liberdade é um grito, ela não é pra dentro, ela é pra fora, ela tem que ser pra fora, então, ela foi jogada como uma música que externaliza um lindo não.



Em "A Vida É Uma Granada", me chamou atenção uma estrofe: "ainda não vimos nada". O que vocês gostariam de ver?

[longa pausa] Eu quero ver o tio Sam tocar pandeiro [risos]. "A Vida É Uma Granada" é uma composição minha e o "ainda não vimos nada" vem muito pra corroborar com essa ideia de que tem muita coisa pra acontecer e que a gente não tem controle. A granada, uma vez que saiu o pino, ela pode estourar. A gente não sabe quando vai ser isso. O sentido da granada é uma explosão de vida também, ela não é uma granada que explode e mata em todos os sentidos. É a explosão da vida, as explosões que podem acontecer. Então, é nesse sentido da imprevisibilidade, do que a gente ainda não viu e a gente não tem como saber. Agora, o que eu gostaria de ver? Pô, gostaria de ver tanta coisa, é uma lista gigantesca, mas se eu focar em mim mesmo, eu gostaria de ver muita gente curtindo nosso show, conhecendo a banda e essas músicas chegando nas pessoas e que isso cause uma reflexão, que as pessoas se identifiquem e que tragam em suas vidas e tenham momentos mais profundos e que não lidem com tudo como uma grande superficialidade. Uma das milhões de coisas da minha lista e que soa tão bobo, eu poderia pedir o fim da fome no mundo, mas foi isso que eu pedi nesse momento, porque essas coisas já estão tão explícitas, não precisa nem citar aqui, né [risos]. Se essa pergunta tivesse sido feita no meio de 2020, eu teria dito: "eu gostaria de ver esse disco sendo lançado e a gente podendo fazer o nosso trabalho, a música seguindo e a arte sobrevivendo e o mundo dando voltas, conseguindo ir adiante". O mundo vai adiante com todos os seus problemas e incoerências, a gente não tem como controlar isso.

Será que as respostas de "ainda não vimos nada" não estão na segunda música, em “

"Parabólicas"? [Quero viver pra ver o céu dessa cidade / Iluminado por estrelas de verdade / O espetáculo que toda noite esconde / Atrás dos prédios onde dorme o horizonte]

"Parabólicas" é o retrato de um futuro, pode ser falado como pós apocalíptico, acho que tem aquelas visões megalópole, prédios, o que pode ser São Paulo também, não precisa ir tão longe. A gente não vê mais o horizonte de tão ocupado que tá, os brilhos das estrelas, na verdade, é das luzes… Então, ela começa a descrever esse espaço e nesse contexto ela testa o poder do amor, o amor acima de tudo. E é uma das poucas músicas do repertório que traz essa bandeira do amor como centro da coisa. Só o amor resistirá quando tudo vier de cabeça pra baixo, quando tudo for naufragado, inundado. E a letra vai falando disso, né, eu acho que é uma boa resposta pra "ainda não vimos nada" e se for o amor, é uma maravilhosa resposta, quanto mais a gente conseguir ter isso como algo central em nossa vida, mais ser amado, antes disso, amar a si mesmo para poder amar o próximo, acho que a gente consegue consertar alguma coisa.


Pra terminar: se a vida é uma granada, existe algum modo para que ela não exploda? Ou, se explodir, não machuque quem a está segurando?

Ah, ela vai explodir. Quanto antes a gente se der conta disso, melhor a gente consegue recolher os pedaços.

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