Lucas Valério revisita o passado para inaugurar um novo capítulo
- Michele Costa

- há 2 dias
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Depois de integrar a banda Vice-Herói e participar do lançamento de dois EPs, Lucas Valério inicia um novo capítulo em sua trajetória artística. O cantor e compositor apresenta o seu primeiro álbum O Tempo Eu Quero Amar, trabalho que transforma lembranças, inquietações e descobertas em canções que refletem sobre o tempo, o medo e o amadurecimento.

As músicas que compõem o álbum foram escritas em diferentes períodos da vida do artista e permaneceram guardadas até encontrarem um elo (e, claro, tempo) capaz de uni-las. O resultado é um repertório que percorre memórias, relações familiares e afetivas, deslocamentos entre o interior e a cidade e as mudanças que acompanham o crescimento. Em vez de buscar conclusões, Lucas faz das canções um espaço para observar as transformações da vida e compreender aquilo que nem sempre pode ser explicado.
Essa travessia também ganha forma na sonoridade. Entre o indie, o folk e a MPB, o músico constrói paisagens sonoras que transitam entre o acústico e o eletrônico, alternando momentos de delicadeza e contemplação com passagens mais densas. Violões, pianos e cordas convivem com synths, timbres digitais e uma estética lo-fi, criando um ambiente em que cada arranjo parece acompanhar o movimento emocional das letras.
Gravado de forma independente no quarto onde Lucas Valério vive, o disco foi produzido inteiramente por ele, do início ao fim. Mais do que uma escolha prática, o método revela uma busca por autonomia artística e por uma linguagem que refletisse sua identidade sem abrir mão da honestidade e da espontaneidade.
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Você descreve O Tempo Eu Quero Amar como um álbum sobre tempo, medo e amadurecimento. Quando você percebeu que as composições, escritas em épocas diferentes, conversavam entre si e que formavam um disco?
Acho que mais que os elementos sonoros em comum, elas se assemelham no jeito que foram compostas. Elas nasceram todas em meio a mudanças muito importantes na minha vida, e, pra ser sincero, a única coisa que não muda em mim nos últimos anos são essas mudanças constantes. Nada tem sido muito estável, e conseguir ser sincero com meus sentimentos e fazer isso em forma de música é a forma na qual eu me conecto comigo mesmo e vejo que ainda estou aqui. Cada uma das canções desse álbum traduz algum pedaço de mim, que eu sou ou que fui naquele momento. Sem ordem, sem evolução nítida, sem ascensão e vitória, ou queda e derrota. São apenas partes de mim. Pra resumir, não vejo as músicas desse álbum como peças de um quebra-cabeça, que se encaixam perfeitamente e formam uma imagem maior. As vejo como uma caixa de papelão cheia de objetos aleatórios que levamos na mudança, sabe? Não fazemos ideia de onde vamos guardar aquelas tralhas, mas sabemos que não queremos jogar nada fora.
O álbum reúne músicas guardadas por anos. Você chegou a revisitar algumas delas e perceber que já não era mais a mesma pessoa que a escreveu?
Todas. Não me sinto o mesmo que escreveu nenhuma delas, nem o que produziu, nem o que lançou, e amanhã nem mesmo o que está te respondendo isso. Mas não nego elas. Me orgulho de ter sido assim, ali. Não tenho problema nenhum em resgatar composições antigas. Me fascino pelas maluquices que eu fui capaz de criar. E me emociono com as coisas lindas que eu consegui exprimir.
Produzir o disco sozinho mudou sua relação com a música?
Muito. Principalmente ao entender que definitivamente não existe certo e errado na música. Não fazer a mínima ideia de como chegar num resultado e mesmo assim chegar e me sentir satisfeito me fez sentir incrível. E depois, inseguro. E muitas vezes indeciso. E de saco cheio de ouvir o mesmo trecho centenas de vezes. E por último orgulhoso de ter conseguido lançar ao mundo uma obra que não é nem de longe perfeita, mas que é definitivamente honesta.
"Com o fim da banda [Vice-Herói], foi inevitável decidir lançá-las. Lançar músicas é necessário pra quem compõe, e engavetar músicas me embrulha o estômago. Eu simplesmente não queria mais elas só pra mim."
Existe uma sensação constante de espaço e silêncio nos arranjos. Você pensou a produção como uma extensão das emoções presentes nas letras?
Acho que o sensível é tanto concreto como as letras quanto abstrato como a música. São coisas indissociáveis. Tudo que eu queria dizer eu disse em palavras e em sons. Às vezes um falou mais que o outro, mas nunca um foi colocado ali só pra preencher um vazio. Tudo diz alguma coisa, nem que seja só um retrato de quem eu fui naquele momento.
O interior e a cidade grande aparecem constantemente no álbum. De que maneira essa vivência aparece não apenas nas letras, mas também nos timbres e nos arranjos?
Sempre vivi na fronteira entre esses dois lugares. Sou criação do interior, de família pobre e amorosa, absorvendo as referências mais diversas possíveis, desde música católica, música caipira, rock nacional, músicas de “velho” e canções lindas de grandes cantores brasileiros. Ao mesmo tempo, por influência da internet e dos amigos esquisitos que fui fazendo, adentrei cada vez mais nas profundezas do rock alternativo estadunidense, da melancolia inglesa, da psicodelia latina, do folk ao punk e ao rap. Nunca me apeguei muito a gêneros musicais. O que eu curto, eu curto. E tudo isso aparece no meu som, de uma forma ou de outra.
O título sugere uma tentativa de fazer as pazes com o tempo. Você conseguiu?
Não totalmente. Aprendi a amar e respeitar meu passado, desde os erros até as lembranças nostálgicas. Aprendi a amar também o fato de que ele passou. Não fico mais remoendo ou querendo voltar atrás. O presente eu tenho mais dificuldade. É a minha maior meta, conseguir conviver com o presente e saber que algumas coisas não pertencem ao agora. Reconhecer que meus passos estão na direção correta também é um desafio constante. O futuro também é meio nebuloso, mas me cativa mais do que assusta. No geral eu acho o tempo fascinante. Essa dimensão esquisita que corre sem parar e que é impossível pegar nas mãos. É o tempo que foge da gente ou somos nós que fugimos do tempo?

Aliás, existe uma história por trás da foto escolhida para o disco?
A história da foto eu não lembro. Não lembro nem o ano que ela foi tirada. Chuto 2007. O que eu gosto dela é que ela não tem nada de especial, e eu tenho mais um monte de fotos iguais a ela tiradas lá na casa dos meus avós, na roça. Eu não lembro de nada, mas sei que estava feliz, pois sou e sempre fui feliz naquele lugar.
O medo aparece diversas vezes na narrativa de O Tempo Eu Quero Amar, mas ele nunca parece paralisar as canções. Escrever e cantar foi uma maneira de enfrentar esse sentimento?
Sim, e ás vezes é a única coisa que podemos fazer. Exprimir. Expor. O medo não é nada se pararmos pra pensar. Ele não muda nada de fato. O medo estar ou não estar presente nas coisas não muda em nada o rumo delas. É claro, se a gente deixar de fazer por conta do medo, aí sim as coisas mudam, porque daí elas nem acontecem. Mas fazer com medo e fazer sem medo dá na mesma. Então se o medo nos rouba a calma, pra que guardá-lo? Deixar ele nos consumir? É melhor fazer com medo mesmo. Isso pode até parecer papo de coach, mas eu to tentando dizer o contrário deles. O medo não é combustível, não é alerta, não é sinal. Ele simplesmente não é nada. Eu não tenho mais medo de mostrar que eu tenho medo.
Em "Café Amargo" você diz que "cada pessoa descobre dentro de si a razão". Ao se descobrir, você não pertence mais a si mesmo, como repete na canção?
Pra ser honesto, eu escrevi essa canção em meio a uma das crises de identidade que se tem aos 18 anos. Não faço a mínima ideia do motivo que me fez escrever essa música na época, mas acho que ela descreve uma tentativa frustrada de me encontrar dentro de mim mesmo. Eu não me sentia pertencente ao mundo, e ao olhar pra dentro, também me sentia deslocado de mim mesmo. Mas como concluo no terceiro verso, eu nunca fui embora dali. Eu só estava cego. Nessa fase da vida mudamos tanto que não nos reconhecemos mais, e ficamos em dúvida se somos mesmo aquela criança sonhadora ou aquele adulto medroso. No final somos os dois ao mesmo tempo. Talvez eu só não soubesse disso ainda quando repeti aos montes que “não pertenço a mim”.
Quis abrir o álbum com ela pois acho que ela situa bem o ponto de partida do universo que eu tento criar nessa obra. Ela expõe ao máximo as dúvidas e conclusões equivocadas que eu tinha quando mais jovem. Ela é imatura na letra e ousada no som. O álbum amadurece a partir dela e por conta dela.
Já que os nossos primeiros passos não são dados por nós, como pontua em "Filho", como tem sido sua caminhada e por onde deseja caminhar?
Minha caminhada tem sido constante. Irregular às vezes, com paradas e recálculo de rota, mas constante. E ter lançado esse álbum foi um dos passos mais importantes. Ele foi feito só por mim, mas eu não sou feito só de mim. Ou seja, esse álbum também tem um pouco de cada um que de alguma forma marcou a minha vida. E espero que ele cruze com diversas outras vidas e as toque de alguma maneira. De resto, vou seguir meu caminho, compondo as minhas canções, lançando tudo que eu quiser, conhecendo pessoas e sendo conhecido por elas. Tocando pessoas e sendo tocado por elas. Quero que meu álbum caminhe por conta própria também. Como eu disse lá no começo, eu simplesmente não quero mais essas músicas só pra mim. Agora elas são do mundo e eu sou um pouco mais de mim.




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