• Michele Costa

CA CAU: o artista multimídia cheio de poesia

São poucos artistas que conseguem separar o pessoal de sua obra. Ana Cristina César dizia que não era possível, pois os dois se completam. CA CAU também acha: “a arte é a expressão da vida, conexões e desconexões dos sentidos, sentimentos, memórias, olhares, ideais. Sou a obra que crio, se quiser me conhecer no sentido mais amplo e profundo, toque e mergulhe em minhas criações”, ele responde minha pergunta.


É impossível definir o artista em apenas um “setor” artístico. Presente no mercado artístico há anos, CA CAU é cantor, compositor, escritor e pintor. Não para de criar um momento. Recentemente, o artista lançou o e-book “Olho D’Água”, uma coletânea de poesias criadas nos últimos cinco anos e que está associada a escultura que fez - que recebe o mesmo nome - e que está instalada no Parque Portugal em Campinas. A obra foi produzida em aço inox, é cinética e sonora, fazendo alusão a questões hídricas e a conscientização sobre a água, fonte da vida.


Sua escultura “Olho D’Água” faz alusão a questões hídricas e a conscientização sobre a fonte da vida, a água. Como foi criar essa obra?

O símbolo olho d’água nasceu de estudos e tentativas, de um traçado leve. Foi muito intenso, me fechei quase um mês no ateliê, pois precisava transgredir e inovar em minhas próprias criações, um despertar, um mergulho na essência e na importância do tema, na nossa existência que se faz e se compõe pela água. Pesquisei culturas antigas, totens, materiais, sonoridades, possibilidades de movimento, interatividade e quais ações educativas e sociais poderia associar a obra.


Você acaba de lançar o e-book “Olho D’Água”. Como foi o processo?

Uma coletânea de poesias criadas nos últimos cinco anos. O processo de criação foi com diálogos muito ricos e iluminados em parceria com o editor Dan Ribeiro da editora Kalango que na época estava em Berlim. "Olho D’Água" nasce associada a escultura sonora cinética de nove metros de altura em aço inox instalada na entrada do parque taquaral em Campinas e ao décimo trabalho musical em que a música “O Grito” será a primeira a ser lançada.


Como você vê o setor literário no Brasil? Houve melhoras? Quais são as dificuldades para publicar um livro?

Está muito complicado e são poucas as livrarias que ainda conseguem se manter pelo Brasil, muitas já fecharam e o poder aquisitivo da população caiu muito e com a taxação de livros e a desvalorização da educação acabam penalizando e agravando muito a situação. Momentos de trevas e ignorância.


Alguns escritores dizem que escrever é doloroso. Você sente isso?

Toda minha criação é um parto, um misto de dor, prazer e alegria.



Em suas obras, é possível ver o uso de cores vibrantes (como é o caso do vermelho), borboletas, palavras pesadas, significativas e diversos símbolos. O que será que o autor quer dizer? CA CAU responde, mas deixa no ar, para que o leitor tente desvendar o mistério: “é subjetivo, intuitivo, sinapses, metáforas…” Uma coisa é certa: o artista carrega e entrega poesia em tudo que cria. Em seu ateliê Travessia, localizado na Avenida Paulista, as diversas telas, conversam com as esculturas, que conversam com as músicas… Há um ciclo de poesia que não tem fim (ainda bem!).


Desde 2010, o espaço tornou-se um local para encontros e diálogos de música, filosofia, harmonização de vinhos com a arte, atividades para crianças e muita cultura. Por conta da pandemia, o local está fechado para visitação, mas o artista utiliza suas redes sociais para continuar falando sobre arte.


Você é um artista multimídia. Quais são as suas inspirações para compor, escrever, pintar, criar?

Estou sempre em movimento com as antenas parabólicas ligadas. Estudo, pesquiso, leio, me atualizo, me movimento, crio como respiro e transpiro criação, pois a minha travessia é constante, em busca de… Na iminência de…

Um trecho de uma das minhas poesias diz: “sinta o que toque, perceba o toque, tente o toque, cresça, provoque…”. Me inspiro pela vida e tudo aquilo que sinto e tenho a necessidade de me expressar, sendo comum em um mesmo tema.


Como tem sido a sua quarentena? Continua escrevendo, criando?

Criando novas poesias, músicas, pinturas, inspiradas e influenciadas por este momento que vivemos no mundo e mais especificamente neste Brasil distópico.


O seu processo de criação sofreu alteração devido aos problemas que o país está passando?

Sim! Acabei me adaptando, agora estou atuando muito intensamente no universo online e nas mídias sociais, lançando site novo, realizando lives de música, filosofia, arte, entre outros, com uma programação semanal.


Como é ser artista no Brasil, ainda mais agora, quando a cultura é diariamente atacada?

Estamos vivendo um momento de grande retrocesso, um atraso para o país, um terror, uma guerra ideológica declarada aos artistas e a todo mercado cultural. É lamentável e criminoso este atual governo que nomeia para cargos pessoas desumanas e desqualificadas e que já destruiu e corrompeu os mecanismos de apoio e financiamento da cultura. Não há qualquer interesse no desenvolvimento da sociedade.


CA CAU fala sobre o que sentimos. “Sonhar / O mundo corre em voltas / Desejo de amar” é uma das estrofes de “Sonhar”, música que está no álbum “In Ver S.OS”, que sentimentos. Com a ajuda de seu violão, percebemos (ou compreendemos apenas agora) que o mundo não pára, ele continua dando voltas e nós, simples humanos, queremos amar - e ser amados. Afinal, é o amor que salva.


O artista conta com 9 CDs na bagagem. Cada álbum conta uma história, um momento. “Cada obra possui sua história, seus caminhos, seu momento”, explica. Muita coisa aconteceu desde o seu primeiro álbum, mas uma coisa continua: a vontade de se conectar com o próximo, de mostrar sua poesia. Em um momento, CA CAU escreve no e-mail "O destino é um fascínio". Ele está certo. Por mais que seja difícil existir, a arte nos ajuda.


Perguntei quais são os planos para o futuro. CA CAU respondeu que continuará trabalhando: “Logo após o lançamento do clipe e música “O Grito”, estarei pintando uma série de sete obras inspiradas no tema atual. Logo em seguida, estarei relançando, pela minha editora Travessia, os meus CDs pelas plataformas digitais que sairá um por mês. Estou entrando em estúdio no próximo mês para gravar releituras dos álbuns anteriores e o novo CD “Olho Água””.



Confira os diversos trabalhos de CA CAU em seu site: https://www.cacauartista.com/

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