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  • Foto do escritorMichele Costa

As lentes de âmbar de Christine Valença

Processo. É essa a melhor palavra para descrever Christine Valença e "Lentes de Âmbar", seu debut na música. Atriz, bailarina e compositora, Christine aborda os diferentes tipos de processos em suas músicas - de criação, do início de uma nova vida; passando pela perda, vivendo o luto para, mais tarde, renascer. No final, a vida é um processo.


O álbum surgiu durante momentos difíceis: o falecimento do pai, separação e pandemia. Um mar de incertezas que, através da música, a artista encontrou uma maneira de lidar com as dores e se reencontrar novamente. "Trabalhar com arte sempre foi algo importante pra mim, um canal de expressão que eu sentia que eu tinha alguma coisa para dizer, acrescentar e ao mesmo tempo me encantava, me fascinava", explica.


Com produção de Elísio Freitas e a participação do rapper Shock The Glock, "Lentes de Âmbar" expande os horizontes, elevando os sentimentos para oferecer novas maneiras de observar o mundo.


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Quando você percebeu que precisava colocar essa voz pro mundo? E quando deu o estalo para gravar o álbum?

Eu tenho falado nas entrevistas que realmente foi um marco muito forte pra mim. Eu já tinha um sonho de gravar um álbum de música autoral há muito tempo, mas teve um momento mais pontual que eu me vi "eu tenho que fazer isso urgente". Primeiro que a pandemia foi um gatilho de a gente se fechar, encarar essas urgências que a gente sempre carregou, mas que ali ficou um pouco mais aflorado. Teve uma situação importante da minha vida: a minha mãe tinha um trabalho muito contínuo há muitos anos em homenagem a João Gilberto, ela gravava muitas músicas da bossa nova. Aí aconteceu dela lançar o trabalho dela, um álbum em homenagem a João Gilberto, e ela finalmente conhecê-lo. Isso foi em 2018, final de 2018, início de 2019, um pouco antes da pandemia. A minha mãe começou a frequentar muito a casa dele, por incrível que pareça, porque ele sempre foi uma pessoa extremamente reclusa, não atendia ninguém. O João Gilberto parece que gostou muito do trabalho da minha mãe, minha mãe começou a frequentar a casa dele... Teve um momento, nessa relação dela com ele, que eu acabei falando com ele no telefone - isso foi pra mim muito importante. Até agora não caiu a ficha, sabe? Foi uma motivação importante. Eu senti que devia dar alguma continuidade àquilo, sabe? Acho que tem a ver com esse lugar da voz, escutar a voz dele soando no telefone foi muito forte pra mim. Foi nesse momento [que percebi] que precisava deixar algum recado.

E qual é o seu recado?

Uau [risos]. [breve pausa] Tem muita coisa, mas o que eu acho mais importante de dizer de tudo, que acho que o álbum traz, que tem um pouco no título, tem essa multiplicidade de significados no âmbar que tem essa coisa do passado, tem um recado guardado para o futuro, como se houvesse alguma coisa que tá ali dentro, antiga, essa resina natural... Acho que meu recado tem a ver com foco, com focar em algo íntimo, que às vezes é tão difícil a gente conseguir olhar pra dentro sem desmoronar. Tem a ver com essa espécie de força interior, onde a gente consegue focar e valorizar e também olhar simplesmente. Esse recado meditativo, artístico e visual ao mesmo tempo.


O álbum surgiu durante momentos difíceis. Como foi enfrentar esses momentos criando? E no final, após lançá-lo, você está curada?

[risos] É um processo, né? Eu sinto que quando comecei a feitura… Porque foi uma coisa muito artesanal. Muita coisa de detalhe, de timbre, coloca esse instrumento, tira esse instrumento - foi um trabalho muito detalhista. Sinto que tô bem diferente de quando eu comecei. As minhas angústias do início, que foram também nutridas com essa dificuldade de colocar pra fora algumas coisas e de falar sobre isso, e de ter pessoas que também compartilham com essas angústias, desses sentimentos que às vezes a gente não fala, né. Esses sentimentos mais densos, a gente não tem tanta oportunidade de conversar, não é numa mesa de bar que a gente fala sobre essas coisas. Às vezes, a gente guarda e aquilo vira outra coisa; pode virar uma doença, uma dificuldade de se relacionar… Então, acho importante pra mim. Nesse processo não sei se me curei, mas é um processo que sinto que tá movimentando. Acho importante isso.

Talvez não tenha uma cura, como você falou, no final das contas é um processo que alivia, né?

É. Muda, rolou alguma mudança.


As músicas foram gravadas entre maio de 2021 e outubro de 2022, dois períodos diferentes do Brasil. Como foi dar voz a essas duas épocas tão diferentes?

Sabe uma coisa engraçada? Primeiro que eu gravei as músicas que são mais de trabalho, que meu produtor considerou mais forte, como cartão de visitas do disco… As primeiras músicas foram gravadas em maio de 2021 e eu sinto que, quando eu gravei, elas tinham um significado pra mim…Não era tão claro, sabe? O que elas significavam pra mim. Elas foram ganhando corpo e mais densidade ao longo desse período. Então, achei muito engraçado que no final, quando a gente terminou o álbum e fomos escutar as músicas, fui rever o clipe, fui tentar entender o que elas voltariam a significar e se é que elas teriam importância… Sei lá, às vezes as músicas ficam datadas, então, a gente teve essa preocupação. Aí quando fui reouvir, elas ganharam um novo significado pra mim. Ganharam essa qualidade de respiro, de renovação, de vontade de algo novo que tava ali querendo surgir, mas que não surgia. É engraçado porque no início eu não via tanto nesse sentido. São músicas que trazem esses dois períodos - você pode ouvir tanto com esse olhar mais decadente, digamos assim [risos], do tipo "caramba, não tem mais saída, a gente tá num ciclo que não termina", quanto no sentido de renovação, de respiro, de novos horizontes. Acho que isso é uma qualidade muito interessante.



A primeira vez que ouvi o álbum, além do encanto, senti que já te conhecia, porque você traz letras que em algum determinado momento da vida, você se identifica. Te pergunto: não é difícil se expor?

Muito! [risos] Eu tô ainda engatinhando nesse lugar. Eu tenho recebido diversas mensagens de pessoas que eu não via há muito tempo, por exemplo, de épocas remotas da minha vida, que de repente "caramba, ouvi seu disco" [risos], mexe comigo. Pra mim é novo, mas ao mesmo tempo é isso, um processo, eu tô aprendendo a lidar melhor. Eu tive muito medo de me expor no início, mas como eu fiz teatro por muito tempo, me ajudou a me preparar um pouco.

Mas é diferente no teatro, né? Porque no teatro você tá atrás de um personagem, você consegue mentir.

É, você tem um afastamento do público, você tem o seu camarim, você termina a sessão e tá protegida. Pra mim é muito novo, principalmente por conta das redes sociais, porque nas redes sociais, as pessoas estão muito próximas de mim, apesar de ser digital, existe essa facilidade de comunicação


O álbum passa uma sonoridade de pertencer a outra época, porque possui diversos estilos musicais diferentes. Essa ideia foi pensada desde o início?

Sim, apesar de que a gente também, Elísio poderia explicar melhor essa questão da sonoridade - é muito legal o jeito que ele trabalha. A gente não queria que ficasse uma coisa datada, né, que não ficasse nostálgico. Acho que as letras também criam esse deslocamento que uma mulher não cantaria essas letras nos anos 50, então, a gente criou essa ambiguidade.

Também tive a impressão de que essa mistura também passa a trajetória da sua vida.

São coisas que escuto. Acho que tinha alguma coisa dentro de mim que eu precisava deixar registrado esse meu amor por música antiga também e que também passa pelo teatro. Acho que tem esse valor meio histórico, tanto da música… De entrar em contato com o passado para você poder olhar para o futuro. Acho que teve esse desejo de reverenciar esse gostinho do passado. Também tem a ver com o gosto musical do Elísio, então, a gente só se divertiu.


Em "Lizzie, c'est la vie", você canta: "subo neste palco pra te ver". O que o palco representa para você? E agora que você lançou o álbum e as pessoas estão te mandando mensagem, o significado do palco mudou?

Olha, complexo. Essa música, em específico, eu fiz pra filha da minha coreógrafa, que tava na barriga ainda, e a gente descobriu que ela tava grávida logo depois do clipe "Rematilha". Então, ficou muito forte essa imagem de alguém dentro da barriga, sendo gerado, em cima do palco já. O palco, pra mim, tem esse lugar pra se concentrar… Algo muito específico, uma sensação muito específica. Um trajeto da vida de alguém, que pode ser algo biográfico, você pode tá interpretando alguém que já existiu, mas você também pode tá interpretando uma personagem composto por você, pelo diretor e roteirista, de maneira cuidadosa… O palco, pra mim, nem sempre significou esse lugar. Durante algum tempo foi um lugar de terror, um lugar de "será que eu deveria tá aqui? Será que eu vou atrapalhar alguém?". O palco é um lugar que você tem que tá preparado para subir nele, tem que ter um cuidado, sabe? É um lugar de exposição, mas ao mesmo tempo, um lugar de introspecção muito forte pra você conseguir se concentrar e entregar o seu melhor. É muito importante pra mim, [porque] é uma ferramenta de trabalho. Você perguntou sobre o significado e acho que é isso: o palco não é mais um terror [risos], um lugar de desamparo, mas hoje em dia, eu já tenho - nem sei o que dizer - mais carinho por estar ali. Esse papel de conexão com o público é muito importante pra mim.

Quando você for subir no palco para dar voz a suas canções, você tá preparada?

Acho que tô e cada vez mais, é hora de voo, né? Quanto mais você tá no palco se relacionando com o público, cantando suas músicas… É muito legal esse lugar de cantar música autoral no palco, porque é diferente de você interpretar canções. Você encontrar as pessoas que tão cantando junto, acho isso muito, muito mágico. Tô preparada e quero ficar cada vez mais [risos].


É mais fácil escrever sobre você ou sobre o outro?

Composição é sempre mais sobre você, é sobre o seu olhar pelos outros. Ainda tô engatinhando no processo de composição e sinto que coloco mais das minhas vivências, mas gosto muito desse papel de observador, de encontros, das trocas e cada vez mais quero trabalhar essa retirada das próprias vivências. Acho que o trabalho que fiz em "Lentes de Âmbar" tem mais a ver com as minhas vivências e com a minha visão de mundo, a gente tentou registrar um pouco sobre a minha visão de mundo naquele período, que sempre tá mudando, mas acho muito interessante esse exercício da composição, do compositor, de se deslocar e ver as coisas por outros ângulos.


Como foi o processo de criação das músicas, principalmente durante o período de isolamento?

As primeiras músicas - "Maremoto Blues", "Rematilha", "Óptica" e "Para não Tocar (na Rádio)" - saíram rápido. Na verdade, o projeto era para ser um EP, aí a gente acabou estendendo, porque precisava de densidade. Elas saíram rápidas, mas foram momentos muito dramáticos pra mim. Foram músicas que eu me ancorei nelas, de certa forma. São músicas que se eu não tivesse feito alguma coisa estruturada, alguma coisa em termos de composição, eu teria desistido de tudo. Elas eram como se fossem as últimas palavras de uma vida que ficou ali, porque a gente meio que, na pandemia, teve essa ruptura muito forte. Essas músicas foram compostas muito dramático e que me ajudaram muito a ter um chão pra trabalhar durante o período que eu sabia que seria mais longo. Me deram uma espécie de sobrevida, sabe?


Agora que o álbum tá no ar, como você se sente?

Cara, super feliz! Porque, primeiro, é um ciclo que eu sinto que tá se abrindo, ao mesmo tempo que agora que tô entregando meu trabalho ao público, me sinto muito feliz de estar entregando esse trabalho e ao mesmo tempo com vontade de fazer outras coisas. Tô voltando a compor, sempre tive os meus fragmentos, mas tô querendo fazer outros trabalhos, gravar mais, deixar tudo mais acolhido. Sinto que não é um trabalho que fechou ali, quero continuar fazendo música e fazendo o meu melhor.


Para muitos, o âmbar possui poderes mágicos que previnem e/ou curam doenças. Não existem provas científicas, mas as "Lentes de Âmbar" de Christine ajuda o ouvinte, afinal, a arte continua salvando.

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