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  • Foto do escritorMichele Costa

Impressões: Um Antídoto Contra a Solidão

Em 1987, David Foster Wallace foi apresentado - e consequentemente reconhecido - no setor literário com "The Broom of the System" romance que serviu como trabalho de conclusão de curso. Com humor ácido, irônico e com uma mente sagaz, Wallace não gostava de chamar atenção, pois, desse modo, precisaria dar entrevistas - alias, é a partir desse ponto (falar com um desconhecido sobre seu trabalho) que "Um Antídoto Contra a Solidão" (Âiyné, 2021), um livro pequeno mas denso, apresenta as diversas facetas do escritor americano.


"Sou péssimo em entrevistas, e só aceito fazer se for muito coagido", explicou. É compreensível: no decorrer dos anos, David Foster Wallace respondeu diversas questões (algumas muito parecidas) sobre literatura, publicidade, cultura pop, filosofia, matemática e outros temas que podem surgir no meio de uma conversa (imagine falar constantemente sobre os mesmos assuntos, com diversas pessoas). Certa vez, ao receber um jornalista em sua casa, teve sua privacidade invadida e exposta. Portanto, é aceitável recusar entrevistas e/ou dizer algo além do que é permitido. No entanto, ao se sentir coagido a dar entrevistas, David mostra que é tão interessante quanto suas personagens e temas abordados em seus livros.


Organizado por Stephen J. Burn, professor de literatura moderna e contemporânea na Universidade do Michigan, "Um Antídoto Contra a Solidão" reúne entrevistas concedidas por David ao longo de sua vida. Traduzido por Sara Grünhagem e Caetano Galindo, suas respostas são provocativas, reflexivas e emocionantes, mostrando que a ironia era um recurso de defesa para sobreviver no mundo ("Escrever ficção apaga o tempo para mim. Eu sento e o relógio deixa de existir por umas horas. É provavelmente o mais perto da imortalidade que vou chegar").


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O título do livro foi retirado de uma das entrevistas que estão em "Um Antídoto Contra a Solidão". Ele dizia que o ser humano é muito sozinho e, ao ser ver, a literatura pode combater essa solidão, já que ao criar uma história, o indivíduo não se sente mais só e assim suporta a existência e os obstáculos diários.


Conhecido como gênio e nerd, a escrita de Wallace chamou atenção ainda na faculdade. Graduou-se em filosofia e em inglês com honra, seguindo os passos dos pais que também eram estudiosos e professores. Solidão, essa palavra tão forte e assustadora, também pode descrever o escritor que passou por uma depressão profunda, algumas crises e internações em clínicas psiquiátricas.


"Eu tinha um professor que gostava de dizer que a missão da boa ficção era confortar os perturbados e perturbar os confortáveis. Eu acho que boa parte do objetivo da ficção séria é dar à leitora, que como nós todos está como que isolada dentro do seu próprio crânio, é lhe dar acesso imaginário a outros eus. Como uma parte inelutável da vida humana é sofrimento, parte do que nós humanos vamos buscar na arte é uma experiência do sofrimento, uma experiência que é necessariamente vicária, que é mais uma generalização do sofrimento. Faz sentido? Nós todos sofremos sozinhos no mundo real; a verdadeira empatia é possível. Mas se uma obra de ficção pode nos dar a capacidade de identificação, via imaginação, com a dor de uma personagem, podemos então conceber mais facilmente a ideia de que outros se identifiquem com a nossa. Isso dá forças, é redentor; ficamos menos solitário por dentro."

No decorrer das 312 páginas, Wallace responde questões sobre o seu tempo na faculdade, a descoberta do David-escritor, os seus anos obscuros, a criação de "Graça Infinita" (Companhia das Letras, 2014) que o consagrou como escritor, os anos como jogador de tênis e os escritores que o inspiraram.


No capítulo "Sobre a Solidão: Ler e Traduzir Wallace Hoje", Sara e Caetano falam sobre o impacto do escritor na vida deles, assim como o processo e impacto de traduzir Wallace treze anos de sua morte. Em "Conversa com David Foster Wallace e Richard Powers", John O'Brien debate com os escritores sobre a literatura, as críticas e o processo de criação.


"Uma Entrevista Expandida com David Foster Wallace" é uma das entrevistas mais bonitas e intensas em "Um Antídoto Contra a Solidão". No texto, Larry McCaffery vai a fundo na mente e retira respostas intensas do escritor, como: "Os leitores se tornam Deus, no que se refere ao texto. Eu estou vendo os seus olhos embaçarem, então vou encerrar".


"Há na escrita certa mistura de sinceridade e manipulação, de tentar sempre calcular qual será o efeito de determinada coisa. É uma capacidade bem preciosa que realmente precisa ser desligada de vez em quando. Arrisco supor que os escritores provavelmente são parceiros engraçados, habilidosos, aceitáveis e em princípio atenciosos com outras pessoas. Mas acho que a experiência deles geralmente é bem solitária."

Mas é em "Os Anos Perdidos e os Últimos Dias de David Foster Wallace", escrito por David Lipsky em 2008 e publicado na revista Rolling Stone, que está o ápice da obra. Como diz o título, Lipsky apresenta o verdadeiro David e seus últimos dias, antes de se suicidar. O texto traz a luta do escritor com a depressão, sua mente inquieta e o medo nos últimos dias. A carga emocional fica mais pesada ao ler os depoimentos dos pais, da irmã, do agente literário e de amigos. Através da ironia, Wallace se escondia, pois era assim que sobrevivia.


"Existem alguns poucos livros que eu li e que me transformaram em outra pessoa, e acho que toda boa literatura de alguma maneira aborda o problema da, e age como um antídoto contra a solidão. Nós somos todos muito, mas muito solitários. E existe um caminho, ao menos na prosa de ficção, que pode permitir que você tenha intimidade com o mundo e com uma mente e com personagens de quem você não pode ser íntimo no mundo real. (...) Uma obra de ficção que seja verdadeira de fato permite que você tenha essa intimidade com um mundo que se parece com o nosso num número relevante de detalhes emocionais para que a forma diferente com que você sentiu as coisas para o mundo real. Acho que o que eu queria que as minhas coisas fizessem era deixar as pessoas menos sozinhas. Ou tocar de verdade as pessoas. (...) Não tem como você garantir que todo mundo vá gostar de você, mas, porra, se você tem algum talento, dá pra garantir que as pessoas não vão te ignorar."

Ao escrever, publicar e ensinar seus alunos, Wallace diminuiu a solidão de cada indivíduo. Em "Um Antídoto Contra a Solidão", as facetas do escritor se misturam com suas obras e, assim, conhecemos um pouco mais do gênio nerd que usava bandana que revolucionou a literatura americana. É impossível não se emocionar com a genialidade irônica, mas acho que esse sempre foi o objetivo de David Foster Wallace: ensinar, educar e causar as diversas emoções em seus leitores.

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