• Michele Costa

A paisagem sonora de João Castellani

Violão, guitarra, bateria, baixo, saxofone e piano são alguns instrumentos utilizados na sonoridade de João Castellani. Misturando o funk setentista com o jazz e a bossa nova, as músicas do jovem músico transportam os ouvintes para uma paisagem sonora psicodélica, onde a realidade se cruza com sonhos. Um jogo se inicia, imitando a literatura gótica de Edgar Allan Poe, inspiração de João, que é marcada pelo sombrio e fantástico. "Assim como na literatura em que o escritor manipula o sentimento do leitor, penso nos sons como as sensações que posso transmitir", diz.


João se lançou jovem na música: em 2020, apresentou "QUIPU", seu ep de estreia, que envolveu diversos músicos da cena maringaense para uma experimentação. Dois anos depois, lançou "Passagem", que contém a música "Via Estreita", parceria com Edvvardes, única música com letra. Os singles soam como uma distopia beat apaixonada: brincam sobre o tempo, refletem a existência, instiga a existência e deseja a liberdade.


"Dos Meus Sonhos", seu terceiro trabalho lançado este ano, traz os elementos dos anteriores projetos, porém, João vai mais longe e expande seus horizontes entre os gêneros musicais, brincando com o seu - e nosso - imaginário.


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O que te levou a trabalhar com música instrumental?

O caminho da composição instrumental foi o que me pareceu mais natural quando comecei a desenvolver o "QUIPU" em 2020. Além disso, aprecio a forma como sou levado a me expressar através dos instrumentos, sem as palavras. Acredito que existe uma infinidade de possibilidades harmônicas, melódicas e rítmicas que a música instrumental me permite explorar, mas não nego a possibilidade de trabalhar com a voz e a poesia unidas em trabalhos futuros, como foi o caso em "Via Estreita", afinal a voz é também um instrumento lindíssimo.


Tenho a impressão de que suas músicas refletem sobre a sua personalidade. Te pergunto: pra você, a música tem o poder de apresentar um indivíduo?

Com certeza. Penso que a música não apenas tem o poder de introduzir um indivíduo ou um grupo ao público, como também traz através da captura de um momento específico, uma forte influência do contexto em que foi produzida. Isso acaba gerando a sensação de que conhecemos o artista por trás da obra muitas vezes, tanto pela assimilação das emoções contidas nos sons, quanto por outros fatores que estão diretamente ligados a personalidade de quem os produz. Exemplo disso são algumas escolhas estéticas, ou a própria experimentação, que pode ser indício de alguém em constante movimento, um aventureiro ou aventureira no seu próprio ofício. Dessa forma, penso que a sua impressão sobre mim seja verdadeira, me enxergo nessas músicas e sou convicto de que quem as ouve com atenção, já me conhece, ou ao menos, uma parte de mim.


“QUIPU” passa por diversos gêneros musicais, apresentando a aventura sonora que envolveu diversos músicos da cena maringaense. Como foi essa experiência?

Foi muito bacana poder contar com todo mundo que se envolveu de alguma forma. Neto, produtor neste trabalho, me ajudou muito durante todo o processo, compartilhando a sua experiência em longas conversas que costumávamos ter entre sessões. Ele aderiu a ideia desde antes das composições tomarem uma forma definitiva. Sendo sua primeira experiência produzindo e a minha primeira vez em estúdio, acho que conseguimos fazer um trabalho bem interessante. Claudio Caldeira, Adilson Filho, Mateus Alabi, João Manoel, Guz e André Drago foram figuras que tiveram uma importância enorme para que esse álbum se concretizasse, cada um à sua maneira e trazendo consigo a sua bagagem cultural e artística, somando e enriquecendo as minhas humildes composições.


Quipu estabelece uma comunicação, trazendo histórias. Qual a mensagem que você buscou passar para os ouvintes no primeiro ep?

Bom, Quipu ou Quipo era um instrumento utilizado pelos Incas e outras civilizações que habitaram os Andes para estabelecer comunicação, de forma muito interessante inclusive. Formado por cordões e nós, o objeto muito portátil e eficiente servia para contagem, trocas, delimitar datas ou apenas externalizar ideias, dessa forma, pensei que seria interessante brincar com o conceito, imaginando meu violão como meu Quipu, "um instrumento de cordas utilizado na comunicação". Queria que aquelas cinco músicas, cada uma apontando um lado diferente dos meus gostos e preferências, tomassem vida própria e ganhassem significado a partir da leitura de cada ouvinte, já que os quipus são também artefatos indecifrados, mistérios para a arqueologia e assim, livres para a interpretação. Era exatamente assim que imaginava o meu primeiro trabalho e aí vale citar também, "QUIPU" é essencialmente um primeiro trabalho, a diversidade das cinco faixas foi proposital, não mirava na coesão quando o concebi, muito pelo contrário, sabia que teria tempo para moldar trabalhos coesos no futuro, sendo assim, o primeiro deveria ser tudo [ênfase na palavra] que eu queria que ele fosse, para jamais ser repetido também.



"Via Estreita" é a única canção que possui letra. Como foi trabalhar com uma composição? Inclusive, ela trata uma questão existencial, sobre a vida mudar em apenas um segundo. Pra você, como seguir após uma mudança brusca?

Foi uma experiência que certamente pretendo repetir. É uma música que conta com um padrão programado de bateria eletrônica, elemento que nunca havia utilizado mas que soou bacana durante uma brincadeira enquanto gravava, o que me fez deixar como estava. Foi também um feat muito especial, com Neto (Edvvardes), que me auxiliou novamente nessa nova empreitada e cantou essa canção comigo. Conciliar as informações e tentar se adaptar é um caminho na tentativa de lidar com mudanças bruscas, que raramente são fáceis mas muitas vezes nos marcam fortemente.


"Dos Meus Sonhos" traz a mistura do jazz, funk setentista, Edgar Allan Poe, Harry Clarke e todas as suas ideias musicais. A concepção desse ep seguiu o mesmo processo do primeiro álbum?

Não. "Dos Meus Sonhos", por mais que tenha sido produzido por mim, foi mixado e masterizado por Alan Girardeli à distância. Diferentemente de "QUIPU", que foi captado, produzido, mixado e masterizado por Neto na Produtora El Niño. Além disso, a ideia por trás deste EP era compor um registro coeso do começo ao fim, que pudesse também fazer parte do repertório do trio que formei a fim de levar meu trabalho para o ao vivo. Gravei ele majoritariamente em minha casa, tendo apenas as faixas de bateria gravadas por Mateus Alabi em sua casa, como também, a faixa título que gravamos ao vivo em quarteto (João Manoel na segunda guitarra e Lucas Trabuco no baixo completando a formação) no quintal dele.


"Dos Meus Sonhos" traz imagens do seu inconsciente, que mexe com o nosso, e o significado do tempo. O que esses dois representam para você?

Eu enxergo o inconsciente como um poderoso recurso na composição e na criação artística. É onde se instalam as nossas referências e tudo que consumimos, gerando subsídios para que depois consigamos externalizar as nossas ideias, mesclando o que já estava no interior e tomando nova forma ao sair por nós. O significado do tempo já é totalmente relativo e mutável, nossas impressões e sensações regem o que ele nos passa, assim, tentar transmitir isso musicalmente era um desafio que gostaria de enfrentar. Não tenho certeza se já o fiz, mas os meus dois últimos lançamentos tocam nessas temáticas e fico contente em poder tratar dessas questões através da música que faço.


A primeira música traz o nome do ep e a última tem o título "Sendo Sincero". Existe uma narrativa deste álbum, do ínicio ao final?

Não, "Dos Meus Sonhos" não é um álbum conceitual, cada música tem um título que carrega uma história. Cada uma dessas histórias faz parte do conjunto final mas todas têm vida própria.

"Sendo Sincero", que foi o exemplo citado, segue a mesma ideia de "Pois Bem" do "QUIPU", duas expressões que geralmente antecedem uma fala, um discurso verbal é esperado após a anunciação delas, mas nesse caso, em um registro inteiramente instrumental, o discurso é composto pelas linhas que dialogam e moldam a música. As duas comunicam sentimentos distintos que se me pedissem para descrever, ou até mesmo colocar no papel, não conseguiria. Através dessas duas músicas, porém, acho que consegui expressá-los de forma satisfatória.


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