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Impressões: Segredos

Quando eu estava na escola, um professor de literatura estava dando uma aula sobre Machado de Assis - provavelmente o tema era "Dom Casmurro" -, quando disse à classe para não confiar, em hipótese alguma, no narrador em primeira pessoa. Explico melhor: será que este narrador está sendo sincero? Preciso dar continuidade a minha provocação: quando você, leitor, vai contar algo - seja uma história, fofoca ou curiosidade - para outra pessoa, como é essa narrativa? Você conta a verdade, ou seja, a história como ela é ou aumenta um pouquinho? Qual a sua resposta? Eu posso confiar em você? Posso confiar em uma personagem que está narrando uma história de acordo com seu ponto de vista e convicções? Faço essas perguntas, pois preciso compartilhar algumas informações (talvez essa não seja a palavra certa, mas uso neste texto) sobre o escritor italiano Domenico Startone. Primeiro, ele não é confiável. Por que? O seu sobrenome é outro, o Startone foi retirado de algum lugar. Segundo, em suas obras, ele aborda histórias de amor e conflitos familiares (te fez lembrar de Elena Ferrante?). Inventadas ou não, o leitor se enxerga, em algum momento, nos livros de Domenico. Isso deveria ser um ponto positivo, certo?! Aprofundo minha provocação: será que o objetivo do escritor não é justamente que seus leitores vejam o quão podre são? Por trás de um corpo há segredos, amantes, perdas e tantas outras coisas que são exploradas na literatura do escritor. Startone não quer que tenhamos contato com tudo isso? Ele pode ser confiável em alguns momentos? A relação de escritor/leitor é transparente ou há uma barragem, em forma de segredos? Leia também: Impressões: Inimigos: Uma História de Amor Impressões: Um Amor Incômodo Mariana Godoy continua se afogando em Virginia Woolf Em "Segredos" (Todavida, 2020), temos uma história central que puxa, no decorrer da leitura, para outras camadas da obra. Pietro, um professor pacato, se relaciona com Teresa, sua ex-aluna. Um relacionamento cheio de conflitos e loucuras, onde, em um momento, após uma briga, resolveram confessar seus piores segredos. Desse modo, descobrem os segredos mais obscuros de cada um - aumentando a confiança entre os dois. Teresa aproveita que sabe um podre do companheiro e o chantageia. No entanto, o relacionamento não dá certo e eles acabam se separando, construindo outras vidas, mas os segredos continuam presentes no livro. Assim como em "Laços" (Todavia, 2014), primeiro livro publicado do escritor no Brasil, "Segredos" segue o mesmo fluxo de divisão: a primeira parte é contada por Pietro, a segunda fica por conta de Emma, filha do professor, e a última por Teresa, sua ex-companheira. No decorrer das páginas, percebemos as diversas perspectivas das personagens sobre o relacionamento de Pietro e Teresa, caso que aconteceu no passado, mas continuava presente, em forma fantasmagórica, no casamento de Pietro e Nadia, impactando os filhos. "O amor, dizer o quê?, fala-se tanto dele, mas não acho que eu tenha usado a palavra com frequência, aliás, minha impressão é que nunca recorri a ela, apesar de ter amado, claro que amei, amei até perder a cabeça e os sentimentos. De fato, o amor tal como o conheci é uma lava de vida bruta que queima a vida fina, uma erupção que anula a compreensão e a piedade, a razão e as razões, a geografia e a história, a saúde e a doença, a riqueza e a pobreza, a exceção e a regra. (...)" O relacionamento entre Pietro e Teresa não era comum, os dois brigavam, se ameaçavam, expunham-se, batiam-se; mas no final, faziam as pazes e se amavam. Era um amor conturbado, mas havia sentimento ali. Quando terminam de vez a relação, Pietro conhece Nadia, uma professora de matemática que estava noiva e não queria se envolver com Pietro, no entanto, ele não aceitava não e ficava atrás de Nadia até ter o que queria. Em pouco tempo, os dois marcam o casamento. É nesse momento que Teresa reaparece. A mulher resolve fazer uma visita ao ex e os dois colocam o papo em dia. Quando Pietro diz que vai se casar, Teresa o ameaça novamente - ele deveria ser fiel e fazer a futura esposa feliz, se não, ela contaria o segredo dele. Após essa aparição, os dois começam a trocar cartas. Pietro, um professor de humanas que conhecia bem as palavras e abusava delas para descrever o que sentia, mandava cartas extensas a Teresa, com medo de ser desmascarado. Esses escritos dão a entender que Pietro nunca esqueceu de Teresa e que o afeto, que ele diz que é amizade, pode ser outra coisa. Nadia, a esposa, descobre as correspondências e é aí que o relacionamento antigo impregna na família. Os dois começaram a brigar, respingando nos três filhos. Emma, a mais velha, acompanhou de perto e queria descobrir quem foi Teresa e o porquê dela desestabilizar seus pais. A segunda parte é contada por ela traz a trajetória de buscar a ex-namorada, já com quase 60 ou 70 anos, para entregar um prêmio ao pai. Para Emma, Pietro é o melhor e maior professor que a Itália já teve. Ela defende o pai com unhas e dentes, surpreendendo o leitor. Então, no fim do livro, é Teresa que conta a sua perspectiva. Relembra o namoro dos dois, como eram as aulas de seu ex-professor, como Pietro era simples, sem ambição, mas totalmente perigoso. A mulher sabe que ela não é a melhor pessoa do mundo, que tem defeitos e é asquerosa, e quando vê que Emma admira o pai, fica com raiva. Teresa continua amando Pietro, mas também quer se vingar. O motivo? Aparentemente, Teresa amava muito mais Pietro, que nunca correspondeu ao seu amor no mesmo nível. Será que no fundo, Teresa achava que ela deveria ocupar o lugar de Nadia e ter tido uma família com Pietro? O que mais essa mulher misteriosa guarda? Em quem podemos confiar? Quem está falando a verdade? Temos todas as informações que precisamos para descobrir quem é o maior e quem está sendo sincero? "Pensei: a gente se apaixona por pessoas que parecem verdadeiras, mas não existem, são uma invenção nossa; essa mulher firme, de frases escandidas, essa mulher sem timidez, cortante, não é a que eu conheço, não é Nadia. Uma coisa é a pessoa amada, a outra é a pessoa real que, enquanto a amamos, nunca vemos realmente. Quanto tempo, disse a mim mesmo, desperdiçamos nas relações amorosas. Nesses anos inventei com felicidade uma pessoa." Startone não pode ser confiável, mas é um grande escritor que entra na alma do leitor e o remexe. Talvez sua missão seja mesmo escancarar os podres de quem o lê… Ou está falando sobre a realidade que viveu ou que inventou. Nunca teremos as respostas e também isso não importa - precisamos apenas ressurgir, estar presente em todos os locais, com os olhos bem abertos, para continuar existindo.

Semana Literária PUCPR 2021

O Brasil é marcado por uma rica pluralidade de línguas, costumes e vivências. O documentário "Língua: Vidas em Português" (2001), de Victor Lopes, retrata muito bem a língua portuguesa e suas variadas culturas pelo Brasil e o mundo. Com o objetivo de dialogar e celebrar os diversos "Brasis", a Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) realiza nova edição da Semana Literária. Com o tema "Literatura e Brasilidades", o evento ocorre de 18 a 22 de outubro, com transmissão online e a presença de autores renomados. O evento recebe a escritora Ana Maria Machado, membro da Academia Brasileira de Letras, que conta com mais de uma centena de obras de diversos gêneros. A vencedora do prêmio Hans Christian Andersen, considerado o Nobel da Literatura Infantil, vai conversar sobre o relançamento de "Silenciosa Algazarra", coletânea de textos críticos a respeito da universalização da leitura e dos livros, além de relembrar momentos importantes de sua carreira. Outro destaque da Semana Literária é o escritor Milton Hatoum. Ele ministrará a conferência "Diversidade na Literatura Brasileira", onde analisará romances de Machado de Assis, Clarice Lispector e João Guimarães Rosa, dentre outros. O evento vai contar com a presença de Vera Eunice de Jesus, filha caçula de Carolina Maria de Jesus, do educador e escritor indígena Daniel Munduruku e de vários pesquisadores da literatura nacional. Para participar da Semana Literária é necessário fazer uma inscrição pelo site da Sympla. Além disso, entre os dias 15 a 31 de outubro, a instituição realiza a feira de livros Lombada, também no formato digital. Serviço - Feira Lombada Data: 15 a 31 de outubro - online Iniciativa da PUCPRESS, editora universitária da instituição, em parceria com a Arte & Letra - Editora e Livraria, a feira Lombada reúne mais de 50 editoras que vão ofertar títulos que poderão ser adquiridos com descontos de até 50%. Informações: https://www.lombada.pucpr.br/ Serviço - Semana Literária Data: 18 a 22 de outubro - online Inscrições: Sympla

Impressões: Clustered Umbrella

Quando troquei emails com o vocalista Tega Ovie, da banda Post Modern Connection, comentei sobre as diversas reflexões que a banda traz ao ouvinte, consequência das vivências, misturando diversos gêneros musicais. O vocalista concordou e disse que essas inquietações estariam no próximo projeto da banda - "pra mim, nossa música é como uma grande letra de jornal, onde escrevo sobre onde estou, como me sinto e o que estou pensando". Os sentimentos de Tega, Georges, Steven, Cam e Mitch estão no primeiro EP da banda, "Clustered Umbrella" (2021) que será lançado mundialmente nesta quinta-feira, 14 de outubro. Em cinco músicas, conhecemos os cinco integrantes - tão diferentes, tão parecidos - que tem o objetivo de conectar pessoas, países e tudo aquilo que a pós-modernidade construiu. Como conectar pessoas tão diferentes? Abordando relacionamentos (pré e pós) em um mundo caótico - temas centrais de "Clustered Umbrella". Leia também: Memorandos de Taco de Golfe Impressões: Ho-Ba-La-Lá: À Procura de João Gilberto Os Nordestes de Juliana Linhares A dançante "Folie a Deux" abre o EP da banda. Lançada em agosto, o single mistura violino, teclados, sintetizadores, guitarras e bateria para falar sobre relacionamentos tóxicos e a trajetória da autodescoberta. Em seguida, vem a música "In The Dark" que ainda fala sobre relacionamentos, porém, em uma nova vertente, sobre o trauma que uma relação pode deixar - "Save me from myself (I’ll wait here in the dark)". "Water Street", terceira canção que compõe o EP, segue o ritmo de um mar com ondas baixas, ganhando força com o violino e sintetizadores de Mitch. O ápice está no coral da banda, onde as ondas se quebram e o ouvinte mergulha com PMC. "Semblance of Normalcy" questiona as diversas facetas que uma pessoa pode ter no decorrer de uma relação; enquanto "Nostalgic Remains", em um clima meio country, que muda no decorrer da canção, onde a bateria se transforma na angústia da banda, a música relembra os momentos do passado. Depois de um ano e meio trancados em casa por conta da pandemia, o álbum de Post Modern Connection traz alívio e diversas (não tão novas) reflexões sobre quem éramos, o que somos com os outros e o que sobra de nós após os términos de relacionamentos. Dançando fica mais fácil chegar a alguma reflexão (certo?!) - ou não e tá tudo bem, o importante é sentir, porque nós não somos perfeitos - como canta Tega. "Clustered Umbrella" é um sopro após a tempestade, onde os cinco amigos falam sobre suas vivências e conectam pessoas. Ao vivo não é diferente: a conexão é mais forte, a banda molha com suas ondas sonoras o público. Respire fundo e mergulhe junto com a banda. "Clustered Umbrella" estará disponível em todas as plataformas de streaming de música. Acompanhe a banda através do Instagram.

Memorandos de Taco de Golfe

Preste atenção nos mínimos detalhes. Olhe bem para a capa do disco; o que você vê? A mesma é ambígua, com diferentes interpretações (canos? massas? andaimes?). Agora, leia com muita atenção os títulos das canções - "Pessoa Que Fala", "Formigas Que Levantavam a Cabeça Como Cães" e "Eu Estava Lá, Em Pé" - você consegue compreender, nas entrelinhas, um toque da alienação kafkiniana? Ouça as músicas (a indicação é para ouvir no escuro - faça isso!) e me responda: o que você sente? Para concluir: consegue responder alguma questão que te fiz? Se não tiver uma resposta concreta, não se preocupe, pois "Memorandos" (Balaclava Records, 2021), terceiro álbum do duo sergipano Taco de Golfe, composta por Alexandre Damasceno (bateria) e Gabriel Galvão (guitarra) é uma eterna modificação - do mundo, de sentimentos, da realidade, da vida - sem resposta concreta. Preciso apresentar duas informações sobre a dupla (elas são importantes para a construção deste texto e, talvez, para uma "compreensão" do álbum): Alexandre e Gabriel nasceram nos anos 90, ou seja, havia uma prosperidade econômica no país que não foi levada adiante, frustrando muitas pessoas que torciam pela redemocratização no Brasil. Além disso, a ideia de que "é preciso possuir uma casa, família, carros e um bom emprego até os 30 anos" era repetida constantemente por familiares para crianças pequenas - você passou por isso? Se sua resposta foi sim, seja bem-vinde ao grupinho - você sabe como é a sensação de crescer ouvindo que é preciso ser algo grande e a pressão para ter algo. Então, quando você cresce, percebe que o mundo não é tão fácil como diziam e que a necessidade de alcançar esse algo antes dos 30 fica para trás, porque não é possível. A segunda informação é a saída do baixista Filipe Williams que aconteceu durante os ápices da pandemia. Com as informações dadas, imagine: passado, presente, futuro, pandemia, saída, crise econômica, sentimentos e tudo que cabe dentro do ser humano. Qual o resultado? "Memorandos", em um novo formato de banda, mistura tudo que cabe em seus integrantes. É um disco que conta com colagens sonoras que remetem a confusão, reflexo do isolamento social e da convivência diária dos músicos que passaram a viver sob o mesmo tempo durante a pandemia. Leia também: Canções de Isolamento Volume 2 A dançante nostalgia de Apeles ZANZAR celebra o caos A conversa é pelo Zoom e se inicia alguns minutos antes do horário. Um pequeno caos se inicia: carro de ovo e churros se encontram, criando uma atmosfera caótica e barulhenta - nada parecido com Taco de Golfe, porém, nas entrelinhas tem mensagens significativas. As questões começam e durante as respostas, Alexandre e Gabriel conversam entre si, dando continuidade ao improviso, como sempre fizeram. "Memorandos" foi feito na pandemia, certo? Como que o isolamento social afetou o processo de criação e como vocês gravaram o álbum? Gabriel: Durante a pandemia, acho que desde junho e julho, eu comecei a morar com Alexandre. A gente começou a morar junto e a gente passou grande parte dessa pandemia juntos. Estamos passando, né. O disco nasceu nesse período aí: a gente morando junto, a gente passou no edital da Lei Aldir Blanc e tipo… Antes disso a gente tava concebendo algumas ideias, tentando organizar, vendo formas de trabalhar juntos de casa… Acho que quando a gente começou a morar juntos, a gente começou a tocar juntos e aí depois a gente começou a conversar mais sobre as composições - eu fazia muita coisa no computador e mandava para ele e tals… Então, a gente passou um tempo tentando se ajustar nesse processo, tentando ver como seria essa dinâmica de trabalho, de produção e além de tudo que tava acontecendo ao redor da gente… Mas é isso: quando a gente passou nesse edital foi o gatilho do "vamos fazer agora" - daí, então, a gente aproveitou muita coisa que a gente tinha feito nesse período que a gente ficou junto. É basicamente isso, foi bem diferente dos outros pela dinâmica, agora só tem eu e Alexandre, antigamente a gente tinha um baixista e eram três pessoas discutindo, eram três pessoas para alinhar as ideias, era outro processo. Então, a gente tava ali se descobrindo, como seria a sonoridade da banda, como a gente iria abordar as ideias, enfim, uma série de coisas, foi uma época de grande aprendizado. Alexandre: Eu diria que foi uma mistura mesmo, de tentativas, de processos de composição, porque quando Felipe tava na banda era um processo muito baseado no tocar, na jam, né. A gente detectar, os três juntos, no estúdio; ir tocando e gravar ao máximo esses processos… Aí eu lembro que em "Nó Sem Ponto II" (2020), teve situações que a gente marcou turnê, passou em um edital para tocar no Espírito Santo e tal e aí a gente meio que teve um deadline de um ou dois meses para fechar um álbum - "vamos fazer esse disco logo para viajar com o disco novo". Aí teve esse processo da gente sempre tentar se encontrar para tocar, fazendo… Eu e Gabriel, a gente se encontrava, foi pouco, mas lembro de quando fui para casa de Gabriel a gente estruturou no caderno, outras músicas foram estruturadas dessa forma - eu e Gabriel tentando formar uma estrutura e indo para o estúdio com o Filipe e tocando todo mundo junto para fazer a música. Nesse "Memorandos", agora morando juntos, foi essa coisa da gente conversar mais, como Gabriel falou, estruturar a música de uma forma mais composicional ao invés de estar lá tocando, de ver o que acontece e é isso, saca? "Memorandos" foi mais sair do improviso, mas também… Como equilibrar essas duas coisas? Gabriel: Eu lembro que em "Memorandos" tiveram coisas que eu tive que parar para pegar porque eu não sei como é que fiz no estúdio mesmo. Alexandre: De fato, isso acontece muito! De minha parte também, tipo assim, as baterias gravadas que saem em "Memorandos" é muito improviso… Eu passei quatro dias no estúdio e isso foi uma coisa diferente. Como falei, em "Nó Sem Ponto II", teve uma pressão… A gente meio que gravou bateria, guitarra e baixo - a bateria tudo definitiva, mas guitarra e baixo a gente gravou depois - em um final de semana. A gente gravou tudo isso em três dias, né Gabriel? Gabriel: Foi. Alexandre: E nesse, agora, eu tive quatro dias para gravar só a bateria. Apesar disso, o que tá lá gravado, tem muito de improviso. Gabriel: Quando eu falei foi mais sobre "Nó Sem Ponto II", eu não organizei as minhas partes, as partes da guitarra, de uma forma que eu realmente compus. Eu criava uma estrutura, um alicerce pra gente ver no estúdio. Da minha parte, na guitarra, "Nó Sem Ponto II" foi muito mais "eu vou fazer isso, isso, isso, isso". "Cai da Escada Rindo", música do "Nó Sem Ponto II" tem uma melodia marcante que é feita pela guitarra e a melodia não tava 100% definida até a hora de gravar, sabe? Imagino também que a convivência entre vocês dois também tenha impactado, né… Morar junto, conviver junto, em uma pandemia, ter que continuar fazendo… Foi diferente dos outros álbuns. Alexandre: Eu diria que foi o ponto fundamental. Foi bastante difícil em alguns pontos. Essa convivência todos os dias e que a pandemia fez a gente ficar em casa… Foi um período muito doido [risos] Gabriel: [risos] É. Eu acho que tudo pesava mais. Justamente esse peso! Eu sinto que "Memorandos" é muito mais intenso do que os outros álbuns Gabriel: Mais caótico, né?! Muito mais caótico! Foi intencional, eu imagino, porque foi o que vocês estavam vivendo, foi colocado no álbum, né. Alexandre: Teve muito disso também, ao mesmo tempo que teve um let it go, deixar ir. No final, a gente falou "vamos soltar isso como tá e é isso, vamos para a próxima". Gabriel: É, chegou um momento em que a gente tava assim: muito tempo nas mesmas coisas… Acho que teve um momento que tipo já não fazia tanto sentido, pelo menos pra mim, ficar naquelas músicas… "Tá bom, tá pronto. Vamos fazer outro" É aquela coisa: sempre fica aquela sensação de dava para ter feito mais, dava para ter feito melhor - é normal, mas nesse caso foi tipo uma desistência, sabe?! Foi um processo bem cansativo, principalmente o processo do pós. Alexandre: Principalmente isso. As ideias estavam bem legais, coisa que Michele falou mesmo, de transparecer essas coisas, esses sentimentos que tavam rolando… E teve esse processo de pós… A gente ficou realmente martelando em muita coisa, tentando bater de novo e aí juntou e já era tipo, digamos, era ¾ da pandemia ali e já tinha essa carga toda e a gente meio "tá, vamo soltar!". O segundo álbum de vocês também foi lançado na pandemia, né? São dois álbuns lançados na pandemia, dois álbuns trancados em casa, sendo que vocês são uma banda ao vivo. Como que foi esse pós para dois álbuns lançados na pandemia? E como tá sendo para vocês? Alexandre: A produção não foi, mas o lançamento, que foi em maio, foi [na pandemia]. Gabriel: Acho que "Nó Sem Ponto II" ele não pesou tanto assim nesse sentido, porque grande parte da produção dele foi no período pré-pandemia. Alexandre: É, a gente gravou tudo e o pós dele a gente tava viajando. Eu lembro que a gente recebeu [corte na gravação], a gente tava em Recife, a gente ia tocar no [festival No Ar] Molotov e foi completamente diferente. Desse novo, ainda não conseguimos, mas a gente precisa também voltar a ensaiar… A gente tem que falar de João Mário também. João Mário é um amigo nosso, também da cena daqui, que toca em várias bandas… A gente tá dizendo que é um duo, mas a gente chamou ele pra tocar com a gente e também para produzir algumas coisas - acho que ele ajudou a produzir quatro músicas de "Memorandos". Com todo esse processo da pandemia, a gente não tava conseguindo se juntar, teve os processos dos editais também que a gente teve que gravar algumas coisas e tal, mas a gente vai retomar todo um processo de ensaio, de tocar junto, de realmente fazer o show rolar. Acho que ano que vem já rola alguma coisa. Vocês já conseguem imaginar como será o ao vivo? Alexandre: A gente já tá com essa perspectiva. Gabriel: Eu tô pensando em algumas possibilidades [risos]. Penso em voltar a ensaiar nós três, eu, Alexandre e João Mário e ver como é que se dá, né. Tentar tocar as músicas, ver como é que eu posso organizar as linhas de guitarra… Alexandre: Tem dias que eu penso em colocar outro guitarrista no show… Gabriel: É, tô pensando nisso aí, se for necessário. Primeiro, quero tocar, né. É uma diferença interessante com os outros discos - como Alexandre falou, o processo de pré-produção dos outros se dava muito no estúdio, tocando, dando noção de como ele seria ao vivo antes de gravar - e isso foi uma coisa que não teve. Alexandre: Pegar as músicas, ver como a gente vai tocar, como vai ser ao vivo, né. É um processo diferente, realmente. Gabriel: Acho que é mais pelo conceito do disco, as músicas são curtas Alexandre: Pra ser sincero, penso que no próximo show a gente toca música nova [risos]. Uma improvisação do que já foi feito, né. Gabriel: Pensei nisso aí também. Alexandre: Vai emendando as músicas de "Memorandos". As faixas são curtas e você pode ouvir as músicas em qualquer ordem. A gente botou o primeiro nome de "Intro", mas são músicas curtas de ideias fechadas em si que em algum momento dão a ideia de disco cheio. Diria que são músicas que funcionam para serem ouvidas separadas, cortadas. Me chama atenção porque a primeira vez que eu ouvi, já conhecia vocês e já acompanhava o trabalho, "Memorandos" eu senti que tem uma narrativa que dá para ser cortada e quando você ouve a segunda vez, parece que essa narrativa rompe tudo e é possível ouvir o álbum com diversas interpretações, sentir várias coisas e tal. Alguma coisa foi intencional? Existe alguma explicação? Alexandre: Acho que essa coisa cortada das faixas... Eu acho que sim, hein. Gabriel: Acho que a ordem, as músicas... Eu fico viajando muito numa narrativa real em tudo que ouço. Eu tava no processo de escolher os nomes das músicas, fazer a ordem do disco, pensei na experiência do ouvinte ao ouvir o disco na ordem, mas o fato do disco... Tem músicas que se fecham ali e a música que vem depois, não tem nada a vê, sabe? É um disco em camadas! Alexandre: É como se fosse uma onda - a onda da sonoridade... Gabriel: Total! Isso foi totalmente pensado! O disco começa num pau e vai descendo, vai descendo [faz gestos com as mãos] e vai subindo de novo. Foi basicamente isso que a gente pensou. A questão dos nomes... A verdade, os nomes eu peguei de um brainstorm de Alexandre que começou a escrever coisas relacionadas ao conceito, enfim, coisas que ele tava pensando e coisas que ele tava lendo na época - não foi, Alexandre? Alexandre: Tem uns nomes que são citações. Foi realmente um brainstorm. Antes, os nomes das músicas iam ser números e tals; mas teve um dia que eu abri o caderno e comecei a colocar nomes. Aí no outro dia, mandei a foto [do caderno] para Gabriel e falei: "Gabriel, escolha aí!" - e foi isso. E como rola esse processo? Alexandre: Acho que foram dois processos nesse sentido. O primeiro, justamente, eu escrevendo os nomes, e eu não conhecia as músicas, baseado no conceito, tinha essa ideia de memorandos, a comunicação... Enfim, sistema e informações dentro de um lugar. [cortes na conversa] Gabriel: Acho que ele tava falando sobre não conhecer as músicas, mas pensando no conceito. Alexandre: Quando eu escrevi os nomes das músicas no caderno, eu tava pensando justamente nesse conceito mais aberto - e eu não conhecia as músicas. Eu tava pensando justamente em sistema de informação, em troca de mensagens, dentro de uma estrutura burocrática muito grande, uma coisa meio kafkiniana, essa coisa estranha, essa coisa misteriosa. Aí botei um monte de nome e aí foi Gabriel que já conhecia o som, ele botou os nomes sentindo mais essa coisa da narrativa por conta da música. Gabriel: Eu li tanto esse papel que parecia um texto pra mim, sabe? Eu sentei chapadão e comecei a sentir [risos] coisas - o que eu sentia com as músicas e tentei construir, só que depois eu fiquei "não, não faz sentido", mas tentei construir a narrativa com esses nomes. Eu queria fazer com que as músicas fossem como um livro totalmente picotado. As conversas e memórias continuam na conversa. Lembramos de como o tempo e as dificuldades nem existiam quando éramos criança. Frustração e ansiedade aumentam com o passar do tempo, causando um desalinho dentro da gente. Sobreviver e fugir dos padrões é a melhor ideia para continuar vivendo. "Memorandos" está disponível em todas as plataformas de streaming de música.

"Partes", de Marina Saleme

A Mul.ti.plo Espaço Arte, localizada no Leblon, inaugura a exposição "Partes", da artista paulistana Marina Saleme. A mostra traz cerca de 60 obras em pequenos formatos pinçadas de uma numerosa série de desenhos e pinturas feitas por Marina ao longo dos últimos três anos. A inauguração será feita em dois dias: 7 e 8 de outubro. A entrada é franca e é obrigatório o uso de máscara. A série de desenhos da artista é o resultado de um obsessivo esforço de investigação sobre uma mesma imagem: uma mulher sentada, encolhida, de cabeça baixa, numa atitude profundamente introvertida e impactante. De 2019 a 2021, a artista desenhou a mesma figura mais de 1.500 vezes, com tintas, cores, traços e suportes diferentes. "Partes" apresenta-se também como um recorte intimista da grande instalação que Marina Saleme apresenta no CCBB do Rio, no mesmo período, chamada "Apartamento s". Os nomes remetem tanto a um espaço físico como a um espaço emocional: o sentimento de estar sozinho, apartado, sensação intensificada pela pandemia. Os desenhos exibidos utilizam materiais como giz de cera, tinta a óleo, tinta acrílica e caneta sobre papel e tela. (Foto: Mário Grissoli) De acordo com Saleme, as duas mostras são complementares e propõem formas diferentes de ver o mesmo trabalho. O encerramento de "Partes" está marcado para 3 de dezembro de 2021. Serviço - Partes, de Marina Saleme
Abertura: 7 e 8 de outubro
Encerramento: 3 de dezembro
Local: Mul.ti.plo Espaço Arte - Rua Dias Ferreira, 417, 206 - Leblon, Rio de Janeiro
Horário: 11h às 18h
Para mais informações, acesse: www.multiploespacoarte.com.br

Canções de Isolamento Volume 2

Foram mais de quinhentos dias trancafiados em casa por conta da pandemia. Em um ano e meio, o indivíduo pode passar por muitas coisas - assim, como a fase do luto: negação, aceitação, raiva, desespero e tantos outros sentimentos, porém, não necessariamente nessa ordem. Algumas pessoas conseguem transformar isso em algo, seja uma canção, uma melodia, um livro ou até mesmo um mantra. Durante esse período conturbado, a Nightbird Records lançou a coletânea "Canções de Isolamento Volume 2". Reunindo dez artistas do Rio Grande do Norte, o selo gravou e produziu diversos ritmos, que varia entre jazz, forró, rap, pop rock e hip hop lo-fi. Houve vários critérios para seleção, desde a diversidade de ritmos até questões de gênero e raça. "Esse é um projeto para dar acesso aos artistas do Rio Grande do Norte. O objetivo é criar uma cadeia produtiva aqui no estado. Todos que estiveram envolvidos são potiguares, desde o operador de som até a pessoa que mixou e masterizou o álbum. Procuramos colocar essa diversidade, tanto em sonoridade, como em questões sociais, ao incluir músicos que fazem parte de alguma minoria", diz o produtor e curador Luan Bates. Os artistas que fazem parte de "Canções de Isolamento Volume 2" são: Lee Araújo, Luaz, Ujó, Ydna, Máquinas do Ar, Marvin, CaSilva, Nayd e Bando Baião de Nós, além das participações de Apenas Um Oliveira e André Rangel, que colaboraram com Ujó e Luaz. As faixas foram gravadas em Natal e Mossoró e todo o projeto foi auxiliado pela Lei Aldir Blanc. Com o lançamento, a Nightbird Records espera dar o suporte necessário para os músicos em questões de gerenciamento de carreira na música, desde a produção de fotos até noções básicas da indústria musical. "Canções de Isolamento Volume 2" está disponível em todas as plataformas de streaming.

Impressões: Ho-Ba-La-Lá: À Procura de João Gilberto

"O que levou um gringo aprender português e vir ao Brasil procurar um músico que nunca quis ser encontrado?", foi a primeira pergunta que fiz para mim mesma quando vi a capa do livro "Ho-ba-la-lá: À Procura de João Gilberto" (Companhia das Letras, 2011), de Marc Fisher, pela primeira vez. A mesma pergunta reapareceu quando o documentário "Onde Está Você, João Gilberto?", de Georges Gachot (2018) estreou por aqui. Não demorou muito para que a resposta chegasse em minha mente: "porque é isso que o músico fez com todo mundo: picou as pessoas com sua arte, que impregna a alma". O próprio jornalista respondeu a minha questão nas primeiras páginas: "quero, portanto, encontrá-lo, porque não está claro se se trata de um louco, de um excêntrico, de um fantasma, de um homem invisível, de um monge ou de alguém alérgico ao sol". Desse modo, percebemos que Fisher queria ver com seus próprios olhos o músico que mudou sua vida - e não é só isso: ao chegar no Brasil e procurar em todos os lugares João Gilberto, além de refazer os passos do músico, Marc quer que João cante para ele a música "Ho-Ba-La-Lá", presente no álbum "Chega de Saudade" (1959). "Quem ouvir o ho-ba-la-lá / terá feliz o coração", canta baixinho João. Assim como nós, Marc quer ter a felicidade. A história entre João e Marc deu início no Japão: o jornalista estava viajando - "tentando esquecer um amor" como diz no livro -, quando foi à uma festa. Foi seu amigo que mostrou-lhe a canção, consequentemente o primeiro álbum do músico - foi paixão à primeira vista. Assim, Marc deu início ao seu plano: aprender português, refazer os passos de João até chegar ao mestre. Um bom plano para ter a felicidade sonhada. Leia também: As mutações de MEL Impressões: Carnage Rodrigo Eugênio: o cancioneiro sentimental Ao lado de sua fiel escudeira - retratada no livro como Watson -, Raquel Balassiano, Fish caminha pelas ruas do Rio em busca do músico que mudou sua vida. Enquanto conhece a cidade, Fisher percebe que sua missão é impossível, pois João não quer ser encontrado - mesmo os amigos não tem mais notícias do músico. Para tentar entender o motivo do desaparecimento de João, o jornalismo passa a entrevistar nomes importantes da MPB, como Roberto Menescal, João Donato, Marcos Valle e Joyce; além de conversar com Miúcha, ex-mulher de João, e com a jornalista Claudia Faissol, com quem Gilberto tem uma filha. "Há trinta anos vive escondido em seu apartamento, levando uma vida oposta à das pessoas: levanta-se quando os outros vão dormir e vai se deitar quando os outros estão acordando, como um fantasma" Enquanto ouve histórias e teorias, o jornalista chega à conclusão que o músico só pode ser uma imortal criatura da noite. No entanto, não fica contente com as respostas que recebe e decide ir à Diamantina, em Minas Gerais, cidade onde o biografado viveu por uma temporada durante a década de 50, na casa da irmã. Recolhendo depoimentos de todo mundo que conviveu com o músico baiano, Fish retrata as viagens e pequenas descobertas que fez sobre o músico que deveria ter cantado "Ho-ba-la-lá" para ele. "- Por que a gente não conseguiu apanhar ele, Watson? Tentamos de tudo! - Porque anseio é coisa que ninguém consegue apanhar, Sherlock. E João é isto: anseio" O livro de Marc Fischer inspirou Georges Gachot a procurar o músico. Marc se suicidou em 2011 e não teve tempo para ver com seus olhos o impacto de sua obra pelo mundo. Fazendo os mesmos passos que o jornalista fez no passado, Georges - também picado por João Gilberto -, tinha o objetivo de conhecer o músico e fazer com que ele cantasse a canção preferida de Fischer. Fiel ao livro, emocionante do início ao fim. (Foto: Reprodução) É difícil imaginar que um músico que revolucionou a bossa nova tenha escolhido se esconder; não dar continuidade ao legado que criou - se bem que Torquato Neto dizia que quando o artista não tem mais o que entregar, acaba-se a vida. João Gilberto sempre foi complexo, para o setor musical e para nós, seres humanos, porém, nunca precisamos procurá-lo para confirmar sua existência: ele sempre esteve presente pelas ruas cariocas, cantando baixinho suas canções, levando a felicidade que sempre procuramos.

Os Desafios de uma Pandemia: História que Ninguém Conta

Chega na estação do metrô São Paulo-Morumbi, a exposição “Os Desafios de uma Pandemia: História que Ninguém Conta” que reúne versos, prosas, contos, poemas e relatos de pessoas em situação de rua retratando a sobrevivência durante a pandemia de Covid-19. O projeto é idealizado pelo Arsenal da Esperança, instituição que dá assistência para pessoas em situação de vulnerabilidade. Além do acolhimento, o Arsenal promove anualmente um concurso literário com o objetivo de estimular o intelecto destas pessoas. Neste ano, o desafio foi retratar o período conturbado para o mundo e como os olhos observaram a pandemia. Os três primeiros colocados são: Ezequias F. que, em forma de poema mostrou a fragilidade de todas as vidas; Leandro A., que abordou, em uma crônica cotidiana, o contágio do amor que a doença trouxe à tona; e Walter T., que em versos, retratou a dor de quem vive na rua e se vê diante da vulnerabilidade. Com apoio da ViaQuatro e ViaMobilidade, concessionárias responsáveis pela operação e manutenção das linhas Amarela e Lilás do metrô, a exposição começa na linha 4 amarela São Paulo-Morumbi até o dia 31 de outubro. Em seguida, a mostra poderá ser vista na estação Paulista (linha 4-amarela) e Largo Treze e Santa Cruz (linha 5-lilás). A curadoria fica por conta Patrícia Strebinger e Deserre Suslick, com fotografia de Mônica Zanon. Esse mês, acontece o lançamento oficial do livro que leva o mesmo nome da exposição, na sede do Arsenal da Esperança, localizado nas instalações da antiga Hospedaria de Imigrantes. Todo dinheiro arrecadado será revertido para as atividades promovidas pelo Arsenal e para construção de trailers de banho itinerantes para moradores em situação de rua, projeto do Banho da Esperança.

As mutações de MEL

"Mutante", música escrita por Rita Lee e Roberto de Carvalho marcou muitas gerações. Lançado em 1981, o casal criou um indivíduo que tenta se adaptar com as mutações de um relacionamento. Dançante, a música contém ironia, um leve toque de amargura e elementos lúdicos. Quatro décadas depois do seu lançamento a música que continua presente nos dias atuais, ganhou nova versão por MEL, com lançamento via selo Let's Gig e distribuição da Altafonte. Após o lançamento do single "A Partir de Hoje" no ano passado, que deu start para sua carreira solo, MEL volta com a primeira de uma sequência de releituras de músicas que foram trilhas e referências para sua trajetória. Assim como Rita, MEL está em constante mutação, buscando o melhor para si todos os dias - e não é só isso. As duas cantoras têm muito em comum: participaram de uma banda (Os Mutantes e Banda Uó), passam por turbulências e sobrevivem com um toque de deboche e ironia - características que estão presentes na canção. Rita e MEL são mutantes. A música foi escolhida a dedo, ou seja, a cantora e compositora tem uma história com ela: "É uma canção que ouço bastante desde 2002. E seguiu comigo durante muito tempo. "Mutante" fala de rejeição, né? Mas também tem um tom de deboche. É sobre estar junto e se sentir só e sempre em processo. De alguma forma essa música acompanhou minha transição e foi uma das principais trilhas. Por isso ela é parte da minha lista de releituras". Leia também: Mish: o duo plural que quer colocar todo mundo para dançar As mutações de Liv Ullmann O novo normal de Kaya Rodrigues "Mutante" é uma música que você ouviu e continua ouvindo muito. O significado da canção mudou para você de 2002 para 2021? Bom, de 2002 para 2021, muitas coisas mudaram, né?! Eu morava em Goiânia, agora moro em São Paulo há mais de dez anos. Passei por uma banda… Ou seja, muitas transformações, muitas mutações aconteceram durante esse processo todo. É uma música, de alguma forma, que permanece nessa mutação o tempo todo. Então, ela ganha significados, ela só agrega significados a ela. Pra mim, é uma música que diz muito sobre relacionamentos, também sobre finais, recomeços e sobre manter o bom humor - é uma música que ela só ganha significados pra mim, ela nunca perdeu e nunca se transformou totalmente, ela já é uma transformação. Sua versão é voltada para a bossa nova. Como foi chegar e trabalhar com esse ritmo? Quando surgiu a ideia de fazer "Mutante", eu conversei bastante com os meninos do Deep Leaks, os produtores maravilhosos e a gente foi tentando chegar em algo que tinha a minha cara, que também fosse novo, fosse diferente das outras versões que já tem dessa canção e que fizesse uma revisitação em alguma sonoridade. A gente acabou chegando nessa versão que tem um pouco de bossa nova, mas que não é totalmente bossa nova, eu diria que é uma bossa nova nova [risos], porque ganhou a minha cara também. Foi assim que a gente chegando nesse ritmo, com algumas experimentações, algumas observações de artistas internacionais que estão usando a bossa nova, então, como é uma sonoridade brasileira e que é nossa, eu prefiro que seja a gente trabalhando com ela do que entregar isso para outras pessoas. "Mutante" é uma música debochada que fala sobre transformações - e você passou por muitas. Você continua se transformando, certo? Para onde essas transformações estão te levando? É possível descrevê-las? Acho que parte das transformações que eu vivo, eu posso descrever. Eu me tornei uma mulher mais madura, na idade também, e acho que tudo isso acaba voltando para o que a gente faz, para o nosso trabalho, planejamentos de carreira e tudo mais… A gente não é tão mais "se joga", a gente vai planejando, entendendo como vão ser as coisas, até onde a gente pode repercutir e tudo mais… Até as nossas maiores transgressões são totalmente programadas - pelo menos parte delas. O que eu posso dizer sobre as minhas transformações é que elas vão continuar acontecendo. Eu passei por um processo, depois da Banda Uó, de experimentação de várias sonoridades, coisas até hoje que ainda não foram publicadas, o público ainda não pode ouvir - são partes desse aprendizado que eu estou tendo. O que eu posso dizer sobre essas transformações é que vai vir um disco muito bonito, um disco que fala sobre a minha vivência, que fala sobre esse êxito das minhas raízes goianas, não que seja algo country ou sertanejo, mas talvez tenha uma coisa aí que venha com isso… Enfim, é um disco que vem falar sobre a Mel e a Mel tem várias caras, a Mel é uma artista multifacetada, então, essas transformações estarão presentes nesse próximo trabalho, nesse trabalho grande e é isso que eu posso adiantar. A mutação de MEL também está presente na capa do single: clicada por Ivan Erick com a assistência de Gael Oliveira, a cantora dá uma nova cara à Medusa, filha de Fórcis e Ceto, que transformava em pedra quem a olhasse diretamente nos olhos. Para dar continuidade a mitologia grega, o diretor e designer Rodrigo Carvalho desenvolveu uma caverna âmbar 3D onde a medusa geneticamente modificada estaria. O indivíduo que Rita criou ganha forma pelos olhos de MEL. "Pena que você não me quis / Não me suicidei por um triz / Ai de mim que sou assim" Para o futuro, MEL está se preparando para entregar uma nova releitura, dessa vez é a música "Emoriô", original de João Donato e Gilberto Gil. Outras novidades devem sair em breve, consequência das mutações constantes de MEL.

A divina comédia de Nick Cave

Em "A Divina Comédia", Dante Alighieri narra a sua trajetória no submundo que conta com três reinos: Inferno, Purgatório e Paraíso. De um vale doloroso, passando por uma reparação (palavra empregada no sentido de consertar algo que foi quebrado) até chegar em um bem-estar (modo encontrado para conviver com a reparação). Três caminhos diferentes com dores e felicidades. De um jeito desalinhado, ou seja, sem seguir a ordem de Dante, Nick Cave fez o trajeto do escritor italiano: de seus escritos poéticos ao sucesso, desencadeando vícios em drogas que foram exorcizadas com a pureza de seus filhos. Inferno, Purgatório e Paraíso. Para Dante, o paraíso (empregado agora em letras minúsculas, já que ele é o coadjuvante desse texto) era retratado como um "conjunto de esferas concêntricas que cercam a terra" - um lugar extremamente bonito, onde era possível viver com o grande amor de sua vida, Beatrice. Dizem que o "paraíso" (usado entre aspas para provocar o leitor) não tem uma forma concreta, ele é criado de acordo com gostos, tradições, sentimentos e ideologias. Escrevo sobre isso para ressaltar que Cave ainda não encontrou e nem possui o paraíso; pelo contrário, ele continua buscando algo (não sabemos o que é, as interpretações são livres), mas no meio do caminho, fez de suas dores e perdas uma maneira de continuar seguindo em frente. Explico melhor: Ao lado da The Bad Seeds, Nick Cave conta, canta e recita belas histórias, com uma pontada de nostalgia (presente em todas suas obras) em "Push The Sky Away"(Bad Seed Ltd, 2013). Misturando guitarras com um coro infantil, o artista mergulha em um mar profundo que contém escuridão e seres mitológicos, como é o caso da sereia ("Mermaids") - também presente em "Ulysses" de James Joyce e "Odisseia" de Homero. Um paralelo entre o real e o imaginário. Os sentimentos obscuros e a morte sempre rondaram (continuam rondando) o artista. Inclusive, esses temas estão em "Skeleton Tree" (2016), sucessor de "Push The Sky Away". Durante a produção do disco, o filho de 15 anos de Nick morreu após cair de um penhasco. Mesmo com as músicas já finalizadas, a perda do filho impactou a obra: Cave volta ao Inferno para lidar com a morte e o luto. A atmosfera de suas apresentações demonstraram muito bem esse sentimento. Inclusive, uma equipe de filmagem acompanhou a produção do álbum quando aconteceu a tragédia. Cave deu continuidade às filmagens, como forma de não fechar o seu mundo, de se aproximar com o bem-estar (tentativa de lidar com o vazio) - o resultado está em "One More Time With Feeling" (Andrew Dominik, 2016). Leia também: Impressões: Carnage China continua resistindo em dias mortos Os pedaços de Edith Elek Dante e Odisseu viajaram por muito tempo até encontrarem seus próprios paraísos. Nick continua seguindo o seu caminho, vagando em alguns momentos pelo Purgatório, afinal, demônios e pesadelos continuam com ele. "Não tenha pressa, meu amigo", sussurro para ele. A vida é assim: precisamos do nosso próprio tempo para aceitar e compreender a dor. No entanto, foi através da arte que o músico encontrou para falar (e passar) pelas fases do luto - que também não seguem uma ordem específica. Vagando pelos três reinos e nadando contra a correnteza do mar obscuro, surge "Ghosteen" (2019), o 17° registro de Nick Cave and The Bad Seeds. O álbum reflete sobre a morte prematura do filho. Morte, perda, luto, existencialismo, otimismo, amor e fé são encontrados durante as onze músicas que são divididas em duas partes. Cave explicou que encontrou uma maneira de escrever além do trauma em sua casa, em Brighton, Inglaterra: "Tratar de todos os tipos de assunto, mas sem voltar as coisas ao tema da morte do meu filho. Tentei ir além do pessoal e chegar a um estado de contemplação: fazendo isso, as cores voltaram às coisas com uma nova intensidade, e o mundo pareceu novo, claro e brilhante". No entanto, o disco também abraça o ouvinte que tenha passado por uma perda. Quando mergulhamos em "Ghosteen", algumas músicas caem como uma luva para as três "estações" em que o artista passou. "Galleon Ship", por exemplo, pode ser o Inferno: "If I could sail a galleon ship / Long lonely rider cross the sky / Seek out mysteries while you sleep / And treasures money cannot buy". O Purgatório soa como "Spinning Song", após a dor, uma saída será encontrada e com ela o amor intensificará - "And I love you / Peace will come / Peace will come / Peace will come in time". O formato do Paraíso de Cave começa na capa do álbum: um ambiente místico, colorido, com cavalos e fantasia - um mundo onde é possível ser o que quiser e estar ao lado de seu filho. "Bright Horses" complementa essa ideia: "And everyone is hiding and no one makes a sound / And I’m by your side and I’m holding your hand / Bright horses of wonder springing from your burning hand". Ouvindo o apito, Nick encontra-se, novamente, com o seu bebê. "Ghosteen" é a parte final da trilogia que conta com "Skeleton Tree" e "Push The Sky Away", assim como o mundo escrito por Dante. Inferno, Purgatório e Paraíso - a vida como ela é. Nick Cave fez de sua divina comédia em uma obra-prima que além de continuar guiando-o, auxilia e emociona quem ouve. Depois da morte, o mundo não acaba, pelo contrário, ele continua e não vai parar só por conta do vazio. Inferno, Purgatório e Paraíso. Como Nick fez, é preciso encontrar um meio para continuar, porque existe mais, sempre mais.

12° Brasil CineMundi

A 12° edição do Brasil CineMundi acontece no mesmo dia que a 15° CineBH - Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte, entre os dias 28 de setembro e 3 de outubro, online e gratuita. O Brasil CineMundi tem o propósito de apresentar ao mercado projetos de filmes brasileiros em longa-metragem, facilitando as conexões entre as produções e o mercado internacional por meio de parcerias produtivas e da troca de informações e ações. Para a nova edição, foram selecionados 45 projetos por um comitê composto por colaboradores nacionais e internacionais: Paulo de Carvalho (Alemanha), Gudula Meinzolt (Suíça), Séverine Roinssard (França), Pedro Butcher (Brasil) e a equipe da Universo Produção. Os projetos foram divididos em diversas categorias: "Em Desenvolvimento" está subdividida em "Horizonte" (antiga categoria CineMundi), "Doc Brasil Meeting" sobre documentários e o "Foco Minas", projetos de Minas Gerais. O festival tem uma novidade esse ano: "Paradiso Multiplica", resultado de parceria com o Projeto Paradiso, incubadora de talentos, na oferta de mentoria de roteiro através de encontros com profissionais do programa. Para finalizar, as outras categorias são "Produção", para projetos em fase de realização e "Finalizado", para filmes em busca de distribuição e vendas. Confira todas as informações do Brasil CineMundi no site oficial, acesse: https://brasilcinemundi.com.br/

15° CineBH - Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte

A 15° CineBH - Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte já tem data para acontecer: online e gratuita, a mostra será realizada nos dias 28 de setembro a 3 de outubro. Esse ano, a temática central do evento é "Cinema e Vigilância", que tem o objetivo de refletir e debater o tema que faz parte do nosso dia a dia. Com a curadoria de Pedro Butcher, Francis Vogner dos Reis, Marcelo Miranda e Paula Kimo, a 15° CineBH exibirá 90 títulos, sendo eles 31 longas, 1 média, 56 curtas e 2 work in progress, com produções e coproduções de 12 estados do Brasil e de 17 países em recortes que, na maioria, dialogam com a temática central do evento. Além dos filmes que estão divididos em oito categorias, a Mostra também terá rodas de conversa e show case, oficinas, laboratórios de roteiros, workshops e masterclasses internacionais. Para conferir todas as informações, acesse: https://cinebh.com.br/