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Festival Poesia no Centro 2026

Festival Poesia no Centro 2026

O centro de São Paulo volta a se transformar em território de encontros literários com a chegada da segunda edição do Festival Poesia no Centro 2026, promovido pela Livraria Megafauna. Reunindo autores brasileiros e internacionais, o evento aposta na diversidade de vozes e linguagens para aproximar o público da poesia contemporânea em diferentes espaços culturais da capital paulista. Realizado entre os dias 15 a 17 de maio, o Festival Poesia no Centro 2026 ocupa o auditório do Teatro Cultura Artística, livrarias independentes, museus, bibliotecas e centros culturais espalhados pela região central da cidade. Antes mesmo da abertura oficial, o evento leva oficinas, leituras, encontros e performances para espaços parceiros, fortalecendo a proposta de circulação da literatura pelo centro paulistano. Entre os locais participantes estão a Biblioteca Mário de Andrade, o Museu da Língua Portuguesa, o Sesc 24 de Maio e livrarias como a Livraria Martins Fontes – Vila Nova. A proposta desta edição é apresentar uma "cena múltipla e inquieta", capaz de romper fronteiras entre gêneros e formatos. O evento reúne cerca de quarenta poetas, artistas e mediadores vindos de diferentes regiões do Brasil e de países como Alemanha, Chile, México, Portugal, Rússia e Estados Unidos. Além das mesas de debate, o festival aposta em performances, leituras públicas e encontros que expandem a poesia para além do livro. A presença de artistas que transitam entre escrita, música, tradução e performance reforça a ideia de que o poema pode ocupar diferentes formatos e espaços. Confira a programação completa do festival aqui.

Alice Caymmi: Caymmi

Alice Caymmi: Caymmi

Existem músicas que atravessam gerações criando memórias afetivas. Lembro de ouvir "É Doce Morrer no Mar", "Noite de Temporal" e "O que é que a Baiana Tem" com familiares, criando uma conexão emocional. Quando ouço as canções de Dorival Caymmi (1914 - 2008), me transporto para os momentos que não voltam. Por isso, fiquei feliz com o novo disco Caymmi (Daluz Música, 2026), de Alice Caymmi, que mantém vivo o legado do avô. (Créditos: Divulgação / Reprodução) Alice se recusa em deixar Dorival no pedestal intocável da música brasileira. Em vez de seguir pelo caminho previsível das releituras tradicionais, ela desloca as canções para novas atmosferas, aproximando a obra do avô da música eletrônica e dos ritmos latino-americanos. Dessa maneira, a cantora aproxima as canções com novas gerações, já que os estilos dialogam diretamente com a contemporaneidade. Produzido por Iuri Rio Branco e lançado no aniversário de 112 anos de Dorival Caymmi, Caymmi não reproduz o passado; pelo contrário, ele provoca. Alice canta como quem deseja abrir fissuras em um repertório já cristalizado pela memória afetiva brasileira - e esse é o maior mérito do projeto. Dorival é um compositor tão monumental que repetir suas interpretações seria apenas redundante. Leia também: Inside Llewyn Davis Animal Invisível ocupa o mundo após nascer no silêncio Ponto de Curva O clássico "O que é que a baiana tem?" abre o disco com uma versão dançante, contrastando logo em seguida com "Acalanto", em que a voz de Alice brinca com elementos eletrônicos na canção de ninar. O reggae surge em "Modinha Para Gabriela", enquanto os ritmos caribenhos aparecem em "Canção da Partida". Em "Maracangalha", Alice abandona a leveza folclórica da versão original para mergulhar em uma sonoridade quente, quase carnavalesca, que evidencia a proposta do álbum: atualizar Dorival Caymmi sem apagar sua essência. Em "Dora", Alice desacelera a canção e cria uma interpretação mais dramática, sustentada pela força grave de sua voz, enquanto "Canto de Obá" invoca a emoção ao pedir a proteção de Xangô para sua linhagem familiar. A leitura criada no disco se aproxima de uma América Latina quente, híbrida e contemporânea, sem apagar a força poética original das canções. No fim, Caymmi me parece menos um tributo e mais uma conversa entre gerações. Alice entende que manter viva a obra do avô não significa congelá-la no tempo, mas permitir que ela continue respirando em novos contextos - ainda bem.

O florescer íntimo e autoral de Lucas Higashi

O florescer íntimo e autoral de Lucas Higashi

A primeira vez que conversei com Lucas Higashi foi em 2024, durante o lançamento do EP Epílogos dos Entardeceres, trabalho que concluía a trilogia iniciada na pandemia. Na época, o artista revisitava a trajetória dos avós para compreender as ações de seus familiares e, consequentemente, entender a si mesmo. Agora, Lucas floresce artisticamente em seu primeiro álbum, Floração Tardia (2026), transformando experiências íntimas em canções que revelam um músico mais maduro e consciente da própria identidade. Com 13 faixas que transitam entre folk, pop, forró e MPB, o disco marca uma nova etapa na trajetória de Higashi. Dessa vez, o cantor e compositor mergulha em inquietações pessoais que dialogam diretamente com a geração Z, abordando amor, relacionamentos, términos, frustrações e o desejo constante de pertencimento. Dessa maneira, a maturidade de Lucas Higashi aparece justamente na forma como conduz essas narrativas. Há delicadeza ao retratar as inseguranças da juventude e o fim de um relacionamento, mas também firmeza estética e emocional em um trabalho que assume suas referências sem receio - como canta em "Meu Jardim": "só eu que volto a mim." Leia também: Bruna Lucchesi percorre sua estrada em Bandoleira Afeto e Outros Esportes de Contato Virgin No seu último EP, você trabalhou questões familiares que focavam em suas origens. Agora, com o seu primeiro disco, você vai para outro tema, mas a questão biográfica continua presente. Por que insistir nesse gênero? Eu sou artista, eu faço várias coisas. Eu sou ilustrador, eu faço design gráfico, eu sou pintor, poeta, enfim, várias coisas. Eu sempre vi na música como o lugar que eu sentia que deveria ser mais honesto, onde deveria me tocar mais. Eu acho que, pra mim, não tinha como [não seguir para esse caminho], pelo menos ao meu ver - no jeito que eu crio, de ser tão cru e visceral naquilo que eu quero dizer, sem falar daquilo que eu vivi e das experiências que eu tive. Eu também acho muito chique poder ver minha vida com esses discos, sabe? É muito engraçado que eu vejo a linha do tempo e eu consigo demarcar. Eu sinto que o Floração Tardia começa um novo ciclo, mas ele fecha um ciclo muito importante na minha vida… Eu acho legal porque eu lembro da época de Capítulos da Alvorada (2021), Versículos da Madrugada (2023) e Epílogos do Entardecer. Eu gosto de incorporar o meu trabalho na minha vida de uma maneira que eu não acho que seja tão turvo assim, eu consigo encaixar bem as coisas. Eu gosto, eu acho legal. Você falou que a música tem que ser um lugar ali mais sincero. Nas outras artes você consegue se esconder um pouco mais? Eu acho que sim, porque na ilustração, no design gráfico, nos poemas, a gente consegue... Por mais que na música a gente tenha o processo de produção, de editar, incorporar efeitos e tudo mais, eu acho que no final do dia existe uma certa catarse da música… Você obedece à música, né? Eu sinto a música e só a obedeço, sabe? E eu acho que nas outras artes, tipo, ilustração, você vê na pintura, por exemplo, você às vezes tem que recorrer a um contexto. A imagem, as cores e isso dá um impacto, com certeza, e com certeza tem o seu mérito, o seu valor, só que eu acho que com a música, por ela ser essa coisa tão abstrata e tão invisível, você tem que dar atenção e acho que ela pega num lugar que nenhuma outra arte pega, sabe? E eu acho que com a imagem, principalmente com o visual, a gente consegue meio que esconder alguns defeitinhos, alguns erros, vamos dizer assim. Diferente da música. Acho que a música, se ela é pra pegar você, ela te pega, sabe? Acho que não tem muito pra onde correr. (Créditos: Divulgação/Reprodução) Quando conversamos pela primeira vez, falamos sobre viver a juventude na pandemia. Lembro que você comentou que não viveu o que queria viver. O título do disco tem relação com essa questão ou tem outra história por trás? É engraçado porque eu tive a ideia do nome no finalzinho da pandemia. Então eu acho que ele marca esse primeiro ciclo, né, junto com os primeiros EPs também. Eu acho que, com certeza, tá tudo interligado, de uma certa forma. Eu acho, sim, que tem uma relação. Só que eu acho que, pra esse álbum, o Floração Tardia, pra mim, era muito mais essa minha luta e essa minha angústia com desejo que vem com essa floração tardia. Nossa, agora que eu estou aqui, que eu estou florindo tardiamente, eu sinto que eu ainda tenho muita coisa pra ir atrás. Eu ainda tenho essa angústia toda. Então eu acho que é mais focado nesse sentimento. Eu acho que os EPs, eles exploravam outros lugares… Na verdade, ele não foi tão conceitual assim. Eu acho que eu só fui fazendo as músicas, na verdade, mas eu fui percebendo que existia um tema que costurava tudo e eu acho que esse era o desejo. Por isso que eu acho que tem esse nome também, floração tardia. Quando você decidiu o nome, no final da pandemia, dá a entender que você conseguiu compreender várias questões dentro de si. Hoje você é o Lucas que gostaria de ter sido antes? Não, não. [risos] É engraçado, né? Nossa, eu em 2022 ou 2023, eu acho que até queria muito [viver] esse tempo que eu perdi, né? Eu acho que hoje eu entendo que não é que eu perdi, foi só diferente, né? Eu acho que a gente sempre pega nesse “e se”, né? Mas eu venho fazendo o exercício de aceitar como as coisas foram e de fazer serem melhores a partir de agora e não ficar nessa luta do que poderia ter sido e tal. Porque esse ruminar só faz mal, tanto que eu ruminei muito em algumas músicas. Então, acho que hoje em dia eu percebo até a questão da pandemia, que eu acho que tinha um propósito, tinha uma razão. Eu acho que eu, com certeza, não seria o artista que eu sou hoje se não fosse a pandemia, porque a minha ideia inicial lá, quando era jovenzinho, era tipo, eu vou pra faculdade, eu vou conhecer um produtor, vou conhecer algum músico, vou fazer música… Aquela idealização, né? É, era todo aquele sonho, né? Ah, talvez eu tenha uma banda e tal. Aí veio a pandemia e eu falei “não, vou ter que me virar sozinho.” Aí eu pude construir a minha identidade sonora e artística, né, que eu valorizo muito hoje em dia. Agora que você floresceu, pra onde você quer ir? Rapaz, essa é uma pergunta, né?! [risos] Quando eu tava fazendo esse álbum, eu tinha algumas sementinhas plantando, né? Eu viajo daqui a 10 dias pra uma bolsa de estudos pro Japão e eu vou ficar lá 10 meses. Originalmente, eu ia lançar o álbum, eu ia fazer shows, eu ia realmente investir, né, em promover esse álbum aqui no Brasil e tudo mais, além de colocar meu nome em vários lugares e tal. Só que aí deu certo essa oportunidade e eu falei “vou tentar, por que não?!” Deu certo e eu tive que dar uma pausa, mas eu vou focar um pouco em outras coisas. E eu acho que o agora, meus próximos passos, depois de florescer, é colher os frutos do Floração, de alguma forma. Eu acho que ainda é meio cedo pra dizer que já tô colhendo alguma coisa, mas eu tô muito feliz com os resultados. Eu tô afim de viver, eu tô afim de aprender coisas novas e abrir meu olhar pro horizonte e realmente virar o meu mundo de ponta cabeça, né, porque o Japão é do outro lado do mundo. Eu tô animado pra ter um novo olhar sobre o que eu posso fazer também de música. Eu tô indo lá pra estudar, mas eu tô, tipo, muito afim de mergulhar também no que eu posso criar, se eu conseguir criar por lá, sabe? Eu tô bem de peito aberto pra essas novas coisas. Além de ser um álbum muito biográfico, traz também muitas questões geracionais. Como somos de gerações diferentes, te pergunto: como a sua geração tá e como ela deve melhorar pra diminuir um pouco essas angústias, essas lacunas da vida? Ai, que pergunta difícil. Eu acho que eu não sou autoridade nenhuma pra falar. [risos] Eu venho olhando, pelo menos pra minha jornada, né. Eu acho que eu venho tentando olhar com mais carinho toda essa angústia, porque antes eu ficava “não, eu quero ter um apartamento, eu quero ter grana pra viajar, eu quero ter uma casa, eu quero ter um carro”, todas essas angústias. Hoje em dia eu acho que essa angústia é justamente porque eu quero e se eu quero, eu posso ir atrás. Eu venho olhando, pelo menos, pra minha jornada, tipo, se eu tenho essa vontade é porque eu tenho, se existe essa pulsão por viver e ter coisas que eu quero pra minha vida, existe força pra eu conseguir ir atrás delas e fazer elas acontecerem. Então eu acho que é aprender a ser paciente, né. Vamos dar um passo de cada vez, porque às vezes é melhor dar um passo que você tem firmeza do que se preparar pra dar cinco e você cair, sabe? Então eu prefiro ser um pouco mais paciente e olhar as coisas com mais calma, que tem essa sensação, essa afobação de que tudo é pra ontem, mas às vezes o amanhã chega e era pro dia seguinte, pra semana que vem, entende? Então eu acho que eu venho aprendendo a ter um pouco mais de calma nesse caminhar. Eu acho que a minha geração poderia também ter um pouquinho mais de calma, porque eu acho que o mundo não pede calma da gente, né. Você traz também muitas questões de desejos, frustrações, algo muito seu e também geracional. Como foi se expor desse jeito? Teve músicas que eu pensei se eu ia lançar ou não. Eu tenho pra mim um norte muito forte que a arte me ajuda a não me sentir só. Tive contato com o sublime, né, essa coisa toda da catarse da arte. Foram músicas que descreviam exatamente aquilo que eu sentia. E, às vezes, era uma coisa muito visceral, às vezes, era um sentimento muito difícil. E eu acho que eu, como artista, e como aprendiz desses artistas que não me fizeram sentir sozinho, eu não quero fazer as pessoas se sentirem sozinhas também. E talvez tenha coisas que eu possa dizer que vai fazer essas pessoas não se sentirem tão sozinhas. Nossa, eu tô repetindo muito. [risos] Eu acho que a minha vontade de viver tem que ser maior do que o meu medo de algumas coisas, sabe? Mesmo se você fizer a coisa mais certinha do mundo, as pessoas ainda vão falar de ti, então, eu prefiro fazer um trabalho que eu acredito e que eu vejo verdade - pra mim é importante dizer aquilo. Eu sei que alguma pessoa vai se identificar com aquilo e pra mim isso já vale a pena, sabe? Em “Insaciável” você diz que quer ser tudo que deseja. O que você deseja? Por que precisamos nos tornar outra pessoa para alcançar o outro? Especificamente “Insaciável”, eu acho que era o meu people pleaser falando. Eu tava passando por um término e eu sempre peço desculpas, mesmo não querendo, mesmo não achando que eu deveria, porque eu prefiro ser visto como vilão do que uma pessoa sofredora. É um pouco diferente o meu people pleaser, né? [risos] Eu já tô acostumado por ser a ovelha negra, por ser a coisa ruim, então, pode falar que eu sou a coisa ruim, sabe? E eu queria ser tudo que você deseja, sabe? É nesse sentido. O álbum, eu não sei se eu... Eu acho que essa questão que você trouxe, realmente eu não abordei, de sentir suficiente, né? Eu acho que no final do dia eu ainda procuro melhorar. Mas isso também não é ruim? Não é um peso? É, com certeza. Mas, assim, eu acho que tem que saber dosar, né? Eu acho, pelo menos eu gosto de pensar, que eu ainda tenho isso equilibrado, não é uma cobrança exagerada. Eu acho que no álbum, realmente, eu não trabalhei isso, mas, pessoalmente, eu gosto de quem eu sou. Eu gosto do que eu venho conquistando, do que eu venho fazendo, do meu trabalho, da pessoa que eu sou. Eu acho que eu sou, sim, suficiente. Mas, pessoalmente... Ah, eu gosto de quem eu sou. Eu gosto de... Do que eu venho conquistando, do que eu venho fazendo, do meu trabalho, da pessoa que eu sou. Eu acho que eu sou, sim, suficiente. Eu acho que esse desejo de querer ser outras coisas vem muito da minha vontade de agradar os outros, de poder ser o que a pessoa precisa naquele momento. Essa questão me fez pensar muito sobre "Caravaggiano", canção que você deixa explícito que quer ser uma espécie perfeita, uma obra de arte. Porém, se você quer ser uma obra de arte, é algo que você está idealizando… Essa ideia não anula o desejo? Acho que concordo com sua fala porque "Caravaggiano" é especificamente… É difícil sintetizar pra uma coisa só. Só que pra mim é muito a minha relação com a branquitude, com o padrão de beleza, os padrões estéticos brancos de beleza. E pra mim, eu associo muito essa espécie perfeita, esse cânone da obra de arte ao mundo das artes europeu, por isso Caravaggio e tal. Mas nessa sua pergunta, eu acho que existe um desejo meu de poder ser, querer ser eu, mas aí existe um movimento meu de performar ou tentar ser aquilo que se aproxima desse ideal. "Caravaggiano" é a minha perturbação com o ideal de beleza branco e tudo mais, o desejo imposto nesse lugar. (Capa feita por Lucas Higashi) Além do desejo, você também traz o amor, mesmo quando ele acaba, se tornando outra coisa. O que o amor representa para você nessa narrativa que você criou? Que pergunta legal! [silêncio] Eu amo o amor. No final do dia eu sou romântico. Eu sou um homem romântico. Eu acho que, pra mim, eu venho olhando o amor como crescer juntos. O relacionamento que originou as músicas de amor e de desamor também foi meu primeiro relacionamento e fui descobrindo como estar num relacionamento e estar apaixonado e num relacionamento mútuo, sabe? Aquele coisa toda. É intenso, foi muitos altos e baixos… Eu aprendi muita coisa. Hoje em dia eu olho para as relações - e no meu atual relacionamento - como um lugar de crescermos juntos, para partilharmos a vida juntos, sabe? Querer ensinar coisas e de se apoiar… Eu acho que isso pra mim é amor. Eu acho que “Ambrosia” é uma linda canção de amor - até hoje eu ouço e falo “gente, eu tava apaixonado!” Acho essa música linda e acho que tudo vale a pena no final do dia, sabe? Como foi reformular esse amor em cada fase de um relacionamento? Nossa, eu lembro que essa época do ano, há um ano atrás, fazia um mês que eu tinha lançado “Ambrosia” e eu queria tirar ela dos streamings. Eu falei “meu Deus, como é que eu pude lançar essa música de amor depois de terminar?” Porque era ainda simbólico, eu ainda tinha um pouquinho de esperança, eu ainda tinha sentimento, sabe? Mas aí, conforme o tempo foi passando, veio aquele momento de virar a página, mas não conseguir ainda. Foi uma jornada difícil, não vou mentir, mas eu acho que eu sabia que algumas coisas não foram arrancadas de uma maneira tão cega… Eu acho que teve coisas que levaram a esse resultado final. Eu precisava falar pra mim mesmo que iria passar, que iria dar certo e que iria melhorar. Então, eu não sei, eu acho que eu acho que acima de tudo foi muito importante e eu valorizo muito todo o processo, todos os sentimentos. "Garoto Decepção" e "Canção de Solidão" são músicas extremamente confessionais e até duras de serem ouvidas. Como foi explorar esse sentimento, trazer isso à tona e cantar? Eu acho que nesse disco tem músicas que eu falo que eu precisei da vida toda para escrevê-las. Eu acho que tem canções que aconteceram coisas que levaram a essas canções, enquanto outras eu venho acompanhando há muito tempo - essas duas são exemplos disso. “Garoto Decepção” é uma daquelas [músicas] que a gente não ouve sempre, né, ouve quando quer entender algumas coisas. Eu tenho muito orgulho dela, eu acho que eu fiz ela para a minha criança interna ou o jovenzinho que se tivesse ouvido uma música assim quando era criança, seria um pouquinho mais fácil. Eu sempre tento ter um norte, uma bússola… Eu quero fazer música que eu queria ter ouvido ou que quero ouvir no mundo. Agora, “Canção de Solidão” é muito engraçado, porque uma vez eu fui cantar ela e [percebi] que os acordes dela são meio felizes, a melodia não é tão triste, mas quando você presta atenção na letra, você fala “o que é isso?” Eu a fiz em 2023, nem lembro quando foi, mas era um momento que eu realmente tava passando muito tempo sozinho e falava “será que eu vou morrer sozinho?” “O que eu faço?” “Eu não sei com quem falar, nem sei pra onde ir”, sabe? Um sentimento de prisão, parece que não tem escapatória, mas hoje em dia melhorou. Eu acho que são as músicas mais difíceis de serem lançadas, né, de você colocar no mundo e falar “nossa, será que eu quero que as pessoas saibam que eu me vejo ou eu lido com algumas coisas desse jeito”, sabe? Mas é aquilo, requer coragem e eu acredito no que eu faço, então... Diferente dos seus trabalhos anteriores, esse álbum mistura vários gêneros musicais também. Como foi sair de seus trabalhos anteriores e misturar e criar essa narrativa? É engraçado porque na minha cabeça, a trilogia de EPs são meio que os pilares da minha sonoridade, da minha produção. Eu ficava, tipo, “essa [música] aqui é muito filho desse EP com esse EP.” Eu acho que para esse disco, eu quis muito brincar com essa minha discografia, com esse meu som que eu vinha produzindo. Eu fiz uma viagem, no ano passado, para Maceió, com a minha família, e foi super legal. Eu ouvi muito forrozinho que tocava nos restaurantes e eu comecei a ouvir muito João Gomes também. Eu tinha lançado Epílogos, que é sobre meus avós, e o meu avô materno era pernambucano. Então fez muito sentido incorporar essa minha ancestralidade do Nordeste, porque eu já sempre gostei do forró, mas eu não consumia tanto… Aqui no interior de São Paulo, existe um movimento do caipira que incorpora o forró também que eu sempre achei muito legal. Até que falei “cara, eu quero fazer um grande panelão de coisas”, sabe? Porque, acima de tudo, eu queria fazer um disco que fosse genuinamente eu. Eu sou essa grande panelada de gêneros e de coisas e de letras e experiências, e eu acho que o disco faz sentido também. Os sentimentos de Lucas Higashi retratados em pintura Além da música, Lucas Higashi expandiu o universo emocional de Floração Tardia para as artes visuais. Responsável pela pintura que estampa a capa do álbum, o músico transformou em telas os mesmos sentimentos presentes nas canções, criando imagens que dialogam com as vulnerabilidades, memórias e desejos narrados ao longo do disco. "Esse disco e toda a direção de arte dele é envolto da cor verde, tanto pelo meu gosto pessoal quanto pela ideia de uma floração tardia, algo que veio depois ser ainda algo verde, imaturo, me fascinava a ideia de floração verde. Todas as telas foram feitas por mim, em tinta acrílica, a maioria no tamanho 20x20cm mas algumas em 30x30cm. Queria que para além de uma mera ilustração de cada faixa, ela pudesse ir além, utlizar das potencialidades de interpretação da própria pintura para tecer novos significados na música. Fazendo o meu diploma de comunicação e multimeios valer a pena [risos].", explica. (Créditos: Lucas Higashi)

Conheça: Um Resgate Não Será Possível

Conheça: Um Resgate Não Será Possível

Intenso, real, desesperador e alto (muito alto!). Essas são algumas características para descrever Um Resgate Não Será Possível, trio formado em 2021 por Pedro Pipano, Lucas Bazzani e Raul Lorenzeti. Misturando noise, indie, psicodelia e rock, a banda canta, a partir de um borrão, sobre a pandemia, dialogando com a realidade que continua não sendo fácil. (Créditos: Paula Cavalcante) Após a divulgação de "Mil Platôs" e "Você Me Viu Chorar", singles apresentados no ano passado, o trio apresenta EP (2026), trabalho que tenta oferecer algum alento às loucuras que rondam a vida desde a criação da banda. Mesmo cantando sobre a realidade, ou seja, desgraças cotidianas, frustrações e pequenos colapsos emocionais, Um Resgate Não Será Possível reforça que continuamos presos numa "latinosurrealamentação do abismo aos nossos pés". O caos vira combustível para canções que não oferecem respostas prontas, mas encontram conforto justamente na identificação: sobreviver ainda é possível, mesmo quando tudo soa à beira do colapso.

Conheça: Sofia Malta

Conheça: Sofia Malta

Entre amores frustrados, ironia e liberdade, Sofia Malta transforma experiências íntimas em matéria-prima para Comédia Romântica (2026), disco que marca sua apresentação oficial ao público da música brasileira. O trabalho reúne composições desenvolvidas ao longo de quase dois anos e costura uma narrativa sobre relações afetivas, vulnerabilidade e autoconhecimento, sempre atravessada por humor e intensidade emocional. (Créditos: Lucca Pougy) Natural de Recife, Sofia constrói no álbum uma sonoridade plural, que parte do pop para dialogar com MPB, trap, afrobeat, brega, pagodão, piseiro e brega funk. Comédia Romântica reflete tanto suas referências musicais quanto a forte conexão com a cultura nordestina. Entre os colaboradores do projeto estão nomes como Mago de Tarso, Martins, Uana e Barro, reforçando o elo da artista com a cena contemporânea de Pernambuco. Ao longo das faixas, Sofia Malta canta términos, contradições e desejos sem abrir mão de uma perspectiva feminina marcada por independência e autenticidade. A artista equilibra momentos confessionais com letras carregadas de sarcasmo e espontaneidade, criando um trabalho que soa íntimo sem perder o caráter pop e acessível. Por fim, Sofia Malta não apenas estreia um álbum: ela apresenta um manifesto artístico que abraça contradições, afetos e liberdade. Em um cenário pop cada vez mais homogêneo, a pernambucana aposta em personalidade, regionalidade e honestidade emocional para transformar vivências particulares em canções capazes de ecoar coletivamente.

Inside Llewyn Davis

Inside Llewyn Davis

Na década de 1960, o bairro de Greenwich Village, em Nova York, foi o local em que a música folk renasceu. Em cafés e bares, como o Gaslight Cafe e o Gerde’s Folk City, artistas apresentavam canções tradicionais ao lado de composições autorais. A partir dessa atmosfera, Ethan Coen e Joel Coen apresentam um retrato niilista de um músico talentoso, porém medíocre em Inside Llewyn Davis (2013). O filme acompanha uma semana na vida de Llewyn Davis (Oscar Isaac), um músico folk egocêntrico que luta para sobreviver na cena nova-iorquina em 1961. A obra começa com o cantor se apresentando em um pequeno bar, dando a impressão de que ele alcançará o sucesso. No entanto, a narrativa muda após ele apanhar de um homem misterioso por ter rido de sua esposa enquanto a mesma se apresentava. A partir daí, o espectador percebe que Davis é orgulhoso e não possui nenhum tato para falar e lidar com pessoas. Assim como a obra de James Joyce, Ulysses (1922), Inside Llewyn Davis nos oferece, aos poucos, informações para compreendermos quem é esse músico que enfrenta um ciclo vicioso de rejeição, solidão e dificuldades financeiras. Inclusive, a canção "Hang Me, Oh Hang Me", que abre o filme, dá o tom ao autodesprezo do protagonista. Leia também: John Coltrane: A Love Supreme I Am Trying to Break Your Heart: A Film About Wilco Buena Vista Social Club (Créditos: Divulgação/Reprodução) O intelectual Gorfein é o primeiro personagem que aparece, indiretamente, no filme. Davis está dormindo em sua casa, já que não possui um lar. O gato laranja do amigo ganha destaque após com o músico. Assim, pela primeira vez, parece que Llewyn terá um companheiro ao seu lado. Andando pelas ruas de NY, o protagonista vai até a casa de Jean (Carey Mulligan) pedir abrigo e, ali, a partir de um bilhete, descobre que a mulher, casada com Jim (Justin Timberlake), está grávida. A informação sugere que os dois são amantes ou que tiveram um breve caso - algo que é confirmado, minutos depois, em um diálogo cruel. Com o passar do tempo, outras pessoas surgem na narrativa. Cada aparição, realizada pontualmente, é importante para desvendar o "interior" de Davis: o desprezo de Jean ecoa a rejeição do músico por si mesmo e aos demais; Jim representa o artista bem-sucedido; já Troy Nelson (Stark Sande) é o autêntico folk, enquanto seu empresário e a secretária mostram que ele se tornou esquecido na cena. Por fim, Roland Turner (John Goodman) expressa a arrogância de quem, mesmo no fundo do poço, se julga superior. O ápice de Inside Llewyn Davis está na breve conexão que o músico teve com o gato. Incapaz de não se desfazer dele, o felino o acompanha em suas aventuras. O gesto soa como sua própria redenção, mas o abandono posterior revela o oposto: não há salvação para Llewyn. O filme começa e termina com a mesma cena, reforçando o caráter do protagonista. Ao evidenciar as consequências de cada ato, Inside Llewyn Davis também revela o amor de Llewyn pela música e a dificuldade, quase impossível, de abandoná-la.

Bruna Lucchesi percorre sua estrada em Bandoleira

Bruna Lucchesi percorre sua estrada em Bandoleira

A primeira vez que o cavalo apareceu no trabalho de Bruna Lucchesi foi no álbum Quem Faz Amor Faz Barulho (Pequeno Imprevisto, 2023), em homenagem a Paulo Leminski. Sem se afastar do animal que simboliza força, resistência, liberdade e graça, a imagem retorna em Bandoleira (Pequeno Imprevisto, 2026), mas com um novo contorno: celebrar sua travessia com urgência. Dessa maneira, a artista utiliza o símbolo para narrar sua estrada, marcada por pausas, redirecionamentos, encontros e um amadurecimento que se reflete tanto nas letras quanto na sonoridade. (Créditos: Camilla Loreta) Parte da energia criativa de Bandoleira nasceu do contato intenso da artista com a obra do poeta. A ousadia literária de Leminski acabou contaminando o processo de composição. "O trabalho com a obra do Leminski despertou uma certa irreverência em mim. Uma energia meio caótica de querer colocar essas canções em tudo: pixar muros, descolorir o cabelo, virar uma certa pára-raio de poeta maluco", diz Bruna. Acompanhada de seu violão, a curitibana segue o caminho confessando seus olhares e mostrando - sem medo - o que vem de dentro, sempre com poesia. O folk é o ponto de partida, nunca o limite. A guitarra elétrica se entrelaça com a música brasileira, ampliando os horizontes e aproximando de Patti Smith, Bob Dylan e Gal Costa, referências da cantora. Bandoleira é também um trabalho de parcerias. Bruna Lucchesi se une aos músicos Mariko Reid, Sissy Dinkle, Helio Flanders, ao poeta Fabricio Corsaletti e à produtora Alice Coutinho para comunicar sensações através de canções reacendendo a vontade de viver, mesmo quando o mundo insiste em arder em guerras. Leia também: A Estrada de Kerouac: O Beat de uma Nação A selva de Luís Perdiz Canções do Velho Mundo É o seu primeiro álbum autoral, como você se sente? Bom, eu senti muita ansiedade quando os dias foram se aproximando desse lançamento, né? Acho que foi um trabalho que eu desenvolvi ao longo dos últimos dois anos enquanto eu estava circulando com o meu último disco, Quem Faz Amor Faz Barulho, um trabalho que eu gravei as canções do Paulo Leminski. Então ele foi meio que acontecendo. Eu sabia que meu objetivo final era um álbum, mas eu não comecei esse projeto já, tipo, tendo uma visão muito clara do que ele ia ser. Eu sabia o que eu estava fazendo, mas eu não sabia o resultado. Quando os dias foram chegando, eu falei, "meu Deus, as pessoas agora vão ouvir", [dá um sorriso largo] dá um desespero. "O que eu inventei de fazer?" [risos] E agora eu tô me sentindo realizada, tá sendo muito legal ouvir as impressões das pessoas com as músicas, o que elas estão sentindo, algumas surpresas do repertório, por exemplo, tem uma canção que surgiu a partir de uma ideia de fazer o spoken word, que é "Distrito Maravilha" e foi uma ideia meio maluca. Na época, eu não sabia muito bem qual era o seu resultado e quando todo mundo tocou e a gente fez, aconteceu, pensei "ah, talvez essa seja a barriga do disco" e tem sido a música que muita gente tem comentado. Algumas coisas têm me surpreendido, então está sendo gostoso, estou surfando, assim, nessa ondinha da novidade. É interessante você falar que começou um projeto, mas que não sabia muito como seria a forma dele. Em que momento você percebeu que tinha um disco e que você tinha que colocar seus sentimentos para fora? Eu acho que eu já sabia que ia ser um disco, mas eu não sabia muito bem que cara ele ia ter, porque como o meu último projeto foi um trabalho especial, né, homenageando outro compositor, foi uma experiência muito interessante porque a gente vestiu as canções do Leminski naquele projeto, né? São canções que ainda foram muito pouco gravadas, não tinha um lastro de sonoridade para a gente estudar, além da obra escrita do Leminski, né, e para as canções que estavam, a maior parte delas, só transcritas… A banda foi formando e amadurecendo essa sonoridade, falei "hum, eu preciso preencher agora com as minhas próprias ideias" e assim foi acontecendo. (Foto: Camilla Loreta; Capa: Marcus Braga) Inclusive, a poesia tá muito presente em sua obra, ela vem muito forte em Bandoleira. O que a poesia representa para você e por que ela é tão importante? Ah, eu acho que a poesia tá nas coisas, né? Há um modo também de olhar para as situações, para os encontros, para o que é dito... Eu acho que nesse caso é um trabalho muito dos encontros. Eu acho que eu fui atravessada e atravessei, né, estou dentro desse ambiente literário-musical e comecei a me relacionar com pessoas que também estão interessadas nesta travessia da palavra entre o papel, o tempo e o espaço. Até pelo fato do Paulo Leminski ser, primordialmente, um escritor, ele é muito mais conhecido pela sua obra escrita do que pela sua obra musical, acho que isso intrigou muita gente que gostaria de ver os seus textos musicados e começaram a me enviar… A princípio eu falava "ai gente, não sei, também não fui exatamente eu que musiquei essas canções, essas canções já existiam…" mas agora eu falei "ah, sabe o quê? Vamos nessa!" [sorri] Com isso nasceram muitas amizades, essas pessoas estão muito presentes no meu trabalho, estão muito presentes na minha vida. E, puxa, que bom se cercar de poesia, se cercar dessas ideias e ver como isso também atravessa a cidade. Então, por exemplo, eu vim morar, coincidentemente ou não, né, a minha analista diz que é o inconsciente, mas no meio disso, eu vim morar muito perto da Livraria Simples aqui em São Paulo, eu sou vizinha deles e, coincidentemente, encontro os escritores no bar aqui da minha rua e vou ficando amiga das pessoas… Tô meio nessa piscina boa de ideias. É curioso como a literatura e a poesia estão presentes em você e na sua obra. No novo disco temos dois personagens principais que são o cavalo e a estrada. O cavalo vem com você no álbum anterior e aparece em diferentes momentos em Bandoleira. O que essa figura representa para você? Eu acho que essa figura representa justamente a jornada. Quando eu trouxe o cavalo pro Leminski, tinha a ver com o não lugar, talvez, porque foi um disco que foi gestado durante a pandemia. É também um signo que me conecta muito ao meu estado, que é o Paraná. Eu tive uma vivência muito forte no interior do estado, durante a minha infância. Meu pai é agrônomo, então a gente sempre foi visitar umas propriedades rurais ao longo da minha infância e tal, eu sempre andei muito a cavalo com meu pai, então, tinha essa coisa de viagem. Nesse disco agora, eu acho que ele continua representando a minha própria viagem, mas também um símbolo que faz essa travessia do urbano pro rural e também discute um pouco o que ele representa dentro disso, porque ele empodera o ser humano pra trabalhar, né? Ao mesmo tempo, a gente pode ter um animal, um animal pode ser propriedade e o que é propriedade discute um pouco também… Um tema que também tá muito em voga, que é a propriedade de terra, a produtividade da terra e o mundo acabando, enfim. Eu acho que ele traz toda essa discussão à tona. Eu não acho que eu trago uma ideia formada pra responder todas essas perguntas, eu acho que é uma discussão que tá em curso, mas eu acho que ele, junto com a poética das canções, tá aí presente. No final desse disco, o cavalo pode ser visto, além de um personagem, como metáfora ou também uma extensão do que você é? Eu acho que um pouco dos dois, talvez. Sim. Até relacionando essa ideia com trabalhos de outras artistas da minha geração, né, a Maria [Beraldo] traz a cavala no primeiro álbum dela [Cavala, 2018]. Eu tava pensando nisso hoje de manhã, inclusive, lembrando dessa canção. Maria é muito minha amiga. A Júlia Branco tem Soltar os Cavalos (2018), que é um disco bastante feminista. E eu também, em algumas partes de músicas que não citam diretamente a figura do cavalo, eu falo de relinchar, soltar, me libertar, e ser essa figura forte e doce, também, que é o cavalo, a égua, a cavala. Eu acho que, sim, tem um pouco disso, com esse traço particular do meu trabalho, que é também falar sobre o ambiente onde se encontram, né? Eles, claramente, o ambiente rural. É legal ver que em algumas músicas o cavalo vai mudando de significado também. Ao mudar, ele se transforma indo além do significado de cavalo pra você? Olha só! Mas, sim, eu acho que ele vai além, sim. Mas aí, talvez, mais nessa coisa do que o cavalo simboliza mesmo. E a gente tá constantemente falando do cavalo no signo chinês… Exato. Foi tudo planejado? Não! [risos] Gente, eu tô toda conectada! Eu acho que, na verdade, ele se transforma, mas acho que também eu vou muito no vínculo, né? Eu acho que é muito bonito e muito histórico o vínculo do ser humano com os equinos, porque eles ajudaram a gente, ajudam a gente, a ter o nosso alimento até hoje, né, e tem esportes, mas ao mesmo tempo… Mesmo assim nos ambientes onde, nesse caso, né, principalmente os homens, porque eu acho que ainda é um ofício muito masculino, a lida do campo, eu percebo na minha convivência, até com o meu pai, assim, como nessa lida, esses caras gostam muito do bicho, aparece neles uma ternura que muitas vezes não aparece em outros lugares. Porque o cavalo, na verdade, ele é muito forte, ele é muito valente, por um lado, mas por que ele é perigoso quando a gente está na lida? Porque ele é muito assustado, ele é presa. Ele não é predador, ele é herbívoro. Então, os perigos dele, porque ele é muito grande, ele se assusta e ele não vê. Então, o cuidado com o cavalo e o manejo, inclusive para fazer ele trabalhar, para ir com a gente, ele demanda muita delicadeza e muita ternura. Eu acho que o aprendizado, essa sublimação, acho que está nesse vínculo, na sabedoria desse vínculo. Então, por exemplo, quando a gente vai pensar em doma, a primeira coisa para se aproximar do cavalo é você tá muito sereno, sem nada que chame muita atenção, os braços para baixo, você não olha diretamente nos olhos dele, tem que descobrir pelas beiradas… Eu acho que essa calma, essa estratégia, no melhor dos sentidos, é uma coisa boa para a gente observar, ainda mais num tempo em que está tudo muito superficial e muito, sei lá... "Meu último álbum permitiu que eu viajasse muito com as canções e me conectaram com muita gente que queria essa troca poesia-canção. Como interpretei Leminski, comecei a receber vários textos de gente interessada em ouvi-los na minha voz. Me dei conta que Bandoleira surgiu a partir desse movimento todo, entendi essa ‘personagem’ que viaja, cria e canta com as pessoas que encontra pelo caminho. Eu carrego essas pessoas comigo e deixo um pouco de mim nelas." A figura do cavalo dialoga com a estrada, dois personagens que estão sempre juntos, ainda mais quando o disco traz o desejo de viver. Dito isso, a estrada é um percurso ou um destino? Ah, eu acho que essa é a beleza da estrada, né, porque ela é as duas coisas. Eu acho que tem uma poesia nessa pergunta, porque eu acho que depende como você olha para a estrada, né? Você pode pegar uma mesma estrada e pensar "caramba, eu preciso chegar lá em quatro horas cravados, então eu vou me ferrar" é uma realidade, muitas vezes; ou, sei lá, uma parada na estrada pode mudar tudo, sei lá, um imprevisto, um pneu furado pode proporcionar uma história. Depende de quando você se entrega para ela e acho que essa é a beleza. Eu peguei a estrada sábado, fui pra Curitiba de carro com um amigo e essa estrada especificamente é uma estrada bem desafiadora, porque é a única conexão, a Régis Bittencourt, a BR-116, é a única conexão de São Paulo com o porto de Paranaguá, então, tá cheio de caminhão e se ela trava, ela trava. Eu já fiz essa viagem em cinco, já fiz essa viagem em quinze horas. No caso de sábado foi cinco horas, graças a Deus. [sorri] Mas eu pensei, tipo, as paradas de estrada têm uma coisa muito pitoresca, né? Elas podem ser meio pseudo-chique, tem muitos dinossauros, lugares muito fantasiosos… E um mistério sobre a vida das pessoas que habitam, que moram nessas paradas e que trabalham nessas paradas, devem ser histórias muito interessantes. E a minha vida como artista também é o que eu almejo - acho que de alguma maneira também tô manifestando, acho que de alguma maneira também estou manifestando. Eu quero estar na estrada, quero rodar, quero cantar, quero tocar. Acho que também retomar essa coisa que hoje em dia está muito difícil. Nunca esteve tão fácil levar só para os lugares virtualmente, tá muito difícil de circular, e ao mesmo tempo também esse ofício de pegar o instrumento e tocar lá ao vivo, em pele e osso, não é uma coisa que é tão comum mais, talvez, dentro do universo da canção, tá tudo muito bidimensional. Eu fui uma pessoa que estudei música, cantei, gosto de cantar [dá ênfase na frase], gosto de tocar, gosto de estar com as pessoas, gosto de recebê-las também no meu espaço - é esse desejo mesmo do encontro também. Como tem sido a sua estrada, do início até agora? Em que momento você tá? Ai, que momento que eu tô? É difícil de olhar para ele quando a gente tá nele, né? Mas pensando, assim, nos últimos [breve silêncio] dez anos, eu terminei os meus estudos formais, eu fiz graduação em música, depois eu fiz mestrado fora do Brasil, e eu lembro que naquele momento que foi de 2015 para 2016, eu voltei para o Brasil, e meio que entendi na minha cabeça, eu falei "acho que deu de instituição por enquanto". Tinha um objetivo depois de continuar a carreira acadêmica no Brasil. Falei "daqui a pouco eu volto" não bateu vontade ainda… Mas pensando, acho que eu preciso um pouco de mundo, de vida. Desde então, estou trabalhando em diversos formatos. Na época eu fui morar em Curitiba para me reorganizar. Foi muito legal porque eu entrei em contato com a cena de Curitiba e daí eu vim para São Paulo. Eu lembro que eu cheguei e vim morar com umas amigas, enfim, depois de dividir apartamento, e uma delas falou "ah, você veio aqui tentar a vida?" e naquele dia, aquela pergunta me pareceu uma coisa tão... [gesticula com as mãos] - até falei para ela esses tempos - me pareceu um negócio tão assim… [faz cara espantada] Falei "caralho, eu vim tentar a vida, sim!" [risos] É uma cidade que tem seus desafios, mas que tem muitas belezas, tem muita gente e a cidade tem sido muito generosa comigo. O trabalho com o Leminski, que foi um trabalho que eu comecei o seu processo criativo durante a pandemia, me abriu muitos caminhos, tive algumas sortes também. Lancei o disco em 2023, em 2024, o Leminski fez 80 anos, tiveram muitos eventos em homenagem a ele naquele ano… Também não foi uma coisa pensada, foi um acaso, eu não fazia ideia. Não foi uma coisa planejada, o inconsciente muito treinadinho. [risos] E com isso, começaram esses encontros nesse momento presente. Acho que eu tenho estado muito atenta ao meu momento. Acho que eu estou conseguindo produzir coisas boas com o que a vida me oferece no instante. E percebo que eu tô com força, tô com uma estrutura legal para justamente percorrer as estradas. Então, acho que agora é a primeira vez que estou indo com um pouquinho mais de força até os lugares e isso tem trazido boas ressonâncias, pessoas que estão ressoando com o meu trabalho. Você acha também que se não fosse a estrada que você percorreu, você não teria chegado onde está até esse momento que a gente está falando? Não. Estaria em outro lugar. Pode ser que fosse um lugar muito interessante, mas... E eu acho que no meu caso especificamente, falando de uma forma um pouco mais prática e menos poética, a estrada também exige uma certa casca. "Falando da minha trajetória, eu acho que meu trabalho com o Leminski me possibilitou estar em lugares que antes eu não tinha acesso: palcos, programações. A intenção é essa, né? Cada vez estar em espaços com oportunidades mais legais e as coisas que a gente faz no amor que sejam também com trocas significativas, com muita identificação. Fazer cada vez que as situações sejam mais interessantes." O seu trabalho é marcado por uma urgência, uma intensidade que também convoca o outro a participar junto. De onde vem essa necessidade de se expressar? Ah, que legal. Obrigada por falar isso assim. Tenho as minhas escolhas muito calculadas, algumas ideias que me veem, eu compro também e é muito bom saber quando isso é percebido de fora. Não sei se eu sei explicar exatamente de onde vem essa necessidade… Em geral, quem gosta muito de cantar tende a ser meio exibido. Sempre gostei, a partir do momento em que eu comecei a entender melhor o que eu tava fazendo e adquiri ferramentas pra fazer isso melhor. Fui me sentindo mais à vontade, fui me sentindo mais confiante… Mas é interessante você falar isso do encontro, porque também sempre gostei muito de estar cercada de pessoas, sempre fui uma pessoa de muitos amigos, sempre gostei muito de cuidar das pessoas, de estar perto delas e eu acho que isso transborda pro meu trabalho mesmo. Que bom, na verdade, perceber que aos olhos de algumas pessoas isso transborda. Falando sobre esse transbordamento, pensei muito na canção "Fundo" que levanta questões filosóficas, mostrando como a vida é. Você canta que ficou em pedaços ao descer e que foi encontrar sua voz. A partir das imagens que você construiu, é preciso ir ao fundo, viver essa experiência, para se reencontrar e ir além? Ah, eu acho que é um dos caminhos. Eu acho que pra quem topa viver as experiências com intensidade, sem dúvida é um trajeto que do fundo não passa, né? Então quando se encontra o fundo do chão não passa. Mas, às vezes, pode ser muito doída, né? Essa coisa da angústia, do sofrimento, que são coisas que também não tem muito como evitar. É claro que eu não recomendo o fundo do poço pra ninguém, mas se ele tá lá, né? Tentar viver essa experiência procurando amparo e procurando as melhores ferramentas pra voltar. Encontrar a voz pode significar muitas coisas, né? Encontrar quem escute, quem acolha os recursos que que sejam necessários para se reerguer, né? Acho que também dá pra ir além um pouco nessa coisa de encontrar a própria voz, também encontrar "onde eu vou me sentir amparada também pra me expressar de novo?" É interessante essa música, sempre quando eu penso em como a gente fez, sempre me deixa muito pensativa porque eu me senti muito ouvida pela Alice, que é a letrista dessa canção. Quando ela me enviou essa letra, a gente mal se conhecia, e eu tava atravessando um período em que eu tava me sentindo exatamente dessa forma… Esse trabalho foi, tipo, um grande desafio pra mim também ao longo desses últimos anos, ao mesmo tempo que tem sido a minha cura. Eu tava indo atrás de repertório e tal, e aí eu tava em conversa com o Peri Pane, que é um dos compositores do disco, que é companheiro da Alice, e eu conheci a Alice assim "oi e tchau", em festa amigas em comum, nada muito profundo… E ela é uma letrista genial, tipo, uma super artista, me escreveu num dia do nada, "oi, eu soube que você tava pedindo músicas pro seu disco, sei lá, dá pra eu letrar não?" Ela se achou na cara de pau e me senti ganhando na loteria, óbvio! Eu tava vivendo esses altos e baixos e tinha feito essa melodia com o violão, basicamente o violão que tá lá [na música]. Falei "Alice, que massa, vou te mandar uma melodia que eu fiz semana passada, nem vou reouvir eu acho que é só um esboço. Fica à vontade, vamos ver o que que sai daí" e quando ela me devolveu, tipo, poucos dias depois ela tinha letrado exatamente que é toda a parte A da música e ela não sabia de nada o que tava acontecendo na minha vida. Nada! Ela escreveu exatamente como eu tava me sentindo. Tem uma coisa, sei lá, coincidências e tal, mas uma sensibilidade profunda dela de me ouvir naquela gravação eu achei realmente assim, muito impressionante. Aí todo o [lado] B, que é a parte mais forte, que a harmonia muda, a gente falou "beleza vamos tirar essa pessoa do buraco", aí eu criei uma melodia, mandei pra ela e foi assim, um papo tipo ping pong. A partir daí nos tornamos amigas, mais amigas. Foi muito bonito esse encontro, ela realmente teve uma sensibilidade ímpar e essa é outra canção que tem chamado a atenção das pessoas. Já em "No Lombo de um Cavalo", tem uma parte muito bonita em que você reforça que não tem mais idade para não ser o que não quer. O que você quer? Vixi, eu já não sei se eu sei responder a essa parte. [risos] Essa veio de um papo também. O Fabrício Corsaletti, que é o escritor que fez essa letra, ficamos muito amigos no percurso, a gente foi fazer uma viagem para Birigui com Trovadores do Miocárdio, papo vai, papo vem, muita cerveja… Foi uma viagem muito legal e nos identificamos muito. Nessa coisa de estar no universo literário, eu falei "Fabrício, o que você me indica pra eu estudar poesia?" ele falou "eu vou aí na sua casa e vou te deixar uns livros." Ele apareceu aqui, era tipo fim do ano, a gente tomou um café lá embaixo, e me deu uma pilha, juro, deste tamanho [gesticula com as mãos], de um monte de livros para estudar. A gente tomou um café lá embaixo, não lembro, mas ele ficou conversando comigo, me fazendo muitas perguntas, daí eu contei pra ele um pouco daquelas férias passei com a minha família, contei pra ele um pouco das minhas contradições da minha própria vida e acho que soltei essa - venho de Curitiba, de um contexto muito tradicional, não tem muito como ser mais curitibana do que eu - "assumir quem eu sou, vou fazer o que eu quiser." Eu acho que o que quero é viver em paz, sem me sentir que tô devendo algo pra ninguém, sem ofender ninguém e fazer as escolhas que faço. A estrada, para Jack Kerouac, é um gesto contínuo de busca, liberdade e reinvenção. É nesse espírito que Bruna Lucchesi recomeça seus passos com Bandoleira. Ao lado de seus parceiros, a cantora prepara uma sequência de shows que expandem esse caminho para além do estúdio, levando ao palco a mesma urgência, liberdade e poesia que atravessam o álbum. Acompanhe o Instagram da compositora para mais informações. Se a estrada é, um lugar de descobertas e deslocamentos constantes, Bruna Lucchesi parece decidida a não parar. E talvez seja justamente aí, entre partidas e chegadas, que sua música continue encontrando novos rumos.

John Coltrane: A Love Supreme

John Coltrane: A Love Supreme

Na série McCartney 3, 2, 1, Paul conversa sobre música, inspiração, processo de composição, vida e muito mais com o Rick Rubin. A série toda é ótima, mas uma passagem específica desse papo entrou na minha cabeça e nunca mais saiu de lá. Paul está contando sobre como compôs "Yesterday". A história não é nova para quem é fã do homem: ele sonhou com a melodia, passou dias perguntando para os outros se eles a conheciam de algum lugar e a resposta era sempre 'não'. Em algum momento, Paul entendeu que ele mesmo tinha escrito a melodia em sonho. Ou, olhando por outro ponto de vista, ele teria recebido a melodia de alguém no seu sonho. A conclusão dele? Quando as pessoas perguntam se ele acredita em magia, ele passou a achar difícil dizer 'não'. Já que o assunto desse texto é bem casca grossa, eu precisava começar com um pequeno devaneio sobre o inexplicável para introduzir o maior disco de jazz da história (segundo a minha própria opinião): A Love Supreme (1965). Mas, elaborando os pensamentos em tempo real enquanto escrevo esse texto, acho que a ideia de mágica não é o suficiente para explicar a Magnum Opus de Trane. Talvez esse disco seja o mais próximo da prova de que existe um poder superior por aí. E essa constatação, vindo de um completo cético sem qualquer inclinação para a religião, diz muito sobre o que o álbum representa. Não é apenas magia. É a manifestação de algo maior. Leia também: Animal Invisível ocupa o mundo após nascer no silêncio The Beatles: Get Back Pupillo (Créditos: Divulgação/Reprodução) Antes de entrar de vez em A Love Supreme, deixa eu começar falando sobre o elefante na sala: não, o jazz não é famoso por ser um gênero de fácil assimilação para novatos. Sim, nos últimos 100 anos ele esteve mais ligado à intelligentsia, os beatniks, os universitários, os intelectuais e um seleto grupo de seres que parecem saber mais do que os meros mortais. Deveria ser assim? Não. O jazz é, sim, complexo, cheio de camadas e nuances, tempos e compassos diferentes, mas isso não quer dizer que ele também não pode ser acessível. Dito isso, se você ouvir A Love Supreme uma vez, será tocado pelo Espírito Santo e entenderá tudo? Também não. Tá achando que a vida é mole? Pense que esse é o tipo de obra que exige persistência. Você ouve uma, duas, três, dez vezes e não entende nem metade do que está ali, mas a beleza é justamente essa: quanto mais você volta ao disco, mais camadas escondidas acaba descobrindo. Com um pouco de sorte, talvez você descubra uma coisa ou outra sobre a vida ouvindo o sax de Coltrane. Em tempos de imediatismos, scroll infinito e viralizações musicais de 15 segundos, passar meses lutando com um único disco pode ser a salvação para o cérebro (e quem sabe para a sua alma também). Agora sim, vamos ao que interessa. O ano é 1957. Coltrane acredita ter passado por um despertar espiritual que o levaria a uma vida mais produtiva e com mais significado. Ele pediu a Deus que o abençoasse com os meios para fazer as pessoas felizes através da música. O que aconteceu a partir daí é praticamente um milagre: Trane largou o álcool e a heroína e passou a produzir música em um ritmo absurdo, com uma inventividade sobre-humana. A Love Supreme é o ponto mais alto desse caminho que o acompanharia durante o restante de sua vida. Em algum momento em 1964, o músico se isolou em um cômodo acima da garagem de sua casa em Long Island e passou dias amadurecendo ideias e rascunhos que seriam transformados em uma suíte completa. Quando finalmente desceu de lá, foi como "Moisés descendo da montanha", nas palavras da esposa Alice Coltrane. Pela primeira vez, Trane tinha tudo pronto antes mesmo de entrar em estúdio. Cada nota em cada compasso estava perfeitamente escrita na partitura de sua cabeça. O álbum é uma suíte dividida em 4 partes: Acknowledgement, Resolution, Pursuance e Psalm. Segundo Lewis Porter, autor de "John Coltrane: His Life and Music", “as quatro partes de A Love Supreme sugerem uma espécie de jornada de peregrinação, na qual o peregrino reconhece o divino, decide segui-lo, sai em busca dele e, por fim, celebra em forma de canto aquilo que foi alcançado” [tradução livre]. (Créditos: Divulgação/Reprodução) Acknowledgement abre o disco com uma melodia rápida e direta do sax de Coltrane. Quando o ouvinte começa a se perguntar o que acabou de acertá-lo, a bateria, o baixo e o piano entram, um a um, dando a atmosfera do que acontecerá nos próximos sete minutos. A base sólida dessa trinca fornece o que Coltrane precisa para solar até estar próximo do seu limite. Acha que é um exagero? Ouça aquele trecho próximo dos quatro minutos. Aquilo é a representação sonora de um homem que caminha no limite do precipício apenas para voltar sã e salvo. Quando o ambiente parece seguro novamente, Trane repete algumas variações de uma frase hipnótica no sax que emula a pronúncia do título do álbum para, logo em seguida, entoar "A Love Supreme" repetidas vezes como um mantra, uma reza, uma oração. É a voz de um homem em profunda devoção que encontrou o que tanto buscava. Resolution começa com a base repetitiva e hipnótica do baixo de Jimmy Garrison. Quando você acha que a calmaria dará o tom da música, Coltrane aparece e te pega pelo pescoço. Quando o sax diminui o ritmo, McCoy Tyner toma as rédeas com sua dissonância organizada. Ouça aquele solo mais ou menos no meio da música; enquanto a mão esquerda martela os acordes que criam movimento sem mudar a base, a mão direita parece possuída tocando a melodia como se fizesse isso pra salvar a sua vida e redimir os pecados da humanidade. A bateria que cresce em Resolution anuncia o que está prestes a vir em seguida: um minuto e meio de solo das baquetas de Elvin Jones em Pursuance. De repente, todos os instrumentos trabalham em perfeita harmonia numa espécie de caos controlado, e cada músico mostra o próprio virtuosismo sem nunca roubar o protagonismo. De repente, chegamos em Psalm. A bateria parece anunciar a abertura dos portões do Paraíso. E a melodia do sax de Trane é calma e contida, mas tem uma confiança definitiva. É a voz de quem já fez muitas perguntas e finalmente encontrou as respostas. Os poucos mais de 30 minutos que compõem A Love Supreme foram gravados em apenas um único dia: 9 de dezembro de 1964. E o semblante de Coltrane na capa do álbum é indecifrável. Ele está bravo? Pensativo? Contemplativo? Feliz? Satisfeito? Meditando? É difícil classificar. Assim como o conjunto da obra aqui: A Love Supreme é jazz modal, mas também é free jazz, hard-bop, blues, gospel, misticismo e um monte de outras coisas que eu ainda não descobri. Se depois de ler esse texto você achar que A Love Supreme é intimidador demais como porta de entrada do jazz, tá tudo bem. Dá pra começar por Blue Train (1958) ou My Favorite Things (1961), duas obras de Trane mais fáceis de assimilar. Outro bom ponto de partida é o disco-de-jazz-mais-vendido-da-história-e-também-o-mais-cool, Kind of Blue (1959), do Miles Davis (adivinha quem é o saxofonista desse álbum? Touché), ou o Time Out (1959) do Dave Brubeck Quartet. Agora, se você entrou na onda mais religiosa-espiritual do álbum, vai fundo em coisas como Journey in Satchidananda (1971) da Alice Coltrane, um álbum profundamente espiritual, com influência indiana, o sax do Pharoah Sanders e o espírito de John Coltrane. Se não quiser começar por nenhum deles, tá tudo certo também, encontrar o seu próprio caminho é a grande beleza da coisa toda. No encarte de A Love Supreme, Coltrane escreveu um longo texto argumentando que o álbum era um presente espiritual para Deus. Como toda obra é uma via de mão dupla, e a elaboração do receptor é tão importante quanto a intenção do artista, eu gosto de pensar que esses 32 minutos também são um presente para a humanidade. Se você é uma pessoa cética e pouco apegada à crença em divindades, tá tudo bem, eu tô com você. Mas eu acredito na música; e no meu altar pessoal, todo dia é dia de louvar John Coltrane.

O território de Telma Hoyler

O território de Telma Hoyler

"Território", segundo o dicionário Aurélio, é a "base geográfica do Estado (solo, rios, lagos, baías, portos, etc.), sobre a qual exerce ele a sua soberania". A palavra, utilizada em diferentes contextos, adquire significados distintos para cada pessoa. Para Telma Hoyler, etnógrafa política e documentarista, território é uma pergunta. A questão está explícita em seu primeiro documentário, Território (2026), sobre escuta política. A obra acompanha Geraldo, morador do M'Boi Mirim e candidato de esquerda à Câmara Municipal de São Paulo, na eleição municipal de 2024. A partir do olhar atento da diretora, observamos os desafios de Geraldo ao se adaptar às estratégias modernas de campanha, conquistar eleitores e confrontar a ascensão da extrema-direita em sua comunidade. Ambientado em um distrito moldado por organizações progressistas, o filme retrata o trabalho emocional, social e estratégico da militância, sem deixar de captar como os moradores enxergam esse momento. O primeiro contato com Geraldo aconteceu em 2016, enquanto Telma realizava seu doutorado. Na época, ele era assessor parlamentar do Antonio Donato (PT). Após a saída de Donato, Geraldo se candidatou com a Bancada Periférica, coletivo de lideranças comunitárias de diferentes regiões de São Paulo. O que Telma viu e pesquisou há dez anos a inspirou para construir Território, longa que retrata vividamente como uma campanha é construída na integração com os eleitores, além de investigar como a religião, o crime e os valores do empreendedorismo estão transformando a percepção das pessoas sobre política e democracia. Leia também: Nigéria Futebol Clube: música, liberdade e manifesto sonoro Vice is Broken Ritas O seu primeiro contato com o Geraldo foi de uma forma diferente, ele estava acompanhando o Donato. Como foi ver essa mudança? Você acha também que o Geraldo mudou nesse tempo? Ele ficou mais forte para enfrentar os dilemas que você apresenta em Território… É uma ótima pergunta, porque para ele se tornar um candidato, ele teve que... [breve silêncio] Trabalhar muito, né? É, e assumindo essa posição… Naturalmente que eu o vi mudando ao longo do tempo, sendo mais líder. Ele sempre foi, como era uma liderança sindical de garagem, de ônibus, como ele fala até no começo do filme, ele sempre foi bom na retórica, de se posicionar, de angariar grupos, de ter esse fervor na voz, capaz de mobilizar. Então sempre foi um pouco esse o repertório dele, de botar o povo na rua. Aquele abraço demorado que o Boulos e ele se dão no final é porque o Boulos, quando estava tocando uma ocupação lá, eles eram muito parceiros, então o Boulos botava o povo na rua para uma demanda que o Geraldo organizava, então eles foram se afastando pelos caminhos da política, mas eles ainda são bastante parceiros. Então eu o vi crescendo enquanto liderança falando, tentando pelo menos falar com os recursos que tem para um povo cada vez maior e dialogar de diferentes formas. A filha dele, a Giovana, que aparece no filme, também foi uma figura importante nisso. Quando ele fala do cabelo, "a Giovana falou para ficar mais jovem", ela dá uns toques para o pai, que é muito legal de ver, então, ele foi mudando um pouco nesse lugar. Quando eu o conheci, ele só me chamava para grandes eventos, reuniões plenárias grandes e que juntavam quase cem pessoas, o que é bastante para um dia de trabalho das pessoas em geral, e eu falava "poxa, ele só quer me levar para os eventos que são para mostrar que são de grande magnitude, que ele consegue juntar tudo isso", mas não é isso que eu quero - eu quero ver o pequeno ali, como é o dia a dia. E aí fui entendendo que o repertório de ação dele, diferente de outro que acompanhei, por exemplo, que é muito mais protocolar ofício, ficar ligando para a prefeitura, é de grandes mobilizações, dessa massa, desse fervor. Ele estava lá no palanque com Boulos, pulando. Ele é isso, não é fake, ele realmente faz isso. Nesse sentido, acho que ele já estava pronto como, ou foi se tornando, mas já tinha uma semente importante ali de se tornar esse candidato. (Créditos: Divulgação/Reprodução) A proposta inicial de Território era apresentar como se constrói uma campanha eleitoral, mas a narrativa foi alterada. Em que momento você percebeu que essa proposta inicial tinha que ser alterada? Hum, eu nunca pensei sobre isso, devo pensar em tudo que eu falo. Eu acho que eu fui vendo no... [olha para cima] Eu acho que foi com a mudança de... Tinha uma pessoa que filmava para mim e foi bem no começo. E aí ele filmou essas primeiras cenas que são do Geraldo na rua, na pré-campanha e daí eu fui querendo ouvir visões das pessoas sobre o Geraldo. E aí, por exemplo, na barbearia... Acho que a barbearia foi um momento importante, porque eu fiquei ali convivendo com as pessoas. A barbearia é bem na frente, assim [gesticula com as mãos], da casa do Geraldo, praticamente, em poucos metros para frente. E na barbearia eu falei "nossa, a barbearia é um lugar de discussão política importante do bairro". E olha essa figura do Wellington que aparece é um presente. Ele vota no Geraldo e vota no Pablo Marçal. Para entender o Geraldo, talvez a gente precise entender se ele vai ser eleito ou não, talvez, a gente precise olhar um pouquinho para fora da casa dele… Para aquele território… É, acho que é a barbearia como ponto de encontro, assim, ir dali derivando-se dos personagens. Como foi sair do seu território para entrar em um novo território? Bonita essa pergunta. Sabe que na época, quando eu comecei a frequentar o M'Boi Mirim, eu morava num prédio que a pessoa que ficava na portaria, morava no M'Boi mirim. Então a gente fazia o caminho contrário. Ela tinha gastado duas horas para chegar ao centro e eu ia gastar um pouco menos, porque no contrafluxo, para ir para lá. E eu fazia também de transporte público, então era um... Assim, eu tinha tanta energia dez anos atrás que eu não pensava muito sobre o que eu estava fazendo. E agora voltar com o filme, com o equipamento e tal, eu comecei a refletir sobre isso. Foi uma oportunidade de refletir sobre isso melhor mesmo. Tem algo de que... Também passou um tempo. Eu fiquei um intervalo sem ir depois da pandemia, e passou um tempo. E esse tempo que passou deixou, parece que, uma energia mais agitada no ar, uma intranquilidade, assim. Não sei, uma tensão também. Essa tensão que você diz também tem relação com o que você viveu ali, sair daquele território e, vamos abranger também, viver o governo Bolsonaro e uma pandemia? O documentário é também uma chance de trazer essas vidas que, de alguma maneira, são invisibilizadas também? Sim, sim. Eu nunca quis exotizar o outro e ter esse território mostrando o meu estranhamento… Não é sobre isso. Agora, sempre há esse estranhamento, tem esse processo de se entender ali e para me entender ali, é como eu faço, em geral, em pesquisas de campo, tem mesmo uma relação franca. O Pedrinho usando a minha câmera, o Rafael saindo para fumar e pedindo para a gente ficar com o menino, que é a hora que ele me filma. Tem esse [momento], digamos, [de] se entender naquele dia a dia. E é claro que eu sentia... Dormi lá no dia da eleição para o outro pra pegar aquilo bem cedinho, aquelas imagens iniciais da eleição são tipo seis da manhã e tal, que a gente queria ir… Tem barulhos enormes, tem o funk, aí você começa a entender que não é que as tiazinhas da igreja odeiam o funk à toa, você não consegue dormir, é um exagero. Tem umas disputas, tem uma ideia de comunidade que é muito idealizada, mas no dia a dia é permeado por inúmeras disputas que a gente tem no centro expandido com qualquer vizinho também. Então acho que sair da idealização, sair da exotização e realmente experimentar aquilo por um tempo estendido. Construir uma relação, porque para construir a imagem do outro e tentar ser o mais... É sempre uma interpretação, mas o mais fidedigno, como ele se sentiria confortável, é preciso passar por esse processo, sabe? O que é território para você? Agora eu vou responder como acadêmica. [risos] A gente não tem uma definição única. Os geógrafos físicos, sociais, vão falar de uma coisa. Para ciência política, território tem muito a ver com fronteiras que delimitam a nação e sobre qual se exerce um poder soberano. Então, para mim, território... Eu gosto de beber um pouco de todas essas fontes e, para mim, território evoca justamente o que está dentro, mas o que está fora. Ele fala dessa delimitação e das disputas entre fronteiras. Eu gosto de pensar território também como sobreposições de territórios. Território, para mim, é uma pergunta também. Acabou sendo esse o nome do filme, porque é uma pergunta - para cada um que se pergunta isso, eu fazia essa pergunta. Território é uma coisa, porque está diferente, porque ela está conectada a como se busca pertencimento, a como se busca status, a como se procura vínculos, ordem social. Então, para cada uma dessas narrativas que aparecem no filme, para os personagens, território vai ser uma coisa diferente. E, no final, território também parta na definição de política para o outro. Porque quando vocês vão com a câmera em um estabelecimento e uma moça diz que aqui ninguém faz nada, política não faz nada, eles se recebem para não fazer nada. Então, também tem isso. A questão de onde você mora, o que você convive e tal, determina também, de uma maneira, o que significa a política para o outro. Muito. Nossa, bem lembrado! Lembrei de uma outra cena que fala sobre isso, em que um dos pastores que estão comendo ali na mesa, com o Geraldo e a Conceição... Sim, que ele se diz, conservador. Muito interessante essa fala. "Eu sou conservador, mas, olha, eu apoio aqui o Geraldo, mas não é tudo." É, e daí ele tem um que fala e daí o Geraldo é o único do PT que a gente vê fazendo alguma coisa aqui para a gente. E tem algo no final também daquele personagem perto da represa falando "eu não moro lá, eu moro aqui". Então, impacta como você vê, como você vota e também a gente... Claro, você pode votar no vereador da cidade inteira, mas existe uma... Os mapas eleitorais mostram certas concentrações em áreas. Embora seja absolutamente concentrado e um líder domine tudo, existem certas concentrações na cidade. Então, o território organiza como se faz política. Ainda que haja territórios virtuais, ainda que haja essas coisas coexistem. Acho que a gente tem esquecido de falar sobre territórios físicos. "A pesquisa que eu fiz na minha tese de doutorado sobre mobilização política inspirou, construiu o argumento do filme e também me deu proximidade com as personagens, com o território." Em um momento do documentário, Geraldo destaca a ausência de grandes lideranças na periferia. Isso me lembrou a fala de Mano Brown em 2018, quando ele acabou sendo vaiado. Por que você acha que uma parte do campo político tem dificuldade de compreender esse tipo de crítica que gera um distanciamento? Bom, primeiro tem um incentivo perverso. É difícil falar do PT, eu não quero que seja sobre isso, mas o PT é, de fato, um partido enorme, muito bem estruturado e fundante de muitas coisas. No Brasil não tem como não falar, mas existem certas estruturas partidárias, digamos, que são muito boas, porque elas conseguem chegar em vários temas da sociedade, elas formam lideranças. Uma vez que essas lideranças estão lá, elas vão querer, muitas vezes, se manter no poder e defender suas visões de mundo, suas ideias, seus valores. E muitas vezes essas visões de mundo que estão ali para defender e levar adiante, até de política pública, elas são formadas, acabam sendo encapsuladas por esse grupo que gira em torno dessa estrutura partidária. Então, a permeabilidade ao que está nos territórios físicos acaba contraditoriamente diminuindo à medida que se acende a esses lugares. Acho que isso explica uma parte do porquê é difícil formar novas lideranças de esquerda. É muito difícil. Você vê uma figura como a Marielle no Rio de Janeiro, quantos anos demora para formar uma joia preciosa daquela? Documentar o processo de eleição do Geraldo foi uma maneira, talvez inconscientemente, de combater às diversas fake news que são criadas para diminuir pessoas da esquerda? Ah, eu não tinha pensado nesse aspecto. Eu acho que isso é, digamos, um efeito não previsto positivo - e sim. Nesse sentido que eu falo se houver um caminho passa em dar visibilidade com profundidade a diferentes narrativas… É claro que não aquilo que quer eliminar o outro, esse é o limite [gesticula com as mãos], estamos falando dentro de um limite respeitoso e democrático. Dar visibilidade a essas diferentes narrativas pra gente não construir espantalho de ninguém, entendeu? Acho que esse é um caminho da promoção do diálogo, talvez seja essa minha pequenina contribuição. (Créditos: Nathalie Bohm) Território traz muitas dúvidas e desespero do que respostas. O que você quer transmitir para o outro? Ao trazer dúvidas vamos conseguir conversar para encontrar um caminho? Aliás, você tá pronta para esse diálogo como mediadora? Esse é o meu desejo. Inclusive, o lugar que eu tô mais ansiosa para exibir o filme é no M'Boi Mirim para as pessoas que participaram e justamente eu preciso tá preparada para essa mediação. É também uma certa fé no cinema, né? Tem muitas iniciativas no cinema, sei lá, Laís Bodanzky tinha aquele trabalho com a van [Cine Mambembe] que rodava e promovia debate, o [Eduardo] Coutinho fez isso com Cabra Marcado Para Morrer (1984), eu bebo desse espírito. Como tá a sua expectativa para apresentar o filme para os moradores desse território? O que você acha que pode acontecer? Para todo mundo que eu exibi o filme até agora a reação foi muito positiva. Teve, inclusive, uma pessoa que veio me abraçar no final chorando e falando "eu sou evangélica, estudo antropologia, e nunca vi a igreja ser retratada desse jeito. As pessoas estão demonizando a igreja evangélica" muita gente não se sente representada, né, então fica sem lugar… Eu acho que essa coisa de provocar dúvidas, de suspeitar de narrativas hegemônicas, sejam de esquerda ou de direita, acho que suspeitar e ter curiosidade, fomentar essa curiosidade, é um aspecto fundamental se a gente quiser mudar qualquer coisa. As várias questões que você aborda, não pensamos muito bem sobre, vamos indo pelo senso crítico e etc. Você que viveu tudo isso foi transformada em algum sentido? Eu acho que eu me tornei uma pessoa um pouquinho mais generosa. Acho que me fez fazer as pazes com algumas coisas, sabe? Acho que me ajudou a ser mais tolerante com o tempo do outro também, porque não é o meu - eu tava ali e quando você se coloca à disposição para isso, você abre a câmera e é o que será. [risos] Me deixou mais tolerante e generosa. Você traz a mudança que aconteceu em você, mas o que o filme te ensinou sobre escuta, tanto política quanto artística que você vai levar adiante? Teve uma diferença grande… Numa entrevista como pesquisadora, a gente tende a fazer sinais de validação com a voz, né? E esses sinais de validação com a voz, como "ãhn?" e "nossa" demonstram curiosidade que pedem para a pessoa continuar [a falar]. Na edição do vídeo e da voz, ficam muito difíceis, tem trechos ótimos que, às vezes, não dá pra salvar se você não tem os recursos suficientes, como era o caso desse filme. Eu fui tendo que levar isso a sério e entendendo o que seria validação e demonstração de interesse naquele momento para que aquela imagem pudesse ir para o filme. Isso me levou a pensar em como a câmera tava intermediando a relação… A pessoa não precisa de validação, ela não tá falando comigo, ela tá falando pra câmera. Isso me levou a pensar na mediação da câmera e foi nesse momento que fui me tornando mais diretora. Após a conclusão do documentário, o que mudou no seu próprio entendimento sobre democracia brasileira hoje? [silêncio, olha para o lado] Talvez a democracia teórica e a democracia que cada um tem em sua cabeça sobre o que é, sabe? A democracia que eu tenho na minha cabeça passou a ser povoada por mais vozes - vozes que eu digo em interesses, ideias, concepções de mundo, passou a ser - ainda mais - plural na minha cabeça, por isso, ainda mais complexa, porque se supõe negociações, concessões, acordos. É um pouco a contradição da coisa, né? Mais vozes, mais dificuldade em colocar tudo isso em diálogo. "Quando se muda um partido o que muda? Não é que não muda nada, muda um monte de coisa que é invisível para o cidadão comum e a gente tá cada vez mais incapaz de comunicar isso." Pré-estreia de Território Na próxima quinta-feira, 7, a partir das 19h, Telma Hoyler apresentará Território no Cine Bijou. Para participar, reserve seu ingresso aqui.

A Estrada de Kerouac: O Beat de uma Nação

A Estrada de Kerouac: O Beat de uma Nação

Para Jack Kerouac, a estrada nunca representou apenas deslocamento físico. Em sua literatura, ela simboliza fuga das amarras sociais, desejo de liberdade e busca constante por sentido. Sessenta e nove anos após a publicação de On the Road, essa ideia segue ecoando nos dias de hoje e retorna em A Estrada de Kerouac: O Beat de uma Nação (Ebs Burnough, 2025), documentário que revisita a força cultural de uma obra capaz de atravessar décadas sem perder a capacidade de inquietar. Disponível no Disney+, o documentário tem a estrada como personagem principal, evocando as ideias do escritor. A partir de imagens, depoimentos e reflexões, A Estrada de Kerouac: O Beat de uma Nação mostra como o espírito contestador de Kerouac segue presente ao revisitar o legado de um clássico da contracultura. Três histórias se intercalam, enquanto músicos, escritores e atores, além de pessoas que conviveram com o autor relatam o impacto de sua literatura em suas vidas. Leia também: A estrada da Atalhos Flea: Honora A selva de Luís Perdiz O jovem Karlynne Staten narra sua trajetória marcada pela violência e pela desigualdade. Como plano para escapar daquela realidade, ele se prepara para iniciar a faculdade em outro lugar, sonhando com uma vida mais digna. A segunda história acompanha um casal que, após os filhos crescerem e depois de atravessar dificuldades, transforma a estrada em casa. Já a terceira acompanha uma mulher (fazendo contraste com a visão limitada e machista que Kerouac muitas vezes demonstrava sobre as mulheres) e seu cachorro em uma viagem para reencontrar o pai doente, a quem não vê há décadas. Enquanto conduz cada narrativa, Ebs Burnough mostra que a estrada não pertence apenas aos desajustados, como sugeria o imaginário beat dos anos 1950. Ela se abre a todos que desejam se encontrar, revisitar o passado ou buscar um novo horizonte. Diferente de outros documentários, A Estrada de Kerouac: O Beat de uma Nação não se aprofunda na vida pessoal de Kerouac, o que pode frustrar parte dos fãs. Ainda assim, o escritor permanece presente o tempo todo, atravessando cada relato. Mais do que incentivar viagens, sua visão inspirou escolhas menos previsíveis: mudar de cidade, abandonar certezas, criar novas linguagens e perseguir sonhos pessoais mesmo diante da insegurança.

Conheça: Lucas Filmes

Conheça: Lucas Filmes

Acompanhado de seu violão, Lucas Filmes compartilhou o cotidiano em Neurose Fantasia (2025). O EP do músico paulistano soa como uma conversa entre amigos em uma mesa de bar, ao explorar temas corriqueiros com leve tom irônico. Agora, Lucas dá continuidade à própria narrativa, porém de maneira mais sensível. "Pai" e "Quanto Amor", lançadas neste mês, abordam a perda de seu pai, falecido em 2024 em decorrência de complicações de um câncer de pâncreas, e funcionam como registros emocionais de antes e depois da despedida. (Créditos: Kamila Fehringer) A primeira canção surgiu durante a cirurgia para retirada do tumor. A música carrega a tensão de quem espera notícias, desejando apenas mais tempo ao lado de alguém amado. Entre delicadeza e melancolia, Lucas Filmes transforma a angústia em canção, como quem tenta suspender o tempo por alguns minutos. Já "Quanto Amor" foi escrita no dia seguinte à morte do pai. A faixa percorre a dor do luto e revisita os anos de enfrentamento da doença dentro da família. Em vez de se prender somente à ausência, o artista escolhe cantar o vínculo, a memória e tudo aquilo que permanece quando alguém parte. Leia também: Conheça: Ganwalk O último ato do Cientista Perdido Flea: Honora As canções contam com a colaboração de Chico Bernardes, responsável pela gravação e mixagem, além de tocar bateria e chocalho. Os registros versam sobre a iminência e os rastros do fim, de modo que o artista expõe ao ouvinte um honesto retrato de vulnerabilidades. Desde cedo, a música ocupou um lugar de importância na vida de Lucas Filmes. No entanto, mesmo em contato frequente com bandas e instrumentos, o artista levou tempo para reconhecer a possibilidade real e palpável de construir uma carreira. Somente após o diagnóstico de câncer do pai, em 2021, é que se viu confrontado por desejos antigos e pela chance de encarar novas perspectivas. "Entendi que a vida é muito curta pra ter medo. Então, larguei a faculdade e decidi dedicar meu tempo exclusivamente à criação", diz.

Conheça: Ganwalk

Conheça: Ganwalk

Depois de alguns anos como integrante e fundador da Furta Flor, Ganwalk retoma sua trajetória solo reunindo as vivências acumuladas nesse período e transformando experiências em novas formas de criar e apresentar sua arte. O retorno deu voz a "Calma", single que chega acompanhado de uma proposta interativa capaz de aproximar público e obra de maneira incomum. Mais do que uma nova faixa, "Calma" se apresenta como extensão do processo de autodescobrimento do artista. Para acompanhar o lançamento, Ganwalk criou um site em que o ouvinte pode interagir em tempo real com a canção, explorando diferentes camadas sonoras enquanto escuta. A iniciativa dialoga diretamente com a estética da música e reforça o interesse do artista em experimentar múltiplas linguagens. (Créditos: Laura Reynol) Em sua forma não mutável, a música inicia em um transe de efeitos e ambiência e, aos poucos, violão, percussões e sons orgânicos - assobios e elementos da natureza - conduzem a música para um território mais melódico e tradicional. Essa transição cria uma tensão entre o digital e o orgânico, uma cisão que pode "enganar" os ouvintes mais distraídos e que ficam apenas com a impressão da primeira metade do single. Essa identidade marcada por uma psicodelia conectada à natureza já estava presente nos trabalhos de Ganwalk com a Furta Flor. Com a banda, lançou um EP ao vivo e um álbum em 2025, além de dividir palco com nomes como Tangolo Mangos, Tagua Tagua e Ana Frango Elétrico. Na carreira solo, porém, o artista amplia esse universo ao incorporar a programação como ferramenta criativa. No site criado para o lançamento, o público pode remixar "Calma" por meio de controles que alteram eco, velocidade e distorção, além da possibilidade de ouvir a faixa ao contrário. A proposta transforma a escuta em experiência participativa e aponta para um caminho em que música e tecnologia deixam de ocupar espaços separados. Este primeiro lançamento de 2026 inaugura uma série de faixas acompanhadas por experiências interativas. A proposta é construir, ao longo do ano, um álbum fragmentado que culmina em uma exposição dedicada a investigar e discutir as relações entre o orgânico e o digital.

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