My Items

I'm a title. ​Click here to edit me.

Marina Person e Gustavo Moura: a necessidade de falar sobre filmes

De acordo com o dicionário Michaelis, a palavra "cinema" significa: 1) Arte ou ciência da cinematografia. 2) Sala de projeções cinematográficas. Já a palavra "cineasta", recebe a seguinte definição: "pessoa com sólidos conhecimentos de cinematografia". Misture as duas palavras e você terá Marina Person e Gustavo Moura apresentando e debatendo os grandes clássicos do cinema em "Nosso Podcast de Cinema". Realizado pela Orelo, plataforma de podcasts, a dupla analisa suas produções favoritas, que conta com "O Piano" (Jane Campion, 1993), "Todos os Homens do Presidente" (Alan J. Pakula, 1976), "Curtindo a Vida Adoidado" (John Hughes, 1986), "Era Uma Vez no Oeste" (Sergio Leone, 1969), "A Primeira Noite de um Homem" (Mike Nichols, 1968), "Profissão Repórter" (Michelangelo Antonioni, 1975), "Fale Com Ela" (Pedro Almodóvar, 2003), "Taxi Driver" (Martin Scorsese, 1976) e muito mais. Não é a primeira vez que Marina e Gustavo trabalham junto: enquanto Marina dirigia "Califórnia" (2015), Gustavo produzia e fez uma ponta no filme. No ano seguinte, Gustavo lançou o seu primeiro filme, "Canção da Volta", com Marina vivendo Júlia (alias, sua atuação é maravilhosa, assim como o filme!) e também produzindo a obra. Leia também: Marcelo Segreto e a América Latina em seu peito Documentar Raphael Erichsen: aprendizados sobre a sétima arte Literatura: as mutações Liv Ullmann Não é a primeira vez que vocês trabalham juntos. Como está sendo falar sobre cinema, anos depois de terem feitos, juntos, "Canção da Volta"? Gustavo: Na verdade, eu e Marina temos alguns outros vários trabalhos juntos. O próprio "Califórnia", que é o filme da Marina, foi eu quem produzi e até fiz uma pontinha como ator. Além disso, o meu próximo filme "Ela e Eu", a Marina produziu e também tem uma pontinha. Além desses, temos alguns outros trabalhos, mas também temos vários separados. Nós sempre tentamos manter um equilíbrio: fazer trabalhos juntos, pois gostamos muito, mas também fazer coisas separadamente, justamente para cada um ter sua independência. E o nosso objetivo é sempre achar esse equilíbrio. No caso do podcast, é um projeto muito especial que sempre falamos e tivemos vontade de fazer. Foi então que surgiu a oportunidade de colocar no ar, em parceria com a Orelo. Pra gente está sendo super legal essa produção, pois conseguimos estudar ainda mais, pensar sobre a profissão, dentre outros. Estamos realmente muitos animados. Qual o critério (se existe um) que vocês utilizam para escolher o filme que querem abordar no podcast? Marina: Em primeiro lugar a gente tem que gostar do filme e ele tem que significar algo para um de nós dois ou para os dois. Além disso, levamos em consideração o fato de ele precisar ter relevância dentro do mundo do culto ao cinema. Para este começo, estamos tentando selecionar filmes com os quais as pessoas tenham alguma familiaridade para estimular e incentivar novos ouvintes. A ideia é que o podcast seja feito para não somente quem já viu o filme - essas pessoas se interessam porque sempre podemos descobrir novas informações e curiosidades -, mas também para quem não viu, uma vez que falamos muito sobre sinopse, produção, elenco, etc. Gustavo: De modo geral, queremos falar sobre produções que tenham conseguido unir um sucesso artístico com o sucesso comercial. Fazer cinema, colocar a mão na massa, alterou de alguma forma o modo como vocês veem a arte? Alias, com o podcast, teve algum filme que vocês reassistiram e que não agradou tanto como antes? Gustavo: De fato, a nossa abordagem do assunto é de quem faz filmes, sempre sendo feito do ponto de vista de quem trabalha com isso. Nós somos diretores, então, estamos sempre olhando os filhos por diversos aspectos, como, atuação, roteiro, aspectos técnicos, aspectos de produção, dentre outros. Marina: Muitas vezes, a nossa percepção sobre algum filme acaba mudando quando assistimos novamente. Recentemente, por exemplo, eu reassisti "A Primeira Noite de um Homem", que é um filme do qual nós gostamos muito… E agora, olhando pra ele sob a luz dos novos tempos, feminismo, eu tive uma percepção muito diferente da Mrs. Robinson, e a gente comenta isso no episódio. Por conta da pandemia, artistas tiveram que se reinventar. Nos últimos tempos, documentários sobre confinamento estão ganhando destaque. Para vocês, como será o futuro do cinema? A forma de fazer um filme será alterada? Marina: Na minha opinião, tudo mudou e continuará a mudar, não somente por causa da pandemia, mas também porque a arte e o fazer cinematográfico é muito dinâmico. Não existe uma única maneira de fazer filmes, essa forma muda muito, por exemplo, por conta de tecnologias. Antes, as produções eram filmadas em películas e agora o mundo digital dominou tudo, no cinema inclusive! Para mim, seria um sonho filmar em película, por mais que a tecnologia seja incrível e muito mais inclusiva, eu gostaria muito de filmar em película. A pandemia mudou, por exemplo, a forma como as pessoas assistem aos filmes. E isso é algo que leva a uma outra discussão - como a forma que se contabiliza a audiência de um filme. Antes, a contagem do público era feita pelo número de ingressos vendidos, mas com os streamings, cada vez mais fortes, essa contagem já não representa mais a realidade do público de determinada produção. Gustavo: Eu acho que a passagem da película para o digital não mudou tanto quanto as imagens geradas por computador. Eu acho que o cinema mudou muito em razão das possibilidades digitais, que acabaram por deixar o cinema mais caro, mas ao mesmo tempo mais livre com a utilização de efeitos especiais. O casal continua trabalhando, dando ênfase à cultura. Filmes, séries e outros projetos estão na lista deles. Para o futuro em breve, Gustavo lançará dois filmes assim que a pandemia permitir: "Cora" e "Ela e Eu". Toda vez em que falo ou ouço sobre cinema, lembro do livro "Esculpir o Tempo" (Martins Fontes, 2010) de Andrei Tarkovisky. Na introdução, o diretor russo escreve: "(...) O que me impediu de desistir de tudo, porém, foi a convicção, cada vez maior, de que havia pessoas interessadas no meu trabalho, e que na verdade esperavam ansiosamente pelos meus filmes." Nunca foi fácil fazer cinema - e quando é possível falar, conversar, debater, como Marina e Gustavo fazem, precisamos ouvir, dar atenção, afinal a arte salva. Os episódios são semanais, ou seja, toda sexta-feira tem um novo filme para ser debatido. O "Nosso Podcast de Cinema" pode ser ouvido na Orelo que está disponível na Apple Store e Google Play.

Flip 2020 acontece no início de dezembro

A 18º Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) já tem data para acontecer! Por conta da pandemia, essa edição será online e acontece entre 3 a 6 de dezembro. A programação conta com mesas transmitidas ao vivo em plataformas e redes sociais da Flip, ao lado de vídeos gravados, eventos paralelos e programações de parceiros. As mesas contarão com as presenças das autoras internacionais Bernardine Evaristo, vencedora do Booker Prize 2019 e da colombiana Pilar Quintana. Para completar, o brasileiro Itamar Vieira Junior também estará presente. Este ano, a Flip não terá um autor homenageado, como aconteceu em outras edições. No site oficial, a instituição explicou o motivo: "Entendemos que este ano a pandemia causou a morte de artistas imprescindíveis à nossa cultura, como o escritor Sergio Sant’Anna, o compositor e letrista Aldir Blanc, o artista plástico Abraham Palatnik e a regente Naomi Munakata, entre muitos outros. Portanto, este não é um momento de celebração. Assim, não teremos um autor específico em destaque, iremos homenagear coletivamente os que partiram". Para conferir a programação completa, clique aqui.

Marcelo Segreto e a América Latina em seu peito

Em "As Veias Abertas da América Latina", Eduardo Galeano faz uma análise da história da América Latina, desde a colonização europeia até a contemporaneidade. Escrito em 1970, sob as ditaduras no continente, a obra continua atual. Pouca coisa mudou. No prefácio de uma nova edição (L&PM, 2010), Galeano escreve: "O passado é mudo? Ou continuamos sendo surdos?". Para finalizar o prefácio, o autor completa: "Aqueles que negam a libertação da América Latina negam também nosso único renascimento possível". Corta para 2020, cinquenta anos depois. Marcelo Segreto, o latino-americano, "chicano tição", lança seu EP "América, América", abordando questões da América Latina. A ideia de abordar esse tema surgiu após ganhar o edital Ibermúsicas (Concurso Ibero-Americano de Composição de Canção Popular Ibermúsicas), em 2018. "É um programa de fomento que reúne os ministérios da cultura dos países da América Latina. Para você ganhar o prêmio, você tem que mandar três canções inéditas e aí pensei… Como é um edital que tem a ver com esse tema da América Latina, fiz três canções sobre esse assunto. O assunto também me fascinava bastante, pelo fato do Brasil estar dentro do continente sul-americano e parece que a nossa relação com os países vizinhos é o mais distante do que com os países da Europa, por exemplo", ele explica. A distância entre os países e o passado-presente, resultaram em três músicas: "1492", "Tordesilhas" e "América, América". A segunda canção conta com a participação da cantora argentina Lili Molina. Se não é possível um reencontro que trará a libertação da América Latina, Segreto faz sua parte na música: unindo outro país, outra cultura, ele reabre as veias. O clipe da canção "1492" explora a linguagem das redes sociais. Houve algum motivo específico para essa montagem? Você acha que através da internet, desse novo linguajar, o público compreende melhor o que você está dizendo? O clipe de "1492" tem essa estrutura do Instagram, um vídeo vertical para ver no celular. A ideia veio da própria canção que vai passando por fatos da história da América Latina e faz referência a máquina do mundo, que é um tema da literatura, que está em um poema do Drummond [A Máquina do Mundo], em que o eu lírico do poema tem uma visão mágica do universo e a história passa pelos olhos dele - e a canção tem um pouco dessa história. A história passando rapidamente desde o início até a atualidade diante dos nossos olhos. Então, tem essa história de fazer como se passasse em um feed de Instagram. A ideia foi meio essa, fazer uma relação entre um feed do Instagram e um pergaminho de história, sabe? Um pergaminho que vai desenrolando como um feed e a gente vendo fatos marcantes da história da América Latina. Eu acho que ao usar essa estrutura da internet, do Instagram, talvez chame mais a atenção das pessoas porque é uma coisa muito cotidiana. Uma coisa que a gente achou interessante e o fato de usar essa linguagem no clipe é uma coisa muito do dia a dia, de quem tá nessa rede social, tem esse interesse de usar algo do cotidiano. Seu EP é bastante político. Quais são as dificuldades em fazer música em um país que é contra a cultura? A dificuldade é grande! Inclusive esse prêmio, Ibermúsicas, que ganhei em 2018, parece que em 2019 o governo Bolsonaro queria romper com o edital por questões obviamente ideológicas. Um prêmio super importante para a integração da cultura latino-americana, dos artistas, dos músicos de vários países... Esse programa fomenta muitas vezes viagens de artistas para outros lados da América Latina, entre muitas coisas. Então, é um programa super importante e o governo queria se desligar do programa. Então, a todo momento o governo vai entrando nas questões culturais e hoje em dia, mais do que nunca. Também tem muitas questões de censura que estão muito destacadas hoje em dia. "Tordesilhas" conta com a participação de Loli Molina, cantora argentina. Como surgiu essa parceria? Alias, podemos esperar a mistura de outros países, culturas línguas, para suas futuras canções? A participação foi muito especial, porque quando a gente tava gravando a canção "Tordesilhas", ela já tem um diálogo assim da letra, ela já foi feita para ser cantada por dois cantores - então, ela tem essa pergunta e resposta na letra, um verso se completa no outro. Então, a gente achou interessante uma pessoa para cantar e que fosse uma artista fora do Brasil, justamente por conta do tema da canção e do próprio EP América Latina e a gente achou muito especial convidar alguém de um país da América Latina. A gente falou com a Loli Molina e o Tó Brandileone, produtor musical do disco já conhecia a Loli e ele me apresentou e foi paixão à primeira vista. Ela é muito especial, como pessoa e artista, então foi uma contribuição maravilhosa para o EP e para a canção. Por coincidência, eu tô fazendo um disco, os arranjos, para ser gravado no ano que vem, um disco que também mistura línguas. É um disco maior, com 13 faixas, chamado "De Canção em Canção" que é inspirado em um filme do Terrence Malick "Song To Song" e aí o disco propõe exatamente essa mistura: ele começa em português e vai ganhando, pouco a pouco, algumas partes em inglês, até que a canção do meio, a sétima canção, ela é toda em inglês. Aí, depois, pouco a pouco, volta a ser cantada em português. Então, tem essa mistura de línguas porque é uma ideia do disco de fazer uma metáfora de distanciamento da relação amorosa. Seu projeto solo é diferente do grupo Filarmônica de Pasárgada. Foi difícil fazer essa separação, "criar" uma persona para você se apresentar sozinho? A ideia do solo, na verdade, vem um pouco para isso, pra fazer diferente do que a Filarmônica. Na verdade, não chega a ser tão diferente. Na verdade, eu meio que selecionei um tipo de música que eu gosto de fazer na Filarmônica, que é uma canção mais lírica, mais pop, e quis só pegar esse tipo de canção para fazer o trabalho solo, para ter essa cara mais lírica, mais folk. A Filarmônica fica mais experimental. Acho que é interessante essa separação porque eu consigo até experimentar mais na Filarmônica e nesse meu solo fazer uma coisa diferente. Não acaba sendo tão diferente, porque como eu faço as composições, os arranjos da Filarmônica acaba que fica um pouco parecido, porque o jeito de escrever os arranjos para os instrumentos é meio parecido com o que eu escrevo para o solo também, então, sempre vai ter alguma semelhança. Saudade e a necessidade de reencontrar pessoas também são abordados no EP. Inclusive, mesmo preso em casa, assim como diversos brasileiros, Segreto continua criando, compondo, existindo (mesmo sendo difícil). Inspirado por seus álbuns preferidos, Líricas (Zeca Baleiro), Abbey Road (The Beatles), Alucinação (Belchior), Ok Computer (Radiohead) e Sobrevivendo no Inferno (Racionais MC's), ele sabe que a arte é a melhor arma para vencer. Com o isolamento social, causado pela pandemia, a arte de fazer música foi alterada para você? Com certeza. Não sei se foi o jeito de lidar, fazer, a composição, mas talvez o jeito da produção da música. Eu vi esse ano, por conta da pandemia, acho que todos os músicos tiveram que produzir muito mais vídeos, por exemplo, para a internet, muito mais conteúdo para as redes sociais porque como não está tendo show, então a gente precisa fazer o trabalho rodar pelas redes sociais e não só pelos shows. E também preparar as coisas para quando os shows retornarem. Eu vi isso e senti de outros amigos; como todo mundo começou a produzir muito mais vídeos, canções… Por um lado é um momento muito, muito, muito triste e revoltante, principalmente como o governo brasileiro cuidou disso, da pandemia. E por outro também foi um momento de muita produção. Ainda falando sobre o isolamento, seu processo de criação foi alterado? Tem sido mais difícil criar? Acho que nem tanto. Talvez as escolhas de composição que penso que será mais interessante para soltar uma canção em um certo momento do ano, mas em geral, meu processo de composição se manteve igual. Eu componho todos os dias, umas três horas por dia, então, eu continuei compondo… Eu acho que o lance que mudou pra mim foi mais a divulgação, eu senti maior necessidade de divulgar as músicas. Então, uma canção que eu compunha e que eu ia só depois gravar no disco da Filarmônica e ela ia sair só depois, eu acabei já lançando, já fazendo um vídeo no Youtube, enfim, coisas assim. Para conhecer o trabalho de Marcelo Segreto, acesse seu site.

Impressões: Do Meu Coração Nu

Escrever sobre o terceiro álbum do cantor e compositor Zé Manoel é difícil. É impossível não se emocionar, sentir o incômodo do pianista. Em seu novo trabalho, "Do Meu Coração Nu" (2020), Zé Manoel não está procurando ser amoroso, delicado, como foi o caso de "Delírio de um Romance a Céu Aberto" (2016), que contou com a participação de diversos cantores de peso. Agora, Zé Manoel reconta a história da população negra, fazendo de sua dor uma obra. Em "História Antiga", primeiro música de seu terceiro álbum, o cantor pernambucano conta, em forma de crônica, a violência policial que a população negra continua passando: “Políticas ultrapassadas / E olhares atravessados para nós / Houve um tempo em que a / canção não impedia / Mais um jovem negro de morrer / Por conta da sua cor / Uma história tão antiga em 2019 / De uma civilização antiga de 2019 / Oh, mas que história tão antiga em 2019 / De uma civilização antiga de 2019”. Veja também: Documentar Raphael Erichsen: aprendizados sobre a sétima arte Impressões: A Beleza Que Deriva do Mundo, Mas a Ele Escapa Impressões: Homem Mulher Cavalo Cobra Muita coisa mudou desde o primeiro álbum de Zé Manoel ("Zé Manoel, 2012) A transformação vai muito além do tom de suas músicas: o cantor está pronto para dizer sobre suas feridas, medos e angústias. Em "Notre Histoire", ao lado de seu piano e cantando em francês, o cantor repete: “Precisamos conhecer nossa história”. É o momento certo para refletir a sociedade doentia que vivemos. Para acompanhar esse álbum tão delicado e necessário, ele não está sozinho nessa: o álbum conta com a participação de Beatriz Nascimento, Luedji Luna, Bell Puã, Gabriela Riley, Grupo Bongar e Letieres Leite. Seja em música ou em áudio de WhatsApp, sua única missão é ser livre, demonstrando os diferentes sentimentos que existe dentro dele. Ao mesmo tempo que é um murro na cara, "Do Meu Coração Nu" é um respiro de esperança, afinal, a luta não está finalizada. Há muito para lutar. No fim, Zé Manoel é uma potência necessária para (re)contar sobre uma história em que brancos apagaram.

Documentar Raphael Erichsen: aprendizados sobre a sétima arte

"Ilegal: A Vida Não Espera" (2014) e "Radical: A Controversa Saga de Dadá Figueiredo" (2013) são os documentários mais conhecidos de Raphael Erichsen. Cineasta documentarista, roteirista e autor brasileiro, Erichsen também dirigiu a série Rally Mongol (2017) para o Multishow, esporte conhecido como "a aventura mais estúpida da terra". Dessa aventura surgiu o livro "Tudo Errado" (Editora Impossível, 2017). São 15 anos de experiência e uma bagagem recheada de conhecimentos. Rapha, como prefere ser chamado, aborda assuntos/pautas que precisamos discutir em uma sociedade, como é o caso do uso da maconha para fins medicinais que ajudam a aliviar dores crônicas, que está em "Ilegal". E não é só isso: ele quer que mais e mais pessoas entrem no mundo audiovisual, ou seja, assistindo, celebrando e ocupando espaços de uma profissão/área que não é bem vista pelos conservadores fascistas (o desmonte da cultura que Bolsonaro está fazendo, desde o início de seu mandado, é um dos exemplos). Por isso, o diretor lançou o Documentar, no meio da pandemia. O canal traz conhecimentos e dicas para quem produz, assiste, estuda ou tem curiosidade em saber mais dessa área. Aprender e encontrar refúgio na arte. Leia também: Entrevista: China continua resistindo em dias mortos Desalinhando Joni Mitchell e suas músicas que são como tatuagens Indicação: obras e artistas do movimento marginália Como diria Maurílio dos Anjos, do Choque de Cultura, Rapha é um amante da sétima arte. Seu interesse nesse mundo surgiu na infância, o diretor começou a gravar aos oito anos de idade, quando ainda era pequeno: "Sempre filmei muito, mas nunca tinha pensado em fazer filmes até que quando eu tinha uns 20 e poucos anos, trabalhava na redação da Superinteressante, e resolvi largar tudo e me dedicar a estudar e fazer documentários", ele explica. Para ele, "documentar é uma coisa que eu gosto de fazer e não uma profissão", complementa. Seu canal Documentar aborda diversos assuntos. Como a ideia surgiu? Há muito tempo eu penso em construir um canal dedicado a documentários, mas confesso que bem diferente do que o canal tem se tornado. Sempre pensei num canal como uma plataforma para lançar filmes, discutir o gênero… E essa ideia sempre ficou na minha cabeça. Aí veio a pandemia e rapidamente eu entendi que iria ficar um bom tempo sem sair pra filmar e aí, comecei o Documentar. Na impossibilidade de sair para filmar, comecei a falar sobre o que eu sei e o que eu gosto e acho que deu certo. A audiência começou a crescer e, de certa forma, isso virou um formato dentro do canal. Comecei a falar de história do documentário, formas de se fazer, abordagens e acho que as pessoas gostaram. Mas de qualquer maneira, vejo o Documentar como uma plataforma e estou com vários filmes de outros cineastas engatilhados para lançar no canal. Quero que o Documentar seja um espaço amplo, pra todo mundo, para fomentar essa cultura em torno da não-ficção. Em "Rapha Reage", um dos quadros do seu canal, você analisa obras recém-lançadas. Quais foram as obras, realizadas neste ano, que você assistiu e que te impactaram? Esse quadro é uma vontade de fazer uma coisa mais imediata, uma reação direta ao que está acontecendo. O último lançamento do Netflix ou alguma coisa que eu vejo que nem é um documentário, mas que eu consiga ter um ponto de vista interessante. Esse ano, os festivais e mostras migraram para o online o que permitiu ampliar muito a quantidade de docs para se assistir. Só no Brasil, tiveram duas edições do É Tudo Verdade, In-edit, mais de 50 documentários na Mostra SP… Acho importante as pessoas saírem da mesmice do Netflix e buscar outras fontes - e os festivais possibilitam isso. Esta semana na Mostra, eu assisti o filme novo do Frederick Wiseman, "City Hall", que é um documentário de mais 4 horas. Não sei como seria essa experiência dentro de uma sala de cinema. Em "Documentar Apresenta", você realiza estreias. Como acontece a seleção do que estará em seu canal? Basicamente vem de pessoas que me procuram ou que eu vou atrás. Essa é a parte que eu mais quero desenvolver no canal e já estamos com bastante coisa engatilhada. A seleção é uma curadoria mesmo, o meu "feeling" de entender o que cabe no canal ou não. Queria conseguir lançar pelo menos um filme por mês e estou atrás de curtas metragens. Acho que estamos num ótimo momento para curtas! Existem vários canais se dedicando a isso e estou bem interessado em ter um bom cardápio de filmes nessa sessão - principalmente de filmes que chegam ainda em um estágio em que eu possa ajudar criativamente, como um comission editor, e isso já está acontecendo. Durante o isolamento social, diversas pessoas realizaram documentários e curtas sobre viver durante a pandemia. Como você vê esse quadro, fazer "vídeos caseiros", hoje em dia? Você acha que esse modelo vai alterar alguma forma da criação em fazer cinema? Acho que sim. Acho que esse movimento pode gerar uma onda de filmes mais artesanais, mais caseiros. Tenho visto muita coisa interessante. E passa por aquilo que estávamos falando sobre financiamento; nunca foi tão acessível fazer filmes, então, talvez, não faça mais sentido você ter uma ideia e ficar esperando um financiamento para poder executá-la. Eu queria muito incentivar as pessoas a apostarem em filmes artesanais, caseiros. Eu mesmo estou produzindo uns. A pandemia alterou a sua visão sobre o mundo, principalmente sobre o seu trabalho? Algumas coisas na forma de trabalhar vão mudar, com certeza. Eu faço essa série de entrevistas no canal que eu sempre quis fazer e antes pensava em ter um estúdio, uma estrutura… Agora faço com pessoas que podem estar em qualquer lugar a um clique. Isso já mudou a forma de se fazer as coisas. Seu canal também questiona o gênero do documentário, indo mais além, sobre a suposta busca pela verdade que os documentários tentam alcançar. Através deste recorte, Rapha traz questionamentos em dois quadros, "É tudo verdade" e "É tudo mentira", usando exemplos de filmes famosos. O conteúdo é totalmente didático (e se houver alguma dúvida, não hesite, entre em contato com o diretor para tirar suas inquietações). Inclusive, para melhorar o debate sobre arte, Rapha conversa com outros diretores, deixando o diálogo mais rico. Nesses 15 anos de experiência, o significado de trabalhar com a arte mudou para você? Acabei descobrindo que a sétima arte tem muito mais de indústria do que de arte em si. A arte é o que fica, é o resultado mas o trabalho é duro e cansativo. Cada ideia, cada filme que se faz é uma montanha enorme que você tem que subir, então, hoje em dia acho que não tenho mais esse ponto de vista romântico de artista. Pra mim é muito mais acordar toda segunda-feira e ter a disciplina para conseguir movimentar as ideias. Quais são os obstáculos em fazer documentários no Brasil? O maior obstáculo não só no Brasil como no mundo é o financiamento. No Brasil não é pior nem melhor. E por aqui passamos por fases. A questão é que fazer documentário é você estar sempre pedindo para os outros para acreditar nas suas ideias. Cinema é uma arte coletiva, não se faz sozinho na maioria das vezes, então tudo começa com financiamento e essa é a parte mais difícil. Especialmente agora estamos passando por um momento muito delicado e estamos assistindo a uma fase de transição nas formas de financiamento do audiovisual brasileiro – o que exige ainda mais calma e paciência e gera maior dificuldade para financiar projetos novos. Anna Muylaert disse em seu curso "Roteiro Cinematográfico" que uma boa história é aquela que, de preferência, diga algo que nunca foi dito. Para você, o ineditismo é algo necessário? Acho que o que ela quer dizer é que uma boa história é aquele que não foi dita daquela forma e sempre existe uma abordagem nova para a mesma história. Eu acho que sempre existe novas maneiras de se contar a mesma história. Acho que o segredo é você encontrar a sua visão para aquela obra. O que só você pode dizer sobre aquilo. Então é menos sobre ineditismo e mais sobre ponto de vista na minha opinião. Para você, como será o futuro do cinema brasileiro? Como será eu não sei, mas esse futuro está se moldando agora. É como se a gente tivesse reescrevendo as regras do jogo. As formas de financiamento do cinema brasileiro como foram feitas nas últimas décadas estão em cheque e vamos precisar criar novos modelos para conseguir fazer filmes. Você conta com alguns documentários e séries no currículo. Agora tem o canal Documentar no Youtube. Quais são os planos para o futuro? O meu trabalho, desenvolvendo e fazendo filmes continua igual e é a isso que eu me dedico a maior parte do meu tempo. Estou no meio do processo de começar a filmar meu próximo longa e com outros projetos em andamento. A diferença é que agora tenho mais um filho para criar que é o Documentar. Tem que alimentar ele, cuidar, pensar no futuro. Mas no momento é fazer ele crescer e conseguir transformar num ponto de encontro entre pessoas interessadas no universo dos documentários. O Documentar tem muito à dizer, assim como Rapha e tantos outros diretores. Para ficar dentro da área e receber indicações, inscreva-se no canal.

Desalinhando Joni Mitchell e suas músicas que são como tatuagens

Nos últimos oito meses, Joni Mitchell não sai dos meus ouvidos. "Blue" e "Clounds", meus álbuns preferidos, são tocados constantemente. Acho que cheguei no momento em que preciso ouvir, pelo menos, uma música dela para tentar sobreviver. No meio de uma pandemia, genocídio de negros e indígenas, crise ambiental, social e econômica, é ela que tem me salvado. E é aqui, já no primeiro parágrafo deste texto (ou seria uma carta de confissão?) que digo: a arte salva. Roberta Joan Anderson. Esse é o seu nome verdadeiro. Adotou o Mitchell de seu primeiro marido, o cantor folk Chuck Mitchell, e nunca mais parou de usar. O casamento não durou muito tempo (não vou entrar nessa questão pois, assim como Ted Hughes, nunca se importou com a esposa, apenas com o seu trabalho e ego), no entanto, a artista começa a colocar as dores para fora de diversas formas: através de poemas, pinturas e canções. Em algum momento do passado, ela disse que não seria ser cantora, apenas pintora. Também não queria ser famosa. Em seu primeiro álbum de estreia, "Song To A Seagull" (1968), a música "I Had a King", que abre o álbum, foi escrita para o Chuck. O rei da estrada, que ficava com grande parte dos holofotes, recebe uma boa (e ainda poética) resposta sobre o relacionamento que durou um ano e meia: "I had a king in a tenement castle / Lately he’s taken to painting the pastel walls brown / He’s taken the curtains down / He’s swept with the broom of contempt / And the rooms have an empty ring". Leia também: Os pedaços de Edith Elek Impressões: A Beleza Que Deriva do Mundo, Mas a Ele Escapa O mundo através das lentes de Bruno Nakamura Foi em 1970 em que ela alcançou o sucesso, fazendo música influenciada pelo jazz (principalmente por Miles Davis) e folk. Suas canções abordam romances, desilusões, separações, confusão e alegria - um misto de tudo; assim como estamos vivendo. Após premiações e um Grammy, Joni se sente sufocada e reduz o ritmo, focando naquilo que a faz bem, como é o caso das pinturas. A criação de sua obra-prima No meio desse isolamento, surge "Blue", um dos álbuns mais importantes da história da música. Em dez músicas, Joni Mitchell aborda amor, distâncias e perdas, mostrando aos fãs a sua verdadeira face: de uma mulher que faz arte com suas dores. Além disso, ela traz uma questão importante nos anos 70, o fim da contracultura. O que seria do futuro sem as revoltas e questionamentos dos jovens? Como continuar? O que será dos Estados Unidos que é comandado por Richard Nixon? O álbum foi escrito, na maior parte, durante uma viagem pela Europa. Ao respirar novos ares, Joni consegue colocar no papel suas questões, seus sentimentos. É impossível não se enxergar em suas músicas. Em 2010, a artista multimídia foi considerada a 62º artista mais importante de todos os tempos pela Rolling Stone EUA. Dez anos já se passaram e ela continua conquistando as novas gerações, afinal, suas músicas são tatuagens. Ser contagiada por Joni Mitchell é uma sorte, uma dádiva que deve ser celebrada todos os dias. Obrigada pela arte, Joni.

Impressões: A Beleza Que Deriva do Mundo, Mas a Ele Escapa

O novo álbum de Wado, "A Beleza Que Deriva do Mundo, Mas a Ele Escapa", lançado em outubro, é cheio de poesia. Não precisa ir longe para chegar à essa conclusão: já na primeira música é possível verificar as estrofes poéticas. As letras combinam perfeitamente com as harmonias, em um tom acústico, mais leve, caindo como uma luva para o momento em que estamos vivendo. Para a construção deste álbum, o cantor reúne diversos artistas, mostrando ao ouvinte que é possível sentir saudade sem a tristeza. Ao lado de FLORA, cantora alagoana, por exemplo, Wado mostra que é admissível reviver a adolescência, os amassos e as memórias sem sentir nostalgia de um passado que se foi. A ideia está na música "Faz Comigo". Leia também: O mundo através das lentes de Bruno Nakamura Impressões: Homem Mulher Cavalo Cobra Literatura: As mutações de Liv Ullmann Ao compararmos "Precariado" (2018) com "A Beleza Que Deriva do Mundo, Mas a Ele Escapa", muita coisa não mudou, no entanto, Wado está mais maduro, pronto para dialogar com o ouvinte seus sentimentos, como se fosse uma sessão de terapia. Um bom exemplo é "Cuida", décima música do álbum, que conta com feat de Felipe de Vas e LoreB. Alias, todas as composições foram escritas em parceria, deixando tudo mais sensível. Outra música que merece atenção é "Angola", colaboração com Zé Manoel, Thiago Silva e Alfredo Bello. As vozes dos artistas misturam-se ao som do violão, baixo e piano, carregando a dor da benção (caracterizado em um pássaro) e da morte (“Angola canta por sua dor”). Definitivamente, Wado está no melhor momento de sua carreira, tendo domínio de sua arte que conquista diversos grupos. O álbum já está disponível em todas as plataformas de música.

O mundo através das lentes de Bruno Nakamura

Conheci Bruno Nakamura em uma agência de comunicação. Trabalhamos juntos. No meu primeiro dia, almoçamos juntos e ele me contou que, além de publicitário, era fotógrafo. Quando ele me mostrou suas fotos, fiquei com vergonha: zoom, ISO e enquadramento passam batido por mim (e olha que estudei fotografia na faculdade). Ele disse que não era difícil tirar uma boa foto (tive que me segurar para não rir, porque pra mim é difícil sim!) e me deu dicas. Tentei colocar em prática suas dicas, mas não deu certo. Deixo para quem tem talento. Bruno é filho de fotógrafo. Inclusive, na infância, ele era assistente de seu pai. Já viu de tudo um pouquinho e foi ali, no segundo plano, que aprendeu com o seu mestre: "Tenho muitas lembranças da época de infância, anos incríveis das câmeras com filmes. Mas a paixão pela fotografia aumentou quando amigos de uma agência de publicidade, sabendo que eu tinha câmera fotográfica, me pediram para fotografá-los. Ao verem o resultado final, eles me incentivaram a investir nessa carreira", ele me explica. Leia também:
Os pedaços de Edith Elek Brunner: o artista incendiário CA CAU: o artista multimídia cheio de poesia Ele está no mercado há seis anos e já fotografou de tudo, mas é no urbano que se encontra: "Gosto de coisas abstratas, detalhes, prédios, dia a dia. Mostrar o dia a dia das pessoas, como estão sentindo. Eu quero ajudar as pessoas através da fotografia", ele me escreve quando pergunto se tem alguma preferência para fotografar. Você é publicitário e fotógrafo. O que te levou a trabalhar com arte? Eu estudei em escola japonesa e a mesma tinha várias atividades que envolviam a arte, como, por exemplo, o desenho e o origami. Consequentemente, sempre me identifiquei com as atividades e isso prendia minha atenção. Nas horas vagas, eu também lia mangás e desenhava os personagens. Com 17 anos, um senhor que era dono de uma agência publicitária me convidou para trabalhar como estagiário e aceitei. Aprendi usar o computador, utilizar softwares de edição e continuei investindo e evoluindo nessa área. Quais são as suas inspirações? Junjiro Nakamura, Otávio Rotundo, Clóvis Vasconcelos, Platon e Sebastião Salgado. São Paulo é cheia de prédios, poluição e cimentos. Por que continuar fotografando a cidade? Amo São Paulo e não vejo dessa forma. Vejo uma cidade iluminada, repleta de riqueza arquitetônica e urbanística, pessoas de várias etnias e muita movimentação. Passamos todos os dias pelos mesmos lugares e não olhamos os detalhes. O que as pessoas veem como prédios, vejo a arte - através da foto, resgato. Observo esses detalhes e fotografo. Quero transmitir a emoção através do meu olhar. Quais são os elementos essenciais que você deseja passar com a sua fotografia? Luz, composição e equilíbrio. Sua visão de mundo (vamos dizer assim) foi alterada depois que você começou a fotografar? Sim. Eu fazia o trajeto do trabalho e tudo me parecia igual. Quando comecei a fotografar, vi a oportunidade de observar coisas do cotidiano de formas diferentes e seus detalhes. Mesmo com a pandemia, você continua tirando fotos. Sua visão de fotografia/trabalho foi alterado? Se sim, como? A demanda por serviços fotográficos diminuíram drasticamente, por um motivo óbvio e necessário: precisamos priorizar a nossa saúde, a saúde dos nossos clientes, familiares e amigos. Para conseguir fotografar, tive que aprofundar as técnicas e comecei a capturar o cotidiano através da janela. Bruno diz que a beleza da fotografia está no olhar de cada um. Isso é aplicado para ele: sua doçura e olhar atento conseguem transmitir os sentimentos daquele segundo específico, que agora está capturado através de suas lentes. Para conhecer o seu trabalho, acesse seu Instagram: @bynakamura.fd

Eventos online: 14º CineBH e 11º Brasil Cine Mundi

Começa amanhã, quinta-feira (29), a 14º Mostra de Cinema de Belo Horizonte (CineBH) e o 11º Brasil Cine Mundi - International Coproduction Meeting, festivais que compartilham o melhor da sétima arte de todo mundo. Totalmente online, os eventos estarão disponíveis até 2 de novembro. No total, serão 54 filmes nacionais e internacionais em pré-estreias e mostras temáticas (14 longas, 4 médias e 35 curtas), de 12 estados brasileiros e de 12 países. Além disso, os cinco dias contarão com debates, painéis e rodas de conversa, 4 masterclasses internacionais, laboratórios de roteiro, oficinas e diversas outras atividades que buscam refletir sobre o mercado audiovisual. Leia também: Desalinhando Sylvia Plath: a escritora imortal Os pedaços de Edith Elek Confira novos e futuros lançamentos de outubro Para este ano, a CineBH está trabalhando com o tema "Arte Viva: Redes em Expansão", que dialoga diretamente com o impacto da pandemia na produção artística brasileira. Proposta pela equipe curatorial do evento, formada pelos críticos e pesquisadores Pedro Butcher, Francis Vogner dos Reis e Marcelo Miranda, a temática busca pensar a rede de relações construída entre as artes presenciais, desde o teatro até os shows, e a linguagem audiovisual, adotada por criadores e espectadores durante o isolamento social. Já o Brasil CineMundi - International Coproduction Meeting, que está em sua décima primeira edição, segue reunindo dezenas de participantes para discutirem o futuro do cinema no país. Este ano, o evento terá a participação de 30 convidados de 14 países. Uma das novidades desta edição é que os projetos de filmes brasileiros de longa-metragem serão avaliados em três categorias: desenvolvimento, produção e finalização. Para mais informações sobre os eventos e programação, acesse o site www.cinebh.com.br

Desalinhando Sylvia Plath: a escritora imortal

Se estivesse viva, Sylvia Plath completaria 88 anos hoje, nesta terça-feira. Foi no dia 11 de fevereiro de 1963 que a escritora se suicidou ao colocar sua cabeça no forno do fogão com o gás ligado. Ao morrer, Sylvia ganhou o reconhecimento que sempre buscou. Ao morrer, tornou-se uma escritora imortal, que está presente em tantos outros escritores, obras, jovens e essa jornalista que escreve. Sylvia foi tudo após sua morte. Sylvia nasceu em 1932, filha de Aurelia e Otto Plath. Três anos após seu nascimento, nasceu Warren, seu irmão mais novo. Com um pai alemão, Sylvia aprendeu desde pequena a conviver com a ordem, obedecendo a última palavra de Otto. Mesmo morando na mesma casa, pai e filha não tinham uma convivência, apenas se suportavam. De acordo com Carl Rollyson, autor da biografia "Ísis Americana: A Vida e a Arte de Sylvia Plath", Otto não era carinhoso e não tinha paciência com os filhos - com a falta de amor, a filha descobriu ser capaz de conquistar a admiração do mais velho escrevendo poemas para ele. Assim que aprendeu a escrever, não parou mais. Leia também: Os pedaços de Edith Elek Literatura: as mutações de Liv Ullmann Mariana Godoy continua se afogando em Virginia Woolf Otto morreu em 1940, devido a complicações de uma diabete diagnosticada tardia. Morreu uma semana e meia após o aniversário de oito anos da filha. Aurelia fica sozinha com duas crianças e proibiu os filhos a irem ao enterro. A proibição deixou marcas em Sylvia, nunca superando a morte do pai desconhecido. Os problemas com a mãe começam em seguida: ela culpa a mãe pelo vazio em seu peito e que era obrigada a pagar a dívida que tinha com a mãe, que fez de tudo para que os filhos tivessem conforto na vida. Por não conseguir dizer o que sentia, Sylvia acreditava que a mãe era culpada por suas dores, perdas e sentimentos. "- Para mim, o presente é para sempre, e o eterno está sempre mudando, fluindo, se dissolvendo. Este segundo é vida. E quando passa, morre. Mas você não pode recomeçar a cada novo segundo. Tem de julgar a partir do que já está morto. Como areia movediça… invencível desde o início. Uma história, uma imagem, pode reviver algo da sensação, mas não o bastante, não o bastante. Nada é real, exceto o presente, e mesmo assim já sinto o peso dos séculos a me esmagar. Uma moça, há cem anos, viveu como vivo. E ela está morta. Sou o presente, mas sei que também passarei. O momento culminante, o relâmpago fulgurante, chega e some, contínua areia movediça. E eu não quero morrer." (Os Diários de Sylvia Plath: 1950 - 1962) Entra na Smith College em 1950 e começa a sentir a pressão da faculdade. Durante o primeiro ano, Plath enfrentou diversas crises de ansiedade, já que era perfeccionista e não queria reprovar em nenhuma matéria. No mesmo ano, encaminhou uma carta para a mãe, onde menciona pela primeira vez o suicídio. Muitos amigos relataram aos diversos biógrafos de Sylvia, que ela perdia o controle constantemente na faculdade. Após ganhar uma bolsa de estudo, vai para Nova York e escreve para a revista Mademoiselle. Sua vivência em nova cidade é retratada no livro "A Redoma de Vidro" sob o pseudônimo Esther Greenwood, único romance da poeta americana. No mesmo ano, Sylvia teve um bloqueio criativo e foi a primeira vez que a escritora pensou em suicídio. A ideia de não ser boa o suficiente ou (pior), ficar sem as palavras, sua escrita, preocupava Plath. Tente tirar a escrita de um escritor - ele morre. "Mas eu não tinha certeza. Eu não tinha certeza de nada. Como eu poderia saber se um dia - na faculdade, na Europa, em algum lugar, em qualquer lugar - a redoma de vidro não desceria novamente sobre mim, com suas distorções sufocantes?" (A Redoma de Vidro) Sylvia escrevia sobre a realidade, sua vida. Nostalgia, tristeza, morte, perda, amor são alguns temas que a escritora trouxe para suas obras. Em seu livro de poesia, "Ariel", Sylvia aborda a figura paterna, assim como o ciúmes e a frustração de estar casada com aquele que era (e deveria continuar) seu herói, Ted Hughes. Inclusive, o escritor nunca se importou com a ex-esposa, aproveitava sua fragilidade para tirar proveito - Sylvia datilografava e encaminhava seus poemas para veículos e críticos. Ele também criticava o trabalho de Sylvia, alterando algumas palavras. A cumplicidade do casal tinha acabado. Foi com a morte prematura que Sylvia ficou famosa. Alguns dizem que foi mais pelo significado do feminismo do que por suas obras. Não consigo opinar sobre o caso, no entanto, acredito fielmente que Sylvia não queria morrer - ela só queria ser salva. Ela precisava preencher o vazio que carregava desde pequena. Ao entregar sua vida ao herói britânico, Sylvia acreditava que receberia tudo. "Julho de 1950 - Talvez eu nunca seja feliz, mas esta noite estou contente. Nada além de uma casa vazia, o morno e vago cansaço após um dia ao sol plantando estolhos de morango, um doce copo de leite frio e um prato raso de mirtilos cobertos com creme. Agora sei como as pessoas conseguem viver sem livros, sem faculdade. Quando a gente chega ao final do dia tão cansada precisa dormir, e ao amanhecer haverá mais morangos para plantar, e vai-se vivendo em contato com a terra. Em momentos assim eu me consideraria tola se pedisse mais…" (Os Diários de Sylvia Plath: 1950 - 1962) Diversas biografias e críticas literárias foram escritas sobre Sylvia e sua escrita, no entanto, nós nunca conhecemos a verdadeira Sylvia Plath: por falta de um testamento, tudo o que ela possuía foi para Ted, ou seja, tudo que ela escreveu foi para o ex-marido. Ted alterou palavras, cortou frases e retirou tudo que mencionava ele antes de publicar. Recebemos o "original" da escritora anos depois, quando Frieda Hughes, filha de Sylvia com Ted, relançou "Ariel", com os manuscritos e ordem original, do jeito que a mãe deixou antes de morrer. Sylvia foi embora cedo, mas suas obras continuam presentes. Sua força também. Suas palavras potentes continuam ecoando em um mundo que a redoma foi quebrada.

Os pedaços de Edith Elek

A primeira vez que ouvi o nome de Edith Elek, foi no meu primeiro trabalho, anos atrás, em um sebo. Uma cliente estava comprando o livro "Céu da Boca: Lembranças de Refeições da Infância", que relata a história de diversas pessoas que lembram refeições e sabores da infância e adolescente. De acordo com a cliente: "é um livro lindo, voltamos ao passado, lembramos daquilo que esquecemos num exercício sensorial de memória. Todo mundo deveria ler!". Por alguma razão, a capa me fez lembrar de minha avó, que mora no interior, que cozinha bem e que ao lembrar dela, revivi algumas memórias. Abraços, beijos, confissões, segredos e brincadeiras. Talvez o trabalho de Edith seja esse: fazer com que o leitor relembre de seu passado, das memórias boas e ruins para não se esquecer. A vida é bonita, mesmo com perdas, tristezas e angústias. Viver é isso. Tudo e nada. Leia também: Literatura: as mutações de Liv Ullmann Marcela Brandão e sua nova música popular brasileira Mariana Godoy continua se afogando em Virginia Woolf Edith vem de uma família de húngaros. Foi a única da família que nasceu aqui. Fez sua vida no Brasil: foi editora, escreveu para diversos veículos, trabalhou com livros - inclusive, foi tradutora dos livros "Jogo de Cena em Bolzano", de Sándor Márai, e "A Febre do Amanhecer" de Péter Gárdos, ambos saíram pela Companhia das Letras. É terapeuta, trabalhando com pessoas com câncer, mas seu verdadeiro dom está nas palavras. A escritora acaba de lançar seu primeiro livro de poesia, "Pedaço de Mim", pela 7Letras. Escrito em diferentes momentos de sua vida, a obra aborda corpo e alma, doença e saúde, medo e desejo, perdas e ganhos, sonho e fantasia caminham juntos e vão aos poucos formando um mosaico vívivo de sensações. É impossível não se enxergar nos escritos de Edith. Balanço Morri muitas vezes, sobrevivi outras tantas. No caminho, cruzei descaminhos mas sempre voltei a tempo da aurora. Escorreguei em musgos e limos, escalei montanhas rochosas. Do céu não provei o gosto, mas tingi os olhos de azul e cavalguei estrelas. Plantei sementes, colhi frutos, uns ácidos, outros maduros. Espelho de fantasias, bumerangue de emoções, fui tão longe quanto permitiu meu corpo. Se valeu a pena? Que o diga quem fica e me ama. Meu destino era esse: roçar com as asas estranhas a alma de muita gente. Antes de falarmos sobre o seu recente livro, gostaria de saber como e quando a escrita surgiu em sua vida. Olha, eu comecei a escrever adolescente. Eu já escrevia poesia e na adolescência eu gostava muito de escrever, por prazer, simplesmente. Depois, teve períodos em minha vida que eu escrevi em outros eu parei, mas de alguma forma, eu sempre estava escrevendo, porque fui jornalista. Então, a escrita é uma coisa que sempre permeou a minha vida. Agora, essa leva do livro [Pedaço de Mim], foi em um período, mais ou menos, entre 1980 e 1985 em que eu passei por muitas situações difíceis. Não era nem uma decisão minha de "vou sentar e escrever um poema", era uma coisa que vinha com uma força tão grande… Nesse período eu escrevi muito! Foi muito útil pra mim, foi muito bom, porque eu pus para fora aquelas emoções que estão confusas dentro de você. Então, quando se encontrou na escrita, nunca mais parou… Olha, parei. Fiquei sem escrever poesia durante um bom tempo. Alguns anos atrás, eu escrevi algumas que estão no livro. Recentemente também escrevi uma coisinha ou outra, mas tenho escrito muito menos poesia. Acho que aquele fluxo que eu tive, aquela chuva que teve em minha vida, foi só aquela vez. Mas eu escrevo outras coisas. Eu fui editora durante muitos anos, então você acaba fazendo um monte de coisa… Quer dizer, eu estava sempre escrevendo. Alguns anos atrás eu comecei a escrever um livro sobre a minha vida, como filha de imigrantes. Minha família toda é da Hungria, e eles vieram a contra gosto e isso teve uma série de implicações em minha vida. Então, eu comecei a escrever textos. Eu fiz um curso de ensaio, um dia, e cheguei à conclusão que a minha forma era aquela - eu gosto muito de escrever ensaio! Então, eu fui escrevendo vários ensaios de episódios que lembrava a minha vida e nisso se transformou em um outro livro que sai ano que vem. Para você, escrever é difícil? Não, pra mim vem muito fácil. Ou vem ou não vem. Como é um processo muito profundo, de alma, não é uma decisão cerebral: "eu escreverei agora um texto", não é assim que funciona pra mim. Pra mim é uma coisa que vem como uma urgência, tô querendo falar alguma coisa - aí, sento e escrevo. Tenho escrito bastante, atualmente. Quando eu tô angustiada com alguma coisa, acho que não sei fazer de outro jeito, a não ser escrever. Você trata diversas questões em seu livro. O que te levou a colocar a frase "Pedaço de Mim" no título? Porque eu gosto da música do Chico [risos] [“Oh, pedaço de mim / Oh, metade afastada de mim / Leva o teu olhar / Que a saudade é o pior tormento / É pior do que o esquecimento / É pior do que se entrevar”] Esse título surgiu um dia na minha cabeça… Ele ia ser do livro húngaro, sobre a Hungria, mas como eu não tinha título para o livro de poesia, achei que ia ficar bem nesse livro. E também, os poemas são pedaços de mim. “Pedaço de Mim” trata a amargura e a doçura que é existir. Para você, escrever alivia o peso da existência? Esses poemas me trazem um grande alívio sim. Você despeja para fora aquela dor que está dentro de você e que às vezes, você não consegue nem nomear. E o poema cria forma para aquela dor. Agora, também tem momentos de epifania, tem momentos de prazer, no meio da dor - sempre uma perspectiva da saída da dor. Acaba virando um processo que eu recomendo muito [risos]. Para você, a escrita surge, vem naturalmente. Quando ela não aparece, você não fica angustiada ao carregar tanta coisa?! Eu respeito o tempo, cada momento é um. Tem momentos que você não consegue, tem momentos que você fica mais angustiada, arrastando aquela angústia… Tem coisas que vão mudando na vida da gente, né. A medida que a gente envelhece, a vida da gente vai mudando muito. No meu caso… Digamos que naquela época, eu era muito mais solitária e hoje em dia eu tenho muitas amigas queridas, pessoas que eu converso sobre essas coisas, diminuindo a minha necessidade de escrever. Hoje, eu converso mais, troco mais com as pessoas. Um fato interessante do livro: "Pedaços de Mim" só ganhou vida por conta do escritor e filósofo, Rodrigo Petronio: "Eu fiz um curso de escrita com o Rodrigo e foi ele que pediu para ver alguns textos que escrevi e aproveitei para levar os poemas antigos. Ele ficou apaixonado e disse que deveria ser publicado", Edith me explica. Ainda bem! Obrigada, Rodrigo, é o público que ganha com isso. Para comprar o livro de Edith Elek, "Pedaços de Mim", clique aqui.

Aglomeração online: festivais e exposições para participar em casa

Saudade de uma aglomeração, né? Ainda bem que existe a tecnologia para diminuir a saudade. O fim de semana conta com festivais, exposições, debates e entrevistas para todos os gostos. Abaixo, você confere as opções. Leia também: O melhor do audiovisual na 44º Mostra Internacional de Cinema Impressões: Homem Mulher Cavalo Cobra Marcela Brandão e sua nova música popular brasileira Festival Jambu Live (23/10 a 29/11) Organizado pelo Projeto de Extensão da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal do Pará (Facom/UFPA), o Festival Jambu Live começa na sexta-feira, 23, e vai até 29 de novembro. Durante esse tempo, mais de 60 espetáculos passarão pelo festival, incluindo música, dança, teatro, arte cênica e tudo que a cultura paraense tem para entregar. Com curadoria da cantora Alba Mariah, o festival tem como objetivo ajudar os diversos artistas que foram prejudicados por conta da pandemia ao monetizar o trabalho dos profissionais da área em lives. O festival será transmitido pelo Instagram Jambu Live. Orgulho e Resistências - LGBT na Ditadura (24/11) Dando continuidade aos sábados resistentes virtuais, o Memorial da Resistência, ao lado da Secretaria da Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo e o Núcleo de Preservação da Memória Política realizam, a partir das 15h, na página do Facebook, a exposição Orgulho e Resistências - LGBT na Ditadura. Com o apoio do Museu da Diversidade Sexual e da Casa 1, a exposição traz informações, documentos, fotografias e objetos que revelam a repressão que o grupo sofreu durante os anos de chumbo. Para aprimorar a exposição, o Movimento Nacional de Artistas Trans (Monart) participará do evento, debatendo a produção LGTBQ+ e o conservadorismo que foi instalado no Brasil. Também estarão presentes: Renan Quinalha (curador da mostra), James Green, Renata Carvalho, Bruno Oliveira, Leonardo Arouca e Julia Gumieri. Sampa Jazz Fest (24/11) A quarta edição do Sampa Jazz Fest promete! Esse ano, a programação está recheada: shows de Salomão Soares e Vanessa Moreno, Anna Setton e Bixiga 70 com participação de Tulipa Ruiz. Além disso, o evento inclui workshops ministrados pelo guitarrista de jazz americano Kurt Rosenwinkel, e Michael League, integrante da banda Snarky Puppy. O festival será transmitido online, por esse link. Balaclava Digital (24 e 25/11) O evento que começou no dia 19 está no finalzinho, mas ainda dá para aproveitar! Com formatos especiais, artistas apresentam suas canções de um jeito que dê para matar a saudade da aglomeração ao vivo. O fim de semana, o público poderá assistir Scalene + Josyara, Apeles + Jup do Bairro, Giovani Cidreira + Jadsa, Kiko Dinucci, Brvnks, Fabiano Nascimento, Andy Bell, SASAMI, Melkbelly e Mac McCaughan do Superchunk. Além dos shows, o Balaclava Digital conta com entrevistados. Anthony Fantano, crítico de música e Mac DeMarco são os convidados do fim de semana. O festival será transmitido pelo Twitch.

©2020 por desalinho. Criado com Wix.com