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Raquel Dimantas: Cosmo Dorme
A maternidade modifica uma mulher em diferentes maneiras que nem sempre é possível descrevê-las. Mas uma coisa é certa: quando nasce uma criança, nasce uma nova versão da mulher. É a partir desse renascimento que surge o segundo álbum de Raquel Dimantas, Cosmo Dorme (Coala Records, 2026). O disco nasceu a partir da experiência da cantora com a maternidade e do nascimento de Cosmo, seu filho, mas não se limita a transformar essa experiência em tema. A chegada da criança parece modificar a própria maneira como Raquel escuta, compõe e observa o mundo. Em vez de tentar explicar a maternidade, ela prefere registrar o que acontece quando a vida inteira precisa encontrar uma nova disposição. Dessa maneira, há uma reorganização no centro do disco, a cantora aceita que alguns objetos ficarão fora do lugar por um tempo - talvez para sempre, já que a maternidade chega com novas rotinas, descobertas e afetos. O resultado das novas vivências, isto é, o sono de um bebê, uma manhã, uma conversa e um momento de silêncio, são essenciais para a estrutura narrativa do disco. Porém, em vez de transformar a experiência em um grande relato sobre maternidade, Raquel encontra beleza naquilo que acontece entre uma tarefa e outra. Leia também: A sintonia de Ana Be Natalia Ginzburg: As Pequenas Virtudes Um Amor Incômodo (Créditos: Divulgação/Reprodução) Se 8Hits! (2022), seu trabalho anterior, apresentava uma artista ainda expandindo as possibilidades de sua linguagem, Cosmo Dorme nasceu de um movimento diferente: o de olhar para dentro depois que o mundo muda do lado de fora. Raquel Dimantas não abandona a inventividade, mas a coloca a serviço de uma escuta mais íntima. Existe menos necessidade de chegar a algum lugar e mais interesse em perceber o caminho. Ao misturar pop, rock, country, música cubana, surf music e elementos eletrônicos, o álbum cria um universo próprio, colorido e imprevisível, que combina com a experiência de quem precisa aprender diariamente a lidar com o inesperado. “Meu Bebê” parte do afeto materno sem transformá-lo em discurso grandioso. Em “Mira Que Belo Dia”, por exemplo, existe a sensação de redescoberta do cotidiano; como se a chegada de uma nova pessoa trouxesse também a possibilidade de enxergar novamente aquilo que já estava diante dos olhos. Já em “Papinho/Small Talk”, a voz do filho e o som de um chocalho aparecem na gravação, tornando quase impossível separar completamente a vida da obra. Ao misturar diferentes idiomas, as faixas soam como uma canção de ninar, deixando os ouvintes fascinantes do início ao fim. Nesse sentido, Cosmo Dorme não é apenas um registro afetivo; é também a confirmação de que o disco nasceu de uma experiência concreta, em que criação e cotidiano passaram a ocupar o mesmo espaço. No fim, o título do álbum revela uma pequena contradição: enquanto Cosmo dorme, Raquel desperta. Ela está acordada para uma rotina que conhece completamente, para afetos que ainda está aprendendo a nomear e para uma nova versão de si mesma.

Conheça: Shitiago
Ninguém tem o direito de determinar o tamanho do destino de outra pessoa. É a partir dessa recusa que Shitiago constrói “Destino Ínfimo”, seu novo single. Lançada com videoclipe dirigido por Cria da Rua, a faixa transforma o inconformismo em material para uma crônica de enfrentamento, em que persistir também significa assumir o controle da própria trajetória. Residente em Londrina (PR), Shitiago é daqueles artistas difíceis de acomodar em uma única definição. Músico, ilustrador e produtor musical, ele transita por diferentes linguagens e encontra justamente no cruzamento entre elas um espaço para desenvolver seu trabalho. Seu interesse pelo não convencional aparece tanto nas imagens que cria quanto na música, marcada por texturas, contrastes e combinações pouco previsíveis. Essa liberdade também se manifesta no som. Ao longo de sua trajetória, que já se estende por cerca de uma década, Shitiago passou pelo lo-fi hip-hop e, desde 2021, vem aprofundando sua relação com o rap. House, nu metal, rap e lo-fi hip-hop convivem em um repertório que não parece interessado em escolher apenas uma direção, mas em descobrir até onde é possível ir a partir delas. Leia também: Conheça: Mau k Quedalivre: Seres Urbanos Holy Fuck: Event Beat (Créditos: Divulgação/Reprodução) Em “Destino Ínfimo”, essa inquietação ganha contornos mais densos. Sobre os arranjos de Cofwed, Shitiago apresenta um eu lírico obstinado, consciente de suas contradições e pouco disposto a aceitar limites previamente estabelecidos. A influência de nomes como LEALL, Victor Xamã e Duquesa aparece como referência para uma linguagem que combina contundência e vulnerabilidade, enquanto o rapper procura afirmar uma identidade própria. A faixa parte da ideia de que ninguém deveria ter o poder de estabelecer até onde outra pessoa pode chegar. Há, portanto, uma dimensão de enfrentamento em “Destino Ínfimo”, mas ela não se resume a um discurso de superação. Shitiago trabalha também com as dúvidas, os conflitos e a necessidade de tomar as rédeas da própria trajetória - mesmo quando o caminho ainda não está completamente definido. “Destino Ínfimo” funciona ainda como uma porta de entrada para o que vem pela frente. O single inaugura o universo estético e sonoro que o artista pretende desenvolver em seu próximo EP, previsto para o fim de 2026. O projeto, realizado em parceria com a produtora Beatslab, representa uma nova etapa de uma trajetória que já soma com outros lançamentos, entre eles “Distopia” (2024) e “No Meu QG” (2025).

Antonio Neves & Thiaguinho Silva: Ladeiras de Santa Teresa
Uma das melhores maneiras de conhecer o Rio de Janeiro é caminhar pelas ruas de Santa Teresa. Há as ladeiras que obrigam o corpo a diminuir o passo, o bonde que atravessa o bairro como uma lembrança ainda em movimento, os bares, os ateliês, os casarões e a música que parece surgir de alguma esquina antes mesmo de ser possível encontrá-la. A geografia do local dá o tom de Ladeiras de Santa Teresa (Far Out Recordings, 2026), de Antonio Neves e Thiaguinho Silva. Com pouco mais de 23 minutos e seis faixas, o EP parte da tradição do samba-jazz - música instrumental brasileira que floresceu entre o samba, a bossa nova e o jazz nos anos 1960 -, mas não se limita a reproduzir a sonoridade daquele período. A escolha faz sentido porque a dupla devolve o gênero às ruas, incorporando hip-hop, groove, improvisação e a informalidade carioca. É tradição sem reverência excessiva; memória sem transformar o passado em prisão. Antonio e Thiaguinho chegam a esse encontro carregando importantes heranças musicais. Neves, filho do saxofonista Eduardo Neves, transita entre bateria, trompete, trombone, guitarra, composição e arranjo. Silva, filho do lendário baterista e percussionista Robertinho Silva, construiu uma trajetória marcada pela percussão e por uma escuta atenta aos diferentes sotaques da música brasileira. O encontro entre os dois começou a ganhar forma durante a pandemia e já havia deixado um primeiro registro em “Das Neves”, faixa gravada para a compilação Hidden Waters: Strange and Sublime Sounds of Rio de Janeiro, em 2023. Leia também: Ludovic: Ludovic MOMO.: Tum Tum Tum Alice Caymmi: Caymmi (Capa: Pedro Pessanha) O EP, porém, não é exatamente um trabalho de dois músicos isolados em torno de seus instrumentos. Embora os artistas estejam no centro da criação - com bateria, percussão, sopros e outros instrumentos assumindo diferentes funções -, Ladeiras de Santa Teresa se constrói a partir da colaboração. Luiz Otávio, Guto Wirtti, Oswaldo Lessa, Eduardo Santana e Eduardo Neves participam do disco, ampliando suas possibilidades melódicas e rítmicas. Kassin assina a mixagem, enquanto Marcelinho da Lua participa da gravação. A música parece, assim, obedecer à própria lógica do bairro que lhe empresta o nome: ninguém sobe uma ladeira sozinho por muito tempo. “Das Neves”, que abre o trabalho, já apresenta esse princípio. Sopros anunciam a faixa antes de piano, baixo e percussão costurarem uma combinação de samba e jazz. Em “Fendas Vocais”, a cidade parece acelerar. O jazz-funk ganha protagonismo, a guitarra cria um movimento quase sinuoso e a percussão de Silva injeta uma pulsação que impede a faixa de se acomodar. É um dos momentos em que a proposta do EP se torna mais evidente: o samba-jazz não é tratado como uma linguagem encerrada em determinado período, mas como uma estrutura aberta a outros ritmos, sonoridades e gerações. Em “Viagem de Trem”, a participação do rapper JOCA reforça essa abertura. O encontro entre freestyle e jazz funciona porque ambos dependem da escuta, do instante e da capacidade de reagir ao que acontece ao redor. Já “Romênia” percorre outro caminho. A faixa traz uma atmosfera de nostalgia e sofrência, fazendo a melodia crescer gradualmente até se tornar um dos pontos altos do EP. Há nela uma melancolia que contrasta com a vitalidade das faixas anteriores e amplia o alcance emocional do trabalho. A narrativa criada em Ladeiras de Santa Teresa acompanha as subidas e descidas do bairro. Santa Teresa não funciona apenas como cenário, mas como uma espécie de princípio organizador das composições. O local possui uma longa ligação com artistas, músicos e casas dedicadas à música instrumental, e a dupla reconhece essa continuidade como parte da identidade do projeto. Por isso, talvez seja equivocado ouvir Ladeiras de Santa Teresa apenas como um trabalho de música instrumental. Há uma dimensão urbana muito forte em suas seis faixas. Mesmo quando a voz aparece em apenas uma canção, existe uma narrativa: a cidade se move através dos instrumentos. O bonde poderia estar passando ao fundo; alguém poderia surgir de uma esquina; uma roda de samba poderia começar no bar ao lado; um rapper poderia improvisar algumas rimas antes de desaparecer pela próxima rua. “Misericórdia”, responsável pelo encerramento, entende que nem toda ladeira precisa ser vencida correndo. Depois da pulsação das faixas anteriores, a música desacelera e encontra um samba-jazz mais delicado, conduzido por guitarra de nylon, baixo, trombone, piano, saxofone e percussão. É uma despedida que não encerra completamente o percurso deixa a sensação de que ainda há outra esquina a dobrar. Antonio Neves e Thiaguinho Silva pegam uma tradição conhecida, retiram dela a poeira e devolvem-na à rua. O que se ouve, então, é menos uma reconstrução do samba-jazz do que uma fotografia sonora do Rio de Janeiro contemporâneo: imperfeita, inquieta, cheia de curvas e, sobretudo, ainda em movimento. Apoie financeiramente o desalinho e ajude a manter um espaço independente dedicado à crítica, às entrevistas e à divulgação da cultura independente. Toda contribuição faz diferença.

A sintonia de Ana Be
A cor azul carrega a serenidade dos recomeços, a profundidade das emoções e a delicadeza de encontrar beleza na vulnerabilidade. Através do tom, Ana Be apresenta Sintonia dos Novos Começos (2026) que transforma o amor em uma narrativa distante das idealizações, preferindo explorar seus caminhos mais honestos, contraditórios e humanos. (Créditos: Pamela Anastácio) Nascida e criada na Zona Leste de São Paulo, a cantora e compositora apresenta um trabalho que enxerga o afeto como um movimento constante. Em vez de buscar respostas definitivas, suas canções acompanham as mudanças de um eu-lírico feminino que descobre, desaprende e reconstrói a própria maneira de amar. O disco entende que a vulnerabilidade não é um desvio, mas uma força capaz de abrir espaço para novas experiências. Depois do EP Balanço 22 (2022), Ana Be aprofunda sua pesquisa estética e consolida uma assinatura própria. Com produção musical de Levi Keniata e realizado com recursos do programa VAI - Valorização de Iniciativas Culturais do Município de São Paulo, a cantora convida o ouvinte a encontrar outra frequência para olhar o amor: menos idealizada, mais sensível e aberta às imperfeições que tornam cada recomeço verdadeiramente único. "É um disco autoral que enxerga a vulnerabilidade como fortaleza em sua narrativa, é uma defesa da minha própria história e dos ensinamentos absorvidos em momentos cheios de frescor e de beleza. Em Sintonia dos Novos Começos busquei cantar o amor de maneiras não tão óbvias, seguindo por uma autenticidade e estética bastante próprias", comenta a artista. Leia também: Exclusive Os Cabides: Feliz e Triste ao Mesmo Tempo O mundo distópico de Leandro Serizo Julie Neff encontra beleza nas rachaduras em fine. Você define Sintonia dos Novos Começos como um disco sobre o amor, mas contado por perspectivas pouco convencionais. O que te incomoda, ou já incomodou, nas narrativas tradicionais sobre o amor nas músicas? O que mais me pega nas narrativas tradicionais sobre o amor é a linearidade, que muitas vezes vai para um lugar-comum, e eu não queria ir por aí. O amor é muito complexo para caber em um só formato de história, e foi justamente buscando um contraponto para isso que pensei na narrativa do meu disco. As narrativas tradicionais sobre o amor têm um roteiro já muito pré estabelecido, e eu queria dar outros finais para esse assunto, que já tem uma bagagem muito marcada no senso comum. Pensei em como seria falar sobre finais e recomeços deslocando a história do eixo amor romântico e focando sobre se reencontrar depois dos fins. Você canta sobre diferentes fases de um relacionamento, ou seja, da sedução ao acolhimento. Existe uma narrativa pensada entre as faixas ou o ouvinte pode construir sua própria história? Olha, eu adoro a ideia de jogar para o ouvinte a possibilidade de construir sua própria história a partir do que o disco oferece, acho que a arte tem isso, ne? A partir do momento em que foi lançado, o disco não é mais somente meu, ele ganha a possibilidade de fazer parte da vida de quem toma ele pra si. Apesar disso, o disco foi pensado sim como uma progressão de fases entre o fim de uma relação e o recomeço, para que todas as emoções fossem acessadas e conduzidas nessa ordem. Ele foi construído também para ter uma circularidade, meio que em espiral, sabe? A gente nunca está no mesmo lugar, mesmo vivendo um novo começo, e achei importante contar a história a partir dessa proposta. Com um novo começo, vem a bagagem do que foi vivido, o que a gente aprendeu a desaprender e também novos desejos. Cada faixa adiciona um novo mood a essa história. Você afirma que enxerga a vulnerabilidade como uma fortaleza. Como foi transformar vivências em músicas? Foi como me olhar no espelho, sem filtros. Nem sempre é bonito, mas é necessário. Tive tempo para acessar muitas emoções e situações que viraram as faixas, e refletir sobre elas, pensando também na minha responsabilidade ali em cada situação. Por exemplo: Em ”Sem saída”, eu refleti que me levei ao limite, indo “além demais”. Agora olhando para o que eu vivi no que existe naquela faixa, eu não faria igual, mas sei que foi importante viver aquilo, para entender até onde eu vou para viver e sustentar uma relação, o que eu entendo como inegociável, o que eu entrego quando estou amando e construindo afeto… Me deu uma nova camada de sofisticação sentimental. Num geral, criar cada faixa foi me virar do avesso e também me questionar sobre o que eu levo de cada etapa, e eu sinto que agora me sei muito mais! Sinto que eu aprendi muito sobre o amor, sobre meus limites e sobre respeitar o tempo de cada fase. É importante viver um luto e deixar ele te atravessar, sabe? Assim como também é uma delícia se perceber apaixonada. Se este álbum marca um novo começo, o que você acredita que ficou para trás durante o processo de criação? Esse disco marca o início do meu retorno de saturno, e com ele veio uma reviravolta na minha vida. Eu passei a repensar minhas relações, em geral, e em todas as esferas. Relações com homens, principalmente. Esse disco marca uma maior autonomia criativa e executiva que tomei para mim, e tive a escolha ativa de trabalhar majoritariamente com mulheres, e isso me abriu um novo universo de possibilidades! Muito do que ficou para trás tem a ver com eu conseguir me impor, enquanto profissional e também na minha vida pessoal. Estabelecer limites e exigir uma comunicação clara nas minhas relações. E um disco sobre o tempo, o amor e a música porque pude olhar para essas três “entidades” com muito cuidado e entender o que eu precisava desaprender para seguir cultivando-as. No evento de audição do álbum me perguntaram o que teve que morrer para eu poder recomeçar, e eu penso que deixei de acreditar em posturas desalinhadas com discurso, e isso me forjou tanto como mulher quanto como artista independente. Eu deixei de duvidar de mim, artisticamente, enquanto fui lapidando esse disco, e essa foi a postura fundamental para seguir com ele e ter chegado até o lançamento. "Esse é um álbum sobre amor e reencontro comigo mesma, que pediu estar envolto dessa atmosfera de tranquilidade e olhar pra dentro." A grande metrópole parece como um personagem antagonista do álbum. Como a cidade influenciou sua maneira de compor e viver o amor? Viver em São Paulo, transitando entre zonas e acessando o centro muito cedo, moldou toda minha visão de mundo, inclusive da música. São Paulo e suas contradições são partes inerentes do meu processo criativo, seja pelo simples movimento e fluxo entre partes da cidade, seja pelo acesso a muitas influências que fui captando ao longo dos anos. O jeito que eu incorporei essas referências no meu repertório e proposta musical estão totalmente relacionados a como eu vivo a cidade, e como eu vivo minhas relações num geral. Acho que estar perseguindo a cidade me deixou mais atenta a como eu lido e interajo com o mundo, tem algo muito particular em fazer parte e também não me sentir pertencente. É uma relação complexa que tem sido um espelho: Quando estou mais aberta para observar a cidade também me sinto aberta para descobrir novas sensações, e isso se reflete no modo como eu amo, me relaciono e desejo novos caminhos e enredos pra mim. Amor, paixão, desejo e flerte são abordados no disco. Para você, existe uma melhor fase? Acho que depende muito do momento de vida. Agora eu tô achando a fase do amor a melhor de todas! Talvez por estar vivendo uma relação muito gostosa, e ter desfrutado cada fase desde o início do desejo e o flerte, então virei uma grande entusiasta do amor mais sólido e todo compromisso que vem com ele. Tenho vênus em capricórnio kkkkkk, pra mim, é muito difícil chegar nessa fase, então quando ela vem, eu desfruto até das pequenas coisas na rotina. Amo viver o amor, e acho que cheguei num momento de poder curtir ele sem pressa. Em “Sem Saída” você diz que não quer mais perguntar e que foi além. Em que momento você está agora? Eu tô no momento de ser muito franca quanto ao que eu desejo pra mim, e tô disposta também a cultivar esse desejo. Acho que é um momento de florescimento e calma que a fase adulta começa a trazer, e eu gosto muito da estabilidade que veio com ela. Lançar esse disco corresponde a essa fase de mais segurança comigo e com meus desejos, e também uma maior responsabilidade com essas decisões futuras. Nada está garantido, e talvez a graça desse momento seja flertar com as possibilidades do que eu desejo e pensar em como eu vou fazer pra concretizar isso tudo que eu quero. A cor azul está presente na capa do álbum e em algumas questões. O que a cor representa nessa narrativa? Eu vejo o azul como uma metáfora para introspecção e calmaria. Sou uma grande devota do Djavan, sabe? Assim como ele, eu também vejo o amor como algo azulzinho e quis trazer essa leitura pro meu disco. Esse é um álbum sobre amor e reencontro comigo mesma, que pediu estar envolto dessa atmosfera de tranquilidade e olhar pra dentro. Ate tentei buscar outras cores para representar essa era, mas apenas o azul deu conta de amarrar todo o processo de recomeço que existe ali. Depois de terminar o álbum, você passou a enxergar o amor de uma maneira diferente? Acho que foi uma coisa retroalimentando a outra: Eu olhar pro amor com mais qualidade me fez criar esse disco, e terminar o disco trouxe outras camadas à minha visão sobre o amor. Eu vejo que agora tenho mais segurança pra amar como eu quero e também demandar que eu tenha meus desejos atendidos, sabe? Acho que o amor é mesmo uma via de mão dupla: Eu só pude amar com qualidade quando me entendi melhor e deixei meu parceiro me entender também, e pude perceber que cada fase tratada nesse disco foi importante para eu delimitar o que é essa minha leitura sobre o amor. Li bell hooks, Renato Nogueira, ouvi Djavan, Liniker, Alcione… Tudo para me dar repertório e refletir se essas interpretações poderiam conversar com o que eu entendo do amor. Foi um mestrado em educação sentimental kkkkkkk Apoie financeiramente o desalinho e ajude a manter um espaço independente dedicado à crítica, às entrevistas e à divulgação da cultura independente. Toda contribuição faz diferença.

Ludovic: Ludovic
A chama do Ludovic nunca se apagou. Embora Idioma Morto (2006) tenha sido lançado há duas décadas, os fãs continuaram presentes nos shows esporádicos realizados pela banda pelo país, cantando suas canções a plenos pulmões e mantendo viva uma relação que atravessou o tempo. Alias, a permanência do grupo não se explica apenas pela música: ao longo de sua trajetória, o quarteto construiu um espaço de acolhimento para inquietações, conflitos e afetos difíceis de nomear - sentimentos que encontraram, entre guitarras, ruídos e versos, uma forma de existir. Agora, a chama estampada na capa de Ludovic (Balaclava Records, 2026) transforma essa permanência em símbolo. O fogo continua aceso, mas já não é o mesmo. Alimentado pelo tempo, pelas experiências acumuladas e pelas transformações vividas por Jair Naves, Eduardo Praça, Ezekiel Zeek Underwood e Rodrigo Montorso, ele retorna com outras formas e novas intensidades, iluminando tanto caminhos conhecidos quanto territórios ainda inexplorados. (Créditos: Júlia Aluar) No novo álbum, o grupo não busca recuperar exatamente o som ou o momento histórico que ajudou a consolidar sua importância no rock independente brasileiro dos anos 2000. Intitulado simplesmente Ludovic, o disco funciona menos como uma volta ao passado e mais como um reencontro com a própria identidade. Ao assumir o nome da banda como título, o quarteto parece perguntar o que permanece depois de tantos anos - e encontra a resposta não na repetição, mas na transformação. As 11 faixas preservam a tensão emocional e a força das guitarras que marcaram a trajetória do grupo, ao mesmo tempo que ampliam suas possibilidades. O rock alternativo continua sendo o ponto de partida, atravessado por ecos de pós-punk, shoegaze e indie rock, enquanto os arranjos exploram novas texturas, camadas e contrastes. Entre ruído e melodia, contenção e explosão, o álbum constrói uma atmosfera inquieta, por vezes melancólica, mas sempre em movimento. Leia também: Exclusive Os Cabides: Feliz e Triste ao Mesmo Tempo O Último Beat Hardcore 90 “A Ebulição do Não Dito” abre o disco como quem acende a chama estampada na capa. A canção introduz uma atmosfera de tensão e expectativa, como se algo estivesse prestes a transbordar. Uma vez aceso, o fogo não se apaga: ele se espalha pelas faixas seguintes e encontra, em “Desde Que Eu Morri”, outra imagem de transformação. A morte deixa de representar um fim definitivo e passa a sugerir deslocamento, ruptura ou renascimento. A voz de Jair oscila entre a explosão e a narração, conduzindo a canção com uma dramaticidade que nunca se torna excessiva. Sua interpretação cria uma narrativa intensa, capaz de aproximar a experiência íntima de uma dimensão quase cinematográfica. Em “Pedestal”, o Ludovic investiga relações atravessadas por projeções, expectativas e idealizações. A faixa constrói uma tensão contínua, como se a proximidade estivesse sempre ameaçada pela distância criada pela imagem que se faz do outro. Já “Marja”, quarta canção do álbum, surge como um de seus momentos mais intensos. A música concentra parte da potência do grupo, unindo uma sonoridade expansiva a uma letra que parece crescer junto aos instrumentos. Diferentemente de Servil (2004) e Idioma Morto, marcados principalmente pelas composições do vocalista, Ludovic nasce de uma construção mais coletiva. A participação dos integrantes, ampliando o campo de possibilidades do álbum, além de abrir espaço para diferentes ideias, sensibilidades e caminhos sonoros. Os instrumentos deixam de ocupar apenas uma função de acompanhamento: criam atmosferas, tensionam as palavras, sugerem imagens e expandem os sentidos das letras. Essa construção compartilhada se reflete na maneira como as canções respiram. Em vez de se organizarem apenas em torno da voz, elas se desenvolvem a partir do diálogo entre os integrantes. As guitarras não servem somente como suporte para a melodia; elas criam sombras, atravessam os versos e, em alguns momentos, parecem dizer aquilo que as palavras não conseguem alcançar. A bateria conduz os movimentos do disco sem limitar suas mudanças de intensidade, enquanto os demais elementos ajudam a transformar cada faixa em um espaço de encontro. Depois de duas décadas, o Ludovic retorna transformado, mas ainda reconhecível em sua inquietação, em sua intensidade e na capacidade de converter conflitos íntimos em música. O novo álbum não tenta reproduzir uma juventude que ficou no passado nem recuperar uma sonoridade como se o tempo não tivesse passado. Pelo contrário: incorpora as marcas desse intervalo e encontra nelas novas possibilidades de criação. Por isso, a chama da capa ganha outro significado. Ela não representa apenas a resistência de uma banda que continuou existindo apesar dos anos. O fogo também é movimento: cresce, diminui, se espalha, consome e se renova. Em Ludovic, o quarteto encontra nessa transformação o fôlego necessário para seguir adiante. Apoie financeiramente o desalinho e ajude a manter um espaço independente dedicado à crítica, às entrevistas e à divulgação da cultura independente. Toda contribuição faz diferença.

Exclusive Os Cabides: Feliz e Triste ao Mesmo Tempo
Sentimentos são contraditórios. Às vezes, a alegria carrega uma ponta de tristeza; em outras, a melancolia encontra espaço para dançar, enquanto a raiva se transforma em uma grande ironia da vida. A partir dessas transformações - profundamente humanas e legítimas -, a Exclusive Os Cabides dá forma à inquietação em Feliz e Triste ao Mesmo Tempo (2026). Depois de um ano percorrendo estradas e levando Coisas Estranhas (2024) a diferentes cidades do país, o quinteto retornou ao estúdio carregando o impulso das viagens, dos encontros e das apresentações. A experiência de mais de 40 shows parece ter deixado marcas na música: as canções soam mais diretas, cruas e urgentes, como se ainda preservassem o calor das luzes do palco e a agitação do público. Não por acaso, Feliz e Triste ao Mesmo Tempo nasce do desejo de criar um repertório capaz de colocar as pessoas para dançar e, ao mesmo tempo, de registrar a identidade da banda em seu estado mais espontâneo. Gravado em apenas oito dias no estúdio ouié, na Praia da Armação, em Florianópolis, o EP carrega um pouco da paisagem que o cerca. Há estrada, mas também há mar; existe velocidade, mas também espaço para contemplação. Produzido por Paulo Costa Franco e Eduardo Possa, o trabalho privilegia a força da formação ao vivo, sustentada por guitarras, baixo, bateria, percussões e vozes que se aproximam até quase se confundirem. Em vez de revestir as músicas com excessos, a produção parece retirar camadas para revelar o que já existia no núcleo da banda: uma sonoridade pulsante, imperfeita e viva. Leia também: Hua Hsu: Stay True: Relato de uma Amizade Holy Fuck: Event Beat O florescer íntimo e autoral de Lucas Higashi (Créditos: Divulgação/Reprodução) “Bicicleta” abre o EP e apresenta imediatamente essa disposição. As guitarras avançam com urgência, enquanto a letra transforma um elemento cotidiano em ponto de partida para uma narrativa que escapa da lógica convencional. Aliás, essa é uma característica que acompanha a Exclusive Os Cabides desde os primeiros trabalhos: observar o banal e encontrar nele uma dimensão estranha, divertida ou afetiva. Nas mãos do grupo, uma bicicleta deixa de ser apenas um objeto; torna-se imagem, movimento e possibilidade de fuga. O cotidiano está presente em toda a narrativa do disco, mas as pequenas situações escondem sentimentos maiores e, consequentemente, mais complexos. “Espirros Infinitos” transforma uma crise de rinite em uma canção marcada pelo humor e pelo desconforto, expondo uma inquietação difícil de nomear. Já “Gato Chinês” reforça o universo particular da banda, no qual imagens inesperadas e melodias imediatas se encontram em uma atmosfera roqueira mais densa. É justamente nessa tensão que reside a força do trabalho. O título não funciona apenas como uma definição emocional, mas como uma chave para compreender o conjunto. As canções alternam leveza e angústia, diversão e vulnerabilidade, sem transformar essas contradições em conflito. No encerramento de Feliz e Triste ao Mesmo Tempo, “Notlin vs. Smellectron” abandona as palavras e entrega à música a tarefa de concluir a experiência. A faixa instrumental surge como uma explosão de guitarras, ruídos e liberdade, quase uma extensão dos momentos de improviso e descontração que nascem nos ensaios. Depois de tantas imagens, dúvidas e sentimentos contraditórios, a Exclusive Os Cabides encerra o EP fazendo barulho e celebrando as vivências e as consequências que surgem delas. Ao apresentar uma nova fase, Feliz e Triste ao Mesmo Tempo revela uma banda cada vez mais consciente de sua própria linguagem. A Exclusive Os Cabides mantém o humor, o imaginário lúdico e as letras que encontram poesia nas situações mais comuns, mas agora coloca o instrumental em primeiro plano e deixa a energia do palco conduzir as canções. O resultado é um trabalho mais roqueiro, intenso e direto, sem perder a estranheza que tornou o grupo reconhecível. Apoie financeiramente o desalinho e ajude a manter um espaço independente dedicado à crítica, às entrevistas e à divulgação da cultura independente. Toda contribuição faz diferença.

Flipei 2026
A 8ª edição da Festa Literária Pirata das Editoras Independentes - Flipei 2026 ocupa o centro de São Paulo - Espaço Cultural Elza Soares, Café Colombiano, Sol y Sombra Bar, Central 1926 e Prato do Dia -, entre os dias 5 a 9 de agosto, para celebrar a circulação de ideias emancipatórias como prática política insurgente em torno do livro. Com mais de 150 editoras independentes confirmadas, a programação da Flipei 2026 contará com a presença de August H. Nimtz, Mônica Seixas, Thiago Ávila, Jessy Dayane, Karai Djekupe, Veronyka Gimenes, Deivison Faustino, Vladimir Safatle, Aira Bonfim, Mandi Coelho, Juliano Medeiros, Tal Nitzán, Medea Benjamin, Txai Surui, Cida Bento, Xico Sá, Sâmia Bomfim, Jamil Chade, Bel Santos Mayer, Anas Obaid, Flip Couto, Tiago Santineli, Estela Lapponi, Ruth Wilson Gilmore, Luiza Erundina, Michel Alcoforado, Geni Nuñez, Guilherme Terreri, Luana Alves, Nabil Bonduki, Fabricio Penafiel, Neon Cunha, Paula Yurie, Guilherme Cortez, Rick Blackman e Gideon Levy. Além dos shows da rapper argentina Sara Hebe e FBC. A novidade do evento fica com o pebolim e o boxe popular em sua programação. Em ano de Copa do Mundo, o pebolim entra em cena como tributo à sua origem rebelde: o jogo foi criado por Alejandro Finisterre, poeta anarquista que lutou na Guerra Civil Espanhola. Já o boxe propõe a visão e reflexão de usar a modalidade como autodefesa e cuidado coletivos, reforçando a importância de estar saudável e com o treino em dia para enfrentar as opressões. A edição deste ano mantém o Zona Piratinha, espaço voltado para crianças, com programação na perspectiva indígena e afro-brasileira. Confira todas as informações da Flipei aqui. Festa Literária Pirata das Editoras Independentes - Flipei 2026 Data: 05 a 09 de agosto Local: centro de São Paulo | Espaço Cultural Elza Soares, Café Colombiano, Sol y Sombra Bar, Central 1926 e Prato do Dia

O mundo distópico de Leandro Serizo
A capa de Sol Quimérico (2026) parece abrir um portal antes mesmo que a primeira faixa comece. Em meio a personagens, figurinos e imagens que atravessam o sagrado, o exótico, o estranho e o futurista, Leandro Serizo surge como parte de um universo em transformação, onde corpo, máquina, mito e espiritualidade deixam de ocupar territórios separados. A imagem antecipa a simbologia que sustenta o álbum: o Sol Quimérico é uma entidade paradoxal, construída a partir de contradições e convertida em força de resistência diante de um mundo que tenta controlar desejos, identidades e imaginações. (Créditos: Fernanda Ferreira) Ambientado no ano de 2222, Sol Quimérico transforma inquietações contemporâneas em uma ficção científica musical, povoada por personagens, conflitos e mundos que se expandem ao longo de 13 faixas. O futuro imaginado pelo artista, no entanto, não parece tão distante: nele, a tecnologia invade os vínculos humanos, a imaginação é ameaçada e a música pode se tornar uma ferramenta de controle. A origem do projeto remonta a uma imagem real. Durante as queimadas da Amazônia, em 2023, Leandro Serizo observou o céu escurecer e se perguntou se ainda veríamos um sol. Daquele instante nasceu uma centelha que, aos poucos, ganhou personagens, mitologias, canções e uma dimensão política. Dessa maneira, o álbum fala sobre destruição ambiental, guerras, hegemonias e a robotização do ser humano, mas não se limita ao diagnóstico de um mundo em crise. Mesmo com ruínas e máquinas, o álbum dá espaço para o amor, a espiritualidade, a resistência e a transformação. Leia também: Bruno Berle: Sem Fronteiras O manifesto de MONCHMONCH no fim do mundo Vice is Broken No centro da narrativa está MΣGΛPΘLIS, uma metrópole governada pelo império alienígena de Ciborgue Tyrannus. Suas avenidas são atravessadas por uma mesma música robótica, repetida em um ciclo interminável e capaz de transformar os habitantes em corpos sem sonho. Do outro lado desse universo estão os Abutrons, quimeras meio humanas e meio abutres, rejeitadas como aberrações e lançadas às margens da sociedade. É nesse exílio que elas constroem uma identidade própria e encontram no culto ao Sol Quimérico uma forma de enfrentamento. A trajetória de Leandro ajuda a compreender a amplitude do projeto. Nascido em Campinas e de origem periférica, o artista começou a tocar aos oito anos na igreja do bairro onde cresceu. Mais tarde, passou pelos saraus, estudou música na Unicamp e aprofundou pesquisas sobre as tradições latino-americanas, mediterrâneas e árabes. Entre experiências coletivas, apresentações no Brasil e no exterior e projetos como o FORRÓBAILE, construiu uma linguagem que entende a música como encontro, rito e espaço de resistência. Em Sol Quimérico, essa bagagem se transforma em uma obra que recusa caminhos previsíveis. Sua trajetória começou na igreja do bairro onde cresceu. O que daquela experiência ainda permaneceu na sua forma de enxergar a música? Eu comecei de forma autodidata, muito livre, muito experimental. O que ficou daquilo foi a música como brincadeira, como jogo de possibilidades. Eu dava cor para cada tonalidade, explorava os sons de forma sinestésica, e isso me formou um ouvido e um músico singular. Até hoje é esse o farol pelo qual eu me oriento. E ficou minha mãe cantando. Ela cantava na igreja, e era muito bonito ver a verdade dela ali que não era sobre técnica, era sobre entrega. Acho que foi vendo minha mãe cantar que eu entendi, antes de saber explicar, que a música serve para atravessar alguém. Desde aquela época eu sinto que a música é um portal para despertar sentidos e sensações no corpo. Gosto de estados de transcendência, e de modo geral as religiões usam esses estados para moldar pensamento. Cabe à gente poetizar o mundo para os valores em que a gente acredita, sonhando com um mundo onde as pessoas sejam mais livres. Mesmo sendo um ambiente fechado naquela época, a música foi o tapete mágico que me permitiu viver uma jornada de descoberta e diversão pelas muitas coisas que eu faço como músico independente: cantor, sanfoneiro, percussionista, pesquisador, educador, produtor. O trabalho exige que a gente se desdobre, e eu encaro isso como uma jornada de aperfeiçoamento. Meu trabalho autoral é o lugar onde eu evoco essa magia. Seu trabalho costuma unir performance, narrativa e pesquisa. Quando você percebeu que não queria fazer apenas canções, mas construir universos? Quando reconheci em mim um espírito nômade: sangue de movimento, de liberdade, de êxtase e de transe. Foi aí que percebi que a música, sozinha, já não dava conta daquilo que eu queria expressar. Conforme fui estudando e trabalhando, percebi que existe uma tendência de especialização muito forte. É natural: você entra num campo e passa a responder às expectativas daquele meio. Eu admiro quem escolhe esse caminho, mas comigo aconteceu o contrário. Não quis abandonar as muitas coisas que me fizeram amar a arte. Meu trabalho nasce justamente desse encontro. Música, teatro, performance, imagem, literatura, corpo e pesquisa convivem porque foi assim que aprendi a me encantar pelo mundo. Construir universos acabou sendo uma consequência dessa necessidade de deixar todas essas linguagens conversarem entre si. Quero continuar me surpreendendo em cada artista que encontro, em cada voz, em cada solo improvável. Porque acredito que a criação acontece justamente quando a gente permanece disponível para o encantamento. Você diz que sua obra é um “território de encontro entre linguagens”. Como essa ideia orienta suas escolhas artísticas? Meu primeiro trabalho, Saudoso Amarais (2023), eu disse por aí que era uma ode à louvação espacial. Desde o primeiro show, a gente foi construindo pequenas performances, a ideia de um show onde coisas diferentes acontecem, onde não é só sobre a música. Já o Sol Quimérico eu tenho entendido como uma ode à louvação da teatralidade. Percebi que os artistas performáticos e as artes que se misturam são minhas grandes paixões. Performar com diferentes linguagens exige uma jornada de aperfeiçoamento em áreas onde a gente não necessariamente já se deliciou tanto e aprender, aperfeiçoar o próprio caminho, é algo que faz sentido para mim. Por isso gosto de levar comigo nos shows a Maria Cabral e a Zalla, duas performers que trazem corpo e presença para o jogo. Isso vale até para a composição: eu compus as músicas desse disco pelo título. Imagino a força visual de cada título e as esferas sonoras que ele pode abrir. Me encanto pelas artistas performáticas, e são elas que orientam minha trajetória. A imagem do céu escurecido durante as queimadas na Amazônia foi o pontapé para a construção do disco. Como uma inquietação tão específica se transformou em uma narrativa ampla? Acho que é uma centelha que eu carrego desde que me apaixonei pela música brasileira, especialmente pela música de protesto dos anos 60 e pela psicodelia dos anos 70. Ver como Chico Buarque e Milton escreviam letras cheias de significado e poesia. A liberdade dos tropicalistas, a visceralidade nos discos de Edu Lobo, a voz incrível de Tetê Espíndola, são marcas que me moldam até hoje. Eu queria, ao menos uma vez, criar uma obra rica de significados explícitos e ocultos, em forma de sonoridade e de poesia. Foi um pacto comigo mesmo: fazer algo extremamente político, que refletisse a maluquice desse mundo que a gente está construindo. Mas tem uma coisa que eu preciso dizer, porque ela orienta tudo: denunciar a distopia é o assunto do disco, não a missão. A missão é evocar transe e reencantamento como método político. As religiões sempre souberam que estados alterados moldam pensamento e eu quero usar isso a favor da liberdade das pessoas, não contra. É por isso que o disco vira ritual, vira teatro, vira língua inventada em “SOL QUIMÉRICO II”. "Tenho esperança, mas ela não é ingênua. Minha esperança é para o depois." O disco é uma distopia que aborda IA, robotização, guerras e crise ambiental, mas também traz espiritualidade e afeto. Como você encontrou equilíbrio entre esses extremos? Não enxergo tecnologia e espiritualidade como opostos. O disco parte justamente dessa tensão. Quanto mais avançamos tecnologicamente, mais urgente me parece perguntar o que continua nos tornando humanos. Minha relação com a espiritualidade é muito pessoal. Passei por diferentes tradições, filosofias e formas de pensar o sagrado, sempre buscando aprender sem transformar nenhuma delas em verdade absoluta. Hoje encontro muito sentido nos saberes indígenas e afro-brasileiros, cultivo uma dimensão cristã ligada à amorosidade e carrego comigo uma frase do Vipassana que me acompanha há anos: "que todos os seres sejam felizes". Isso não significa esperar que as pessoas sejam só boas. As pessoas erram, julgam demais, se reprimem. Cada ser está em sua própria jornada, e não cabe a mim salvar ninguém, mas cabe compartilhar. Oferecer não é converter, e despertar talvez não seja sobre salvar. Quando eu digo que falar sobre isso desperta outras pessoas, eu quero dizer que o disco é uma oferta: quem quiser entrar, entra. Para mim, espiritualidade é reconhecer nossas contradições e seguir cultivando presença e responsabilidade diante delas. Por isso o disco atravessa atmosferas sombrias, violentas e caóticas, mas nunca perde completamente a possibilidade do afeto e do encantamento. Reconhecer o caos é justamente o que me permite vislumbrar alguma luz. (Capa: Fernanda Ferreira) Sol Quimérico é cheio de tecnologia, mas também dá ênfase à espiritualidade. Você acredita que, quanto mais avançamos tecnologicamente, maior será a necessidade de buscar e/ou se refugiar no sagrado? Acredito que sim, desde que a gente comece separando espiritualidade de religiosidade, e desde que a gente entenda que essa missão é íntima, é no dia a dia, é você com você mesmo. E não vejo o sagrado como refúgio. Refúgio é onde você se esconde mas o sagrado é onde você encara como um bicho selvagem. A história humana é cheia de violência e de dores que a gente vai carregando, e é difícil alguém que não precise, em algum momento, olhar para as dores da própria vida ou para o que a gente carrega enquanto humanidade. A espiritualidade é essa relação mais profunda, a que dispensa as máscaras que a gente coloca para sobreviver. Num mundo cada vez mais fragmentado, em que as máquinas pensam e produzem no lugar do ser humano, o risco é a gente se fragmentar junto virar função e produto. O sagrado, para mim, é o que reintegra. É o que devolve a pessoa inteira para ela mesma. Quanto mais a máquina avançar, mais isso vai ser necessário. Por que você escolheu ambientar a história especificamente em 2222? Gosto de citar as obras que me moldam, esse disco tem vários “easter eggs”. Aqui eu quis homenagear um grão-mestre da canção popular: Gilberto Gil. Gil é um artista tão brilhante que, ainda vivo, se tornou o próprio sagrado da música. Expresso 2222 é uma música dele que sempre me passou uma imagem futurista. Imagino que quem chega em 2222 conhecendo a obra dele vai perceber a associação sem que eu precise dizer nada. Eu queria continuar esse expresso e contar a minha história em 2222. O enredo que você constrói, utilizando 2222, parece distante, mas é familiar - algo que já estamos vivendo. Ainda existem meios para parar essa distopia? Você tem esperança? Tenho esperança, mas ela não é ingênua. Minha esperança é para o depois. Acho que a gente vai ter que chegar a um extremo que a humanidade ainda nem imagina ser possível e digo isso olhando para o que já está acontecendo: as queimadas, as guerras em curso, o quanto a gente normaliza a bizarrice. A história mostra que o ser humano costuma mudar depois do colapso, não antes. Minha esperança é para o depois. E é justamente por isso que ela precisa de gente construindo sentido agora, para que sobre alguma coisa de onde recomeçar. Acredito que é falando sobre isso que a gente vai despertando outras pessoas. Seja elegendo gente desperta para enfrentar quem usa a fé para maquinar mentes, seja quem está na linha de frente da educação, seja quem usa a própria criação para também falar de coisas urgentes. O disco nasce dessa vontade. Falar sobre essas urgências não para viver angustiado com o futuro, mas justamente para conseguir viver o presente com mais consciência. Quero falar sobre coisas importantes mas também quero poder curtir os encontros, aproveitar as coisas boas da vida e relaxar também. É encontrar esse meio do caminho entre a responsabilidade política e social e o direito à alegria me dá algum sentido nisso tudo. “Androide 2222” traz o amor em um cenário apocalíptico. Você acredita que o afeto pode ser uma forma de resistência? Vejo o afeto norteando as poéticas de vida da maioria das pessoas, tanto de quem vive essa busca em silêncio quanto de quem a atravessa em desespero. Para mim, se libertar das próprias couraças é um gesto de amor. É entender que ninguém é posse e que a comunicação transparente talvez seja uma das alianças mais verdadeiras que podemos construir. Então, como um aquariano meio romântico, quis abrir espaço para que esse disco respirasse e deixasse uma mensagem que não fala apenas do amor romântico, mas também das amizades verdadeiras e da família. Tem uma música no disco, "Santuário", que comecei a escrever para minha mãe. A primeira imagem da canção era ela saindo cedinho para pegar o ônibus rumo ao trabalho. Na época, a música se chamava "Passageira", mas, quando passei a escrevê-la junto com Graciela Soares, que também é mãe, a letra encontrou outro lugar: deixou de falar apenas do deslocamento e passou a falar do cuidado. Minha mãe trabalhou a maior parte da vida como empregada doméstica e cuidadora, mas, antes de qualquer coisa, ela foi minha primeira referência artística num campo próximo. Foi vendo ela cantar na igreja, com uma entrega absoluta, que entendi que a arte, primeiramente, não depende só do palco ou técnica, mas de verdade. Hoje em dia, eu acesso lugares através da arte e da universidade que minha família talvez nunca imaginem e que nunca faço sentido pra eles. E, justamente por isso, sinto que a chance de criar um disco com tantas camadas, nasce também do desejo de um dia poder retribuir tudo o que eles me ofereceram. "Num mundo cada vez mais fragmentado, em que as máquinas pensam e produzem no lugar do ser humano, o risco é a gente se fragmentar junto virar função e produto. " Em “Abutre” você diz que logo voltará a renascer. Como imagina esse cenário? Imagino a cada dia mais desperto e consciente de que as nossas criações importam. Sendo artista independente, existe uma violência simbólica muito forte sobre como inserir seu trabalho no mundo. Parece que, se você não for um número, seu trabalho não é validado, não tem relevância. E infelizmente tem muita gente que consome arte assim. Eu escolhi não pensar em caixa, em gênero, nesse tipo de coisa e escolhi sabendo o preço no agora. Decisão de continuar garimpando cada oportunidade que me aparece, cada palco que me aceita, cada revista que a de vocês, que realmente me dá um espaço para existir. Porque o que eu quis mesmo foi fazer um álbum para olhar para trás e ver que eu realmente permiti que minha criação louvasse a teatralidade. Esse era o combinado comigo, era me autorizar. Espero ter, no futuro, mais estrutura para continuar criando obras feitas para performar. Que meu trabalho continue somando e movendo o trabalho de outros artistas das artes corporais, musicais e visuais. E que possa ser um encontro para a gente ritualizar a nossa fagulha mais íntima. Já que Sol Quimérico é o primeiro capítulo de um projeto transmídia, o que podemos esperar das próximas etapas? O primeiro desdobramento é o palco. O show de lançamento é em 19 de agosto na Casa Gambá em Campinas, e a ideia é levar o Sol Quimérico pelo estado de São Paulo junto do ao selo que me filiei, a vintesete records, que apareceu neste momento da carreira e tem movido coisas por aí. Em paralelo, sigo buscando recursos para o livro, que é o segundo capítulo: um trabalho com artistas da literatura, dos quadrinhos e das artes visuais, para que o universo de 2222 exista fora do som. Gostaria também de lançar pelo menos mais um clipe para amarrar a história do disco, mas financeiramente é o mais difícil agora. No meio disso, vou para o Cairo fazer um intercâmbio técnico-artístico com uma aprovação no PNAB estadual. Enquanto sanfoneiro e forrozeiro na minha cidade, Campinas, minha pesquisa nessa viagem é sobre as influências árabes na música brasileira, o forró tem essas raízes, e eu quero ir até a fonte. Espero voltar com material que ligue a natureza mítica das minhas músicas às consciências que eu reverencio naquele lugar tão importante para a humanidade. Gostou da leitura? Apoie financeiramente o desalinho e ajude a manter um espaço independente dedicado à crítica, às entrevistas e à divulgação da cultura independente. Toda contribuição faz diferença.

Hua Hsu: Stay True: Relato de uma Amizade
Como uma breve amizade, com pouco tempo de convivência, pode deixar marcas profundas em uma pessoa? Em Stay True: Relato de uma Amizade (WMF Martins Fontes, 2024), Hua Hsu retorna aos anos de graduação para investigar essa pergunta complexa - não em busca de uma resposta definitiva, mas para compreender como alguém que esteve presente por um período tão curto pode continuar atravessando uma vida inteira. Quando conhece Ken, na Universidade da Califórnia, em Berkeley, Hsu não imagina que aquela aproximação se transformaria em uma amizade capaz de alterar sua maneira de enxergar o mundo e a si mesmo. O narrador é introspectivo, ligado à cultura alternativa e às referências que, para ele, funcionam quase como uma declaração de identidade. Enquanto Ken, mais extrovertido e sociável, participa de uma fraternidade, veste-se de forma convencional e demonstra interesse por universos culturais que o narrador, inicialmente, observa com certo distanciamento. A relação entre os dois, portanto, não nasce da identificação imediata. Ela se constrói no atrito, na curiosidade e na descoberta de que as pessoas são sempre mais complexas do que as imagens que projetamos sobre elas. Aos poucos, conversas sobre música, cinema, pertencimento e identidade aproximam os jovens. O que parecia ser apenas uma convivência improvável transforma-se em um vínculo marcado pela escuta, pela troca e pela possibilidade de rever certezas. "Naquela idade, o tempo passa devagar. Estamos ansiosos para que algo aconteça e ficamos matando o tempo nos estacionamentos, as mãos enfiadas no fundo do bolso, decidindo aonde ir. A vida estava acontecendo em outro lugar, era só uma questão de encontrar um mapa que levasse até ela." Leia também: Natalia Ginzburg: As Pequenas Virtudes MOMO.: Tum Tum Tum Patti Smith: Pão dos Anjos É justamente nessa transformação que Stay True: Relato de uma Amizade encontra parte de sua força. O livro não apresenta a amizade como uma relação idealizada, construída apenas por afinidades ou momentos extraordinários, é muito mais profundo - Hsu se volta para os detalhes: as conversas prolongadas, os passeios, as músicas compartilhadas, as brincadeiras e os instantes aparentemente banais que, depois da perda, passam a carregar outro significado. A memória reorganiza o cotidiano e revela que, muitas vezes, são os acontecimentos mais simples que permanecem por mais tempo. A narrativa, porém, é atravessada por uma ausência irreparável. Ken é assassinado durante um roubo de carro, e sua morte interrompe não apenas uma amizade, mas também a sensação de futuro que acompanha a juventude. O acontecimento divide a vida do narrador entre o que existia antes e aquilo que passou a existir depois. Em vez de escrever apenas sobre a perda e os sentimentos que vão aparecendo, ele escolhe recuperar a vida: quem Ken era, como se relacionava com os outros e quais marcas deixou em quem permaneceu. Essa escolha impede que Ken seja reduzido (apenas) à condição de vítima. Ao reconstruí-lo por meio das lembranças, Hua Hsu devolve ao amigo sua complexidade. Dessa maneira, Ken surge como alguém curioso, generoso, inquieto e disposto a atravessar as barreiras que separavam os dois. Ao mesmo tempo, o narrador reconhece os limites da própria memória. Como contar a história de alguém que não está mais presente para discordar, complementar ou corrigir aquilo que é lembrado? A escrita passa a ocupar esse espaço delicado entre a preservação e a impossibilidade. Sem recorrer ao sentimentalismo excessivo, o autor constrói uma narrativa íntima, reflexiva e melancólica. A emoção não surge apenas nos momentos de ruptura, mas se acumula lentamente, entre referências culturais, recordações fragmentadas e reflexões sobre a passagem do tempo. A música, os filmes, os fanzines e os discos ajudam a reconstruir o ambiente dos anos 1990, mas também revelam como os jovens buscavam, na cultura, maneiras de compreender quem eram e onde poderiam pertencer. "(…) Para jovem, ser idealista e se sentir desamparado é ao mesmo tempo normal e necessário para progresso de sociedade. Mas problema é que a vida existe e tem que continuar. Cada geração tem que enfrentar problema, seguir vivendo e dar o seu melhor para superar frustração. (…)" Nesse sentido, Stay True: Relato de uma Amizade é também um relato sobre identidade. Filho de imigrantes taiwaneses, o crítico cultural da revista The New Yorker cresceu entre diferentes referências culturais e carregou, durante a juventude, a sensação de não pertencer completamente a um único lugar. A amizade com Ken, igualmente asiático-americano, amplia essas questões. Os dois compartilham experiências, mas não vivem a própria identidade da mesma forma. O livro evita transformar essa condição em uma explicação única e mostra como pertencimento, raça, cultura e classe se manifestam de maneiras distintas em cada trajetória. Ao revisitar o passado, Hsu também revisita a pessoa que foi. O narrador mais velho - o livro foi escrito durante duas décadas - observa o jovem que acreditava conhecer a si mesmo por meio de seus gostos, escolhas e referências, porém a convivência com Ken desestabiliza essa construção. A amizade revela que permanecer fiel a si não significa conservar intactas as próprias convicções. Às vezes, ser verdadeiro exige mudar, abandonar julgamentos e aceitar que o outro pode revelar aspectos de nós mesmos que ainda não conhecemos. "(…) O que tínhamos aprendido nas aulas de retórica, sobre a noção de “suspensão do significado” de Derrida, é que as palavras são meros símbolos que nunca traduzem plenamente o que queremos dizer. No entanto, as palavras são tudo o que temos; elas nos aproximam ao mesmo tempo que nos afastam." Ao escrever sua história, o autor não tenta superar a perda nem encontrar uma explicação capaz de tornar a morte menos dolorosa. A literatura surge como uma forma de convivência com a ausência. Escrever sobre o amigo é aceitar que ele não voltará e, ao mesmo tempo, impedir que desapareça por completo. É sobre mantê-lo vivo e honrar sua história. No fim, Stay True: Relato de uma Amizade responde - de uma maneira esquisita e longa - a pergunta que abriu este texto: a obra mostra que a duração de uma relação não determina sua importância. Algumas pessoas permanecem por décadas; outras atravessam nossa vida durante poucos anos e deixam marcas que o tempo não consegue apagar. A amizade entre Hua Hsu e Ken foi breve, mas suficiente para transformar o narrador para sempre. Gostou da leitura? Apoie financeiramente o desalinho e ajude a manter um espaço independente dedicado à crítica, às entrevistas e à divulgação da cultura independente. Toda contribuição faz diferença.

Conheça: Mau k
Todo cortejo pressupõe um deslocamento. Há quem caminhe em celebração, quem siga em despedida e quem apenas atravesse o tempo em silêncio. Em comum, permanece a ideia de percurso - um movimento que transforma quem parte e quem acompanha. É com essa sensação que surgiu Cortejos (Frase Records, 2026), primeiro EP de Mau k. Em quatro composições instrumentais, o músico, designer, fotógrafo e realizador audiovisual gaúcho, radicado em São Paulo, reúne décadas de experimentação artística em uma obra que encontra na música ambiente, no pós-rock e na exploração de texturas sonoras um convite à contemplação. Embora Cortejos seja seu primeiro lançamento fonográfico oficial, o trabalho está longe de representar um ponto de partida. Ao longo dos anos, Mau k construiu uma trajetória marcada pelo trânsito entre diferentes linguagens criativas, fazendo da música, do design, da fotografia e do audiovisual territórios complementares de investigação estética. O EP surge justamente como a convergência dessas experiências, transformando um percurso multidisciplinar em quatro composições que revelam um artista interessado menos em canções convencionais do que na construção de atmosferas. (Créditos: Divulgação/Reprodução) Essa busca se manifesta em uma sonoridade que valoriza o tempo como elemento narrativo. Em vez de recorrer à urgência ou ao excesso, Mau k conduz a escuta por meio de camadas, reverberações e pequenos movimentos que se acumulam lentamente. As faixas parecem suspender o ritmo cotidiano para abrir espaço a uma experiência contemplativa, em que meditação, desolação e esperança deixam de ser sentimentos opostos e passam a coexistir dentro da mesma paisagem sonora. Leia também: Bruno Berle: Sem Fronteiras Natalia Ginzburg: As Pequenas Virtudes Conheça: Luis Vilhora A escolha do título reforça essa proposta. Um cortejo pode significar celebração, despedida, procissão ou rito de passagem; diferentes formas de caminhar que compartilham a ideia de transformação. Essa ambiguidade atravessa todo o trabalho, que nasceu inicialmente sob uma atmosfera mais melancólica, mas foi incorporando novas perspectivas ao longo de seu processo criativo. O resultado é uma obra que reconhece a tristeza sem permanecer nela, encontrando na contemplação um caminho para a esperança. Essa dimensão introspectiva também dialoga com a história do próprio artista. Filho de uma monja zen, Mau k cresceu em contato com o zen-budismo e encontrou na música uma forma particular de experimentar o estado contemplativo. Alias, essa influência aparece de maneira sutil em "Hyoshigi" que recupera a sonoridade do tradicional instrumento japonês utilizado em cerimônias e rituais. Sem transformar a referência em conceito rígido, a faixa incorpora elementos da memória afetiva do músico e amplia a sensação de que Cortejos é, acima de tudo, um convite para desacelerar e habitar o silêncio entre os sons. Ainda que dialogue com artistas como Jeff Parker, Gregory Uhlmann, Sam Gendel, Sam Wilkes e Blake Mills, além de carregar ecos do pós-rock de Godspeed You! Black Emperor e Set Fire to Flames, Mau k evita que suas influências determinem os rumos do trabalho. Em Cortejos, elas funcionam apenas como pontos de partida para uma identidade própria, construída na intersecção entre experimentação, sensibilidade e escuta. Gostou da leitura? Apoie financeiramente o desalinho e ajude a manter um espaço independente dedicado à crítica, às entrevistas e à divulgação da cultura independente. Toda contribuição faz diferença.

Natalia Ginzburg: As Pequenas Virtudes
“Há algo de que não se cura, e os anos vão passando, mas não curamos nunca.”, escreveu Natalia Ginzburg em As Pequenas Virtudes (Companhia das Letras, 2020), obra breve e simples ao mesmo tempo que é intensa e imensa. A frase, perdida entre as páginas como uma confissão feita em voz baixa, sintetiza a força do livro: compreender que viver não significa encontrar respostas, mas aprender a conviver com aquilo que o tempo não dissolve. Em onze ensaios, divididos em duas partes, a autora italiana faz da memória, da perda, da nostalgia, da família e da escrita não apenas temas, mas matéria viva de reflexão, transformando acontecimentos aparentemente banais em observações de alcance universal. Ginzburg escreve educadamente e de maneira poética, sem pressa de convencer ou impressionar quem está lendo - é como se as palavras fossem sagradas para ela. É justamente dessa economia de gestos que nasce a potência de As Pequenas Virtudes. O cotidiano deixa de ser cenário para revelar-se protagonista, enquanto a autora demonstra que as maiores transformações acontecem longe dos grandes acontecimentos, escondidas nas conversas, nos silêncios e nas pequenas decisões que moldam uma vida inteira. Essa delicadeza, porém, nunca se confunde com fragilidade. Sob a aparente leveza dos ensaios, Natalia Ginzburg ergue uma crítica silenciosa às estruturas que organizam a sociedade e os afetos. Ao escrever sobre maternidade, educação, amizade ou trabalho, a autora não busca estabelecer verdades absolutas, mas questionar certezas que parecem inabaláveis. Seu texto observa mais do que sentencia, e talvez por isso permaneça tão atual. Leia também: Não Me Pergunte Jamais Quedalivre: Seres Urbanos Bedouine: Neon Summer Skin O ensaio que dá nome ao livro concentra boa parte dessa força. Ao opor as "pequenas virtudes" - prudência, economia, cálculo - às "grandes virtudes", como coragem, generosidade, sinceridade e amor à verdade, a escritora desmonta uma lógica de educação orientada pelo sucesso e pela sobrevivência. O que está em jogo não é apenas a formação das crianças, mas a maneira como adultos reproduzem medos e expectativas de uma sociedade que valoriza o desempenho acima da sensibilidade. Décadas depois de sua publicação, o texto continua provocador justamente porque desafia uma realidade que insiste em transformar pessoas em resultados. “Há certa uniformidade monótona nos destinos dos homens. Nossa existência se desenvolve segundo leis antigas e imutáveis, segundo uma cadência própria, uniforme e antiga. Os sonhos nunca se realizam, e assim que os vemos em frangalhos compreendemos subitamente que as alegrias maiores de nossa vida estão fora da realidade. Assim que os vemos em pedaços, nos consumimos de saudade pelo tempo em que ferviam em nós. Nossa sorte transcorre nessa alternância de esperanças e nostalgias.” (Capa: Raul Loureiro) Essa mesma honestidade atravessa os ensaios dedicados às lembranças da guerra, dos amigos e da própria trajetória como escritora. A experiência do fascismo, do exílio e a vivência com o segundo marido Gabriele Baldini, nunca aparece como espetáculo da dor. Ao contrário, é incorporada com uma sobriedade que amplia seu impacto. A autora compreende que algumas feridas jamais cicatrizam completamente, isto é, apenas aprendem a coexistir com os dias comuns. É dessa convivência entre perda e permanência que nasce uma escrita profundamente humana, incapaz de romantizar o sofrimento, mas igualmente resistente a transformá-lo em mero testemunho histórico. Há também uma percepção refinada sobre a memória. Natalia Ginzburg não organiza o passado em linha reta; ela o percorre como quem atravessa uma casa antiga, abrindo portas conforme os afetos conduzem seus passos. Seus ensaios transitam entre autobiografia, crônica e reflexão sem se prender às fronteiras dos gêneros. A fragmentação do livro, resultado de textos escritos em diferentes momentos de sua vida, longe de representar uma fraqueza, reforça a sensação de que recordar é um exercício naturalmente descontínuo. A memória, afinal, nunca chega inteira. Ao final de As Pequenas Virtudes, permanece a impressão de que o título esconde uma ironia delicada. As virtudes de que fala Ginzburg nunca foram pequenas. Pequenos são apenas os gestos que as revelam: uma conversa, uma lembrança, um silêncio compartilhado, uma frase escrita sem qualquer pretensão de permanência. “(…) O meu ofício é escrever histórias, coisas inventadas ou coisas que recordo de minha vida, mas sempre histórias, coisas que não têm a ver com a cultura, mas somente com a memória e a fantasia. Este é o meu ofício, e eu o farei até a morte. (…)” Gostou da leitura? Apoie financeiramente o desalinho e ajude a manter um espaço independente dedicado à crítica, às entrevistas e à divulgação da cultura independente. Toda contribuição faz diferença.

Bruno Berle: Sem Fronteiras
Não existe limite em Sem Fronteiras (Far Out Recordings, 2026). O título do terceiro álbum de Bruno Berle traz uma declaração com intenções: as canções atravessam idiomas, geografias e referências sonoras sem pedir autorização. Após turnês internacionais, o músico estruturou laços com diferentes vozes que saem do seu território. Gravado em Londres, Alemanha, São Paulo, Minas Gerais e Maceió, sua terra natal, o álbum transforma o deslocamento em conceito. Se em seus trabalhos anteriores - No Reino dos Afetos (2022) e No Reino dos Afetos 2 (2024) - o cantor explorava a intimidade dos afetos por meio de uma estética lo-fi e caseira, essa essência ganha novos contornos. Sem Fronteiras preserva a delicadeza, mas amplia seu horizonte criativo ao absorver diferentes paisagens sonoras, sem romper com a sua identidade. Leia também: Quedalivre: Seres Urbanos Eliminadorzinho eternamente: entre o ontem e o sempre Escrever para existir: Gabriel Soares e sua Agenda do Impossível (Créditos: Divulgação/Reprodução) Ao lado de Batata Boy, parceiro desde o início da carreira, Bruno Berle cria um ambiente em que cada instrumento ocupa um espaço preciso, dialogando com as letras. O violão continua presente, assim como o piano, enquanto sintetizadores, colagens eletrônicas e pequenas interferências ambientais surgem como elementos que expandem, e não sobrecarregam, a experiência. Dessa maneira, a produção entende o valor do silêncio, permitindo que as canções respirem antes de revelar os detalhes. Aliás, essa inquietação artística também aparece na estrutura das faixas. Bruno Berle evita repetir fórmulas que poderiam torná-lo mais acessível e prefere testar caminhos distintos ao longo do disco. “Não Posso Viver Sem Você” e “Manhã” trazem uma escrita mais direta e melodicamente acolhedora, enquanto “Vim Dizer” reduz tudo ao essencial, mostrando que existe beleza na simplicidade. Ao terminar a audição do disco, o ouvinte fica com uma sensação de um músico que transforma a instabilidade da vida em trânsito - hotéis, aeroportos, diferentes cidades e encontros - em matéria-prima para uma obra contemplativa, onde a vulnerabilidade nunca soa como fragilidade, mas como força criativa. É uma obra que nasce das experiências de um artista em constante movimento e encontra, justamente nessa ausência de fronteiras, sua maior qualidade: a capacidade de dialogar com qualquer ouvinte disposto a percorrer suas paisagens sonoras. Gostou da leitura? Apoie financeiramente o desalinho e ajude a manter um espaço independente dedicado à crítica, às entrevistas e à divulgação da cultura independente. Toda contribuição faz diferença.
