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AIUKÁ: o uivo dos dias de hoje

AIUKÁ: o uivo dos dias de hoje

Em "Uivo" (1956), Allen Ginsberg aborda o carma da geração norte-americana. Misturando realidade, ficção e o fluxo de consciência, o escritor beat foge da estética tradicional da poesia para relatar, livremente, a raiva e o desespero da sociedade americana dos anos 50. "Eu vi os expoentes de minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus…", escreve. No decorrer das palavras, o poeta beatnik retrata os delírios causados por drogas, as perversidades, o sexo devasso, a luta contra a censura e os rumos que os Estados Unidos tinham tomado. Sessenta e cinco anos se passaram após a primeira publicação do poema e o uivo de Ginsberg respinga nos dias de hoje. Em 2021, assistimos homens e mulheres destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos por conta da situação brasileira e sem esperanças. Seguindo os passos do escritor e se inspirando em AIYÉ, Boogarins e Vítor Brauer, surge AIUKÁ, projeto solo do músico, compositor e escritor, Guilherme Krema. Criado durante a pandemia, AIUKÁ conta com o single "Refúgio", lançado no início deste mês, que busca encontrar conforto em meio ao caos que o Brasil passa. Entre notas musicais e elementos eletrônicos, Guilherme Krema canta e, em alguns momentos, recita a letra, dando continuidade a linguagem livre da geração beat. Leia também: Impressões: Descobri que Estava Morto Os caminhos de Matheus Noronha Desalinhando Jack Kerouac: o vagabundo iluminado AIUKÁ surgiu no meio da pandemia. Qual o seu significado e por quê apresentar agora? Os últimos anos antes da pandemia foram particularmente intensos. Viajei muito, fui a diversos shows, conheci muitas pessoas e tive centenas de epifanias relacionadas ao modo que a cidade exerce influência nas nossas interações como coletivo. Nesse tempo, cursei todas as cadeiras da faculdade de artes visuais, transformei em poesia muita das reflexões e inquietações desse período. Com o objetivo de me conectar com a natureza e meu imaginário pessoal, no final de 2019 fiz um mochilão pelas praias de Santa Catarina, e vivi uma sequência de experiências que me trouxeram novos olhares sobre o místico e minhas próprias raízes ancestrais. Foi aí que me deparei com AIUKÁ, uma palavra iorubá, que significa "fundo do mar", e tomou grande significado devido a esse tempo que passei tão conectado com o mar. Voltei para a cidade em fevereiro de 2020, pouco antes do início da pandemia, e ao mesmo tempo que a reclusão forçada foi um choque - o meu processo criativo aflorou muito rápido. Buscar novos processos de composição para expressar minhas vivências foi um caminho natural. "Refúgio", seu recente single, aborda temas e sentimentos que todos, ou quase todos, passaram durante a pandemia. Como foi o processo dela? Como foi escrever a canção? A verdade é que quando escrevi o poema que originou a canção eu nem imaginava tudo que ainda iríamos viver. Escrita na metade de fevereiro do ano passado, a "loucura" a que me refiro é o fanatismo ao atual "presidente" e as manifestações pró-ditadura que já estavam acontecendo naquela época. "Refúgio" conta com diversos gêneros musicais, me lembrando, no decorrer da canção, um grito sobre o que estamos vivendo. Essa foi sua intenção? É um grito sobre o genocídio que estamos vivendo? Não era minha intenção principal, mas o próprio tempo foi ressignificando ela. A mistura caótica de elementos e o tempo bagunçado da canção foram pensados pra transmitir angústias e incertezas, mas não tão intensas como as que vivemos agora. A situação desesperadora que vivemos no país me causa uma raiva muito grande direcionada ao descaso com as nossas vidas, e ainda nem consigo criar a partir disso. A canção me lembrou uma mistura de Vítor Brauer, Lupe de Lupe e as poesias de Ginsberg. Você comentou que tem uma mistura entre os elementos, de forma inconsciente. Qual o impacto desses artistas na sua vida? Cresci com uma vontade muito grande de viajar, conhecer pessoas e novas realidades. O meu encontro com a literatura do Ginsberg e dos Beats foi uma reafirmação desses valores que eu já desenvolvia desde pequeno. Sou apaixonado por literatura, trabalhei nesse meio durante um tempo e tenho contos e poesias publicadas em coletâneas Brasil afora. Muitas das minhas pesquisas e paixões literárias transbordam no que escrevo, e muito do que escrevi nos últimos anos está compilado nas canções do EP ["Tigres Vermelhos em Marte Caçando Estrelas Cadentes", que deve ser lançado em breve]. A influência do Brauer é parecida, já que desde a primeira vez que ouvi Lupe de Lupe e li sobre as turnês "improvisadas" do Brauer, eu senti essa conexão e reafirmação de muitas crenças particulares que envolvem ir pra estrada na busca de concretizar sonhos e desejos. O meu primeiro projeto musical se chamava "Ao Sul de Nada", com os companheiros desse projeto, eu toquei durante dois anos na rua, com violões, vozes acústicas e chapéu no chão para arrecadar o dinheiro que nos possibilitaria seguir viagem. Juntos, fomos e voltamos de Montevidéu, numa viagem de mais de 2 mil quilômetros percorridos com caronas na estrada. Em "Refúgio", você canta e recita: "Sob alucinógenos / As ruas dormentes gemem / E os egos se debatem / nas paredes turvas da realidade". Os alucinógenos seriam o que, os remédios para aliviar a tristeza ou qualquer situação do dia a dia? Eu falo de alucinógenos mesmo. Essa frase sintetiza bem o ambiente em que o EP se passa - uma atmosfera noturna e cosmopolita, um personagem sob efeito de alucinógenos vaga entre vozes, visões, festas e bares, procurando antigas paixões e pessoas de quem sente saudade. A maior parte das letras foram escritas antes da pandemia, mas as canções de fato nasceram já em isolamento, então, muito disso está ressignificado ao contexto atual, já que ansiedade, saudade e solidão são sentimentos que muitos de nós partilham nesse momento. Depois de pegar a estrada para se conhecer e buscar a espiritualidade desejada, Jack Kerouac descreveu suas impressões pelas ruas americanas. "Qual é a sua estrada, homem? A estrada do místico, a estrada do louco, a estrada do arco-íris, a estrada dos peixes, qualquer estrada… Há sempre uma estrada em qualquer lugar, para qualquer pessoa, em qualquer circunstância. Como, onde, por quê?". A estrada é dolorosa, mas possível de conviver e transformar o ser humano - como diz a música de AIUKÁ. Seu single surgiu na pandemia e foi mixado em seu quarto, um local em que o "estrangeiro" não consegue entrar. Como foi essa experiência? Os meus processos de composição para os outros projetos musicais que eu tive sempre envolveram o modo clássico de voz e violão, mas há tempos isso já não refletia a sonoridade que eu buscava para transmitir o que escrevia. Foi um momento de experimentação solitária, mas de grande conexão com minhas próprias ansiedades e paranoias, através de instrumentos reversos e texturas eletrônicas, explorando como produtor as possibilidades e caminhos da criatividade mais espontânea que eu já experimentei. Foi um processo muito prazeroso de redescoberta pessoal. Inclusive, quais são as dificuldades em produzir durante esse período? Tem sido fácil escrever, produzir? Tem sido absurdamente difícil produzir. As canções que vou lançar nasceram em um período ainda de transição, em que era difícil prever até onde tudo isso iria chegar. O número absurdo de mortes, o descaso do governo e o avanço do pensamento conservador me causam tantos sentimentos ruins que tem sido praticamente impossível escrever ou produzir músicas nesse momento. Tenho encontrado conforto nesse processo de lançamentos, mas produzir músicas novas nesse momento ainda é um pouco utópico. Seu futuro EP "Tigres Vermelhos em Marte Caçando Estrelas Cadentes" contará com sete canções baseadas nesse estilo de criação. O que podemos esperar? As canções seguirão o mesmo estilo de "Refúgio"? O processo de cada música foi experimental e muito particular. Maior do que buscar uma sonoridade de mercado ou seguir estruturas óbvias, busquei me entregar ao processo de composição e produção, descobrindo onde cada música poderia soar mais sincera e realmente refletir tantos signos que carrego no meu imaginário. "Refúgio" é mais experimental em questão de sonoridade, mas a maioria não possui refrão, as vozes alternam entre trechos cantados e recitados e as texturas eletrônicas se unem a ritmos incomuns. Hoje, analisando as canções com um olhar mais distante, consigo traçar paralelos entre os trabalhos mais experimentais de músicos como Thom Yorke e Bjork. Claro que passo longe da genialidade deles, mas certos pontos em comum não são tão difíceis de encontrar. Sempre vivemos em um país que não se importa com a cultura. Por que continuar fazendo arte? Eu também sou produtor cultural e acredito que a arte tem o poder de se manifestar nos lugares mais improváveis, então é meu papel estar atento e ativo, buscando através da arte a transformação do meu ambiente. E, particularmente, nesse momento, a arte me ajuda a manter a sanidade. É resistência, é afirmação de valores, é transformação pessoal e afirmação do meu ser político. Tristeza e angústia são alguns dos diversos sentimentos que passamos. Você sente que precisa entregar aquilo que estamos vivendo e sentindo? Tem pressão dos ouvintes? O meu propósito principal era ser genuíno e sincero, partir sempre do meu ponto de vista sobre as situações e sobre o outro. Sinto que preciso entregar aquilo que eu vivo e sinto, acontece que no momento partilho da tristeza e da angústia da maioria. Ginsberg escrevia para todos, sobre todos. Quando estava vivo, disse para seus pupilos: "Siga seu luar interior; não esconda a loucura". Guilherme compreendeu e seguiu a filosofia do escritor, pois mostra-se o seu verdadeiro, sem medo. Quais os planos para o futuro? O que podemos esperar do seu EP? AIUKÁ foi um projeto contemplado pela Lei Aldir Blanc, e assim que os shows voltarem a acontecer, terei cinco apresentações para fazer ao lado de grandes amigxs que toparam repaginar essas canções em formato de banda. Espero que quando as coisas melhorarem, possamos viajar tocando esse disco também. Enquanto tudo isso ainda é sonho, me mantenho focado nesse processo de lançamentos. Vou lançar mais 2 singles nos próximos dois meses, antes de largar o EP cheio. Quem se interessar e me acompanhar nesse caminho vai ser presenteado com um registro muito pessoal e experimental, que reflete muito o que sou, sinto e sonho. É um disco estranho e diferente, mas justamente sobre abraçar essa estranheza pessoal, sem negar tristezas, paranoias e ansiedades, mas utilizá-las como forma de expressão e libertação. "Refúgio", do AIUKÁ já está disponível nas plataformas dos principais aplicativos de streaming.

O mundo através das lentes de Bruno Nakamura

O mundo através das lentes de Bruno Nakamura

Conheci Bruno Nakamura em uma agência de comunicação. Trabalhamos juntos. No meu primeiro dia, almoçamos juntos e ele me contou que, além de publicitário, era fotógrafo. Quando ele me mostrou suas fotos, fiquei com vergonha: zoom, ISO e enquadramento passam batido por mim (e olha que estudei fotografia na faculdade). Ele disse que não era difícil tirar uma boa foto (tive que me segurar para não rir, porque pra mim é difícil sim!) e me deu dicas. Tentei colocar em prática suas dicas, mas não deu certo. Deixo para quem tem talento. Bruno é filho de fotógrafo. Inclusive, na infância, ele era assistente de seu pai. Já viu de tudo um pouquinho e foi ali, no segundo plano, que aprendeu com o seu mestre: "Tenho muitas lembranças da época de infância, anos incríveis das câmeras com filmes. Mas a paixão pela fotografia aumentou quando amigos de uma agência de publicidade, sabendo que eu tinha câmera fotográfica, me pediram para fotografá-los. Ao verem o resultado final, eles me incentivaram a investir nessa carreira", ele me explica. Leia também:
Os pedaços de Edith Elek Brunner: o artista incendiário CA CAU: o artista multimídia cheio de poesia Ele está no mercado há seis anos e já fotografou de tudo, mas é no urbano que se encontra: "Gosto de coisas abstratas, detalhes, prédios, dia a dia. Mostrar o dia a dia das pessoas, como estão sentindo. Eu quero ajudar as pessoas através da fotografia", ele me escreve quando pergunto se tem alguma preferência para fotografar. Você é publicitário e fotógrafo. O que te levou a trabalhar com arte? Eu estudei em escola japonesa e a mesma tinha várias atividades que envolviam a arte, como, por exemplo, o desenho e o origami. Consequentemente, sempre me identifiquei com as atividades e isso prendia minha atenção. Nas horas vagas, eu também lia mangás e desenhava os personagens. Com 17 anos, um senhor que era dono de uma agência publicitária me convidou para trabalhar como estagiário e aceitei. Aprendi usar o computador, utilizar softwares de edição e continuei investindo e evoluindo nessa área. Quais são as suas inspirações? Junjiro Nakamura, Otávio Rotundo, Clóvis Vasconcelos, Platon e Sebastião Salgado. São Paulo é cheia de prédios, poluição e cimentos. Por que continuar fotografando a cidade? Amo São Paulo e não vejo dessa forma. Vejo uma cidade iluminada, repleta de riqueza arquitetônica e urbanística, pessoas de várias etnias e muita movimentação. Passamos todos os dias pelos mesmos lugares e não olhamos os detalhes. O que as pessoas veem como prédios, vejo a arte - através da foto, resgato. Observo esses detalhes e fotografo. Quero transmitir a emoção através do meu olhar. Quais são os elementos essenciais que você deseja passar com a sua fotografia? Luz, composição e equilíbrio. Sua visão de mundo (vamos dizer assim) foi alterada depois que você começou a fotografar? Sim. Eu fazia o trajeto do trabalho e tudo me parecia igual. Quando comecei a fotografar, vi a oportunidade de observar coisas do cotidiano de formas diferentes e seus detalhes. Mesmo com a pandemia, você continua tirando fotos. Sua visão de fotografia/trabalho foi alterado? Se sim, como? A demanda por serviços fotográficos diminuíram drasticamente, por um motivo óbvio e necessário: precisamos priorizar a nossa saúde, a saúde dos nossos clientes, familiares e amigos. Para conseguir fotografar, tive que aprofundar as técnicas e comecei a capturar o cotidiano através da janela. Bruno diz que a beleza da fotografia está no olhar de cada um. Isso é aplicado para ele: sua doçura e olhar atento conseguem transmitir os sentimentos daquele segundo específico, que agora está capturado através de suas lentes. Para conhecer o seu trabalho, acesse seu Instagram: @bynakamura.fd

Entrevista: Mariana Godoy continua se afogando em Virginia Woolf

Entrevista: Mariana Godoy continua se afogando em Virginia Woolf

Dizem que ao sonhar com afogamento, boas notícias surgirão. Para os escritores, escrever é um afogamento: as palavras são como o mar, quando chega ao limite, o autor está ofegante, lutando para sobreviver... Mas se afoga. As palavras são pesadas. Ao lutar pela sobrevivência, para voltar a respirar, o escritor descobre que é possível (con)viver com o incômodo. Como Sylvia Plath, Ana Cristina César e Virginia Woolf fizeram. Nas obras, as autoras colocaram tudo de si. Em "A Redoma de Vidro", Sylvia relata as desventuras de Esther Greenwood, uma moça de 18 anos que sai dos subúrbios de Boston para uma nova vida. Nas entrelinhas, o leitor descobre o impacto dos pais na vida da moça, a depressão, a tentativa de se descobrir sem a presença dos outros e o suicídio. Já a carioca Ana Cristina César, descreveu como é ser mulher em um país machista, as dificuldades de ser escritora e as tristezas de uma jovem que gostaria de ter sido aceita pela sociedade. Por último, Virginia coloca seus sentimentos e familiares, mostrando sua verdadeira faceta, medos e nostalgia. Passado e presente se misturam. Mariana Godoy tem um pouco das características das autoras. Fisicamente, ela parece Ana (além dos questionamentos), mas ama intensamente como Plath e se entrega como Virginia. É possível ver o resultado de sua personalidade em seu livro de estreia: "O Afogamento de Virginia Woolf". Lançado no ano passado pela editora Patuá, a obra aborda a falta/saudade da figura paterna na vida de Mariana (assim como Plath em suas poesias), as transformações da infância para adolescência (assim como o livro de Woolf, "O Quarto de Jacob"), dúvidas, amores e a existência (o tempo em "A Teus Pés" de Ana). Quem não está a procura de algo? Estamos sempre buscando algo para preencher o vazio. Foi na poesia que a escritora e atriz resolveu fazer arte com o vazio para viver no meio de um afogamento. "quando eu acordava mal-humorada,
papai mandava deitar na cama de novo
e levantar pelo outro lado.

a irritação logo sumia
e eu dizia que minha cama
era uma cama mágica. um dia, papai me viu deitando e levantando várias vezes seguidas,
de mil maneiras diferentes. perguntou se eu estava treinando para ser ginasta.
respondi que não, que na verdade estava triste, e queria que a tristeza fosse embora. ficamos os dois, uma tarde inteira, a dar cambalhotas." Sua feição pode ser doce, mas sua escrita não. Reviver o passado é sempre dolorido e se mostrar ao outro, um desconhecido, é pior ainda. Ao ler as linhas de seus poemas, nos reconhecemos e podemos até questionar se Mariana escreveu sobre si ou sobre nós. Esse é o papel do escritor, certo? A escritora responde: "Uma vez um professor perguntou qual era o papel do poeta em tempos tristes. Ninguém soube responder. Depois, ele concluiu: "o papel dos poetas em tempos tristes é mostrar para todos que estamos vivendo tempos tristes". Esse é o papel do artista em geral, mostrar como estamos vivendo... Ou melhor, mostrar que estamos vivendo". Eliane Brum disse uma vez "escrevo para não matar e nem morrer". Para você, o que significa escrever? Eu escrevo diários com frequência, então se pensarmos nos diários como um lugar de urgência, sim, assino embaixo dessa frase. Agora, quando escrevo poemas especificamente, não consigo ser tão romântica. A graça é escrever poemas para trabalhar com a linguagem, desdobrá-la, dezorganiza-lá; colocar a linguagem sob suspeita; ver até onde a criação pode me levar, sendo que na criação eu posso ir a qualquer lugar. E pra isso preciso estar bem viva, bem centrada, sem tanta urgência, sem pressa. Do contrário, não escrevo nada. Além de Virginia, quais são as escritoras que te inspiraram a escrever? A Virginia Woolf fez parte da minha formação como leitora na adolescência, assim como Clarice Lispector e a Hilda Hilst, que vieram por indicações de professoras, então consequentemente elas me inspiraram a começar a escrever. Mas eu posso citar outras que também foram de grande importância: Toni Morrison, Ana Cristina César, Sylvia Plath e Stela do Patrocínio. Anteriormente, você comentou que não está em busca de preencher o vazio com seus poemas. Qual o seu objetivo? A poeta portuguesa Sophia de Melo Breyner (1919 - 2004), tem um poema chamado "Escrita II", que tem o seguinte trecho: "A sua arte é filha da memória / Diz o que viu / E o sol do que olhou para sempre o aclara". Tenho pensado muito nesses versos ultimamente. Além de escrever para desdobrar a linguagem, eu acredito que nos meus poemas eu busco trabalhar a memória, reenquadrá-la. Eu gosto da forma como o passado contato é muito mais intenso do que o passado vivido. Em outras palavras, trazer alguém de volta, um momento, a infância, por um segundo que seja. Não só pra mim, mas para o leitor, de modo que a poesia vaze dos poemas, sobre as margens do livro ou da tela, e entre na vida de alguém, seja acompanhando em uma viagem, em um leito ou em uma mesa de café da manhã. Como foi publicar um livro independente? As editoras independentes estão cada vez mais abertas a receber poesia, sem falar que tive incentivo de escritores com llivros já publicados, de modo que eles me auxiliaram nesse caminho até a publicação. A minha maior dificuldade com relação ao livro [O Afogamento de Virginia Woolf] foi/é com a divulgação, pois essa é uma das principais tarefas do autor quando publica com editora independente, e eu sou péssima nessa parte. Como está sendo o isolamento, você está escrevendo? Não tanto quanto eu gostaria. Estamos vivendo a pandemia do capital, muitos trabalhadores estão sendo demitidos e tendo seus salários pulverizados. Não é o meu caso, mas não significa que estou confortável com essa situação, porque além do desemprego e dos problemas financeiros, há um possível aumento do risco de suicídio e de violência doméstica, coisas para as quais não podemos nem fechar os olhos. Para piorar, nós não temos um governo que providencia medidas de segurança à população, o que me faz ficar ainda mais pessimista em relação ao futuro. Então, quando me perguntam como estou, como está sendo o isolamento etc, a resposta é sempre a mesma: péssimo, estou triste, com raiva e com medo. Talvez por isso eu esteja escrevendo pouco, o que me segura no chão são os filmes, as músicas, os livros que estou lendo, mas sobretudo, as pessoas que amo. Filha de professora, Mariana tem a escrita em seu DNA. Ela sabe que para sobreviver é preciso escrever e se doar ao todo, assim como Virginia, referência em sua obra. "Vivenciei sentimentos que navegam muito em suas obras. O que, claro, não é raro, já que Virginia trabalha em lugares inteiramente humanos", relata. Mariana continua no mar, mas não se afoga constantemente, como no passado. A água sobe em seu corpo, chega em seus quadris e para. "O poema pode prender momentos no tempo. Procuro um reencontro com o meu pai, mas não busco preencher um vazio. Até porque não acredito que posso acabar com ele. A escrita, para mim, apenas deixa o vazio suportável", conclui. O Afogamento de Virginia Woolf pode ser comprado pelo site da Editora Patuá.

Memorandos de Taco de Golfe

Memorandos de Taco de Golfe

Preste atenção nos mínimos detalhes. Olhe bem para a capa do disco; o que você vê? A mesma é ambígua, com diferentes interpretações (canos? massas? andaimes?). Agora, leia com muita atenção os títulos das canções - "Pessoa Que Fala", "Formigas Que Levantavam a Cabeça Como Cães" e "Eu Estava Lá, Em Pé" - você consegue compreender, nas entrelinhas, um toque da alienação kafkiniana? Ouça as músicas (a indicação é para ouvir no escuro - faça isso!) e me responda: o que você sente? Para concluir: consegue responder alguma questão que te fiz? Se não tiver uma resposta concreta, não se preocupe, pois "Memorandos" (Balaclava Records, 2021), terceiro álbum do duo sergipano Taco de Golfe, composta por Alexandre Damasceno (bateria) e Gabriel Galvão (guitarra) é uma eterna modificação - do mundo, de sentimentos, da realidade, da vida - sem resposta concreta. Preciso apresentar duas informações sobre a dupla (elas são importantes para a construção deste texto e, talvez, para uma "compreensão" do álbum): Alexandre e Gabriel nasceram nos anos 90, ou seja, havia uma prosperidade econômica no país que não foi levada adiante, frustrando muitas pessoas que torciam pela redemocratização no Brasil. Além disso, a ideia de que "é preciso possuir uma casa, família, carros e um bom emprego até os 30 anos" era repetida constantemente por familiares para crianças pequenas - você passou por isso? Se sua resposta foi sim, seja bem-vinde ao grupinho - você sabe como é a sensação de crescer ouvindo que é preciso ser algo grande e a pressão para ter algo. Então, quando você cresce, percebe que o mundo não é tão fácil como diziam e que a necessidade de alcançar esse algo antes dos 30 fica para trás, porque não é possível. A segunda informação é a saída do baixista Filipe Williams que aconteceu durante os ápices da pandemia. Com as informações dadas, imagine: passado, presente, futuro, pandemia, saída, crise econômica, sentimentos e tudo que cabe dentro do ser humano. Qual o resultado? "Memorandos", em um novo formato de banda, mistura tudo que cabe em seus integrantes. É um disco que conta com colagens sonoras que remetem a confusão, reflexo do isolamento social e da convivência diária dos músicos que passaram a viver sob o mesmo tempo durante a pandemia. Leia também: Canções de Isolamento Volume 2 A dançante nostalgia de Apeles ZANZAR celebra o caos A conversa é pelo Zoom e se inicia alguns minutos antes do horário. Um pequeno caos se inicia: carro de ovo e churros se encontram, criando uma atmosfera caótica e barulhenta - nada parecido com Taco de Golfe, porém, nas entrelinhas tem mensagens significativas. As questões começam e durante as respostas, Alexandre e Gabriel conversam entre si, dando continuidade ao improviso, como sempre fizeram. "Memorandos" foi feito na pandemia, certo? Como que o isolamento social afetou o processo de criação e como vocês gravaram o álbum? Gabriel: Durante a pandemia, acho que desde junho e julho, eu comecei a morar com Alexandre. A gente começou a morar junto e a gente passou grande parte dessa pandemia juntos. Estamos passando, né. O disco nasceu nesse período aí: a gente morando junto, a gente passou no edital da Lei Aldir Blanc e tipo… Antes disso a gente tava concebendo algumas ideias, tentando organizar, vendo formas de trabalhar juntos de casa… Acho que quando a gente começou a morar juntos, a gente começou a tocar juntos e aí depois a gente começou a conversar mais sobre as composições - eu fazia muita coisa no computador e mandava para ele e tals… Então, a gente passou um tempo tentando se ajustar nesse processo, tentando ver como seria essa dinâmica de trabalho, de produção e além de tudo que tava acontecendo ao redor da gente… Mas é isso: quando a gente passou nesse edital foi o gatilho do "vamos fazer agora" - daí, então, a gente aproveitou muita coisa que a gente tinha feito nesse período que a gente ficou junto. É basicamente isso, foi bem diferente dos outros pela dinâmica, agora só tem eu e Alexandre, antigamente a gente tinha um baixista e eram três pessoas discutindo, eram três pessoas para alinhar as ideias, era outro processo. Então, a gente tava ali se descobrindo, como seria a sonoridade da banda, como a gente iria abordar as ideias, enfim, uma série de coisas, foi uma época de grande aprendizado. Alexandre: Eu diria que foi uma mistura mesmo, de tentativas, de processos de composição, porque quando Felipe tava na banda era um processo muito baseado no tocar, na jam, né. A gente detectar, os três juntos, no estúdio; ir tocando e gravar ao máximo esses processos… Aí eu lembro que em "Nó Sem Ponto II" (2020), teve situações que a gente marcou turnê, passou em um edital para tocar no Espírito Santo e tal e aí a gente meio que teve um deadline de um ou dois meses para fechar um álbum - "vamos fazer esse disco logo para viajar com o disco novo". Aí teve esse processo da gente sempre tentar se encontrar para tocar, fazendo… Eu e Gabriel, a gente se encontrava, foi pouco, mas lembro de quando fui para casa de Gabriel a gente estruturou no caderno, outras músicas foram estruturadas dessa forma - eu e Gabriel tentando formar uma estrutura e indo para o estúdio com o Filipe e tocando todo mundo junto para fazer a música. Nesse "Memorandos", agora morando juntos, foi essa coisa da gente conversar mais, como Gabriel falou, estruturar a música de uma forma mais composicional ao invés de estar lá tocando, de ver o que acontece e é isso, saca? "Memorandos" foi mais sair do improviso, mas também… Como equilibrar essas duas coisas? Gabriel: Eu lembro que em "Memorandos" tiveram coisas que eu tive que parar para pegar porque eu não sei como é que fiz no estúdio mesmo. Alexandre: De fato, isso acontece muito! De minha parte também, tipo assim, as baterias gravadas que saem em "Memorandos" é muito improviso… Eu passei quatro dias no estúdio e isso foi uma coisa diferente. Como falei, em "Nó Sem Ponto II", teve uma pressão… A gente meio que gravou bateria, guitarra e baixo - a bateria tudo definitiva, mas guitarra e baixo a gente gravou depois - em um final de semana. A gente gravou tudo isso em três dias, né Gabriel? Gabriel: Foi. Alexandre: E nesse, agora, eu tive quatro dias para gravar só a bateria. Apesar disso, o que tá lá gravado, tem muito de improviso. Gabriel: Quando eu falei foi mais sobre "Nó Sem Ponto II", eu não organizei as minhas partes, as partes da guitarra, de uma forma que eu realmente compus. Eu criava uma estrutura, um alicerce pra gente ver no estúdio. Da minha parte, na guitarra, "Nó Sem Ponto II" foi muito mais "eu vou fazer isso, isso, isso, isso". "Cai da Escada Rindo", música do "Nó Sem Ponto II" tem uma melodia marcante que é feita pela guitarra e a melodia não tava 100% definida até a hora de gravar, sabe? Imagino também que a convivência entre vocês dois também tenha impactado, né… Morar junto, conviver junto, em uma pandemia, ter que continuar fazendo… Foi diferente dos outros álbuns. Alexandre: Eu diria que foi o ponto fundamental. Foi bastante difícil em alguns pontos. Essa convivência todos os dias e que a pandemia fez a gente ficar em casa… Foi um período muito doido [risos] Gabriel: [risos] É. Eu acho que tudo pesava mais. Justamente esse peso! Eu sinto que "Memorandos" é muito mais intenso do que os outros álbuns Gabriel: Mais caótico, né?! Muito mais caótico! Foi intencional, eu imagino, porque foi o que vocês estavam vivendo, foi colocado no álbum, né. Alexandre: Teve muito disso também, ao mesmo tempo que teve um let it go, deixar ir. No final, a gente falou "vamos soltar isso como tá e é isso, vamos para a próxima". Gabriel: É, chegou um momento em que a gente tava assim: muito tempo nas mesmas coisas… Acho que teve um momento que tipo já não fazia tanto sentido, pelo menos pra mim, ficar naquelas músicas… "Tá bom, tá pronto. Vamos fazer outro" É aquela coisa: sempre fica aquela sensação de dava para ter feito mais, dava para ter feito melhor - é normal, mas nesse caso foi tipo uma desistência, sabe?! Foi um processo bem cansativo, principalmente o processo do pós. Alexandre: Principalmente isso. As ideias estavam bem legais, coisa que Michele falou mesmo, de transparecer essas coisas, esses sentimentos que tavam rolando… E teve esse processo de pós… A gente ficou realmente martelando em muita coisa, tentando bater de novo e aí juntou e já era tipo, digamos, era ¾ da pandemia ali e já tinha essa carga toda e a gente meio "tá, vamo soltar!". O segundo álbum de vocês também foi lançado na pandemia, né? São dois álbuns lançados na pandemia, dois álbuns trancados em casa, sendo que vocês são uma banda ao vivo. Como que foi esse pós para dois álbuns lançados na pandemia? E como tá sendo para vocês? Alexandre: A produção não foi, mas o lançamento, que foi em maio, foi [na pandemia]. Gabriel: Acho que "Nó Sem Ponto II" ele não pesou tanto assim nesse sentido, porque grande parte da produção dele foi no período pré-pandemia. Alexandre: É, a gente gravou tudo e o pós dele a gente tava viajando. Eu lembro que a gente recebeu [corte na gravação], a gente tava em Recife, a gente ia tocar no [festival No Ar] Molotov e foi completamente diferente. Desse novo, ainda não conseguimos, mas a gente precisa também voltar a ensaiar… A gente tem que falar de João Mário também. João Mário é um amigo nosso, também da cena daqui, que toca em várias bandas… A gente tá dizendo que é um duo, mas a gente chamou ele pra tocar com a gente e também para produzir algumas coisas - acho que ele ajudou a produzir quatro músicas de "Memorandos". Com todo esse processo da pandemia, a gente não tava conseguindo se juntar, teve os processos dos editais também que a gente teve que gravar algumas coisas e tal, mas a gente vai retomar todo um processo de ensaio, de tocar junto, de realmente fazer o show rolar. Acho que ano que vem já rola alguma coisa. Vocês já conseguem imaginar como será o ao vivo? Alexandre: A gente já tá com essa perspectiva. Gabriel: Eu tô pensando em algumas possibilidades [risos]. Penso em voltar a ensaiar nós três, eu, Alexandre e João Mário e ver como é que se dá, né. Tentar tocar as músicas, ver como é que eu posso organizar as linhas de guitarra… Alexandre: Tem dias que eu penso em colocar outro guitarrista no show… Gabriel: É, tô pensando nisso aí, se for necessário. Primeiro, quero tocar, né. É uma diferença interessante com os outros discos - como Alexandre falou, o processo de pré-produção dos outros se dava muito no estúdio, tocando, dando noção de como ele seria ao vivo antes de gravar - e isso foi uma coisa que não teve. Alexandre: Pegar as músicas, ver como a gente vai tocar, como vai ser ao vivo, né. É um processo diferente, realmente. Gabriel: Acho que é mais pelo conceito do disco, as músicas são curtas Alexandre: Pra ser sincero, penso que no próximo show a gente toca música nova [risos]. Uma improvisação do que já foi feito, né. Gabriel: Pensei nisso aí também. Alexandre: Vai emendando as músicas de "Memorandos". As faixas são curtas e você pode ouvir as músicas em qualquer ordem. A gente botou o primeiro nome de "Intro", mas são músicas curtas de ideias fechadas em si que em algum momento dão a ideia de disco cheio. Diria que são músicas que funcionam para serem ouvidas separadas, cortadas. Me chama atenção porque a primeira vez que eu ouvi, já conhecia vocês e já acompanhava o trabalho, "Memorandos" eu senti que tem uma narrativa que dá para ser cortada e quando você ouve a segunda vez, parece que essa narrativa rompe tudo e é possível ouvir o álbum com diversas interpretações, sentir várias coisas e tal. Alguma coisa foi intencional? Existe alguma explicação? Alexandre: Acho que essa coisa cortada das faixas... Eu acho que sim, hein. Gabriel: Acho que a ordem, as músicas... Eu fico viajando muito numa narrativa real em tudo que ouço. Eu tava no processo de escolher os nomes das músicas, fazer a ordem do disco, pensei na experiência do ouvinte ao ouvir o disco na ordem, mas o fato do disco... Tem músicas que se fecham ali e a música que vem depois, não tem nada a vê, sabe? É um disco em camadas! Alexandre: É como se fosse uma onda - a onda da sonoridade... Gabriel: Total! Isso foi totalmente pensado! O disco começa num pau e vai descendo, vai descendo [faz gestos com as mãos] e vai subindo de novo. Foi basicamente isso que a gente pensou. A questão dos nomes... A verdade, os nomes eu peguei de um brainstorm de Alexandre que começou a escrever coisas relacionadas ao conceito, enfim, coisas que ele tava pensando e coisas que ele tava lendo na época - não foi, Alexandre? Alexandre: Tem uns nomes que são citações. Foi realmente um brainstorm. Antes, os nomes das músicas iam ser números e tals; mas teve um dia que eu abri o caderno e comecei a colocar nomes. Aí no outro dia, mandei a foto [do caderno] para Gabriel e falei: "Gabriel, escolha aí!" - e foi isso. E como rola esse processo? Alexandre: Acho que foram dois processos nesse sentido. O primeiro, justamente, eu escrevendo os nomes, e eu não conhecia as músicas, baseado no conceito, tinha essa ideia de memorandos, a comunicação... Enfim, sistema e informações dentro de um lugar. [cortes na conversa] Gabriel: Acho que ele tava falando sobre não conhecer as músicas, mas pensando no conceito. Alexandre: Quando eu escrevi os nomes das músicas no caderno, eu tava pensando justamente nesse conceito mais aberto - e eu não conhecia as músicas. Eu tava pensando justamente em sistema de informação, em troca de mensagens, dentro de uma estrutura burocrática muito grande, uma coisa meio kafkiniana, essa coisa estranha, essa coisa misteriosa. Aí botei um monte de nome e aí foi Gabriel que já conhecia o som, ele botou os nomes sentindo mais essa coisa da narrativa por conta da música. Gabriel: Eu li tanto esse papel que parecia um texto pra mim, sabe? Eu sentei chapadão e comecei a sentir [risos] coisas - o que eu sentia com as músicas e tentei construir, só que depois eu fiquei "não, não faz sentido", mas tentei construir a narrativa com esses nomes. Eu queria fazer com que as músicas fossem como um livro totalmente picotado. As conversas e memórias continuam na conversa. Lembramos de como o tempo e as dificuldades nem existiam quando éramos criança. Frustração e ansiedade aumentam com o passar do tempo, causando um desalinho dentro da gente. Sobreviver e fugir dos padrões é a melhor ideia para continuar vivendo. "Memorandos" está disponível em todas as plataformas de streaming de música.

Rodrigo Eugênio: o cancioneiro sentimental

Rodrigo Eugênio: o cancioneiro sentimental

Jorge Amado e Dorival Caymmi foram dois baianos gigantes que usaram a arte para retratar a vida e hábitos do povo baiano. Em "Mar Morto" (1936), Jorge conta o nascimento, a vida e a morte de Guma, um pescador, um "homem do mar"; enquanto Dorival celebra as músicas de remadores, em "Canções Praieira" (1954). Ambos retrataram o mar, signo que está presente na música do paulistano Rodrigo Eugênio. O mar, selvagem e santo, é enfrentado diariamente por homens, que saem em busca de peixes, um trabalho perigoso que pode afogar e/ou matar - como canta Caymmi: "É doce morrer no mar, nas ondas verdes do mar". Rodrigo lembra Ayrton Montarroyos - ambos são jovens e carregam uma carga poética necessária para os dias de hoje, aquela que acalma e abraça o ouvinte -, mas Rodrigo traz a essência do boêmio, herança de seu avô que lhe mostrou o estilo na infância: "Quando eu tinha uns sete ou oito anos, eu vivia no bar - não bebendo ou nada do tipo, eu vivia junto com o meu avô que era um grande boêmio e a gente ouvia junto Caju e Castanha, Adoniran Barbosa, Nelson Gonçalves, músicas que ouço até hoje". Influenciado por Dorival, Jorge Amado, Jards Macalé, Maysa e José Mauro, o cantor e compositor caminha pelas ruas de São Paulo, principalmente no Centro Velho, local que se sente bem, procurando por uma esquina, casa ou um banco que seja possível compartilhar seu lírico poético, sua boemia e o saudosismo do tempo que não volta mais. "Eu acho que as músicas que mais ouço hoje em dia são essas músicas antigas. Além de ter uma memória afetiva, de "tempos bons", de quando você é criança… Eu percebo que elas têm uma carga emocional, uma carga lírica muito pesada. Extremamente pesada. Foi algo que eu não pesquei quando eu tinha 7 ou 8 anos, quando ouvia mais isso, como coisas que pego agora, por exemplo", ele me explica em nossa conversa pelo Zoom. Como e quando você descobriu-se artista? Isso é uma pergunta muito difícil, porque eu nunca não me identifiquei como artista [risos]. Jura? Juro! Eu sempre fui muito apaixonado por música, assim em todas as artes, mas música principalmente, desde quando eu tinha… Sei lá, era muito criança. Veja bem, eu tinha 3 anos e tinha um pôster da Evanescence no meu quarto, minha mãe conta [risos]. Eu fui crescendo e eu só fui mudando de área em área para música. Quando eu tinha sete ou nove anos, eu vivia no bar… Não bebendo ou nada do tipo, eu vivia junto com o meu avô que era um grande boêmio e a gente ouvia junto Caju e Castanha, Adoniran Barbosa, Nelson Gonçalves, músicas que ouço até hoje. Mas eu realmente não consigo pensar no [momento em que] "eu não quero ser artista" - sempre foi algo na minha vida. Nunca consegui me identificar com outras coisas. Foi muito também sobre família? Tá no DNA? Não, infelizmente não. Minha família não tem nada a ver. Minha família é da área da saúde, com tecnologia… Alguma coisa que eu consigo me relacionar é meu avô que toca pandeiro. Meu avô toca uma percussão maravilhosa. Eu sempre fui muito ouvinte, isso me influenciou, mas não teve nada com relação familiar. O que te chamou atenção na arte? Por que seguir esse caminho? Por que não?! Tava na hora de quebrar um pouco esse paradigma da minha família [risos]. É uma coisa totalmente de identidade, sabe? Eu me identifico com esse tipo, com essa carreira, de música e arte. É algo que sempre esteve lá, que eu sempre senti isso… Se existe vocação… Desde pequeno e a primeira banda que eu tive, aos 10 anos, na época do Restart… Eu tinha uns 10 anos na época e na época eu formei uma bandinha com um amigo de escola que chamava Eyes. Quando eu tomava banho, eu ficava imaginando a capa do álbum - e eu não tocava nada na época! Eu era puramente "eu quero muito fazer isso". Mas como eu nunca tive recursos, desde jovem, para ter essa mobilidade, eu tive que esperar um pouco, já mais velho para conseguir ir atrás disso. Você consegue me explicar ou achar alguma resposta do que te motivou ir atrás desse mundo? Talvez para fugir dessa realidade, talvez para fugir da parte da saúde, da tecnologia… Em certo ponto sim, mas a busca é sempre em habilidade de buscar um sentimento. Por exemplo, quando alguém tá ouvindo alguma música, de algum artista qualquer, você tá sentindo alguma coisa. Minha família foi sempre ouvinte de música, esse crédito eu do para eles. Às vezes, minha família tá muito feliz ouvindo música ou até triste, porque a minha avó ouvia só dor de cotovelo - Maysa e olhe lá. Inclusive, Maysa foi uma coisa muito marcante para mim - acho que até foi por causa da Maysa que eu pensei: "putz, isso é muito legal!". A Maysa tem aquele vozeirão ferrado que ela tem e é um sentimento muito lindo que ela passa. Eu lembro de prestar atenção e eu quero passar isso. Música é sentimento. Acho que isso resume tudo: música é sentimento. E o que você pretende passar com a sua música? Algum sentimento ou deixar livre para os ouvintes? Depende de música para música. Acho que a maioria das minhas músicas, desse disco novo que tô fazendo, que tem toda uma estética, uma temática… Eu busco muito passar sentimentos semelhantes que o Dorival Caymi passou no primeiro disco dele, “Canções Praieiras”, que é aquela coisa mais cru, cancioneiro com o violão e contando histórias de algum lugar, de alguma cultura… Acho que pelo menos, na questão musical de som, não tem tanta… Sentimento assim, mas eu busco trazer nas letras toda essa questão de sentimentos. Leia também: A potência de Mariana Ferreira O mundo inteiro de Yo Soy Toño Os caminhos de Matheus Noronha Assim como muitos adolescentes, Rodrigo Eugênio caminhou por diversos mundos, tentando compreender-se e encontrar o seu caminho. Aos 16 anos, participou de uma banda de black metal ao lado de amigos e até chegaram a lançar músicas no Youtube e em Fóruns. O rock ficou pouco com ele, apenas um ano, pois redescobriu a essência da música popular brasileira e seguiu por esse caminho. Aproveito para perguntar como foi essa mudança: "Uma resposta completamente sincera: aconteceu do dia para noite [risos]. Foi engraçado, porque eu parei de ouvir o black metal, eu me lembro até hoje, foi no final de 2017, quando eu estava prestes a completar 18 anos. Foi do dia para noite". Assim que encontra seu caminho novamente, Rodrigo Eugênio lança seu primeiro single, "Nada Mais", gravada de forma totalmente caseira. O início de tudo. "Nada Mais" é o seu primeiro single e foi gravado de forma totalmente caseira. Você canta e recita um encontro no transporte público. Como foi o processo da gravação e da escrita? É uma canção, meio recitada e que se passa no transporte público. Eu lembro exatamente como eu compus essa canção. Ela, na real, foi uma junção de uma música que eu fiz um tempo atrás. O primeiro disco de MPB que eu lancei, tipo, ficou ruim demais. As letras em si, as melodias eram muito boas, mas eu não tinha noção de gravar, não sabia fazer nada assim, foi totalmente gravado caseiramente… Quando eu compus essa letra, eu percebi que encaixava com essa música antiga, eu tava voltando do trabalho, isso presencialmente, em 2019, tempo auge de pegar metro! Eu tava muito triste, porque eu não queria arrumar um trabalho na época. Eu era compositor full time, fazia aula de canto, só que a idade bate à porta. Aí eu arrumei esse emprego e quando eu estava voltando do primeiro dia, eu tava muito triste, muito. [E me perguntava] "Será que é isso que eu quero fazer?" "Eu vou trair tudo que eu gosto", coisa de jovem de primeiro emprego, que não fazia nada e que hoje eu percebo o quão tolo eu estava sendo. Não era só porque eu tava arrumando um emprego que eu ia parar de compor ou coisa do tipo. [A gata invade a tela e se aconchega no colo do dono] Quando eu falo: "você quebra o seu destino/você chora", foi nesse momento que eu pensei: "putz, será que eu quebrei o meu destino?". Enfim, eu percebi que tava completamente errado. Hoje em dia, por mais que eu não consiga me dedicar 100% do meu tempo para música, porque tô trabalhando, faço um monte de outras coisas - o tempo que eu dedico é sempre mais 100% produtivo do que antigamente, quando eu conseguia fazer isso o tempo inteiro. Podemos entender que "Nada Mais" é uma quebra da adolescência para vida adulta? Completamente. É a famosa crise dos 18 anos [risos]. Você muda completamente de "Nada Mais", uma música grava caseira, para “Infeliz Tragédia de Maria” - alias, uma ótima música! Parabéns! Muito obrigado. Eu fiquei completamente inseguro, eu sou muito inseguro, com qualquer coisa que eu produzo. Por que continuar fazendo arte, já que você tem essa insegurança? Você precisa fazer? Não é como se eu precisasse, não tem uma força externa que me força a fazer isso, é uma força completamente interna, algo que gosto muito de fazer. Essa insegurança é comum para o compositor. É aquela questão de "é boa o suficiente", certo?! Sim, completamente isso. "A Infeliz Tragédia de Maria" tem uma história por trás, né. E que história impressionante! Como foi para você ver uma mulher morta e fazer essa canção? Foi um processo muito estranho, porque eu vi essa mulher morta, quando eu estava passando em frente ao Theatro Municipal de São Paulo, quando eu fazia um curso que era bem em frente ao Municipal. Ela ficou na minha cabeça por muito tempo, tanto que eu só consegui compor a música um ano depois desse caso. Foi muito triste. Você vê alguém morrendo como indigente é algo… Se você for parar para pensar, tem toda uma população, ainda mais em São Paulo, de moradores de rua que não tem RG, não tem identidade. Como eu não encontrei mais nada sobre essa mulher, pesquisei na internet, acho que ela foi um desses casos e isso é algo que me pega muito. Eu fico extremamente triste. Isso acontece porque a pessoa não tem direito a sequer um nome, uma identidade, sequer uma nota no jornal sobre a vida dela. E a vida dela não vale nada. O ser humano não vale nada. Isso me pega de um jeito, é aquela angústia do peito, é uma coisa horrível. Anos depois que eu compus essa música, eu tava tomando banho, muitas das minhas ideias de música surge tomando banho [risos]. Comecei a lembrar dessa história e… Eu pensei em um nome Maria, que é um nome mais comum. "Eu vou dar esse nome para ela, pelo menos ela vai ter um nome". Eu fui lembrando da história e a melodia… Eu fui muito inspirado na melodia de samba de fossa, que também vem da Maysa, essas músicas mais dor de cotovelo. A letra saiu em uma tacada só, fui pegando o violão, fui tocando e saiu tudo de uma vez só; eu só anotei. Por que você acha que demorou um ano para compor a música? Por que retratar uma tragédia? Acho que tem toda a questão da memória afetiva, porque eu cresci vendo muitas tragédias. Como eu falei, ao lado do meu avô, sempre que acontecia algum acidente ou sei lá, alguém se matava, ele me levava para ver - desde criança. O que não é algo exatamente muito legal para uma criança! Tragédias é algo que marca. É aquela coisa: você vê um acidente de carro e você não consegue parar de olhar, então, essa é uma das sensações que eu também quero e gosto de trazer - é algo narrativamente ruim, para assim dizer, é algo que fica na cabeça. O que me chamou bastante atenção nessa canção, primeiro é o nome Maria, porque é um nome comum, mas também lembra Maria, mãe de Jesus. E se é uma santa, há um nome, mas por que outras Marias não podem ter uma identidade? A gente vale mesmo um dólar ou nada? Hoje em dia, me pergunto se a gente consegue sentir. Como que São Paulo te impactou tanto nas canções? Acho que São Paulo é a minha musa inspiradora. São Paulo é… Nem sei o que dizer. Eu acho que tenho um saudosismo muito grande com São Paulo. A cidade sempre vai estar em transformações, sempre vai acontecer esse tipo de coisa, mas tem algo de tão belo no centro velho de SP, aqueles prédios mais antigos, aquela arquitetura, exemplo é o Theatro Municipal, que é muito influenciada no centro de Paris. É uma coisa tão pequena, mas é algo que traz tanta vida para uma cidade - é a característica de São Paulo. Inclusive, uma coisa que me dói, que amargura muito o coração é que eu morei a minha vida toda em uma mesma casa, uma casa com piso de taco vermelho, que meu avô construiu antigamente, uma casa completamente tradicional… Eu moro em um bairro residencial que tem muitas casas antigas e pelo menos 40% das casas ao meu redor foram vendidas para construção de prédios. Prédios horríveis e isso me dói muito! São Paulo podia ser uma coisa tão linda, podia ter uma pegada única, mas acaba virando uma cidade de… Concreto. É, de concreto - e nem é um concreto bonito! É um concreto cinza ou bege E todos iguais. Isso também é uma parte que me pega. Se você for ver, todo prédio que saiu em 2015 para cá, são iguais - uma estrutura quadrada, reta, com provavelmente uma sacada branca ou bege, sem vida. Completamente sem vida! Esse saudosismo que você tem, essa questão do fugir do que está sendo feito hoje em dia, fala muito sobre você, sobre o passado, que você aplica em suas canções. Sim, acho que até acidentalmente [risos]. Acho que nas minhas canções de agora, refletindo no que você mencionou, tem um certo saudosismo no que São Paulo poderia ter tornado se seguisse o planejamento urbano que tinha antigamente. É óbvio que eu não vou focar nisso totalmente. Em "A Infeliz Tragédia de Maria", a gente encontra um Rodrigo mais maduro. Você consegue fazer um panorama do passado e o agora? Acho que o que mais mudou foi justamente o que você falou, a questão da maturidade. Acho que você muda muito nos seus 18, 19 anos para os 20 e 21. É um período muito curto, mas com muitas transformações. Algumas [transformações] que você nem imaginava que podiam acontecer e acabaram sendo maravilhosas. Em 2019, quando eu compus "Nada Mais" e gravei tudo em casa, eu nunca imaginava que um dia eu poderia ir para um estúdio, gravar e acabar fechando parceria com artistas que eu sou muito fã, como é o caso do Leo Fazio, que tocou clarinete na música. Foi uma surpresa muito legal e [mostra] que eu consigo e que agora eu tô conseguindo. É algo satisfatório. O que mudou para você em fazer música na pandemia? Ou não mudou nada? Eu acho que mudou… Eu me sinto mais pressionado para fazer. Por exemplo, eu tô em casa, sem fazer nada, de bobeira, eu fico "putz, por que eu não tô tocando violão? por que eu não pego esse tempo livre e vou gravar alguma coisa que falta? por que eu não tô compondo?". É uma coisa que me deixa louco, eu não tenho nenhum descanso na minha cabeça. É um pé no saco. É assim que surge o processo de criação? Quando eu tento fazer alguma coisa, quando me forço a fazer alguma coisa, não sai nada de legal, mas quando eu vou fazendo assim, [do nada], vai surgindo uma coisa muito boa. A última música que eu compus agora, "Fata Morgana", que não vai tá no disco - essa é uma coisa completamente separada - é o momento que chega no fim do dia, você encosta a cabeça para deitar e vem o ritmo, a letra e você fica: "que saco! eu só quero dormir". Eu não consigo dormir sem antes ir no meu grupo de WhatsApp comigo mesmo e gravo a letra e a melodia que tá na minha cabeça, ou escrevo, e trabalho com isso nos momentos de bobeira. Você como cantor e compositor quer transmitir sentimentos. Nós, ouvintes, conseguimos compreender e enxergar quando você se apresenta no palco? Sim, completamente. Eu acho que ainda mais por conta da pandemia, pelo streaming fica um pouco mais difícil de você realmente pegar a ideia do artista e o que ele quer passar. Eu acho muito mais legal tocar ao vivo, fazer show, porque você realmente sente e consegue ver a expressão que o artista vai passar, você tá cara a cara com ele. Ali, você vai sentir tudo que ele quer passar. Tudo é mais forte pessoalmente. O que podemos esperar desse álbum que será lançado este ano? Esse álbum é engraçado, porque eu tô com ele na cabeça faz muito tempo. Inicialmente ele ia se chamar "Tragédias em São Paulo", porque o que eu busco trazer nele é justamente… Minha ideia principal era contar uma história dentro de um disco, várias músicas que são semelhantes entre si, porém com letras diferentes, que no final vão se juntar e contar uma história. É algo que eu tô percebendo que não está sendo exatamente desse jeito, eu tô contando várias histórias ao mesmo tempo e terminando na mesma música. Vai sim ter uma linearidade, porém, intercalando com outras histórias também, até com tragédias reais ou fictícias. Por exemplo, tem uma música que eu tô trabalhando, que vai ser instrumental, e vai se chamar "Fantasmas da Rua Apa" que tem toda a história do Castelinho da Rua Apa que também é uma tragédia, mas é algo que eu busco trazer mais instrumentalmente. Fantasmas, ruas, mar, tragédias e São Paulo são algumas das características que estarão em seu primeiro disco, intitulado "Morre Afogado o Capitão do S.S. Tiragosto", inspirado em, mais uma vez, nos baianos que começaram esse texto. Quando Rodrigo começa a contar sobre o álbum, lembro de uma passagem de "Mar Morto": "(...) Os homens se olharam e como que se interrogavam. Fitavam o azul do oceano a perguntar de onde vinha aquela noite adiantada no tempo. Não era a hora ainda. No entanto, ela vinha carregada de nuvens, precedida do vento frio do crepúsculo, embaciando o sal, como num milagre terrível. (...) Como está belo o mar com a lua alvejando tudo! Rufino está ali parado. Do forte velho vem uma música. Tocam harmônicas e cantam: A noite é para o amor… Voz possante de negro. Rufino olha a lua. Talvez ele pense, também que Judith não terá amor esta noite. Nem nunca mais… O seu homem morreu no mar. Vem amar nas águas, que a lua brilha…(...)" Voltemos ao disco. O que esperar dele? Estava ansioso para falar dele [risos]. Então, fique à vontade. É muito difícil dizer exatamente o que esperar do disco [risos]. Começo a pensar: como eu posso listar tanta coisa? O título dele, atualmente, é: "Morre Afogado o Capitão do S.S. Tiragosto", surgiu quando eu fui para Salvador, eu fui para a praia do Forte [um ruído interrompe a gravação, deixando-a um pouco mais baixa] e é uma coisa linda e como eu falei, conversa muito com a estética de marinheiro, de pescador, essas coisas meio "The Lighthouse" (Robert Eggers,2020), tanto que eu busco muitas referências não só na música, porque… Música é um fator importante para o disco, mas tem tantas outras coisas que envolvem, que podem até melhorar a música é toda essa questão de estética visual, sabe?! Para esse disco, eu tô buscando muito essa estética de marinheiro velho. De onde você tirou essa ideia de marinheiro? De Jorge Amado? "Mar Morto", de Jorge Amado. Tem também a música do Dorival que é a que eu mais amo, "É Doce Morrer no Mar", que está presente no primeiro disco. É uma coisa assustadora, assustadora de quão bom ela é e o quão bem ela passa toda essa ideia de estar no mar, o que é viver no mar. E você já se afogou no mar? Eu já tomei uns engoves do mar. Na piscina, eu só sei boiar e olhe lá [risos]. Mas é bom também morrer, porque lembra que a gente tá vivo. Sim, sim. Ou lembra que a gente tá vivo para se arrepender, nunca se sabe. Mas voltando ao disco. Eu busco trazer muito além do sentimento de tragédia como a gente já comentou, é tudo uma questão lírica de poder expressar um sentimento, seja de um amor perdido, uma dor de cotovelo através das histórias. Era algo muito feito nos anos 30 liricamente. Acho que as minhas letras funcionam e as histórias que são compostas nas minhas letras, funcionam como uma alegoria de sentimento que eu quero passar. Eu busco trazer essa trágica boemia [risos]. Essa boemia trágica que é tipo, a boemia que sempre tem não ir para escuridão. Além de ter toda essa questão mais lírica, passando por um musical agora, eu dou Graças a Deus também, que eu tô conseguindo encontrar essa estética musical através só do meu celular. Eu fico muito feliz em conseguir modular instrumentos usando sintetizadores virtuais ou algo que baixei no meu celular e passar isso, incorporar isso na minha música, é algo que eu já fiz na música introdutória que também vai ser instrumental que será bem curtinha - eu quero trazer uma orquestra grande no seu fone que vai passar para cá [faz um gesto] e vai sumir e só ficar o violão. Essa coisa de crescer alguma coisa e depois comprime ela e fica nessa linha tênue… Tem a música no final que é sobre a volta do capitão, voltando do mar, onde todo mundo achou que ele tinha morrido - e ele tá voltando semi morto, não como um zumbi, mas como se fosse o espírito dele, que conversa com "É Doce Morrer no Mar". Ele voltando e trazendo de volta a lua que ele levou embora, a lua volta - é uma resolução de história, que termina de uma maneira muito poética. Rodrigo ainda não morreu no mar, ele pode ter se afogado em algum momento de sua vida, mas assim como o Capitão S. S. Tiragosto, ele renasce e canta, com seu violão, pelas ruas, para lembrar que é possível viver. As músicas de Rodrigo Eugênio estão disponíveis no Spotify.

Dia do Documentário Brasileiro: nova linguagem, pluralidade e político

Dia do Documentário Brasileiro: nova linguagem, pluralidade e político

Cultura, aprendizagem, novo cinema, linguagem, novos formatos de criar - essas são algumas características que muitos críticos de cinema colocavam em seus textos, após assistirem um novo filme/documentário brasileiro. Neles, nada era fictício, tudo era (é) real. Por aqui, cineastas, cinéfilos, atores, atrizes, produtores e tantos outros profissionais necessários para a cultura, fazem de tudo para que a arte seja valorizada. Um dos diversos modos de continuar a chama acesa, foi criar o Dia do Documentário Brasileiro. A data surgiu para homenagear o cineasta Olney São Paulo e o seu trabalho que retrata o sertão, a pluralidade do Brasil, tornando-o pioneiro do Cinema Novo. Olney foi fortemente influenciado pelo neo-realismo italiano e por filmes de guerra. Muitos anos se passaram desde o primeiro documentário nacional. Novas tecnologias surgiram, assim como novos cineastas e alterações que foram feitas para seguir a população que está sempre em transformação. É possível verificar um ponto em comum: os documentários retratam o cotidiano de tantos brasileiros que insistem em viver. Para assistir em casa Santiago (2007) por João Moreira Salles No documentário, o diretor conta a história do antigo mordomo Santiago, que trabalhou para sua família por 30 anos, através das lembranças do mais velho. É interessante analisar a relação do menino João x João diretor com Santiago x personagem e Santiago x família. Serras da Desordem (2006) por Andrea Tonacci Há muitas maneiras de (re) contar uma história. Andrea mantém firme o seu propósito ao contar a história do índio Carapirú. No filme, vemos Carapirú, um índio nômade, caminhar pelas serras do Brasil até ser capturado pelo sertanista Sydney Possuelo. Existem dois pontos centrais no filme: a transformação na relação indígena e como o índio vê a natureza após a chegada do homem branco em seu terreno. Passam anos e Serras da Desordem continua atual. Ilha das Flores (1989) por Jorge Furtado e Cecília Meireles Considerado o melhor curta-metragem brasileiro, Ilha das Flores é muito mais do que uma reflexão sobre a desigualdade social. Em 15 minutos, Furtado aborda o consumo desenfreado, a ignorância e a falta de política (aqui representado também por Deus). Passado, presente e futuro. Edifício Master (2002) por Eduardo Coutinho Dirigido por Eduardo Coutinho, o filme conta histórias e cotidiano dos moradores do Edifício Master, no Rio de Janeiro. Sem atores e grande equipe, são os próprios moradores que contam seus dramas, felicidades, desejos e vaidades, dando o tom ao documentário. A cultura brasileira é rica! Preserve-a.

Pedro Redó: o camaleão que defende sua ideologia musical

Pedro Redó: o camaleão que defende sua ideologia musical

Pedro Redó se descobriu músico na adolescência. Assim como muitas crianças, seu sonho era ser jogador de futebol. Inclusive, fez parte de base, mas desistiu ao ver o desânimo de seu irmão mais velho que jogava com ele. Diferente de muitas famílias (alô, irmãos Gallagher), Pedro sempre se deu bem com seu irmão. Juntos, criaram a canção “Dança de Criança”, música que faz parte de seu setlist. No começo do ano, antes da pandemia, ele fez um show na galeria Gambalaia Espaço de Artes e Convivência, em Santo André. Seu repertório contou com a música que fez com o irmão, assim como outras de sua autoria e covers. Não pense que o músico cantou o que é mais ouvido hoje em dia, ele toca apenas o que acredita e o que sente. Milton Nascimento e O Clube da Esquina, suas maiores inspirações, também estiveram presentes. Acabei não indo (não lembro o motivo) me arrependo. Então, para me redimir (e apresentar para vocês), solicitei uma entrevista com ele. Como a música entrou em sua vida? Por que ser músico? A música entrou na minha vida quando eu era adolescente. Quando criança, queria ser jogador de futebol - até cheguei a jogar em base, e quando eu desanimei daquele sonho, porque meu irmão também era uma pessoa que jogava; ele sempre foi meu referencial… Me desanimei pelo desânimo dele e aí comecei a me envolver com música. Comecei a estudar canto, depois fui para o violão e fiz aula de baixo. Tenho esse dilema até hoje: até quando a música vai representar a minha vida? Quando fui fazer faculdade, fiz um semestre de ciências sociais, e vi que na época, aquilo não era pra mim - no sentido que eu não lia o que os professores mandavam, perdendo tempo… Então, fui estudar música mais a fundo, de uma maneira mais teórica e foi a partir daí que comecei a fazer alguns trabalhos. Agora, o porquê de ser músico… Eu ressignifico o tempo todo em minha vida. A pandemia veio em um momento interessante para pensar sobre isso. Mudou alguma coisa? Bastante! Antes eu tava mais preocupado em falar que eu era músico e hoje, eu tô mais preocupado em me expressar através da minha música. Estou em uma fase em que penso antes de aceitar um trabalho - se eu não acredito no projeto, não me submeto a fazer. Hoje, eu vejo a música mais como um canal de comunicação do meu eu interior com as pessoas, do que uma ferramenta para falar que eu sou músico. Agora, tem muito mais a ver com um sentimento de libertação de algumas coisas que está em mim. Hoje, a música está mais no sentido da criação, colocar o Pedro na música, do que enquanto músico. Em um passado não tão distante, Pedro fez aulas na Fundação das Artes, em São Caetano. Foi de contrabaixo elétrico a canto, aprendendo de tudo um pouco. Enquanto estudava, aprendeu o lado teórico, o tradicional que muitas instituições fazem, não deixando o aluno experimentar novas melodias, acordes e letras. Depois de apresentar o seu projeto - ele fez um recital que misturou São Paulo e Minas Gerais, resultando no Café com Leite -, percebeu que queria ser diferente do que muitos músicos, principalmente daqueles que aceitam o que foi imposto à eles. “Foi nesse momento de descobertas, que vi que não queria fazer o que já foi feito, mas com um ritmo diferente”, ele explica. Como foi romper com o lado tradicional do conservatório para criar sua própria voz? Eu acho que foi menos dolorido do que estar na tradição e não se sentir parte dela. Estudei música mais técnica do que teórica… Aí chego em uma instituição que me joga um monte de regras, que foi legal e ajuda na composição, mas ao mesmo tempo cresci meio que tocando. Por ter tocado na Suavemente [sua antiga banda de rock] ou até em outros trabalhos diferentes, chega na hora de se libertar. Compor suas obras é doloroso? Quando eu comecei a ir à faculdade, cursinho… a música deixou de ser presente em minha vida. Ela se tornou muito presente na minha individualidade: eu no meu quarto compondo, ouvindo minhas referências. Deixei de partilhar músicas com os outros. Eu me sinto hoje um cantor mais afinado, mas um músico pior. Naquela época, eu tocava baixo todos os dias, hoje toco baixo quando tô com vontade. Reconheço que isso tem a ver com as escolhas que tomei. Eu decidi seguir por uma trajetória mais solitária e que é bom, eu gosto. Lido sozinho com as minhas limitações. Hoje eu consigo ver a música como arte do que um negócio. Eu fico mais feliz em postar uma música e ter 10 likes do que antes, porque se eu fizer algo que não acredito e aceitar, vou ficar incomodado. Tem sido mais fácil por ser um processo solitário. Aproveitando a palavra solitário que você usou anteriormente, você não se sente sozinho com apenas o seu violão? Eu me sinto só, mas tem um lance de autodescoberta nesse fazer só. Porque antes, quando eu estava na banda, era meu irmão que compunha as músicas. Eu não tinha essa preocupação, fazia apenas a minha parte. Então, agora, faço de tudo, é um processo de se reeducar musicalmente. Como é fazer tudo? No negócio, você tem que gostar de fazer isso. Mas não sei se continuo gostando como gostava, porque tem que organizar as redes sociais, editar vídeo, fazer algumas médias… É cuidar de tudo, mas por um lado é bom porque os músicos de hoje tem mais autonomia. Em um determinado momento da conversa, Pedro relembrou os projetos que tocou e que não gostou, mas fazia porque precisa de dinheiro. O músico não quer seguir o caminho que muitos artistas fazem: criam uma primeira canção que faz sucesso e depois esquece seus princípios. “O Roger do Ultraje a Rigor mostra como a arte é variável. Ao invés de pensar na música, estou pensando em fazer um todo, seguindo meus princípios”, reflete. É verdade. Em algum momento, você já se sentiu frustrado com a música ao ponto de querer abandonar? Sim! O que foi que aconteceu nessa fase, de uma maneira até inconsciente, foi que eu acabei mudando um pouco o formato da música que eu estava compondo. Quando eu comecei a compor pra valer - as primeiras músicas que fiz, nem considero) -, estava experimentando com dificuldade de tirar o eu da música. Depois, quando comecei a ver a música como uma oposição à educação, eu comecei a compor mais música infantil - não literalmente, mas com harmonia mais leves que podem lembrar -, aquela que é interpretada. E agora que comecei a mudar, nem eu entendo as minhas músicas [risos] Por que você não considera suas primeiras composições? O exercício de criação foi fraco, com pouca entrega. Outro ponto são as referências. Faltava uma coisa legítima, eu imitava muito o que eu ouvia. Suas músicas são biográficas? Você tem alguma dificuldade na hora de compor, seja na letra ou melodia? Tenho muito mais facilidade com a parte musical. Eu costumo fazer uma música a partir da melodia. Pego o violão, dedilho e a partir disso, vou pensando. Então… tem bastante disso [de mim], mas teve uma época que percebi que tava fazendo muito disso. Então, eu precisava mudar - eu colocava muito a palavra eu nas músicas, mesmo se não fosse eu falando. Mas falo muito sobre mim e algumas coisas que passei. A pessoa que está de fora, ouvindo sua música, consegue descobrir quem é você? Acho que mais difícil essa coisa de conhecer esse lado mais profundo. Eu não sou uma pessoa que se expõe muito e meu repertório também não segue uma linha, então, essa questão de conhecer fica subjetivo. As pessoas me conhecem mais pela vivência do que pela obra. Eu tenho fazer música que não crie barreiras por si só. Então, você já tem um processo de criação, certo? De certo modo, sim. Eu começo pelo violão e o que estou tentando mudar um pouco, que talvez seja minha maior barreira na composição, é a letra. O meu modo de escrever a letra é muito exigente: quero construir imagens, uma metáfora, um convite ao ouvinte para refletir. Por fazer desse jeito, às vezes, eu deixo um processo muito dolorido. Talvez eu queria dizer uma coisa para fazer com que a galera pense sobre aquilo, o que uma arte bela faz… Você tá lançando o projeto “#autorretratos”, onde você canta suas músicas e também de outros músicos. Qual o objetivo e por quê esse nome? Sempre pensei em gravar autorretratos e colocar em algum CD e a cada música ter um desenho diferente - uma ideia maior do que posso realizar hoje. Através disso, reunir músicas que tem a ver com que acredito. Cada música é um auto retrato meu. Quero dividir, sem tanta regra, o que gosto. Inspirado por Milton Nascimento, Chico Buarque, Beatles, Caetano Veloso e Chad Baker ["Ele nunca foi o mocinho, como era o pessoal da MPB, ele era loucão], Pedro continua com a missão transformando-se, adicionando novos temperos em suas músicas, entregando muito mais do que uma canção, mas uma experiência cheia de sentimentos. Para conhecer o trabalho do Pedro, conheça seu canal no Youtube.

Os embalos de Thays Prado

Os embalos de Thays Prado

Após participar de corais e projetos musicais, a cantora porto-alegrense Thays Prado apresenta sua nova fase, em carreira "solo" - entre aspas, pois a banda que toca ao seu lado, faz parte dela -, a canção "Vals de los Abuelos", homenagem aos seus avós. Inclusive, foram eles que incentivaram a música na vida da cantora: seu avô, quando jovem, tocava violino em uma orquestra de tango e ouvia música com a neta pela casa. A primeira aula de música foi graças à inscrição que o avô fez em uma escola. O raio caiu duas vezes no mesmo lugar, mudando apenas a geração. Thays fala comigo através do hangout do Gmail. De camiseta vermelha e com duas plantas atrás dela, a jovem é tímida e solta algumas risadinhas nervosas quando pergunto sobre inspirações, crescimento e a cena independente de Porto Alegre. Ela demora um pouco para se soltar, mas quando isso acontece, não para mais. A cantora tem uma vasta bagagem artística e com o conhecimento criou sua faceta musical, que é embalado pelo ritmo argentino, uruguaio e o folk-pop, envolvendo o ouvinte rapidamente. Leia também: A carta aberta de Luri O suspense de Larissa Brasil Marcelo Segreto e a América Latina em seu peito Como a arte entrou em sua vida e quando você percebeu que era artista? Olha, a compositora foi recentemente, mas eu canto desde os 9 anos em coral da escola e dos 15 aos 18, eu cantei na OSPA. Estudei canto lírico, cheguei a estudar para solista, mas acho que sou tímida demais pra isso. Sempre gostei de música, meu avô toca violino, então, a música foi sempre muito presente - a gente ouvia música alta em casa e participei de algumas bandas de amigos também. Em 2017, eu fui demitida do emprego que eu tava e chamei o João [guitarrista e produtor musical] que tocava comigo de brincadeira e a gente resolveu colocar um som na rua, precisava fazer um troco. Junto com isso, a gente começou a trabalhar coisas da banda, ele virou meu produtor musical e meio que só foi. Como foi se descobrir compositora? Eu fazia parte da banda de uns amigos e dava alguns pitacos nas coisas autorais dos outros e comecei a observar como as pessoas compunham, às vezes aparecia uma melodia que… Às vezes aparecia uma letra e como é que eu consigo isso aqui? Eu comecei a me dar conta dos processos e pensei: "Bom, acho que consigo cantar" e aí eu fiz um monte de músicas que eu não gosto [risos], até que apareceram algumas das quais senti orgulho e vontade de mostrar, mesmo que desse uma timidez. Começou aparecer alguma coisa que me representava nessa brincadeira e aí… Quando eu comecei a tocar nos bares, tinha essa coisa de tocar cover ou autoral e o João é um incentivador da cena autoral, meu violeiro… Então, foi sendo um misto de brincadeira com incentivo dos outros e daí quando vi, as pessoas estavam dizendo "Mas isso que você escreveu é legal!". Foi assim. Como você consegue dizer o que é bom e o que é ruim? Como é se soltar na carreira solo, depois de tocar em algumas bandas? Bom, primeiro a primeira parte sobre o que é bom: eu acho que o gosto é um exercício também e aprender a gostar do que a gente faz em relação a tudo que existe também é um exercício. Eu acho que a sensação também diz… Sei lá, às vezes acontece de tá escrevendo alguma coisa e me surpreender com o que saiu, que uma rima levou a frase para um lado que eu nem sabia que ia vir. Então, quando isso acontece, eu fico bem empolgada… Acho que bom nem é a palavra, porque o gosto também é super pessoal, subjetivo, relativo. Acho que tem a ver com o que mais gosto e as que gosto menos, mas considero tudo um processo também! Se soltar é um processo constante, né. Na verdade, dentro da banda eu me vejo diferente do que já fui em termos de performance, timbre de voz e qualquer coisa. É claro que o gênero musical importa - já fiz parte de banda indie rock e era uma coisa de vocalzinho bem lá no fundo e aí, de repente, vem pra música latina, outra região, outra cabeça… Mas minha participação em "As Tubas" [projeto musical], por exemplo, foi uma coisa que me soltou bastante em termos de performance e de entender também de onde vinha minha timidez de certa medida… Não foi solo na verdade, sempre envolveu muita gente - quanto mais eu me jogo sozinha, na frente, mais significa que tem muita gente respaldando, porque se não, nem conseguiria fazer [risos]. É bem difícil se mostrar, cantar uma música autoral e ficar ali, no palco, de uma forma meio que "nua" para todo mundo… Sim! Eu tento não pensar na nudez como algo tão expositivo, mas não deixa de ser um se mostrar, né. Você passou por outros projetos musicais. Como foi sair de um projeto para começar o seu, com outro estilo? Eu meio que não planejei, na verdade. Essas coisas foram acontecendo, acho que a banda também foi um projeto bem importante de aprendizado. Depois de um tempo, eu procurava outros sons e um espaço que eu experimentava mais - na banda, eu não tinha muito da visão do papel do compositor. Conseguir fazer o que as pessoas querem que a gente faça, é uma alegria… Depois de um tempo, foi meio natural e teve a ver com outros incentivos, outras pessoas me demandando outras coisas… Começar a compor mais também teve a ver com andar mais com a galera da cena autoral, da bolha autoral que eu tive contato… Meu meio passou a me exigir isso e não só a performance vocal. Depois de um tempo, eu também comecei a investigar as minhas coisas e usar como terapia às vezes, tem coisas que são impublicáveis porque realmente é mais processo do que canção. Já falando em processo, queria saber um pouco mais da sua escrita, do seu processo de composição: vem primeiro a letra ou a melodia? Depende, cada uma vem de um jeito. No começo, era bastante ficar tocando a mesma coisa no violão até ver que melodia sai. A partir dessa melodia ver que letra eu gosto. Muitas vezes eu escrevia bastante e depois tentava musicar. Teve algumas que nasceram com a melodia e depois eu tinha que achar uma harmonia, então depende muito do que acontece. Ultimamente, eu tenho musicado letras de outras pessoas, então isso é outro processo também. Também já recebi música pra botar letra, então, depende muito do que aparece. O negócio é evitar de dizer não. Fazer o seu próprio processo é doloroso? Ele é difícil em algum momento? Acho que sempre tem dificuldades, né. A minha maior dificuldade é a insegurança, seja na banda ou fora dela, mas é interessante essa oposição com banda e sem banda, porque na verdade eu ainda tenho uma banda, agora do meu projeto, autoral. A gente não ensaia há um ano, mas a gente continua aí! O disco que vai sair em algum momento, não sabemos quando, mas vai sair, tem essas outras músicas das quais eu te falei que são mais engraçadinhas e menos sentimentais… Quanto mais eu falo disso, mais eu percebo também que talvez seja um pouco dramático, mesmo que seja um pouco engraçado, porque… Sei lá… É a vida, né?! É! Então, é difícil afirmar alguma coisa, porque tem humor, tem ironia, mas não é sempre. "Mas é dramático", não, não é sempre. Acho que o desafio pra mim é justamente conseguir chamar as pessoas pra me ouvir de um jeito convincente, porque nem eu sei se o que eu tô dizendo define o que eu tô fazendo. Acho que a coisa de fazer diz mais de como a coisa é. Ao lado de sua banda, composta por João Pedro Cé (guitarra e produção), Aline Araújo (teclado), Josué de Oliveira (bateria) e Luciana de Mello (percussão), Thays apresentou, no passado, em um mundo sem pandemia, a canção que fez para os seus avós. A música surgiu após a cantora assistir o show de Pedro Borghetti, em 2017, no qual ouviu pela primeira vez "Valsa pra Purça", homenagem do músico para a avó. Na mesma semana, a avó de Thays foi internada - destino ou não, foi o ponto para que Thays escrevesse a música que estava em seu inconsciente. Melodia e letra vieram de uma vez só. A história ganha um desfecho bonito durante a pandemia: durante o lançamento da canção, os avós de Thays tomaram a primeira dose da vacina contra o novo coronavírus."É como se realinhasse os astros novamente. Foi uma semana muito boa, apesar de tudo", ela me explica. Destino ou não, "Vals de los Abuelos" ganha um novo sentido durante esse momento obscuro - ainda mais para quem está longe dos avós - como é o meu caso. Como foi crescer em uma família musicalmente? Qual a influência do seu avô em você? Ele nunca foi um músico formal, quer dizer, ele foi quando era jovem, eu não vi essa parte dele, mas eles [avós] sempre foram muito incentivadores. A primeira vez que eu fiz aula de música, por exemplo, foi meu avô que me inscreveu para fazer o Projeto Prelúdio, orquestra juvenil. Então, quando eu tinha 13 anos, eles me inscreveram para o sorteio e a gente foi sorteado; fiz um ano de aula, e eles sempre incentivaram demais! Eles vão em todos os shows - às vezes o bar tá vazio e eu canto só para eles e é muito bonitinho. Eu tinha ensaios do coral durante a semana, o ensaio terminava às dez da noite e eles me buscavam toda semana. Acho que a influência foi muito sobre o incentivo e tudo que a gente escutava em casa - eu gosto de cantar as músicas que me incentivaram. Você falou que foi seu avô que te inscreveu no coral. Como e quando começou o seu interesse pela música? Eu não sei… Todas as minhas bonecas eram cantoras - se elas não fossem cantoras, literalmente, elas eram fadas que cantavam [risos]. Sempre nas minhas brincadeiras, o brinquedo cantava. Minha tia me fala muito que quando eu era criança, eu pedia para ver "Fantasia" da Disney com 2 ou 3 anos de idade para ver o filme das Libélulas, então… Eu não sei, sempre me tocou bastante, acho que a música tem um um negócio que mexe com a gente - com todo mundo, mas eu permiti o arrebatamento [risos]. Você tem dificuldade em escrever coisas alegres ou mais íntimas? Pra mim o alegre é o desafio. Eu sempre brinco com o João, que ele me fez achar minha Ivete Sangalo interior [risos]. O disco é super dançante, tem uma coisa meio funk anos 70, é bem balançante. O João tem muito desse balançante na produção musical dele… Ele escreveu os primeiros arranjos e a partir disso, a banda arranjou o restante do disco e a vibe é muito para cima! Eu sou uma pessoa mais quieta, quanto mais gente, menos eu falo… Alias, a gente aqui em dupla, eu me sinto um pouco mais tranquila [risos].
Essa coisa de ter uma banda com seis pessoas, estar junto com essa galera, é um desafio. A gente fez alguns shows e eu continuo com medo de dar aquela dançadinha quando a música chama, mas aos poucos eu vou me soltando. Então, no fim das contas, lançar essa música faz com que eu mostre o que, primeiro, tá mais em casa, e quando sair o disco, já é uma coisa mais performática - alegrar a galera. Vai ver a gente precisa do "pós-vacina" pra ver você alegre, falando com doze mil pessoas… Ai, guria! Gostei, total! [risos] Você tocou muito em bares, ao lado da banda. Como é tocar como mulher e "mostrar" o lado feminino? Em algum momento você passou por assédio, por machismo? Olha, isso é complicado de responder atualmente, porque a gente sente a tensão no ar, não dá para mentir. Embora eu tenha encontrado 99,9% das pessoas que foram legais comigo… Acho que a fé que colocam em mim também tem esse viés e eu tenho que tá consciente disso, mas o que mais me atinge é a coisa do figurino. A sensação que eu tenho é que os caras passam bem menos trabalho com isso. Nunca vi e nem as minhas amigas, por exemplo, vimos alguém reclamar de um boy tocando, mas reclamaram da minha em algum momento. Eu tenho muita vontade de um dia me permitir, um dia, me apresentar toda bagunçada. Tocar de camisa e moletom… Às vezes, o cara toca de cabelo sujo e ninguém dá bola, "ah, mas ele é assim mesmo…", mas pra me ouvirem eu tenho que estar de batom, com cabelo mais ou menos e um sapato legal… [suspira] Dá uma preguiça! Me dá preguiça ter que me arrumar para me apresentar e isso me incomoda. Eu sei que tem gente que sofre descréditos bem mais visíveis, tem caras que perguntam para as gurias se elas sabem ligar o microfone, se sabe mexer no próprio instrumento… Essas coisas eu nunca passei, porque estava cercada de pessoas, pelo menos o discurso, todas alinhadas, mas não quer dizer que a gente, mulheres, não saibam o subtexto. Você acha que todo mundo espera muito de você e tu tem o receio de não entregar o que as pessoas esperam? Eu acho que sim, mas eu aprendi também o quanto isso é socialmente construído, principalmente com as mulheres, as mulheres musicistas que passaram pelo meu caminho, especialmente a Bel Medula [compositora, artista sonora, produtora musical e musicóloga]. Uma vez eu fiz um trabalho de transcrever as entrevistas que ela deu com umas mulheres instrumentistas, uma delas era a Biba Meira, e ela falava, por exemplo, em dar aulas para meninos e meninas e a diferença que era os meninos e meninas pegando uma coisa nova. Os meninos quando pegam uma coisa nova, quando ela ensina algo novo, começam a testar, mesmo errando na frente dela; as meninas aprendem, voltam para casa, aprendem a tocar direitinho e na semana que vem elas te mostram que tá direitinho… Eu comecei a me dar conta do quanto eu via nos meus amigos homens, patinando, catando milho no instrumento, dando risada… E isso ser visto como tocar bem… E as gurias que tocavam o dedo errado, "ah, ela não sabe bem essa escala"... Acho que uma coisa que eu tenho feito é tocar meio mal mesmo, mas não deixar de fazer… Agora eu penso "se eu não tocar desse jeito, não vão me dar moral", mas uma hora ou outra vão ter que me dar moral, porque eu não posso parar. Eu sei que a exigência é grande e tento não me frear. Thays, seu álbum foi adiado por conta da pandemia. Como era o processo antes desse vírus? Vocês estavam indo o tempo todo ao estúdio, mudando coisas? Você consegue analisar como seria o lançamento no passado [antes da pandemia], atualmente e futuramente, pós-vacina? Você acha que vai ter uma diferença sonora? Sim, totalmente! O aspecto técnico conta também, como eu via cantando as músicas e como vou cantá-las depois - e tanto tempo sem cantar, algumas coisas vão mudando e de tanto cantar elas em outros formatos vai mudando alguma coisa… Acho que até estar totalmente gravado, a voz pode mudar. O que aconteceu foi que a gente gravou as bases do instrumento ao vivo de uma vez só, em um dia do estúdio. Então, a gente tava otimizando tudo até o tempo que a gente tinha… A gente gravou as onze faixas meio que na correria e o João edita, mixa - talvez vai ter que gravar alguma coisa dali -, e a partir disso, a gente precisa gravar a percussão e as vozes definitivas. A nossa percussionista mora com a mãe idosa… Então, a gente tá sem pressa, estamos vendo o que vai acontecer e quais das músicas ficam no álbum… Ainda não sei muito, mas eu sei que tem algumas músicas ali que eu já queria que tivessem sido lançadas e tem outras que eu nem sei se gosto mais… Tem tempo ainda para que ele fique mais redondo. Pra você, o sentido de fazer música foi alterado para você durante a pandemia? Eu acho que passei por um momento de muita dúvida, de sentir que nada fazia sentido, que não era sobre a música… O que a música fez foi me trazer de volta. Por que continuar fazendo arte? Porque a vida alternativa é muito sombria [risos]! Qualquer coisa que a gente possa fazer para dar um sorrisinho, promover isso em outras pessoas… A música nem sempre é um sorriso, mas ao mesmo tempo, não fazer parece que está errado. Me soa algo como "se eu não estou fazendo, estou morrendo". É, é, é! Não consigo não estar fazendo alguma coisinha. A pandemia também te mudou? Você pretende usar isso para produzir? Eu acho que uma coisa a pandemia meio que exorbitou foi a minha consciência da minha pequenez dos meus próprios problemas. Eu já tinha isso bastante… Eu passei um tempo sem escrever muito, porque eu tinha a sensação de que nada que eu fizesse, dissesse, representaria o grosso do que tava acontecendo. É um recorte muito específico. Essa consciência foi muito forte e eu não quero que suma. Thays reconhece as necessidades de transformações, do mundo e de si, de conhecer o outro lado e experimentar. Ela é receosa, mas vai, porque o mundo é assim: uma eterna necessidade de mudanças. Tenho certeza que quando seu disco for lançado, dançaremos o embalo da cantora que traz emoções ao seu projeto. "Vals de los Abuelos" está disponível em todas as plataformas musicais.

Os caminhos de Matheus Noronha

Os caminhos de Matheus Noronha

O cantor e compositor Matheus Noronha precisou caminhar muito pela cidade argentina de Carlos Paz, localizada na província de Córdoba, em 2015, para apresentar o recente single "Camino de Carlos Paz", disponível em todas as plataformas de streaming de música, com a participação dos músicos Pedro Borghetti e Rodrigo Carazo. No centro da cidade de Carlos Paz, a atração fica por conta do Relógio Cuco. Dizem que as pessoas se aglomeram em volta do ponto turístico para ver o cuco anunciar as horas. Não são todos que conseguem ver o animalzinho saindo de seu casulo para fazer o seu "trabalho". Não sabemos se Matheus passou por ali, também não precisamos saber, já que dentro da sua mochila há muitas histórias e sentimentos. No meio da jornada, sentiu de tudo, até que um dia a solidão o invadiu - até o destino colocar duas crianças em seu caminho. Após breve conversa, o músico conseguiu passar a noite na casa da família, onde jantaram juntos, conversaram e Matheus tocou e cantou para os anfitriões. No dia seguinte, Noronha voltou para sua caminhada, continuando seus passos. Mais tarde, conseguiu outra carona e mais uma vez a sorte estava ao seu lado: o motorista estava indo para a cidade de Mina Clavero, a próxima parada de Matheus. "Parece até mentira, mas foi assim, e em 2016 a história virou letra e canção", explica. Ele lembra com carinho da experiência e diz que a ocasião fez "melhorar a estima pelas pessoas", pois na época andava desacreditado e magoado. Em "Caminhar: Uma Filosofia" (É Realizações, 2011), o filósofo Frédéric Gros faz uma reflexão sobre caminhar, explorando junto a literatura, a história e a filosofia, apresentando a importância da caminhada para grandes pensadores. Em um determinado momento do livro, o autor escreve: "A experiência da caminhada constitui sem dúvida uma reconquista, porque, ao submeter o corpo a uma atividade demorada - que traz alegrias, mas também cansaço e tédio - faz surgir, com o descanso, a plenitude, essa segunda alegria, mais profunda, mais fundamental, ligada a uma afirmação mais secreta: o corpo respira tranquilamente, eu estou vivo e aqui". Ao caminhar, Matheus Noronha estava vivo, juntando seus pedaços para encontrar o seu próprio caminho - o Camino de Carlos Paz. Leia também: Desalinhando Andrei Tarkovsky: o cineasta da vida Os embalos de Thays Prado Marcelo Segreto e a América Latina em seu peito No início do mês, você lançou o single "Camino de Carlos Paz", baseado em um mochilão que fez. Como surgiu a ideia de fazer essa viagem e como ela te influenciou na sua carreira musical? A viagem surgiu como ideia em 2014, logo após terminar o curso de fisioterapia. Queria novas experiências e andava bastante chateado com algumas pessoas e eventos que tinham acontecido. Decidi sair para compartilhar dos meus conhecimentos, tempo, e para conhecer a cultura latino americana de perto. O Brasil possui essa barreira linguística e geográfica, e queria entender melhor o nosso continente com vivências. O estímulo inicial foi justamente a música e a língua ibero-americana. "Camino de Carlos Paz" conta com participações de Pedro Borghetti e Rodrigo Carazo. Como você chegou na escolha dos músicos? Tive a oportunidade de conhecer os dois em um festival muito especial de cancionistas que acontece no Uruguai, chamado "Festiva Serenadas". Fui dois anos seguidos e tive um primeiro contato com ambos em 2019. Em 2020 estive mais próximo do Pedro pela função de organização de casas e a galera que já foi reunida. Rodrigo Carazo também foi sempre muito receptivo e super aberto às conversas. A escolha do Rodrigo foi pelo fato de que a história da canção se passa em Carlos Paz, cidade da província de Córdoba/Argentina, onde Rodrigo atualmente mora. Ao fazer o convite mandei junto uma cartinha contando como a canção surgiu. Ele topou e me explicou que Carlos Paz também havia feito parte da vida dele de maneira especial. O Pedro surgiu como uma ideia por ele ter como instrumento principal o Bombo Leguero, que é de origem Argentina. Pedro toca de maneira muito especial, única. Não tinha como pensar em outra participação. Assim como o Rodrigo, que eu considero um dos melhores cantautores que já ouvi. Foi muito fácil pensar neles. O difícil foi convidar, mas felizmente eles aceitaram! Suas músicas são compostas com diversos elementos, como o folk, o indie e milonga. Como esses gêneros musicais surgiram na sua vida e o que te levou a colocá-los em suas canções? Entraram com o consumo de artistas que transitam entre os gêneros. As audições de Vitor Ramil foram um marco na minha vida e ali comecei a tomar gosto pela milonga. Do Vitor fui pra cancionistas que também trabalham com o folclore da Argentina, Uruguai e Rio Grande do Sul. Passei a beber muito desta fonte, e o folclore acabou sendo incorporado naturalmente. Por incrível que pareça não tenho milongas compostas, mas sem dúvida foi ela que iniciou no folclore. Não sou um folclorista tradicional, e acredito que minha canção se encaixe no gênero indie justamente por não tratá-la de maneira tradicional, além de também ter referências em artistas indie/folk que trabalham com elementos do folclore tradicional, como o violão nylon. Um exemplo desses artistas seria José Gonzales, artista nascido na Suécia mas de família argentina radicada no país. Suas canções são acompanhadas de uma história, algo que você passou. Podemos entender que o seu processo de criação é extremamente pessoal, já que você precisa vivenciar o momento para depois transformar em música? Eu acredito que esteja muito vinculado ao meu processo inicial de composição. Hoje já não trato as vivências com tanto peso. Procuro compor de maneira mais "técnica" - eu acredito que tenho mudado bastante a maneira com que enxergo meu processo de criação. Possuo mais ferramentas para criar e também para expor as minhas experiências nas canções. O EP teve um processo longo de criação muito por inseguranças e pelo fato de as canções terem uma carga emocional muito grande. Você escreve canções em português, espanhol e inglês. Existem diferenças no momento de escrever? O que te levou a compor em outros idiomas? Eu percebo que costumo escrever as canções em espanhol e inglês referenciado em livros ou alguma fonte de informação mais pontual. A canção "Flotoando", escrita em inglês, foi totalmente baseada no livro "The Yearning", da escritora sul-africana Mohale Mashigo. Acredito que seja um processo até menos complexo do que escrever em português, porque como tenho um vocabulário mais delimitado na minha prática e experiências, tudo se torna mais direto. Eu dou aulas de inglês há alguns anos e sempre tive contato com a língua por interesse ou necessidade. Traduzo trabalhos na área da saúde e ponho muita energia nas minhas viagens. Sou curioso! Acho que isso me levou inicialmente a compor em inglês. O meu repertório, desde a adolescência, sempre conteve muito do inglês, comecei escrevendo em inglês por achar interessante. O espanhol entrou mais recentemente, depois de viajar pela América Latina em 2015. Aprendi consideravelmente bem o "argentino". A minha experiência foi muito marcante em córdoba/arg, onde fiquei mais tempo, e depois nos países que passei. Não falava quase nada de espanhol antes de viajar e depois que me apaixonei pela cultura e pela língua foi difícil parar de ler e me envolver com o espanhol. Curioso porque o espanhol entrou na minha vida junto com a vontade de me aperfeiçoar como músico e logo depois com a vontade de trabalhar profissionalmente nas minhas canções. Em "Flotoando" e "I Saw You" é possível verificar o mar, a necessidade de mergulhar (literalmente) para alcançar e/ou transformar em algo. O ato de mergulhar me parece importante para você. Você pretende fazer com que o ouvinte mergulhe junto com você? Apesar das canções terem sido criadas em processos muito singulares, todas convergem para uma mesma sensação de algo que está sendo aberto, iniciado. A busca de vínculo entre elas no EP, mesmo que não seja conceitual como em um álbum com processos bem definidos, é justamente para tentar as sensações que tive com esse início de carreira. As canções tiveram processos de produção muitas vezes densos para tentar buscar o que tem de mais genuíno. Claro, como primeiro trabalho é difícil ser "claro" com essa tentativa, mas o mergulho do ouvinte é tudo o que um compositor quer. Espero que as pessoas possam mergulhar nos detalhes das letras e dos arranjos. Aproveito para fazer o convite de um mergulho por aqui também. Suas canções não se prendem em apenas um fator, elas seguem diferentes caminhos, lembrando que é possível sentir e mergulhar nas diferentes questões que surgem e é bom para voltar com mais forças. Para você, mostrar essa questão, aumenta a pressão para criar novas canções que dialoguem com o público e com o momento em que estamos passando? Não sei dizer se aumenta a pressão. O trabalho teve características do período pandêmico que vivemos, fizemos muitas coisas isolados sem compartilhar sentados um ao lado do outro. Porém, não criei nada expressamente relacionado ao momento atual. O vínculo com o público acredito que esteja sendo construído agora e é o trabalho em si, tenho como objetivo esse diálogo com as pessoas que me ouvem. Assim como eu sinto reconhecimento em sons que ouço, quero muito que as pessoas se sintam abraçadas ou contempladas no que está sendo dito. Acho que aí mora o trabalho como compositor, criar esse vínculo com coisas que a gente vive e sente. "Camino de Carlos Paz" é o último single a ser lançado. O EP de Matheus está sendo finalizado e será lançado em maio pelo selo Escápula Records. Serão quatro canções, sendo duas inéditas. Seu EP sai no mês que vem! O que podemos esperar dele? Podem esperar o desenvolvimento da minha estética musical, uma assinatura sendo criada. Além, claro, das participações de artistas incríveis. Também uma cara nova para uma canção que já havia sido lançada, chamada "El Paso Que Va Cambiando" e um projeto gráfico lindo que tem feito muita diferença no processo de lançamento. Após o lançamento do EP, o músico pretende fazer algumas lives com a banda para compartilhar com o público sua caminhada. Além disso, ele também está no processo de pré-produção de um novo álbum que pode sair no ano que vem. Agora, é só esperar a vacina para caminhar ao lado de Matheus Noronha.

O manual de Helio Flanders para sonhar

O manual de Helio Flanders para sonhar

Helio, Levo a sério o significado da palavra desalinho. Segundo o dicionário, desalinho é algo que está fora de ordem. Não é como uma bagunça - longe disso; é algo que foge dos padrões esperados (da sociedade? dos pais? do século XXI? quem sabe?) Sabe o movimento marginal? É isso! Uma mistura da poesia de Ana Cristina César e o processo criativo de Arrigo Barnabé. Digo isso, pois tenho relembrado as cartas que Pitico escreveu e recebeu em "Manual Para Sonhar de Olhos Abertos". A carta que ele escreveu para o Maestro no dia 28 de março me emociona: "Maestro, aqui as pessoas se olham nos olhos e sorriem para desconhecidos". (Talvez seja a nostalgia que me abala por estar trancada há mais de um ano. Faz falta falar, abraçar e chorar com as pessoas). Pensando nisso, escrevo em formato de carta sobre a conversa que tivemos na quinta-feira. (Eu poderia dizer entrevista, mas é muito adulto, burocrático, eca!). Enquanto decupava o áudio, lembrei do seu livro e também de "Ulysses", de James Joyce. No episódio 14, sob o título "Gado do Sol", Leonard Bloom conhece Stephen Dedalus. Bloom, o anti-herói de Joyce, visita a senhora Purefoy que está em trabalho de parto há três dias no hospital-maternidade. Lá, ele se reúne com jovens estudantes de medicina que debatem sobre o caso - quem deveria sobreviver: a mulher ou o filho? Cruel, não é?! Bloom diz algo sobre a juventude estar (continua perdida? foi perdida alguma vez?) perdida (aqui, relembro o ponto da conversa em que digo que não me sinto mais jovem, mas você diz que sou jovem). Enquanto eles debatiam, trovões invadem a conversa, anunciando uma nova chuva em terras irlandesas. Bloom, o mais velho, que também é pai, ao ver Dedalus tremendo e com medo do barulho, conversa com ele e diz que o fenômeno é natural, uma consequência do dia a dia. Há uma transferência de pai para filho - como acontece entre Brinco e Pitico. Em alguns momentos, há uma certa transferência de Pitico com os personagens, em busca de uma figura paterna… Você, como escritor, pode me responder se Pitico encontrou o que buscava? Eu acho que encontrou sim. Eu entendo o seu ponto e tem umas entrelinhas que carregam isso. Eu acho que ele encontra muito isso no Brinco. Talvez… Acho que a maioria das coisas em relação a esse ponto está no Brinco. Eu acho que talvez não seja tão paterno clássico, sabe, mas uma figura paterna muito mais como uma companhia - mas é claro que esbarra nisso. Tanto que para o Geraldo, há uma tensão sexual maior, fora isso não acontece. Então, a gente já tira uma parte de Freud aí. Mas o Brinco que é o brother dele, que são super boêmios juntos, eu sinto um pouco essa presença que acho que é muito acentuada pelo fato do cara ter chegado numa cidade nova, totalmente abandonado e fisicamente machucado, emocionalmente machucado e tal… Mas eu acho que o que permeia é muito mais do que essa questão paterna é o vazio, um vazio geral. Tanto que ele vai atrás de muitos buracos que ele está carregando dentro de si para preencher… Mesmo quando as pessoas o deixam, os buracos já foram preenchidos. Ele é outro já. Parece que o papel já foi cumprido. "Vallegrand, se eu posso te deixar é porque você já me deu tudo". Leia também: Impressões: Manual Para Sonhar de Olhos Abertos Desalinhando Bob Dylan A poesia de Pedro Cassel Lembremos do início da conversa, quando falamos de Belchior. Te perguntei se o bigodudo transformador (apelido carinhoso que criei para ele) aguentaria viver nos dias de hoje. Sua resposta foi: "Ele não aguentou nem antes de mudar, né. Ele já foi embora. Já fugiu antes. Ele foi o precursor da fuga, né. Precursor, inclusive, dos calotes dos bancos. Ele foi o precursor do foda-se. É bom estar aqui, mas deve ser bom também não estar". Reflito por alguns segundos sua resposta e questiono: Por que ainda estamos aqui? (Será que em algum momento da vida, vamos parar de fugir?) “Porque viver é mais fácil do que morrer”, você responde rapidamente. Alguns segundos depois, pergunto se você consegue encontrar uma saída para o que estamos vivendo. Você diz sim e, agora, dias depois desse diálogo, penso que assim como Bloom faz com Dedalus, e Brinco com Pitico, continuemos a trajetória - como você disse: "Logicamente um lado de mim é uma revolta pura, mas eu absolvi o meu coração e aqueles que eu amo da minha revolta. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Quando eu vi que estava perdendo a minha saúde por coisas que eu não comandava e por pessoas e situações que não valiam a pena que eu perdesse a minha saúde, e isso afetava a minha vida e a minha relação com as pessoas que eu amo, eu parei para fazer um exercício para me absolver de mudar coisas que eu não posso mudar, sabe. Então, acaba sendo uma resignação de que o que é - o que é vitória no fundo, o que é derrota no fundo. O que é certo e errado? No fundo, a melatonina do coração não é tão fácil de conseguir. Mas a gente se serenizar - tô falando por mim, o meu método. Entendo que eu não vou mudar as coisas". Tenho pensado sobre tudo e nada, morte e vida, o vazio e o completo. Desalinho. Fora dos rumos. Acho justo perguntar aos artistas sobre futuro, pandemia, morte, vida e todas essas questões existenciais, para mostrar que todos sentem e que não é necessário fugir de tudo isso. Então, quando você me diz que “viver é mais fácil do que morrer”, acredito com força, me pego nas palavras, e lembro que por mais que a vida seja complicada, dolorosa, ela é mais. Assim como você conheceu outras pessoas no decorrer de sua vida, eu também fiz isso - Pitico recentemente descobriu um novo mundo onde foi livre. Livre. Volto a lembrar de Guimarães Rosa: "Viver é etecetera". "Eu vim vencer essa etapa só pra seguir adiante". Você começou a escrever alguns pedaços de "Manual Para Sonhar de Olhos Abertos" em 2008, em seu autoexílio, certo? Eu tive esse autoexílio em 2004 na Bolívia e depois disso eu comecei a escrever. Eu tinha um blog, coisas muito pontuais que não se ligavam uma coisa a outra coisa. Aí eu escrevi até 2008 e parei. Apaguei o blog e tal. Aí eu nunca mais voltei nesse material. Em 2018, eu peguei esse material do blog, utilizei 5% dele no livro, mas serviu para me reconectar com esse universo do Helio da Bolívia com 18 anos de idade. Eu comecei a escrever o livro efetivamente em 2018 - talvez você tenha confundido com o autoexílio que eu tive na Itália, quando terminei por lá o livro. Eu fiquei arrumando-o até 2019 - foi quando eu realmente terminei. O livro foi escrito basicamente entre 2018 e 2020, mas ele é inspirado nesse período que eu passei na Bolívia quando eu tinha 18 anos. E o que mudou do Helio de 18 anos para agora? Muita coisa. E o que é muita coisa? Muita coisa, é muito difícil de até dizer. Ficou claro pra mim que a diferença do Helio em 2000 [há um ruído na gravação] para o Helio que escreveu o livro é irrelevante. Porque eu não sou eu. Acho que quem me conhece bem percebe muito claramente que o narrador, o Pitico, definitivamente não sou eu. Outro dia eu estava refletindo sozinho, falando assim pra mim: "Caramba, acho que o mais próximo que eu conseguiria explicar, o nascimento desse narrador, é eu contando para um cara que estava do meu lado". Em relação ao livro é irrelevante, o que eu mudei aquilo e aquele outro, talvez o que tenha relevância é como eu contaria as coisas que eu vi. Dando uma nova ênfase no ato que a gente viveu. Ou esquecendo de coisas e lembrando de outras. E isso é seletivo, mas também não. Às vezes, a gente esquece e só se dá conta depois e acho que é até o ponto da Laurie Anderson [diretora do filme “Coração de Cachorro”], mas quando eu comecei a escrever, sei lá, quando eu tava com 20% do livro escrito, caiu a ficha e eu falei "Caí na ficção!" - que delícia, que presente! E aí é a hora que eu juro para você, Michele, eu flutuei em ruas que eu nunca estive de uma maneira que eu nunca tinha feito em mais de 20 anos escrevendo canções. Foi um presente e tanto pra mim, no sentido mais puro da palavra, de eu ter prazer de novo com a arte. Eu sigo tendo prazer com o Vanguart, eu sigo tendo prazer em cantar, mas agora é um prazer novo, uma coisa que nunca… É diferente, né? É, eu nunca tinha diferenciado desse modo, sabe. É muito diferente, em várias instâncias. Inclusive nessa de poder esfarelar, poder fazer algo que é meu, mas que não sou eu. Isso é muito legal. Você se incomoda ao ver as pessoas tentando entender o que é você no Vanguart, em carreira solo ou no livro? Porque, na verdade, quando eu li o livro, eu tive a certeza que Pitico é todo mundo! Todo mundo se identifica ali. Eu me vejo no Pitico diversas vezes, eu vejo meu irmão… Eu não me incomodo, porque eu não me importo. Pode ser até arrogante dizer isso, mas eu não me importo, não faz diferença. Se alguém quiser achar… Muita gente vai achar que sou eu, não tem problema nenhum. Eu me identifico… Eu sou o Pitico em vários momentos, assim como eu sou o Brinco em outros, sou a Suzè em outros; e acho que o grande barato da ficção foi isso, foi entender algo que eu já tinha até nas canções. Um adendo sobre o filme "Coração de Cachorro" que você citou, Helio: Em um determinado momento, Laurie aparece na tela, com o rosto desenhado por um carvão e diz: "Quando você fecha os olhos, o que você vê? Nada? Agora, abra-os". A narrativa foi alterada. Não somos mais aqueles que fomos segundos atrás. É assim o tempo todo com "Manual Para Sonhar de Olhos Abertos". Ao piscar, damos continuidade a narrativa - seja ela real ou não, que está sempre em mudança. Lembremos de seu camarada, Whitman. Por que Whitman te impactou tanto? É engraçado você me falar que "a arte me salvou", porque Whitman me salvou. Não é uma mentira dizer isso. Eu estava num momento… Não como eu me encontro hoje, mas um momento da minha vida muito perdido, em referências inclusive, e Whitman reforçou uma crença que eu tinha - que não me importava a forma, o que importava era a presença. Eram essas pessoas cheias de falências, cheias de humanidades - alguém que desprezava a consistência para ser consistente. Eu sempre esperei esse amigo. Quando eu comecei a escrever o livro, eu passei por crises vaidosas: "Para quem eu estou escrevendo?" "Eu quero parecer inteligente?" "Eu quero escrever um livro inteligente?" Um livro sincero… Mas aí eu pensava: "O que é ser sincero?". Eu percebi que quando eu estivesse mais perto da minha alegria de escrever, mais próximo eu estaria do leitor, do meu leitor - e Whitman é a ponte entre tudo. A ponte entre a prática da vida, do sentimento, vida prática; a ponte entre o sentimento e a expressão poética. De modo que seja um espelho para quem está ao meu redor, não como se isso fosse o certo, mas como… Isso sou eu! Agora, qual o seu? Quando eu brinquei sobre crítica poética, é sobre isso. A maioria das pessoas que eu ouvi falar sobre Whitman, batem muito na tecla da democracia, da natureza, do papel social dele nos EUA no século XIX. Até que eu estava vendo uma mesa que tinha o Allen Ginsberg e começaram a perguntar uma palavra para definir Walt Whitman - aí perguntaram para o Ginsberg e ele disse: "Eu acho que é sobre a candura". E aquilo, pra mim… Eu falei: "É isso, exatamente!". Uma posição, um registro. Sabe quando a gente conhece uma pessoa e diz: "Ain, não lembro?!" Mas só se lembra que tinha um registro… Como se fosse uma fotografia? Como se fosse um adjetivo que define. Quando eu vejo a Adelia Prado falando, eu falo assim: "Que conforto! Que sensação familiar". Quando eu ouço a Hilda Hilst falando, eu penso assim: "Que conhaque! Que vontade de fumar um cigarro, tomar um conhaque e ficar... [imita rosnados] rosnando com ela para o mundo”. Whitman é um carinho, sabe? Isso que eu tô falando não serve de grande parte para poesia, mas para algumas a gente só vai conseguir efetuar crítica assim e essa é a poesia que me interessa e essa é a poesia que eu me encontrei no Whitman que sem saber me permitiu seguir eu sendo o que eu era, que no fundo eu já tinha isso carregado em mim - tanto que eu me identifiquei com ele profundamente, mas isso que selou e endossou um caminho para dizer que eu não estou sozinho, eu não estou louco… Talvez existam pessoas como eu, talvez uma ou duas que possam se beneficiar do meu encontro com ele e que futuramente será o meu encontro com essas pessoas e que futuramente essas pessoas carregarão tanto delas e de nós e terão novos encontros e novas pessoas seguirão passando adiante tudo isso. (Foto e vídeo: Nina Bruno) O livro foi lançado durante a pandemia, relembrando o leitor que é possível sonhar no meio da tempestade. Foi um timing perfeito. Foi proporcional? Não foi nada intencional, Michele. Primeiro que não é um manual, né. É um manual subjetivo. Eu me lembro que mostrei pra um amigo esse livro e ele falou: "É o título mais perfeito que ele poderia ter". Eu estava meio inseguro do título. Ele falou: "Essa Vallegrand dele não existe" e eu disse: "Claro que existe!" [risos]. Acho que o mundo do Pitico tem uma coisa muito… É um jeito que ele viu, né. Isso não quer dizer que não aconteceu tudo aquilo - acho que tudo aconteceu, até onde eu sei, eu acho que tudo aconteceu. Acho que carrega muito o exercício da gente ver as coisas como a gente quer também. Olhando agora, a Vallegrand do livro tem uma magiazinha, tem um pózinho mágico ali, em algum lugar. Não tem? Tem vários pózinhos mágicos. E não foi o meu objetivo, pra mim tudo era muito real. Depois eu percebi que estava sonhando. Agora, voltando para o livro, para os personagens do livro… Alias, parabéns pelo livro. Eu não sou nenhuma crítica e nada do tipo, mas o livro tem uma construção muito boa, principalmente dos personagens. A Suzè me lembrou uma deusa da maconha, uma deusa das drogas... [Helio ri] Algo do tipo: "Olha, eu estou aqui, nós não seremos amantes, não somos nada, mas eu vou aliviar a sua dor"... Um lugar elevado, né. Será que é elevado? Elevado humildemente, um lugar, um tipo… É a mãezinha. Mãezinha é uma palavra muito forte [risos] Mas é o apelido dela no bar! Sim, mas é estranho. Me lembrou… Edipiano? Sim! Nossa, zero pra mim. Nunca nem pensei sobre isso. Bem, a minha terapia freudiana está funcionando… Mas é muito legal você falar "deusa da maconha". Ela tem uma sabedoria muito ímpar, né. Mas ela também é uma salvadora do tipo do amor, sabe? "Você está sentindo isso?" Eu não sei se salvadora é a palavra certa, mas talvez no sentido de uma pessoa que olha e diz: "Você está livre para sentir o que quiser. Eu posso ser o que você quiser". Eu acho que ela é a mais bem resolvida, talvez a única personagem; ou a mais resolvida do livro enquanto ser humano, porque tá todo mundo perdido ali. Parece que todo mundo tá muito perdido. E ela carrega uma sabedoria muito alta. É engraçado pensar.. Eu não sei se pensei nesse personagem… Eu fiz uma análise sobre Suzè com Suzanne, do Leonard Cohen. As duas estão perto do rio, são amantes… Pitico é amante de Suzè... Caralho, eu nunca fiz essa associação. Nunca! Eu amo Suzanne, é a minha música preferida do Cohen! Jura? Eu tô com a biografia aqui por algum lugar [procuro o kindle] [Helio começa a cantar/recitar a música: “Suzanne, takes you down to her place near the river / You can hear the boats go by, you can spend the night beside her!"] Acho que o rio na narrativa da Suzè é muito natural, porque tudo acontece na beira do rio Cuyabá. Tem poemas para o rio inclusive. Então, eu queria saber de você se isso tá certo ou se faz algum sentido... Isso o que? Essa "comparação" entre deusa e Suzè, Cohen e a história... É muito legal você falar isso e agora no final da pergunta você perguntou se eu concordo, se está certo ou errado. É muito louco, porque hoje, quando eu penso no livro, eu sei tanto quanto você sobre ele. Então, primeiro, se tá certo ou errado eu nem poderia te dizer. O que eu posso te dizer como autor é: não pensei em Suzanne do Cohen, embora faça todo o sentido, muito incrível isso, eu adorei e agora olhando para ela, para Suzè, de fato ela é alta e ela tem uma sabedoria generosa de quem já se fodeu muito na vida - tô dizendo muito pelo que eu li. Acho que o Pitico a vê assim, como uma deusa, faz sentido. Ele até fala uma hora: "Como vários acontecimentos nos Cerrados , parecia ser um lugar elevado a outros locais" - como se deus, whatever it is, estivesse jogando as peças no tabuleiro... E sim, eu acho que a Suzè tem esse lugar e que talvez o Brinco e Geraldo sejam mais terrenos um pouco. A Suzè tem esse lugar e acho que não é porque ela é mulher, porque ele se apaixona mesmo, porque eu acho que rola uma paixão forte pelo Geraldo, meio mal vivida, mas acho que tem um lugar que é da Suzè. Tanto que na primeira aparição dela, quando ele narra a história dela. Mas sim, concordo como leitor, porque eu só sou isso também. Outra coisa que me chamou atenção foi a Elena. O sobrenome dela é Calamus, uma parte de Whitman. Foi intencional? Por que o amor é um assunto recorrente para artistas? Por que é tudo? Porque é a última ilusão final. A crença final. Agora eu faço uma provocação: há vários tipos de amor - de contatinho, como dizem os jovens, de pai e mãe, de amor, de algo que seja preenchido. Sinto que a Elena é um pouco de tudo… Olha, primeiro de tudo, acho que temos poucas informações de Elena para poder ficar falando da vida dela [risos]. O que a gente tem sobre a Elena é uma vivência dela com o Brinco, que é narrada pelo Brinco. O "Calamus" é, segundo Whitman, o galho mais duro da natureza, mais fálico, "Calamus" é isso e mesmo na etimologia, é a calamidade. Ela carrega essa coisa de transformação e tem uma passagem que fala: "Elena era grande demais para os corações de Vallegrand". Eu acho que existem pessoas para isso em nossa vida e para o Pitico é isso, foi algo muito grande, , não tem uma resposta - é muita coisa, uma força que ele não tinha naquele momento. Eu, você, Pitico, todos nós sabemos como é receber palavras, seja do Cohen, do Morissey, da Hilda Hilst, do Emicida, do Mano Brown. [Essas palavras] são importantes em vários momentos da vida e não foi diferente com ele. Quando ele encontrou Elena era tudo que ele estava precisando. É possível fazer um paralelo entre seu livro e seu disco solo. Em "Forasteiro", temos um revólver, um rio e uma certa necessidade de se perder para, talvez, se encontrar novamente. Já em "De Onde Você Vem?", vemos questões sem respostas e uma certa devoção do trovador para um indivíduo. Ambas me lembraram do Pitico, sozinho ou ao lado de outros personagens. No momento de escrever, pensaste nisso? Jamais, jamais pensei! Inclusive, quando você me disse: "Eu gostaria de traçar um paralelo entre o disco e o livro", eu fiquei pensando: "Que diabos ela vai traçar de paralelo?". Não há nenhum paralelo. É muito engraçado. Eu só consigo pensar em: "Como eu estou pobre nas minhas imagens poéticas, tô usando as mesmas sempre!" [risos]. É uma piada! Eu vejo como isso faz parte do meu universo. O rio, não tem como desassociar da minha vida em Cuiabá e como eu entendo o mar, são entidades, não espirituais, mas presenças na minha vida como imagem poética e o encontrar-se já esteve muito presente e hoje é uma resignação de que é a viagem que interessa, não o destino. Uma amiga me disse que o papel do artista em tempos tristes é mostrar para todos que estamos vivendo tempos tristes, mas que ainda é possível sonhar. Você concorda? Eu acho que mostro isso em tudo que fiz na vida. Há uma luz naquela escuridão, né. Por mais que seja desoladora, acho que há uma luz - o próprio Vanguart, em "Boa Parte de Mim Vai Embora" (Deck, 2011) tem esses momentos. A falta de esperança não saiu da caixa. O próprio livro, nos momentos mais desoladores dele… Não deve ter sido fácil sair fugido, sem conhecer ninguém, tanto que é aquilo: quando os encontros acontecem com as pessoas, os poemas são de um júbilo - eu tô apaixonado pelo simples fato de colocar os sapatos e caminhar. Aquela alegria pequena, necessária e suficiente. Alegria, simples alegria. Eu acho bonito a gente propor a não desistência. "Eu vim vencer essa etapa só pra seguir adiante." Você consegue sonhar? Claro, é disso que sou feito. Não há um segundo que eu não esteja lá. É como eu costumo dizer: quando você começa a sonhar, você não está no mesmo lugar. E com o que você sonha? Você pode dizer? Não [risos]. As cartas que estão em "Manual Para Sonhar de Olhos Abertos" são mais curtas do que essa. Confesso que me empolguei. Mas, me justifico: a vida é complexa demais para caber em uma única página. Por aqui, as palavras continuam pesando, Helio - mas de um jeito estranho, agradeço por tê-las. Escrevo tudo aquilo que nunca consegui dizer. Há muito mais para dizer, sempre há mais para dizer, mas encerro essa carta longa. (Como disse Voltaire: “Perdoe-me, senhora, se escrevi carta tão comprida. Não tive tempo de fazê-la curta”) Agora que venci essa etapa, avanço para outra. Será que vai ser difícil ou doloroso? Não, não pensamos nisso, apenas seguimos. Há muito mais! Vou fechando os olhos para sonhar. É preciso sonhar. Especialmente agora. O que será de nós se não imaginarmos o amanhã? Desculpe por escrever muito e por pedir desculpas o tempo todo. Que doidera a vida é, mas é bonita. A gente segue sonhando por melhoras. Obrigada pelas palavras. Ah, preciso dizer que não levei um tiro no joelho, mas um no coração que está aquecido pelas palavras, pelos sonhos, pelos sentimentos. Obrigada. Com carinho, da desalinhada, M.

Os 10 melhores filmes assistidos em 2020

Os 10 melhores filmes assistidos em 2020

Para sobreviver ao isolamento social, genocídios, inflação e falta de um governo, muitas pessoas recorreram aos streamings para assistir filmes, séries, curta ou documentários. Segundo o estudo elaborado pela Conviva, plataforma de monitoramento de streaming, a audiência cresceu 20% desde o início da pandemia. Netflix, Amazon Prime e GloboPlay são algumas plataformas que ganharam novos consumidores. Por aqui não foi diferente. Além do streaming, teve Youtube que conta com diversos filmes e documentários sensacionais. Após muitos filmes assistidos, lançados ou não este ano, novos ou antigos, separei um top 10 com os preferidos deste ano. Confira: Fico Te Devendo Uma Carta Sobre o Brasil (Carol Benjamin, Brasil, 2020) Lançado este ano e disponível na GloboPlay, "Fico Te Devendo Uma Carta Sobre o Brasil" é mais um documentário sobre a ditadura civil militar que precisa ser visto, revisto e comentado, ainda mais quando o passado está tão presente nos dias de hoje. Carol Benjamin, a diretora, mergulha na história familiar, onde seu pai e tio foram torturados e presos por alguns anos; enquanto sua avó lutava pela soltura de ambos, buscando ajuda na Anistia Internacional. Além disso, o longa investiga o silêncio como forma de apagar a memória, questionando, também, os próximos anos. Cinco Graças (Deniz Gamze Ergüven, Turquia - França, 2015) Já na sinopse, o leitor compreende que é um filme pesado, onde o machismo e a cultura turca dominam o futuro de meninas pequenas. O filme acompanha a vida de cinco irmãs que são punidas após brincarem com os meninos em uma praia, ato considerado escandaloso pela religião muçulmana. Como consequência, as meninas são mantidas presas em casa, enquanto aprendem "tarefas de mulheres", ou seja, cozinhar, costurar e limpar a casa, a família busca casamentos arranjados. Através das Oliveiras (Abbas Kiarostami, Irã - França, 1994) Kiarostami nunca errou ao fazer um filme. Último filme da Trilogia Koker, "Através das Oliveiras" é um filme dentro de outro filme: uma equipe de cinema chega a uma cidade no norte do Irã para realizar um filme. Hossein é contratado para ser o protagonista, enquanto Tahere, uma jovem por quem ele está apaixonado, contracena com ele. Após alguns minutos, o telespectador descobre que a família dela tinha recusado o pedido de casamento que fez, mostrando o amor platônico que Hossein sente por Tahere. No fim, é sobre pessoas, sentimentos e belezas. Imperdível! [disponível no Youtube] Coração de Cachorro (Laurie Anderson, Estados Unidos, 2015) Disponível no CineSesc, "Coração de Cachorro" é centrado na cachorra Lolabelle, que faleceu em 2011. Para se despedir dela, Laurie documenta sua vida, além de combinar lembranças da infância, diários, reflexões sobre dados, cultura de vigilância, a visão budista sobre a morte e tributos a artistas. O filme começa com sua cachorra, mas fala sobre todos os humanos, examinando como as histórias são construídas e contadas para dar sentido às nossas vidas. Temporada (André Novais Oliveira, Brasil, 2018) Ao escolher a atriz Grace Passô como personagem principal, já sabemos que o filme será um sucesso - e "Temporada" é muito mais do que isso! Grace é Juliana que está se mudando para a periferia de Contagem para trabalhar no combate a endemias na região. No novo trabalho, ela conhece pessoas e vive situações que começam a mudar sua vida, ao mesmo tempo que encontra dificuldade para continuar o casamento e pagar o aluguel. Parece simples, certo? No entanto, o filme é muito mais do que isso (repetição da frase necessária): o diretor André nos mostra que a vida pode ser bonita, mesmo com os problemas que surgem na vida. E no meio de todo caos e beleza, é possível reescrever a própria história. O Enigma de Kaspar Hauser (Werner Herzog, Alemanha, 1974) Um daqueles filmes que choca do início ao fim. Herzog traz ao telespectador a história de um garoto que é criado em um portão, sem nenhum contato humano, até completar 18 anos, quando é levado para a cidade. Lá, ele se torna um objeto de curiosidade e desprezo da população local - mas não de todos, já que é adotado por uma família. No entanto, verificamos como a falta da socialização primária, ou seja, a compreensão de normas, valores, linguagem e regras básicas que são ensinadas pela família, impacta a vida de um indivíduo que ficou sozinho por dezoito anos. Os 8 Magníficos (Domingos Oliveira, Brasil, 2017) Antes de falecer, Domingos Oliveira deixou algumas obras para o fim, fechando seu ciclo com chave de ouro. Seu primeiro documentário "Os 8 Magníficos" chegou só agora ao cinema e discute sobre o significado da arte e do ator, ao lado de oito atores (“os melhores da geração”, de acordo com Domingos). Mesmo sem uma resposta concreta, nós sabemos muito bem o significado: são eles que salvam os humanos do desespero da existência. AmarELO: É Tudo Pra Ontem (Fred Ouro Preto, Brasil, 2020) O documentário vai além do show de Emicida que aconteceu no Theatro Municipal no ano passado. "AmarELO" traz a trajetória do rapper, os bastidores do álbum e os cem anos da cultura negra brasileira. Uma aula e tanto! Canastra Suja (Caio Sóh, Brasil, 2016) Ao juntar Adriana Esteves e Marco Ricca em um filme, nada pode dar errado. Em "Canastra Suja" conhecemos uma família complicada, onde o patriarca oprime sua esposa e filhos. Além de utilizar caminhos sórdidos para sustentar a casa, que são desaprovados pelos demais integrantes. Em meio de dores, caos e dívidas, o filme discute os mistérios da bondade humana para sobrevivência. A Mulher da Própria Luz (Sinai Sganzerla, Brasil, 2019) Helena Ignez foi uma das principais personalidades femininas do cinema brasileiro, mas foi esquecida - os homens de sua geração ganharam espaço, deixando-a de fora. Helena inaugurou um novo estilo de interpretação (que pode ser visto em "A Mulher de Todos" e "Família do Barulho") e atualmente dirige produções independentes. O documentário é narrado pela própria Helena, que descreve sua trajetória de atriz a cineasta. Leia também: Marina Person e Gustavo Moura: a necessidade de falar sobre filmes Documentar Raphael Erichsen: aprendizados sobre a sétima arte Brunner: o artista incendiário Os melhores curtas de 2020 República (Grace Passô, Brasil, 2020) No meio do isolamento, Grace Passô encontrou um meio para transformar sua angústia em arte. Realizado dentro de sua casa, "República" conta a história de uma mulher que recebe o aviso de que o Brasil não existe, que é apenas o sonho de alguém - e quando esta pessoa acordar, tudo vai acabar. Pandelivery: Quantas Vidas Vale o Frete Grátis? (Guimel Salgado e Antônio Matos, Brasil, 2020) Filmado no meio da pandemia, o curta aborda a realidade e desafios de entregadores de aplicativos durante o início da covid-19 em São Paulo. Aqui, assistimos a realidade cruel dos trabalhadores que se arriscam diariamente para colocar comida na mesa. Reflexão necessária para os dias de hoje! O documentário está disponível no canal do Documentar. Beat é Protesto!: O Funk Pela Ótica Feminina (Mayara Efe, Brasil, 2018) Se o lugar da mulher é no lugar que ela quiser, por que ainda existe machismo e preconceito ao escolher o funk?! O documentário de Mayara Efe retrata a cena underground das mulheres no funk de protesto da última década de São Paulo.

Entrevista: China continua resistindo em dias mortos

Entrevista: China continua resistindo em dias mortos

"Sai de casa mas não sabe se volta / Todo dia um coração na mão / Quem vai determinar quais são as chances de alguém / virar estatística, nota de jornal” A estrofe de "Vivo?” cai muito bem com o momento em que estamos vivendo. A música que abre o álbum "Manual de Sobrevivência para Dias Mortos”, é de China. No meio da pandemia, precisamos encontrar um modo para sobreviver ao genocídio da população negra e indígena, ao desgoverno miliciano e fascista, crise econômica e tantos outros fatores. Lançado no ano passado, "Manual de Sobrevivência para Dias Mortos” é um sopro de esperança. Com letras políticas, guitarras estridentes (lembra Stooges) e o toque da cultura pernambucana, China faz política e se doa por inteiro para discutir (e apresentar sua defesa) o atual cenário político do Brasil. Perceba que o nome do álbum contém a palavra sobrevivência, que segundo o dicionário é “ato ou efeito de sobreviver, de continuar a viver ou a existir”. Sobreviver é resistência. Aproveito e pergunto por e-mail: como está sobrevivendo com todos os problemas que o país está passando? Ele responde: “Se viver hoje em dia já é um luxo, imagine sobreviver? Vamos levando os dias, tentando espalhar informação pras pessoas, lutando por dias melhores para todos. Acho que se ajudar nesse momento é essencial”. China já é conhecido no setor musical. No final dos anos 90, o pernambucano fundou a banda Sheik Tosado que se atreveu ao misturar frevo e maracatu com hardcore e punk rock. Em 2004, lançou o primeiro EP "Um Só”, mostrando o poder de suas canções. Mais tarde, o músico lançou outros discos, aperfeiçoando suas letras e ritmos - Simulacro (2007), Moto Contínuo (2011) e Telemática (2014). Seu último disco foi indicado a melhor disco de 2019 pela Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA). Seu último álbum mistura as texturas do rock com um toque da cultura pernambucana. Como foi o processo de composição e produção? Devo muito desse trabalho a Yuri Queiroga, produtor do disco. Ele me instigou muito a buscar outras sonoridades, outra forma de escrever e curti muito esse processo. Escolhemos um tema para definir o disco e a palavra era “sobreviver”. A partir daí comecei a escrever as canções. Musicalmente, falei pra Yuri que queria uma percussão pulsante no lugar da bateria, achava que esse disco tinha essa pegada mais forte de percussão. Aí chamamos Lucas dos Prazeres que é um percussionista incrível pra dar esse ritmo nas canções. A parte percussiva gravamos em Olinda, depois Yuri veio aqui pro sítio e terminamos as canções. No quesito musical, seus álbuns parecem distintos uns dos outros. A mudança é intencional ou acontece de forma orgânica, com base no que você consome durante o processo de composição? Gosto de artistas que se arriscam, então procuro isso na minha obra também. Quando a gente se arrisca, a gente se expõe e gosto de andar nessa linha. Não seria feliz fazendo o mesmo disco a cada lançamento porque achei uma fórmula de sucesso. Meus discos refletem inteiramente o que sinto, o que ando ouvindo e lendo naquele período, como uma fotografia que registra o instante. Gosto mesmo de me arriscar por outros caminhos, assim aprendo mais. Você já trabalhou com alguns parceiros em suas músicas. Como é esse processo? Vocês compõem juntos? Gosto de compor junto. Olho no olho. A busca pela música fica muito mais divertida, mas também faço músicas a distância com os parceiros. Adoro compor em parceria, acho uma troca muito legal! A cena independente mudou muito desde quando você começou a tocar? Muito mesmo e ainda bem! Quando comecei a carreira estar numa gravadora era decisivo para um artista, hoje não é mais, o que é ótimo, pois abre espaço pra muito mais gente. É só olhar o histórico… De uns 15 anos pra cá, a maioria dos artistas revelados e que alcançaram um certo sucesso são independentes, donos de sua obra. Fazer música em São Paulo é diferente do que em Pernambuco? Estrategicamente, São Paulo é importante para qualquer artista. Aqui estão concentrados os canais da grande mídia, o alcance maior. Organizar uma turnê partindo de SP também é mais fácil pelo custo das passagens aéreas. O número de casas de show é maior e também dá pra circular por outros estados que são perto com certa facilidade. Pra você ter ideia, já toquei mais no Sul e Sudeste do que no Nordeste, e não foi por falta de vontade. O circuito nordestino ainda é difícil. Tem artistas do interior de Pernambuco que não conseguem tocar sequer em Recife, daí você tira como as coisas são difíceis. Mas creio que estar em São Paulo não ajuda só a minha carreira, mas a de outros artistas, pois sempre estou falando de trabalhos nordestinos nas entrevistas, nos programas que apresento na TV, indicando artistas de Pernambuco para tocar em casas de show por aqui,m ou seja, vamos nos ajudando toda hora pois sei o quanto é difícil viver de arte. Músico, escritor, produtor e apresentador (ah! ele também ensina receitas em seu instagram, na #tretasdositio - destaque ao pão de leite fofinho que essa que vos escreve fez, amou e se tornou fã), China mostra que é um artista multimídia - e que muitas vezes, não consegue separar o criador de sua obra: “Acho que obra e vida se mistura mesmo. Falamos de coisas muito íntimas nas nossas obras. Vejo o compositor como um cronista da realidade, que sente, que se enxerga dentro dela, então realmente é muito difícil separar a obra da vida, pois o nosso trabalho tá 100% ligado a emoção e a troca de sentimentos”. Gilberto Gil, Chico Science e Isaac Asimov são algumas inspirações. Sua mãe é a maior referência [ela é professora e escritora de livros infantis] e a música Anti-Herói (Moto Contínuo) foi feita para seus filhos, Tom e Matheus. China escreve sobre política e sua família, mas no final, diz sobre e para todos. Como tem sido a sua quarentena, continua escrevendo e criando? A escrita é um exercício diário. Todo dia escrevo algo. Aprendi isso com a minhas mãe, que é escritora. Não me cobro na questão da criação, de ter que criar algo novo todo dia, ter que aproveitar o tempo ocioso e ocupar a cabeça. Às vezes, a cabeça precisa tá desocupada para só aí arrumar o que fazer. Então, estou indo tranquilo nesse sentido. Tem dias que eu me tranco no estúdio, tem dias que nem passo perto dele, mas escrever, nem que seja uma frase, todo dia prático. Como é o seu processo de criação? Não tenho um método específico, mas sou muito criterioso com a escolha das palavras, das frases. Pesquiso mil significados para elas, escrevo no caderno, leio, releio, uma boa estrofe é como uma pintura, você olha pra ela e ver beleza, significado. Gosto te tratar bem as palavras e pensamentos, afinal de contas, uma música dura pra sempre, embala momentos, traz lembranças para quem ouve ela, então gosto de ter esse cuidado com as palavras. Mas uma coisa que faço quando tô gravando é colar todas as letras na parede do estúdio, assim fico olhando para elas e me familiarizando com o ambiente que quero propor no álbum. Você lançou um livro inspirado no seu cachorro, o Carlos. Como veio essa ideia? Como foi escrever um livro infantil? Como foi trabalhar com Tulipa Ruiz? Carlos viajou de carro comigo de São Paulo para Pernambuco. Foi no sertão, na chapada Diamantina, conheceu bem o Brasil. Em determinado momento da viagem, eu fiquei imaginando o que poderia estar passando na cabeça dele com todas essas coisas que viu… O mar, a caatinga, o cheiro das cidades…. E assim nasceu o livro [Carlos Viaja]. Eu adoro criança, além do livro tenho o Mini Jóia que é um projeto musical pra meninada, e esse amor pelos pequenos vem da minha mãe que é professora e também escritora de livros infantis. Ela educou muitas crianças e acho incrível quem repassa conhecimento, ensina, pois os professores estão formando cidadãos, gente que quando crescer pode fazer um mundo melhor, então já tinha isso dentro de mim e foi fácil optar por um livro infantil. Quando terminei o livro, só pensei em Tulipa para ilustrá-lo, pois como muito da forma como ela desenha. Fiz o convite e ela aceitou imediatamente. Além do livro com belas imagens, ganhei uma parceira muito querida. O que você tem ouvido ultimamente? Descobri uma banda meio brasileira, meio venezuelana chamada Fumaça Preta; tenho curtido muito o trampo deles. Gosto muito de Sofia Freire, Ylana Queiroga, Isaar, e o disco novo de Lia de Itamaracá é uma coisa linda. Quais são os seus cinco álbuns preferidos? Afrociberdelia (Nação Zumbi), The Stooges (1979), Roberto Carlos (1970), O Bidú: Silêncio no Brooklin (Jorge Ben Jor) e Roots (Sepultura). China não tem planos para o futuro, afinal, sobreviver um dia de cada vez é a meta dos brasileiros. O verbo viver não é mais sua música, agora é sua missão. Assim como muitos indivíduos que seguem a quarentena a risca, o artista está aprendendo a lidar com o presente para, no futuro, voltar para os palcos e fazer o que mais gosta: tocar. “O futuro tá lá na frente, mas eu preciso viver e entender o presente antes”, diz. Para conhecer o trabalho de China ou comprar suas obras, acesse o site: https://www.chinaina.com.br/