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Impressões: Manual Para Sonhar de Olhos Abertos

Impressões: Manual Para Sonhar de Olhos Abertos

Ao abrir o livro "Manual Para Sonhar de Olhos Abertos" (Letramento, 2021), a orelha do livro pede, sem licença, para que seja vista. Lisa, sem nenhuma frase, abro e vejo apenas duas pernas desenhadas em preto e branco. Ao manuseá-la, reparo que os movimentos que fiz me lembram do esticar uma perna. Veias, nervos, músculos, artérias e toda aquela anatomia que me foi apresentada anos atrás na escola completam o desenho. Porém, as pernas são diferentes - repare com atenção. Continue com a orelha do livro esticada. Agora, olhe para a capa: você verá o buraco da capa, que continha uma imagem indecifrável, ficar cinza. Olhe para a contracapa que conta com poucas informações: "Todas essas memórias datam a partir de minha viagem para Vallegrand, tentando esquecer um tiro na perna". As peças do quebra-cabeça começam a se juntar: "Manual Para Sonhar de Olhos Abertos", primeiro livro de Helio Flanders, contará o exílio do protagonista que tomou um tiro na perna. Ao passar as páginas pelos meus dedos, vejo que a obra contém um mapa. Lembro de "Ulysses" de James Joyce e a nostalgia de Stephen Dedalus. Inicio a leitura: "Se escolhe uma cidade para morrer pelo cheiro que seu nome tem". Paro e penso: Qual o cheiro de São Paulo? Meu nome não combina com a cidade de pedras. Se for para morrer, quero um lugar com natureza. Relembro meus passos no interior de Minas Gerais, em Lavras, alguns anos atrás. Eu morreria ali - perto das cachoeiras, do cheiro do mato e com todas as memórias adoráveis que guardo na mente; além de combinar com meu nome. Ao chegar nessa conclusão, me questiono: eu realmente me conheço? Estou vivendo? A vida tem um sentido além de ser dolorosa? Quão verdadeiro é o ser humano no dia a dia? Guimarães Rosa disse uma vez que viver é perigoso, mas também é "rasgar-se e remendar-se". Para Helio, é uma mistura entre as duas afirmações; onde multidões se encontram, tornando-se um só corpo. Nos remendamos em pessoas, momentos, lugares e lembranças, porque encontramos o amor que sempre sonhamos. Leia também: Impressões: Diante Da Dor Dos Outros As pedras de Morris Os pedaços de Edith Elek "Manual Para Sonhar de Olhos Abertos" conta a história de Pitico, um jovem manco que busca refúgio em Vallegrand, na Bolívia. Com poucos utensílios em uma mochila e a vontade de continuar vivo, acompanhamos a caminhada do forasteiro em sua nova estrada. Ao lado de sua bengala, Pitico apresenta a cidade e suas novas amizades que são recheadas de poesia. É interessante imaginar que um forasteiro, uma pessoa que deve estar fugindo de algo, ter tanta lábia, curiosidade e facilidade para fazer amigos. Então, lembro que não é possível separar o criador de sua obra: Pitico é Helio, que carrega os ensinamentos do camarada Walt Whitman, a iluminação de Jack Kerouac e Allen Ginsberg, a escrita de Franz Kafka e a devoção de Caio Fernando Abreu. Realidade e ficção se misturam. No final, eu também me vejo em Pitico - assim como todos os leitores. "(...) Dias antes, bêbado, ao fim da madrugada, havia discursado sobre despedidas. Disse que deveríamos nos acostumar a elas, pois estas seriam as únicas a nos tirar pedaços durante a vida e elas viriam em doses cavalares, cada vez mais, com o passar dos anos." Mais de um ano de isolamento social, tendo contato com apenas minha mãe e minha cachorra Pina, confesso que "Manual Para Sonhar de Olhos Abertos" me emocionou. Só percebi que chorei em algum momento, após as fungadas que o nariz fazia. Será que foi quando percebi que a bengala de Pitico é uma extensão do seu corpo - seguindo a mesma ideia de Whitman?! Ou quando percebi que é possível mostrar os sentimentos, o verdadeiro, em uma pandemia ou em uma fuga?! Não sei ao certo, mas também não importa. Porém, friso que a obra remexe com tudo que está dentro do leitor, desde suas veias até as lembranças mais antigas. No decorrer da história, nos diversos encontros de Pitico com seu passado e presente, o protagonista encontra respostas para buscar o futuro. Através dos novos amigos, das caminhadas, do rio Cuyaba ou dos bares que passou, Pitico se (re)encontra. No meio de drogas, bebidas, cartas e casos inacabados, ele consegue a autonomia necessária para continuar a caminhada de sua existência. "Ainda bem que sempre existe outro dia, e outros sonhos, e outros risos, e outras pessoas, e outras coisas", repito a frase que ouvi na infância, bem baixinho, para Pitico. Misturando poesia e prosa, o autor envolve o leitor em um mundo utópico, onde o sentimento vale mais do que o acontecimento. Inclusive, não é preciso ir muito longe para concluir que a frase de Guimarães Rosa está correta. No decorrer da leitura, Helio mostra que é através dos remendos que continuamos a caminhada. Por mais que doa, é preciso viver para continuar amando, celebrando. "(...) Quando o conheceu, Valentino me confessou, posteriormente, ter tido vontade de chorar. Eu não pude dizer o contrário. O meu primeiro dia com Brinco foi uma comoção por todo o meu corpo e sentidos. Uma esperança de triunfo num mundo estéril, uma exaltação de nós mesmos, que jamais teríamos orgulho ou lugar dentro de qualquer cidade do mundo. Brinco parecia trazer a paixão que não nos faltava, mas que tropeçava em nossa própria falta de coragem de exercê-la a full. Quando contemplo a mesma alvorada que nos perseguiu aquele dia ainda sou tomado por erupções e epifanias. No momento em que nos abraçamos ao nos despedir e nos olhamos com olhos molhados, vi as andorinhas marcharem." As palavras de Whitman em "Para as terras estrangeiras" (disponível em "Folhas de Relva" - edição do leito de morte, Hedra, 2011), explica um dos motivos para continuar escrevendo - e uso uma parte para aplicar em Flanders -: "(...) Por isso envio a você meus poemas, que você encontrará neles o que procura". Em momentos difíceis, cheios de perdas, Helio Flanders celebra a vida e nos mostra que é importante continuar sonhando. O amor salva. Sonho por dias melhores. E você?

Brasil CineMundi e 6° Santos Film Fest recebem inscrições de filmes

Brasil CineMundi e 6° Santos Film Fest recebem inscrições de filmes

Os festivais de cinema continuam a todo vapor: ainda neste ano, acontecerá o Brasil CineMundi, evento de mercado do cinema brasileiro; e o maior festival de cinema do litoral paulista, o Santos Film Fest. Realizados de forma online, os festivais estão recebendo inscrições de projetos para curtas e longas-metragens. O Santos Film Fest chega em sua sexta edição e acontecerá em junho, com o tema "Superação: A Arte Ultrapassando Limites Sociais, Físicos, Mentais, Geográficos e Pandêmicos". O evento estará recebendo inscrições de curtas (com até 30 minutos de duração) e longas (com duração maior a 60 minutos) até 17 de maio. O resultado das obras selecionadas será divulgado no dia 5 de junho. Podem participar filmes do Brasil e do exterior (desde que legendados em inglês, espanhol ou português). As mostras serão divididas em "Regional Baixada Santista, Nacional, Estrangeira e Humanidades" com temas relacionados à cidadania, inclusão e educação. Os filmes serão analisados pelo júri que é composto pela atriz Tamiryz O’hanna, pelas cineastas Julia Katharine e Andrea Pasquini e pelos professores doutores Rogério Ferraraz e Jamer Guterrez de Mello. Os ganhadores receberão o Troféu Toninho Campos. Confira o regulamento do festival em: https://santosfilmfest.com/ Assim como na edição anterior, os projetos de filmes brasileiros que serão encaminhados para avaliação do 12° Brasil CineMundi, passarão por três categorias: projeto em desenvolvimento, em produção e finalização. Para este ano, a edição conta com uma novidade: o recorte em desenvolvimento volta a ser dividido em três subcategorias - CineMundi, Doc Brasil Meeting e Foco Minas. As inscrições devem ser realizadas até o dia 31 de maio, às 23h59, horário de Brasília. Confira todas as informações em: https://universoproducao.com.br/

Raphael Masi: a aposta do mundo artístico

Raphael Masi: a aposta do mundo artístico

Entre tintas, sprays e canetas, Raphael Masi criou sua própria identidade na arte a partir de texturas abstratas, sobreposições geométricas e elementos urbanos. O interesse pela arte surgiu na adolescência, quando andava de skate pelas ruas de São Paulo. Inspirado pelo graffite que compõe o centro da cidade, Raphael começou a personalizar tudo que via pela frente - do próprio quarto até roupas. Não demorou muito para que a arte de Masi chamasse atenção e fazer sucesso. O artista já realizou collabs com marcas da cena Street Wear Brasileira e fotógrafos talentosos, além de expor suas obras na Casa Expo - Oscar Freire. Recentemente, Raphael lançou a série "Sonnora", obras que foram criadas a partir das músicas que ouve e o que o inspiram. Definitivamente, Masi amadureceu suas técnicas, tornando-se uma das revoluções das artes visuais. "Hoje já não digo que sou grafiteiro, acho que o que produzo é fruto de um estudo mais refinado da história da arte, mas uso o que aprendi, na época, referências como as latas e os canetões de tintas", reflete. Leia também: Desalinhando Eduardo Coutinho: o maior documentarista brasileiro Possa Nova: a persona madura de Filipe Mariz O mundo visível de Marília Marz O interesse pela arte surgiu quando você andava de skate pelas ruas de São Paulo. Como a arte urbana te impactou? Assim como ela impacta uma pessoa que está no trânsito de São Paulo e olha na janela do carro um mural de graffite no meio da cidade cinza. Aquilo me abriu os olhos, o peso que aquela arte carregava fez com que eu quisesse estar mais perto dessa cultura. Seus trabalhos lembram as formas, prédios e estruturas de São Paulo. A capital continua impactando o seu trabalho? Diariamente! O urbanismo da nossa cidade é carregado, milhares de prédios e linhas retas. As minhas composições geométricas são frutos dessas referências. Sempre que entendo que preciso de novas formas, vou pra rua correr, pedalar e andar de skate só para absorver essas inspirações. Você criou uma identidade própria, com texturas abstratas e sobreposições geométricas. Como você chegou nessa identidade? Eu vim da escrita, onde andava com um canetão no bolso e contaminava a cidade com minha assinatura; com isso veio os estudos dessa técnica. Comecei a desconstruir essa assinatura e criar essa "malha" abstrata que viraram minhas texturas. Acredito que sigo em transformação e estudo maneiras de aplicar essa identidade em novas materialidades. Suas artes chamaram atenção de diversas pessoas. Como foi ser "descoberto"? Alias, você imaginava que teria todo esse reconhecimento quando começou a desenhar? Percebi uma evolução natural das minhas criações por meio da repetição e testes, com isso foram se identificando mais com meu trabalho e gerando essa demanda. Nunca imaginei, mas como naquela época, crio até hoje pela necessidade de expressar um sentimento guardado, que de alguma maneira vira as composições que vemos hoje. Hoje em dia, você diz que não é mais grafiteiro. Como foi reconhecer que você produz uma arte mais sofisticada? Não diria sofisticada, o graffite é muito presente em galerias pelo mundo todo, mas eu me aproximei de outras vertentes no meio da arte que me identifiquei durante meus processos de estudo. (Fotos: Divulgação/Reprodução/Denys Argyriou) Você já criou diversas obras, que vão de tela a coleção de bolsas. O processo é igual para criar diferentes trabalhos? Sempre busco ver se encaixo naquela materialidade, e se o resultado vai ficar como imagino - são muitos testes até que eu chegue em algo que eu goste ou usaria. Sempre o que mostro, como peças e coleções, são algo que eu gostaria de consumir, assim crio essa identificação das pessoas. Você tem um processo de criação? Se sim, como é? Na maior parte do tempo, estou no meu ateliê com um computador para pesquisas e um papel em branco para os rabiscos. Crio meu ritual ali, com uma taça de vinho e uma trilha sonora para ajudar a soltar as ideias. Quais são as suas inspirações? Eu vivo em um círculo de amizades rodeada de pessoas talentosas, como fotógrafos, estilistas e músicos. Então, hoje entendi que minhas maiores inspirações vem do que vivo com meus amigos e de quem quero por perto - momentos que trazem para mim sensações de querer criar algo para aquelas pessoas. O significado de arte mudou para você no decorrer dos anos? Como você vê a importância da arte durante a pandemia? Amadureceu. Quanto mais estudamos e pesquisamos sobre um assunto, mais propriedade você tem para falar e entender sobre ele, por isso, sigo lendo sempre! Na pandemia, a arte foi para muita gente algo que desperta uma sensação de otimismo e apoio; muitos dos meus clientes vieram dessa época onde todos estavam em casa e gostariam de ter algo especial na sala ou no quarto que trouxesse esse sentimento. Você é uma das apostas no mundo artístico. Como você se sente? Honrado, sempre criei por amar o que faço. Hoje, chego em lugares que nem imaginava com algo que para mim era só uma fonte de escape do meu cotidiano. Feliz com o que venho desenvolvendo e com muitas coisas ainda para mostrar. Você está criando algo no momento? Pretende apresentar novos projetos este ano? No momento, estou desenvolvendo uma série cápsula de arte baseada em música, chamada "Sonnora". Como falei sobre as pessoas talentosas que estão ao meu redor, recentemente convivi com amigos DJ’s, onde dormia e acordava com alguém discotecando. Isso me trouxe insights que resultaram nas obras, onde apenas ouvia a vibração do som e imprimia aquilo de alguma forma na tela e outras peças que vão acompanhar a série. Tenho projetos bem legais para mostrar esse ano que vão de colaborações a novas coleções assinadas.

Desalinhando Eduardo Coutinho: o maior documentarista brasileiro

Desalinhando Eduardo Coutinho: o maior documentarista brasileiro

Em "Banquete Coutinho" (2019), filme de Josafá Veloso, que tenta conhecer um pouco mais do maior documentarista brasileiro, Eduardo Coutinho desdém do próprio trabalho: "Eu faço uns filmes aí eu fumo". Como se fosse simples viajar pelo Brasil em busca de histórias reais, personagens brasileiros que retratam o Brasil, entrevistar, montar uma estrutura, entrevistar, editar e lançar no mercado. Fazer um filme nunca foi fácil, ainda mais quando Coutinho tinha a missão de apresentar ao público a vida dos brasileiros como ela é, ou seja, real. A história de Eduardo Coutinho com a arte começou cedo, mas não temos uma data definida. Sabemos que ele já foi ator, diretor de cinema, revisor, crítico e jornalista - e essas passagens o ajudaram a moldar o diretor de cinema que foi em vida. Inclusive, foi na década de 1960, ainda jovem e cheio de vida, que concluiu o curso de direção e montagem em Paris. Quando volta ao Brasil, em 1962, acompanha a caravana UNE Volante, da União Nacional dos Estudantes (UNE) e encontra a história e a personagem que buscava. Elizabeth Teixeira era viúva de João Pedro Teixeira, integrante da Liga Camponesa, e carregava seus filhos, dores, perdas e sentimentos oscilantes no peito. A partir disso, Coutinho decide contar a história dessa família. A ideia foi interrompida pelo golpe militar em 1964 e o filme foi aprendido. O diretor só consegue colocar as mãos no projeto já filmado na década de 80. Por conta dos anos "perdidos" em alguma prisão do Rio de Janeiro, o diretor decide dar um novo panorama ao filme; desse modo, surge "Cabra Marcado Para Morrer" (1984), onde Eduardo Coutinho apresenta uma nova linguagem para o documentário brasileiro. O cinema de Coutinho é uma junção entre jornalismo e perguntas básicas, curiosas. O diretor já disse várias vezes: "Bom é o filme que faz perguntas, o que tem respostas, você joga no lixo". É justamente isso que Coutinho fez em sua carreira: não apresentou filmes que contenham respostas, apresentou os brasileiros de maneira crua, expondo-os. Os entrevistadores é que dão rumo aos trabalhos, ditando suas regras. Como disse o diretor João Moreira Salles, após apresentar o filme inacabado de Coutinho, "Últimas Conversas" (2016): "A cada novo filme, Coutinho aprofunda as questões de método, sem jamais transformá-las em exercícios de teorização". Leia também: Possa Nova: a persona madura de Filipe Mariz Impressões: Diante Da Dor Dos Outros Desalinhando Lima Duarte: o brasileiro esperançoso Em 2014, o diretor foi assassinado pelo seu filho Daniel Coutinho, que sofre de esquizofrenia. Coutinho morreu em sua casa. A morte do diretor foi retratada durante todo o dia em todos os veículos de comunicação. Quando foi morto, eu estava trabalhando - e foi no boteco da esquina, ao pedir um salgado para comer no almoço, que recebi a notícia de que o responsável pelos filmes "Jogo de Cena" (2007) e "Edifício Master" (2004), melhores filmes nacionais, morreu. Na faculdade de jornalismo, tive um professor de TV que era obcecado por Coutinho. Ao ensinar os alunos sobre os princípios da televisão, como escrever uma lauda e a importância do VT, esse professor utilizava os trabalhos de Coutinho para o "Globo Repórter". Então, quando eu achava que já estava bom os exemplos e que o professor poderia trabalhar com outros jornalistas, ele continuava batendo na tecla que "Coutinho é um mestre, precisamos dar continuidade ao seu trabalho". No penúltimo ano da faculdade, volto a ter aula com esse professor de TV, agora sobre documentários. Eduardo Coutinho volta para a sala de aula. Cada quinta-feira um aprendizado novo sobre o mestre do documentário. Eu brincava, piscava os olhos, ficava cansada pela devoção do professor ao diretor, mas digo agora, alguns anos depois da conclusão do curso: o trabalho de Coutinho é necessário para todos os jornalistas e aos amantes da sétima arte. Seu trabalho é único, inspirador, verdadeiro e revolucionário. Para escrever esse texto/carta aberta ao diretor que não está mais presente, revisitei alguns dos seus trabalhos. É impossível não se emocionar com os ângulos, frases, perguntas e histórias que são compartilhados com o público. Em "Banquete Coutinho", o mestre diz para Josefa: "Meus filmes são a favor da vida, eu só existo pelo lado do outro". Entre um cigarro e outro, Coutinho reflete sobre sua vida e os motivos para continuar criando, filmando. Em um momento, diz que a realidade é horrível, que viver machuca, que não contém a mágica que existe no cinema e é por e para isso que ele continua vivendo - entrega-se de corpo e alma para o cinema para poder esquecer da sua existência e seus problemas. "Eu só existo pelo olhar do outro", disse. "O tempo passará e nós partiremos para sempre. Vão esquecer nosso rosto, nossa voz; vão esquecer que nós éramos três. Mas o nosso sofrimento se transformará em alegria para aqueles que virão depois de nós. A felicidade e a paz reinarão sob a terra e aqueles que vivem agora serão lembrados como boas palavras e abençoados. Minhas queridas irmãs, nossa vida ainda não terminou. Vamos viver, vamos trabalhar." Schopenhauer dizia que precisamos da morte para filosofar sobre a vida. Porém, se perguntava: o tempo preenche nossa existência? Coutinho sabia, assim como todos nós, que a morte é a única certeza que temos, mas dizia que tinha medo da morte. É engraçado pensar que o diretor tinha medo da morte e continuava fumando mesmo com o enfisema pulmonar que o acompanhava há anos. Inclusive, ele tira sarro da doença em "Banquete Coutinho". Em "Sobre A Morte" (Martins Fontes, 2013), o filósofo alemão escreve que "a morte é a grande ocasião para se deixar de ser EU". Então, quando acaba a vida, o indivíduo encontra a sonhada liberdade para ser quem sempre desejou. Coutinho não esperou a morte, para relatar sua existência. Em entrevista Elsa Fernández-Santos, do El País Brasil, o cineasta encontra uma saída para sua vida: "Abandonei a ficção pelo documentário para livrar-me de mim mesmo. Era a única possibilidade de esquecer minha própria história: falar dos outros". Em "Últimas Conversas", Coutinho explica para Bruna, uma das personagens do filme, o que ele estava fazendo naquela sala em que filmava enquanto conversava com crianças e adolescentes: "Vou te fazer várias perguntas normais sobre a vida, e você pode responder com verdades ou mentiras, dá na mesma. Eu já não sei se a verdade existe… Vocês, jovens, são complicados porque estão vivendo, mas no entanto não tem recordações, não perderam ninguém, não amaram ninguém. Então, só perguntarei coisas idiotas, como se fosse um marciano ou uma criança de quatro anos". Através dessa fala mansa, ficando no mesmo nível do personagem, Coutinho conquistava todos. Sete anos se passaram desde sua morte e o diretor continua vivo. Seus filmes continuam construindo personas, inspirando novos jornalistas e sua arte está tão viva como era sua vontade de mostrar o outro. Eduardo Coutinho foi e continua sendo o maior documentarista brasileiro.

Dia Mundial da Língua Portuguesa

Dia Mundial da Língua Portuguesa

Estabelecida em 2009 pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), organização intergovernamental, e parceira da UNESCO, o Dia Mundial da Língua Portuguesa estabeleceu o dia 5 de maio para comemorar os países que falam a língua portuguesa. Segundo a Agência Brasil, somam mais de 260 milhões de falantes portugueses espalhados em nove países que têm o idioma como língua oficial. Para comemorar a data, o Fórum das Letras + Camões (Centro Cultural Portugês em Brasília e a Câmara Brasileira do Livro, CBL) e o Museu da Língua Portuguesa prepararam uma programação especial para debater e aprender sobre a história e os problemas culturais que continuam presentes na língua portuguesa. Confira a programação completa dos eventos abaixo: Fórum das Letras + Camões Nos dias 5, 6 e 7 de maio, o Fórum das Letras celebra, juntamente com o Camões - Centro Cultural Português em Brasília e a Câmara Brasileira do Livro (CBL), apresenta uma programação rica voltada para a discussão dos problemas culturais que são passados hoje em dia, durante a pandemia mundial do coronavírus. O evento busca promover a valorização da identidade, da diversidade e da literatura produzida, principalmente, pelos países de língua portuguesa. Serão realizados três debates com a participação de importantes nomes da literatura brasileira e portuguesa, sendo transmitida pelo canal no Youtube do Fórum das Letras. Conheça a programação: 05/05, às 11h - Mesa 1: “A Pandemia e Outros Desafios da Contemporaneidade Para a União Entre os Países da Língua Portuguesa” Convidados: Paulo Markun (Brasil), Rui Tavares (Portugal) e Jorge Ferrão (Moçambique)
Mediação de Francis Manzoni (Coordenador da Comissão para Promoção de Conteúdo em Língua Portuguesa da Câmara Brasileira do Livro) 06/05, às 11 - Mesa 2: “Como Publicar e Divulgar um Livro nos Países de Língua Portuguesa?” Convidados: Elisa Lucinda (Brasil), Filinto Eliseo (Cabo Verde) e Tito Couto (Portugal)
Mediação: Mônica Gama (Universidade Federal de Ouro Preto) 07/05, às 11 - Mesa 3: “A Mutação dos Festivais Literários na Era Digital” Convidados: José Pinho (FOLIO - Festival Literário Internacional de Óbidos - Portugal), Amosse Mucavele (Festa Literária Templos de Escrita - Moçambique) e Guiomar de Grammont (Fórum das Letras da UFOP - Brasil)
Mediação: Leonardo Neto (Publishnews) Museu da Língua Portuguesa Entre os dias 3 a 7 de maio, o Museu da Língua Portuguesa preparou uma programação diversa, contendo debates, shows, exposições e poesia. Este ano, o evento será híbrido, ou seja, online e também presencial, com a exposição temporária “Língua Solta”, para 160 pessoas, 10 pessoas de cada vez, com acesso mediante emissão antecipada de ingressos disponíveis no site da Sympla. Conheça a programação: 03/05 - Abertura ao vivo, às 19h Com: Nuno Rebelo de Souza (EDP), Paulo Jorge Nascimento (Cônsul-geral Portugal), José Pedro Chantre D’Oliveira (Embaixador da República de Cabo Verde no Brasil), Larissa Graça (FRM) e Francisco Ribeiro Telles (secretário executivo CPLP) Mediação: Renata Motta 19h30 - “Meu Bairro, Minha Língua” Pré-lançamento do videoclipe da música “Meu Bairro, Minha Língua”, que propõe em seus versos a redescoberta de nossas raízes, heranças culturais e relações históricas por artistas de Portugal, Brasil e Cabo Verde. Em seguida, o compositor Vinicius Terra conversa com Dino D’Santiago, Linn da Quebrada e Sara Correia. 04/05 - “O Museu da Língua Portuguesa hoje”, às 19h - ao vivo Os curadores Isa Grinspum e Hugo Barreto apresentam e conversam sobre a exposição de longa duração do Museu da Língua Portuguesa - o que mudou e o que permaneceu após a reconstrução. Mediação: Marília Bonas 19h30 - “Praça da Língua” O compositor e pesquisador José Miguel Wisnik apresenta uma aula sobre algumas referências literárias e musicais presentes no espaço Praça da Língua, uma das salas preferidas do público no Museu da Língua Portuguesa. 05/05 - Dia da Língua Portuguesa Ao longo de todo dia, a data contará com programação online nas redes do Museu da Língua Portuguesa com o ator e MC Eugenio Lima. 11h - “Nós da Língua Portuguesa do Mundo”
Debate entre escritores de diferentes países de língua portuguesa sobre o idioma que continua se reinventando. Convidados: Mia Couto (Moçambique), José Eduardo Agualusa (Angola) e Inês Pedrosa (Portugal) Mediação: Roberto Pinho “Eu de Cá e Tu de Lá” - Pílula - durante todo dia Exibição de vídeos de brincadeiras com palavras do Brasil, Cabo Verde e Moçambique 13h - “Bailão das Letras: O Funk e a Literatura” ao vivo Criadores de conteúdo no Instagram desafiam os preconceitos contra o funk e mostram sua relação com a literatura no dia a dia. Convidados: Funkeiros Cults (Dayrel Teixeira), Se Poema Fosse Funk (Murilo Lense) e Favela Business (Jeferson Delgado) Mediação: Andreza Delgado (PerifaCon) 15h - “As Línguas do Brasil” ao vivo Os escritores Geovani Martins e Amora Moira, junto com a pesquisadora e curadora de literatura indígena Julie Dorrico, falam sobre as variedades, influências e resistências expressas nos falares brasileiros. Mediação: Marcelino Freire 17h - “Língua Solta” ao vivo Os curadores Moacir dos Anjos e Fabiana Moraes apresentam a exposição temporária “Língua Solta”, criada para a reabertura do Museu da Língua Portuguesa. 17h10 - Performance de Tom Zé O cantor e compositor Tom Zé realiza uma performance criada com exclusividade a partir do seu olhar sobre a exposição “Língua Solta”. 18h - Maria Bethânia lê “Os Argonautas” Encerramento institucional, com Marília Bonas, diretora técnica do museu. Para encerrar a programação, em vídeo gravado, a cantora Maria Bethânia lê o poema de Fernando Pessoa marcado pelos versos: “Navegar é preciso / Viver não é preciso”. Visita especial para exposição “Língua Solta” De 4 a 7 de maio, nos horários: 9h30, 10h30, 14h30 e 15h30 Lotação: 10 pessoas por vez Classificação indicativa: 12 anos Emissão dos ingressos: Sympla

Possa Nova: a persona madura de Filipe Mariz

Possa Nova: a persona madura de Filipe Mariz

No dia 8 de março de 1959, o país conheceu o carioca João Gilberto. Com um fundo verde menta, a frase "Chega de Saudade" é destacada com o tom forte do vermelho, fazendo com que os nossos olhos compreendam, primeiro, o título do primeiro álbum do cantor que revolucionou a música brasileira. Já o nome e sobrenome do músico, ganharam a cor do mar da praia de Copacabana, azul. Ao lado, João posa com os cabelos penteados e a mão direita sobre a bochecha, enquanto os olhos focam na câmera do fotógrafo. Corta para 2021, sessenta e dois anos depois do lançamento de João Gilberto. Em 6 de abril, o cantor e compositor Filipe Mariz homenageou um dos principais músicos da MPB em seu segundo álbum, "Possa Nova". A estética é parecida, mas com um diferencial: Filipe apresenta o melhor da cena autoral de Maceió. No disco, "Possa", apelido do músico, compartilha com os ouvintes um novo Filipe, maduro e pronto para cantar e tocar sobre suas últimas experiências. Quando pergunto sobre a ideia de trazer João Gilberto em sua obra, o músico me responde: "Meu pai é muito fã desse tipo de música, que meio que entrou na minha vida ali por osmose. Mas, na real, a capa do disco era pra ser eu numa bicicleta bonitona em movimento, mas um amigo lançou o disco dele com a mesma capa, aí voltei pra ideia da capa do João. O disco não é bem um disco de bossa, mas ele bebe dessa fonte e acho que tô um charme na capa, sabe?!". Ao lado de LoreB, Yo Soy Toño, Robson Cavalcante, Leo Bomeny e Felipe De Vas, Possa embala canções de amor(es), construindo uma obra para ser compartilhada com os amantes sonhadores, ou seja, indivíduos que são capazes de sentir, sofrer, reconhecer, viver e, principalmente, amar. Leia também: Impressões: Diante Da Dor Dos Outros Os embalos de Thays Prado LoreB a todo vapor Você é conhecido como "Possa" e o seu novo álbum tem o título de "Possa Nova". Pode-se entender que o álbum apresenta uma nova versão sua? O apelido "Possa" começou por volta de 2014 e ficou até hoje. Em Maceió, eu trabalho com eventos de todos os tipos, desde festivais culturais a festinhas muito loucas e acabou que o "Possa" remeteu muito a isso, sabe? Conhecem a "Festa do Possa" e muitas pessoas não sabem nem que meu nome é Filipe [risos]. Então, pode-se dizer que o "Meu Nome Não É Possa" (2018) [seu primeiro álbum] é justamente nesse sentido de dizer: "Ó, o Possa também é o Filipe aqui que canta músicas de amor" e o "Possa Nova" é um novo ciclo que tô passando nesse exato momento. Suas novas canções contam histórias de amores. Como foi escrever essas músicas que também traz sua biografia? Alias, trazer suas vivências foi em algum momento difícil? São sentimentos comuns a todos nós. Quem nunca se apaixonou ou sofreu por amor? O meu primeiro disco, eu sinto mais inocente, sabe? Tava descobrindo o que era amar uma pessoa muito especial que guardo com muito amor até hoje. No "Possa Nova", escrevo músicas sobre uns cinco relacionamentos diferentes. Criei esse hábito de, sempre que tenho um sentimento muito forte, escrever no bloco de notas já para sanar minha ansiedade. Algumas delas foram pontos finais, pois tenho muita dificuldade de desapegar de uma pessoa que gosto, outros foram pontos de partida. Eu sei que amei, fui amado de volta, mas também senti na pele a rejeição e o medo dela. Mas, de tudo que vivi, guardo aqui comigo no coração as pessoas que amei, que amo e que talvez nunca deixe de amar. Neste álbum, você reúne diversos artistas contemporâneos. Você já tinha trabalhado com alguns no primeiro álbum. Como foi esse reencontro e quais motivos para continuar trabalhando com parceiros? Eu comecei a gravar as músicas meio sem saber quem ia cantar. Propus a algumas pessoas que acabaram deixando pra depois ou não combinando com a música, mas o critério de escolhas foi admiração mesmo - pela voz, pelo trabalho, pela amizade. Gosto muito de todos e fico muito feliz por ter dado voz a pessoas que são muito talentosas e ainda não se lançaram na carreira da música, além dos meus parceiros de longa data. Maceió é pequena, sabe? Meio bairro, acaba que quem está trabalhando de verdade se conhece, apesar de como toda "cena" ter seus núcleos e grupos de afinidade. Em resumo, tenho a certeza que escolhi muito bem as participações e tenho um carinho e afeto real por elas. Você lançou um álbum durante a pandemia. O isolamento social influenciou no processo e no lançamento? Criar, mixar, montar um álbum durante esse momento foi difícil? O processo foi bem solitário, não pude reunir uma banda, então gravei o disco todo antes de gravar de verdade. Tava com tempo, né? [risos] Depois, fui chamando os músicos que colocaram os instrumentos individualmente, alguns de forma remota, outros presencialmente - mas com os devidos cuidados. "Possa Nova” foi produzido por meio do apoio da Secretaria de Estado da Cultura de Alagoas (Secult/AL) e do incentivo federal da Lei Aldir Blanc. Inclusive, é com esse álbum que ouvimos a voz do cantor e conhecemos a fundo Filipe, concluindo que não é possível separar o criador da obra. Você é uma das vozes mais importantes e conhecidas da cena independente de Maceió. Tem alguma pressão que foi imposta em você e tu precisa entregar um resultado esperado para os ouvintes, principalmente nos dias sombrios que estamos vivendo? Nossa, sim! Eu sou muito engajado na música em Maceió, e isso me traz uma cobrança bem doida. Imagina eu lançar um disco que tem algum erro grotesco? O que meus clientes de áudio vão achar de mim? Em resumo, masterizei esse disco oito vezes! Todos os dias encontrava algum erro, ou algo que me incomodava, e entre num loop de perfeccionismo até chegar aonde estou agora, que eu não mudaria nada! Evito até ouvir novamente pra não me arrepender de alguma decisão que tomei, isso tem sido bem positivo pois estava ausente do estúdio antes da pandemia, me dedicando mais a produções de eventos por ser um nicho que estava me dando mais retorno financeiro. Hoje, o estúdio está com agenda cheia e fico muito feliz pelo feedback que meus clientes me deram, espero continuar entregando coisas boas pra eles. O setor da cena independente cresceu, mas ainda passa por diversas dificuldades. Quais são as dificuldades que você passou e/ou passa e qual o impacto da internet em sua carreira? Eu escuto reclamações sobre algoritmos diariamente, as pessoas falam muito sobre isso, né? Como o Mark Zuckerberg tenta obrigar a gente a pagar pelo alcance, por exemplo. Mas não tenho o que reclamar não, o disco tá sendo ouvido e tá muito do boca a boca mesmo. Apostei no engajamento orgânico, em pessoas divulgando para pessoas, cada músico(a) e artista compartilhou com sua rede de relacionamentos e tornou esse disco um fator que parou o Instagram no dia que foi lançado, tem gente que nunca mais vai querer ver a minha cara novamente. Para esse ano, você pretende fazer lives, apresentar o disco pela internet? E quando todo mundo estiver vacinado, podemos esperar shows? Tenho algumas coisas em gatilho, por esses dias saí um clipe, tenho um vídeo live e em breve o show em formato live também, só estou esperando as coisas melhorarem um pouco por aqui, não tem como fazer o show que espero sem reunir pessoas, sabe? Quero alguns cantores presentes e, quando tudo isso passar, pode ter certeza que vou fazer um grande show, num teatro gigante com um terço das cadeiras ocupadas [risos]. "Posa Nova" está disponível em todas as plataformas de streaming - e já entrou para o top 10 de melhores álbuns nacionais do Desalinho. Ouça, compartilha e viva a (B)Possa Nova!

Bruna Caram canta Gonzaguinha

Bruna Caram canta Gonzaguinha

Desde 2019, a cantora, compositora, preparadora vocal, empresária, fundadora da Cor e Voz, e ativista no combate ao abuso sexual de crianças e adolescentes pela campanha "Ninguém Mexe Comigo", Bruna Caram, vem abordando a arte como cura, luta e união. Dois anos depois, ela volta a cantar pela união no seu novo álbum, intitulado "Afeto e Luta - Bruna Caram canta Gonzaguinha". Através do seu instagram, Bruna fará lives, nos dias 28 e 29 de abril, às 20h, para relembrar Gonzaguinha, uma das vozes mais poderosas do Brasil. Além disso, personalidades importantes participarão da live, como: Zé Renato, Jean Wyllys, Roberta Sá, Luciana Mello, Diego Moraes, Zeca Baleiro, Chambinho do Acordeon, Gabriel Leone e muito mais. "O que mais amo na obra de Gonzaguinha é que sua indignação soa cheia de alegria. Na obra dele, a luta por dignidade humana soa como a única luta possível, com espontaneidade e verdade. É um prazer cantá-lo em tempos de intolerância. Gonzaguinha nos faz redescobrir a esperança", explica a artista. Na quinta-feira, 29, data que completa 30 anos da morte do compositor, a artista lança sua versão da faixa "Redescobrir", com participação de Zé Renato, do grupo Boca Livre. O próximo disco de Bruna Caram deve ser lançado no final de 2021. O álbum conta com roteiro e pesquisa de repertório de Jean Wyllys, produção musical de Norberto Vinhas (que também assina a produção do álbum) e direção de interpretação de Cris Ferri.

Desalinho indica: Audioguia Mulheres do Futebol

Desalinho indica: Audioguia Mulheres do Futebol

Após a campanha de financiamento coletivo Minha Voz Faz História, o Audioguia Mulheres do Futebol ganhou forma e acaba de ser lançado! Narrado pela cantora e compositora Leci Brandão, o audioguia reúne 100 anos de histórias das mulheres do futebol brasileiro, que repara o silenciamento histórico e a diferença de gênero ao contar a trajetória de atletas, treinadoras, árbitras, jornalistas e torcedoras. Apoiado por mais de trezentos benfeitores, o projeto é um complemento à exposição de longa duração do Museu do Futebol, apontando os itens e trazendo histórias do futebol feminino relacionadas ao tema de cada uma das salas. Na "Sala Heróis", são destacadas as heroínas do esporte; enquanto os causos do Mundial Feminino são contados na "Sala Copas do Mundo". Na "Sala Exaltação", Leci traz histórias de torcedoras que ocupam as arquibancadas e lutam pelo direito de torcer. Para finalizar, o audioguia conta com a "Sala Anjos Barrocos", onde a trajetória de Sissi, primeira camisa 10 da seleção brasileira feminina, e de Cristiane, maior artilheira dos Jogos Olímpicos; enquanto no espaço dedicado a Pelé e Garrincha, as homenagens ficam para Marta e Formiga. Para pensar: O futebol feminino foi proibido no Brasil por quase 40 anos! Entre 1941 e 1979, foi criado um decreto-lei nacional que impediu as mulheres de jogar, sob risco de prisão. Não era só isso! Elas também não puderam se organizar em clubes, participar de escolinhas e, consequentemente, disputar campeonatos. O Audioguia Mulheres do Futebol está disponível no Spotify, YouTube e também no aplicativo do Museu do Futebol.

Impressões: Diante Da Dor Dos Outros

Impressões: Diante Da Dor Dos Outros

Quando você pensa em guerra, quais são as imagens que vem à sua mente? Pessoas mutiladas? Lágrimas? Desespero? Morte? Se você respondeu à minha questão com alguns dos exemplos que escrevi, saiba que não está sozinho - a maioria das pessoas pensam em algum terror explícito. Essas imagens (e narrativas) continuam nos chocando, no entanto, já tornaram-se "comuns", ou seja, fazem parte do nosso cotidiano. Quando começamos a aceitar e compartilhar a dor dos outros? Somos capazes de argumentar sobre expor o outro? Se a vida é garantida pelo Código Civil Brasileiro e pela Constituição Federal, por que continuamos aceitando a dor dos outros? Na semana passada, Rita Von Hunty fez um vídeo debatendo a proteção de crianças que não fazem parte da sociedade - negras, periféricas, pobres, trans, homossexuais. Sob o título "Defender Crianças", a professora aborda as violências de gênero e como o aumento de violências durante a pandemia aumentaram, escancarando as diferenças sociais e de gênero. Mesmo que o Estatuto da Criança e da Adolescência (ECA) garanta que todas as crianças e adolescentes, independentemente de cor, etnia ou classe social, tenham direito a vida e todos os cuidados para se tornarem adultos saudáveis, não são todas as crianças que possuem esse direito - onde estão as três crianças, Lucas Matheus, Alexandre e Fernando Henrique, de Belfort Roxo (RJ)? E os responsáveis pelos assassinatos estatais das crianças negras, brasileiras e periféricas? Existe justiça? Não só isso! Em uma pandemia mundial, aceitamos as mortes diárias de três mil pessoas. Choca, mas aceitamos, porque faz parte do nosso cotidiano. Hoje, depois de um ano, torcemos que o vírus invisível não mate aqueles que amamos. Mas e a dor dos outros; elas não valem mais nada? "(...) Mas as pessoas querem sentir-se horrorizadas? Provavelmente não. Todavia há fotos cujo poder não se enfraquece, em parte porque não se pode vê-las com frequência. Fotos de rostos destroçados, que sempre irão testemunhar uma grave iniquidade, sobreviveram a esse preço: o rosto horrivelmente desfigurado de veteranos da Primeira Guerra Mundial que sobreviveram ao inferno das trincheiras; o rosto empapado e inchado com o tecido das cicatrizes de sobreviventes das bombas atômicas americanas lançadas em Hiroshima e Nagasaki; o rosto fendido a golpes de facão dos tutsis que sobreviveram ao genocídio desencadeado pelos hutus em Ruanda - será correto dizer que as pessoas se habituam a essas imagens?" Em "Diante Da Dor Dos Outros" (Companhia das Letras, 2013), Susan Sontag discute sobre o sofrimento dos outros a partir da pintura de Goya, passando por fotografias e imagens produzidas durante a Guerra Civil Americana, Primeira Guerra Mundial, Guerra Civil Espanhola, campos de concentração nazistas e o World Trade Center. Desde o primeiro conflito citado no livro (1861), o indivíduo continua com o mesmo comportamento ao tratar da perda do outro? Susan não responde às questões que colocou no livro, nem os questionamentos dos leitores - o que ela faz em "Diante Da Dor Dos Outros" é propor uma reflexão que nos faça encontrar uma saída para o sofrimento alheio. Leia também: AIUKÁ: o uivo dos dias de hoje Impressões: Descobri Que Estava Morto Ditadura nunca mais: 10 obras para relembrar o passado Qual o papel da fotografia? E a responsabilidade do fotógrafo? De acordo com a autora, em seu livro "Sobre A Fotografia" (Companhia das Letras, 2004), a fotografia é uma ilusão, impossível de mostrar a realidade: "Todas as fotos são memento mori. Tirar uma foto é participar da mortalidade, da vulnerabilidade e da mutabilidade de outra pessoa (ou coisa), justamente por cortar uma fatia desse momento e congelá-la, toda foto testemunha a dissolução implacável do tempo". Mesmo que o fotógrafo tenha responsabilidade, crie um contexto para tirar uma foto, a mídia explora esses corpos, as cenas violentas, para criar uma certa apatia, mostrando que a violência é diária e que devemos aceitá-la. No entanto, questiono: devemos aceitar a violência apenas da minoria? Por que quando uma criança branca é brutalmente torturada e assassinada existe justiça? Os "corpos alheios" realmente não valem nada? Para Sontag, as fotografias devem ficar em livros, já que após a leitura, as imagens ficam na memória. "(...) Para um palestino, uma foto de uma criança estraçalhada pelo tiro de um tanque em Gaza é, antes de tudo, uma foto de uma criança palestina morta pela máquina de guerra israelense. Para o militante, a identidade é tudo. E todas as fotos esperam sua vez de serem explicadas ou deportadas por suas legendas. Durante a luta entre sérvios e croatas no início das recentes guerras nos Bálcãs, as mesmas fotos de crianças mortas no bombardeio de um povoado foram distribuídas pelos serviços de propaganda dos sérvios e também dos croatas. Bastava mudar as legendas para poder utilizar e reutilizar a morte das crianças." Assim como a história, não podemos esquecer. Não podemos esquecer todas as atrocidades que os seres humanos já passaram. No entanto, é preciso ter cuidado e bom senso (algo que está em falta), para não fazer com que a dor do outro vire um circo (palavra empregada com o objetivo de abranger as fake news, manipulações e tirar a fala fora do contexto). "(...) Esses mortos se mostram completamente desinteressados pelos vivos: por aqueles que tiraram suas vidas; por testemunhas - e por nós. Por que deveriam procurar o nosso olhar? O que teriam a nos dizer? "Nós" - esse "nós" é qualquer um que nunca passou por nada parecido com o que eles sofreram - não compreendemos. Nós não percebemos. Não podemos, na verdade, imaginar como é isso. Não podemos imaginar como é pavorosa, como é aterradora a guerra; e como ela se torna normal. Não podemos compreender, não podemos imaginar. É isso o que todo soldado, todo jornalista, todo socorrista e todo observador independente que passou algum tempo sob o fogo da guerra e teve a sorte de driblar a morte que abatia outros, à sua volta, sente de forma obstinada. E eles têm razão."

AIUKÁ: o uivo dos dias de hoje

AIUKÁ: o uivo dos dias de hoje

Em "Uivo" (1956), Allen Ginsberg aborda o carma da geração norte-americana. Misturando realidade, ficção e o fluxo de consciência, o escritor beat foge da estética tradicional da poesia para relatar, livremente, a raiva e o desespero da sociedade americana dos anos 50. "Eu vi os expoentes de minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus…", escreve. No decorrer das palavras, o poeta beatnik retrata os delírios causados por drogas, as perversidades, o sexo devasso, a luta contra a censura e os rumos que os Estados Unidos tinham tomado. Sessenta e cinco anos se passaram após a primeira publicação do poema e o uivo de Ginsberg respinga nos dias de hoje. Em 2021, assistimos homens e mulheres destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos por conta da situação brasileira e sem esperanças. Seguindo os passos do escritor e se inspirando em AIYÉ, Boogarins e Vítor Brauer, surge AIUKÁ, projeto solo do músico, compositor e escritor, Guilherme Krema. Criado durante a pandemia, AIUKÁ conta com o single "Refúgio", lançado no início deste mês, que busca encontrar conforto em meio ao caos que o Brasil passa. Entre notas musicais e elementos eletrônicos, Guilherme Krema canta e, em alguns momentos, recita a letra, dando continuidade a linguagem livre da geração beat. Leia também: Impressões: Descobri que Estava Morto Os caminhos de Matheus Noronha Desalinhando Jack Kerouac: o vagabundo iluminado AIUKÁ surgiu no meio da pandemia. Qual o seu significado e por quê apresentar agora? Os últimos anos antes da pandemia foram particularmente intensos. Viajei muito, fui a diversos shows, conheci muitas pessoas e tive centenas de epifanias relacionadas ao modo que a cidade exerce influência nas nossas interações como coletivo. Nesse tempo, cursei todas as cadeiras da faculdade de artes visuais, transformei em poesia muita das reflexões e inquietações desse período. Com o objetivo de me conectar com a natureza e meu imaginário pessoal, no final de 2019 fiz um mochilão pelas praias de Santa Catarina, e vivi uma sequência de experiências que me trouxeram novos olhares sobre o místico e minhas próprias raízes ancestrais. Foi aí que me deparei com AIUKÁ, uma palavra iorubá, que significa "fundo do mar", e tomou grande significado devido a esse tempo que passei tão conectado com o mar. Voltei para a cidade em fevereiro de 2020, pouco antes do início da pandemia, e ao mesmo tempo que a reclusão forçada foi um choque - o meu processo criativo aflorou muito rápido. Buscar novos processos de composição para expressar minhas vivências foi um caminho natural. "Refúgio", seu recente single, aborda temas e sentimentos que todos, ou quase todos, passaram durante a pandemia. Como foi o processo dela? Como foi escrever a canção? A verdade é que quando escrevi o poema que originou a canção eu nem imaginava tudo que ainda iríamos viver. Escrita na metade de fevereiro do ano passado, a "loucura" a que me refiro é o fanatismo ao atual "presidente" e as manifestações pró-ditadura que já estavam acontecendo naquela época. "Refúgio" conta com diversos gêneros musicais, me lembrando, no decorrer da canção, um grito sobre o que estamos vivendo. Essa foi sua intenção? É um grito sobre o genocídio que estamos vivendo? Não era minha intenção principal, mas o próprio tempo foi ressignificando ela. A mistura caótica de elementos e o tempo bagunçado da canção foram pensados pra transmitir angústias e incertezas, mas não tão intensas como as que vivemos agora. A situação desesperadora que vivemos no país me causa uma raiva muito grande direcionada ao descaso com as nossas vidas, e ainda nem consigo criar a partir disso. A canção me lembrou uma mistura de Vítor Brauer, Lupe de Lupe e as poesias de Ginsberg. Você comentou que tem uma mistura entre os elementos, de forma inconsciente. Qual o impacto desses artistas na sua vida? Cresci com uma vontade muito grande de viajar, conhecer pessoas e novas realidades. O meu encontro com a literatura do Ginsberg e dos Beats foi uma reafirmação desses valores que eu já desenvolvia desde pequeno. Sou apaixonado por literatura, trabalhei nesse meio durante um tempo e tenho contos e poesias publicadas em coletâneas Brasil afora. Muitas das minhas pesquisas e paixões literárias transbordam no que escrevo, e muito do que escrevi nos últimos anos está compilado nas canções do EP ["Tigres Vermelhos em Marte Caçando Estrelas Cadentes", que deve ser lançado em breve]. A influência do Brauer é parecida, já que desde a primeira vez que ouvi Lupe de Lupe e li sobre as turnês "improvisadas" do Brauer, eu senti essa conexão e reafirmação de muitas crenças particulares que envolvem ir pra estrada na busca de concretizar sonhos e desejos. O meu primeiro projeto musical se chamava "Ao Sul de Nada", com os companheiros desse projeto, eu toquei durante dois anos na rua, com violões, vozes acústicas e chapéu no chão para arrecadar o dinheiro que nos possibilitaria seguir viagem. Juntos, fomos e voltamos de Montevidéu, numa viagem de mais de 2 mil quilômetros percorridos com caronas na estrada. Em "Refúgio", você canta e recita: "Sob alucinógenos / As ruas dormentes gemem / E os egos se debatem / nas paredes turvas da realidade". Os alucinógenos seriam o que, os remédios para aliviar a tristeza ou qualquer situação do dia a dia? Eu falo de alucinógenos mesmo. Essa frase sintetiza bem o ambiente em que o EP se passa - uma atmosfera noturna e cosmopolita, um personagem sob efeito de alucinógenos vaga entre vozes, visões, festas e bares, procurando antigas paixões e pessoas de quem sente saudade. A maior parte das letras foram escritas antes da pandemia, mas as canções de fato nasceram já em isolamento, então, muito disso está ressignificado ao contexto atual, já que ansiedade, saudade e solidão são sentimentos que muitos de nós partilham nesse momento. Depois de pegar a estrada para se conhecer e buscar a espiritualidade desejada, Jack Kerouac descreveu suas impressões pelas ruas americanas. "Qual é a sua estrada, homem? A estrada do místico, a estrada do louco, a estrada do arco-íris, a estrada dos peixes, qualquer estrada… Há sempre uma estrada em qualquer lugar, para qualquer pessoa, em qualquer circunstância. Como, onde, por quê?". A estrada é dolorosa, mas possível de conviver e transformar o ser humano - como diz a música de AIUKÁ. Seu single surgiu na pandemia e foi mixado em seu quarto, um local em que o "estrangeiro" não consegue entrar. Como foi essa experiência? Os meus processos de composição para os outros projetos musicais que eu tive sempre envolveram o modo clássico de voz e violão, mas há tempos isso já não refletia a sonoridade que eu buscava para transmitir o que escrevia. Foi um momento de experimentação solitária, mas de grande conexão com minhas próprias ansiedades e paranoias, através de instrumentos reversos e texturas eletrônicas, explorando como produtor as possibilidades e caminhos da criatividade mais espontânea que eu já experimentei. Foi um processo muito prazeroso de redescoberta pessoal. Inclusive, quais são as dificuldades em produzir durante esse período? Tem sido fácil escrever, produzir? Tem sido absurdamente difícil produzir. As canções que vou lançar nasceram em um período ainda de transição, em que era difícil prever até onde tudo isso iria chegar. O número absurdo de mortes, o descaso do governo e o avanço do pensamento conservador me causam tantos sentimentos ruins que tem sido praticamente impossível escrever ou produzir músicas nesse momento. Tenho encontrado conforto nesse processo de lançamentos, mas produzir músicas novas nesse momento ainda é um pouco utópico. Seu futuro EP "Tigres Vermelhos em Marte Caçando Estrelas Cadentes" contará com sete canções baseadas nesse estilo de criação. O que podemos esperar? As canções seguirão o mesmo estilo de "Refúgio"? O processo de cada música foi experimental e muito particular. Maior do que buscar uma sonoridade de mercado ou seguir estruturas óbvias, busquei me entregar ao processo de composição e produção, descobrindo onde cada música poderia soar mais sincera e realmente refletir tantos signos que carrego no meu imaginário. "Refúgio" é mais experimental em questão de sonoridade, mas a maioria não possui refrão, as vozes alternam entre trechos cantados e recitados e as texturas eletrônicas se unem a ritmos incomuns. Hoje, analisando as canções com um olhar mais distante, consigo traçar paralelos entre os trabalhos mais experimentais de músicos como Thom Yorke e Bjork. Claro que passo longe da genialidade deles, mas certos pontos em comum não são tão difíceis de encontrar. Sempre vivemos em um país que não se importa com a cultura. Por que continuar fazendo arte? Eu também sou produtor cultural e acredito que a arte tem o poder de se manifestar nos lugares mais improváveis, então é meu papel estar atento e ativo, buscando através da arte a transformação do meu ambiente. E, particularmente, nesse momento, a arte me ajuda a manter a sanidade. É resistência, é afirmação de valores, é transformação pessoal e afirmação do meu ser político. Tristeza e angústia são alguns dos diversos sentimentos que passamos. Você sente que precisa entregar aquilo que estamos vivendo e sentindo? Tem pressão dos ouvintes? O meu propósito principal era ser genuíno e sincero, partir sempre do meu ponto de vista sobre as situações e sobre o outro. Sinto que preciso entregar aquilo que eu vivo e sinto, acontece que no momento partilho da tristeza e da angústia da maioria. Ginsberg escrevia para todos, sobre todos. Quando estava vivo, disse para seus pupilos: "Siga seu luar interior; não esconda a loucura". Guilherme compreendeu e seguiu a filosofia do escritor, pois mostra-se o seu verdadeiro, sem medo. Quais os planos para o futuro? O que podemos esperar do seu EP? AIUKÁ foi um projeto contemplado pela Lei Aldir Blanc, e assim que os shows voltarem a acontecer, terei cinco apresentações para fazer ao lado de grandes amigxs que toparam repaginar essas canções em formato de banda. Espero que quando as coisas melhorarem, possamos viajar tocando esse disco também. Enquanto tudo isso ainda é sonho, me mantenho focado nesse processo de lançamentos. Vou lançar mais 2 singles nos próximos dois meses, antes de largar o EP cheio. Quem se interessar e me acompanhar nesse caminho vai ser presenteado com um registro muito pessoal e experimental, que reflete muito o que sou, sinto e sonho. É um disco estranho e diferente, mas justamente sobre abraçar essa estranheza pessoal, sem negar tristezas, paranoias e ansiedades, mas utilizá-las como forma de expressão e libertação. "Refúgio", do AIUKÁ já está disponível nas plataformas dos principais aplicativos de streaming.

Festivais online e gratuitos

Festivais online e gratuitos

Enquanto a vacina para todos não chega, a arte continua seguindo com a missão de fazer seus admiradores acalmarem-se com diversos eventos online e gratuito. Se você é fã de literatura e música, confira as três dicas que o Desalinho separou: #CulturaEmCasa Para comemorar um ano da plataforma #CulturaEmCasa, que traz diversos conteúdos artísticos, o feriado do dia 21 de abril contará com a presença do tropicalista Tom Zé. Às 21h, o músico apresenta suas músicas, além de conversar com o público, entregando esperança. Para assistir o show de Tom, acesse: www.culturaemcasa.com.br III Festival de Música Histórica de Diamantina A 3° edição do III Festival de Música Histórica de Diamantina já tem data: 23 de abril e 1 de maio. Com a temática “O Acervo Somos Nós”, o festival tem a proposta de explorar os diversos acertos de música existentes, com ênfase em Minas Gerais. Com atividades, apresentações artísticas, minicursos e exposição visual, os participantes conhecerão a fundo sobre a história, as dinâmicas e a preservação da diversidade musical. Para conferir os convidados, programação e mais, acesse: www.musicahistoricadiamantina.com.br Na Janela O #NaJanelaFestival da Companhia das Letras está de volta! Sob o tema “Reflexos: Diálogos Literários”, o evento começará na sexta-feira, 23 de abril, em comemoração ao Dia Mundial do Livro, e termina no domingo, 25. Com apresentação das jornalistas Adriana Couto e Stephanie Borges, o Na Janela terá uma série de encontros em que um autor entrevista outro autor, sem mediação. A partir da literatura, serão abordados temas como personagens, escrita, leituras e carreiras. O evento será transmitido através do canal no YouTube da Companhia das Letras. Para conferir a programação e os nomes, clique aqui.

Impressões: Descobri Que Estava Morto

Impressões: Descobri Que Estava Morto

J. P. Cuenca me lembra um ex namorado que tive. Ambos escrevem, pensam em morte constantemente e dizem que escrever é doloroso (essa última questão, concordo). Tentei fazer uma breve lista de prós e contra visando as características dos dois homens, mas desisti - principalmente porque as listas não funcionam pra mim. No entanto, Cuenca é mais divertido, talvez ele tivesse ganhado. Através de um humor ácido, Cuenca retrata o seu não falecimento em 2008 em "Descobri que Estava Morto" (TusQuets, 2016). Após jogar lixo, pela janela, em um grupo de funcionários de um restaurante, o escritor é fichado pelo crime de "Ameaça e Arremesso ou Colocação Perigosa, sob o Registro de Ocorrência n° 014-03595/2011". A partir do seu crime descobre, três anos depois, que um homem foi enterrado com o seu nome, com sua identidade. Ele relata o choque já no primeiro parágrafo: "Descobri que estava morto enquanto tentava escrever um livro. Ainda não era este livro". Tenho pensado muito sobre a morte nos últimos tempos. Quem não está?! Não podemos mais fazer planos para os próximos dias ou sonhar com um show de um artista que gostamos. A vida foi alterada do dia para noite - e não há luz no fim do túnel com os milicianos no poder. Então, imagino como eu reagiria ao saber que alguém usou meu nome, minha identidade, para morrer. Minha vida também acabou? Eu iria atrás de respostas como Cuenca fez? Faria alguma crítica? O que você faria? "(...) - As pessoas costumam roubar a identidade das outras pra fugir. Pra tentar outra vida. É bem comum malandro tomar a identidade de um morto pra viver com o nome dele. Mas isso aí…" Leia também: Desalinhando Andrei Tarkovsky: o cineasta da vida Impressões: Carnage China continua resistindo em dias mortos "Descobri que Estava Morto" vai muito além da descoberta do escritor. A morte retrata diversas questões: a identidade de Cuenca, a fragilidade do Rio de Janeiro dividido pela desigualdade social e está quase morto, o desequilíbrio emocional e da criação literária. Colapso leva ao desequilíbrio que leva à morte. Fim. Fecham as cortinas. "- Então você morreu, mesmo.
- Morri.
- Puta merda, João, que maravilha!
- Você acha engraçado?
- Engraçado, não. É que para um escritor é sempre bom morrer." No decorrer da leitura é possível lembrar "O Jogo da Amarelinha", de Julio Cortázar. Assim como a obra do escritor argentino, Cueca cria um verdadeiro quebra-cabeças narrativos, onde o leitor é livre (se quiser, se puder) para desvendar. No entanto, ao aceitar o desafio de compreender a morte do escritor, nos questionamos - J.P está falando sobre ele, o outro ou nós? É impossível não se enxergar no enredo que o autor escreve. "(...) Sentia falta não de casa, mas de tudo o que ia deixando para trás, como se algo meu se desfizesse pelo caminho. A essa saudade ao contrário da terra natal os alemães chamavam de Fernweh. A velha máxima de Baudelaire, “parece que sempre serei feliz onde não estou”, para mim valia apenas enquanto estava no Rio de Janeiro.” Outro ponto interessante da obra é quando percebemos que Cuenca usa a sua não-morte para expor com sinceridade e sem vergonha o círculo de amigos e suas festas. Entre artistas, jornalistas, intelectuais, publicitários e "poderosos", o semi-morto compartilha com o leitor as festas regada a drogas, bebidas e sexo, ao lado do morro em que a policia atira para matar a população pobre, negra, invisível do Rio de Janeiro. Além disso, também critica a imprensa que publica apenas aquilo que tem interesse. "(...) João Paulo Vieira Machado de Cuenca: aquelas seis palavras eram veneno para os meus ouvidos, e um lado meu sorria ao vê-las ligadas a um morto. Talvez aquilo significasse que eu, enfim, poderia enterrar aquele nome e começar a usar outro." É interessante como J. P. Cuenca usa a descoberta de sua morte para criar uma história sobre o seu desespero, mas que também é nosso, porque somos humanos carregando uma multidão dentro de nós. No decorrer das três partes do livro, o autor encontra também sua redenção, pois o que não falou em vida, disse após morrer.