My Items
I'm a title. Click here to edit me.

Conheça: Luca Frazão
Entre cordas, silêncios e melodias, Luca Frazão constrói uma obra que se move entre delicadeza e intensidade. Seu trabalho nasce do violão, mas se expande para uma linguagem própria, atenta aos detalhes, às texturas e às possibilidades do instrumento. A partir dessa pesquisa, o músico apresenta "Despencando", single que antecipa seu primeiro álbum, previsto para chegar no mês que vem. (Créditos: Rebeca Figueiredo) A faixa revela parte do universo que Frazão vem construindo ao longo de sua trajetória, em que o violão deixa de ocupar apenas o lugar de acompanhamento para assumir o protagonismo. Entre diferentes possibilidades sonoras e uma escuta cuidadosa, o músico transforma as cordas em espaço de experimentação, criando uma música que transita entre a tradição e uma perspectiva contemporânea sobre o instrumento. “É como se uma melodia insistisse em subir, mas acabasse sempre vencida pela força inevitável da gravidade”, aponta Luca. Leia também: Conheça: Choro da Quitanda Duo Violeta faz da escuta atenta uma narrativa em Mar Pequeno As terras de Ricardo Nash Composta por Luca Frazão, produzida por Swami Jr. e mixada e masterizada por Thiago Abdalla, a faixa destaca o virtuosismo de Luca Frazão no violão de sete cordas e combina elementos do choro, do jazz e do repertório latino-americano para violão de concerto. O seu debut poderá ser conhecido antes mesmo de chegar às plataformas. Nesta terça-feira, 25, Luca Frazão se apresenta em São Paulo durante o Festival de Cordas Dedilhadas, realizado pela EMESP Tom Jobim. A apresentação acontece às 17h, no Auditório Zequinha de Abreu, na EMESP Tom Jobim (Largo General Osório, 147, Luz), com entrada franca. Apoie financeiramente o desalinho e ajude a manter um espaço independente dedicado à crítica, às entrevistas e à divulgação da cultura independente. Toda contribuição faz diferença.

As histórias de Luiz Amargo
Existe uma espécie de ambiguidade na maneira como Luiz Amargo observa o mundo. Basta olhar para o "sobrenome" escolhido pelo músico. A transformação de Luiz Amaro em Luiz Amargo oferece uma pista importante sobre sua obra: há humor onde existe desconforto, ironia onde há tragédia e beleza justamente nas contradições. É como se o artista sussurrasse para quem o ouve: "o amargo cura". Ao abordar inquietações de diferentes gerações - como o amor em tempos de crise, as mudanças climáticas e a sexualidade fluida -, Luiz Amargo transforma aquilo que muitas vezes não conseguimos controlar (e nem mesmo nomear) em matéria para a criação. Em Amor de Mula (2024), seu primeiro disco, o compositor parte de uma expressão popular arcaica que define um amor dúbio, tão obstinado que acaba por matar o ser amado. A partir dessa imagem, o álbum transforma os afetos em uma lente para observar também a maneira como nos relacionamos com o mundo, com o outro e com as próprias contradições do presente. (Créditos: Divulgação/Reprodução) As canções não apenas falam sobre sentimentos: elas constroem personagens, situações e pequenas dramaturgias para investigar o que existe por trás deles. O amor aparece como desejo, excesso, insistência, perda e até destruição. Ao mesmo tempo em que olha para o íntimo, o músico amplia o enquadramento e encontra nas relações pessoais os reflexos de um mundo atravessado por crises coletivas. Essa predisposição aproxima Amor de Mula de Canções Para Cinema (2026). Se no trabalho anterior Luiz Amargo constrói histórias dentro das próprias canções, no EP ele desloca essa narrativa para o território da sétima arte. As músicas passam a nascer em diálogo direto com filmes, diretores, personagens e dramaturgias, recuperando uma tradição do cinema brasileiro em que compositores populares escreviam canções originais para as imagens. As 5 faixas, nas quais Amargo é compositor, letrista e produtor, dialogam com a atividade autoral do artista, mas também exploram outras sonoridades e gêneros, de acordo com as necessidades de cada filme. O trabalho reúne canções inspiradas pelo brega brasileiro dos anos 1970 ("Sonhei Contigo", do filme O Retrato, de Taline Caetano), o rock francês dos anos 1960 ("Janette" do filme Janete, de Rebecca Cerqueira), e até mesmo música instrumental de vanguarda, combinando atonalismo e música eletroacústica ("Filme Noir", do filme Filme Noir. de Rodrigo Pires). A faixa "Quem Ficou Fui Eu", do filme homônimo dirigido por Maria Garé e Luísa Pacce, conta com interpretação comovente da atriz Georgette Fadel, que também atua no filme. Leia também: Conheça: Mau k O colapso sonoro de Gloios Ludovic: Ludovic Sua música transita por diferentes referências e gêneros. Essa diversidade já estava presente desde o começo ou foi sendo construída ao longo da trajetória? É uma coisa que sempre esteve presente. Eu comecei a tocar relativamente tarde, só com uns quinze ou dezesseis anos, mas, antes disso, sempre fui um ouvinte muito dedicado. Eu gostava de parar para ouvir álbuns, ler os encartes (era a época dos CDs), eu decorava as letras de álbuns inteiros de tanto ouvir, embora ainda não cantasse. Hoje em dia eu dou bastante importância a esse período e ainda tento preservar esse hábito. Durante a maior parte da infância e adolescência, eu nunca imaginei que seria músico, na verdade eu tinha mais intimidade com a literatura e o cinema, mas essa escuta musical atenta me influenciou bastante, e me fez buscar ouvir muita coisa diferente. Os meus pais também tiveram bastante influência nisso, eles gostavam de me apresentar diversos tipos de música, de diversas épocas e diversos lugares do mundo. Amor de Mula traz ironia, crítica social, melancolia e, claro, amor - questões que carregamos. Quando você percebeu que gostaria de abordar esses temas no primeiro álbum? Dificilmente eu penso: “gostaria de abordar tal tema em uma canção” e daí faço a canção. Quase nunca dá certo. Isso só funciona quando é um pedido que vem de fora, quando é composição por encomenda, para trilha sonora, como as músicas deste EP que estou lançando agora. Aí é legal, eu gosto bastante de ter esse direcionamento externo. Mas, no caso do meu álbum, da produção autoral, esses temas surgem durante ou depois da composição. É uma coisa mais intuitiva. Eu pinto o que eu vejo. Só depois de um tempo dá para perceber os temas que surgiram em um conjunto de canções. O título do álbum remete a um significado dúbio. Na sua percepção, o amor carrega essa ambiguidade, isto é, cuidado e posse, desejo e destruição, aproximação e afastamento? Com certeza. Por muito tempo eu evitei fazer canções de amor, achava clichê, evitava até o uso da palavra amor. Mas tem aquela frase, "todas as canções são canções de amor", e é verdade. Então eventualmente eu me rendi ao tema. E é um tema inesgotável, justamente porque é muito ambíguo. Você tem o amor romântico, mas também muitas outras formas de amor… inclusive as destrutivas. Muitas atrocidades são cometidas em nome do amor. Eu gosto de trabalhar com essa ambiguidade. No Amor de Mula isso aparece bastante. O amor que aparece no disco é uma "força" capaz de salvar ou uma "força" que também pode colocar tudo em risco? Ambos. Embora parte de mim talvez acredite nessa salvação através do amor, que é algo que permeia toda a nossa produção de canções no Brasil, e talvez toda a nossa produção artística de fato, eu não consigo deixar de perceber e retratar essa ambiguidade. Sabe, eu gosto muito de Star Wars. A tragédia de Darth Vader é justamente essa: ele se tornou um agente do fascismo e perdeu sua humanidade, literal e figurativamente, muito por ambição, mas principalmente por amor. Ele temia perder a pessoa amada, e fez um pacto com o diabo para adquirir o poder para salvá-la. No final (spoiler, risos) suas próprias ações o levaram a perder aquilo que amava. É uma reinterpretação pop do mecanismo das tragédias clássicas, as profecias que se cumprem de maneira inesperada, as ações realizadas por amor ou heroísmo que produzem o resultado oposto. Isso tudo me interessa bastante e de alguma forma aparece nas minhas composições. Ao compor para um filme, você parte das imagens, do roteiro, das personagens ou das sensações que a narrativa provoca? Aliás, como costuma começar esse processo? Geralmente tudo parte de uma conversa com a direção do filme, antes de ver qualquer coisa ou ler o roteiro. Quando o filme pede uma canção, a letra vem muito dos personagens. “Quem Ficou Fui Eu”, por exemplo, tem uma letra que propositalmente mistura a perspectiva das duas personagens principais: a mãe com alzheimer e a filha que cuida dela. Depois da conversa inicial, a direção dá algumas referências musicais. Às vezes é uma referência bem específica, e você sabe exatamente para onde ir, outras vezes é uma coisa mais aberta, e daí entra um pouco mais de autoralidade, digamos assim. Mas o processo varia bastante. Às vezes, eu entro só com o filme já montado, e daí é um trabalho mais padrão de trilha sonora, de fazer a música se encaixar na duração de cada cena. Outras vezes eu entro antes, nesse processo de conversa envolvendo direção e roteiro, antes mesmo das filmagens. Uma coisa que eu adoraria fazer, mas ainda não tive a chance, é trilha sonora para videogame. É um processo bem diferente, quero aprendê-lo um dia. Você afirma que a colaboração com diretores e a dramaturgia de cada obra pode inspirar algumas de suas melhores composições. O que muda quando a canção nasce em diálogo com o olhar e o universo criativo de outra pessoa? Muda muita coisa. Acho que eu tive sorte de, até hoje, ter trabalhado com diretores (as) com bastante sensibilidade musical, que souberam trazer referências acertadas e ao mesmo tempo dar espaço para a criação de algo original. Como eu disse antes, essa coisa de compor a partir de um pedido externo é muito legal, e por causa disso eu acabei me conectando com assuntos muito diversos, desde a questão do alzheimer (Quem Ficou Fui Eu) até o drama de um robô aspirador esquecido pela dona (Janete). Ao longo da história do cinema, algumas músicas se tornaram mais conhecidas do que os próprios filmes para os quais foram criadas. Você pensa na permanência ou na autonomia dessas canções quando está compondo? Quando se trata de canção mesmo, letra e música, sim. A canção, além de servir ao filme, tem que andar com as próprias pernas. É por isso que estou lançando esse EP, porque acho que essas canções fazem isso, não a toa eu as toco nos meus shows. Mas o trabalho de trilha sonora geralmente envolve mais do que isso. A trilha deve servir ao filme, não necessariamente chamar atenção para si, a não ser que essa seja uma intenção do próprio filme. Muitas vezes, inclusive, quando eu faço uma canção para um filme, ela aparece de forma meio picotada no filme em si, em versões instrumentais e/ou mais curtas, pois tem que ser assim para caber na montagem. Quais elementos de uma narrativa cinematográfica despertam sua imaginação musical? Isso também varia. Às vezes é a trama em si, às vezes são os personagens. Quando eu recebo um filme já montado para fazer a trilha, também existe uma inspiração pictórica, uma coisa das sensações das imagens, isso contribui muito para trilhas instrumentais. Quando se trata de canção, o roteiro e os personagens ajudam mais na escrita da letra, na parte literária da coisa. Quando uma canção é criada a partir de uma história já existente, ela se torna uma extensão do filme ou também acaba revelando algo novo sobre o próprio compositor? Geralmente revela algo novo para mim. Essa coisa de compor por encomenda deixa a gente mais versátil. Eu não teria composto uma balada brega como "Sonhei Contigo", com arranjo de cordas sintetizadas e tudo, se não fosse a pedido de um filme. Também não teria mergulhado em música atonal e eletroacústica, como fiz para a trilha de Filme Noir. Essas experiências com certeza aparecem na minha música autoral. Mas isso é uma consequência que eu mesmo tiro do trabalho, pois o objetivo principal é sempre servir ao filme. O título do álbum sugere músicas feitas para acompanhar imagens, mas também convida o ouvinte a criar seus próprios filmes mentais. Você imagina que as canções possam provocar novas imagens em quem as escuta? Imagino que sim. Antes de eu começar a tocar e compor, eu tinha muito essa coisa de pensar em imagens a partir da música. Ouvir música me sugeria muita coisa, imageticamente. Acho que isso acontece para muita gente e espero que seja algo que as músicas desse EP provoquem. Curiosamente, conforme eu fui adquirindo um ouvido mais musical, mais atento à mecânica da coisa, eu fui perdendo isso de criar filmes mentais a partir de músicas. Hoje em dia, para mim, acontece mais o contrário, as imagens que me sugerem ideias musicais. Por fim, em "Sonhei Contigo", você reforça a ideia de que sempre queremos o impossível. Você deseja algo "inalcançável"? É lógico. Ou, como diz a letra dessa música, "é natural do ser humano". Todo mundo que se lança no trabalho criativo deseja o inalcançável, porque você sempre tem um ideal de perfeição que é irreal, e você tem que abrir mão disso para poder fazer as coisas, mas por outro lado você também nunca vai deixar de perseguir esse ideal em alguma medida. E tem uma coisa mais profunda, se você me permitir empregar aqui um Lacan de boteco: o desejo humano nunca se satisfaz, pois na verdade o que o desejo deseja não é alcançar o objeto de desejo, mas sim realizar a sua própria perpetuação enquanto força, vetor de energia ou seja lá o que for. Por isso, a questão também não se restringe ao trabalho criativo. Todo mundo que está vivo deseja que a vida melhore, e está constantemente à procura disso. Esse ideal nunca se realiza completamente, mas não podemos abrir mão da busca, pois, no fim das contas, isso significaria morrer. Apoie financeiramente o desalinho e ajude a manter um espaço independente dedicado à crítica, às entrevistas e à divulgação da cultura independente. Toda contribuição faz diferença.

37º Kinoforum - Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo
Entre voos, encontros e novas rotas, o cinema encontra maneiras de seguir em frente. É sob essa perspectiva que o 37º Kinoforum – Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo acontece de 20 a 30 de agosto, reafirmando a potência do curta-metragem como território de criação, experimentação e diálogo. Em um momento de reestruturação, o festival inaugura um novo ciclo sem abandonar a história construída ao longo de quase quatro décadas. A imagem dos pássaros atravessa a edição como uma espécie de princípio curatorial. Observar o voo, o movimento das asas, as paisagens percorridas e as formas que surgem entre os pássaros e aqueles que os acompanham serve como inspiração para uma programação interessada justamente no movimento: deslocar olhares, aproximar cinematografias e abrir caminhos para diferentes formas de contar e perceber o mundo. (Créditos: Divulgação/Reprodução) Essa ideia de deslocamento também aparece na própria geografia do festival. Em 2026, o Kinoforum espalha suas sessões por sete espaços de exibição em diferentes regiões de São Paulo, fazendo da cidade parte importante da experiência cinematográfica. As sessões acontecem na Cinemateca Brasileira, no Cinesesc, no Spcine CCSP, no Espaço Petrobras de Cinema, no Museu da Imagem e do Som (MIS), no Cinusp e no Cinusp Maria Antônia. A dimensão internacional da programação reforça esse caráter de encontro. Nesta edição, o festival recebeu 2.208 inscrições para a Mostra Internacional, vindas de mais de cem países, além de 276 obras para a Mostra Latino-Americana. Ao final, foram selecionados 109 filmes de 55 países dos cinco continentes, compondo um panorama plural da produção contemporânea em curta-metragem. Além do circuito presencial, o 37º Kinoforum disponibiliza uma seleção de filmes em plataformas digitais, ampliando o alcance da programação para espectadores de outras regiões do país. Entre as plataformas indicadas pelo festival estão Itaú Cultural Play, Porta Curtas, Sesc Digital e Spcine Play. Para mais informações, clique aqui.

Cigarro Mata estreia em disco olhando para dentro e para o cotidiano
O nome já avisa: cigarro mata. E, embora possa parecer o tipo de frase que você encontra estampada em uma embalagem ou em um cartaz de campanha de saúde pública, a história é bem menos séria, começou em uma mesa de bar. "Cigarro Mata surgiu numa mesa de bar. Estávamos comemorando o aniversário do Joãozinho e refletindo sobre como odiávamos o nome antigo da banda, nome que já tínhamos decidido mudar, mas faltava uma alternativa que a gente realmente gostasse. Todos da mesa começaram a brincar com opções de nomes sobre coisas que estavam em cima da mesa, uma pior que a outra. Em algum momento alguém pegou um maço e falou "Cigarro Mata". Mudamos o nome do grupo do WhatsApp da banda na mesma hora", explica o trio por e-mail. Criado a partir do humor, o nome acabou ficando e, desde 2018, a banda de Campo Mourão, no Paraná, vem provando que, apesar do aviso, ainda há muito o que fazer antes de morrer. (Créditos: João Iritsu) Atualmente formada por João Marcelo (guitarra e voz), Luiz Fernando (contrabaixo) e João Victhor (bateria e voz), a Cigarro Mata construiu sua trajetória na cena independente paranaense entre shows, experimentações e lançamentos. Ao longo desse caminho, dividiu palcos com nomes como Polara, Menores Atos, 43Duo, Hoovaranas e Sugar Kane, além de lançar EPs e singles. Agora, depois de anos de estrada, o trio finalmente apresenta seu primeiro álbum, Cigarro Mata (2026), que reúne dez faixas e afirma a sonoridade de uma banda interessada em fazer do rock um lugar amplo o bastante para caberem suas contradições. Gravado em 2025, no estúdio Costella, em São Paulo, o trabalho teve produção de Alexandre Capilé e masterização de Gabriel Zander. Ao longo das dez faixas, a banda transita por diferentes vertentes do rock, misturando indie, psicodelia, hardcore, distorções e grooves quebrados. O resultado preserva uma sonoridade crua e orgânica, capaz de alternar momentos mais contemplativos com explosões de energia. Em vez de se prender a uma única vertente, o disco deixa as diferentes referências conviverem. Há peso, psicodelia, melodias mais delicadas e momentos em que a banda parece simplesmente interessada em aumentar o volume. Essa liberdade também aparece na relação com suas influências: o trio absorve elementos de diferentes momentos do rock e os reorganiza dentro de uma identidade própria, sem transformar referência em fórmula. Leia também: Ludovic: Ludovic Conheça: Um Resgate Não Será Possível A arquibancada do sol de Zepelim e o Sopro do Cão Vocês estão na ativa há quase dez anos. Nesse tempo, vocês lançaram quatro EPs e um single. Por que tanto tempo para lançar o disco? O disco demorou por vários motivos, nós passamos por muitas mudanças tanto como banda e como pessoas. Tiveram mudanças de formação, mudança de nome, faltou verba, nunca parecia o momento certo. Alguns anos atrás viramos um trio e tivemos que nos redescobrir como banda, nisso a gente se viu no melhor lugar que já estivemos desde o começo desse projeto, musicalmente e pessoalmente entre nós. Sentimos que finalmente nos encontramos na hora certa e com as pessoas certas para realizar esse sonho. Falando em tempo, o que mantém uma banda independente em momento durante tantos anos, especialmente antes de chegar o primeiro álbum? Ser independente é uma coisa linda e assustadora. É o poder de fazer tudo da forma que queremos porque queremos, e a noção de que temos que fazer tudo que tem que ser feito porque ninguém vai fazer para a gente. Acho que isso tudo para nós é uma das partes mais interessantes desse processo de ser "artista". E nessa estrada tivemos o prazer de conhecer tantos artistas independentes talentosos que viraram amigos e parceiros, tem um grande senso de comunidade e pertencimento nesse meio que a gente ama. O cotidiano e as relações interpessoais aparecem como matéria-prima das canções. O que existe de mais interessante em transformar situações diárias em música? Acho que como compositor é a dualidade entre ser verdadeiro com as coisas cotidianas que nos afetam, e o "desafio" de se expressar de uma forma autêntica sobre assuntos e sentimentos que já viraram arte tantas vezes. Ao escreverem canções que abordam o cotidiano, vocês procuram respostas ou estão mais interessados em registrar essas questões que permanecem sem respostas? De certa forma ambos. Não procuro intencionalmente respostas, mas colocar em palavras o que estou sentindo ou pensando nas letras muitas vezes me fez entender melhor o que estava acontecendo naquele momento ou situação. Outras tantas vezes só seguem as dúvidas. "É um álbum meio raivoso e contemplativo em certos momentos, justamente por conta da imensa realização que foi pra nós estar gravando essas músicas juntos, especialmente em um estúdio como o Costella." O disco parece voltar diversas vezes à ideia de fugir, se perder e depois tentar se encontrar novamente. Por que o desaparecimento - físico e emocional - parece ser uma imagem tão poderosa para falar sobre relações e sobre nós mesmos? Não se encontrar nas próprias atitudes e pensamentos é uma coisa esquisita e assustadora, te faz pensar "em que momento eu deixei de ser daquele jeito?" ou "eu mudei por mim ou por outra pessoa?". O quanto dessas atitudes sou eu mesmo. Eu penso que esse desaparecimento é não se ver mais em si mesmo da forma como você se entende por gente. Acho que essa sensação de perda é agoniante e a busca por se reencontrar inspiradora. (Foto: João Iritsu) Em "Cedo Demais" vocês cantam: "vou me encontrar de novo". A frase pressupõe que esse encontro com quem somos pode ser interrompido. Vocês acreditam que mudamos de verdade ou que, em algum momento, apenas precisamos reaprender a reconhecer quem já fomos? Acredito que não só precisamos reaprender quem nós somos, mas também entender o quanto de você agora é a outra pessoa, da mesma forma que um tanto dela agora é você. Acho que essa troca que acontece nas relações, seja de trejeitos, expressões, gostos, desgostos, é uma das coisas mais interessantes de se relacionar. Nós nunca sabemos como vamos marcar uma pessoa de verdade e o quanto seremos marcados. E aí resta saber de verdade quem você é depois dessa troca, só você ou um pouco dos dois? Ainda na mesma música, vocês trazem a estrofe "deixa eu mentir pra mim mesmo". Existem momentos em que mentir para si mesmo é uma forma de sobrevivência? Acho que faz parte da negação de que algo chegou ao fim ou está te fazendo mal. Mentir pra si mesmo pode trazer um "conforto" temporário mas no final das contas a verdade chega e te faz tomar decisões difíceis. Em "Tanto Faz" os gritos rasgados aproximam a banda do hardcore; em "SAC Para Relações Mal Resolvidas" aparecem grooves distorcidos e quebrados. O que vocês procuram quando experimentam essas diferentes possibilidades dentro de uma mesma identidade? Acima de tudo a gente procura fazer músicas que nós gostamos de ouvir, antes de qualquer estilo ou tema, nós queremos nos divertir compondo e tocando. Somos influenciados por o que estamos ouvindo ou curtindo no momento e isso traz sons diferentes. Acaba que isso faz com que a gente passeie entre estilos e ideias, mas sempre com a nossa cara. Já em "Tava Bom" fala, em um momento, de uma expectativa interessante: querer partir, mas ainda desejar que exista alguém esperando pela nossa volta. O que essa contradição revela sobre os vínculos que construímos? Por um tempo um relacionamento quebrado ainda pode parecer um porto seguro. "Fins" nem sempre são fáceis de lidar, são incômodos e incertos, às vezes é mais fácil querer lidar com um "mal certo" do que com a imprevisibilidade do novo. Agora que Cigarro Mata está no mundo, o que vocês sentem que começa agora? Para nós esse disco é uma prova para nós mesmos do que a gente é capaz de fazer, estamos diariamente numa luta interna entre curtir o processo e pensar no que vem pela frente, e vem coisa. Queremos fazer essas músicas chegarem ao máximo de pessoas possível, tocar por todo lado e conhecer todo tipo de gente. Apoie financeiramente o desalinho e ajude a manter um espaço independente dedicado à crítica, às entrevistas e à divulgação da cultura independente. Toda contribuição faz diferença.

Raquel Dimantas: Cosmo Dorme
A maternidade modifica uma mulher em diferentes maneiras que nem sempre é possível descrevê-las. Mas uma coisa é certa: quando nasce uma criança, nasce uma nova versão da mulher. É a partir desse renascimento que surge o segundo álbum de Raquel Dimantas, Cosmo Dorme (Coala Records, 2026). O disco nasceu a partir da experiência da cantora com a maternidade e do nascimento de Cosmo, seu filho, mas não se limita a transformar essa experiência em tema. A chegada da criança parece modificar a própria maneira como Raquel escuta, compõe e observa o mundo. Em vez de tentar explicar a maternidade, ela prefere registrar o que acontece quando a vida inteira precisa encontrar uma nova disposição. Dessa maneira, há uma reorganização no centro do disco, a cantora aceita que alguns objetos ficarão fora do lugar por um tempo - talvez para sempre, já que a maternidade chega com novas rotinas, descobertas e afetos. O resultado das novas vivências, isto é, o sono de um bebê, uma manhã, uma conversa e um momento de silêncio, são essenciais para a estrutura narrativa do disco. Porém, em vez de transformar a experiência em um grande relato sobre maternidade, Raquel encontra beleza naquilo que acontece entre uma tarefa e outra. Leia também: A sintonia de Ana Be Natalia Ginzburg: As Pequenas Virtudes Um Amor Incômodo (Créditos: Divulgação/Reprodução) Se 8Hits! (2022), seu trabalho anterior, apresentava uma artista ainda expandindo as possibilidades de sua linguagem, Cosmo Dorme nasceu de um movimento diferente: o de olhar para dentro depois que o mundo muda do lado de fora. Raquel Dimantas não abandona a inventividade, mas a coloca a serviço de uma escuta mais íntima. Existe menos necessidade de chegar a algum lugar e mais interesse em perceber o caminho. Ao misturar pop, rock, country, música cubana, surf music e elementos eletrônicos, o álbum cria um universo próprio, colorido e imprevisível, que combina com a experiência de quem precisa aprender diariamente a lidar com o inesperado. “Meu Bebê” parte do afeto materno sem transformá-lo em discurso grandioso. Em “Mira Que Belo Dia”, por exemplo, existe a sensação de redescoberta do cotidiano; como se a chegada de uma nova pessoa trouxesse também a possibilidade de enxergar novamente aquilo que já estava diante dos olhos. Já em “Papinho/Small Talk”, a voz do filho e o som de um chocalho aparecem na gravação, tornando quase impossível separar completamente a vida da obra. Ao misturar diferentes idiomas, as faixas soam como uma canção de ninar, deixando os ouvintes fascinantes do início ao fim. Nesse sentido, Cosmo Dorme não é apenas um registro afetivo; é também a confirmação de que o disco nasceu de uma experiência concreta, em que criação e cotidiano passaram a ocupar o mesmo espaço. No fim, o título do álbum revela uma pequena contradição: enquanto Cosmo dorme, Raquel desperta. Ela está acordada para uma rotina que conhece completamente, para afetos que ainda está aprendendo a nomear e para uma nova versão de si mesma.

Conheça: Shitiago
Ninguém tem o direito de determinar o tamanho do destino de outra pessoa. É a partir dessa recusa que Shitiago constrói “Destino Ínfimo”, seu novo single. Lançada com videoclipe dirigido por Cria da Rua, a faixa transforma o inconformismo em material para uma crônica de enfrentamento, em que persistir também significa assumir o controle da própria trajetória. Residente em Londrina (PR), Shitiago é daqueles artistas difíceis de acomodar em uma única definição. Músico, ilustrador e produtor musical, ele transita por diferentes linguagens e encontra justamente no cruzamento entre elas um espaço para desenvolver seu trabalho. Seu interesse pelo não convencional aparece tanto nas imagens que cria quanto na música, marcada por texturas, contrastes e combinações pouco previsíveis. Essa liberdade também se manifesta no som. Ao longo de sua trajetória, que já se estende por cerca de uma década, Shitiago passou pelo lo-fi hip-hop e, desde 2021, vem aprofundando sua relação com o rap. House, nu metal, rap e lo-fi hip-hop convivem em um repertório que não parece interessado em escolher apenas uma direção, mas em descobrir até onde é possível ir a partir delas. Leia também: Conheça: Mau k Quedalivre: Seres Urbanos Holy Fuck: Event Beat (Créditos: Divulgação/Reprodução) Em “Destino Ínfimo”, essa inquietação ganha contornos mais densos. Sobre os arranjos de Cofwed, Shitiago apresenta um eu lírico obstinado, consciente de suas contradições e pouco disposto a aceitar limites previamente estabelecidos. A influência de nomes como LEALL, Victor Xamã e Duquesa aparece como referência para uma linguagem que combina contundência e vulnerabilidade, enquanto o rapper procura afirmar uma identidade própria. A faixa parte da ideia de que ninguém deveria ter o poder de estabelecer até onde outra pessoa pode chegar. Há, portanto, uma dimensão de enfrentamento em “Destino Ínfimo”, mas ela não se resume a um discurso de superação. Shitiago trabalha também com as dúvidas, os conflitos e a necessidade de tomar as rédeas da própria trajetória - mesmo quando o caminho ainda não está completamente definido. “Destino Ínfimo” funciona ainda como uma porta de entrada para o que vem pela frente. O single inaugura o universo estético e sonoro que o artista pretende desenvolver em seu próximo EP, previsto para o fim de 2026. O projeto, realizado em parceria com a produtora Beatslab, representa uma nova etapa de uma trajetória que já soma com outros lançamentos, entre eles “Distopia” (2024) e “No Meu QG” (2025).

Antonio Neves & Thiaguinho Silva: Ladeiras de Santa Teresa
Uma das melhores maneiras de conhecer o Rio de Janeiro é caminhar pelas ruas de Santa Teresa. Há as ladeiras que obrigam o corpo a diminuir o passo, o bonde que atravessa o bairro como uma lembrança ainda em movimento, os bares, os ateliês, os casarões e a música que parece surgir de alguma esquina antes mesmo de ser possível encontrá-la. A geografia do local dá o tom de Ladeiras de Santa Teresa (Far Out Recordings, 2026), de Antonio Neves e Thiaguinho Silva. Com pouco mais de 23 minutos e seis faixas, o EP parte da tradição do samba-jazz - música instrumental brasileira que floresceu entre o samba, a bossa nova e o jazz nos anos 1960 -, mas não se limita a reproduzir a sonoridade daquele período. A escolha faz sentido porque a dupla devolve o gênero às ruas, incorporando hip-hop, groove, improvisação e a informalidade carioca. É tradição sem reverência excessiva; memória sem transformar o passado em prisão. Antonio e Thiaguinho chegam a esse encontro carregando importantes heranças musicais. Neves, filho do saxofonista Eduardo Neves, transita entre bateria, trompete, trombone, guitarra, composição e arranjo. Silva, filho do lendário baterista e percussionista Robertinho Silva, construiu uma trajetória marcada pela percussão e por uma escuta atenta aos diferentes sotaques da música brasileira. O encontro entre os dois começou a ganhar forma durante a pandemia e já havia deixado um primeiro registro em “Das Neves”, faixa gravada para a compilação Hidden Waters: Strange and Sublime Sounds of Rio de Janeiro, em 2023. Leia também: Ludovic: Ludovic MOMO.: Tum Tum Tum Alice Caymmi: Caymmi (Capa: Pedro Pessanha) O EP, porém, não é exatamente um trabalho de dois músicos isolados em torno de seus instrumentos. Embora os artistas estejam no centro da criação - com bateria, percussão, sopros e outros instrumentos assumindo diferentes funções -, Ladeiras de Santa Teresa se constrói a partir da colaboração. Luiz Otávio, Guto Wirtti, Oswaldo Lessa, Eduardo Santana e Eduardo Neves participam do disco, ampliando suas possibilidades melódicas e rítmicas. Kassin assina a mixagem, enquanto Marcelinho da Lua participa da gravação. A música parece, assim, obedecer à própria lógica do bairro que lhe empresta o nome: ninguém sobe uma ladeira sozinho por muito tempo. “Das Neves”, que abre o trabalho, já apresenta esse princípio. Sopros anunciam a faixa antes de piano, baixo e percussão costurarem uma combinação de samba e jazz. Em “Fendas Vocais”, a cidade parece acelerar. O jazz-funk ganha protagonismo, a guitarra cria um movimento quase sinuoso e a percussão de Silva injeta uma pulsação que impede a faixa de se acomodar. É um dos momentos em que a proposta do EP se torna mais evidente: o samba-jazz não é tratado como uma linguagem encerrada em determinado período, mas como uma estrutura aberta a outros ritmos, sonoridades e gerações. Em “Viagem de Trem”, a participação do rapper JOCA reforça essa abertura. O encontro entre freestyle e jazz funciona porque ambos dependem da escuta, do instante e da capacidade de reagir ao que acontece ao redor. Já “Romênia” percorre outro caminho. A faixa traz uma atmosfera de nostalgia e sofrência, fazendo a melodia crescer gradualmente até se tornar um dos pontos altos do EP. Há nela uma melancolia que contrasta com a vitalidade das faixas anteriores e amplia o alcance emocional do trabalho. A narrativa criada em Ladeiras de Santa Teresa acompanha as subidas e descidas do bairro. Santa Teresa não funciona apenas como cenário, mas como uma espécie de princípio organizador das composições. O local possui uma longa ligação com artistas, músicos e casas dedicadas à música instrumental, e a dupla reconhece essa continuidade como parte da identidade do projeto. Por isso, talvez seja equivocado ouvir Ladeiras de Santa Teresa apenas como um trabalho de música instrumental. Há uma dimensão urbana muito forte em suas seis faixas. Mesmo quando a voz aparece em apenas uma canção, existe uma narrativa: a cidade se move através dos instrumentos. O bonde poderia estar passando ao fundo; alguém poderia surgir de uma esquina; uma roda de samba poderia começar no bar ao lado; um rapper poderia improvisar algumas rimas antes de desaparecer pela próxima rua. “Misericórdia”, responsável pelo encerramento, entende que nem toda ladeira precisa ser vencida correndo. Depois da pulsação das faixas anteriores, a música desacelera e encontra um samba-jazz mais delicado, conduzido por guitarra de nylon, baixo, trombone, piano, saxofone e percussão. É uma despedida que não encerra completamente o percurso deixa a sensação de que ainda há outra esquina a dobrar. Antonio Neves e Thiaguinho Silva pegam uma tradição conhecida, retiram dela a poeira e devolvem-na à rua. O que se ouve, então, é menos uma reconstrução do samba-jazz do que uma fotografia sonora do Rio de Janeiro contemporâneo: imperfeita, inquieta, cheia de curvas e, sobretudo, ainda em movimento. Apoie financeiramente o desalinho e ajude a manter um espaço independente dedicado à crítica, às entrevistas e à divulgação da cultura independente. Toda contribuição faz diferença.

A sintonia de Ana Be
A cor azul carrega a serenidade dos recomeços, a profundidade das emoções e a delicadeza de encontrar beleza na vulnerabilidade. Através do tom, Ana Be apresenta Sintonia dos Novos Começos (2026) que transforma o amor em uma narrativa distante das idealizações, preferindo explorar seus caminhos mais honestos, contraditórios e humanos. (Créditos: Pamela Anastácio) Nascida e criada na Zona Leste de São Paulo, a cantora e compositora apresenta um trabalho que enxerga o afeto como um movimento constante. Em vez de buscar respostas definitivas, suas canções acompanham as mudanças de um eu-lírico feminino que descobre, desaprende e reconstrói a própria maneira de amar. O disco entende que a vulnerabilidade não é um desvio, mas uma força capaz de abrir espaço para novas experiências. Depois do EP Balanço 22 (2022), Ana Be aprofunda sua pesquisa estética e consolida uma assinatura própria. Com produção musical de Levi Keniata e realizado com recursos do programa VAI - Valorização de Iniciativas Culturais do Município de São Paulo, a cantora convida o ouvinte a encontrar outra frequência para olhar o amor: menos idealizada, mais sensível e aberta às imperfeições que tornam cada recomeço verdadeiramente único. "É um disco autoral que enxerga a vulnerabilidade como fortaleza em sua narrativa, é uma defesa da minha própria história e dos ensinamentos absorvidos em momentos cheios de frescor e de beleza. Em Sintonia dos Novos Começos busquei cantar o amor de maneiras não tão óbvias, seguindo por uma autenticidade e estética bastante próprias", comenta a artista. Leia também: Exclusive Os Cabides: Feliz e Triste ao Mesmo Tempo O mundo distópico de Leandro Serizo Julie Neff encontra beleza nas rachaduras em fine. Você define Sintonia dos Novos Começos como um disco sobre o amor, mas contado por perspectivas pouco convencionais. O que te incomoda, ou já incomodou, nas narrativas tradicionais sobre o amor nas músicas? O que mais me pega nas narrativas tradicionais sobre o amor é a linearidade, que muitas vezes vai para um lugar-comum, e eu não queria ir por aí. O amor é muito complexo para caber em um só formato de história, e foi justamente buscando um contraponto para isso que pensei na narrativa do meu disco. As narrativas tradicionais sobre o amor têm um roteiro já muito pré estabelecido, e eu queria dar outros finais para esse assunto, que já tem uma bagagem muito marcada no senso comum. Pensei em como seria falar sobre finais e recomeços deslocando a história do eixo amor romântico e focando sobre se reencontrar depois dos fins. Você canta sobre diferentes fases de um relacionamento, ou seja, da sedução ao acolhimento. Existe uma narrativa pensada entre as faixas ou o ouvinte pode construir sua própria história? Olha, eu adoro a ideia de jogar para o ouvinte a possibilidade de construir sua própria história a partir do que o disco oferece, acho que a arte tem isso, ne? A partir do momento em que foi lançado, o disco não é mais somente meu, ele ganha a possibilidade de fazer parte da vida de quem toma ele pra si. Apesar disso, o disco foi pensado sim como uma progressão de fases entre o fim de uma relação e o recomeço, para que todas as emoções fossem acessadas e conduzidas nessa ordem. Ele foi construído também para ter uma circularidade, meio que em espiral, sabe? A gente nunca está no mesmo lugar, mesmo vivendo um novo começo, e achei importante contar a história a partir dessa proposta. Com um novo começo, vem a bagagem do que foi vivido, o que a gente aprendeu a desaprender e também novos desejos. Cada faixa adiciona um novo mood a essa história. Você afirma que enxerga a vulnerabilidade como uma fortaleza. Como foi transformar vivências em músicas? Foi como me olhar no espelho, sem filtros. Nem sempre é bonito, mas é necessário. Tive tempo para acessar muitas emoções e situações que viraram as faixas, e refletir sobre elas, pensando também na minha responsabilidade ali em cada situação. Por exemplo: Em ”Sem saída”, eu refleti que me levei ao limite, indo “além demais”. Agora olhando para o que eu vivi no que existe naquela faixa, eu não faria igual, mas sei que foi importante viver aquilo, para entender até onde eu vou para viver e sustentar uma relação, o que eu entendo como inegociável, o que eu entrego quando estou amando e construindo afeto… Me deu uma nova camada de sofisticação sentimental. Num geral, criar cada faixa foi me virar do avesso e também me questionar sobre o que eu levo de cada etapa, e eu sinto que agora me sei muito mais! Sinto que eu aprendi muito sobre o amor, sobre meus limites e sobre respeitar o tempo de cada fase. É importante viver um luto e deixar ele te atravessar, sabe? Assim como também é uma delícia se perceber apaixonada. Se este álbum marca um novo começo, o que você acredita que ficou para trás durante o processo de criação? Esse disco marca o início do meu retorno de saturno, e com ele veio uma reviravolta na minha vida. Eu passei a repensar minhas relações, em geral, e em todas as esferas. Relações com homens, principalmente. Esse disco marca uma maior autonomia criativa e executiva que tomei para mim, e tive a escolha ativa de trabalhar majoritariamente com mulheres, e isso me abriu um novo universo de possibilidades! Muito do que ficou para trás tem a ver com eu conseguir me impor, enquanto profissional e também na minha vida pessoal. Estabelecer limites e exigir uma comunicação clara nas minhas relações. E um disco sobre o tempo, o amor e a música porque pude olhar para essas três “entidades” com muito cuidado e entender o que eu precisava desaprender para seguir cultivando-as. No evento de audição do álbum me perguntaram o que teve que morrer para eu poder recomeçar, e eu penso que deixei de acreditar em posturas desalinhadas com discurso, e isso me forjou tanto como mulher quanto como artista independente. Eu deixei de duvidar de mim, artisticamente, enquanto fui lapidando esse disco, e essa foi a postura fundamental para seguir com ele e ter chegado até o lançamento. "Esse é um álbum sobre amor e reencontro comigo mesma, que pediu estar envolto dessa atmosfera de tranquilidade e olhar pra dentro." A grande metrópole parece como um personagem antagonista do álbum. Como a cidade influenciou sua maneira de compor e viver o amor? Viver em São Paulo, transitando entre zonas e acessando o centro muito cedo, moldou toda minha visão de mundo, inclusive da música. São Paulo e suas contradições são partes inerentes do meu processo criativo, seja pelo simples movimento e fluxo entre partes da cidade, seja pelo acesso a muitas influências que fui captando ao longo dos anos. O jeito que eu incorporei essas referências no meu repertório e proposta musical estão totalmente relacionados a como eu vivo a cidade, e como eu vivo minhas relações num geral. Acho que estar perseguindo a cidade me deixou mais atenta a como eu lido e interajo com o mundo, tem algo muito particular em fazer parte e também não me sentir pertencente. É uma relação complexa que tem sido um espelho: Quando estou mais aberta para observar a cidade também me sinto aberta para descobrir novas sensações, e isso se reflete no modo como eu amo, me relaciono e desejo novos caminhos e enredos pra mim. Amor, paixão, desejo e flerte são abordados no disco. Para você, existe uma melhor fase? Acho que depende muito do momento de vida. Agora eu tô achando a fase do amor a melhor de todas! Talvez por estar vivendo uma relação muito gostosa, e ter desfrutado cada fase desde o início do desejo e o flerte, então virei uma grande entusiasta do amor mais sólido e todo compromisso que vem com ele. Tenho vênus em capricórnio kkkkkk, pra mim, é muito difícil chegar nessa fase, então quando ela vem, eu desfruto até das pequenas coisas na rotina. Amo viver o amor, e acho que cheguei num momento de poder curtir ele sem pressa. Em “Sem Saída” você diz que não quer mais perguntar e que foi além. Em que momento você está agora? Eu tô no momento de ser muito franca quanto ao que eu desejo pra mim, e tô disposta também a cultivar esse desejo. Acho que é um momento de florescimento e calma que a fase adulta começa a trazer, e eu gosto muito da estabilidade que veio com ela. Lançar esse disco corresponde a essa fase de mais segurança comigo e com meus desejos, e também uma maior responsabilidade com essas decisões futuras. Nada está garantido, e talvez a graça desse momento seja flertar com as possibilidades do que eu desejo e pensar em como eu vou fazer pra concretizar isso tudo que eu quero. A cor azul está presente na capa do álbum e em algumas questões. O que a cor representa nessa narrativa? Eu vejo o azul como uma metáfora para introspecção e calmaria. Sou uma grande devota do Djavan, sabe? Assim como ele, eu também vejo o amor como algo azulzinho e quis trazer essa leitura pro meu disco. Esse é um álbum sobre amor e reencontro comigo mesma, que pediu estar envolto dessa atmosfera de tranquilidade e olhar pra dentro. Ate tentei buscar outras cores para representar essa era, mas apenas o azul deu conta de amarrar todo o processo de recomeço que existe ali. Depois de terminar o álbum, você passou a enxergar o amor de uma maneira diferente? Acho que foi uma coisa retroalimentando a outra: Eu olhar pro amor com mais qualidade me fez criar esse disco, e terminar o disco trouxe outras camadas à minha visão sobre o amor. Eu vejo que agora tenho mais segurança pra amar como eu quero e também demandar que eu tenha meus desejos atendidos, sabe? Acho que o amor é mesmo uma via de mão dupla: Eu só pude amar com qualidade quando me entendi melhor e deixei meu parceiro me entender também, e pude perceber que cada fase tratada nesse disco foi importante para eu delimitar o que é essa minha leitura sobre o amor. Li bell hooks, Renato Nogueira, ouvi Djavan, Liniker, Alcione… Tudo para me dar repertório e refletir se essas interpretações poderiam conversar com o que eu entendo do amor. Foi um mestrado em educação sentimental kkkkkkk Apoie financeiramente o desalinho e ajude a manter um espaço independente dedicado à crítica, às entrevistas e à divulgação da cultura independente. Toda contribuição faz diferença.

Ludovic: Ludovic
A chama do Ludovic nunca se apagou. Embora Idioma Morto (2006) tenha sido lançado há duas décadas, os fãs continuaram presentes nos shows esporádicos realizados pela banda pelo país, cantando suas canções a plenos pulmões e mantendo viva uma relação que atravessou o tempo. Alias, a permanência do grupo não se explica apenas pela música: ao longo de sua trajetória, o quarteto construiu um espaço de acolhimento para inquietações, conflitos e afetos difíceis de nomear - sentimentos que encontraram, entre guitarras, ruídos e versos, uma forma de existir. Agora, a chama estampada na capa de Ludovic (Balaclava Records, 2026) transforma essa permanência em símbolo. O fogo continua aceso, mas já não é o mesmo. Alimentado pelo tempo, pelas experiências acumuladas e pelas transformações vividas por Jair Naves, Eduardo Praça, Ezekiel Zeek Underwood e Rodrigo Montorso, ele retorna com outras formas e novas intensidades, iluminando tanto caminhos conhecidos quanto territórios ainda inexplorados. (Créditos: Júlia Aluar) No novo álbum, o grupo não busca recuperar exatamente o som ou o momento histórico que ajudou a consolidar sua importância no rock independente brasileiro dos anos 2000. Intitulado simplesmente Ludovic, o disco funciona menos como uma volta ao passado e mais como um reencontro com a própria identidade. Ao assumir o nome da banda como título, o quarteto parece perguntar o que permanece depois de tantos anos - e encontra a resposta não na repetição, mas na transformação. As 11 faixas preservam a tensão emocional e a força das guitarras que marcaram a trajetória do grupo, ao mesmo tempo que ampliam suas possibilidades. O rock alternativo continua sendo o ponto de partida, atravessado por ecos de pós-punk, shoegaze e indie rock, enquanto os arranjos exploram novas texturas, camadas e contrastes. Entre ruído e melodia, contenção e explosão, o álbum constrói uma atmosfera inquieta, por vezes melancólica, mas sempre em movimento. Leia também: Exclusive Os Cabides: Feliz e Triste ao Mesmo Tempo O Último Beat Hardcore 90 “A Ebulição do Não Dito” abre o disco como quem acende a chama estampada na capa. A canção introduz uma atmosfera de tensão e expectativa, como se algo estivesse prestes a transbordar. Uma vez aceso, o fogo não se apaga: ele se espalha pelas faixas seguintes e encontra, em “Desde Que Eu Morri”, outra imagem de transformação. A morte deixa de representar um fim definitivo e passa a sugerir deslocamento, ruptura ou renascimento. A voz de Jair oscila entre a explosão e a narração, conduzindo a canção com uma dramaticidade que nunca se torna excessiva. Sua interpretação cria uma narrativa intensa, capaz de aproximar a experiência íntima de uma dimensão quase cinematográfica. Em “Pedestal”, o Ludovic investiga relações atravessadas por projeções, expectativas e idealizações. A faixa constrói uma tensão contínua, como se a proximidade estivesse sempre ameaçada pela distância criada pela imagem que se faz do outro. Já “Marja”, quarta canção do álbum, surge como um de seus momentos mais intensos. A música concentra parte da potência do grupo, unindo uma sonoridade expansiva a uma letra que parece crescer junto aos instrumentos. Diferentemente de Servil (2004) e Idioma Morto, marcados principalmente pelas composições do vocalista, Ludovic nasce de uma construção mais coletiva. A participação dos integrantes, ampliando o campo de possibilidades do álbum, além de abrir espaço para diferentes ideias, sensibilidades e caminhos sonoros. Os instrumentos deixam de ocupar apenas uma função de acompanhamento: criam atmosferas, tensionam as palavras, sugerem imagens e expandem os sentidos das letras. Essa construção compartilhada se reflete na maneira como as canções respiram. Em vez de se organizarem apenas em torno da voz, elas se desenvolvem a partir do diálogo entre os integrantes. As guitarras não servem somente como suporte para a melodia; elas criam sombras, atravessam os versos e, em alguns momentos, parecem dizer aquilo que as palavras não conseguem alcançar. A bateria conduz os movimentos do disco sem limitar suas mudanças de intensidade, enquanto os demais elementos ajudam a transformar cada faixa em um espaço de encontro. Depois de duas décadas, o Ludovic retorna transformado, mas ainda reconhecível em sua inquietação, em sua intensidade e na capacidade de converter conflitos íntimos em música. O novo álbum não tenta reproduzir uma juventude que ficou no passado nem recuperar uma sonoridade como se o tempo não tivesse passado. Pelo contrário: incorpora as marcas desse intervalo e encontra nelas novas possibilidades de criação. Por isso, a chama da capa ganha outro significado. Ela não representa apenas a resistência de uma banda que continuou existindo apesar dos anos. O fogo também é movimento: cresce, diminui, se espalha, consome e se renova. Em Ludovic, o quarteto encontra nessa transformação o fôlego necessário para seguir adiante. Apoie financeiramente o desalinho e ajude a manter um espaço independente dedicado à crítica, às entrevistas e à divulgação da cultura independente. Toda contribuição faz diferença.

Exclusive Os Cabides: Feliz e Triste ao Mesmo Tempo
Sentimentos são contraditórios. Às vezes, a alegria carrega uma ponta de tristeza; em outras, a melancolia encontra espaço para dançar, enquanto a raiva se transforma em uma grande ironia da vida. A partir dessas transformações - profundamente humanas e legítimas -, a Exclusive Os Cabides dá forma à inquietação em Feliz e Triste ao Mesmo Tempo (2026). Depois de um ano percorrendo estradas e levando Coisas Estranhas (2024) a diferentes cidades do país, o quinteto retornou ao estúdio carregando o impulso das viagens, dos encontros e das apresentações. A experiência de mais de 40 shows parece ter deixado marcas na música: as canções soam mais diretas, cruas e urgentes, como se ainda preservassem o calor das luzes do palco e a agitação do público. Não por acaso, Feliz e Triste ao Mesmo Tempo nasce do desejo de criar um repertório capaz de colocar as pessoas para dançar e, ao mesmo tempo, de registrar a identidade da banda em seu estado mais espontâneo. Gravado em apenas oito dias no estúdio ouié, na Praia da Armação, em Florianópolis, o EP carrega um pouco da paisagem que o cerca. Há estrada, mas também há mar; existe velocidade, mas também espaço para contemplação. Produzido por Paulo Costa Franco e Eduardo Possa, o trabalho privilegia a força da formação ao vivo, sustentada por guitarras, baixo, bateria, percussões e vozes que se aproximam até quase se confundirem. Em vez de revestir as músicas com excessos, a produção parece retirar camadas para revelar o que já existia no núcleo da banda: uma sonoridade pulsante, imperfeita e viva. Leia também: Hua Hsu: Stay True: Relato de uma Amizade Holy Fuck: Event Beat O florescer íntimo e autoral de Lucas Higashi (Créditos: Divulgação/Reprodução) “Bicicleta” abre o EP e apresenta imediatamente essa disposição. As guitarras avançam com urgência, enquanto a letra transforma um elemento cotidiano em ponto de partida para uma narrativa que escapa da lógica convencional. Aliás, essa é uma característica que acompanha a Exclusive Os Cabides desde os primeiros trabalhos: observar o banal e encontrar nele uma dimensão estranha, divertida ou afetiva. Nas mãos do grupo, uma bicicleta deixa de ser apenas um objeto; torna-se imagem, movimento e possibilidade de fuga. O cotidiano está presente em toda a narrativa do disco, mas as pequenas situações escondem sentimentos maiores e, consequentemente, mais complexos. “Espirros Infinitos” transforma uma crise de rinite em uma canção marcada pelo humor e pelo desconforto, expondo uma inquietação difícil de nomear. Já “Gato Chinês” reforça o universo particular da banda, no qual imagens inesperadas e melodias imediatas se encontram em uma atmosfera roqueira mais densa. É justamente nessa tensão que reside a força do trabalho. O título não funciona apenas como uma definição emocional, mas como uma chave para compreender o conjunto. As canções alternam leveza e angústia, diversão e vulnerabilidade, sem transformar essas contradições em conflito. No encerramento de Feliz e Triste ao Mesmo Tempo, “Notlin vs. Smellectron” abandona as palavras e entrega à música a tarefa de concluir a experiência. A faixa instrumental surge como uma explosão de guitarras, ruídos e liberdade, quase uma extensão dos momentos de improviso e descontração que nascem nos ensaios. Depois de tantas imagens, dúvidas e sentimentos contraditórios, a Exclusive Os Cabides encerra o EP fazendo barulho e celebrando as vivências e as consequências que surgem delas. Ao apresentar uma nova fase, Feliz e Triste ao Mesmo Tempo revela uma banda cada vez mais consciente de sua própria linguagem. A Exclusive Os Cabides mantém o humor, o imaginário lúdico e as letras que encontram poesia nas situações mais comuns, mas agora coloca o instrumental em primeiro plano e deixa a energia do palco conduzir as canções. O resultado é um trabalho mais roqueiro, intenso e direto, sem perder a estranheza que tornou o grupo reconhecível. Apoie financeiramente o desalinho e ajude a manter um espaço independente dedicado à crítica, às entrevistas e à divulgação da cultura independente. Toda contribuição faz diferença.

Flipei 2026
A 8ª edição da Festa Literária Pirata das Editoras Independentes - Flipei 2026 ocupa o centro de São Paulo - Espaço Cultural Elza Soares, Café Colombiano, Sol y Sombra Bar, Central 1926 e Prato do Dia -, entre os dias 5 a 9 de agosto, para celebrar a circulação de ideias emancipatórias como prática política insurgente em torno do livro. Com mais de 150 editoras independentes confirmadas, a programação da Flipei 2026 contará com a presença de August H. Nimtz, Mônica Seixas, Thiago Ávila, Jessy Dayane, Karai Djekupe, Veronyka Gimenes, Deivison Faustino, Vladimir Safatle, Aira Bonfim, Mandi Coelho, Juliano Medeiros, Tal Nitzán, Medea Benjamin, Txai Surui, Cida Bento, Xico Sá, Sâmia Bomfim, Jamil Chade, Bel Santos Mayer, Anas Obaid, Flip Couto, Tiago Santineli, Estela Lapponi, Ruth Wilson Gilmore, Luiza Erundina, Michel Alcoforado, Geni Nuñez, Guilherme Terreri, Luana Alves, Nabil Bonduki, Fabricio Penafiel, Neon Cunha, Paula Yurie, Guilherme Cortez, Rick Blackman e Gideon Levy. Além dos shows da rapper argentina Sara Hebe e FBC. A novidade do evento fica com o pebolim e o boxe popular em sua programação. Em ano de Copa do Mundo, o pebolim entra em cena como tributo à sua origem rebelde: o jogo foi criado por Alejandro Finisterre, poeta anarquista que lutou na Guerra Civil Espanhola. Já o boxe propõe a visão e reflexão de usar a modalidade como autodefesa e cuidado coletivos, reforçando a importância de estar saudável e com o treino em dia para enfrentar as opressões. A edição deste ano mantém o Zona Piratinha, espaço voltado para crianças, com programação na perspectiva indígena e afro-brasileira. Confira todas as informações da Flipei aqui. Festa Literária Pirata das Editoras Independentes - Flipei 2026 Data: 05 a 09 de agosto Local: centro de São Paulo | Espaço Cultural Elza Soares, Café Colombiano, Sol y Sombra Bar, Central 1926 e Prato do Dia

O mundo distópico de Leandro Serizo
A capa de Sol Quimérico (2026) parece abrir um portal antes mesmo que a primeira faixa comece. Em meio a personagens, figurinos e imagens que atravessam o sagrado, o exótico, o estranho e o futurista, Leandro Serizo surge como parte de um universo em transformação, onde corpo, máquina, mito e espiritualidade deixam de ocupar territórios separados. A imagem antecipa a simbologia que sustenta o álbum: o Sol Quimérico é uma entidade paradoxal, construída a partir de contradições e convertida em força de resistência diante de um mundo que tenta controlar desejos, identidades e imaginações. (Créditos: Fernanda Ferreira) Ambientado no ano de 2222, Sol Quimérico transforma inquietações contemporâneas em uma ficção científica musical, povoada por personagens, conflitos e mundos que se expandem ao longo de 13 faixas. O futuro imaginado pelo artista, no entanto, não parece tão distante: nele, a tecnologia invade os vínculos humanos, a imaginação é ameaçada e a música pode se tornar uma ferramenta de controle. A origem do projeto remonta a uma imagem real. Durante as queimadas da Amazônia, em 2023, Leandro Serizo observou o céu escurecer e se perguntou se ainda veríamos um sol. Daquele instante nasceu uma centelha que, aos poucos, ganhou personagens, mitologias, canções e uma dimensão política. Dessa maneira, o álbum fala sobre destruição ambiental, guerras, hegemonias e a robotização do ser humano, mas não se limita ao diagnóstico de um mundo em crise. Mesmo com ruínas e máquinas, o álbum dá espaço para o amor, a espiritualidade, a resistência e a transformação. Leia também: Bruno Berle: Sem Fronteiras O manifesto de MONCHMONCH no fim do mundo Vice is Broken No centro da narrativa está MΣGΛPΘLIS, uma metrópole governada pelo império alienígena de Ciborgue Tyrannus. Suas avenidas são atravessadas por uma mesma música robótica, repetida em um ciclo interminável e capaz de transformar os habitantes em corpos sem sonho. Do outro lado desse universo estão os Abutrons, quimeras meio humanas e meio abutres, rejeitadas como aberrações e lançadas às margens da sociedade. É nesse exílio que elas constroem uma identidade própria e encontram no culto ao Sol Quimérico uma forma de enfrentamento. A trajetória de Leandro ajuda a compreender a amplitude do projeto. Nascido em Campinas e de origem periférica, o artista começou a tocar aos oito anos na igreja do bairro onde cresceu. Mais tarde, passou pelos saraus, estudou música na Unicamp e aprofundou pesquisas sobre as tradições latino-americanas, mediterrâneas e árabes. Entre experiências coletivas, apresentações no Brasil e no exterior e projetos como o FORRÓBAILE, construiu uma linguagem que entende a música como encontro, rito e espaço de resistência. Em Sol Quimérico, essa bagagem se transforma em uma obra que recusa caminhos previsíveis. Sua trajetória começou na igreja do bairro onde cresceu. O que daquela experiência ainda permaneceu na sua forma de enxergar a música? Eu comecei de forma autodidata, muito livre, muito experimental. O que ficou daquilo foi a música como brincadeira, como jogo de possibilidades. Eu dava cor para cada tonalidade, explorava os sons de forma sinestésica, e isso me formou um ouvido e um músico singular. Até hoje é esse o farol pelo qual eu me oriento. E ficou minha mãe cantando. Ela cantava na igreja, e era muito bonito ver a verdade dela ali que não era sobre técnica, era sobre entrega. Acho que foi vendo minha mãe cantar que eu entendi, antes de saber explicar, que a música serve para atravessar alguém. Desde aquela época eu sinto que a música é um portal para despertar sentidos e sensações no corpo. Gosto de estados de transcendência, e de modo geral as religiões usam esses estados para moldar pensamento. Cabe à gente poetizar o mundo para os valores em que a gente acredita, sonhando com um mundo onde as pessoas sejam mais livres. Mesmo sendo um ambiente fechado naquela época, a música foi o tapete mágico que me permitiu viver uma jornada de descoberta e diversão pelas muitas coisas que eu faço como músico independente: cantor, sanfoneiro, percussionista, pesquisador, educador, produtor. O trabalho exige que a gente se desdobre, e eu encaro isso como uma jornada de aperfeiçoamento. Meu trabalho autoral é o lugar onde eu evoco essa magia. Seu trabalho costuma unir performance, narrativa e pesquisa. Quando você percebeu que não queria fazer apenas canções, mas construir universos? Quando reconheci em mim um espírito nômade: sangue de movimento, de liberdade, de êxtase e de transe. Foi aí que percebi que a música, sozinha, já não dava conta daquilo que eu queria expressar. Conforme fui estudando e trabalhando, percebi que existe uma tendência de especialização muito forte. É natural: você entra num campo e passa a responder às expectativas daquele meio. Eu admiro quem escolhe esse caminho, mas comigo aconteceu o contrário. Não quis abandonar as muitas coisas que me fizeram amar a arte. Meu trabalho nasce justamente desse encontro. Música, teatro, performance, imagem, literatura, corpo e pesquisa convivem porque foi assim que aprendi a me encantar pelo mundo. Construir universos acabou sendo uma consequência dessa necessidade de deixar todas essas linguagens conversarem entre si. Quero continuar me surpreendendo em cada artista que encontro, em cada voz, em cada solo improvável. Porque acredito que a criação acontece justamente quando a gente permanece disponível para o encantamento. Você diz que sua obra é um “território de encontro entre linguagens”. Como essa ideia orienta suas escolhas artísticas? Meu primeiro trabalho, Saudoso Amarais (2023), eu disse por aí que era uma ode à louvação espacial. Desde o primeiro show, a gente foi construindo pequenas performances, a ideia de um show onde coisas diferentes acontecem, onde não é só sobre a música. Já o Sol Quimérico eu tenho entendido como uma ode à louvação da teatralidade. Percebi que os artistas performáticos e as artes que se misturam são minhas grandes paixões. Performar com diferentes linguagens exige uma jornada de aperfeiçoamento em áreas onde a gente não necessariamente já se deliciou tanto e aprender, aperfeiçoar o próprio caminho, é algo que faz sentido para mim. Por isso gosto de levar comigo nos shows a Maria Cabral e a Zalla, duas performers que trazem corpo e presença para o jogo. Isso vale até para a composição: eu compus as músicas desse disco pelo título. Imagino a força visual de cada título e as esferas sonoras que ele pode abrir. Me encanto pelas artistas performáticas, e são elas que orientam minha trajetória. A imagem do céu escurecido durante as queimadas na Amazônia foi o pontapé para a construção do disco. Como uma inquietação tão específica se transformou em uma narrativa ampla? Acho que é uma centelha que eu carrego desde que me apaixonei pela música brasileira, especialmente pela música de protesto dos anos 60 e pela psicodelia dos anos 70. Ver como Chico Buarque e Milton escreviam letras cheias de significado e poesia. A liberdade dos tropicalistas, a visceralidade nos discos de Edu Lobo, a voz incrível de Tetê Espíndola, são marcas que me moldam até hoje. Eu queria, ao menos uma vez, criar uma obra rica de significados explícitos e ocultos, em forma de sonoridade e de poesia. Foi um pacto comigo mesmo: fazer algo extremamente político, que refletisse a maluquice desse mundo que a gente está construindo. Mas tem uma coisa que eu preciso dizer, porque ela orienta tudo: denunciar a distopia é o assunto do disco, não a missão. A missão é evocar transe e reencantamento como método político. As religiões sempre souberam que estados alterados moldam pensamento e eu quero usar isso a favor da liberdade das pessoas, não contra. É por isso que o disco vira ritual, vira teatro, vira língua inventada em “SOL QUIMÉRICO II”. "Tenho esperança, mas ela não é ingênua. Minha esperança é para o depois." O disco é uma distopia que aborda IA, robotização, guerras e crise ambiental, mas também traz espiritualidade e afeto. Como você encontrou equilíbrio entre esses extremos? Não enxergo tecnologia e espiritualidade como opostos. O disco parte justamente dessa tensão. Quanto mais avançamos tecnologicamente, mais urgente me parece perguntar o que continua nos tornando humanos. Minha relação com a espiritualidade é muito pessoal. Passei por diferentes tradições, filosofias e formas de pensar o sagrado, sempre buscando aprender sem transformar nenhuma delas em verdade absoluta. Hoje encontro muito sentido nos saberes indígenas e afro-brasileiros, cultivo uma dimensão cristã ligada à amorosidade e carrego comigo uma frase do Vipassana que me acompanha há anos: "que todos os seres sejam felizes". Isso não significa esperar que as pessoas sejam só boas. As pessoas erram, julgam demais, se reprimem. Cada ser está em sua própria jornada, e não cabe a mim salvar ninguém, mas cabe compartilhar. Oferecer não é converter, e despertar talvez não seja sobre salvar. Quando eu digo que falar sobre isso desperta outras pessoas, eu quero dizer que o disco é uma oferta: quem quiser entrar, entra. Para mim, espiritualidade é reconhecer nossas contradições e seguir cultivando presença e responsabilidade diante delas. Por isso o disco atravessa atmosferas sombrias, violentas e caóticas, mas nunca perde completamente a possibilidade do afeto e do encantamento. Reconhecer o caos é justamente o que me permite vislumbrar alguma luz. (Capa: Fernanda Ferreira) Sol Quimérico é cheio de tecnologia, mas também dá ênfase à espiritualidade. Você acredita que, quanto mais avançamos tecnologicamente, maior será a necessidade de buscar e/ou se refugiar no sagrado? Acredito que sim, desde que a gente comece separando espiritualidade de religiosidade, e desde que a gente entenda que essa missão é íntima, é no dia a dia, é você com você mesmo. E não vejo o sagrado como refúgio. Refúgio é onde você se esconde mas o sagrado é onde você encara como um bicho selvagem. A história humana é cheia de violência e de dores que a gente vai carregando, e é difícil alguém que não precise, em algum momento, olhar para as dores da própria vida ou para o que a gente carrega enquanto humanidade. A espiritualidade é essa relação mais profunda, a que dispensa as máscaras que a gente coloca para sobreviver. Num mundo cada vez mais fragmentado, em que as máquinas pensam e produzem no lugar do ser humano, o risco é a gente se fragmentar junto virar função e produto. O sagrado, para mim, é o que reintegra. É o que devolve a pessoa inteira para ela mesma. Quanto mais a máquina avançar, mais isso vai ser necessário. Por que você escolheu ambientar a história especificamente em 2222? Gosto de citar as obras que me moldam, esse disco tem vários “easter eggs”. Aqui eu quis homenagear um grão-mestre da canção popular: Gilberto Gil. Gil é um artista tão brilhante que, ainda vivo, se tornou o próprio sagrado da música. Expresso 2222 é uma música dele que sempre me passou uma imagem futurista. Imagino que quem chega em 2222 conhecendo a obra dele vai perceber a associação sem que eu precise dizer nada. Eu queria continuar esse expresso e contar a minha história em 2222. O enredo que você constrói, utilizando 2222, parece distante, mas é familiar - algo que já estamos vivendo. Ainda existem meios para parar essa distopia? Você tem esperança? Tenho esperança, mas ela não é ingênua. Minha esperança é para o depois. Acho que a gente vai ter que chegar a um extremo que a humanidade ainda nem imagina ser possível e digo isso olhando para o que já está acontecendo: as queimadas, as guerras em curso, o quanto a gente normaliza a bizarrice. A história mostra que o ser humano costuma mudar depois do colapso, não antes. Minha esperança é para o depois. E é justamente por isso que ela precisa de gente construindo sentido agora, para que sobre alguma coisa de onde recomeçar. Acredito que é falando sobre isso que a gente vai despertando outras pessoas. Seja elegendo gente desperta para enfrentar quem usa a fé para maquinar mentes, seja quem está na linha de frente da educação, seja quem usa a própria criação para também falar de coisas urgentes. O disco nasce dessa vontade. Falar sobre essas urgências não para viver angustiado com o futuro, mas justamente para conseguir viver o presente com mais consciência. Quero falar sobre coisas importantes mas também quero poder curtir os encontros, aproveitar as coisas boas da vida e relaxar também. É encontrar esse meio do caminho entre a responsabilidade política e social e o direito à alegria me dá algum sentido nisso tudo. “Androide 2222” traz o amor em um cenário apocalíptico. Você acredita que o afeto pode ser uma forma de resistência? Vejo o afeto norteando as poéticas de vida da maioria das pessoas, tanto de quem vive essa busca em silêncio quanto de quem a atravessa em desespero. Para mim, se libertar das próprias couraças é um gesto de amor. É entender que ninguém é posse e que a comunicação transparente talvez seja uma das alianças mais verdadeiras que podemos construir. Então, como um aquariano meio romântico, quis abrir espaço para que esse disco respirasse e deixasse uma mensagem que não fala apenas do amor romântico, mas também das amizades verdadeiras e da família. Tem uma música no disco, "Santuário", que comecei a escrever para minha mãe. A primeira imagem da canção era ela saindo cedinho para pegar o ônibus rumo ao trabalho. Na época, a música se chamava "Passageira", mas, quando passei a escrevê-la junto com Graciela Soares, que também é mãe, a letra encontrou outro lugar: deixou de falar apenas do deslocamento e passou a falar do cuidado. Minha mãe trabalhou a maior parte da vida como empregada doméstica e cuidadora, mas, antes de qualquer coisa, ela foi minha primeira referência artística num campo próximo. Foi vendo ela cantar na igreja, com uma entrega absoluta, que entendi que a arte, primeiramente, não depende só do palco ou técnica, mas de verdade. Hoje em dia, eu acesso lugares através da arte e da universidade que minha família talvez nunca imaginem e que nunca faço sentido pra eles. E, justamente por isso, sinto que a chance de criar um disco com tantas camadas, nasce também do desejo de um dia poder retribuir tudo o que eles me ofereceram. "Num mundo cada vez mais fragmentado, em que as máquinas pensam e produzem no lugar do ser humano, o risco é a gente se fragmentar junto virar função e produto. " Em “Abutre” você diz que logo voltará a renascer. Como imagina esse cenário? Imagino a cada dia mais desperto e consciente de que as nossas criações importam. Sendo artista independente, existe uma violência simbólica muito forte sobre como inserir seu trabalho no mundo. Parece que, se você não for um número, seu trabalho não é validado, não tem relevância. E infelizmente tem muita gente que consome arte assim. Eu escolhi não pensar em caixa, em gênero, nesse tipo de coisa e escolhi sabendo o preço no agora. Decisão de continuar garimpando cada oportunidade que me aparece, cada palco que me aceita, cada revista que a de vocês, que realmente me dá um espaço para existir. Porque o que eu quis mesmo foi fazer um álbum para olhar para trás e ver que eu realmente permiti que minha criação louvasse a teatralidade. Esse era o combinado comigo, era me autorizar. Espero ter, no futuro, mais estrutura para continuar criando obras feitas para performar. Que meu trabalho continue somando e movendo o trabalho de outros artistas das artes corporais, musicais e visuais. E que possa ser um encontro para a gente ritualizar a nossa fagulha mais íntima. Já que Sol Quimérico é o primeiro capítulo de um projeto transmídia, o que podemos esperar das próximas etapas? O primeiro desdobramento é o palco. O show de lançamento é em 19 de agosto na Casa Gambá em Campinas, e a ideia é levar o Sol Quimérico pelo estado de São Paulo junto do ao selo que me filiei, a vintesete records, que apareceu neste momento da carreira e tem movido coisas por aí. Em paralelo, sigo buscando recursos para o livro, que é o segundo capítulo: um trabalho com artistas da literatura, dos quadrinhos e das artes visuais, para que o universo de 2222 exista fora do som. Gostaria também de lançar pelo menos mais um clipe para amarrar a história do disco, mas financeiramente é o mais difícil agora. No meio disso, vou para o Cairo fazer um intercâmbio técnico-artístico com uma aprovação no PNAB estadual. Enquanto sanfoneiro e forrozeiro na minha cidade, Campinas, minha pesquisa nessa viagem é sobre as influências árabes na música brasileira, o forró tem essas raízes, e eu quero ir até a fonte. Espero voltar com material que ligue a natureza mítica das minhas músicas às consciências que eu reverencio naquele lugar tão importante para a humanidade. Gostou da leitura? Apoie financeiramente o desalinho e ajude a manter um espaço independente dedicado à crítica, às entrevistas e à divulgação da cultura independente. Toda contribuição faz diferença.
