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Feira do Livro 2026

Feira do Livro 2026

A 5ª edição da Feira do Livro 2026 segue com a proposta inicial: ocupar o espaço público. Entre os dias 30 de maio e 7 de junho, a praça Charles Miller, no Pacaembu, será ocupada por debates, editoras, atividades para crianças e oficinas sobre a cultura do livro, além de uma programação que reúne grandes nomes da literatura, do jornalismo, da política e das artes. A novidade deste ano está em uma plataforma digital, especialmente desenvolvida para explorar as programações oficial e paralela e os mais de 160 expositores participantes d’A Feira do Livro 2026, disponível no site. Com essa ferramenta, o leitor pode salvar os eventos de seu interesse automaticamente na agenda do Google, assim como navegar pelas listas de autores convidados, editoras, livrarias e instituições presentes nos espaços expositivos. Os temas da Feira do Livro 2026 Vocação latino-americana A vocação latino-americana do festival literário paulistano se reafirma em 2026 com a presença de grandes nomes da cena contemporânea, como a colombiana Pilar Quintana, o italiano Sandro Veronesi, o botânico Stefano Mancuso, a argentina Paula Sibilia, o historiador português Rui Tavares e o cientista político norte-americano Norman Finkelstein. Ao todo, serão dezessete autores estrangeiros vindos de Argentina, Chile, Colômbia, Uruguai, Nigéria, Rússia, França, Portugal, Espanha e Estados Unidos. A literatura brasileira também conta com representantes de peso, dos consagrados (Ana Maria Machado, Nei Lopes, Silviano Santiago) aos novíssimos (Ana Estaregui, Maria Brant, Bernardo Ceccantini, Ian Uviedo), dos best-sellers (Carla Madeira) aos autores experimentais (Reinaldo Moraes e novamente Uviedo). Autores fundamentais para o debate literário atual, como Jeferson Tenório, Eucanaã Ferraz, Noemi Jaffe, Gregorio Duvivier, Giovana Madalosso e Mariana Salomão Carrara, terão encontros memoráveis com o público. A cultura afro-brasileira está entre as principais linhas de força da programação oficial, presente em diferentes eixos temáticos: literatura, religião, filosofia, economia, entre outros. O pensamento indígena se reafirma com a presença do escritor paraense Daniel Munduruku e da autora chilena do povo mapuche Daniela Catrileo. Jornalismo e podcasts Em ano eleitoral, com o debate público e o noticiário fervendo diariamente, A Feira do Livro 2026 traz, em sua programação, uma contribuição indispensável: o jornalismo independente brasileiro. Jornais, revistas e podcasts levarão aos palcos do festival literário paulistano algumas das estrelas de suas redações e bancadas para entrevistar autores e analisar cenários e perspectivas do país e do mundo. A programação do evento traz alguns dos mais populares podcasts brasileiros de livros, cultura e política: o 451 MHz, da Quatro Cinco Um; o Foro de Teresina, da Piauí; o Calma Urgente!, do Estúdio Fluxo; e o Rádio Companhia, da Companhia das Letras. A bancada do programa esportivo-humorístico Falha de Cobertura - Daniel Furlan e Caito Mainier -, por sua vez, promete arrancar risadas da plateia em uma mesa a ser realizada no domingo (7). Copa e língua Tendo em mente a Copa, a programação do festival traz autores de livros sobre futebol para dialogar com o público. O jornalista argentino Alejandro Droznes conversa com o historiador e ensaísta Fabio Luis Barbosa dos Santos sobre a história da América Latina e o futebol. Outro aguardado momento do festival literário é a versão pop-up da peça O céu da língua, de Gregorio Duvivier, que marca o lançamento do seu novo livro, Aos pés da letra (Companhia das Letras, 2026). O escritor e humorista vai apresentar na praça curiosidades, esquisitices e belezas do idioma de Camões e Adoniran Barbosa. (Créditos: Divulgação/Reprodução) Cultura do livro Os clubes do livro, que também vêm se popularizando e se consolidando na vida literária, terão dois representantes n’A Feira do Livro 2026: o Clube de Leitura de Literatura Japonesa, realizado pela Japan House São Paulo em parceria com a Quatro Cinco Um, e o clube do livro da jornalista Roberta Martinelli, que sobreviveu à extinção da rádio Eldorado FM de São Paulo. A programação em torno da cultura do livro ainda inclui uma conversa sobre o projeto Mapa das Livrarias de Rua, com a editora e livreira Cecilia Arbolave e as livreiras Julia Souto Araujo, Monica Carvalho e Tereza Grimaldi. A Feira do Livro 2026 Data: 30 de maio a 07 de junho Horário: sábados, domingos e feriados: 10h ás 20h | Segunda, terça e quarta: 14h às 21h Local - Praça Charles Miller, Pacaembu

OVM: Senóides

OVM: Senóides

Entre ondas de estabilidade e colapso, a mente humana não se move em linha reta. Pelo contrário, há desvios, espirais, ruídos internos difíceis de nomear. No EP Senóides, a banda OVM utiliza esse terreno instável para construir um trabalho que transforma desconforto psíquico em linguagem sonora, sem romantizar e sem amenizá-la - mostrando como ela é. Composto por “Vestida” e “Senoide 1 / Senoide 2”, o lançamento aprofunda a pesquisa estética e conceitual que o trio vem desenvolvendo em torno da saúde mental. Formada em 2014 por Mancin, Dan Nascimento e Eddie, a OVM construiu uma identidade própria dentro do rock alternativo brasileiro ao equilibrar densidade emocional e energia instrumental. (Créditos: Fer Fiorini) Produzido, mixado e masterizado por Gui Godoy, da Casalago Records, Senóides encontra força justamente em suas contradições. “Vestida” nasce de uma revisita ao universo de “Nua”, reaproveitando uma base construída no violão por Dan Nascimento para revelar outra perspectiva da mesma narrativa. A faixa oscila entre melancolia e um sentimento de alegria contida, criando um ambiente de aparente suavidade que nunca se acomoda totalmente. Existe delicadeza ali, mas ela convive com um desconforto silencioso, como quem tenta reorganizar emoções ainda mal resolvidas. É em “Senoide 1 / Senoide 2” que o EP alcança seu ponto mais inquietante. A música aborda os ciclos da esquizofrenia a partir de duas fases distintas: o período ativo, marcado por pensamentos intrusivos, paranoia e delírios, e a fase residual, quando a estabilização dos pensamentos surge acompanhada pelo medo constante de uma nova crise. O verso “e se o ciclo vencer, eu não vou suportar os olhos desse povo” sintetiza um dos aspectos mais violentos da experiência do sofrimento mental: o peso do julgamento externo. (Créditos: Julia Peres) A própria construção musical acompanha esse estado de instabilidade. Desenvolvida a partir de um compasso incomum em 7/8, surgido de uma linha de baixo criada por Mancin e posteriormente expandida com contribuições de Dan e Eddie, a faixa cria uma sensação de deslocamento contínuo. O ritmo parece impedir qualquer sensação completa de conforto, escolha estética que dialoga diretamente com a proposta narrativa. Em Senóides, a OVM demonstra entender algo fundamental: falar sobre saúde mental na música não exige respostas prontas nem discursos didáticos. Às vezes, basta criar um espaço onde o desconforto possa existir sem ser simplificado. E, nesse território de delicadeza, estranhamento e tensão, o trio encontra uma das expressões mais interessantes de sua trajetória até aqui. Em outubro deste ano, a banda prevê o lançamento de Exúvios, novo álbum do grupo.

As terras de Ricardo Nash

As terras de Ricardo Nash

A palavra terra possui múltiplos significados. Pode ser o solo que sustenta a vida, o território de origem, o espaço de pertencimento ou à relação que os indivíduos constroem com a natureza ao longo do tempo. Em Moda à Terra (2026), novo álbum de Ricardo Nash, as diferentes interpretações se encontram para conduzir um trabalho que transforma música, tradição popular e reflexão ambiental em um mesmo percurso artístico. (Créditos: Kristina Gonçalves) Cantor, ator, compositor e violeiro, Ricardo Nash apresenta um projeto desenvolvido ao longo de mais de duas décadas e que agora chega às plataformas digitais em formato de álbum de estúdio. Inicialmente encomendado pelo Sesc Pompeia e apresentado no Teatro Oficina como parte da defesa de mestrado do artista, Moda à Terra ganha diferentes dimensões ao reunir 16 faixas entre nove canções, sete temas instrumentais e momentos de recitação poética. A partir da narrativa, o músico explora temas como a relação entre humanidade e planeta, os impactos das ações humanas sobre o meio ambiente e a necessidade de buscar equilíbrio entre os seres que compartilham a Terra. Mais do que apontar problemas ambientais, o disco também propõe reflexão sobre transformação, pertencimento e reconexão com o mundo natural. "Nós, enquanto população planetária, seguimos em desarmonia e somos o principal desagregador e destruidor da natureza. Crises climáticas e guerras de toda ordem assolam nossa atualidade. Cada um de nós é também responsável por todo esse pulverizar de sentidos. 'Amor e perdão' tornam-se, cada vez mais, apenas palavras de manipulação do que afetos honestos e necessários para uma vida em busca de equilíbrio. Eu quero crer nessa mesma humanidade com o potencial de agente de mudanças. As novas gerações estão aqui também para isso. Eu espero que Moda à Terra contribua, mesmo que como semente, na busca por relações mais saudáveis com a natureza e na convivência humana, nos encontros vida afora e vida adentro", declara. Leia também: As micro belezas de Edssada Pupillo A procissão de Pero Manzé Moda à Terra foi concebida ao longo de mais de duas décadas. Como o disco foi se transformando nesse período e quais ideias permaneceram desde o início? Para mim discorrer racionalmente sobre uma criação sempre foi tarefa árdua. Por mais que procuremos ou busquemos as palavras ideais… Palavras sempre escapam ao estado profundo e sensorial da intuição na hora de criar. Claro, existem as balizas: no caso de Moda à Terra, foi um trabalho inicialmente encomendado pelo Sesc para um formato solo de viola caipira e violeiro. A ideia inicial era abarcar a cultura regional, num primeiro momento paulista. Uma das referências iniciais era tomar a viola com a função de apoio/suporte à voz cantada como acontece tipicamente na moda tradicional de viola e isso a depender de qual região estamos falando, pois Moda de Viola existe em todo o país com estéticas diferentes (nos repiques, por exemplo). O curioso é que este projeto caminhou em sua primeira forma entre o início dos anos 2000 até 2006, onde aconteceram apresentações neste formato solo no Sesc Pompéia, na primeira Virada Cultural, e se tornou estudo de caso de um dos capítulos de minha dissertação de mestrado – “Música Em(Cena): processo de criação em Mídias Diversas”, orientada por Silvio Ferraz, PUC-SP –, realizada a defesa prática e teórica da dissertação no Teatro Oficina, em 2006. De 2006 a 2023, o projeto ficou parado, mas eu não. No final de 2023, Moda à Terra foi contemplada na 7ª edição do edital apoio a música da cidade de São Paulo da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo e neste novo momento compus novas músicas, revisei e atualizei as composições anteriores, e agora sim para ser sucinto, digo, que o que se mantém em todos esses anos é justamente o olhar atento à natureza e ao meio em que vivemos, para que nossas relações possam minimamente não serem destrutivas, ou ainda autodestrutivas. Nós, enquanto sociedade, enquanto seres que se relacionam uns com os outros, outras, ainda estamos caminhando e temos muito a aprender. E, nós, somos os devastadores, destruidores do planeta que nos oferece tudo. Este olhar permanece, mas quer acreditar que nossa humanidade-natureza é capaz de reverter este quadro destrutivo. Musicalmente, posso dizer que ao passar desses anos todos há um processo de amadurecimento como ser humano. Isto, obviamente, transforma a obra. Como as diferentes camadas - acadêmica, artística e pessoal - influenciaram a construção da obra? Cada vez mais percebo que estas esferas: acadêmica, artística, pessoal coexistem amalgamadas de forma a não ser tão possível construir esta divisão. Ora, ser artista, apesar de querermos e precisarmos defender como uma profissão, em uma perspectiva mais profunda é um estado de ser, uma forma de existir, um jeito de olhar, um outro tempo para escutar. Podemos estudar a arte, história da arte, técnicas e teorias, estilos, estéticas, mas viver arte em essência é outra coisa. No entanto, ser artista, músico, ator, aí sim precisamos falar de demandas, tarefas e muito treino, e muita repetição, e muita exaustão, para se chegar em resultados. É uma dor até, não muito simples. Fazer arte é botar a dor, as dúvidas, as crises para fora e em perspectiva com o mundo. Um poema pode até nascer em instantes, e ali já está finalizado. Principalmente se o exercício for escrever um poema de supetão e deixá-lo na primeira forma. Mas, geralmente, não é assim que acontece: ralamos e ralamos sobre o material criativo horas e horas, dias, anos, décadas. Como é o caso desta obra: ela ficou dormindo por muitos anos para poder florescer no momento atual. "Ainda elegemos monstros que fazem guerra, corrupção e são mais gananciosos que podemos ver. Mas a partir da ideia de que a natureza não é apenas uma extensão nossa ou vice-versa, e sim que somos natureza quando nos encantamos à terra que pisamos." Você também é ator e multiartista. Essas linguagens influenciaram na narrativa e/ou na interpretação das músicas? Uma das principais maneiras no meu processo de compor é a partir de insights, de imagens que vejo, imagino, ou ainda construo. Algumas imagens aparecem como cenas prontas, seja numa memória ‘reconstruída’, ou seja na criação de uma ‘memória’. No primeiro, no segundo e no terceiro álbum – todos disponíveis nas principais plataformas de streaming – percebo esta correlação. As músicas são como flashes de uma cena, desde a possibilidade mais real e coerente como em Achegar, música que convidei Ceumar para interpretar, e ela o faz brilhantemente: “lembre a sua moça e vá ver o luar sereno cantando, lembre a sua moça”, ou, ainda na mesma canção, algo mais subjetivo, mas que remete à brincadeiras, rodas, ou a um imaginário popular: “Não se mexa nem se atreva / Pode se apresentar / Quem tem pressa, / se apressa, não se achega / já nem lembra de brincar”. Tem vezes que percebo uma música como se fosse uma dança, mas tem vezes que a música é um quadro (em movimento). Ainda, na forma como canto, como interpreto, sinto que estou contando uma história, narrando algum acontecimento por mais não-linear, e subjetivo que seja. Desta forma percebo que as linguagens se cruzam, e, fazendo uma analogia brincada, a linguagem matemática está na língua portuguesa, assim como a língua portuguesa está na matemática, uma coisa não acontece e nem nasce sem a outra. As referências vão se cruzando cada vez mais, e vejo isso como tendência. (Créditos: Raphael Gonçalves/MoviePlay, Morgana Eir) O disco alterna entre canções, instrumentais e recitação de poesia. Como você pensou na organização dessas linguagens para criar uma experiência coesa? O roteiro desse trabalho foi criado, como eu disse anteriormente, a partir do convite do Sesc que tinha como referência diversos trabalhos anteriores também encomendados, onde tínhamos (eu e meu parceiro de cena e criação, Nilson Muniz) a tarefa de construir uma cena que cruzasse as linguagens de teatro, música, literatura/poesia e dança. Fizemos várias performances autorais lítero-musicais neste formato onde mesclávamos teatro, dança, música e poesia basicamente, como dito. Na pesquisa de mestrado, e antes na graduação, e antes ainda já me atraía muito a experiência vanguardista dos cubistas, e de todos os outros, mas foi no cubismo, a partir da ideia sobreposição de imagens, a quebra da linearidade e outras características desse movimento a mim sempre foi muito inspirador. Eu fui banhado desse conhecimento, dos vanguardistas por incríveis mestres na faculdade, e no mestrado que traziam as experiências vanguardistas, não só em suas aulas mas também em seus trabalhos. Fui influenciado demais por isso, e já tinha também essa essência como criador. E aí utilizando como base ideias de filósofos pós-estruturalistas como Gilles Deleuze e Félix Guattari fui buscar e utilizar uma das noções básicas onde Deleuze defende a ideia da coesão de elementos distintos, heterogêneos a partir da variação do ritmo entre eles. E nesse caso o ritmo é também o ritmo musical: o baião, o pagode de viola, o fandango, o boi, o cateretê, mas não só esse ritmo e sim o ritmo compreendido de uma forma para além da música. Ritmo nos ciclos distintos da vida. Então, é na busca de construir essas diferenças, tentando desenvolver variações rítmicas tendo essa base norteadora, que organizei as linguagens cruzadas como ‘urdimentos’ do roteiro. A viola caipira aparece como o fio condutor do disco. Como foi equilibrá-la com folk e música de concerto? Quando fiz as primeiras apresentações nos idos de 2000, como já dito anteriormente, foram apresentações solo. Quando fiz a gravação demo para registrar a primeira etapa do projeto (e mal poderia imaginar que ele chegaria onde chegou) convidei o músico Manuel Pessoa para tocar flauta transversal, pois inicialmente concebia o trabalho desta forma. Sentia vontade que esse trabalho fosse mais estruturado musicalmente: que ele fosse arranjado para uma banda. No entanto, naquele momento eu não tinha estrutura para ir mais longe, queria uma banda, mas ainda não era possível, não era ainda o momento, que só chegaria bem adiante. Foi apenas em 2023, quando estava escrevendo o projeto para o edital, que concebi juntamente com o parceiro que convidei para fazer os arranjos, William Guedes, quando definimos juntos a instrumentação sinfônica. Assim, todos os arranjos sinfônicos foram concebidos por William e todos os outros arranjos um pouco menos da metade do álbum foram criados por mim, Felipe Soares e Mauricio Damasceno. Acredito que este equilíbrio se deu naturalmente em função da variação dos músicos envolvidos nesta criação de arranjos. O álbum traz uma forte reflexão sobre a relação entre humanidade e natureza. Como tem sido cantá-las nos dias atuais? Bom, este é o tema central do trabalho. Especificamente, abordando o momento ao vivo, posso dizer, que apesar de ainda ter feito poucos shows deste projeto tem sentido uma grande oportunidade de realizar trocas com a plateia e audiência em geral. É perceptível pelas reações que a plateia fica tocada com o tema, com a musicalidade do trabalho, se envolve e, durante as apresentações, entre as canções existem os momentos de troca, diálogo, uma conversa sincera com as pessoas e sinto que a mensagem chega. A provocação para a reflexão acontece. A palavra terra está presente em toda narrativa do disco. O que ela representa para você? Representa o planeta Terra, assim como também representa o próprio elemento terra. Nossa relação com o planeta, nossa relação com a terra que pisamos, e obviamente, isso está refletido ou ainda esta relação é reflexo direto de como nós nos relacionamos com a vida de forma geral, Especificamente, o que deve ser tudo: as relações - ‘deve ser tudo’ porque não existimos como projeto isolado. Somos por essência relação com o meio em que vivemos. Todo o meio. E isto é um grande desafio. Vários desafios, por exemplo, um dos mais difíceis para nossa humanidade, respeitar as especificidades, idiossincrasias de cada indivíduo, aceitar o/a outro/a como ele é. Assim, outro desafio, exemplo é entendermo-nos sendo também o próprio meio. Ailton Krenak costuma dizer que está na hora de pararmos de achar que a natureza é algo diferente de nós…, ela nem chega a ser extensão: somos a própria natureza. Por este ponto de vista, quando destruímos a natureza, obviamente estamos nos destruindo. Isso fica cada vez mais nítido quando vemos as destruições naturais que têm sido cada vez maiores e com mais frequência. O retorno disso é à Terra pisar em nós trazendo as catástrofes naturais, e ‘o céu desabando sobre nós’. Em “Encantar-se” você canta “encantar até a terra que pisa”. Qual o sentido de encantar na canção? Aliás, você acha que ao encantar o indivíduo dará o respeito necessário à terra? Veja, podemos compreender de uma forma simples, binária, dual: sendo que a pessoa que pisa na terra já está sendo encantada por estar em contato com a Terra (inclusive já temos muitas pesquisas que explicam como este fenômeno bio energético de troca acontece e o quanto ele faz bem para nossa saúde) estar em contato com a natureza. Sim, fará muito bem para a pessoa o contato com a terra, mas ainda não é necessariamente o suficiente para acontecer essa conscientização. Isto é um processo lento para nós enquanto humanidade. Ainda elegemos monstros que fazem guerra, corrupção e são mais gananciosos que podemos ver. Mas a partir da ideia de que a natureza não é apenas uma extensão nossa ou vice-versa, e sim que somos natureza quando nos encantamos à terra que pisamos, e este ‘a’ é com crase realizamos uma troca, ou melhor podemos ser capazes de realizar uma troca, onde este encanto é um processo de retroalimentação - você alimenta a terra e a terra te alimenta: você pisa à terra que é pisada e a terra troca em quem a pisa. Há uma iluminação aí. Mas, é uma metáfora, e também uma ‘utopia’ que quero quer que não seja. Por outro lado, a ideia está aberta. “A obra é aberta”, como diz Umberto Eco. É mesmo para que o sentido fique amplo, até dúbio e possa gerar questões: podemos caminhar juntos em equilíbrio e com saúde ou de forma oposta podemos achar que somos potentes o suficiente para extrair tudo o que queremos e ambicionamos da Terra sem que depois disso ela nos pise!? E aí neste caso sim será um pisotear em nós, e neste caso não há encantamento. Como fazemos para caber todxs nessa Terra? Já em “Terra Irmã” você diz que é “tempo de sonhar, experimentar”. Com o que sonha? Gravar ‘Terra Irmã' foi um presente oferecido por Ceumar. Esta música é de autoria de Ceumar e Pedro Destro. Sendo assim os sentidos originais ficam a cargo da dupla criadora, no entanto, a beleza da obra é sua abertura para a vastidão de sentidos que uma mesma letra musical possa gerar em cada um/uma que a recebe. Assim também funciona - na minha visão - para o intérprete da letra. Esta letra toca para mim em vários pontos. No sonho de um tempo em que não haja mais ganância e que tenhamos finalmente a percepção de que nós e a natureza somos uma coisa só, repito que não como extensão mas que como natureza mesmo, desta forma temos que confiar que podemos plantar pensamentos e ações que permitam uma vida com menos ambição, mais trocas, mais escuta nas relações. Eu não me canso de sonhar. Sonho com um mundo melhor, fazendo uma ponte com a canção ‘Terra Sonha’ eu digo: “Sonho o mundo mais simples, / Que a ganância não cegue, / e não siga não…./ Sonho esse mundo mais simples, / sem tanta vaidade, / sem guerra”. Moda à Terra convida o ouvinte a desacelerar e observar a natureza e suas belezas, causando uma reflexão importante e necessária. Você acredita que a música pode sensibilizar as pessoas diante das urgências do mundo contemporâneo? Eu diria que só há 3 formas de um indivíduo se sensibilizar diante de questões urgentes do mundo contemporâneo, do mundo. Edição, intuição, e arte. Ou via educação formal: haverá um mestre, um professor, um orientador que traga à luz as questões urgentes da vida. A arte de forma geral, seja pelo cinema, teatro, música, fotografia ou qualquer forma de arte que você possa pensar, percebo eu ser uma das formas mais efetivas de sensibilização humana, a música está nessa sacola. A outra possibilidade é rara e talvez não exista. É quando o indivíduo sozinho (mas quando ele realmente está sozinho, isolado, sabemos que é mais raro ainda!?) consegue perceber a realidade, consegue ter empatia pelo outro, pela outra, consegue olhar um arco-íris e ver nisso um espetáculo, é capaz de sentar embaixo de uma árvore e se sentir contemplado apenas de estar sentado embaixo de uma árvore, é parar e olhar para o mar, para as águas das cachoeiras e se sentir maravilhado com isso. Este já seria o poeta de alma? Os dois caminhos anteriores precisam culminar neste último, já que este último caminho é quase impossível de se caminhar sem que antes você tenha alguma referência. Se você nasceu no campo e não teve acesso à formação tradicional, será a própria roça, o próprio campo que te ensinará e não tem a menor dúvida que você aprenderá neste caso sozinho ou melhor com a vida natural. Sim, a música, e arte de forma geral, podem sensibilizar as pessoas diante de urgências do mundo.

Conheça: Catarina Zenaro

Conheça: Catarina Zenaro

Com forte ligação com a música desde a infância, Catarina Zenaro começou cedo na área. Aos seis anos, entrou para aulas de violão. Aos 12, gravou sua primeira canção em estúdio, dando início ao caminho que hoje a posiciona como uma jovem artista em expansão, transitando entre o português e o inglês, com influências do pop internacional e uma identidade própria cada vez mais evidente. (Foto: Graziella Fraccaroli) Agora, aos 21 anos, a cantora e compositora constrói sua trajetória apostando em uma escrita confessional, que transforma vivências pessoais em narrativas pop carregadas de honestidade e intensidade. O single "Lie, Lie, Lie", lançado recentemente, funciona como uma espécie de limpeza emocional depois de um relacionamento marcado por frustrações e mentiras. Em vez de transformar a dor em silêncio, Catarina escolheu convertê-la em composição. O resultado é uma música que combina energia pop rock inspirada na estética dos anos 2000 com um discurso de amadurecimento: compreender que não é possível mudar o outro, mas é possível transformar a forma como se reage às experiências. A sonoridade intensa e o apelo pop caminham lado a lado com um cuidado narrativo que a artista trata quase como princípio criativo. Catarina valoriza histórias específicas, detalhes cotidianos e emoções sem filtros. É uma construção que encontra ecos em referências contemporâneas do pop internacional, mas preserva personalidade própria ao priorizar autenticidade e vulnerabilidade. Esse olhar também atravessa sua discografia. Depois do primeiro single, "Crazy Enough", surgido a partir da parceria com o produtor Rique di Azevedo, Catarina lançou o EP DEAR YOU (2021) e passou a consolidar um repertório autoral guiado por emoções reais e influências que vão da força melódica do pop à construção narrativa de artistas que fazem da composição um espaço de memória e identidade. Enquanto finaliza os detalhes de um novo EP composto apenas por faixas inéditas, Catarina Zenaro parece ocupar um lugar cada vez mais claro dentro de sua própria obra: o de uma artista que transforma verdade em linguagem e encontra, na música, um modo de reorganizar o passado para seguir em frente.

Lauiz: Comece Por Aqui

Lauiz: Comece Por Aqui

Comece por Aqui é o título do novo álbum de Lauiz que serve como conselho: ao começar pelo início de tudo, o músico olha para dúvidas, medos, relações interrompidas e pequenos acontecimentos cotidianos que ajudam a construir quem somos. Não espere respostas definitivas, pelo contrário, no disco, Lauiz transforma incertezas em matéria-prima para criar um trabalho íntimo, caótico e humano - a capa do álbum, inclusive, já antecipa a proposta. As 11 faixas funcionam como declarações sinceras e íntimas que nascem da ansiedade cotidiana, das relações atravessadas por ruídos e da tentativa constante de encontrar algum sentido em meio ao excesso de estímulos do presente, sempre acompanhadas por um toque de ironia. Em "decisões irresponsáveis" e "dando errado", surge um personagem que tenta sobreviver às próprias contradições sem escondê-las, encontrando humor em comportamentos autodestrutivos e falhas pessoais. Já "linus Torvalds" e "de frente" exploram conflitos afetivos e questões sobre relacionamentos, equilibrando vulnerabilidade e leveza. Aliás, um dos grandes méritos de Comece por Aqui está justamente em não romantizar o caos: Lauiz o apresenta como parte inevitável da experiência de existir, amadurecer e seguir em frente. Leia também: Conheça: Um Resgate Não Será Possível O colapso sonoro de Gloios Sentimental Palace Comece por Aqui encontra equilíbrio entre o pop alternativo e o experimentalismo que acompanha a trajetória do músico. Sintetizadores ocupam espaço importante, mas nunca soterram a emoção central das músicas. Colagens sonoras, texturas eletrônicas e vocais que abraçam imperfeições reforçam uma estética que dialoga com a cultura digital sem soar artificial. Outro ponto forte está nas imagens construídas ao longo do disco. Há cenas urbanas, referências culturais inesperadas e observações aparentemente banais transformadas em identidade narrativa. Lauiz entende que a vida contemporânea é feita de fragmentos: vergonha, ansiedade, medo de ficar para trás, relações mal resolvidas e humor ácido como mecanismo de defesa. Em vez de organizar esses sentimentos em uma narrativa linear, o artista permite que convivam entre si - e funciona.

Virada Cultural 2026

Virada Cultural 2026

Neste fim de semana, 23 e 24 de maio, acontecerá a Virada Cultural 2026, evento que terá mais de 1,2 mil apresentações artísticas gratuitas, distribuídas em 21 grandes palcos — cinco no Centro e 16 nos bairros —, além de mais de 200 espaços culturais mobilizados em todas as regiões da cidade. Com o tema "o festival dos festivais!", a Virada Cultural 2026 reflete a diversidade cosmopolita da cidade de São Paulo ao reunir artistas de diferentes regiões do Brasil e, pela primeira vez, receber uma atração de K-pop: o grupo multicultural masculino 1VERSE, formado por integrantes da Coreia do Sul, Japão e Estados Unidos. O evento ganha dimensão internacional inédita, com artistas de diferentes continentes ocupando os palcos paulistanos, como Manu Chao, Orchestra Poly-Rythmo de Cotonou, Jazz Sabbath, Scientist feat. Jah9, Western Standard Time Ska Orchestra, além de atrações da Colômbia, Uganda, Tanzânia e Holanda. A Avenida Paulista terá programação própria e intensa, com 120 atrações em 14 espaços culturais, incluindo o MASP aberto 24 horas, programação contínua no Sesc Paulista e Casa das Rosas, além de atrações como Karol Conká, o musical Minha Estrela Dalva e espetáculos teatrais especiais. Além disso, 32 escolas de samba vão se apresentar nas quadras e em palcos da Virada. Equipamentos simbólicos da cidade funcionarão 24 horas durante a programação, como o MASP, aberto durante 24 horas pela primeira vez em sua história, o Theatro Municipal e a Biblioteca Mário de Andrade, reforçando o espírito da Virada. A Virada Cultural 2026 também amplia suas ações de inclusão e acessibilidade. Todos os palcos terão áreas reservadas para pessoas com deficiência, banheiros acessíveis, programação em Libras e audiodescrição. O evento contará ainda com mais de 50 sessões de cinema adaptadas para pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), além de recursos tecnológicos específicos para atendimento da população surda. Confira a programação completa da Virada Cultural 2026 aqui. desalinho indica: o que assistir na Virada Cultural 2026 Centro - Palco Arouche 23/05 19h - Jadsa 21h - Catto 24/05 01h - Ebony 14h - Tulipa Ruiz 18h - Céu (20 anos) Centro - Palco São João 23/05 18h - Sidney Magal 21h - Odair José 24/05 02h - Gaby Amarantos 13h - Juliana Linhares 15h - Otto canta Reginaldo Rossi Centro - Theatro Municipal 23/05 21h - Evinha 24/05 3h - Fausto Fawcett e os Robôs Efêmeros 6h - Mundo Livre S/A 9h - As Mercenárias 12h - Di Melo Centro - Palco Anhangabaú 24/05 00h30 - Manu Chao 09h00 - Funmilayo Afrobeat Orquestra 14h00 - Marina Sena 16h30 - Seu Jorge

As micro belezas de Edssada

As micro belezas de Edssada

Segundo o dicionário, beleza é uma "coisa bela, muito agradável, ou muito gostosa." Mas ela também está em diferentes lugares: nas grandes paisagens, nas obras de arte e, sobretudo, nas pequenas experiências do cotidiano que, na pressa dos dias, passam despercebidas. É com esse olhar atencioso que Edssada constrói Observatório das Micro Belezas II (2026), trabalho que transforma ancestralidade, território e pertencimento em música. O trabalho dá continuidade ao caminho iniciado em Observatório das Micro Belezas (2022). Se no primeiro trabalho o artista já revelava interesse pelos detalhes escondidos da vida cotidiana, agora amplia essa investigação artística e espiritual, aprofundando conexões entre memória, coletividade e sonoridade. O resultado é um disco que mantém vivas a oralidade, as tradições e culturas frequentemente empurradas para as margens do esquecimento. Integrante e cofundador de A Outra Banda da Lua, Edssada retoma ideias de Nêgo Bispo, posicionando a ancestralidade em lugar de destaque, a mais “alta tecnologia que persevera no futuro”. Além disso, a saúde e o amor vibram na liberdade de eu-líricos eufóricos pela vida e, nessa toada, a terra - Edssada e banda -, germina um som que ecoa Alceu Valença, Massive Attack,Tom Zé, Jorge Ben, Luiz Melodia, Chico Science & Nação Zumbi, com gotas de jazz fusion e música indiana. Leia também: O fado tropical de Rita Braga As inquietações do 43duo Pra me Lembrar de Insistir Você utiliza binóculos na capa do primeiro disco. O que o objeto ajuda a enxergar que era impossível a olho nu? Esse óculos vem dentro do contexto do álbum Observatório 1, como um signo mesmo, utilizado ali como uma espécie de leitura semiótica, mas tem esse paralelo que também é carregado para o disco 2 também, né? No primeiro [álbum] tem esse cerne, esse primeiro momento que traz um signo dentro desse contexto que leva para dois sentidos… Essa ferramenta é principalmente utilizada para ver pequenos detalhes, utilizada por pessoas que trabalham com joias e essas coisas, por isso eu utilizei ele, mas para ver belezas humanas - vêm aí as micro belezas. Essa narrativa vem, principalmente, do lugar que eu vivo que é Montes Claros, em Minas Gerais, norte de Minas, que é um lugar que tem uma cultura um tanto quanto de sertão, uma cultura de sertanejo, nesse sentido, como em várias outras geografias do nosso país, de Brasil profundo, né? [sorri] É perceptível essa coisa toda, de como a oralidade, como os trejeitos, os fazimentos gerais são muito simples… E a gente tende a, cada vez mais, criar barreiras com essa simplicidade, vamos dizer assim. O Observatório 1 traz esse lugar da gente poder tentar enxergar através de um álbum musical que também traz ali outras leituras para além do som, uma comunicação para além do som. A capa do disco já é uma outra linguagem, uma linguagem visual e tal pra gente abrir esse diálogo para que esse fazer simples, esse fazer interiorano, e aí eu ainda mais, não somente aqui ao norte de Minas, mas por esse Brasil profundo que a gente tem, né, para trazer essas formas de viver, elas são muito ricas. Essas micro belezas, na verdade, são uma espécie de utilizar essa pequenez - que a gente tenta colocar no lugar de pequenez - em gigante. Essas micro belezas são, na verdade, o que movem toda uma maneira de se viver muito bonita, muito rica. Enxergar beleza é muito difícil em um mundo capitalista. Como enxergar essas micro belezas? Você tem alguma dica? Poxa, dica, dica… [risos] Preciso pensar mais sobre isso. Mas esse observatório é principalmente uma visão minha, sabe? De certa forma, essa leitura, tanto visual quanto de sentir, é [consequência] das relações que eu tenho - ter vivenciado em várias comunidades tradicionais aqui, inúmeras experiências em vários contextos, desde acompanhar plantios, colheitas até lutas também… Mas, assim, é um observar muito particular. E, claro, quem está próximo, dentro do contexto do álbum, as pessoas que participaram e participam, elas também têm uma leitura que, vamos dizer assim, tem confluência, tem ligação com a maneira que eu enxergo isso e sinto isso, né? Mas eu não sei se eu tenho uma dica, não. Acho que observar de coração aberto, cabeça aberta…. Acho que isso me move muito para as artes, para a música e para outras artes, mas principalmente como ser humano, assim, sabe? É interessante te ouvir, porque o seu trabalho foi criado a partir das suas vivências. Em que momento você percebeu que, a partir do que você viveu, poderia criar uma narrativa para os discos? Olha, tem bastante coisa, inclusive várias dessas músicas, desde o Observatório 1, que já vinham acontecendo composições e tal. Eu já passei por outros grupos, [como] Outra Banda da Lua, a Orquestra Catrumana do Groove Solto, o Baru Sonoro, que era um grupo experimental que eu tive aqui e que foi muito importante porque foi o embrião disso tudo. Tinham várias composições que, de alguma forma, não couberam em outros projetos musicais, vamos dizer assim, e isso, de alguma forma, foi muito legal, porque trouxe uma intimidade maior para poder traçar uma narrativa, sabe? Porque quando você está com outro grupo, outras pessoas, às vezes, tem uma direção diferente, etc. e tudo bem, eu acho que isso é super natural, mas ter acontecido isso fez com que trouxesse uma intimidade para eu realmente observar, assim, que eu poderia sustentar uma ideia, escrever sobre isso, compor, juntar sons e criar música sobre isso, e pensar imageticamente também sobre isso. Mas, assim, eu não me lembro muito quando isso virou, sabe? Porque é meio que muito orgânico a coisa. Só para te exemplificar: várias dessas composições e ideias, eu sempre partilho com os meus, com a galera que é envolvida comigo. Então eu levo coisas que, às vezes, eu não estou nem pensando para Outra Banda da Lua, mas eu levo para a galera e falo "estou rolando isso aqui, comecei a compor isso", "o que você acha? e tal." Eu não sei exatamente a data que isso virou, sabe? [sorri] Mas já tem um bom tempo que eu tenho tentado trazer, principalmente, essa leitura de que a música se torna realmente uma ferramenta social, um brinquedo, eu gosto muito desse termo, porque eu tenho compreendido dessa forma, mesmo trabalhando dentro de um contexto de mercado também, sabe? Mas é possível trazer esses pontos, essas ideias, até mesmo dentro do mercado, e eu acho que é aí que está, de fato, também, vamos dizer assim, uma luta, uma provocação para as pessoas, que a gente tende a música, as artes, vão se massificando de uma forma tão grande, a nível mercadológico, que a gente vai vivendo uma coisa cada vez mais plastificada. Eu acredito que trazer vivências, por isso o Observatório, essas observações, essas vivências que a gente vai tendo, trazer isso para a música, e de uma maneira cada vez mais afetiva e real possível. Eu acho que isso também molda, de alguma forma, mesmo que de uma forma muito pequena ainda, mas molda também o mercado, sabe? E moldar o mercado é moldar o pensamento crítico das pessoas que estão ouvindo, que estão recebendo essa informação e, de alguma forma, buscando uma comunicação com isso, sabe? (Créditos: Maria Clara Miranda) O seu trabalho é uma tentativa de desacelerar o tempo ou ressignificá-lo para outras pessoas? De certa forma, é, mas não totalmente, como eu gosto de dizer, não é estrategicamente pensado nisso, sabe? Mas existe, sim, uma leitura, vamos dizer assim, um ponto colonial nessa ideia do tempo mesmo. Porque a gente tende a estar sempre corrido, e principalmente, trazendo para o seu contexto São Paulo que é um fluxo muito maior, o tempo realmente é outro. Eu já fui várias vezes praí e até hoje eu nunca me acostumei com este fluxo, sabe? Aí eu fico um pouco eufórico mais do que demais. [risos] Mas, de certa forma, é bom também, porque é provocativo, porque você está num outro lugar, e de alguma forma você perceber que o seu pulsar natural em outro lugar, realmente vai funcionar de outra forma, mesmo que isso demande um tempo maior para você se adaptar e tudo mais. A provocação [aparece] em ambos os álbuns nesse contexto do tempo… Agora que você me perguntou, tô pensando melhor…. A gente tem o BPM nas músicas, o andamento e tal, e até isso, em ambos os discos, eu busquei trabalhar com BPMs um pouco pra trás, um pouco mais lentos. Inclusive, uma leitura que eu gosto muito, em alguns contextos musicais, de downbeat, chill out, enfim, várias outras coisas também mais orgânicas, vamos dizer assim, porque também traz uma sensação tanto quanto diferente. Eu acho que tem sim essa provocação dentro dos álbuns, do Observatório 1 e 2, de como a música, como o som organizado de alguma forma, pode sugerir bem viver para as pessoas. No meu trabalho certamente continuará tendo algo, mesmo que pontual em alguma música, sempre vai ter alguma coisa nesse contexto. O que você espera despertar no ouvinte? Despertar no ouvinte? Eu nunca parei para pensar nisso, de verdade. É curioso, porque as pessoas esperam que a gente, enquanto artista, dialogue com o público e tal… Que tenha um desejo preparado, né? É. Eu acho que, principalmente, de uma forma bem crua, bem real, eu quero abrir para o diálogo, buscar um diálogo, de alguma forma… Não tenho pretensão de você sentir isso ou aquilo, o que eu quero é abrir um diálogo, conhecer algo que, às vezes, é uma coisa que você não conheça, um tipo de cultura que ainda não chegou para você, principalmente a gente falando nesse contexto dos álbuns, eles têm realmente uma pauta ligada muito para essa parte de Brasil profundo, principalmente Gerais, né? Essa extensão aqui do Gerais tem as Minas, a gente entende que tem Minas e tem o Gerais e que é um estado só, mas dentro dele têm culturas muito diferentes, muito discrepantes mesmo, como em outros lugares também, existe um certo apagamento, sabe? Eu milito para que isso não seja apagado, essa leitura também que a gente existe, existem outras formas de viver, de cultivar coisas e tudo mais que não podem ser apagadas. Eu acho que a sua pergunta é uma maneira de abrir um diálogo. Em "Chá de Moringa" há o questionamento "quer vontade pra viver, quer?" A frase me fez questionar sobre a vida que vivemos atualmente. Você acha que existe dificuldades para viver? Eu acho que desde que o mundo é mundo o ser humano de alguma forma ele encontra e desencontra vontade para viver. [risos] E, claro, as coisas vão mudando e tudo mais. Por exemplo, eu tenho uma filha que é adolescente, ela tá vivendo um momento que eu já vivi e eu consigo perceber muitas coisas muito parecidas com o que eu vivi, e muitas coisas novas, maneiras de lidar com as situações. Eu acho que todo momento existe isso. Agora, em "Chá de Moringa", essa música em específico, eu tô falando muito sobre a minha pessoa, claro que eu acho que ela abre para outros lugares também, provoco isso, mas eu estou ali, meio escondido. Há alguns anos eu descobri uma síndrome super rara, e os sintomas dela já me acompanhavam, mas eu nunca tive algo tão forte em um momento. A moringa, essa planta super forte, tem propriedades ligadas ao ferro e essa síndrome é uma síndrome hereditária que eu vou levar para a vida inteira. E a moringa é um remédio, vamos dizer assim, que me ajuda a segurar a onda dessa síndrome. Eu não quis colocar isso muito à tona na música, essa coisa muito particular, mas, de alguma forma, tá ali. Por exemplo, essa pergunta, "quer vontade para viver?" eu estou fazendo para mim mesmo ali na música, sabe? Você precisa também desse questionamento, desse diálogo? Com certeza! [sorri] O tempo todo, né? Não sei, eu tenho utilizado, igual te falei, a música como uma ferramenta social mesmo, como um brinquedo de bem viver, de tentar ser melhor. Claro que a gente tem questões mais técnicas e mais de ofício nessa lida, mas também tem esse lado real da vida, sabe? E claro, sempre vão me provocar e provocar, de alguma forma, uma abertura de diálogo para quem vai ouvir isso, né? Mas em "Chá de Moringa" tem essa coisa aí, é quase que uma coisa híbrida de ideias, que têm esse contexto dessa minha síndrome que eu me pergunto ali, eu me coloco nessa outra pessoa ali… Claro que eu falo assim, coloco na primeira pessoa algumas coisas, algumas músicas, mas tem essa possibilidade na arte, na música e em outras artes também, de você ampliar essa obra para além da sua pessoa, né? Pensar na gente enquanto humano, a gente tem muitas coisas em comum para além da própria ideia de espécie, né? Então, de alguma forma, acho que tem essa provocação, tanto interna, comigo mesmo ali, mas também abrindo para o ouvinte, no geral. É interessante como você traz poucas coisas sobre você na música, em primeira pessoa. É uma dificuldade em escrever em primeira pessoa ou você abrange porque não quer focar tanto em você e deixar as interpretações falarem? Não, não é dificuldade, não. Eu sinto que eu não me prendo muito aí, sabe? Uma coisa que me faz com que uma música, né, falando aí nesse contexto de música e tal, ela tome forma e eu levo para um estúdio para gravar e tudo mais, e para lançar, é sentir que a música está caminhando bem, sabe? Eu acho que vai muito do que a música está sugerindo ali, sabe? Não tenho limitação a essa questão, não. E, inclusive, vou até depois dar uma revisitada nas coisas que eu fiz para entender o que está a mais e o que está a menos nesse contexto. [risos] "Moraesiana nº1 (Cosmos)" traz uma homenagem a Moraes Moreira, gênio que foi embora muito cedo, e também um olhar sobre o tempo. Como essas duas camadas - afetivas e filosóficas - se conectam? Essa música foi feita naquela época pandêmica, há pouco tempo atrás, bem pertinho, a gente tá muito próximo ainda do que rolou. Sempre gostei de Moraes Moreira e é até uma influência muito forte porque ele sempre fazia questão, inclusive, de trazer muito do cantadores e repentistas, misturados ao rock'n'roll também - isso era colocado desde a letra até na maneira de tocar também. Também tem esse lugar de pensamento crítico também… Na época que rolou "Moraesiana nº1 (Cosmos)" foi pensada nessa divisão que Moraes gostava muito de ser, de seis, de três e tal… Ele compunha muito assim e também traz esse lugar de pensar sobre a vida, como é que a gente tá, o que tá rolando, como a gente pode melhorar, o que pode ser feito. "Moraesiana" tem essa homenagem para Moraes e tem essa reflexão daquele momento pandêmico e eu acho que ultrapassa até o momento pandêmico, porque tem essas dificuldades da gente, os problemas da vida, cotidiano mesmo… Em algum ponto, a pergunta que tem em “Chá de Moringa” [“quer vontade pra viver, quer?”] liga com "Moraesiana" que é a vontade que a gente tem. Então, de certa forma, liga com a vontade que a gente tem - de certa forma, vira um ponto de ligação, uma maneira de costurar as coisas. A música exalta mestres da tradição oral. Que papel a memória e a ancestralidade desempenham no seu processo criativo? Como foi criar o Observatório I e o Observatório II com esses temas? O papel, talvez seja o papel mais importante para o meu mover nas artes, principalmente na música, né? Mas nas artes, acabo namorando com outras coisas também, com escrita e com alguns testes com imagem, voltado para o cinema… Mas na música, principalmente, por fazer essa junção de organizar som com instrumento musical e o som pensando em corpo/voz. Eu sou adepto da palavra, por isso que eu tenho falado aqui com você dessa questão de comunicação, da comunicação ser uma via muito importante. E, novamente, vem essa defesa, essa pauta, essa bandeira de que essas formas de falar de uma maneira mais simples, que é considerada analfabeta, não sei o quê, elas trazem uma oralidade muito bonita, sabe? Que também é uma provocação a gente desconstruir esse conceito de que a figura fulana fala errado, é feio, não sei o quê. E não é, sabe? Por exemplo, nos interiores de São Paulo também tem um sotaque muito bonito e muitas pessoas, inclusive, na música, trouxeram isso, claro que em várias nuances, mas eu estou lembrando aqui daquela mesmo do Mutantes, [a canção “Dois Mil e Um”] “Astronauta libertado, minha vida” [canta, dando ênfase no “r”, vibrando o “r”]. Eu acho que trazer essas nuances para as artes é uma maneira de pautar esse lugar real da vida das pessoas. Eu não vou conseguir, na minha música, usar um “venha conosco”, saca? É ir contra quem você é… Dá pra fazer isso, mas com certeza eu vou querer falar "vem com a gente", sabe? [risos] Eu não pretendo forçar algo, eu acredito muito nessa relação, de que as coisas precisam ser mostradas da forma que são mesmo, sabe? Essa oralidade faz muito sentido. (Edssada fala sobre oralidade em "Rua do Umbigo") Os dois álbuns trazem o mesmo nome. O que mudou no seu olhar desde o primeiro Observatório até este novo disco? Sim, tem várias camadas. Como eu falei, no primeiro eu fiz mais Caio e Andrézinho e os meninos tinham uma maneira de trabalhar, o Nihil Estudios, o estúdio deles, é um estúdio itinerante e tal, mas eles trabalhavam muito com EP, eles sempre faziam EPs, sacou? Em poucas músicas. Era a característica deles, a identidade deles. Então já no primeiro eu já tinha traçado uma ideia de algo que não pude fazer, tiveram músicas que não entraram - isso já é uma coisa diferente do 1 para o 2. Mas eu acho que tem uma certa maturidade musical, leitura, de como colocar a música no mundo e como partilhar, apesar que eu fiz um pouco no primeiro também, mas foi bem menos… Nesse segundo teve, até agora inclusive, que eu estou divulgando, o disco está super recém lançado, eu pude - no processo de fazer - partilhar ao máximo com as pessoas, principalmente na rede. Desde a pré-produção aqui em casa, aqui na sala, a gente ia registrando coisas e colocando na rede. Às vezes, a gente colocava coisas mais amplas e coisas mais técnicas também, porque acaba que tem um público também que saca dessa coisa mais técnica, de gravação, sabe? Então trazia isso também. Essa coisa de partilhar também com as pessoas, o processo, foi uma coisa que eu consegui amplificar do primeiro para o segundo e isso também é outra camada de poder me sentir bem, de dialogar na rede, apesar de que eu sempre fui da comunicação, mas de uns tempos para cá eu tenho conseguido me sentir mais empoderado, vamos dizer assim, de poder entrar na rede, trocar uma ideia, abrir uma coisa, uma conversa ali, explanar coisas. Mas tem essa coisa da maturidade musical, de perceber, de como compor de maneira cada vez mais com som e silêncio, sabe? Utilizar muito disso, elementos que eu já gosto muito, que é de música minimalista, mas ligado à música popular e old music assim, de conseguir traduzir, de conseguir colocar um trabalho de maneira muito gostosa, de muito querer, de maneira muito afetiva, amorosa, na partilha com quem está fazendo... E também tecnicamente, de conseguir realmente fazer o que tá na cabeça, [podendo falar] "é isso, eu quero um trompete que só vai dar essa nota em tal momento da música." Tem uma maturidade musical alcançada que está sendo reverberada em Observatório das Micro Belezas II. (Créditos: Reprodução/Divulgação) Realmente, no segundo disco vemos mais a questão da música africana. Alias, como as heranças africanas atravessam sua pesquisa musical e espiritual nessa composição? Na verdade são memórias, um caldeirão, na verdade. A gente sabe de todo o contexto de como o nosso país, estando como está, é um grande caldeirão de culturas. Então, não é somente africana, mas tem esse peso gigante da diáspora afro-brasileira aqui e tudo. Eu acho que vem de coisas… Por exemplo, a primeira vez que eu vi um tambor foi numa Folia de Reis. No primeiro a gente não conseguiu gravar muito a percussão, já no segundo, a gente já conseguiu acessibilizar mais a rítmica, a ideia de clave rítmica nas músicas, colocando pra frente essa leitura na qual eu mergulho muito, sabe? Eu gosto muito da coisa de cordas e tal, mas a rítmica, me pega muito para compor primeiro, para a criação, e nesse álbum eu pude trazer mais isso. Mas eu acho que vem mesmo dessa vivência desde criança, saindo de Almenara, morando na beira do rio Jequitinhonha, por exemplo. Uma coisa que eu me lembro, antes eu não tinha esse entendimento, eu era muito pequeno, mas eu gostava de som e eu não sabia o que era música, esse entendimento de música, sabe? Mas eu estou lembrando aqui que tinha essa coisa da Folia de Reis e perto de casa, lá em Almenara, tinha a rua que era o vai quem quer, o Porto Velho, que era onde eu morava, e a aldeinha mais embaixo. Era uma rua só, que era uma das margens da cidade, que era inclusive a margem que estava ali na beira do rio Jequitinhonha. Tinha as lavadeiras, inclusive tem trabalhos [musical] delas, as Lavadeiras de Almenara… A gente tinha o costume de ouvir elas cantando e lavando roupa na pedra do rio [imita os sons que ouvia] e isso também era som. Hoje eu consigo organizar essas coisas e pensar como música e era muito comum. A gente ouvia aquilo, ouvia aquilo e pulava no rio para tomar banho, brincar e tal. Então vem desse lugar e isso me encanta e me faz reafirmar essa narrativa de trazer essa oralidade, trazer a cultura popular dentro do contexto da música que eu estou propondo, porque é algo natural, é algo que eu vi, vivenciei, vivo. Faz muito colocar isso em pauta isso… Essa coisa da rítmica, da percussão, do som, do pulso, acho que vem desse lugar de ouvir coisas, de estar atento sempre, poder participar sempre quando me cabe. Falando em vivências, "Mandinka" traz um patuá na música - quem nunca usou, não é? É um objeto que muitos avós faziam e levavam para os familiares. Ao lançar o seu patuá na vida, como canta, o que você espera desse objeto? Ele protege do que? Ali em "Mandinka", é uma história super curiosa. Eu conheci uma pessoa, que se tornou amigo, Fernando Mandinka, aqui em Montes Claros, no Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas, o CAA. Ele trabalhou lá um tempo e Mandinka me contou um pouco, tanto dos povos Mandinka, do povo dele, da etnia dele e tal, e de como é que tava essa vivência dele aqui no Brasil, principalmente em nenhum lugar do interior do Brasil. Eu achei que isso foi um mote para chegar nesse lugar, dessa citação que você fez. O patuá é algo que é muito único, de cada pessoa, o patuá é muito íntimo. E aí tem essa, vamos dizer assim, coragem de fazer essa leitura imagética de “lancei meu patuá na vida”, eu abri o meu segredo aqui, esse tesouro que eu tenho para as pessoas que eu quero bem. É bem isso, assim, o que eu guardo de mais precioso, eu quero que os meus também tenham esse sentimento. Tem uma certa provocação nisso aí, por o patuá ser algo muito íntimo de cada pessoa, mas tem essa provocação de que é íntimo e precioso pra mim, eu preciso que seja precioso para os meus aliados também. É esse lugar da gente firmar o que é precioso pra gente, podendo firmar isso para pessoas que são nossas aliadas. Culturalmente isso tá dentro de algumas culturas específicas, mas a provocação dentro da música tá exatamente colocada para que isso seja feito não necessariamente você sendo de um terreiro, sabe? Isso pode ser uma leitura semiótica também, né? Você não precisa ser necessariamente do terreiro para poder partilhar com os seus, com as pessoas próximas e tal. Em "Tudo se Renova" você diz que continuará a caminhada. Para onde você quer ir? Você deseja alcançar algum lugar? Ah, eu desejo alcançar vários lugares. "Tudo se Renova", a música em si, é uma canção nova, mas tem o tema uns bons anos e tem uma versão dela no disco da Outra Banda da Lua em uma versão diferente, cantada em inglês, inclusive. No Observatório II, ela tá com uma nova roupagem e acho interessante porque eu vou colocando de uma maneira muito minuciosa, muito sutil, nas músicas. Inclusive, uma figura que é da música eletrônica - isso já cabe na sua pergunta - que tem um programa de rádio em Coimbra, Portugal, ouviu a música e colocou a música no programa e já abriu o diálogo - como a gente tinha falado. Ao sugerir o diálogo, ele se abre para diversos lugares, né? Eu quero tocar em vários lugares, mas não é exatamente tocar, é nesse lugar de experiência, de fazer vivência, de fazer uma residência artística, sabe? E, claro, levar um pouco o nosso contexto cultural que a gente tem. Em tempos de excessos, algoritmos e dispersão constante, talvez exista algo de revolucionário em olhar com atenção para o pequeno - e Edssada sabe bem disso. Seu observatório não aponta para o céu em busca do extraordinário, mira a vida cotidiana, os vínculos, a terra e as histórias que seguem resistindo. As maiores belezas são justamente aquelas que cabem no instante e, ainda assim, permanecem ecoando muito depois do silêncio. Na próxima sexta-feira, 22 de maio, o músico leva Observatório das Micro Belezas II para o palco do Conversos Cultural, em Montes Claros (MG), a partir das 22h. Mais do que um show, o encontro é uma ótima pedida para embarcar no universo construído por Edssada e reaprender a enxergar aquilo que, quase sempre, passa despercebido. Garanta o seu ingresso aqui.

Holly Brickley: Lado B

Holly Brickley: Lado B

No início dos anos 2000, a cena indie ganhou espaço ao apresentar uma alternativa ao domínio do pop comercial. Bandas como The Strokes, Arctic Monkeys, The Gossip e Interpol ajudaram a popularizar um som marcado por produção crua e influência do pós-punk e garage rock. Impulsionado por blogs especializados e pelo MySpace, o movimento ampliou o alcance dos artistas independentes. Mais de duas décadas depois, os ecos daquele tempo continuam ressoando - como é o caso de Lado B (Rocco, 2025), de Holly Brickley. No livro, traduzido por Marcela Isensee, Brickley utiliza a música para contar a história da jovem Percy Marks. Lado B começa com a protagonista em um bar do campus de Berkeley falando de música, como de costume. Alguma música de Hall & Oates começa a tocar no jukebox, e Percy - que não possui talento musical, só muitas opiniões sobre o assunto - não consegue evitar analisar a canção, apesar de saber que quase ninguém tem paciência para essa conversa. Porém, naquela noite, o cara ao seu lado, o músico Joe Morrow, parece disposto a passar a noite ouvindo o que a garota tem a dizer. " - Não ando com músicos.
- E por que não? - Ele deu uma risada, caminhando de costas em direção à porta.
Porque músicos me dão uma inveja insuportável." Leia também: Inside Llewyn Davis I Am Trying to Break Your Heart: A Film About Wilco The End of the Tour (Créditos: Divulgação/Reprodução) Escrito em primeira pessoa, o romance acompanha as percepções de Percy sobre canções, bandas e sobre si mesma. Além das referências musicais, a protagonista expõe inseguranças, experiências amorosas, a relação distante com os pais, a enorme dívida estudantil e o início da carreira como escritora e compositora. Ao longo das páginas, Percy também ajuda Joe - um músico em ascensão - a aprimorar suas composições, enquanto tenta atravessar a barreira emocional construída entre os dois para transformar amizade em romance. Desde o lançamento da obra, Holly Brickley vem sendo comparada a Sally Rooney. A associação faz sentido em alguns aspectos, principalmente pela atenção às relações afetivas e aos dilemas de jovens adultos. Ainda assim, as duas escritoras seguem caminhos distintos: enquanto Rooney mergulha em silêncios e conflitos internos mais densos, Brickley aposta em uma narrativa mais leve, espirituosa e energética, conduzida pelo amor à música. Percorrendo diferentes períodos da vida dos personagens, Lado B acompanha tanto o amadurecimento de Percy quanto as transformações da indústria musical. Apaixonada por canções, a protagonista atravessa mudanças de comportamento e consumo cultural, oferecendo comentários irônicos e divertidos sobre tendências, internet e a profissionalização da influência digital. Mais do que um romance sobre música, Lado B é uma história sobre pertencimento, obsessões culturais e conexões humanas. Holly Brickley transforma referências sonoras em memória afetiva, criando uma narrativa capaz de dialogar com quem viveu o auge da cena indie dos anos 2000 e também com leitores que entendem a música como parte essencial da própria identidade. "(…) Para mim fica claro agora que Jarvis Cocker, o vocalista do Pulp, criou o indie sleaze quando ainda éramos adolescentes - ele criou todo o conceito, a atitude, a estética e pelo menos parte do som, e dez anos depois minha geração agiu como se tivéssemos inventado isso." Com tradução para 15 idiomas, Lado B também ganhará uma adaptação produzida pela A24, reunindo alguns dos nomes em ascensão no cinema contemporâneo. O elenco contará com Drew Starkey (Queer) e Cailee Spaeny (Priscilla). A trilha sonora será realizada por Blake Mills, responsável pela trilha da série Daisy Jones & The Six.

Conheça: Inimigos do Rei

Conheça: Inimigos do Rei

Inimigos do Rei não é uma banda nova, pelo contrário, o grupo foi formado em 1987, marcando uma geração com suas letras repletas de sátiras. Após mais de duas décadas afastadas do palco, o grupo retorna com a formação consolidada em 1991 com Luiz Guilherme (voz), Luiz Nicolau (voz), Celão Marques (bateria), Mario Vitor (guitarra), Marcelo Crelier (baixo) e Lourival Franco (teclado). (Créditos: Cadu Paiva) Descritos por Fausto Fawcett, que dividiu palco com o grupo no último mês no Teatro PRIO (RJ), - com quem cantaram "Kátia Flávia" e "Vício" e que faz parte do repertório -, como "Inimigos do Rancor Endêmico Improdutivo", o grupo sempre transitou entre a sátira e a reflexão e, mais uma vez, assume o caos urbano como inspiração. Donos dos hits "Adelaide", "Uma barata chamada Kafka", "Jesse James" e "Mamãe Viajandona", o grupo apresenta novas composições como "Medo", que ganhou videoclipe, "Sexta-feira da Paixão" e "Aladim", uma parceria com Ivo Meirelles e Funk'n Lata. Na próxima quinta-feira, 28, Inimigos do Rei se apresentam no Blue Note São Paulo, mesclando a vibração do pop-rock com a energia celebrativa característica da banda. Os ingressos já estão à venda no site Eventim.

Festival Poesia no Centro 2026

Festival Poesia no Centro 2026

O centro de São Paulo volta a se transformar em território de encontros literários com a chegada da segunda edição do Festival Poesia no Centro 2026, promovido pela Livraria Megafauna. Reunindo autores brasileiros e internacionais, o evento aposta na diversidade de vozes e linguagens para aproximar o público da poesia contemporânea em diferentes espaços culturais da capital paulista. Realizado entre os dias 15 a 17 de maio, o Festival Poesia no Centro 2026 ocupa o auditório do Teatro Cultura Artística, livrarias independentes, museus, bibliotecas e centros culturais espalhados pela região central da cidade. Antes mesmo da abertura oficial, o evento leva oficinas, leituras, encontros e performances para espaços parceiros, fortalecendo a proposta de circulação da literatura pelo centro paulistano. Entre os locais participantes estão a Biblioteca Mário de Andrade, o Museu da Língua Portuguesa, o Sesc 24 de Maio e livrarias como a Livraria Martins Fontes – Vila Nova. A proposta desta edição é apresentar uma "cena múltipla e inquieta", capaz de romper fronteiras entre gêneros e formatos. O evento reúne cerca de quarenta poetas, artistas e mediadores vindos de diferentes regiões do Brasil e de países como Alemanha, Chile, México, Portugal, Rússia e Estados Unidos. Além das mesas de debate, o festival aposta em performances, leituras públicas e encontros que expandem a poesia para além do livro. A presença de artistas que transitam entre escrita, música, tradução e performance reforça a ideia de que o poema pode ocupar diferentes formatos e espaços. Confira a programação completa do festival aqui.

Alice Caymmi: Caymmi

Alice Caymmi: Caymmi

Existem músicas que atravessam gerações criando memórias afetivas. Lembro de ouvir "É Doce Morrer no Mar", "Noite de Temporal" e "O que é que a Baiana Tem" com familiares, criando uma conexão emocional. Quando ouço as canções de Dorival Caymmi (1914 - 2008), me transporto para os momentos que não voltam. Por isso, fiquei feliz com o novo disco Caymmi (Daluz Música, 2026), de Alice Caymmi, que mantém vivo o legado do avô. (Créditos: Divulgação / Reprodução) Alice se recusa em deixar Dorival no pedestal intocável da música brasileira. Em vez de seguir pelo caminho previsível das releituras tradicionais, ela desloca as canções para novas atmosferas, aproximando a obra do avô da música eletrônica e dos ritmos latino-americanos. Dessa maneira, a cantora aproxima as canções com novas gerações, já que os estilos dialogam diretamente com a contemporaneidade. Produzido por Iuri Rio Branco e lançado no aniversário de 112 anos de Dorival Caymmi, Caymmi não reproduz o passado; pelo contrário, ele provoca. Alice canta como quem deseja abrir fissuras em um repertório já cristalizado pela memória afetiva brasileira - e esse é o maior mérito do projeto. Dorival é um compositor tão monumental que repetir suas interpretações seria apenas redundante. Leia também: Inside Llewyn Davis Animal Invisível ocupa o mundo após nascer no silêncio Ponto de Curva O clássico "O que é que a baiana tem?" abre o disco com uma versão dançante, contrastando logo em seguida com "Acalanto", em que a voz de Alice brinca com elementos eletrônicos na canção de ninar. O reggae surge em "Modinha Para Gabriela", enquanto os ritmos caribenhos aparecem em "Canção da Partida". Em "Maracangalha", Alice abandona a leveza folclórica da versão original para mergulhar em uma sonoridade quente, quase carnavalesca, que evidencia a proposta do álbum: atualizar Dorival Caymmi sem apagar sua essência. Em "Dora", Alice desacelera a canção e cria uma interpretação mais dramática, sustentada pela força grave de sua voz, enquanto "Canto de Obá" invoca a emoção ao pedir a proteção de Xangô para sua linhagem familiar. A leitura criada no disco se aproxima de uma América Latina quente, híbrida e contemporânea, sem apagar a força poética original das canções. No fim, Caymmi me parece menos um tributo e mais uma conversa entre gerações. Alice entende que manter viva a obra do avô não significa congelá-la no tempo, mas permitir que ela continue respirando em novos contextos - ainda bem.

O florescer íntimo e autoral de Lucas Higashi

O florescer íntimo e autoral de Lucas Higashi

A primeira vez que conversei com Lucas Higashi foi em 2024, durante o lançamento do EP Epílogos dos Entardeceres, trabalho que concluía a trilogia iniciada na pandemia. Na época, o artista revisitava a trajetória dos avós para compreender as ações de seus familiares e, consequentemente, entender a si mesmo. Agora, Lucas floresce artisticamente em seu primeiro álbum, Floração Tardia (2026), transformando experiências íntimas em canções que revelam um músico mais maduro e consciente da própria identidade. Com 13 faixas que transitam entre folk, pop, forró e MPB, o disco marca uma nova etapa na trajetória de Higashi. Dessa vez, o cantor e compositor mergulha em inquietações pessoais que dialogam diretamente com a geração Z, abordando amor, relacionamentos, términos, frustrações e o desejo constante de pertencimento. Dessa maneira, a maturidade de Lucas Higashi aparece justamente na forma como conduz essas narrativas. Há delicadeza ao retratar as inseguranças da juventude e o fim de um relacionamento, mas também firmeza estética e emocional em um trabalho que assume suas referências sem receio - como canta em "Meu Jardim": "só eu que volto a mim." Leia também: Bruna Lucchesi percorre sua estrada em Bandoleira Afeto e Outros Esportes de Contato Virgin No seu último EP, você trabalhou questões familiares que focavam em suas origens. Agora, com o seu primeiro disco, você vai para outro tema, mas a questão biográfica continua presente. Por que insistir nesse gênero? Eu sou artista, eu faço várias coisas. Eu sou ilustrador, eu faço design gráfico, eu sou pintor, poeta, enfim, várias coisas. Eu sempre vi na música como o lugar que eu sentia que deveria ser mais honesto, onde deveria me tocar mais. Eu acho que, pra mim, não tinha como [não seguir para esse caminho], pelo menos ao meu ver - no jeito que eu crio, de ser tão cru e visceral naquilo que eu quero dizer, sem falar daquilo que eu vivi e das experiências que eu tive. Eu também acho muito chique poder ver minha vida com esses discos, sabe? É muito engraçado que eu vejo a linha do tempo e eu consigo demarcar. Eu sinto que o Floração Tardia começa um novo ciclo, mas ele fecha um ciclo muito importante na minha vida… Eu acho legal porque eu lembro da época de Capítulos da Alvorada (2021), Versículos da Madrugada (2023) e Epílogos do Entardecer. Eu gosto de incorporar o meu trabalho na minha vida de uma maneira que eu não acho que seja tão turvo assim, eu consigo encaixar bem as coisas. Eu gosto, eu acho legal. Você falou que a música tem que ser um lugar ali mais sincero. Nas outras artes você consegue se esconder um pouco mais? Eu acho que sim, porque na ilustração, no design gráfico, nos poemas, a gente consegue... Por mais que na música a gente tenha o processo de produção, de editar, incorporar efeitos e tudo mais, eu acho que no final do dia existe uma certa catarse da música… Você obedece à música, né? Eu sinto a música e só a obedeço, sabe? E eu acho que nas outras artes, tipo, ilustração, você vê na pintura, por exemplo, você às vezes tem que recorrer a um contexto. A imagem, as cores e isso dá um impacto, com certeza, e com certeza tem o seu mérito, o seu valor, só que eu acho que com a música, por ela ser essa coisa tão abstrata e tão invisível, você tem que dar atenção e acho que ela pega num lugar que nenhuma outra arte pega, sabe? E eu acho que com a imagem, principalmente com o visual, a gente consegue meio que esconder alguns defeitinhos, alguns erros, vamos dizer assim. Diferente da música. Acho que a música, se ela é pra pegar você, ela te pega, sabe? Acho que não tem muito pra onde correr. (Créditos: Divulgação/Reprodução) Quando conversamos pela primeira vez, falamos sobre viver a juventude na pandemia. Lembro que você comentou que não viveu o que queria viver. O título do disco tem relação com essa questão ou tem outra história por trás? É engraçado porque eu tive a ideia do nome no finalzinho da pandemia. Então eu acho que ele marca esse primeiro ciclo, né, junto com os primeiros EPs também. Eu acho que, com certeza, tá tudo interligado, de uma certa forma. Eu acho, sim, que tem uma relação. Só que eu acho que, pra esse álbum, o Floração Tardia, pra mim, era muito mais essa minha luta e essa minha angústia com desejo que vem com essa floração tardia. Nossa, agora que eu estou aqui, que eu estou florindo tardiamente, eu sinto que eu ainda tenho muita coisa pra ir atrás. Eu ainda tenho essa angústia toda. Então eu acho que é mais focado nesse sentimento. Eu acho que os EPs, eles exploravam outros lugares… Na verdade, ele não foi tão conceitual assim. Eu acho que eu só fui fazendo as músicas, na verdade, mas eu fui percebendo que existia um tema que costurava tudo e eu acho que esse era o desejo. Por isso que eu acho que tem esse nome também, floração tardia. Quando você decidiu o nome, no final da pandemia, dá a entender que você conseguiu compreender várias questões dentro de si. Hoje você é o Lucas que gostaria de ter sido antes? Não, não. [risos] É engraçado, né? Nossa, eu em 2022 ou 2023, eu acho que até queria muito [viver] esse tempo que eu perdi, né? Eu acho que hoje eu entendo que não é que eu perdi, foi só diferente, né? Eu acho que a gente sempre pega nesse “e se”, né? Mas eu venho fazendo o exercício de aceitar como as coisas foram e de fazer serem melhores a partir de agora e não ficar nessa luta do que poderia ter sido e tal. Porque esse ruminar só faz mal, tanto que eu ruminei muito em algumas músicas. Então, acho que hoje em dia eu percebo até a questão da pandemia, que eu acho que tinha um propósito, tinha uma razão. Eu acho que eu, com certeza, não seria o artista que eu sou hoje se não fosse a pandemia, porque a minha ideia inicial lá, quando era jovenzinho, era tipo, eu vou pra faculdade, eu vou conhecer um produtor, vou conhecer algum músico, vou fazer música… Aquela idealização, né? É, era todo aquele sonho, né? Ah, talvez eu tenha uma banda e tal. Aí veio a pandemia e eu falei “não, vou ter que me virar sozinho.” Aí eu pude construir a minha identidade sonora e artística, né, que eu valorizo muito hoje em dia. Agora que você floresceu, pra onde você quer ir? Rapaz, essa é uma pergunta, né?! [risos] Quando eu tava fazendo esse álbum, eu tinha algumas sementinhas plantando, né? Eu viajo daqui a 10 dias pra uma bolsa de estudos pro Japão e eu vou ficar lá 10 meses. Originalmente, eu ia lançar o álbum, eu ia fazer shows, eu ia realmente investir, né, em promover esse álbum aqui no Brasil e tudo mais, além de colocar meu nome em vários lugares e tal. Só que aí deu certo essa oportunidade e eu falei “vou tentar, por que não?!” Deu certo e eu tive que dar uma pausa, mas eu vou focar um pouco em outras coisas. E eu acho que o agora, meus próximos passos, depois de florescer, é colher os frutos do Floração, de alguma forma. Eu acho que ainda é meio cedo pra dizer que já tô colhendo alguma coisa, mas eu tô muito feliz com os resultados. Eu tô afim de viver, eu tô afim de aprender coisas novas e abrir meu olhar pro horizonte e realmente virar o meu mundo de ponta cabeça, né, porque o Japão é do outro lado do mundo. Eu tô animado pra ter um novo olhar sobre o que eu posso fazer também de música. Eu tô indo lá pra estudar, mas eu tô, tipo, muito afim de mergulhar também no que eu posso criar, se eu conseguir criar por lá, sabe? Eu tô bem de peito aberto pra essas novas coisas. Além de ser um álbum muito biográfico, traz também muitas questões geracionais. Como somos de gerações diferentes, te pergunto: como a sua geração tá e como ela deve melhorar pra diminuir um pouco essas angústias, essas lacunas da vida? Ai, que pergunta difícil. Eu acho que eu não sou autoridade nenhuma pra falar. [risos] Eu venho olhando, pelo menos pra minha jornada, né. Eu acho que eu venho tentando olhar com mais carinho toda essa angústia, porque antes eu ficava “não, eu quero ter um apartamento, eu quero ter grana pra viajar, eu quero ter uma casa, eu quero ter um carro”, todas essas angústias. Hoje em dia eu acho que essa angústia é justamente porque eu quero e se eu quero, eu posso ir atrás. Eu venho olhando, pelo menos, pra minha jornada, tipo, se eu tenho essa vontade é porque eu tenho, se existe essa pulsão por viver e ter coisas que eu quero pra minha vida, existe força pra eu conseguir ir atrás delas e fazer elas acontecerem. Então eu acho que é aprender a ser paciente, né. Vamos dar um passo de cada vez, porque às vezes é melhor dar um passo que você tem firmeza do que se preparar pra dar cinco e você cair, sabe? Então eu prefiro ser um pouco mais paciente e olhar as coisas com mais calma, que tem essa sensação, essa afobação de que tudo é pra ontem, mas às vezes o amanhã chega e era pro dia seguinte, pra semana que vem, entende? Então eu acho que eu venho aprendendo a ter um pouco mais de calma nesse caminhar. Eu acho que a minha geração poderia também ter um pouquinho mais de calma, porque eu acho que o mundo não pede calma da gente, né. Você traz também muitas questões de desejos, frustrações, algo muito seu e também geracional. Como foi se expor desse jeito? Teve músicas que eu pensei se eu ia lançar ou não. Eu tenho pra mim um norte muito forte que a arte me ajuda a não me sentir só. Tive contato com o sublime, né, essa coisa toda da catarse da arte. Foram músicas que descreviam exatamente aquilo que eu sentia. E, às vezes, era uma coisa muito visceral, às vezes, era um sentimento muito difícil. E eu acho que eu, como artista, e como aprendiz desses artistas que não me fizeram sentir sozinho, eu não quero fazer as pessoas se sentirem sozinhas também. E talvez tenha coisas que eu possa dizer que vai fazer essas pessoas não se sentirem tão sozinhas. Nossa, eu tô repetindo muito. [risos] Eu acho que a minha vontade de viver tem que ser maior do que o meu medo de algumas coisas, sabe? Mesmo se você fizer a coisa mais certinha do mundo, as pessoas ainda vão falar de ti, então, eu prefiro fazer um trabalho que eu acredito e que eu vejo verdade - pra mim é importante dizer aquilo. Eu sei que alguma pessoa vai se identificar com aquilo e pra mim isso já vale a pena, sabe? Em “Insaciável” você diz que quer ser tudo que deseja. O que você deseja? Por que precisamos nos tornar outra pessoa para alcançar o outro? Especificamente “Insaciável”, eu acho que era o meu people pleaser falando. Eu tava passando por um término e eu sempre peço desculpas, mesmo não querendo, mesmo não achando que eu deveria, porque eu prefiro ser visto como vilão do que uma pessoa sofredora. É um pouco diferente o meu people pleaser, né? [risos] Eu já tô acostumado por ser a ovelha negra, por ser a coisa ruim, então, pode falar que eu sou a coisa ruim, sabe? E eu queria ser tudo que você deseja, sabe? É nesse sentido. O álbum, eu não sei se eu... Eu acho que essa questão que você trouxe, realmente eu não abordei, de sentir suficiente, né? Eu acho que no final do dia eu ainda procuro melhorar. Mas isso também não é ruim? Não é um peso? É, com certeza. Mas, assim, eu acho que tem que saber dosar, né? Eu acho, pelo menos eu gosto de pensar, que eu ainda tenho isso equilibrado, não é uma cobrança exagerada. Eu acho que no álbum, realmente, eu não trabalhei isso, mas, pessoalmente, eu gosto de quem eu sou. Eu gosto do que eu venho conquistando, do que eu venho fazendo, do meu trabalho, da pessoa que eu sou. Eu acho que eu sou, sim, suficiente. Mas, pessoalmente... Ah, eu gosto de quem eu sou. Eu gosto de... Do que eu venho conquistando, do que eu venho fazendo, do meu trabalho, da pessoa que eu sou. Eu acho que eu sou, sim, suficiente. Eu acho que esse desejo de querer ser outras coisas vem muito da minha vontade de agradar os outros, de poder ser o que a pessoa precisa naquele momento. Essa questão me fez pensar muito sobre "Caravaggiano", canção que você deixa explícito que quer ser uma espécie perfeita, uma obra de arte. Porém, se você quer ser uma obra de arte, é algo que você está idealizando… Essa ideia não anula o desejo? Acho que concordo com sua fala porque "Caravaggiano" é especificamente… É difícil sintetizar pra uma coisa só. Só que pra mim é muito a minha relação com a branquitude, com o padrão de beleza, os padrões estéticos brancos de beleza. E pra mim, eu associo muito essa espécie perfeita, esse cânone da obra de arte ao mundo das artes europeu, por isso Caravaggio e tal. Mas nessa sua pergunta, eu acho que existe um desejo meu de poder ser, querer ser eu, mas aí existe um movimento meu de performar ou tentar ser aquilo que se aproxima desse ideal. "Caravaggiano" é a minha perturbação com o ideal de beleza branco e tudo mais, o desejo imposto nesse lugar. (Capa feita por Lucas Higashi) Além do desejo, você também traz o amor, mesmo quando ele acaba, se tornando outra coisa. O que o amor representa para você nessa narrativa que você criou? Que pergunta legal! [silêncio] Eu amo o amor. No final do dia eu sou romântico. Eu sou um homem romântico. Eu acho que, pra mim, eu venho olhando o amor como crescer juntos. O relacionamento que originou as músicas de amor e de desamor também foi meu primeiro relacionamento e fui descobrindo como estar num relacionamento e estar apaixonado e num relacionamento mútuo, sabe? Aquele coisa toda. É intenso, foi muitos altos e baixos… Eu aprendi muita coisa. Hoje em dia eu olho para as relações - e no meu atual relacionamento - como um lugar de crescermos juntos, para partilharmos a vida juntos, sabe? Querer ensinar coisas e de se apoiar… Eu acho que isso pra mim é amor. Eu acho que “Ambrosia” é uma linda canção de amor - até hoje eu ouço e falo “gente, eu tava apaixonado!” Acho essa música linda e acho que tudo vale a pena no final do dia, sabe? Como foi reformular esse amor em cada fase de um relacionamento? Nossa, eu lembro que essa época do ano, há um ano atrás, fazia um mês que eu tinha lançado “Ambrosia” e eu queria tirar ela dos streamings. Eu falei “meu Deus, como é que eu pude lançar essa música de amor depois de terminar?” Porque era ainda simbólico, eu ainda tinha um pouquinho de esperança, eu ainda tinha sentimento, sabe? Mas aí, conforme o tempo foi passando, veio aquele momento de virar a página, mas não conseguir ainda. Foi uma jornada difícil, não vou mentir, mas eu acho que eu sabia que algumas coisas não foram arrancadas de uma maneira tão cega… Eu acho que teve coisas que levaram a esse resultado final. Eu precisava falar pra mim mesmo que iria passar, que iria dar certo e que iria melhorar. Então, eu não sei, eu acho que eu acho que acima de tudo foi muito importante e eu valorizo muito todo o processo, todos os sentimentos. "Garoto Decepção" e "Canção de Solidão" são músicas extremamente confessionais e até duras de serem ouvidas. Como foi explorar esse sentimento, trazer isso à tona e cantar? Eu acho que nesse disco tem músicas que eu falo que eu precisei da vida toda para escrevê-las. Eu acho que tem canções que aconteceram coisas que levaram a essas canções, enquanto outras eu venho acompanhando há muito tempo - essas duas são exemplos disso. “Garoto Decepção” é uma daquelas [músicas] que a gente não ouve sempre, né, ouve quando quer entender algumas coisas. Eu tenho muito orgulho dela, eu acho que eu fiz ela para a minha criança interna ou o jovenzinho que se tivesse ouvido uma música assim quando era criança, seria um pouquinho mais fácil. Eu sempre tento ter um norte, uma bússola… Eu quero fazer música que eu queria ter ouvido ou que quero ouvir no mundo. Agora, “Canção de Solidão” é muito engraçado, porque uma vez eu fui cantar ela e [percebi] que os acordes dela são meio felizes, a melodia não é tão triste, mas quando você presta atenção na letra, você fala “o que é isso?” Eu a fiz em 2023, nem lembro quando foi, mas era um momento que eu realmente tava passando muito tempo sozinho e falava “será que eu vou morrer sozinho?” “O que eu faço?” “Eu não sei com quem falar, nem sei pra onde ir”, sabe? Um sentimento de prisão, parece que não tem escapatória, mas hoje em dia melhorou. Eu acho que são as músicas mais difíceis de serem lançadas, né, de você colocar no mundo e falar “nossa, será que eu quero que as pessoas saibam que eu me vejo ou eu lido com algumas coisas desse jeito”, sabe? Mas é aquilo, requer coragem e eu acredito no que eu faço, então... Diferente dos seus trabalhos anteriores, esse álbum mistura vários gêneros musicais também. Como foi sair de seus trabalhos anteriores e misturar e criar essa narrativa? É engraçado porque na minha cabeça, a trilogia de EPs são meio que os pilares da minha sonoridade, da minha produção. Eu ficava, tipo, “essa [música] aqui é muito filho desse EP com esse EP.” Eu acho que para esse disco, eu quis muito brincar com essa minha discografia, com esse meu som que eu vinha produzindo. Eu fiz uma viagem, no ano passado, para Maceió, com a minha família, e foi super legal. Eu ouvi muito forrozinho que tocava nos restaurantes e eu comecei a ouvir muito João Gomes também. Eu tinha lançado Epílogos, que é sobre meus avós, e o meu avô materno era pernambucano. Então fez muito sentido incorporar essa minha ancestralidade do Nordeste, porque eu já sempre gostei do forró, mas eu não consumia tanto… Aqui no interior de São Paulo, existe um movimento do caipira que incorpora o forró também que eu sempre achei muito legal. Até que falei “cara, eu quero fazer um grande panelão de coisas”, sabe? Porque, acima de tudo, eu queria fazer um disco que fosse genuinamente eu. Eu sou essa grande panelada de gêneros e de coisas e de letras e experiências, e eu acho que o disco faz sentido também. Os sentimentos de Lucas Higashi retratados em pintura Além da música, Lucas Higashi expandiu o universo emocional de Floração Tardia para as artes visuais. Responsável pela pintura que estampa a capa do álbum, o músico transformou em telas os mesmos sentimentos presentes nas canções, criando imagens que dialogam com as vulnerabilidades, memórias e desejos narrados ao longo do disco. "Esse disco e toda a direção de arte dele é envolto da cor verde, tanto pelo meu gosto pessoal quanto pela ideia de uma floração tardia, algo que veio depois ser ainda algo verde, imaturo, me fascinava a ideia de floração verde. Todas as telas foram feitas por mim, em tinta acrílica, a maioria no tamanho 20x20cm mas algumas em 30x30cm. Queria que para além de uma mera ilustração de cada faixa, ela pudesse ir além, utlizar das potencialidades de interpretação da própria pintura para tecer novos significados na música. Fazendo o meu diploma de comunicação e multimeios valer a pena [risos].", explica. (Créditos: Lucas Higashi)

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