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Show: Corpo Sem Juízo

Show: Corpo Sem Juízo

O setlist da DJ se encerra. A iluminação do Studio SP diminui. A banda composta por Mulambo (voz de apoio e participação especial), Diane (voz de apoio), Joan Cid (baixo), Evehive (DJ), Venus Garland (bateria), Malka Julieta (teclado e synths) e Apeles (guitarra) sobe ao palco, enquanto a plateia faz barulho. Alguns celulares já estão com as câmeras ligadas esperando o momento da artista subir. Uma breve fumaça passa pelos rostos - mascarados ou não -, então, em um piscar de olhos, surge Jup do Bairro, carregando um buquê de flores. Os gritos invadem o espaço. Jup para e observa seus músicos e a plateia lentamente. Os gritos e palmas continuam. Não demora muito para saber que o show será épico - consequência (ou não) de uma sexta-feira 13. No EP "CORPO SEM JUÍZO", Jup passa por diversos ritmos com o objetivo de questionar e refletir sobre corpos e gêneros - ao vivo, não é diferente: a multiartista mistura funk e rap, indo do rock ao punk. Se no Lollapalooza Brasil apresentou um baile punk de favela, no Studio SP a artista entregou um show de rock xamânico. O refrão de "Transgressão" foi cantado a plenos pulmões pelo público que já estava em transe desde que Jup entrou no palco. Em "Pelo Amor de Deize", a plateia pulava e enlouquecia com as vozes de Jup, Mulambo e Diane - o lugar ficou pequeno para o número punk anarquista da canção. "All You Need Is Love" tornou-se uma balada dançante. O ápice ficou por conta de "Luta Por Mim", manifesto sobre o genocídio negro; Jup diz que ninguém vai morrer - impossível não se arrepiar. O protesto continuou com "Ninguém Liga" de Mulambo. O show também contou com a presença de Rico Dalasam que apresentou "30 Semanas", seu novo single que mistura o rap com o pagode. Jup compartilhar as flores com a plateia e Rico, cada integrante da banda faz o seu próprio solo e é assim, entre corpos sem juízos (e elétricos), que o show acaba. Em mais de uma hora, Jup do Bairro exorciza os demônios e flutua junto com o ouvinte. O corpo está vivo e pronto para ocupar todos os lugares.

Destrações #27: Tão perto, tão longe

Destrações #27: Tão perto, tão longe

Impressões: Notas Brasileiras

Impressões: Notas Brasileiras

Duas gerações. Pais e filhos misturam vozes e instrumentos para celebrar a música brasileira. Amigos de décadas, Adylson Godoy, Dino Galvão Bueno e Theo de Barros se reencontram para dar continuidade a longa parceria que iniciou durante a bossa nova e na era dos festivais. Para o momento especial, os amigos convidaram os filhos Adriana Godoy, Anita Galvão Bueno e Ricardo Barros para cantarem a diversidade do país em "Notas Brasileiras". O disco é um resgate de uma época da música brasileira feita de maneira intimista e afetuosa numa conversa entre amigos e ensinamentos de pais para filhos. "Notas Brasileiras" contém 13 canções, com composições consagradas de Adylson, Dino e Theo, além de parcerias com grandes músicas e composições inéditas. "Disparada", música que ficou conhecida na voz de Jair Rodrigues, abre o álbum. O clássico ganha uma nova roupagem, mais leve e dançante, mas continua potente e atual. Enquanto isso, "Condão da Natureza" (Dino Galvão Bueno e Theo de Barros), "Estrela Guia" (Adylson Godoy e Dino Galvão Bueno) e "Saideira" (Dino Galvão Bueno e Daltony Nóbrega) são músicas inéditas. O ápice chega antes, na metade do disco, com "Menino das Laranjas", onde ouvimos o vocal feminino em primeiro momento para, segundos depois, ouvir as vozes das duas gerações juntas - um equilíbrio que emociona. (Arte: Ricardo Barros) Com novos arranjos, direção musical de Ricardo e a contribuição de Adriana e Anita, "Notas Brasileiras" é um álbum que emociona do início ao fim, lembrando o poder da família. "Notas Brasileiras" está disponível em todas as plataformas de streaming de música.

A florescência de Victoria Saavedra

A florescência de Victoria Saavedra

Victoria Saavedra me faz lembrar da poeta Rupi Kaur. Explico melhor: as duas são mulheres, imigrantes, sentimentais e que transformam os ensinamentos da vida em arte. Após um longo e tenebroso inverno (pandemia, isolamento social, perdas, sem dias quentes para dançar), vivendo em seu casulo, as artistas ressurgem para aprofundar as raízes. Tendo o amor como fonte, Victoria ressurge com flores ao seu redor e com os brilhos nos olhos, pronta para celebrar, dançar e amar. Florescência: ato de florescer. Preste atenção na capa de "Peripécias": a colombiana, radicada no Brasil há mais de dez anos, está no meio de flores - são essas flores que a cantora e compositora entrega ao ouvinte em seu segundo álbum. Com composições em espanhol e português, Victoria reforça sua potência, além de dar força para a América Latina. Leia também: As incertezas e sentimentos d’O Grilo O carnaval da vingança de Chinaina Os Nordestes de Juliana Linhares Você começou a estudar música muito jovem. O que te levou para esse ramo? Desde criança, criança mesmo, eu sempre cantava. Gostava de pegar a colherzinha de madeira da cozinha e praticar musiquinhas. Eu já cantei ranchera, música infantil, vallenato, música de novela - tudo que eu escutava e gostava eu praticava e de noite eu fazia um show para o meu pai. Fiz isso por uns dois anos, dos seis aos oito anos. Sempre fiz parte do coral da escola e de outro grupo de música também - eu sempre gostei. Então, teve um momento que meu pai falou: "Tá bom, vou botar para estudar", a gente procurou uma escola e desde os 12 anos, estudo e não parei de estudar nunca mais. Passei por algumas faculdades na Colômbia, mas nunca engatava, sabe? Uns 15 anos atrás, o estudo formal da música, na faculdade, era mais para o erudito ou pelo jazz… Teve um momento que me vi forçada a estudar jazz, jurando que era o que eu tinha que estudar, mas não fluía; demorei um tempinho para entender que a música… Onde eu me sentia em casa, no palco, era cantando música latina, música colombiana, regional. As provas de música geralmente tem uma prova prática e você canta uma música livre e umas duas que eles [professores] escolhem, são obrigatórias. A música de livre escolha foi uma das músicas mais legais, foi um arraso, era uma música tropical. O professor já tinha cantado a bola que era esse ritmo que combinava comigo, mas demorei mais dois anos para entender. É muito chão! Depois que a gente estuda e entende, vai soltando medos e tudo, a gente consegue fluir com outros estilos… Tem uma casinha e pra mim é isso: música latina. Aí foi que você descobriu que queria seguir esse estilo musical? Como foi essa descoberta? Foi uma coisa muito doida, porque eu já conhecia essas músicas do pacífico… Aí uns amigos, que por acaso, falaram: "Vic, preciso de uma cantora para semana que vem, você canta?". Sempre muito tímida, [respondi] canto. Então, ele falava: "canta essa melodia" e eu cantava, "canta uma oitava acima"... "Você não quer cantar semana que vem?" Eu mesma nunca tinha cantado em show, a não ser nos recitais da escola onde tinha estudado música. Quando eu tava estudando para esse show… Era muito mais fácil do que estudar para um solo de jazz, fluía muito mais. Era prazeroso estudar. Na barriga [movimenta as mãos em frente a barriga, dando entender que são borboletas], você sente que vai dar tudo certo. Depois me chamaram para fazer parte de um grupo de pesquisa que virou uma banda, depois outra, depois eu vim pra cá… É isso que me chama, me inspira. Eu componho muito a partir do ritmo e sempre penso em ritmos que me remetem a cultura dos tambores principalmente, música afro. Às vezes, a gente acha que é muito mais difícil, mas [é preciso] seguir o que já está na gente. Cantar esse gênero, além de fazer parte do que você é, tem o objetivo de contar as raízes? Acho que nunca foi uma coisa pensada, hoje em dia já penso mais. Acho que tá na alma da música, da voz, não tem como não dizer não. As minhas músicas tem uma mistura de muitas coisas, mas quando se canta músicas regionais mesmo, não tem como não… Esses jeitos de cantar vem de umas tradições da cultura afro, das mulheres no rio, das mulheres limpando, mulheres trabalhando com crianças em cima… Um momento de descanso, de deixar sair uma coisa que é um momento de libertação, de descanso. Então, esse jeito de cantar é se colocar no mundo - foi o jeito que eu aprendi. Uma vez no festival Petroneo Alvarez, de música tradicional, eu era cantora principal da banda, e estávamos participando de numa categoria tradicional, mas éramos da cidade de Bogotá e era muito raro de uma banda de Bogotá participar nessa categoria, a gente tava sendo mal visto inclusive, até porque, boa parte da banda eram brancos. A gente tava ensaiando no hotel e chegou uma Mestra, uma senhora, que pergunta: "quem é a cantora?" e eu com 18 anos, pequenininha… Ela fala: "quero escutar a menina" e aí começa… Esses cantos, de alguma forma, a sua voz tem que ser escutada em cima de dois bumbos, dois atabaques, uma marimba e geralmente três zanzas - então, você tem que aparecer, a técnica tem que estar super firme. Terminei de cantar e a mulher falou: "você canta bonito, mas não tá cantando com o corpo" - bugou total! Acho que a gente ficou passando a música por uma hora e era isso: cantar com o corpo. Até isso fazer sentido no meu corpo… Acho que foi uma das melhores aulas de canto que eu tive na vida [risos]. Cantar pra mim é isso: é uma entrega completa, mente, espírito e corpo. Como é ser cantora feminina nos dias de hoje? Como é ser cantora no Brasil? É uma coisa que… Acho que está caindo muitas fichas hoje em dia. Eu tô retomando aos poucos os trabalhos… Ser cantora estrangeira, ser cantora latina, de outros lugares da América Latina, eu sinto que não é tão fácil, principalmente - é um sentir meu - por essa distância que rola entre o Brasil e o resto da América Latina. Eu não tenho mania de ir procurar a colônia de colombianos para me sentir em casa, eu [só] vou [vivendo]. Sempre escutei como eu era corajosa e pra mim, isso nunca fazia sentido. Passou o tempo e acho que até agora, depois de muitas peripécias, eu tô entendendo o que rolava na cabeça das pessoas e o que elas estavam dizendo. Eu não me entendia como imigrante, na minha ingenuidade, eu tava fazendo o que eu queria fazer. Então, pra mim, não tinha coragem naquilo. Hoje, eu entendo que precisa de muita coragem para fazer o que você quer! Me vendiam como uma artista imigrante, isso é uma das coisas que eu sou, porém, eu não posso ser apenas vendida como uma cantora só colombiana, só imigrante. Primeiro que tem um preconceito com a palavra imigrante, sinto que tem uma coisa discriminatória. Sou compositora, além de ser cantora, e não é porque eu não estou cantando músicas da Shakira que eu não tô representando a Colômbia. Eu não tenho como não representar a Colômbia. Por mais que o meu sotaque melhore ou por mais que eu cante uma canção em português, não tenho como tirar isso e não tenho nenhum interesse nisso. Não é fácil, mas acho que estou ganhando mais argumentos, estou ganhando mais entendimento de tudo que quero e porque quero. Como mulher e artista, preciso ser respeitada. Aproveito e te pergunto: quais foram as mudanças da Victoria que começou, que vem para o Brasil para estudar e a Victoria que está conseguindo ver pontos que não enxergava antes? Primeiro: me descobri e aceitei que queria compor, isso já foi um passo. Eu tinha vergonha de mostrar minhas músicas, porque quem era eu para escrever?! A gente escuta nas músicas uns poemas, uns textos super lindos… Pelo amor de Deus! Liguei para o meu pai e perguntei o que ele achava [de gravar um disco], ele pulava de alegria, de felicidade e falava: "eu só tava esperando que um dia você me falasse isso". Primeiro foi aceitar que eu queria, né? Acho que uma das principais coisas ao longo dos anos, estando longe e na carreira, é o entendimento de fazer o que você quer, o que vibra, o que você tá sentindo - é importante. Demora para processar, é tão difícil, mas eu quero! É o que dá força. Acho que foi isso que eu continuo com os anos. Esse eu quero é importante, não é sobre ser mimado, é sobre o que você necessita. Tenho ganhado também muita força, acho que é por estar longe. A minha relação com a saudade, com família, minha relação com afetos, eu diria que é uma relação muito saudável; não me sinto sozinha, tenho construído uma família muito grande, além da minha família de sangue - me sinto amada! Uma coisa que tá muito clara [pra mim] é que eu sou amada. O que me mantém nesse mundo, depois de perder a pessoa mais importante da minha vida, o único que me mantém neste mundo e ainda não ter desistido é o amor. Acho que quando eu fui crescendo, essa bolha de amor - e mesmo com toda tragédia que existe neste mundo -, existe essa partezinha que eu quero estar. Esse amor que você pretende passar com as suas músicas? Sim, sim. Esse amor vem muito veiculado pra mim, escutando meus dois discos, é sobre pertencimento. Amar de alguma forma é sobre pertencimento. Quando você se sente parte de alguma coisa, você se fortalece - o amor é sobre isso, é sobre pertencer. Se sentir em casa. Não sei muito bem sobre definir, mas me sinto relaxada, sinto que estou [pertencendo]. Você fala muito sobre a América Latina. Qual o significado dela para você? Pra mim é muitas coisas. Primeiro é força, muita força. É uma imagem, principalmente... A gente tem uma história tão trágica e só continua sendo trágica, se repete, se repete.. Mas somos muitos fortes, muito alegre, temos vontade de estar, sabe? Essa força de querer estar., apesar de histórias tristes, difíceis... Acho que a América Latina é uma potência cultural, musicalmente, artisticamente. É cheia de diversidade. A América Latina é bonita! Eu tenho muito amor, muito orgulho de ser latina. A América Latina é força. Quando você descobre que tem esse lado para compor, você cria "Remanso Entre Raízes", seu primeiro álbum. Como foi o processo? Esse primeiro disco foi muito louco [risos]. Um dia, eu acordei falando que queria fazer um disco, mas não tinha ideia que tinha que contratar um designer, um fotógrafo… Uma das coisas que eu aprendi com a vida, tenho dificuldade de pedir ajuda, então, tá tudo rolando na minha cabeça, aí graças a Deus alguém me escuta e diz: "você precisa contratar isso e isso". Eu só conseguia pensar na parte musical, então contratei os músicos, chamei o produtor e o arranjador, que me ajudaram a procurar estúdio e essas coisas. Eu adoro gravar, sempre soube que gostava muito de gravar, mas aí ficou muito claro. Por ter sido o primeiro disco e por não saber os passos que eu tinha que dar, foi um pouco estressante, porque eu gostaria de me dedicar só a parte musical, das letras. Faço o orçamento, mas também me jogo [risos]. O tempo inteiro, eu tava assustada, principalmente, porque eu descobria uma coisa nova todos os dias. O "Peripécias" foi um pouquinho mais leve por outras coisas, mas mesmo assim. Acho que cada coisa traz o seu peso. Tenho um carinho muito grande por "Remanso". Eu acabei de gravar ele e eu não queria mais ouvir ele [risos]. Eu já tava cansada dele [risos], mas ele rodou bastante. "Remanso Entre Raízes" foi lançado em 2017 e agora, alguns anos depois, você está lançando "Peripécias". Há um grande espaçamento entre um e outro. Esse tempo foi necessário para criar o novo álbum? Meu Deus! Foi tudo isso já? [risos] Quando eu tava fazendo shows do "Remanso Entre Raízes", no palco tinha muita necessidade de ir um pouco mais. O "Remanso" é um pouquinho com contemplativo, dá para dar uma dançadinha com a cabeça, mas não tem essa explosão, não dava para pedir mais. Então, eu já estava com uma necessidade no palco de mostrar essa parte que é tão minha. "Peripécias" é isso: a necessidade de colocar o outro lado da Victoria. Depois que ele foi gravado, ele foi finalizado no dia 13 de março de 2020 e a ideia era para o disco ter sido lançado em julho de 2020, mas tudo aconteceu… Esse disco é muito importante para eu estar aqui hoje, se ele não tivesse sido finalizado, talvez eu não teria retomado minha carreira como cantora, porque no meio da pandemia eu perdi meu pai e meu pai é a pessoa mais importante da minha vida, ele sempre apoiou a minha carreira. Depois que o meu pai foi embora, eu não conseguia mais cantar. Mas o disco, era uma responsabilidade também com ele, que tava ansioso… Dar um passo na minha carreira para movimentar, doía muito. É uma dor que eu não sei descrever. O dia que eu sentei e escutei o disco todo, no começo desse ano, eu só conseguia chorar! Parecia que as letras que eu escrevi eram para serem ouvidas, para ganhar força. Me parece que a música ganhou um novo significado pra você. Teve um novo significado? Sempre quis fazer música, mas acho que o meu querer ficou mais claro. [A música] é um jeito que eu tenho de estar no mundo, é a forma que eu tenho de me comunicar - e o que eu quero da vida é me comunicar. É muito forte, eu ainda estou elaborando e dando um tempo para me fortalecer um pouco mais para eu estar mais presente. Agora sim, a gente fala sobre "Peripécias". Queria que você explicasse um pouquinho sobre o significado do nome e como foi voltar para a música e criar um álbum dançante. Menina, eu fiquei fazendo listas de nomes para o disco, porque eu queria que tivesse um significado em português e espanhol. "Peripécias" foi o primeiro que surgiu e esse nome só foi ganhando mais peso ao longo do tempo - é uma pandemia, atraso de cronograma, grana, o papi vai embora, eu paro… Não podia ter o melhor nome! Eu acordei com esse nome na cabeça porque eu queria falar sobre afetos, sobre pertencimento, sobre latinidade, pra mim, tudo isso envolve muitos movimentos, muitos saltos, muitas quedas, muitas aventuras. Viver é isso, né? "Peripécias" é dançante. Você já tá preparada para o público dançar com você? Tô super preparada! O disco é dançante, porque eu pensei no público e em mim, porque eu preciso dançar! Em "O que o Sol Faz Com as Flores", Rupi abre o livro com um pequeno poema que retrata o renascimento: "as abelhas vieram pelo mel / as flores faziam gozação / levantando o próprio véu / para o grande dia / o sol sorria / - nascer pela segunda vez". Agora que está de volta, viva e cheia de amor para distribuir, Saavedra quer que você dance com ela. Esteja aberto para florescer com Victoria.

Destrações #26: O futuro à tecnologia pertence

Destrações #26: O futuro à tecnologia pertence

Exposição-manifesto: "Cartas ao Mundo"

Exposição-manifesto: "Cartas ao Mundo"

"Cartas ao Mundo", em cartaz no Sesc Avenida Paulista, é uma exposição-manifesto inspirada na obra do cineasta baiano Glauber Rocha e tem como ideia central o espelhamento e o contraste entre utopia e distopia. Dividida em três capítulos, a mostra ocupa ambientes que ganham vida em uma expografia que se modifica durante a visitação. Alterando-se diariamente, várias vezes do dia, a exposição, que tem curadoria de Bia Lessa, tem um programação semanal definida, com horário para cada atração, incluindo montagens do ambiente expositivo, exibições de filmes e performances. Aos domingos, às 13h ocorrem cortejos contestadores pela Avenida Paulista. Ao visitar, iniciando sua participação, o espectador assume outros papéis quando se depara com os três capítulos de uma narrativa cinematográfica que estimula, com realidades e ambientes que ganham vida em uma expografia que se transforma incessantemente, com cenários que se modificam durante a visitação. Formas, cores, atos e reflexos conduzem o visitante e são conduzidos por ele. Performances sequenciais, realizadas por uma dezena de artistas, vão preenchendo os universos dos filmes "Asfixia", "Mercadoria" e "O Comum". "Cartas ao Mundo" é um projeto intencionalmente expansivo e apresentado em diferentes plataformas, ampliando o diálogo com o público e criando diferentes formas de apreciação. O conjunto da obra pode ser visto na GloboPlay e na plataforma Sesc Digital. A trilogia Capítulo 1: Asfixia Mostra a degradação da cidade, diante dos problemas oriundos das grandes metrópoles. As questões são tratadas a partir de depoimentos, citações, poemas, imagens reais e virtuais. A personalidade e obra de Glauber Rocha tornam-se o elemento condutor da narrativa. Capítulo 2: Mercadoria Mostra a transformação dos cidadãos em consumidores, questionando os valores humanos. A partir da Revolução Industrial, o desenvolvimento tecnológico viabilizou a fabricação de produtos em larga escala, e consequentemente fez surgir o homem/consumidor. O mundo fica de ponta cabeça, os móveis hospitalares ocupam o espaço aéreo, as obras de arte são transformadas em mercadorias. Capítulo 3: O Comum O último capítulo tem como ponto de partida o conceito de Comum de Antônio Negri e Michael Hardt. Uma nova forma de ocupação do Largo do Paissandu é proposta, diante da reflexão visceral de Glauber Rocha. (Foto: Alisson Sbrana) Confira a programação Terças: 12h - Exposição Asfixia 19h30 - Exibição do filme Asfixia 20h45 - Exposição Mercadoria Quartas: 12h - Exposição Mercadoria 19h30 - Exibição do filme Mercadoria 20h45 - Exposição O Comum Quintas: 12h - Exposição O Comum 19h30 - Exibição do filme O Comum 21h05 - Exposição Asfixia Sextas: 12h - Exposição Asfixia 19h30 - Exibição do filme Asfixia 20h45 - Exposição Mercadoria Sábados: 10h45 - Exposição Asfixia 12h - Exibição do filme Asfixia 13h15 - Exposição Mercadoria 14h30 - Exibição do filme Mercadoria 15h45 - Exposição O Comum 17h - Exibição do filme O Comum Domingos: 10h45 - Exposição Asfixia 12h - Exibição do filme Asfixia 13h - Exposição Mercadoria 13h - Cortejo 14h30 - Exibição do filme Mercadoria 15h45 - Exposição O Comum 17h - Exibição do filme O Comum Serviço - Cartas ao Mundo Disponível até 29 de maio | terça a sexta: 12h às 21h | sábados e domingos: 10h às 18h30 Local: Sesc Avenida Paulista Grátis | Apresentação da carteirinha de vacinação completa

As incertezas e sentimentos d'O Grilo

As incertezas e sentimentos d'O Grilo

Publicado originalmente em 1919, "Demian", de Hermann Hesse, aborda a trajetória de Emil Sinclair em busca de respostas sobre o mundo. Ao conhecer Max Demian, um colega de classe precoce e carismático, o jovem se rebela contra os costumes do tempo e embarca em uma jornada de descobertas. Trinta e dois anos depois, em 1951, J. D. Salinger lançava "O Apanhador no Campo de Centeio", obra que mudou uma geração. No decorrer das 205 páginas, o estudante Holden Caulfield reflete sobre tudo o que (pouco) viveu, compartilhando sua peculiar visão de mundo, além de tentar encontrar alguma diretriz para o seu futuro. Os dois escritores retrataram o universo da juventude que conta com amores, desilusões, descobertas, frustrações - ou seja, a loucura de ser um jovem. Corte para a atualidade: a geração não é mais a mesma, mas o jovem continua passando pelas situações que Hesse e Salinger abordaram em seus livros. Inclusive, a banda O Grilo, quarteto composto por Felipe Martins, Gabriel Cavallari, Lucas Teixeira e Pedro Martins, transforma suas angústias e incertezas em músicas. "Sofia", segunda canção do EP "Herói do Futuro", lançado em 2017, descreve muito bem o processo de crescimento: "Sempre tente enxergar além / Do que é fácil ver / Não é preciso imaginar / Quando pode apenas ser / Deixa a vida acontecer / Alguns dentes vão cair / Desafios vão surgir / Mas isso é crescer". Quatro anos depois, o álbum "Você Não Sabe de Nada" (Rockambole, 2021) surge para aprofundar as questões existenciais, mas de uma maneira mais leve. Composta por 13 faixas, passando por diversos gêneros musicais, VNSDN celebra as incertezas e conquistas que um indivíduo é capaz de alcançar. Leia também: A tecnologia liberadora de Pedro Silveira hoovaranas: a sirene ligada por 43 minutos Impressões: Glória Vocês estrearam com o EP "Herói do Futuro". Cinco anos se passaram desde o lançamento. Quais foram as principais mudanças que O Grilo passou? Sobre as principais mudanças… Tiveram milhares! A primeira mudança foi a de formação [da banda], né. Éramos um quinteto e viramos um quarteto, um dos integrantes foi da guitarra para o baixo, o Fepa entrou na banda, com outras referências, ele veio de Manaus e tem um universo de referências muito diferentes da nossa; acabou enriquecendo muito o som. A banda mudou muito de som… Acho que a gente acabou misturando muitos estilos, pegando influências mais brasileiras, pegando influências que nem a gente imaginava que pegaria, como o carimbó, guitarrada, explorando outros moods de músicas, mais lentas, mais introspectivas. Acho que musicalmente, a banda passou por muitas mudanças. Outra mudança, obviamente, foi ver a carreira musical como realmente uma carreira, um trabalho, que hoje a gente pode viver disso e pensar 100% nisso. Na época [início da banda], a gente ainda fazia outra faculdade, a gente não sabia direito como seria essa entrada no mercado da música, hoje a gente tem um selo apoiando a nossa carreira, trabalhando junto com a gente. A gente tem uma base de fãs bem legal, podemos rodar o Brasil fazendo shows… O crescimento da banda, ao longo desses cinco anos foi muito grande e obviamente a gente começou a encarar a carreira de um jeito diferente. 2019 foi um ótimo ano para vocês: teve a apresentação no Lollapalooza e as aberturas dos shows do Supercombo. Como foi alcançar essas vitórias sendo tão jovens? 2019 a gente costuma falar que foi o melhor e o pior ano das nossas vidas, porque ao mesmo tempo que a gente teve tudo isso, todas essas conquistas, tocar no Lolla, fazer muitos shows, a gente teve que amadurecer muito rápido. Apesar de ser muito legal, foi muito doloroso porque não é fácil amadurecer rápido e na marra. Foi um choque, mas acho que hoje, nós somos mais maduros do que a nossa própria idade diz. "Você Não Sabe de Nada" foi feito durante o isolamento social. Como foi o processo de fazer um álbum durante esse período e lançá-lo apenas em plataformas? Aliás, a pandemia impactou de alguma forma no processo de criação? A gente conseguiu se isolar na pandemia para fazer o disco, a gente foi até Limeira, a gente alugou um sítio durante dez dias, a gente se isolou de todo aquele caos que tava rolando na época para se concentrar apenas no disco e fazer essa imersão no processo criativo. Acho que isso fez muito bem pra banda e se tornou um disco que a gente conseguiu se encontrar muito. Lançar [o álbum] na pandemia… A gente vê que não foi a forma ideal, mas ao mesmo tempo, a gente tentou encontrar coisas que a gente poderia fazer juntos a isso, que adicionaria também ao lançamento, principalmente o livro do "Você Não Sabe de Nada" e toda aquela história por trás do Lauro [arquétipo da banda]. Apesar da gente não ter lançado ele em cima dos palcos em 2021, a gente conseguiu lançar junto com o disco um livro que contasse um pouco a história de cada música e as pessoas poderiam se conectar mais profundamente com o álbum. O álbum aborda amores, desilusões, inseguranças e descrenças, temas presentes na vida do indivíduo. O que levaram a trabalhar esses temas? Como foi o processo de compartilhar com os ouvintes um pouco da história de vocês? Então, acho que a escolha dos temas foram meio essas, porque é algo que faz parte do cotidiano do jovem brasileiro, digamos assim. A gente acaba indo para lugares, conhecendo pessoas, enfim… Essas coisas sempre tão aí: insegurança, amores, desilusões, acho que foi por isso a escolha dos temas. Sobre compartilhar com as pessoas, acho que foi muito fácil pra gente, porque a gente não tá colocando na letra nada que a gente não tenha experienciado de alguma forma. Acho que são temas muito universais, especialmente pros jovens, né. Acho que é daí que partiu a escolha desse tema - e a identificação do público, tanto com gente e tanto com as letras. "Você Não Sabe de Nada" é um álbum que viaja pelos estilos musicais brasileiros. Quando vocês perceberam que podiam tocar de tudo um pouco? Rola uma piada na banda que a gente é uma banda de MPB, Música Progressiva Brasileira, porque a gente é um pouco imediatista com esse negócio de "pô, se a gente fez um verso, o segundo verso tem que ser diferente desse primeiro, que tem ser diferente do segundo refrão. Como é que a gente faz pra dar esse senso de progressão na música?" Aí entrou essa coisa dos gêneros musicais, especialmente brasileiros. A gente é bem eclético dentro da banda e a gente sempre tenta explorar esses lados… Então, vai ter semanas que, sei lá, vai tá todo mundo ouvindo carimbó e de repente isso vai acabar sendo refletido em alguma música. Vai tá todo mundo ouvindo baião, todo mundo ouvindo reggae, parte do fato que a gente é eclético e querer experimentar dentro das músicas; quando a gente viu que rolava fazer isso mesmo e que a galera curtia, aí a gente se permitiu dar uma pirada mesmo. Recentemente, vocês retornaram aos palcos. Como foi voltar após dois anos parados? Os retornos aos palcos aconteceram de algumas formas e ainda está acontecendo. A gente acabou de fazer um super show em São Paulo [no Cine Joia] e foi uma sensação muito esquisita, porque a gente brincava, durante o lançamento do álbum, quando a gente retornasse, a gente ia fazer um show que era uma série de músicas que a gente nunca performou ao vivo, para uma série de pessoas que a gente nunca viu, porque a gente lançou mais material, conseguimos mais fãs - a gente não sabia como seria isso. Você ter essa recepção de tocar essas músicas, por mais que [sejam] antigas, já faz um ano que o álbum foi lançado, ainda são novas porque elas nunca foram performadas ao vivo, tá sendo uma experiência incrível! Fora que [ficar] dois anos sem show… A gente voltou bem pilhado pra voltar para os palcos, então, tá sendo uma experiência muito maneira de troca com o público e também entender os lugares dessas músicas que a gente compôs sozinhos, na boca dos outros. Cada música toma uma forma quando você bota ela no mundo e poder vê-la na plateia tem sido uma experiência incrível. Para finalizar: vocês continuam não sabendo de nada? Agora que a gente tá com mais experiência, tamo fazendo algumas colaborações com outros artistas, eu diria que não é que a gente não continua sabendo de nada, acho que a gente tá sabendo, inclusive, um pouco menos agora. Na canção "Você Não Sabe de Nada", que leva o título do álbum, O Grilo mostra que é possível viver com todas as incertezas e amores que cabem dentro de um indivíduo - ainda bem que não sabemos de nada. "As horas vão passando / Mas a gente corre atrás / Querida, / Vamos esquecer que a vida / Um dia acaba."

Dia Internacional da Língua Portuguesa no Museu da Língua Portuguesa

Dia Internacional da Língua Portuguesa no Museu da Língua Portuguesa

Para celebrar o Dia Internacional da Língua Portuguesa, o Museu da Língua Portuguesa preparou uma programação que contará com shows, performances e mesas de debate. A programação, totalmente gratuita, acontece entre os dias 5 e 7 de maio, no museu, na Praça da Língua e no auditório. A edição de 2022 tem direção artística do diretor teatral e de cinema Felipe Hirsch, e contará com a presença de Caetano Galindo, Yeda Pessoa de Castro, Jera Guarani, Daiara Tukano, Juliano Pessanha, Veronica Stigger, Ailton Krenak, Pilar del Río, Milton Hatoum, Eliane Brum e André Baniwa. A distribuição dos ingressos acontece na bilheteria do Saguão B, duas horas antes de cada atividade, que dará acesso à atividade e ao Museu da Língua Portuguesa. As mesas de debate serão transmitidas pelo YouTube e Facebook do instituto. Programação 05/05 - quinta-feira 10h30 - Aula Aberta: Língua Brasileira - com Caetano Galindo para alunos da EMEF Infante Dom Henrique (evento fechado para os alunos da escola) na Praça da Língua 16h - Mesa: A Origem da Fala e os Mitos de Criação - com Jera Guarani e Daiara Tukano no Auditório 17h30 - Mesa: Camões com Dendê - com Yeda Pessoa de Castro e Caetano Galindo no Auditório 18h30 - Lançamento do livro “Camões com Dendê” de Yeda Pessoa de Castro no Terraço 20h - Show: Padê - com Juçara Marçal e Kiko Dinucci na Praça da Língua 06/05 - sexta-feira 12h - Performance: Zion Gate Soundsystem e Batalha Santa Cruz - Ritmo e Poesia na Gare da Luz no Saguão Central da CPTM 14h - Mesa: Experimentos com Linguagem com Juliano Pessanha e Veronica Stigger no Auditório 17h - Mesa: A Ideia de Nação com Ailton Krenak na Praça da Língua 19h - Show: Lia de Itamaracá com participação especial de DJ Dolores 07/05 - sábado 11h - Abertura da instalação “O Conto da Ilha Desconhecida” com a companhia Pia Fraus no Saguão B 12h - Show: Orquestra Mundana Refugi no Saguão Central da CPTM 14h - Mesa: Línguas Portuguesas com Pilar de Río e Milton Hatoum no Auditório 17h - Mesa: Incêndios com Eliane Brum e André Baniwa, com medição de Maria Fernanda Ribeiro no Auditório 19h - Show: Cenas e músicas da peça “Língua Brasileira” com Os Ultralíricos na Praça da Língua

Destrações #25: O que você vê na sua frente?

Destrações #25: O que você vê na sua frente?

A tecnologia libertadora de Pedro Silveira

A tecnologia libertadora de Pedro Silveira

No texto "Fragmento Sobre as Máquinas", Karl Marx antecipou sobre a forma de produção no capitalismo selvagem. Após a Revolução Industrial, a tecnologia começou a aprisionar o trabalhador. Hoje em dia, vivemos na sociedade do cansaço, que naturalizou a produtividade, alta performance em uma positividade tóxica, como explicou o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han. Como é possível viver em um mundo tão cruel? Um dos meios que o multi-instrumentista Pedro Silveira encontrou para continuar seguindo sua caminhada foi através da música. Vivendo em uma realidade dolorosa, Pedro transformou seus sentimentos em cinco canções que estão no "Fragmentos Sobre as Máquinas", seu primeiro EP que sai pelo Selo Parafuso, que homenageia Marx. Construído durante o início da pandemia, o álbum traz o caos, a revolta, angústia e o ódio que o ser humano passou durante o vírus da Covid-19, além de refletir sobre a melancolia moderna. Leia também: A Lokomotiva de Guardiano Big Science: a obra-prima de Laurie Anderson A montanha rústica de Léo Ramos Como você descobriu que queria seguir essa carreira artística? Minha família é muito musical. Por mais que não tenha músicos na família, é uma família muito musical. Minha mãe sempre gostou muito de escutar coisas diferentes e de apreciar a música. [Quando era] criancinha, uma vez fiz aula de violão e não segui… Depois surgiu uma oportunidade de eu fazer aulas de música em um instituto que tem aqui perto de casa, o Instituto Baccarelli, que dá aulas de música clássica para crianças e jovens, na região do Heliópolis. Então, quando eu era criança, minha mãe, um dia falou: "descobri a escola aqui que dá aula de música de graça, não quer ir lá fazer?", sei lá, eu tinha oito anos de idade, aí eu fui - fiquei dez anos estudando música lá. Era música clássica lá, né. Então, eu participei de coral, tocava com orquestra, tinha aulas com músicos que eram convidados, tinham os professores… Ali, foi onde, de fato, eu fui introduzido a esse mundo de fazer música, ver a arte como é. Aí, você vai conhecendo amigos ao longo da vida que vão te influenciando para caminhos diferentes. Em um momento, eu falei: "vou estudar composição para fazer faculdade de música", já [que] gostava muito de alguns estilos diferentes, coisas diferentes, e gostava de criar. Fiz o vestibular, não passei. Sempre tinha uma pressão de família para… "Pô, vai fazer música? Vai fazer outra coisa" - e eu caí no golpe da família [risos]! O meu plano era o seguinte: eu passei em um curso de engenharia, vou fazer um ano, enquanto eu vou fazendo esse primeiro ano, vou estudando música e no final do ano, eu faço o vestibular de novo e aí troco de curso; só que eu acabei gostando [de engenharia] e acabei ficando. Tô até hoje estudando engenharia e física. Por um tempo, eu fiquei perdido, porque faculdade toma muito seu tempo e acabei sendo "forçado" a ficar longe da música… Sempre gostei de criar. Quando tinha bandinhas ou projetos, eu era a pessoa que puxava e organizava tudo. Fui percebendo que eu fazia isso bem e tudo que eu aprendi na faculdade, dava para casar uma coisa com a outra, então, minha vida musical foi tomando formas diferentes. Fui achando outros caminhos para arte, além de tocar, ajudando outros artistas a conseguirem fazer as coisas deles acontecerem. Como foi o processo de ter aprendido e tocado música clássica para os dias atuais, que engloba muitos gêneros musicais? Acho que a maioria da população não escuta música clássica, de rolê, de brincadeira. Não foi algo natural, não surgiu do nada. No começo, era meio que por brincadeira, mas aos poucos, fui tomando forma, fui tomando gosto e entendendo melhor, conhecendo os compositores, os períodos históricos - foi daí que foi surgindo esse gosto por música clássica. Na minha família, ninguém escutava música clássica, minha mãe escutava muito MPB, o pessoal da minha família que é de Minas escutava música caipira, música sertaneja raiz. Com os amigos, eu já comecei a escutar bastante rock… Foi virando um grande caldeirão. Tava ali ouvindo música clássica, quando eu ia pra casa do meu pai, tava escutando Tonico e Tinoco, tava escutando Ana Carolina com a minha mãe e na escola… Eu tava ouvindo diversas coisas diferentes. Teve uma época, na adolescência, em que eu fui mais metaleiro… Todo mundo passa por essa fase. Pois é. Toquei em umas bandas de metal, mas passou essa fase ortodoxa [risos]. Depois eu fui percebendo que eu gosto de muita coisa diferente e eu posso fazer uma coisa que não seja fechada dentro de um certo nicho musical. Por que não posso misturar a música clássica com o sertanejo? E agora, você encontrou o seu caminho? Se bem que a palavra caminho soa forte… A minha própria ideia de caminho… Eu acredito que o caminho não é uma estrada, uma estrada que já está pré-definida e delimitada. O caminho, ao meu ver, você constrói junto com o caminhar. Então, nesse sentido, sim. Eu estou caminhando, mas pra onde… Talvez eu não saiba e nunca vou saber, mas pra algum lugar, eu tô caminhando, esse caminho está sendo construído. Você está disposto a ir para qualquer lugar? É… Não sei se qualquer lugar [risos]. Estou disposto a ir para muitos lugares. Como foi o start para "Fragmentos Sobre as Máquinas"? Não teve um start. Ele, particularmente, foi construído de uma maneira diferente. Eu vou dar uma volta para explicar isso. Nesse caminho que eu comentei, eu vejo que esse caminho de produção musical, ficou mais forte pra mim durante a pandemia. Foi esse momento de firmar essa posição e falar: "eu vou fazer isso". Eu comecei a me gravar muito mais, a compor muito mais, compor com os meus amigos muito mais e aí surgiram várias coisas. Algumas coisas eu já tinha compilado, um tempo atrás, eu tinha lançado um EP que tirei do ar logo depois, porque eu não achei bom - foram testes, foram experimentações. Eu comecei a fazer coisas dos meus amigos, junto com eles e para eles. Eu tinha várias músicas que estavam soltas, tinha composto ou tinha até gravado e elas estavam soltas, sem nenhum sentido explícito. Aí eu comecei a pensar mais sobre elas. Por mais que não houvesse esse sentido explícito, não foram compostas para isso, com uma finalidade, eu via que tinha algo que conectava essas músicas. A maioria das músicas do "Fragmentos Sobre as Máquinas" tava composta ao longo de bastante tempo. A primeira música desse EP foi composta no final de 2019 e as outras foram ao longo de 2020, 2021 e 2022. A única música que eu compus para esse EP foi "Primeiro Como Tragédia", porque eu já tinha as outras quatro músicas e aí eu sentia que faltava algo, que fizesse essas quatro conversarem em um sentido sonoro, pra dar uma coerência dentro do EP. Então, eu fiz essa música, pensando nessa coerência sonora - foi a única música que eu fiz com a intenção de estar no EP; as outras foram surgindo em momentos diferentes. Durante a pandemia, passei por um processo de processo político mais forte, então eu comecei a me engajar mais politicamente e acho que dá para sentir um pouco disso no EP. Desde da música "Gagarin", que talvez seja o início, dessa jornada, dessa busca. A "Zizek" [e a “Gagarin”] acho que representam um certo tipo de espírito político que eu venho buscando. Isso está muito presente em mim e na música. O EP foi construído durante a pandemia, que despertou diversos sentimentos, diversas agonias e revoltas. Você passou pelas fases do luto e tá muito nítido. "Fragmentos Sobre as Máquinas" surgiu como um momento de salvação? Eu acho que sim. Não sei se é um momento de salvação, mas com certeza foram pequenos refúgios. [Fazer música] é o momento que eu vejo que eu sei fazer bem, que faz bem pra mim, que pode fazer bem para outras pessoas, consigo estar de boas e com meus amigos fazendo isso… Todas essas músicas foram pequenos espaços de refúgio da vida. Foi parar um pouco e colocar para fora algo que eu estava sentindo, vendo e não sabendo expressar de outra forma se não fosse essa. O título é um pouco ambíguo. Qual o significado? Existem algumas camadas de significado. A mais simples, que por si só não é tão simples, "Fragmentos Sobre as Máquinas" é o nome de um texto do Karl Marx. É um texto sobre tecnologia - é um tema que eu me interesso muito e é extremamente importante ser discutido. Ele fala no texto como a tecnologia é utilizada para aumentar a exploração do trabalhador. O texto principal é sobre isso, que já é algo extremamente importante. "Fragmentos" é por conta das músicas que foram compostas em momentos diferentes e sem essa intencionalidade de estar dentro de um único trabalho - são fragmentos meus, talvez, fragmentos das minhas músicas. Como é um tema sobre tecnologia ligado à exploração do trabalhador e luta de classes, é um tema que eu me importo muito, e que está de alguma forma dentro de todas as músicas também, não deixa esses fragmentos, essas músicas, terem a ver com esse tema, por mais que não seja explicitamente, não esteja falando na letra da música. Acho que é uma junção de tudo isso. Marx, política e luta de classe inspiram sua obra? Sim, bastante. Acho que sempre fui uma pessoa de esquerda, mas nunca tinha elaborado sobre isso. Era sempre "ah, eu sou", mas nunca tinha ido ao fundo. A partir de 2020, tive esse processo intensificado de politização. Sinto que a pandemia foi uma indignação de "Pedro, não dá mais para ficar de boas". Eu me tirei o medo de dizer que eu sou comunista - foi um processo dizer que eu não sou de esquerda, eu sou comunista! Marx e Hegel me inspiram por organizar essas ideias e ser um motor teórico de te dar ferramentas para pensar, analisar, e mudar o mundo. Agora te pergunto: qual o seu objetivo ao fazer música? Você também quer trazer uma mudança na pessoa que te ouve? Eu quero compartilhar. Eu quero colocar pra fora até chegar nesse momento, usando o linguajar marxista, esse processo dialético, com outras pessoas. Eu fiz um negócio que eu queria fazer, coloquei minhas ideias pra fora do papel e joguei elas pro mundo. O que eu quero agora é receber de volta. Quero que alguém escute e diga: "putz, gostei muito disso" ou "achei muito legal" ou "isso me lembrou tal coisa", porque isso é muito doido… O que mais me anima é esse feedback. É legal quando tem alguma transformação, um olhar de outra pessoa, quando minha música proporciona algo sobre isso, é maravilhoso! Não é a intenção, eu tô expondo o que eu tô vendo e a partir disso, imagino, as pessoas vão olhar de uma outra forma. Quando foi o momento que você percebeu que queria compartilhar suas músicas com outras pessoas? Tem aquele momento do "está bom o suficiente" para soltar pelo mundo? Isso é difícil [risos]. Tem um pessoal no mundo do áudio que fala: "você não termina uma música, você desiste dela", porque se você puder, você continua enrolando, tentando mudar uma coisinha, sabe? Tem uma hora que eu preciso falar "acabou", porque se não, eu nunca vou fazer nada, vou ficar sempre esperando ficar melhor. São cinco canções em um álbum que trazem diversos sentimentos e sensações. Me lembrou muito a melancolia, justamente pelo momento que vivemos, mas também traz uma revolta para seguir adiante. Como que foi trazer todas essas sensações? Em questão de processo foi muito natural, nenhum desses sentimentos foi pensado. É interessante saber - eu não tinha pensado nessa melancolia. É um sentimento que estava e está presente. Ao meu ver, apesar de ser melancólico, é diferente de tristeza - vejo que é um reflexo desse tempo que a gente vive. Por mais que as coisas pra mim estejam bem, eu não consigo ficar bem, tem gente morrendo por um vírus que já tem vacina… Nietzsche tem uma passagem que fala que tá todo mundo caindo dentro de um buraco infinito; tem gente que chora e entra em desespero, tem gente que ri e dança. Tem quer ser materialista hoje: é isso que eu tenho, o que eu vou fazer com isso? Tento ser positivo, mas não consigo ignorar a realidade. No livro "Favor Fechar os Olhos: Em Busca de um Outro Tempo" (Vozes, 2021), Byung-Chul Han defende a necessidade de outro tempo, onde o indivíduo consiga ser livre e ter o prazer de fechar os olhos, olhando para si mesmo, sem exploração. O EP de Pedro também traz essa mensagem: a necessidade de mergulhar dentro de si e festejar quando é possível. Desliguemos as máquinas para viver.

Destrações #24: Meditação em tempos de pouca calmaria

Destrações #24: Meditação em tempos de pouca calmaria

O Maranhão de Vinaa

O Maranhão de Vinaa

Para falar de Vinaa é preciso revisitar o passado. Voltamos a 1500, quando um grupo de europeus chegaram na área que hoje corresponde ao Maranhão. Colonizado por portugueses, o Maranhão é um dos Estados de maior influência política portuguesa. O local de Gonçalves Dias e Humberto de Campos traz uma cultura rica e diversificada, marcada por festas, manifestações folclóricas e festas religiosas. Muitos esquecem a própria história, mas Vinaa não: em uma conversa noturna, ainda realizada pelo Zoom, ele explica que sua história continua dentro dele. Esse ano, o cantor lançou "Fé de Alimária", seu terceiro disco, que é fruto de uma extensa pesquisa sobre os 120 anos de música maranhenses. Ao lado de Zeca Baleiro e Filipe Façanha, Vinaa deu novas interpretações a músicas clássicas e importantes à população brasileira. Enquanto canta, ele lembra o ouvinte dos heróis que passaram pela sua terra. Leia também: Os Nordestes de Juliana Linhares O mundo inteiro de Yo Soy Toño Possa Nova: a persona madura de Filipe Mariz Quando você descobriu que gostaria de seguir a vida artística? A música entrou na minha vida [quando eu] ainda era muito pequeno. Eu estudei por oito anos em uma escola adventista e tem aquelas coisas quadradas, tradicionais. Eu já vinha de uma experiência de ser muito tímido, com poucos amigos - aquela história. Aí, meus pais encontraram, nesse reduto escolar, um coral infantil, que foi meu primeiro contato com a música. Inclusive, a música, naquele momento, foi importante para me redescobrir. Eu meio que era "obrigado" oficialmente, mas consegui, através da música, me conectar com o mundo. Com o passar dos anos, eu fui me profissionalizando nisso . Eu entendo hoje… Por [ter sido] uma criança que não entendia o seu lugar no mundo, o não me identificar com as [questões] adventistas - tudo isso mexia muito comigo, eu ficava em uma redunda, em uma bolha, que a música era o único lugar que eu conseguia fazer… Respirar e me conectar comigo mesmo. Perceba que eu saio do coral gospel, mergulho no mundo popular e anos seguintes, é quando eu começo a escrever sobre mim, coisas que eu não conseguia dizer as pessoas (afetivamente, inclusive). Então, eu escrevi muito, foram mais de 60 canções em um ano. Eram canções muito metafóricas, vagas… Não eram canções [com as quais] me reconheço hoje. Aí entrei em uma banda baile - e banda baile é uma bagunça de formatura. Eu pude entender um pouco, direcionar a música para um lado que eu não tava percebendo ainda, que é orientar a música para atender uma expectativa de quem tá te ouvindo do outro lado. A música não era sobre apenas o que tô pensando, era sobre o que as pessoas queriam ouvir - literalmente e comercialmente falando. Comecei a entender que eu podia falar coisas que as pessoas queriam ouvir; aí comecei a canalizar os sentimentos que não eram só meus - comecei a escrever canções que diziam mais sobre as histórias das pessoas do que sobre mim. Olha só a evolução que vai acontecendo ao passar do tempo! Aí aconteceu um marco importante: essa banda baile que eu fazia parte, isso faz dez anos, foi convidada a fazer um especial do Tim Maia, como os produtos sabiam que a gente tinha uma pegada diferente - a banda fazia mó sucesso em São Luís do Maranhão -, deixaram a gente fazer com a nossa pegada. A hora de acontecer o show foi um fracasso, ninguém queria ver esse rolê de reinventar Tim Maia. A casa cabia umas mil pessoas e só dez [apareceram]. Uma pessoa que foi e mudou toda a história… Na cidade, aquele dia, tava um cara que simplesmente produziu um disco inteiro do Tim Maia! Dentre as dez pessoas que estavam lá, tinha esse senhorzinho de oitenta e poucos anos chamado Cury Heluy. Ele assistiu o show inteiro, não fez nenhuma expressão diferente, eu também não sabia quem era ele… A gente entregou o show do jeito que a gente ensaiou e o Cury foi no camarim para falar comigo - eu lembro muito bem dessa cena: ele se aproximando, como [se] ele fosse um ancião do rolê, o mais velhinho dentre todos, ele chegando lentamente querendo falar comigo, e ele falou assim, uma frase muito embargada de emoção: "Se o Tim Maia tivesse vivo, ele teria muito orgulho do que aconteceu essa noite". Aí eu perguntei: "Quem é você?" e ele falou: "Eu sou o Cury Heluy" e perguntou se eu tinha canções, disse que sim, e ele falou "Se quiser, amanhã a gente começa os trabalhos" - e não deu outra. Eu saí da banda baile nessa noite e no dia seguinte, já estava em estúdio, produzindo meu primeiro disco. Como foi essa passagem pra você? Deliciosa, posso te dizer com toda a sinceridade. Ao mesmo tempo, cheio de dúvidas, porque não é um ofício fácil, algumas pessoas veem apenas o glamour, veem apenas em cima do palco. Preciso pagar as contas, então, como faz para equilibrar essa balança? Segui convicto de que a música, quando mais precisei, ela não me deixou - ela me ajudou a me reencontrar. Eu meio que me sentia na obrigação de devolver, contribuir com a música, preciso entregar um trabalho bem feito, que eu sei que pode impactar pouco, mas se transformar a vida dessas pessoas, tô cumprindo o papel que a música fez comigo. Veja só, da banda baile até hoje, foram dez anos, em dez anos, foram três discos. Tem sido uma experiência incrivelmente deliciosa! Você consegue me descrever o que é música pra você? Por que ela é tão importante pra você? [Breve pausa] Não teria outra expressão que pudesse sintetizar o que é música do que uma conexão com o divino. Um divino que habita dentro da gente - a sensação de você estar feliz, triste, bem humorado, se você tá com raiva… Você tem uma forma de se encontrar através de uma canção. Você diz coisas que não consegue, você manifesta um sentimento, você encontra refúgio, às vezes, de uma vida que você… "Eu não tenho nada, mas amo música", conheço pessoas que são incrivelmente apaixonadas por bandas estrangeiras e que moram no interior do Maranhão, não dominam nada do idioma, mas são incrivelmente apaixonadas. A música quando conecta, não importa a língua, o estilo, não é sobre isso, é muito maior! É essa conexão com o divino, toca na alma da pessoa - e aí não tem explicação. Quando aquilo te toca, é [quando] a música te alcançou. Pra mim, na minha visão mais romântica possível, música é uma força. O que me chama atenção é que o seu primeiro disco fala de você, o segundo já foi sobre os outros e o terceiro é sobre um Brasil que você quer. Como foi percorrer esses caminhos - do você até chegar no outro, que também é você? Foi exatamente isso que aconteceu, Michele, mas isso não foi programado. Quando eu pensei sobre uma coisa… As coisas foram acontecendo, porque a gente passou por um processo… Quando você coloca sua mensagem na rua, eu imaginava isso como qualquer manifestação artística - um livro, uma obra de arte… Quando as pessoas interagem com ela, aquilo não é mais seu. Aquilo deixa de pertencer a você. Então, as músicas que escrevi, inclusive do primeiro disco, não são sobre mim, eu me identifico com as histórias das pessoas, elas contando suas histórias. Quando você começa a interagir com o território, fazer a circulação, acho muito importante isso, o brasileiro se reconhecer em seu território - acho que falta muito disso, o Brasil não conhece o Brasil. Se o brasileiro se permitisse conhecer a diversidade que a gente tem, de gente, de história, de cultura… A forma como eu me identifiquei com esses territórios, a vontade que dá é de contar essas histórias, porque são incrivelmente ricas e poderosas. Na hora que eu começo a me identificar com esse território, naturalmente, a gente começa escrever canções de que é mais sobre isso, essa viagem, essas conexões, do que sobre a gente - e tá tudo bem. No meu ponto de vista, é uma evolução natural que vai acontecendo ao nível de composição, inclusive, as coisas vão se refinando e tem também o processo de maturidade que vai acontecendo. Agora, faço uma provocação: o que é o Maranhão para você? [Pausa] Uau! [Nova pausa] Será que dá para descrever? Maranhão pra mim é um sentimento. Um sentimento que tem cheiro de terra molhada, uma terra molhada que está visivelmente pisoteada por pessoas que não querem sair de lá, porque acreditam muito na força do seu próprio povo. Maranhão, pra mim, é esse sentimento. Esse sentimento que me alimenta, que me deixa vivo. Mesmo eu morando, hoje, em São Paulo, eu sinto o cheiro dessa terra molhada, das pessoas que estão ali, pisando naquele território e que se orgulham tanto daquelas raízes que são muito profundas. Pra mim, o Maranhão é o espelho de uma, apesar de todos os desafios, apesar de todos os problemas sociais, econômicos e de ser um dos Estados mais pobres do país, apesar de ser um dos Estados com o IDH mais pobres do Brasil, o povo maranhense; por isso que digo que é esse sentimento, é sobre as pessoas que estão ali. É muito maior! Não há um maranhense longe de seu território que não tenha um sentimento que mistura orgulho com saudade, a saudade de um lugar que talvez ele nunca tenha vivido. Esse oásis, onde esse sentimento coletivo dessas pessoas que pisam nesse território se orgulham de estar ali - reflete em muitas coisas. Te perguntei sobre Marinhão, porque o workshop "Vento Norte: Produção Musical, Identidade de Origem e Valorização da Música feita em Maranhão", lançado no ano passado, diz muito sobre. Queria que você falasse um pouquinho mais sobre esse workshop e o que te levou a trabalhar, pesquisar tão a fundo na história do seu local. Esse workshop é fruto do trabalho de pesquisa do "Fé de Alimária". O "Fé de Alimária" é um disco que é fruto de uma pesquisa musical e é uma pesquisa musical que demorou muitos meses. [A gente procurou] encontrar conexões entre o que havia sido publicado, amplamente divulgado, de canções que o Brasil se identifica, reconhece, ao mesmo tempo, fazer um resgate de simbologias sonoras, rítmicas, de um Estado que tem uma diversidade muito representativa, tanto de tambores como manifestações musicais. Dentro do próprio território, há muitas manifestações culturais que coabitam ali respeitando a presença de um dos outros, de como influencia isso hoje em compositores que atravessaram todas essas gerações que estão hoje produzindo; de como a nova geração da música maranhense é fruto desse símbolo. Então, o "Fé de Alimária", ao mesmo tempo que é esse passeio entre a história, mas tem essa reflexão sobre o que a gente tá produzindo hoje. É um disco que parece que é complexo, mas não é isso. Ele é muito mais singelo, como aquela imagem impactante, mas ao mesmo tempo, dá vontade de você ir lá conhecer. Esse território que você não faz ideia do que pode encontrar ali de sons, de cores, de pessoas, porque é tão rico que você não conhece defini-lo! Por isso que quando eu falo que esse Maranhão é esse sentimento que é imponente pela própria natureza, apesar de ter as pernas finas, quase que quebrando. Aquela figura da "Fé de Alimária", aquela divindade animalesca, com as pernas finas, frágeis e com fome, ao mesmo tempo como uma grande quimera abrasileirada, com influências do Nordeste e nosso território. Maranhão, pra mim, é isso. O "Fé de Alimária" é a tradução sonora do que pode ser alguma coisa desse território. Confesso a você: daqui alguns anos, eu quero fazer um "Fé de Alimária" 2 e 3, pra trazer outros aspectos, porque há muitas possibilidades. A gente resolveu convidar esses nomes, como Kastrup [Guilherme Kastrup, produtor], que produziu os dois maiores discos dos últimos 20 anos no Brasil, que são da Elza Soares. Como eu posso traduzir Elza Soares? [Ela] é uma entidade no território, que traz ao povo a simbologia de que Deus é mulher. E o Guilherme Kastrup produziu tudo isso, então, ele conseguiu trazer essa força ancestral da mulher preta no território brasileiro, conectado com uma sonoridade muito moderna, que conquistou o mundo. Luiz Cláudio, o grande host do workshop, é um especialista em tambores e percussões; ele consegue trazer esses ritmos para uma sonoridade que é contemporânea a gente, inclusive, ele faz um trabalho de resgate de grupos tradicionais que nunca tiveram nenhum registro audiovisual - ele leva para o seu estúdio e consegue produzir, gerar discos. O Luiz Cláudio conduz o workshop, Guilherme Kastrup faz uma participação [sobre] a importância de você estar atento à produção musical de hoje. A gente tem também Zeca Baleiro. É um workshop estreladíssimo! A gente fez questão de que ele fosse gratuito, afinal de contas, a gente não tá fazendo música pra gente - todas essas pessoas têm essa percepção. Esse workshop é isso: dar os caminhos para quem quer produzir música, de qualquer lugar do país, com os símbolos que temos. O que também me chama atenção, é que um dos objetivos de "Fé de Alimária" é manter a tradição de clássicos canções do cancioneiro. Como é possível manter essa tradição em um mundo tão tecnológico? O que eu penso sobre o mundo que a gente vive: nós não chegamos até aqui sozinhos. Inclusive, as tecnologias que nos trouxeram aqui, não foi só o smartphone, indústria 4.0, biotecnologia - isso é o que existe hoje. O que nos trouxe até aqui, foram tecnologias das ocas, foram tecnologias dos quilombos, foram os maias e os astecas olhando pra cima e analisando os astros. Foram essas tecnologias que construíram a nossa identidade como povo. Essa tecnologia foi deixada de lado, a gente sente isso, que o mundo vai se renovando - e não é uma coisa do Brasil, mas do mundo -, que vai deixando para trás, vai renegando sua história; e pobre do povo que renega sua própria história. Acho que os três discos tem essa vibe, de cancioneiro, de "vamos fazer canções para as pessoas se atentarem mais às letras". Ouso até dizer que se existir dois mundos, eu estou do lado do território, dos povos tradicionais. Como foi dar voz a letras clássicas, tão profundas e necessárias? O processo de escolha foi o mais terrível possível [risos]. Eu, em sã consciência, não teria feito isso, porque é cometer uma injustiça com tantos compositores, com tantas canções, com tanta gente incrível. Muita gente ficou de fora. A gente fez uma pesquisa musical com Zeca Baleiro, André Lira, mas na hora de escolher as canções… Eles disseram: "esse B.O. nós não queremos, é todo seu". O que eles me orientaram foi: "Vinaa, siga seus sentimentos". A memória afetiva é um critério importante, canções que me tocaram e que fazem parte da minha história, das pessoas que conviviam comigo - isso destacava algumas canções das outras. Outro critério era: quais as canções que diziam respeito ao existencialismo? Ou seja, elas ainda permanecem vivas, por mais sufocadas que elas sejam. Acho que o terceiro critério foi esse sentimento de divino que a música provoca. Tem canções que eu não tinha nenhuma memória afetiva, mas elas surgiram, me levaram para um estágio de "meu deus, o que é isso?". Esses foram os três critérios que eu adotei e a gente começou a filtrar. [Depois] Passamos pelo processo mais difícil, que é fazer as releituras. Aí você vai brincar com os sentimentos dos outros, não é sobre o que apenas estamos sentindo, porque as pessoas conhecem as canções! Tem aquele peso também? Existe um peso de referência que eu não tive em relação ao meu trabalho, as minhas canções. As histórias dos outros não são a minha história - e as pessoas já conheciam as canções. Então, como é que eu me proponho a revisitar essas obras, sem prejudicar essas memórias? Você já passou por três etapas diferentes. Você consegue ver as diferenças transformações que passou? E no final, quem é Vinaa? [Pausa] Essa pergunta, talvez seja a mais bonita das perguntas porque, Michele, essa história toda não é sobre alguém que conheci, é sobre um processo que eu vivi na pele. Às vezes com os olhos pesados, de dificuldades, ter que abrir mão de muita coisa, abrir mão de sentimentos meus. Não contar aquilo que eu tava sentindo. O que eu fui perdendo com o passar do tempo, certamente foi o medo de contar a minha história. Fui ganhando um sentimento de pertencimento a um território que eu não me sinto sozinho. Quando eu conto essa história, ela meio que se mistura com a história da minha gente, com a história do meu povo e com a história do Brasil que eu conheço. Quando eu abro mão dessas coisas e me decido conectar com essas coisas, seja lá de onde elas estejam, acontece o que eu pude sentir na pele há poucas semanas em Chapecó, Santa Catarina. Uma cidade que na última eleição bateu 70 ou 80% de votação pró-direita. Eu chego naquele território e sou abraçado de uma forma… As pessoas me contando as histórias… Quando eu chego ali, as pessoas se identificam com esse ar, essa Arca de Noé que chega com cada par de salvação para cada um, é um sentimento de… Eu não sei explicar isso, mas é um misto de ressurreição do território, não é meu, eu tô apenas passando por ali com a minha história. E as pessoas se conectam de uma forma que… Acho que isso eu ganhei, isso eu não tinha. Eu entendi que isso vai acontecer com mais força quanto eu mais me permitir viver a história dessas pessoas, desses territórios que eu não conheço - e eu tô inteiramente disposto.