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Voz Festival: Arte e Diálogo reúne artistas independentes

Nunca foi fácil ser artista no Brasil - principalmente nos dias de hoje. Para debater o presente e o futuro, em um país governado por fascistas, surge o Voz Festival: Arte e Diálogo, um chamado para a escuta, por um olhar mais tolerante, representativo, democrático e acolhedor, ampliando a voz de artistas da cena independente, com trajetórias ligadas à luta pelos direitos de quem sofrem racismo, preconceito, discriminação e violência. Entre os dias 3 a 6 de março, o festival recebe Preta Ferreira, ativista pelo direito à moradia do MSTC, a apresentadora e professora Rita Von Hunty, a influenciadora digital Dandara Pagu, o cantor e compositor Chico Salem e a ativista contra abusos em meios espirituais Tatiana Badaró. Durante a programação do Voz Festival: Arte e Diálogo, transmissão gratuita e pelo canal do Youtube, o telespectador verá reflexões, questionamentos e inspirações, para que possamos compreender melhor as causas das minorias e assegurando os direitos que estão na Constituição Brasileira e a Declaração Universal dos Direitos Humanos. O Voz Festival é realizado através do ProAC Expresso LAB, mecanismo da Secretaria de Estado e Cultura e Economia Criativa de São Paulo, do Governo do Estado de São Paulo, e Lei Aldir Blanc, da Secretaria Especial de Cultura do Ministério do Turismo, do Governo Federal. Programação do Voz Festival: Arte e Diálogo 03 - Quarta-feira - 1° Ato - "Democracia e Cultura - Arte em Tempos de Censura" 15h - Abertura do festival com Voz Poética "Deriva da Poesia" com Cris Rangel e Luz Ribeiro 17h - Mesa "Arte em Tempos de Censura" - mediação de Chico Salem com Rita Von Hunty, Preta Ferreira e Ekena 20h30 - Show Chico Salem e banda 04 - Quinta-feira - 2° Ato - "Relacionamentos Abusivos" 15h - Abertura do festival com Voz Poética "Deriva da Poesia" com Cris Rangel e Luz Ribeiro 17h - Mesa "Relacionamentos Abusivos" - mediação de Tatiana Badaró com Ekena e Patrícia Gordo 20h30 - Show Ekena e banda 05 - Sexta-feira - 3° Ato - "Racismo Estrutural" 15h - Abertura do festival com Voz Poética "Deriva da Poesia" com Cris Rangel e Luz Ribeiro 17h - Mesa "Racismo Estrutural" - mediação de Preta Ferreira com Netão e Dandara Pagu 20h - Show Preta Ferreira e banda 06/03 - Sábado - 4° Ato - "Diversidade e Comunidade LGBTQUIA+" 15h - Abertura do festival com Voz Poética "Deriva da Poesia" com Cris Rangel e Luz Ribeiro 17h - Mesa "Diversidade e Comunidade LGBTQUIA+" - mediação de Rita Von Hunty com Luana Hansen e Gabriel Lodi 20h30 - Show Luana Hansen

LoreB a todo vapor

A voz da alagoana LoreB conquista o cômodo em que escrevo essas palavras. Com voz doce, misturando diversos gêneros musicais, a cantora conquista o ouvinte rapidamente. Em "Flores Amarelas", música que abre o seu álbum Étero (2019), encontramos teclados vibrantes, lofi hip hop e um toque de música popular brasileira. Quando vejo, já estou em outro mundo divino, o mundo que a artista criou, o seu próprio étero. A artista seguiu seus instintos artísticos desde cedo, cantando no coral. Assim que cresce, percebe que não é possível fugir daquilo que ama e insiste na música. LoreB fez parte de bandas covers, fez backing vocal e parceria com outros músicos. Mesmo sem planos de seguir carreira solo, o caminho (ou seria destino?) a encaminhou para o outro lado e ela se jogou nisso. A alagoana mostrou seus dois objetivos: cantar e fazer com o que o público dança/sinta suas canções. Leia também: A alma nua de Ana Carol Mish: o duo plural que quer colocar todo mundo para dançar Marcelo Cabral e o mundo pós-apocalíptico O que te levou ao mundo da música? Acho que eu não fui levada, eu só não tive como fugir. Na minha família existem outros músicos também. Eu iniciei ainda criança no canto coral e segui minha vida paralela com outros sonhos e objetivos comuns como qualquer pessoa inserida num mundo capitalista de competição, mas eu sempre estive acompanhada da música, cantando na escola, depois na igreja, enfim. Então, depois que eu comecei a dedicar meu tempo e meu dinheiro exclusivo a música, eu não quis mais saber dos outros caminhos, porque eu me encontrei nesse. É onde eu me sinto eu. Você já fez parte de bandas covers. Quando percebeu que era o momento de seguir carreira solo? De alguma maneira, ter participado de uma banda te ajudou a dar esse passo? Eu ainda faço parte de um projeto com a Bandinha, onde a gente toca músicas de outras pessoas em casamentos, continuo fazendo isso porque no mercado da música é onde eu tenho rentabilidade hoje. Participar de outras bandas me ajudou mais no sentido de perceber o público, de me comunicar melhor e confesso que ainda estou nesse processo. Mas, com relação ao momento da carreira solo, quando eu percebi eu já estava nela porque eu nunca tive esse objetivo de ser "frontgirl”. Eu sempre disse que meu sonho sempre foi ser backing vocal de uma banda/artista legal. Então, quando eu decidi gravar minhas composições para guardá-las comigo, eu percebi que estava trançando minha carreira solo, daí eu me joguei. "Etéreo", seu primeiro álbum, é uma mistura de diversos gêneros musicais. Como foi o processo dessa mistura? "Etéreo" é uma mistura de gêneros porque possui músicas de momentos diversos da minha vida e eram músicas que eu queria gravar despretensiosamente para arquivá-las. Mas, quando percebi que elas poderiam ir para o mundo, eu decidi compilar tudo num EP, que serviu como uma pequena mostra de quase todas as minhas referências e tudo que eu poderia oferecer. Além disso, por minha carreira não ter tido o planejamento prévio, eu ainda não conhecia a identidade sonora que eu queria seguir. Então, esse EP serviu de auto aprendizado. Ele me apresentou ao mundo e, apesar de tudo, eu tenho muito orgulho dele. Ainda falando do seu primeiro álbum, a canção "Vazio Moral" traz críticas aos conservadores e ao cenário político de 2018/2019. Para lá muitas coisas aconteceram. Como você vê o cenário musical nos três últimos anos? Na verdade, eu compus "Vazio Moral" no período de 2016/2017 que foi quando estava ocorrendo o processo de impeachment da presidenta Dilma. Desde lá, nós tivemos muitas perdas. A cultura, de uma maneira geral, tem vivido muitos retrocessos com perdas de ministério e condenação aos artistas. O cenário foi dos piores possíveis, ao meu ver. Acredito que após as restrições da pandemia, os artistas puderam voltar a ter um certo reconhecimento, parte da população conseguiu perceber que a cultura também é uma pauta importante dentro de um plano de governo. Infelizmente, ainda temos muito o que reivindicar e desmistificar, mas historicamente, nós artistas, nunca desistimos de lutar pela nossa liberdade democrática, então seguiremos. Suas canções foram compostas em diferentes momentos da sua vida, fazendo com que o ouvinte se identifique com sua obra. Qual o seu processo de escrita? Expor sentimentos e dores causa algum impacto em você? Eu sou uma pessoa mais observadora que alguém que se expressa e fala tudo que pensa na hora. Eu costumo guardar sentimentos, momentos, frases, imagens… Quando eu me sinto à vontade, eu tendo a desafogar tudo na música. Então me expressar através da música é uma válvula de escape, muitas vezes. Em 2019, você fez shows. Aí, um ano depois, vem a pandemia e para tudo. Como está sendo o isolamento? Tem esperanças que será possível voltar para os shows em breve? Então, eu lancei meu EP, fiz alguns shows, tinha planos de fazer mais alguns fora da minha cidade, mas veio a pandemia e tivemos que nos transformar. Acredito que eu vivi várias fases na pandemia. No início, todo aquele pânico sem saber o que estava acontecendo. Tive um isolamento um pouco privilegiado porque moro com meus pais; então não passei por grandes dificuldades. Em algum momento, eu "curti" me isolar mesmo, não produzi nada de novo, desocupei a mente do trabalho um pouco. Mas depois veio a fase do aprisionamento, da necessidade de socializar. Então, quando meu estado entrou numa fase estável no número de casos de covid-19, eu voltei ao estúdio para terminar a produção dos meus singles e aí era quando eu me aliviava um pouco de toda essa tensão que a gente está vivendo ainda. No ano passado, LoreB se juntou com Maju Shanii e criaram "Haja Cor", canção linda que retrata a liberdade do amor, que não tem cara, sangue, gênero e classe social: "As cores não resumem ao que os nossos olhos querem ver / Não são só as sete do arco-íris, existem muito mais para conhecer". Depois de participar do álbum de Wado "A Beleza Que Deriva do Mundo, Mas a Ele Escapa" (2020), a parceria se repete mais uma vez, no single "Sem Pressa", que narra o cotidiano de um jeito leve, fazendo com que o ouvinte preste atenção nos mínimos detalhes que o cerca - "A pressa perdeu para a imperfeição e para espantar a paz". O single nos mostra que é possível viver sem pressa em um mundo caótico e que a presença do outro deve ser aproveitada lentamente, com amor. Em 2020, você lançou "Haja Cor" com participação de Maju Shanii, onde cada uma deixou suas características. Como foi o processo desse dueto? Vocês escreveram a música juntas? Sim, eu escrevi o refrão e a primeira estrofe, daí enviei para Maju e ela me enviou outra estrofe pronta, a gente foi ajustando e foi assim que fizemos a música, toda através de mensagem e áudio no WhatsApp. No mesmo ano, você participou do álbum de Wado. Como foi essa experiência? Foi uma experiência única. Eu já acompanhava os trabalhos do Wado há algum tempo, arrisco dizer que pra minha geração ele é a nossa maior influência aqui na minha cidade. Então, ser convidada para participar de um trabalho dele foi uma imensa honra e eu sou muito grata por isso. A parceria volta mais uma vez, agora para o seu trabalho. "Sem Pressa" é um pop calmo que sustenta a letra do cotidiano. Queria saber como surgiu essa canção e o porquê do Wado cantá-la. Eu decidi convidá-lo para a canção justamente depois da gente ter trabalhado junto no projeto dele. Eu compus toda a letra, harmonia, melodia da música e eu queria alguém pra fazer um dueto comigo, então eu não pensei em outra pessoa, a não ser ele e eu acho que deu certo, eu fiquei muito feliz por ele ter topado participar. O que você anda ouvindo durante a quarentena que te auxilia no processo criativo? Eu ouvi lançamentos que eu ainda não tinha conseguido parar pra ouvir em 2019 e 2020 como Jup do Bairro, Luedji Luna, Tagua Tagua e também parei pra ouvir algumas coisas antigas que eu queria ouvir com atenção e os meus ouvidos de hoje. Então, ouvi alguns álbuns antigos do Jorge Ben Jor, Criolo, Amy Winehouse, Fleet Foxes e, depois de ouvir o álbum da Dua Lipa, eu voltei a ouvir algumas coisas dos anos 80, Daft Punk, Michael Jackson, Jamiroquai. Comecei a me apegar mais aos álbuns e isso me ajudou a refletir melhor sobre o meu futuro trabalho. Para finalizar, quais são os seus planos para o futuro? Podemos esperar mais um single seu? Sim! Eu tenho mais um single engavetado pra sair por aí logo, logo. Vou lançar esse single pra fechar essa série e por enquanto é o máximo que eu posso falar [risos]. "Étero" e outras canções de LoreB estão disponíveis em todas as plataformas musicais.

Eduardo Kobra cria painéis sobre as vacinas contra a Covid-19

Com mais de 500 obras realizadas nas ruas do Brasil, Eduardo Kobra refugiou-se nas artes novamente para criar painéis sobre as vacinas contra a Covid-19 e entregar esperanças ao Instituto Butantan e Fiocruz que estão à frente lutando por vacinas e passando por ataques todos os dias. "Essas duas telas, produzi no começo do ano passado, quando estávamos ainda no início dessa terrível pandemia. As obras expressam a esperança na produção de uma vacina. E agora, em 2021, passei a pensar sobre qual destino deveria dar para essas duas obras. Resolvi homenagear todos os cientistas brasileiros e duas grandes entidades que estão lutando dia e noite em prol da vida. Estou me referindo ao Instituto Butantan, que esta semana celebra 120 anos, e a Fiocruz, no Rio de Janeiro, para que fiquem expostos nas sedes das instituições como uma lembrança e homenagem permanente a todos os funcionários e cientistas que trabalham arduamente em prol da vida", explica o artista. Não faz muito tempo que Kobra transformou um cilindro de oxigênio, em desuso, em uma obra de arte que recebeu o nome "Respirar". O artista pintou o cilindro como se fosse um recipiente transparente, com uma árvore plantada dentro. "A mensagem central é a importância da vida. Que o sopro da minha arte ajude a levar um pouco de oxigênio para os hospitais mais necessitados e, ao mesmo tempo, provoque a reflexão sobre a importância de usar máscaras, lavar as mãos constantemente, manter o isolamento social e, claro, de preservar a natureza, que é patrimônio de toda a humanidade", explica o artista. Foi a primeira ação do recém-criado Instituto Kobra, que tem como premissa de que a arte é um instrumento de transformação. (Créditos: Acervo de Eduardo Kobra/Divulgação | Alan Teixeira) O movimento UniãoBR comprou a obra "Respirar" por 700 mil reais, fazendo com que todos os recursos obtidos sejam aplicados integralmente na instalação de duas usinas de oxigênio que serão entregues à Secretaria Estadual da Saúde do Amazonas. Isso significa que serão 20 leitos de UTI’s beneficiados 24h por dia! Em um dia, a usina vai gerar 480 horas de oxigênio; em um mês, serão 14400 horas.

O fim de Daft Punk

Eles surgiram na França e conquistaram o mundo em pouco tempo. Foram 28 anos juntos, marcando gerações com os hits "Get Lucky" e "One More Time". Nesta segunda-feira, 22, o Daft Punk confirmou o fim do duo. Em um vídeo de 8 minutos, intitulado "Epílogo", publicado no Youtube, a dupla colocou um ponto final na carreira. O vídeo relembra o início da dupla em 1993 e os últimos dias juntos, neste ano conturbado. Além disso, contém um trecho do filme "Daft Punk’s Electroma". Até o momento não foi divulgado o motivo para o fim da parceria da dupla com seus capacetes chamativos. Fica a saudade desde já e o agradecimento por terem revolucionado a música eletrônica.

Desalinhando Kurt Cobain: do pequeno artista ao cantor depressivo

Não é difícil "ler" Kurt Cobain. Nunca foi. Olhe para seus olhos nas diversas fotografias que estão em domínio público, eles dizem muito - principalmente aquela foto que ele está segurando uma arma. Além disso, as músicas que escrevia para o Nirvana carregavam o seu sofrimento, como é o caso de "Something In The Way" que está em "Nevermind" (1991), álbum que consagrou o trio: "And I’m living off of grass / And the drippings from my ceiling / It’s okay to eat fish / ‘Cause they don’t have any feelings". Pra mim, essa canção diz muito sobre como Kurt se sentia. No livro "Heavier Than Heaven: Mais Pesado do que o Céu - Uma Biografia de Kurt Cobain" (2002), Charlie Cross escreve no prólogo a primeira morte de Kurt: "A primeira vez que ele viu o céu foi exatamente seis horas e cinquenta e sete minutos depois do momento mesmo em que uma geração inteira se apaixonou por ele. Foi, sem dúvida alguma, sua primeira morte, e apenas a primeira de muitas pequenas mortes que se seguiram". Kurt estava quebrado e ninguém (aqueles que o quebraram, seus pais, sua família, seus amigos, a fama e seus sentimentos) conseguia ajudá-lo. De garoto promissor, que se dava bem na escola e era rodeado por amigos, para um jovem suicida, que buscava alguém para aceitá-lo e amá-lo. Leia também: A alma nua de Ana Carol A revolução artística de Paula Gaitán Desalinhando Virginia Woolf: a escritora silenciosa Kurt Donald Cobain era um menino promissor, gostava de artes, conversava com todo mundo e se expressava muito bem. No livro de Charles Cross, sua irmã Kimberly diz: "Mesmo quando era um garotinho, ele se sentava e tocava alguma coisa que ouvirá do rádio. Conseguia se expressar artisticamente no papel ou em música tudo que imaginava". Veio de uma família que o esperava muito e que o amava demais. Assim que nasceu, tornou-se o protagonista da família que vivia em Washington. O pequeno Kurt descobriu o mundo da arte ainda pequeno e foi incentivado pela sua avó, que o ajudava nas pinturas e na escrita. Aos dois anos de idade, descobriu o rádio e ficou encantado com as músicas que tocavam - foi assim, que começou a demonstrar interesse pela música. Na escola, era conhecido pelos professores como um aluno precoce e perguntador. Aos três anos, conhece Kimberly, sua pequena irmã. Por um bom tempo, o menino de olhos azuis só queria ficar ao lado da caçula, protegê-la de qualquer perigo, como mostra a biografia que Ross escreveu do artista: "Quando Kimberly foi trazida do hospital para casa, Kurt insistia em carregá-la para dentro de casa. Ele a amava muito". Esse amor avassalador marcou a personalidade do artista que o acompanharia pelo resto de sua vida - ele era sensível às necessidades e sofrimentos dos outros, principalmente aqueles que faziam parte de sua família. Em diversas entrevistas, Kurt dizia que teve uma família até os nove anos de idade, depois essa família que ele amava tanto, acabou. O fim trágico, onde os pais começaram a brigar, se separam e não dão suporte necessário aos filhos, marca Kurt. Ele internalizou o divórcio dos pais, como muitas crianças fazem, e acreditou que era sua culpa. Além disso, os pais idealizavam um futuro para Kurt, onde ele se desse bem e que agradaria a todos - talvez, sabendo que não seria como eles desejavam, Kurt procurava a aprovação deles por outros meios. Don, seu pai, era exigente com os filhos e queria que o primogênito agisse como um homenzinho, ou seja, que não se expresse e que troque a arte pelos esportes. Quando aprontava, o menino apanhava e isso tornava-se um terror psicológico para ele. No fundo, Don queria ter uma relação de pai-filho que nunca teve com o seu pai, Leland. Além disso, seus pais eram zombeteiros e irônicos quando queriam. "Foi traumático para Kurt ver tudo em que ele confiava - sua segurança, sua família e seu próprio sustento - desfazer-se diante dos seus olhos”, escreve o biógrafo. No mesmo mês da separação, o pequeno escreveu na parede do seu quarto: “Odeio mamãe, odeio papai. Papai odeia mamãe, mamãe odeia papai. Isto apenas faz você querer ficar muito triste". É a partir daí que Kurt começa a se quebrar e construir uma personalidade destruidora. Segundo o estudo da Universidade de Illinois, publicado no periódico Personality and Social Psychology Bulletin em 2016, filhos que passam pela experiência do divórcio dos pais quando são novos tendem a ter um relacionamento instável com os pais na vida adulta. Além disso, a separação impacta no emocional da criança, fazendo com que ela tenha perda de controle, tristeza, desilusão com os pais, receio que os mais velhos os deixem de amar, agressividade, auto-culpabilização e perturbações psicossomáticas. Era isso e muito mais que Kurt sentia. Não preciso ir muito longe para dizer que o crescimento, a adolescência, de Cobain foi complicada. Morou com a mãe, depois foi morar com o pai em um trailer; brigou com os pais quando os mesmos encontraram novos companheiros (aqui, me pergunto se no inconsciente dele, sonhava que os pais voltariam a ficar juntos); conheceu a maconha cedo e se isolou na música, ao lado de sua primeira guitarra. "Quando eu crescer, quero ser bicha, negro, cadela, puta, judeu, chicano, chucrute, carcamano, maricas, hippie branquelo, ganancioso, acumulador, saudável, suado, peludo, másculo, new waver excêntrico, direitista, esquerdista, milico condecorado, cagão, campeão, estúpido, físico nuclear, conselheiro do AA, psiquiatra, jornalista, punho fedido, romancista, gay, preto, aleijado, drogado, HIV positivo, hermafrodita, filhote de golfinho, obeso, anoréxico, rei, rainha, agiota, corretor de ações, maconheiro, jornalista (tudo é enfado, menos é mais. Deus é gay, fisgar uma presa), jornalista de rock, zangado, rabugento, de meia-idade, amargo, pequeno, magricelo, dogmático, velho, agente contratador e editor de um fanzine que extrai o pequeno percentual até do menos percentual. Mantê-los divididos, formar guetos, unidos ficaremos, não respeitar as sensibilidades dos outros. Mate-se mate-se mate mate mate mate mate mate estupro estupro estupro estupro estupro estupro é bom, estupro é bom, estudo mate estupro ganância ganância bom ganância bom estupro sim mate" Já no último álbum do Nirvana, "In Utero" (1993), há uma música intitulada "Serve The Servants", onde Kurt diz que não odeia mais o pai: "As my bones grew they did hurt / They hurt really bad / I tried hard to have a father / But instead I had a dad / I just want you to know that I / Don’t hate you anymore / No, there is nothing I could say / That I haven’t thought before". É interessante perceber que mesmo na fase adulta, aos 26 anos, Kurt continuava procurando alguém que o aceitasse e cuidasse dele, como fazia seus pais quando era pequeno. "Amigos com quem eu possa conversar, sair e me divertir, tal como eu sempre sonhei, poderíamos conversar sobre livros e política e poderíamos fazer vandalismo à noite, que tal? Hein? Ei, eu não consigo deixar de arrancar os cabelos! Por favor! Porra, Jesus Cristo todo-foderoso, ame a mim, a mim, a mim, podemos continuar a título de experiências, por favor eu não me importo se fora-da-multidão, eu só preciso de uma plateia, uma gangue, uma razão para sorrir. Eu não o sufocarei, ah merda, merda, por favor há alguém aí? Alguém, qualquer um, Deus me ajude, ajude-me por favor. Eu quero ser aceito. Preciso ser aceito, usarei qualquer tipo de roupa que você quiser! Estou tão cansado de chorar e chorar, estou muito, muuuuuuuito só. Não há ninguém aí? Por favor, ajude-me. AJUDE-ME!" Cobain descobriu a heroína cedo e começou a injetar antes de ter sua filha, Frances, em 1992. Em uma entrevista à Rolling Stone, ele fala sobre: "Tenho uma dor crônica incurável no estômago, e durante cinco anos quis me suicidar todos os dias. Estive a ponto de fazê-lo várias vezes. Chegou um ponto em que eu estava numa turnê, jogado no chão, vomitando ar porque não conseguia nem ingerir água. Saía para cantar e depois vomitava sangue. Isso não era vida, então decidi me automedicar". O seu medicamento era a droga, a heroína. Chama a atenção essa doença no estômago, que nenhum médico conseguia encontrar um diagnóstico. Talvez, tenha sido consequência de sua infância, em agradar seus pais para, no fim, terminarem. Talvez, seja consequência da não-aceitação da sociedade para um menino quebrado que procurava uma salvação. A sua autodestruição tem motivos. Mesmo casado e tendo uma filha linda, Kurt não suportou. Em sua carta de suicídio, Cobain confessou que não queria mais tocar, que não tinha entusiasmo pela música. Morreu sem entender que estava doente, com uma depressão nunca diagnosticada e tratada. Morreu com o peso nas costas de ser a voz da geração "perdida", aquela que os pais e a sociedade destroem os jovens lentamente. Infelizmente, foi assim que Cobain, um artista, para que muitas pessoas compreendessem o peso do passado e da depressão. Se você está passando por um momento difícil, entre em contato com o Centro de Valorização da Vida (CVV) através do número 188 - a instituição realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, sob total sigilo por telefone, e-mail e chat. Disponível 24h todos os dias.

A alma nua de Ana Carol

Em uma sociedade cercada de julgamentos, Ana Carol ignora o que é aceito e se expõe, sem medo, a sua verdadeira faceta. Ao descobrir a arte, ainda na primeira infância, a multiartista se reconecta com a dança e a interpretação e entrega o melhor de si em "Alma Nua", seu primeiro álbum que foi lançado esse mês. Sua nova obra é uma composição do que Ana já fez nesse mundo: do ballet clássico quando criança, à faculdade de psicologia em Porto Alegre e aos musicais que realizou no Rio de Janeiro. Quando pergunto se existe um motivo da demora do seu álbum, ela responde, me fazendo relembrar o ditado "quem tem pressa, come cru": "Foi proposital não ter pressa, eu queria fazer uma coisa que fosse um reflexo daquilo que eu sou, daquilo que eu quero dizer, de como eu queria me apresentar. Eu não tinha um compromisso de agradar alguém, apenas a minha necessidade de realizar esse sonho". Composto por duas faixas autorais e regravações de artistas que a inspiraram, o novo projeto é um grito e respiro para os dias sombrios que continuamos passando. Ao dar uma nova versão de "Bicho Burro", da banda Dônica, por exemplo, a cantora traduz o grito de todos os brasileiros com a crise política/sanitária que o país está passando. O mesmo grito está em "O Tempo Não Para", de Cazuza. Ana, eu queria começar a falar com você sobre o seu início. Você é uma artista multimídia: atriz, cantora, compositora, bailarina… Eu queria saber como a arte entrou em sua vida. Desde que me conheço por gente, a arte tá ali em minha vida. Eu sempre tive impulso para essa direção artística - desde muito pequenininha. Eu era uma criança que vivia fazendo performance em casa, desde os dois anos. Eu amava isso e desde pequena eu demonstrava isso, tem um monte de fotos e vídeos também da minha infância… E é nítido como muito pequenininha eu tinha esse direcionamento é muito presente. Eu gostava de cantar, dançar, atuar. Minhas brincadeiras giravam em torno disso e depois vieram os teatrinhos com os primos - e a gente vivia fazendo teatro em todos os encontros de família. Jura? Então, assim, a arte entrou na minha vida desde que eu percebi que existia essa forma de expressão: que era possível me expressar através de outros caminhos e não só aqueles usuais do dia a dia das pessoas. Eu, muito rapidamente, me identifiquei com essas formas de expressão - prefiro me expressar por esses caminhos do que por outros. Eu prefiro cantar, escrever, prefiro fazer uma peça de teatro para dizer alguma coisa do que falar de outras formas. Então, eu percebo que a arte pra mim, na minha vida, desde que eu me entendo por gente. Claro, também tive um incentivo. Meu pai sempre teve uma coleção de discos imensa, então eu tive muito contato com todo o tipo de música que você imagina, desde muito pequena. Meu tio, um dos meus tios, por parte de mãe, é um grande apaixonado por música e também tem uma coleção gigante de discos. Então, na casa dele, onde eu frequentava muito, eu também tive muito contato com música do mundo inteiro, estilos musicais diversos - muito jazz, MPB, muito samba… Foram as minhas principais influências nesse começo de vida. Logo em seguida, eu comecei a dançar, ainda pequenininha. Com oito anos, eu já fazia ballet clássico e já me destaquei e já entrei para um grupo que competia, fui para festivais, ganhei prêmio e depois, comecei a me interessar pelo teatro; saí da dança, já mais pré-adolescente… Um pouquinho antes disso, ali nos 11 ou 12 anos, eu comecei a entender que eu tinha como fazer coisas… Que eu tinha uma consciência da minha voz, que eu podia fazer coisas com a minha voz - não só cantarolando, que meu cantar não era só um cantarolar, sem compromisso. Então, ali com 11 ou 12 anos, eu comecei a ter prazer em explorar a voz, de outra maneira, mais consciente mesmo, percebendo que eu podia mandar ela para cá, para lá, fazer aquilo… Então, ali eu comecei a querer explorar mais o universo da música e nessa época eu também já escrevia poesias… Enfim, tudo aconteceu meio junto, sabe. Mas eu só fui partir para viver disso aos 22 anos, depois que eu terminei a minha faculdade de psicologia lá em Porto Alegre. Eu percebi que eu precisava dar essa virada na minha vida…. A arte, pra mim, não ia bastar, ficar numa coisa meio paralela, eu precisava viver daquilo. Aí quando eu terminei a minha faculdade eu pensei "se não for agora, talvez eu nunca mais faça essa tentativa". Aí eu saí de Porto Alegre e fui para o Rio de Janeiro e aí sim tudo começou a mudar. Eu quero saber se suas vivências como bailarina e atriz também te ajudaram a se descobrir e também "aceitar" você como cantora? Com certeza! O fato de ter começado a dançar muito cedo e ter tido essa vivência meio que profissional na dança, me fez enxergar sim a possibilidade de trabalhar no universo artístico, mesmo com esse cenário social que me dizia que a arte tinha que ser um hobbie, digamos assim, eu consegui dentro da minha experiência com a dança que aquilo era um trabalho sim. Acho que aquela sementinha de que no futuro eu poderia ser uma artista profissional foi plantada com a dança, sem dúvida. Eu tinha essa disciplina… Eu tinha uma relação profissional com a dança e ali eu entendi uma rotina trabalhar como artista e percebi quanto o trabalho do artista é muito mais esse trabalho árduo de todo dia, muito mais do que as pessoas imaginam, do que o resultado que as pessoas veem. O artista, mais do que as outras áreas, talvez, as pessoas tem essa relação de que o trabalho do artista é aquilo que estão vendo e não, o trabalho do artista é tudo aquilo que acontece antes do que a pessoa consegue ver. Leia também: A revolução artística de Paula Gaitán Numezu: o terror de Jorge Alexandre Moreira que conquistou o público As pedras de Morris Ana Carol renasceu após tornar-se mãe. As prioridades mudaram, assim como o seu olhar. O mundo que parecia caótico, sem jeito, agora tem esperanças: Francisco, o mais velho, e o pequeno Antonio. Inclusive, os pequenos participaram da gravação do álbum, deixando tudo mais lindo, do jeito que Ana sempre sonhou: "Estávamos todos juntos ali, eu grávida de Antonio durante as gravações e Francisco, meu filho mais velho, no chocalho de "Janela", backing vocal de "Mas Que Nada"", lembra. A alma da artista está nua: conhecemos seus amores e como ela se derrete por eles. Seu companheiro, André Moraes, cineasta, músico, compositor e responsável pela trilha sonora do filme "Lisbela e o Prisioneiro" (Guel Arraes, 2003), também esteve presente no álbum e foi encarregado por criar a pluralidade dos arranjos que embalam as faixas do disco. Produzido pelo gênio Moogie Canazio, nome por trás de lançamentos de Maria Bethânia, Caetano Veloso e João Gilberto, "Alma Nua" foi gravado em Los Angeles (EUA) e mistura gêneros musicais, conquistando qualquer um que ouve. No entanto, Moogie vai além da produção: foi ele que deu força para Ana Carol se conhecer como compositora. "Alma Nua" tem duas faixas autorais suas e o restante é composto por regravações de outras obras. Esse processo rolou naturalmente? Qual foi o critério para escolher as canções? Esse disco nasce de um processo meu de empoderamento muito forte, embora essa palavra esteja sendo usada por todo mundo… Mas é real e não tem outra palavra para usar. Foi um processo de empoderamento que a maternidade me trouxe e o disco é um fruto desse processo. O fato de um projeto nascer é fruto de um processo de empoderamento. O disco que você ouve hoje é também fruto de um processo de empoderamento dentro do próprio projeto, porque era o meu primeiro disco. Depois de muitos anos distante daquele meu projeto inicial, onde eu mesma já não sabia mais se eu era capaz de fazer o disco. Daquele momento que a gente decide fazer o projeto, eu também passei por um processo de empoderamento de reencontrar essa Ana Carol lá de trás, de reencontrar essa pessoa que sempre esteve conectada com a sua música, desde muito pequenininha, e que podia realizar isso, que podia sim compor músicas e era uma coisa que eu achava que eu não pudesse fazer - embora eu tenha muitos poemas que hoje, a gente percebe que dá para musicar, inclusive, e é um trabalho que a gente tá fazendo agora. Eu achava que eu não podia compor se eu não tocasse nenhum instrumento para caramba. No processo do disco, a primeira coisa que destravou, que foi o pontapé inicial, de fazer o disco acontecer, foi destravar a compositora. O Moogie [produtor do álbum] disse que eu tinha condições de compor, que o que eu escrevia tinha muita musicalidade. Quando ele me deixou tão confiante em uma conversa que tivemos em Los Angeles, eu fiquei pensando… Quando eu pisei no Brasil, de volta, finalzinho de 2017, num dos primeiros dias que a gente estava em casa, me veio "Alma Nua" - letra e música de uma vez só, que eu compus para o meu filho mais velho, inspirada na imagem do último dia que amamentei ele e também em todo o processo que amamentar despertou em mim. Veio como uma enxurrada! Eu larguei tudo que eu tava fazendo - eu tava arrumando uma bagunça dentro da minha casa e me veio a música, parei tudo, peguei um pedaço de papel, uma caneta, fui para o chão que era o único lugar que tinha espaço (sabe aquela revolução que a gente faz no quarto? Tava um caos, não tinha lugar para sentar) [risos] e fui escrever a música. Quando eu terminei de escrever a letra, eu já gravei no meu celular, já cantarolei, e já fui correndo para a sala para mostrar para o André [risos]. Ele adorou e eu já mandei para o Moogie e ele também adorou e aí a gente começou a refletir se a gente fazia um disco totalmente autoral ou se fazia um misto das coisas… E eu senti uma necessidade muito grande de homenagear alguns artistas que fizeram parte da minha caminhada, que são influências fortes pra mim, que sem eles eu não estaria fazendo esse disco. Do mesmo jeito que eu tenho vontade de fazer um disco autoral - e pretendo fazer, talvez o segundo -, eu queria muito que o público ouvisse ou quando eu ouvisse esse projeto pronto, eu visse ali essa jornada toda até o disco. O título do álbum também me surpreende porque dá a entender que você se desinibiu de tudo para mostrar quem você é. Eu queria saber como foi esse processo de se desnudar, porque não é fácil, se foi doloroso, se foi fácil... "Alma Nua", a música, surgiu com esse desnudar-se que a maternidade propõe e é inevitável. Não dá para fingir ou fugir de nada na maternidade, porque somos mães 24h por dia e seremos assim até o resto de nossas vidas. Eu entendi essa nudez interna que existia naquela vivência e que veio para dentro da música... Quando eu fiz a música, eu entendi que esse disco tinha que ser isso; que esse disco tinha que ser eu de alma nua. O álbum veio desse processo: de me apropriar de mim mesma e não ter vergonha e nem medo de me apresentar para o mundo da maneira que eu sou. Quando você diz "tirar essas fraquezas para dizer isso", acho que é justamente o oposto: é integrar as minhas fraquezas para que eu possa me mostrar com elas. As fraquezas, dificuldades, os desafios, todos estão aqui. Eu sigo sendo uma mulher deixa de complexidades. Esse processo do disco foi justamente entender que é tudo isso que faz com que eu seja uma pessoa única nesse mundo, como todos nós somos. Se eu não me apresentasse justamente assim para as pessoas, eu nunca fosse, talvez, fazer aquilo que eu sempre tive vontade de fazer. Acho que foi muito mais um processo de me despir da preocupação com o que o outro vai pensar, de me despir do julgamento, tanto do outro quanto meu próprio, do que me desfazer de qualquer dificuldade que tenho. As dificuldades seguem comigo e eu acho que são elas que tornam esse trabalho único, meu, com a minha cara e do jeito que eu acredito que ele tinha que ser. Não é fácil esse processo, mas é bonito e é gostoso. A gente vai se sentido cada vez mais fortalecido. Entendi que tudo que aquilo que eu tava aprendendo como mãe, de bancar as minhas decisões, mesmo que fossem pouco lógica para outras pessoas... Esses desconfortos são bonitos, vai gerando muito crescimento. Eu acho que aprendi a me expressar dentro dos desconfortos, me apropriar do que acontece dentro dos desconfortos e usar isso ao meu favor. Agora, falando das melodias do seu álbum. Eu adorei a sua versão para a música da Dônica. O que me surpreendeu no disco foi a alteração da melodia: leve e depois surge a guitarra e a bateria. Isso foi pensado ou foi durante o processo que surgiu? Foi totalmente pensado. Eu queria muito, era uma dos meus briefings, vamos dizer assim, [risos] que tivesse essa multiplicidade, essa diversidade, esses contrates dos discos. Tudo dentro do disco, absolutamente tudo, é uma escolha e uma forma de dizer um pouco de tudo que encontrei nesse processo que vim te relatando. E nesse processo, eu não sou como mulher uma só, eu sou muitas! Eu sou a Ana Carol mãe, a Ana Carol atriz, a Ana Carol escritora, a Ana Carol filha, a Ana Carol esposa - e todas essas meninas estão dentro de mim, estão aqui. E quando eu digo "eu" eu me coloco também nesse coletivo de mulheres, eu sinto que todas as mulheres tem isso em algum nível e eu queria que esse disco trouxesse essa possibilidade das mulheres serem tudo que elas podem e querem ser. A gente não precisa ficar dentro de uma caixinha, ser aquilo que esperam da gente. Uma das maiores lições que a maternidade me trouxe foi justamente essa: durante muito tempo em minha vida e eu acho que em muitas pessoas, a gente passa reprimindo alguns sentimentos. A maternidade traz tudo isso para fora e faz a gente integrar os sentimentos, porque é impossível criar uma criança sem entrar em contato com tudo isso. Criar os meus filhos me fez entender o quanto sentir é natural. Nesse disco, eu queria que trouxesse essa percepção de que os sentimentos estão aí para serem sentidos e eles estão todos dentro da gente. No começo do papo, você falou que escreve muitas poesias e agora estão sendo musicadas. Queria saber como tá sendo o seu processo de escrita, ele foi alterado de alguma forma com tudo que está acontecendo? Foi bastante alterado na notícia, mas não foi sentido de produção. Eu sou uma pessoa que tá fazendo uma coisa e tá tendo outras ideias. Eu não parei de criar e criei mais do que imaginava nesse período caótico. Caótico de ruim mesmo, porque é um cansaço mental, físico e espiritual e eu achei que algum momento poderia dar um créc, mas não... Eu consegui criar, de uma maneira diferente, teve que ter muita resiliência, muito acolhimento de si para ser menos exigente. Eu tenho muita dificuldade de não exigir tanto de mim e às vezes isso me paralisa, mas o isolamento me obrigou a não ter tanto esse controle e que tá tudo bem fazer aquilo que é possível. Um poema que passaria por quatro ou cinco tratamentos antes de ser publicado, não passou, e eu não posso ficar esperando aparecer outro momento para mudar. Eu quero falar aquilo naquele momento. Você finalizou um álbum no meio de uma pandemia. Você já pensa em como colocá-lo no palco, em um futuro pós-vacina? A gente tem pensado sobre isso, mas não temos um formato totalmente fechado, até porque a gente, possivelmente, vai ter que adaptar qualquer desejo nosso. Tinha algumas coisas que a gente já tinha imaginado para show e outras coisas, mas agora nós estamos em um processo de como colocar isso no mundo digital. Não quero que seja algo só para fazer, sem nada de diferente e que esteja falando com o disco - esse é o nosso desafio de encontrar uma experiência para o público que seja interessante e que tenha uma quebra de paradigmas no meio desse mundo digital. Agora, eu nem quero muito pensar nesse presencial porque é mais fonte de frustração [risos]. "Alma Nua" está disponível em todas as plataformas musicais e pronto para dialogar, desconstruir muros, apresentar um novo horizonte ao público.

Numezu: o terror de Jorge Alexandre Moreira que conquistou o público

"Uma história que envolve, contada por uma voz autêntica", comenta Oscar Nestarez, pesquisador e escritor, sobre "Numezu", o último lançamento de Jorge Alexandre Moreira. As críticas ao livro de terror, vencedor do Prêmio ABERST 2020 e um dos 10 finalistas do Jabuti na categoria "Romance e Entretenimento" (único terror da lista!) não param e conquistam até aqueles que não gostam de terror. Nos últimos anos, o suspense e terror ganharam espaço na literatura e na televisão. Por aqui, autores brasileiros foram (re)descobertos e estão sendo premiados - como é o caso de Jorge. Segundo ele, tanto o prêmio da ABERST quanto constar na lista de finalistas do Jabuti, ajuda a abrir portas para um gênero que ainda é considerado, de certa forma, marginalizado. "A voz da literatura de terror está sendo ouvida e nós temos muito a dizer", explica. Jorge aprendeu a ler muito cedo com a ajuda de sua mãe. A partir daí, desenvolveu amor pelas palavras, tornando-se um leitor voraz. Em 2003, lançou seu primeiro livro, "Escuridão", de forma independente, que foi considerado por diversos sites como um dos melhores livros do gênero já publicados no Brasil. Mais tarde, lançou "Parada Rápida" e "Altitude de Cruzeiro". Leia também: O suspense de Larissa Brasil Marcelo Cabral e o mundo pós-apocalíptico A revolução artística de Paula Gaitán Como a literatura surgiu em sua vida? Inclusive, como e quando você começou a escrever literatura? Aprendi a ler muito cedo, com minha mãe, em casa. Tínhamos uma situação econômica bastante complicada, mas ela fazia o possível para comprar os livros que eu pedia. Além disso, eu frequentava várias bibliotecas. Então, lia muito, uma coisa absurda. Então, como leitor, desde que me lembro, a literatura estava lá. E eu rabiscava algumas coisas, tentei histórias em quadrinhos, pois gostava de desenhar. Até que aos 12 anos comecei a escrever contos de terror. Nunca mais parei. Suas inspirações vão do terror de Stephen King ao realismo social de Jorge Amado. Como esses autores impactaram sua formação de leitor e escritor? King, Amado (e dois outros de que sou fã, que você não mencionou, Clive Barker e Rubem Fonseca) têm uma característica que considero fascinante: são profundos conhecedores da alma humana. Todos escrevem sobre horrores essencialmente humanos, mesmo quando, no caso de King e Barker, há uma componente sobrenatural. O que te levou a escrever terror? Escrever terror, assim como ler terror, não foi fruto de uma escolha consciente. Eu fui atraído para o terror, creio, porque era lá que estavam as emoções mais fortes, os mistérios mais profundos, os segredos mais perversos. Você já escreveu diversos livros. Como encontra inspiração para um novo enredo, que prenda o leitor do início ao fim? Aliás, você tem algum processo de criação? Meu processo de criação é caótico e intuitivo. Na verdade, um dos meus objetivos para 2021 é colocar um pouco mais de método no meu caos criativo. Seu primeiro livro, "Escuridão", foi lançado em 2003, época em que o terror nacional era desconhecido. De lá para cá, muita coisa mudou e hoje, o gênero literário é reconhecido e já tem público. Quais foram as mudanças que o gênero literário passou? Logo após esse período de desconhecimento, a que você se referiu, acredito que tenhamos tido um momento em que algumas pessoas se deram conta de que havia brasileiros escrevendo terror e que era possível escrever terror no Brasil. Então, tivemos um segundo momento em que uma quantidade absurda de escritores, nem todos produzindo material de boa qualidade, inundaram o mercado. Esse período coincidiu com a facilidade de publicar de forma independente. Acho que esse período está acabando e que temos alguns nomes se destacando para formar uma literatura de terror forte no Brasil. "Numezu" traz a história de um casal em crise, isolado num barco, que encontra uma antiga estatueta que manipula as fragilidades humanas para conseguir a liberdade. Fantasmas do passado ressurgem, desejos íntimos e disputas de poder invadem a vida do casal. Até que ponto o ser humano suporta o terror? Seu último livro, "Numezu", traz um casal em crise que aposta em uma viagem para resgatar o amor, mas uma força sobrenatural surge, alterando o plano de Laura e Raoul. Como você chegou a esse enredo psicológico? Como foi o processo de escrita da obra? "Numezu" começou como várias de minhas histórias: olho para algo ou alguém e me vem uma pergunta. "E se?". No caso, eu estava olhando o mar do alto de um penhasco e vi um veleiro, distante, em meio ao azul. Era uma cena belíssima, mas a pergunta que me veio foi se não poderia lá haver alguém em apuros, lá, naquele momento, naquele lugar maravilhoso. O processo de escrita pediu a maior quantidade de pesquisa que já fiz para um livro em minha vida. Eu não sabia nada sobre barcos, então tive que pesquisar muito. Foi um livro bom de escrever, apesar disso. E coloquei muita alma nele. "Numezu" foi um grande sucesso, ganhando o prêmio ABERST 2020 e finalista do prêmio Jabuti, na área de Romance e Entretenimento, único terror da lista. Como foi ter essas conquistas? Além de já ter um público, acredita que com o prêmio e a indicação, o terror deva crescer no futuro? Tenho certeza disso. Temos alguns nomes fortes ganhando a atenção do público, como Marcio Benjamim, Cesar Bravo, Oscar Nestarez. Acho que teremos muita coisa boa no futuro. “É a primeira vez que um livro de terror é finalista do Jabuti. Isso reflete uma valorização da literatura de entretenimento, inclusive, com a criação dessa categoria no prêmio. É maravilhoso estar entre os finalistas e ver a literatura de entretenimento, particularmente, a de terror, que sempre foi tão marginalizada e que, ao mesmo tempo, é apreciada por tanta gente no Brasil e no mundo, começando a ter seu justo lugar reconhecido” Falando sobre futuro, como você vê o futuro do mercado literário do Brasil? Acredita que pode melhorar? Pode melhorar muito. O brasileiro precisa voltar a ler ficção. O brasileiro que lê, hoje em dia, lê majoritariamente livros técnicos, autoajuda e biografias. A ficção pode ser maravilhosa. Ela é um entretenimento que transmuta o espírito. Além disso, o leitor brasileiro precisa dar valor ao trabalho do escritor e parar de ler livros piratas em pdf. Além de haver e-books baratíssimos, muita gente lê livros piratas não por não ter condições, mas porque prefere gastar seu dinheiro com outras coisas. Essa mentalidade tem que acabar ou, pelo menos, diminuir. Quais os livros que você indica para iniciar leitura no terror? Algumas sugestões, dependendo do estilo do leitor, seriam O Iluminado e Salem’s Lot, de Stephen King. Hellraiser, de Clive Barker. E embora seja conhecido de muita gente, mesmo que apenas por filme, O Exorcista, de William Peter Blatty. Para finalizar, quais são os seus planos para esse ano? Escrever mais e de forma sadia. No ano passado, cuidei muito de minhas redes sociais e de divulgação. É algo inevitável em nossos dias, mas, no meu caso, consome uma quantidade absurda de tempo e de energia mental. Quero dedicar-me a produzir, pois há uma fila interminável de projetos na minha cabeça. Para conhecer o autor e seus livros, acesse seu site oficial: https://www.jorgealexandremoreira.com.br/

Desalinhando Pepeu Gomes: o guitarrista revolucionário

Pedro Aníbal de Oliveira Gomes é o seu nome completo, mas foi com o apelido, Pepeu Gomes, que o músico ficou conhecido pelo Brasil. Guitarrista, compositor, cantor e produtor, Pepeu descobriu a música na infância. Inclusive, aprendeu a tocar violão de ouvido. Quando tinha 11 anos, influenciado pela Jovem Guarda, Pepeu Gomes formou sua primeira banda, "Los Gatos" tocando contrabaixo. Pepeu se dedicou ao baixo até ter contato com a coletânea "Smash Hits" de Jimi Hendrix. A partir desse momento, o músico troca o baixo pela guitarra e começa a buscar o seu ritmo. Em 1969, já como guitarrista, surge os Novos Baianos. Ao lado de Moraes Moreira, Luiz Galvão, Paulinho Boca de Cantor e Baby do Brasil, a banda se apresentou pela primeira vez no Teatro Vila Velha, em Salvador, com o espetáculo "O Desembarque dos Bichos Depois do Delírio Universal". No ano seguinte, os Novos Baianos lançaram o primeiro long play, "É Ferro na Boneca", canção que carrega uma mistura de gêneros. Foi só em 1972 que a banda recebeu a devida atenção. "Acabou Chorare" é lançado, álbum que teve como mentor João Gilberto. Aqui, a banda encontra seu ritmo e Pepeu Gomes se dedica para outros instrumentos - o bandolim que recebeu de presente de Paulinho da Viola é um deles. Os solos de guitarra chamam atenção, mas quando o cavaquinho recebia atenção, descobrimos um novo Brasil, aquele que aceita tudo e cria uma grande mistura. Pepeu também tocou craviola no disco, mostrando a revolução que faria na música brasileira. Moraes Moreira explicou o nascimento do álbum em uma entrevista: "Estávamos influenciados pelo rock, ouvíamos muito Jimi Hendrix, Janis Joplin, as bandas dos anos 70. Mas foi ali, com o João Gilberto, que a gente acordou para o samba. Quando ele nos mostrou "Brasil Pandeiro" do Assis Valente ["chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar o seu valor"], entendemos qual era a mensagem dele. Começamos a incorporar no nosso som o cavaquinho, o pandeiro, sem perder a pegada do rock. Era samba com energia de rock". A banda chegou ao fim em 1979 e foi nesse momento que Pepeu Gomes, já consagrado como um dos melhores músicos brasileiros, resolveu seguir carreira solo. Leia também: A revolução artística de Paula Gaitán Desalinhando Luiz Melodia: a pérola negra do Brasil Marcela Brandão e sua nova música popular brasileira "Geração de Som" (1978) inicia sua carreira solo. Pepeu Gomes continua misturando diversos gêneros musicais com sua guitarra elétrica - a primeira vez que ouvimos o álbum, é possível identificar o pagode, funk carioca e o frevo que ganham destaque nas mãos do mestre. Com a criatividade em alta, descobrimos um Pepeu maduro e pronto para inovar mais ainda, se possível, a música. Autodidata em instrumentos de corda, Pepeu Gomes busca aproximar o bandolim da guitarra, entregando um som rítmico que lembra o samba, gênero musical que foi apresentado pelo mestre João Gilberto. Desde então, ao descobrir que é possível misturar diversos ritmos, nunca mais parou. O músico continua impactando ao tocar sua guitarra, mostrando que não tem medo de inovar. Em 1985, o músico foi convidado para tocar no Rock in Rio, no mesmo dia em que o Whitesnake tocou. O público estava hostil, mas Pepeu conseguiu acalmar os ânimos assim que começou a dedilhar as cordas de sua guitarra. Assim que finalizou seu show, foi ovacionado e (re)consagrado. Três anos depois, o músico foi considerado um dos melhores guitarristas do mundo pela revista Guitar World. Pepeu Gomes ainda tem muito a nos ensinar. Com sua alma jovem, ele continua conquistando novos fãs e aplausos por onde passa.

A revolução artística de Paula Gaitán

"Um prazer falar contigo, Michele. Vamos conversar!", Paula Gaitán me responde logo depois que me apresento. Conversamos por quase duas horas pelo telefone. Poderia dizer que foi uma entrevista, mas me lembrou uma sessão de terapia, com arte. De repente, me sinto perto dela, como se já tivéssemos nos encontrado. Paula é cineasta, roteirista, produtora, escritora, poeta, artista multimídia. A beleza a move, construindo obras em que o telespectador se vê. Ela me lembra a essência do cineasta russo, Andrei Tarkovsky. Em "Esculpir o Tempo" (Martins Fontes, 2010), Tarkovsky explica o porquê de fazer cinema e o que o motiva a trabalhar com a sétima arte: "(...) No que me diz respeito, só admito um cinema que esteja o mais próximo possível da vida - ainda que, em certos momentos, sejamos incapazes de ver o quanto a vida é realmente bela”. Paula segue esse caminho, seu cinema é realista, poético, sensível e forte. Faço uma comparação de sua obra (pensando em "Diário de Sintra" (2007)) com o "Espelho" (1975). Ela ri levemente e gosta. Acho que já somos amigas. Recentemente, foi homenageada na 24° Mostra de Cinema de Tiradentes. Por conta da pandemia, o evento foi online, fazendo com que muitas pessoas conheçam o cinema da diretora (jovens principalmente). Para quem não conhece seu processo, a obra pode causar impacto, talvez desconfortante, pois Paula trabalha com todas as linguagens artísticas. No entanto, cinema é isso: estimular sentimentos em quem assiste. Formada em artes plásticas, a diretora brinca com a arte, indo além das linguagens estipuladas pela sétima arte, entregando um cinema ideal, realístico. Leia também:
Priscilla Rozenbaum e Renata Paschoal: os amores de Domingos Oliveira As pedras de Morris Desalinhando Haruki Murakami: os territórios sombrios de Norwegian Wood Você começou sua carreira em artes plásticas para, em seguida, começar a trabalhar com cinema. Como foi essa transição? Muito obrigada pela pergunta, porque de fato é muito importante essa transição. Ela foi bem fluida, porque eu já comecei dentro das artes visuais a me interessar muito pela imagem em movimento. Primeiro foi com fotografia, pela imagem estática. Fiz alguns trabalhos com fotografia muito jovem e fiz fotogravura, porque dentro do campo das artes visuais a gente fazia todas as técnicas. Desde de escultura, que é relacionado ao cinema… Eu li "Esculpir do Tempo" do Tarkovsky e de fato você mede o cinema quando esculpe. O tempo tem a ver com essa ideia cinética da escultura que é pegar um bloco de granito, uma pedra, para tirar forma. Criando de um material bruto, uma forma. Enfim, fui caminhando para o cinema, muito pela primeira vez que eu trabalhei "Idade da Terra" (1980), do Glauber Rocha. Eu era muito jovem, tinha acabado de sair da Colômbia. Quando a gente trabalha de fato em uma filmagem, em um momento que tá se filmando, ou criando as imagens, isso é uma lição, né, porque muita gente estuda o cinema em faculdade, textos teóricos, mas a prática é fundamental para saber como as coisas vão evoluir dentro da filmagem, como aquilo vai se constituindo. Então, digamos que tive muita sorte, porque eu já estava fazendo instalação, vídeo-arte, bem menina. Daí fui me encaminhando pro cinema já com um filme gigante que é "Cidade da Terra" e a partir disso eu fiquei apaixonada pelo cinema, porque seria uma maneira de juntar todas as artes. Suas obras misturam diversas linguagens artísticas. Esse processo, de brincar, misturar tudo, foi normal? Bom, acho que primeiro foi a imagem, foi a primeira coisa que veio junto foi a compreensão da imagem - como se dá o processo da imagem, o quadro… Quando você estuda artes visuais, você trabalha com composição, com cromatismo, com cor… Se você trabalha com óleo, você trabalha com a pincelada, você trabalha a textura e finalmente, cinema é tudo isso. Cinema é textura, composição, entender como você compõe o quadro; e o cinema tem uma linguagem, uma gramática, no fundo, muito simples. Você tem diversas possibilidades de planos. Você tem as lentes, os movimentos da câmera, você tem a possibilidade de fazer câmera na mão, câmera no tripé… Toda essa linguagem, todo esse alfabeto, essas ferramentas, elas são muito simples; o que é difícil é como você vai articulando e combinando essas diversas coisas - como o alfabeto, formando palavras. É como na música: você tem as notas da música e escreve uma partitura. O cinema se assemelha muito à construção de uma partitura em que você tá pensando diversas variantes. O cinema também é uma linguagem espaço temporal, de tal maneira que isso vai naturalmente. O primeiro, obviamente, vem com a imagem, como criar a partir de elementos simples. O cinema veio com a imagem, depois surge o som. O som começou a entrar no meu trabalho de uma maneira muito impactante a partir do meu primeiro longa "Uaka" (1989), onde foi que me interessei muito na edição do som. Naquela época, tudo se fazia na moviola - imagina o que é cortar som na moviola! São vários rolos, uma loucura! É importante pensar que naquela época tínhamos que ter um conceito sonoro, porque você tinha que especializar. Tudo isso foi acontecendo lentamente. Por que? Porque, na medida que você vai apresentando as dificuldades, você vai criando as possibilidade de resolvê-las. E diante das dificuldades, você vai aprendendo, vai estudando. Diante de todos esses ensinamentos, e acho que na minha idade tô aprendendo muita coisa, você vai entendendo que essa matéria prima é um material bruto que você pode articular de várias maneiras. Aí vem a parte complicada: como criar uma linguagem quando você tem n possibilidades?! Tem gente que usa a ferramenta do roteiro, escreve o roteiro, vai para ilha da edição fazer storyboard. Já o meu trabalho é justamente o contrário: ele parte de uma relação, em primeiro lugar, com as imagens e depois vem o resto. Por exemplo, as locações são tão importantes quanto os atores. Quando um diretor escolhe uma locação que esteja de acordo ao roteiro e que obedeça o espaço que ilustra aquilo que ele escreveu anteriormente. Então, comigo é o contrário, existe o roteiro, talvez sempre exista o roteiro em meus projetos, mas o roteiro é apenas uma base. Quando vou para locação e vejo que um espaço me interessa, aí crio uma sequência específica para essa locação. Isso faz com que as opções pelas quais me decido, sejam muito ditadas justamente por isso. No fundo, estou mais ligada ao real, porque a ficção pressupõe que você reinventa os espaços, enquanto eu parto muito mais de elementos verdadeiros, mesmo que depois pareça fantasmagórico ou poético [risos]. As pessoas veem meu trabalho e falam "seu trabalho é tão poético", mas eu não acho nada poético. Jura? Eu acho que é ao contrário. Poético no sentido que as pessoas interpretam o poético como vindo de uma coisa sublime, elevada, de uma inspiração divina, entendeu? O poético, eu acho, que vem do real. Você olha as ruas, sai e agora olha da janela a rua, você vai encontrar no real essa poética do cotidiano. Meu trabalho se inspira no mundo como é, ele é terreno, não é inventado. Não existe uma falsificação. O que faz o cinema naturalista? Ele cria a impressão da realidade a partir de coisas construídas. Eu nunca trabalhei em estúdio, sempre trabalhei com o mundo que ele é, a natureza como ela é. O meu cinema é muito de externas, para construir, digamos assim, inventar um novo mundo a partir de elementos que são reais. O que me chamou atenção na sua fala de agora, nessa conversa, e também na Mostra foi sua comparação com o escultor, ou seja, você não tem um processo de criação. É através do olhar que você imagina sua obra. Isso. Eu acho que a nossa imaginação é o nosso principal ponto. Você tá trabalhando com esse real, você olha pela janela agora, nesse momento de pandemia, e você olha para aquilo que parece comum e encontrar naquilo que parece comum, do cotidiano, que você já nem observa mais, porque vê todos os dias… A pessoa perde essa noção. Tudo é fantástico! Você tem que aprender, reaprender, cotidianamente, a ver a vida como ela. Ver a pulsão da vida! Isso faz com que tudo seja extraordinário! A maneira como a gente se conecta com o real, que é igual para todos, dependendo da sensibilidade, é uma maneira de se ligar à vida e de entender que aquilo que parece solidão, não é solidão - você está conectado com seres que estão por aí, em tudo. Não é sobre espiritismo, é sobre o nível da arte. Por isso, trabalhar nas aldeias indígenas é tão importante, porque você entende que tudo tem um sentido. Acho que é uma percepção mais ligada a encontrar esse significado da vida no que tá do seu lado, você não precisa percorrer grandes caminhos, atravessar fronteiras porque as respostas estão muito perto. Eu acho que é uma coisa que eu tenho entendido muito bem nesse momento de pandemia que é de extrema solidão. Acho que a gente também cria… Claro, em extrema solidão e dificuldade, acho que a gente tem que se conectar com essa potência que a gente tem de dentro. Se conectar com a vida e não com a morte, porque a morte já tá aí… O artista tem a capacidade de sentir isso que não dá para explicar - ou você sente isso, se conecta com isso e transforma isso em um filme, em uma obra… O importante é ver como você constrói isso. Este ano, na 24° Mostra de Cinema de Tiradentes, conhecemos seu último trabalho, "Ostinado" que acompanha o processo de criação do artista Arrigo Barnabé. Arrigo é referência na música paulistana, com ênfase na vanguarda paulista que o transformou em um poeta sem tom na MPB. Neste documentário, acompanhamos um dia da vida do músico. Lembra "Ulysses" de James Joyce: o protagonista vivendo, dizendo, se expressando e tentando compreender a multidão e suas dúvidas. Arrigo diz que está sempre em processo. Não só ele, nós também. O ápice do filme é quando o cantor debate com a diretora sobre a palavra “escatologia”. Arrigo demora para rebater Paula. Ele para, pensa, se distrai, toca, fica quieto - e é nesse momento em que descobrimos (ou não, talvez) a verdadeira face de Arrigo que foi desarmado pela amiga. "Você ainda acha que a música ainda tem potência?", questiona o músico. Nenhuma resposta é concreta, afinal, estamos todos em processo de criação. "Ostinado" é um filme sobre o processo de criação do Arrigo. O que te levou a fazer um filme sobre o processo do artista? O Arrigo é um músico que todos nós admiramos. A minha geração é muito ligada ao Arrigo. Me lembro quando ele fez o "Clara Crocodilo" (1980) e nossa… Que loucura! [suspira] Aquilo era fantástico! Ele é um artista, um compositor, um inventor muito importante. Eu fiz um filme há cinco anos atrás chamado "Noite" (2014) em que gravei muitos shows no Rio de Janeiro. Eu saía caminhando e ia para os lugares de música eletrônica, jazz, música experimental e gravava os shows. Um desses shows foi do Arrigo, justamente tocando "Clara" com uma nova formação, com um grupo de cantores jovens, depois de vinte anos [do lançamento]. Aí quando eu fui fazer "Luz Nos Trópicos" (2020), eu estava procurando o elenco, pensando, porque é um filme que se passa em vários tempos históricos e tem uma parte que se passa no século XIX e eu pensei no Arrigo! Ele é uma figura muito bonita, muito interessante e o personagem era músico. Então eu fui em um show, depois em outro e o convidei para atuar. Bom, durante a filmagem do filme, a gente conviveu durante um mês e meio em Mato Grosso e em todas as locações - quando a gente passa muito tempo em uma filmagem, nos aproximamos das pessoas. Então, comecei a conversar com o Arrigo sobre cinema, arte, composição… Quando ele acordava de manhã, toda a equipe acordava muito cedo, ele chegava com composições que tinha se inspirado [nas externas do filme, no meio da natureza]. Criamos uma amizade! Então, um dia eu falei: "Arrigo, eu gostaria de fazer um documentário contigo, mas não um documentário tradicional, um recorte". Quando me convidaram para a homenagem da Mostra, eu tinha que oferecer filmes para abrir o festival e eu tinha feito esse pequeno ensaio de muito respeito ao Arrigo. Acho um projeto muito bonito. O que também me chamou atenção no filme, foi ver que você aparecendo, quer dizer, apenas sua voz, para começar a falar com o Arrigo. Vocês debatem a palavra escatologia… Escatologia é o fim do mundo de acordo com a filosofia. Ficou um pouco abstrato porque a gente tava falando de poesia, a gente tava falando de arte, de vários conceitos na arte contemporânea e aí rompemos, começa um debate amistoso. Ele tava rindo de mim! Eu sou assim, sou muito apaixonada, brinco… Eu achei bonito isso. Quando o Francis Vogner e a Lila Foster [curadores da 24° Mostra de Cinema em Tiradentes] me convidaram, esse documentário não estava pronto ainda. Eles me explicaram que o tema [do festival] era sobre os processos de criação e eles queriam um filme sobre isso, de como é o processo. Nesse momento, nós dois estávamos refletindo, cada um tentando entender… E eu achei interessante abrir uma reflexão até jocosa, né. Nunca é para eu dizer que estou com a verdade, pelo contrário, eu quero revelar como seria uma discussão informal entre duas pessoas que se conhecem. Achei interessante porque tem a ideia do improviso - tem um plano que a câmera se desloca junto com ele improvisando e a partir disso o filme se torna improviso. Será que estamos no fim do mundo ou novo mundo? Depende da visão de cada um. Eu sou mais otimista, eu acho que a gente tá em um momento em que novas forças… Eu não tenho esse pensamento pessimista, eu tenho justamente um pensamento de "eterno caminhar, voltar, refazer o caminho e voltar". Procurar essa potência na gente. Eu não tenho essa visão catastrófica, talvez porque eu senti ou pelo o que o Arrigo falou, que tem uma visão mais apocalíptica. Vamos dizer que a visão dele é apocalíptica. Quando vocês estavam gravando, vocês chegaram em um ponto no debate. Agora, depois de editado e compartilhado, o sentido da escatologia mudou para você? Como eu te falei, eu nunca tive essa questão do fim do mundo. Pra mim, revolução, a palavra, tem a ver com a vida. Revolução pra mim é a transformação. O mundo tá em permanente transe, revolução e não é só politicamente - uma coisa precisa morrer para outra acontecer, o próprio ciclo da vida. Eu fiz o clipe da Elza Soares, "A Mulher do Fim do Mundo" (2017) e no título parece essa ideia apocalíptica. O Arrigo estava certo de alguma maneira. Eu fiz o papel antagônico, porque eu vejo uma luz no fim do túnel. Foi só uma conversa. Para instigá-lo, né? Para ir mais a fundo… Sim! Eu achei bonito porque a câmera estava sobre o rosto dele e ele estava me ouvindo. Achei esse plano incrível. Parece que tudo, tudo, que estava passando na imaginação dele foi visto - eu deixei isso visível. Cinema é um jogo, você vai adicionando ou retirando coisas para deixar certo. Eu senti o Arrigo muito cru, mostrando a nudez dele tanto psicologicamente e fisicamente em suas reações. Eu acho bonito isso, porque era uma conversa entre amigos e foi revelado ao público. Cada um pode compreender como quiser e essa parte já me foge das minhas mãos. "Quando eu era pequena, tinha caído em um poço. Quando eu era pequena, eu estava correndo por uma fazenda, em um campo, em um gramado. Minha mãe estava comigo e tinha umas crianças correndo e eu entre elas. Corríamos, corríamos, corríamos, corríamos e tinha um poço antigo - e eu caí dentro do poço! Quando o grupo de crianças passou correndo, minha mãe não me viu e depois de um tempo, descobriram que eu estava no poço." Paula, eu tenho a impressão de que nos seus filmes você tenta compreender o que é o ser humano. Queria saber se você já descobriu o que é o ser humano e se essas transformações que você passou, alterou, de alguma forma, seu ponto de vista. Eu acho que existem dois tipos de memória: a memória que nós temos e a memória com H maiúsculo de história que todos nós carregamos de nossas ancestralidades, cada um tem suas referências. Benjamin diz isso, que a gente carrega essa memória no corpo, então, eu acho que todo mundo tem a capacidade de ter esse lado racional e eu acho que a gente tem que deixar esses fluxos de consciência estejam presentes, que a gente possa deixar a imaginação, a intuição e a sensibilidade estejam presentes nesse cotidiano. Ah, e encontrar o mistério em tudo! Acho que todos os seres humanos são potencialmente artistas, isso é uma coisa que eu tenho entendido muito bem nesses processos, nos filmes, trabalhando com atores naturais, pessoas do local. Em "Luz Nos Trópicos", pessoas da região tornaram-se atores do filme e eu vi… Tentei entender essa relação que eles tem com a natureza, como eles percebem em todas as nuances dos rios, do céu, quando vai chover, quando vai fazer sol… Essa percepção tão aguda, os sentidos todos… É uma coisa que a gente perde muitas vezes porque a gente vai se alienando das coisas importantes. Paula está isolada, em seu cantinho. Ela continua acompanhando a realidade, nesse momento, pela janela. "A vida é bonita" ela me diz em um momento e eu me emociono. É bonita, Paula e difícil, mas bonita. E é com esse olhar, real, amoroso, ingênuo e apaixonado que seu cinema conquista o telespectador. Seus trabalhos estão impregnados de sentimentos, de sua alma. Eryk Rocha, seu filho, também diretor de cinema, conseguiu explicar muito bem o cinema da cineasta durante o debate da Mostra: "Paula nunca repete a mesma fórmula. É como se cada filme fosse o primeiro". Ele está certo - e é por isso que me emociono quando vejo seus novos projetos. Acabamos a entrevista e nos despedimos. Agradeço pelo tempo, pela conversa, pela terapia, por estar criando. Ela ri e me pede para me cuidar (no meio da conversa acabei dizendo que sou asmática, grupo de risco). Me manda um abraço apertado e pede para não desistir. A frase "A vida é bonita" ecoa na minha cabeça. Prometo. Marcamos um café para o futuro, pós-vacina. Desligo o telefone, acho que fiz uma nova amizade.

Para os pequenos: 1° Mini Festival Artístico de Guarapiranga

Entre os dias 5, 6 e 7 de fevereiro acontecerá o 1° Mini Festival Artístico de Guarapiranga. Com o apoio da Lei Aldir Blanc, o festival tem o elemento "Circo" como destaque, reunindo três companhias circenses ao longo do evento. O evento será online, com transmissão pelas plataformas Eventim, Tô Na Mídia, Passeio Kids e Clubinho de Ofertas. O evento acontecerá na Represa de Guarapiranga, ponto conhecido em São Paulo. O local foi escolhido como forma de integrar as belezas naturais, como o famoso pôr do sol da Represa, e os encantos de cada uma das classes artísticas que se apresentará. "O nosso maior objetivo com esse evento é reunir arte, cultura e entretenimento, através de diversas linguagens artísticas, destacando entre elas, o circo, o teatro, a música e a dança, trazendo uma reflexão sobre a consciência ambiental e seu impacto nas grandes cidades, esse inclusive foi o motivo da escolha do local", explica Marlene Querubin, fundadora do Circo Spacial e uma das organizadoras do Festival. Leia também: Impressões: 24° Mostra de Cinema de Tiradentes Projeto Guri abre 18 mil vagas para crianças e adolescentes Brunner: o artista incendiário Programação do 1° Mini Festival Artístico de Guarapiranga Sexta-feira (05/02) 17h Cia do Circo - Rock, Circo e Dança: o melhor da união entre as tradicionais famílias Brad & Ortaney através de um misto entre os clássicos números de circo além de um show musical de rock e pop. Transmissão: Facebook Festival Artístico Guarapiranga | Tô Na Mídia 19h Reapresentação
Transmissão: Youtube Festival Artístico Guarapiranga | Passeio Kids | Clubinho de Ofertas Sábado (06/02)
17h Circo Spacial: toda magia e encantamento desta renomada companhia circense através dos seus figurinos vibrantes, coloridos e futuristas.
Transmissão: Facebook Festival Artístico Guarapiranga | Tô Na Mídia 19h Reapresentação
Transmissão: Youtube Festival Artístico Guarapiranga | Passeio Kids | Clubinho de Ofertas Domingo (07/02)
17h Circo Amarillo e Convidados: Alessandra Brantes e Alexandre Sanctus, intérpretes dos palhaços Rodopin e Cia, além da tradicional Banda Clássica Circense que fará todo repertório.
Transmissão: Facebook Festival Artístico Guarapiranga | Tô Na Mídia 19h Reapresentação
Transmissão: Youtube Festival Artístico Guarapiranga | Passeio Kids | Clubinho de Ofertas

Impressões: 24° Mostra de Cinema de Tiradentes

Após nove dias de programações, a 24° Mostra de Cinema de Tiradentes, maior evento do cinema brasileiro em formação, reflexão, exibição e difusão, terminou. Em formato online pela primeira vez, a Mostra conquistou o coração de muitas pessoas, obtendo mais 550 mil acessos de 92 países. Sob o tema “Vertentes da Criação” proposto pelos curadores Francis Vogner dos Reis e Lila Foster, a Mostra debateu o futuro do cinema, seja ele filmado em externas ou feito em casa, sem orçamento. A criação seguirá a mesma linha? Filmar sem orçamento é possível? Qual o futuro do cinema de gênero? O tema foi (e ainda é) extremamente importante para o momento, afinal, o cinema brasileiro continua passando por diversas dificuldades. No ano passado, o governo Bolsonaro cortou cerca de 43% do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). Agora, com as variantes e o ápice da pandemia, o setor cinematográfico passa por mudanças e está se reinventando. Além de expor 114 filmes, entre longas e curtas-metragens, de 19 estados brasileiros, a Mostra também contou com o 24° Seminário do Cinema Brasileiro que contou com a participação de 112 profissionais para os 24 debates e rodas de conversa; e o Programa de Formação Audiovisual que ofereceu 10 oficinas e certificou 225 alunos. Para melhorar, a Mostra também contou com a realização da performance audiovisual, exposição e cinco shows com artistas da cena musical contemporânea. E a homenageada dessa edição foi a cineasta, produtora, escritora, artista multimídia, Paula Gaitán, que apresentou “Ostinado”, recente filme que conta o processo de criação de Arrigo Barnabé. Leia também:
Priscilla Rozenbaum e Renata Paschoal: os amores de Domingos Oliveira As pedras de Morris Documentar Raphael Erichsen: aprendizados sobre a sétima arte A 24° Mostra de Cinema de Tiradentes começou na sexta-feira, com abertura de um filme artístico, onde pequenos artesãos de Tiradentes falavam e mostravam sobre os processos de criação. Chamou atenção do escultor que precisava olhar a pedra para depois dar um formato. Leva tempo para criar uma obra e toda obra carrega uma história. Como disse um dos artesãos: “Ao comprar uma peça, a pessoa está comprando uma história”. Em seguida, foi a vez de apresentar o trabalho de Paula Gaitán, para, depois, iniciar o “Debate Inaugural - Percurso de Paula Gaitán”, mediado por Francis e com convidados que (con)vivem com Paula por muito tempo: Arrigo Barnabé, Ava Rocha, Clara Choveaux e Eryk Rocha. A artista iniciou com uma frase que mostra o motivo de fazer cinema: “Acho importante entender quem somos”. O cinema de Paula é forte, cheio de emoções, resultado de trazer a realidade aos seus filmes. Talvez nunca saibamos o que é o ser humano, qual o seu papel nesse mundo, mas Paula faz com que o telespectador se veja em seus filmes. As angústias, saudades, amores e dúvidas de seus personagens são as mesmas que nós temos. Como disse Eryk: “A vida e a criação se misturam”. Somos uma criação imperfeita. Os debates da Mostra foram importantes para a reflexão do cinema brasileiro. Destaco “A Poética do Cinema de Gênero”, mediado por Marcelo Miranda, crítico de cinema. Para compor a discussão, estavam presentes Armando Fonseca (Skull: A Máscara de Anhangá), Kapel Furman (Skull: A Máscara de Anhangá), Marco Arruda (Magnética), Otto Cabral (Animais Na Pista) e Rodrigo Aragão (O Cemitério das Almas Perdidas). Todas as obras estavam na programação da Mostra. O que seria Cinema de Gênero? Talvez nunca tenhamos uma resposta concreta, já que, como trouxe Marcelo, o conceito foi criado nos Estados Unidos para deixar todos os filmes categorizados. Esse cinema busca se comunicar com o imaginário dos espectadores por meio de uma relação franca. Ao buscar atingir os espectadores, esse cinema deseja atingir de maneira frontal. Por outro lado, existem filmes que não se afirmam "de gênero", mas dialogam amplamente com esse repertório. Para Kapel, quando essa arte passa em outros países, as pessoas já reconhecem que a obra é brasileira. Já para Armando, o preconceito que os brasileiros tinham com a própria sétima arte, não é como antigamente, ou seja, a aceitação e o reconhecimento estão acontecendo. Marco apresentou um ponto de vista que talvez defina o cinema de gênero: “O cinema de gênero representa primeiro uma sensação, para depois verificar seu gênero. O diretor coloca tudo que gosta em sua obra”, explica. O Desalinho acompanhou de perto os nove dias de programação e separou os filmes que mais gostou. São eles: Sapatão: Uma Racha/Dura No Sistema (Dévora MC - Experimental - 2020), Se Hace Camino Al Andar (Paula Gaitán - Documentário Experimental - 2021), Todas As Melodias (Marco Abujamra - Documentário - 2020), Diário de Sintra (Paula Gaitán - Documentário - 2007), Primeiro Carnaval (Alan Medina - Ficção - 2020) e Milton Freire: Um Grito Além da História (Victor Abreu - Documentário - 2020). Conheça os vencedores da 24° Mostra de Cinema de Tiradentes Melhor longa-metragem da Mostra Aurora, pelo Júri Oficial: “Açucena, de Isaac Donato Melhor longa-metragem pelo Júri Jovem, da Mostra Olhos Livres, Prêmio Carlos Reichenbach: “Nũhũ yãg mũ yõg hãm: essa terra é nossa!”, de Isael Maxakali, Sueli Maxakali, Carolina Canguçu e Roberto Romero Prêmio Helena Ignez para destaque feminino: Ana Johann, diretora e roteirista de “A Mesma Parte de um Homem” Prêmio Canal Brasil de Curtas: “4 Bilhões de Infinitos”, de Marco Antônio Pereira Melhor curta-metragem da Mostra Foco, pelo Júri Oficial: “Abjetas 288”, de Júlia da Costa e Renata Mourão Empregos e economia Para a realização da 24° Mostra de Cinema de Tiradentes, em ambiente digital, a Universo Produção, responsável pela idealização e realização do evento, montou uma infraestrutura especial na Casa da Mostra. Foram contratadas mais de 100 empresas que atuaram na prestação de serviço para o evento. Estima-se que foram gerados mais de 500 empregos diretos e indiretos. 49 profissionais integraram a equipe de trabalho nas etapas de pré-produção e produção. Viva o cinema!

Priscilla Rozenbaum e Renata Paschoal: os amores de Domingos Oliveira

A tela fica vermelha, uma música, mistura de tango com faroeste, começa a tocar. Algumas frases, em branco, surgem. "Os 8 Magníficos", último filme inédito de Domingo Oliveira, começa. "Eles eram oito. Famosíssimos, interessantíssimos e dispostíssimos a passar o dia juntos conversando sobre sua arte. Assim foi feito, na sala da casa de um deles, que dava para um mar imenso. Este documentário foi feito exclusivamente para quem gosta de atores e se interessa pelo seu processo interno". O filme é composto por um time de peso: Alexandre Nero, Carolina Dieckmann, Eduardo Moscovis, Fernanda Torres, Mateus Solano, Maria Ribeiro, Sophie Charlotte e Wagner Moura. Os oito magníficos, definição do diretor, se reúnem para discutir vida, alma e o papel do ator - três elementos que estão ligados. Sentados, de pé, comendo ou bebendo, os atores conversam, expondo-se ao telespectador, mostrando seu lado mais frágil e raivoso. Maria se emociona ao ler uma poesia e Nero se sente ameaçado por mostrar o seu cru. Priscilla Rozenbaum e Renata Paschoal, dois amores de Domingos, participaram da obra, porém, por trás das câmeras. Priscilla, companheira e musa do diretor, seguiu com Assistência de Direção, ao lado de Matheus Souza. Já Renata, continuou como escudeira de Domingos, como Produtora Associada. A parceria da dupla com Domingos começou há muito tempo, ambas foram personagens de projetos de Oliveira. Inclusive, foi através do sexo feminino, interpretado por elas, que conhecemos a paixão de Domingos pela vida, boemia e a paixão. Domingos Oliveira se foi, como um sopro, em 2019. Como um bom artista, criou até seus últimos dias, deixando algumas obras que Priscilla e Renata devem lançar (e já lançaram algumas!) em um futuro breve. A arte do diretor, escritor, roteirista e poeta continuará ecoando por muito tempo. Leia também: Os 10 melhores filmes assistidos em 2020 Marina Person e Gustavo Moura: a necessidade de falar sobre filmes Documentar Raphael Erichsen: aprendizados sobre a sétima arte De acordo com o dicionário, magnífico significa "aquilo que possui magnificência; que demonstra esplendor; que se expressa de modo grandioso; suntuoso ou rico". Depois de definir o elenco de "Os 8 Magníficos", Domingos disse que os atores que estão no documentário são os melhores da geração. Para vocês, que viveram e trabalharam com Domingos por muito tempo, quais eram as características que ele mais gostava nos oito atores? Suas personalidades e inteligência. Domingos era apaixonado pela vida e foi na arte que encontrou um modo para expressar essa paixão. Seu último trabalho procura entender o significado do ator, foi filmado com apenas duas câmeras e em um dia - diferente de seus outros trabalhos. Como foi participar desse processo? Foi algo diferente do que vocês já fizeram? Qual o impacto que essa obra teve em vocês? Foi tão rápido! Apenas um dia de filmagem e um mês de montagem. Trabalhar era o que deixava Domingos mais feliz e vivo. Acho que não… já estávamos acostumados a trabalhar com amigos, não era trabalho, era diversão. Pena que ele não viu esta estreia. Sentimos muito em lançar o filme sem a presença dele e foi o último. Domingos era um apaixonado pela vida, por pessoas, atores, artistas. Ele estaria feliz! Os atores falam sobre sua arte, debatendo diversas questões, não chegando em uma resposta concreta. Chama atenção a fala de Mateus Solano, que prefere um diretor por perto, como se fosse um pai para guiar. Não ouvimos uma definição de Domingos sobre arte. Sendo assim, pergunto: vocês que trabalharam com Domingos, como enxergam o amor dele pela arte? Nasceu artista! Era um gênio apaixonado pelo que fazia. Domingos viveu a vida toda com arte e poesia, transformou sua vida, seus amores, sua dor, tudo em obra de arte. Estar perto do Domingos era uma alegria. Domingos era um melhorador de vidas. No decorrer da análise e questões, Alexandre Nero se despede do grupo e vai embora. No fim, sua voz aparece através de um áudio. Por que o experimento incomodou tanto ele? Alias, por que o novo, o diferente, incomoda as pessoas (atores e públicos)? Melhor perguntar para ele [risos]. Quem sabe um dia deciframos a alma, aceitamos e viveremos melhor com tantas diferenças e opiniões. Domingos sempre acreditou no ser humano! Ele sempre dizia que o mundo melhora, não piora. Inclusive, no decorrer do diálogo, os autores fazem algumas leituras, misturando realidade com ficção. Até que ponto o telespectador pode confiar nessas pessoas e no diretor? [risos] A dúvida e questionamento são bem vindos. Que cada um reflita sobre isso - o que é realidade e o que é ficção. Domingos fez de tudo um pouco na vida, até chegar no documentário, com "Os 8 Magníficos". Foi estranho ouvir essa ideia, em desejar montar algo novo? Difícil falar por ele. Talvez não tivesse programado fazer um documentário, apenas aconteceu. Ele sabia transformar em arte qualquer encontro, até um chopp com amigo num bar, um mergulho no mar, uma festa de criança, tudo ele transformava em poesia. Para finalizar, quais os planos para o futuro? O que podemos esperar de vocês para a arte? Desejo continuar produzindo e cuidando do legado que ele deixou. Tem muita coisa inédita ainda! Meu sonho era [criar] um Centro Cultural Domingos Oliveira, com cursos de teatro, cinema de baixo orçamento, roteiros, mostras de cinema, palestras, etc. Ele deixou tanta obra, textos, pensamentos, livros, poesias… Eu teria que viver mais quinhentos anos para colocar todas as obras e projetos dele em dia. Editado a lá Godard, exagerado na liberdade, "Os 8 Magníficos" está disponível no Globo Play, assim como a série "Todas as Mulheres do Mundo", estrelada por Emílio Dantas, Sophie Charlotte e Martha Nowill.

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