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Conheça: Estéreo Boutique
Formada em 2023 por Brunno Bari, Gabriel Buchmann e Raphael Perez, Estéreo Boutique vem consolidando uma identidade sonora marcada pelo diálogo entre influências do rock alternativo das décadas de 1990 e 2000 e referências contemporâneas de diferentes gêneros. A banda começa a desenhar um novo capítulo em sua trajetória com o lançamento do single "outros tons", faixa que antecipa o EP meias verdade s, previsto para o primeiro semestre de 2026. (Crédito: Marina Letízia) "Outros tons" surgiu de um processo espontâneo de criação durante uma sessão de composição. A música carrega uma energia pulsante, mas também um caráter enigmático que revela novas camadas a cada audição. Segundo a banda, a construção da faixa partiu de uma busca coletiva por caminhos melódicos e rítmicos até que o riff principal surgisse. "Ficamos uns bons 30 minutos procurando diferentes ideias melódicas e rítmicas até encontrarmos o riff principal. Depois organizamos o arranjo para chegar no produto final, o objetivo era manter o pulso e a energia mas ainda conseguir navegar pelas diferentes partes sem deixar virar uma grande parede de ideias desconexas", revela o trio. A sonoridade do grupo transita por referências diversas, que vão do indie rock atmosférico ao experimentalismo brasileiro. Entre os nomes que orbitam o imaginário da banda estão Wilco, Slowdive, Lô Borges, Jards Macalé e LCD Soundsystem - influências que ajudam a moldar um indie rock com sotaque brasileiro, ao mesmo tempo envolvente e pouco previsível. Enquanto no estúdio o trio busca uma produção cuidadosa e de alta fidelidade, nos palcos a proposta ganha contornos mais crus e experimentais. A banda aposta em apresentações imersivas, nas quais as canções se expandem para além das versões gravadas. Depois de lançar quatro singles ao longo de 2024 e circular por palcos alternativos da cena paulistana, Estéreo Boutique agora se prepara para consolidar essa fase com seu primeiro EP, reforçando a aposta em um repertório que mistura energia, texturas e liberdade criativa.

Boneca Russa
Relacionamentos amorosos podem ser comparados ao carnaval: o início é marcado pelo desejo; depois vêm os dias de euforia, quando os encontros se transformam em desfile e o amor parece ocupar a avenida inteira. Mas, como toda festa prolongada, também chegam as crises, os desencontros e o cansaço. Quando o amor termina, restam a maquiagem borrada e a sensação de vazio, como se algo muito bonito tivesse acabado de passar. É justamente dessa fase que nasce Boneca Russa (YB Music, 2026), novo trabalho de Rômulo Fróes. Lançado simbolicamente na quarta-feira de cinzas, o disco mergulha nas dores e nos vestígios de um relacionamento que chegou ao fim, transformando a experiência do rompimento em um percurso poético sobre o luto amoroso. Mais do que narrar um término, Fróes organiza o álbum como um desfile melancólico. As canções avançam como um abre-alas, cada uma revelando fragmentos de memória, imagens dispersas e sentimentos que ainda procuram lugar. O efeito é o de um samba-enredo emocional: diferentes cenas, mas todas orbitando a mesma história. Leia também: Kiss All The Time. Disco, Occasionally A década romântica de Do Prado Formas de Voltar Para Casa (Créditos: Divulgação/Reprodução) Sob a regência do baixo de Marcelo Cabral, Fróes não constrói uma narrativa linear. Em vez disso, trabalha com lembranças que surgem como flashes: gestos cotidianos, frases suspensas, toques e imagens fantasmáticas que retornam enquanto o narrador tenta compreender o que restou depois do amor. É o que se percebe já na abertura do álbum, "A Hora Mágica", em que a sensação de deslocamento aparece condensada no verso: "agora o mundo é um mundo que não cabe um sol". Grande parte das canções se apoia na presença grave e mutável do baixo, que conduz o disco como a espinha dorsal dos arranjos. Em alguns momentos, o instrumento assume função percussiva; em outros, soa como uma guitarra metálica ou um violoncelo sombrio, criando um ambiente austero que sustenta o peso das palavras. A escrita das faixas é direta, às vezes quase documental, recusando qualquer idealização do romance e encarando o término com uma lucidez poética dolorosa. Há tristeza, mas também beleza e dignidade em Boneca Russa . Em vez de dramatizar o sofrimento, o compositor observa os escombros do relacionamento com uma mistura de fragilidade e consciência. O amor não aparece apenas como experiência perdida, mas como algo que continua reverberando na memória, nos objetos e nos lugares. No fim, Boneca Russa se revela menos um disco sobre separação e mais um estudo sobre as camadas do afeto. Como no carnaval que inspira sua estrutura simbólica, a intensidade do amor não desaparece de uma vez: ela se desfaz aos poucos, deixando rastros.

Siso entre o ferro e o fogo
Movimento: ato ou processo de mover(-se); mudança de um corpo, ou de parte dele, de um para outro lugar; deslocamento. Utilizando o corpo - membros, memória e voz -, Siso se deslocou para mergulhar nas histórias de familiares vividas entre Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Minas Gerais, e na sua própria, para criar um repertório que soa ao mesmo tempo íntimo e coletivo. As canções de Ferro e Fogo (2026) lembram a expressão a ferra e fogo: forjadas no calor das lembranças, no peso das origens e na força das narrativas que atravessam gerações. Após passar por diferentes temas em seus trabalhos anteriores, Siso parece escavar camadas de memória para compreender o seu presente. Guiado por uma orientação espiritual, as canções de Ferro e Fogo funcionam como pequenos arquivos afetivos, nos quais histórias familiares, trajetórias migratórias e heranças culturais se entrelaçam. Nesse processo, o artista transforma lembranças em movimento criativo: cada faixa carrega ecos de diferentes regiões do país e reafirma a música como espaço de coletividade. Esse movimento ganha ainda mais força com as colaborações de Luiza Brina, Virgo Virgo, Felipe Neiva, Brina Costa e Paulo Mutti (Bumbum Astral). Ao lado dos amigos, a voz do artista ecoa naquilo que está marcado em cada um e, ao mesmo tempo, no que atravessa a todos. Leia também: O pertencimento de Táia Lady Tempestade Eu Não Sou Tudo O Que Quero Ser Quando nos falamos pela primeira vez , por email, abordamos o terceiro molar que deu nome ao projeto musical. Você está com ele há muitos anos, ainda sente algum incômodo? Hmmm, incômodo? [olha para o lado] Acho que sim, acho que não tem como estar nessa nossa sociedade sem sentir algum tipo de incômodo, né? O motivo certo pelo qual uma pessoa vai atrás de uma carreira artística é para entender melhor a si e como coexistir melhor com o mundo, porque é esquisita a experiência humana e tem muitas experiências ao mesmo tempo que a gente tem, que vai disso, vai da dor, vai do afeto, à solitude, ao desespero e é uma gama tão variada de expressões, de frequências, por assim dizer, que é meio… Eu acho que sempre vai haver algum desencaixa, algum incômodo e eu acho que talvez, na minha obra, a coisa que eu me sinta mais, a coisa que me inspira mais facilmente a escrever, a compor e tudo mais, é de certa maneira uma sensação de incômodo, é uma sensação de identificar certa coisa que precisa ser transformada, que precisa ser ressignificada e isso parte de um incômodo inevitavelmente, né? Então, acho que sim, acho que sim e acho que sempre haverá e tudo certo. [sorri] Quando você consegue identificar esse incômodo, como é o processo para você aliviar esse incômodo? Nossa, acho que acontece de diferentes maneiras. Ontem mesmo eu estava num dia que eu estava com um sentimento estranho, que eu falei "não, deixa eu sentar aqui e escrever alguma coisa, porque eu acho que eu vou conseguir dar forma a esse incômodo de uma maneira que eu vou conseguir solucionar ele de alguma maneira ou pelo menos tirar de mim", botar no papel ou qualquer coisa do tipo. Mas é isso, acho que às vezes também vira um lugar de criação que ajuda a identificar o que é o incômodo, mas também tem o lugar de tipo "ok, eu já tenho isso identificado, eu já tenho isso elaborado." Acho que essa perspectiva vale a pena ser trazida para um lugar de música, vale ser trazida para um lugar de… Porque é isso, queira ou não, a música é esse tipo de experiência que você consegue, de certa maneira, conectar com as pessoas num lugar de menor resistência, de certa maneira, porque você está ali ouvindo, você não tem como não ouvir uma vez que você já começou a ouvir, então você fica ali exposto a uma situação, você pode utilizar-se dessa experiência para poder fazer algo de relevante, para poder fazer algo de importante. Acho que há diferentes maneiras de abordar essa questão, de trazer esse desenvolvimento, essa prática, por assim dizer. (Créditos: @ronyhernandes) Todos os seus trabalhos possuem tema. Você já abordou lembranças, sua chegada a São Paulo, e relações. Após passar por esses assuntos, como foi chegar no tema de Ferro e Fogo que aborda sua jornada de transformação e ancestralidade? Foi necessário fazer todo esse caminho? Acho que sim, muitas vezes eu fico pensando… Às vezes brota esse lance de tipo [o zoom trava] , eu acho que se eu não tivesse feito isso, eu não teria feito aquilo, às vezes brota esse tipo de pensamento, mas ao mesmo tempo eu fico pensando, cara, é a deriva, tá tudo certo, é isso. Eu tenho uma visão muito específica também: eu enxergo o meu primeiro EP, o Terceiro Molar , lá de 2016, como uma espécie de semente do meu trabalho artístico, tudo que eu faço, ele tá contido ali de alguma maneira. Eu acho que, talvez, tudo que eu vá fazer na frente, de certa maneira, existirá um pequeno aspecto do Terceiro Molar . Cara, ali, é tipo a célula-tronco do meu trabalho artístico, sabe? Cada álbum acabou sendo um exercício de uma temática diferente, de uma energia diferente, uma perspectiva diferente, mas eu acho que tudo faz sentido nesse todo, porque tem, de certa maneira, essa característica meio quase existencial no meu trabalho que acaba sendo um aspecto da mesma coisa, né? No final, todas essas histórias abordadas dialogam com histórias de outras pessoas, como você fez no último projeto, em Ferro e Fogo . Como foi revisitar essas histórias e memórias para escrever um novo capítulo? Foi muito interessante, foi muito num lugar de rememorar certas coisas de família muito antigas [olha para os lados] . Acho que foi uma junção de coisas que me acabou culminando nesse período específico que eu compus o disco, assim, sabe? Meu pai estava muito debruçado sobre uma certa pesquisa de coisas antigas - ele vem da fotografia e, talvez, tenha influenciado, de certa maneira, essa exploração, porque eu tive também uma série de experiências espirituais que também apontavam para a ancestralidade de alguma maneira. Em conversas com meus pais, eu fui rememorando histórias que sempre foram contadas na família, coisas dos meus avós, coisas de gerações ainda anteriores a isso… E eu entendendo, assim, "cara, é meio que uma história coletiva!" Quando a gente se prende a uma determinada perspectiva, a gente vive em 2026 numa metrópole, na maior metrópole da América Latina, e aí a gente olha para essas histórias e fala "cara, isso aqui é tudo parte de mim, essa deriva chegou até mim, eu sou isso também", então, como é que a gente consegue falar de nós? Como é que eu posso falar de algo que não é apenas meu, mas que é nosso? Partindo disso, do específico, que vira algo que é sobre o todo, sabe? Por exemplo, "O Tombo" é a história mais explícita dentro do álbum, uma história super específica do meu avô, pai da minha mãe, que quando jovem, no interior da Paraíba, tava carregando uma carga para a família dentro da mata, levou um tombo, saiu rolando morro abaixo, nessa queda ele perdeu a memória e foi resgatado pelos irmãos e ele viveu sete anos desmemoriado, sete anos sem entender, sem ter concepção do que ele era, e aí ele leva um outro tombo acidental e recobra a memória de como ele era sete anos antes, e aí vai olhar para a mãe mais velha, para os irmãos mais velhos, e o choque daquilo tudo, o espanto daquilo tudo… [gesticula as mãos] Isso é uma história que roda a família há muitas décadas. Eu falei "cara, apesar de muito específica, ela diz de uma certa instância de memória". Ela diz de uma questão que é de resiliência também, de uma questão de como a gente conta as histórias e como a gente, de certa maneira, faz aquilo que realmente importa: sobreviver por meio das histórias. A gente é um grande novelo de lã, né? Então, a gente é essa trama, esse fio que vai se cruzando. Eu parto de uma premissa de que, cara, quase nada é individual [risos] , quase tudo é coletivo, as experiências são meio compartilhadas em alguma instância. Como você se sentiu ao ouvir mais sobre a sua família e, consequentemente, sua história? Em algum momento, você sentiu algum sentimento, visto que quando falamos de família sentimos muita coisa, né? Justo, sim. [breve silêncio] Eu acho que talvez seja num lugar de uma compreensão mais generosa e também de um lugar de quase uma autorização dos sentimentos, por assim dizer, sabe? Porque eu acho que talvez pelo jeito como eu fui criado e pela estrutura toda ao meu redor… Eu sou uma pessoa da diplomacia, por assim dizer, eu sou a pessoa que contemporiza que, de certa maneira, maneja as situações de um modo a ser pacífico para todos os envolvidos e muitas vezes isso me faz perder certo contato com uma instância de raiva ou até mesmo não reconhecer quando ela existe - de confundir a raiva com outros sentimentos, como ansiedade, com o que quer que seja e tudo mais. Existe essa sensação de que a raiva, de que a indignação, dependendo das experiências que você tem em vida, ela pode ser interpretada de uma maneira destrutiva, mas não necessariamente, a raiva ela é apenas um sentimento, ela é uma coisa que atravessa e que ela aponta para algo que está errado e que precisa ser corrigido e que, na verdade, ela é um sintoma que está mais ligado a um lugar de tristeza do que qualquer coisa, é tipo "que merda que as coisas estão dessa maneira". É um lugar de movimento e esse disco é um disco de movimento. Então acho que talvez passou por um lugar de falar "não, tá tudo certo em movimentar, está tudo certo em expandir, transformar, nem tudo que transforma é destruição", que é bem um pedaço da letra de "Linha de Plutão" [sorri] . Nem sempre o que se sente de intenso é destrutivo, há como se ter usos construtivos dessa energia primordial [ênfase na palavra] e vai por esse caminho. Eu acho que essas histórias ancestrais, até por ter vindo de uma família humilde, metade da família veio de alguns estados do Nordeste, outra metade ali de Minas Gerais e Bahia, são histórias de gente humilde, que teve que engrossar a casca ali, arregaçar as mangas e lidar com umas situações bem horrorosas muitas vezes, e você falar "não, eu acho que está tudo certo, está tudo certo em sentir essas emoções mais intensas" e validá-las e elas serem motor para alguma transformação positiva, então acho que talvez o disco aponte nessa direção. "É aceitar o que acontece, mas não se encerrar na aceitação também." Uma coisa que me chamou bastante atenção e eu achei muito bonito no álbum é sobre sua experiência espiritual. Você foi guiado por uma orientação espiritual e é muito diferente dos outros trabalhos que você já realizou. Como foi esse processo de guia e como foi desenvolvê-lo para o disco? Eu não diria que desenvolvi para o disco porque foi uma coisa simplesmente vivida, sabe? A espiritualidade se manifestou ao longo desses últimos anos na minha vida de uma maneira muito múltipla, porque tem um lado que tem a ver com mediunidade - eu digo não apenas minha, mas de pessoas ao meu redor, de situações em que eu me vi -, mas também tem um outro lado de intuição, do sonho. Tem canção que veio em sonho, a capa veio em sonho. Foi um exercício de estar aberto para receber e isso foi o mais diferente desse processo. Ao longo dos últimos trabalhos eu tava sempre ali com uma ideia específica da qual eu queria trabalhar, um universo de sons com o qual eu queria trabalhar e, dessa vez, eu deixei tudo emergido, tudo veio, apenas. É um trabalho que é verborrágico, em certa instância, mas também porque ele surgiu da palavra, a primeira música a surgir desse trabalho foi "A Palavra Furacão" e "Atraque" que são irmãs ali dentro do disco, elas surgiram antes de Vestígios (2022), meu álbum de releituras. Como eu não sabia exatamente para que caminho artístico eu ia com o próximo projeto, eu pausei esse processo criativo, porque falei “não, deixa que alguma hora eu vou ter mais clareza a respeito disso”, eu fiz o Vestígios , passei por todas as experiências do Vestígios , e aí veio todo esse momento espiritual, e aí eu falei "cara, é isso, eu vou deixar isso simplesmente se manifestar a partir dessas experiências, a partir dessas memórias" e no fim das contas eu acabei fazendo um monte de letras e eu não sabia o que fazer com essas letras, então, comecei a colocar nas mãos de amigos, mandei uma letra para Virgo Virgo, uma para [Felipe] Neiva, uma para Brina Costa e Paulo Mutti, outra para Luiza Brina e aí as canções foram começando a chegar e eu fui falando "caramba, que massa toda essa história" e isso foi me inspirando a pegar algumas das letras e fazer eu mesmo. De repente, num movimento muito louco - mais uma vez o movimento surgindo -, esse material, enquanto composição, ficou pronto em um mês e foi meio absurdo assim, eu ainda não sabia muito bem como é que ia ser a sonoridade das canções, eu não sabia como é que eu ia arranjá-las, se fosse uma coisa mais eletrônica, mais acústica… Aí surgiram alguns convites de shows, e eu falei "vou testar esse material para entender, para sentir, mas não quero ficar pensando, vou sentir o que é isso" e aí teve o show do Sesc Pompeia, eu falei "vou experimentar esse repertório da maneira mais crua possível, com voz e guitarra" e a partir dessa interação com o público, entendendo como que fazia sentido para as pessoas, como é que batia nelas, eu falei, "ok, acho que agora eu entendi qual que é a pegada desse disco." Sentei no computador e surgiu, eu levantei o disco inteiro em uma semana, mais uma vez, muito rápido. Eu falei com a Alejandra Luciani [gravação de vozes, mixagem e masterização] e com o João Abtibol, que está aqui com a gente também, que também é co-diretor artístico e co-produtor executivo nesse projeto também, muitos processos de troca com ele ao longo desse momento também… A gente gravou todas as vozes, incluindo as da Tiê e Virgo Virgo, em dois dias, e aí, pá [ênfase na palavra e mexe as mãos] , o disco ficou pronto muito rápido e [a partir disso] foi um processo também de sentir o disco e deixá-lo ficar pronto no ritmo dele também, porque a gravação ficou pronta, e aí tem todos os outros processos, o que é que vai ser a capa, como é que vão ser as imagens, o que é que vai ser o videoclipe… Isso tudo foi se apresentando muito dessa maneira, dessa maneira intuitiva, subconsciente e tudo mais. Eu sonhei com a capa do disco, eu levantei [da cama] , na mesma hora, peguei uma caneta pilot, um papel, fui rascunhar e falei "é isso". Eu olhei para aquilo e falei "tá, acho que é a capa do disco" e esse desenho levou aos outros desenhos, os desenhos individuais de cada música e, ao mesmo tempo, as ideias também para os videoclipes, foi tudo partindo desse lugar, dessa deriva, dessa entrega ao mistério - esse é um disco de mistério e eu adorei me jogar nessa experiência, eu vou querer fazer isso de novo e de novo, de me entregar a esse tipo de experiência em próximos projetos, porque eu acho que é muito satisfatório. Não foi só um movimento, foi um furacão. Não foi muita energia para você? Super, foi super intenso! São muitos assuntos, eram muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo, porque fora isso, a vida acontece e ela é de viés, as coisas vão se chocando e tudo é uma grande loucura [gesticula com as mãos] . Teve coisas que emergiram enquanto letra nesse álbum que depois se manifestaram, coisas mágicas e coisas trágicas também… É um processo absolutamente vivido e é isso, é sobre aceitar a vida enquanto movimento, enquanto algo que se transforma e se transforma para o bem e para o mal e se vier para o mal, ela pode virar para o bem também - o que é importante é não se perder no eixo da história, não se enrijecer nos seus processos enquanto tudo move; não se desfazer no meio do vento, se permitir ter esse lugar de maleabilidade. Esse disco é uma investigação disso também, de certa maneira. Como não se perder nesse furacão? Eu acho que a resposta tá nessa entrega ao mágico e ao mistério, de se entender quem você é, entender o que está ao seu redor e entender as circunstâncias, mas ao mesmo tempo não querer controlá-las, é a velha coisa do não reagir, mas responder ao que aparece: você se deparar com determinada situação e você, a cada situação, escolher o que é que você quer fazer com aquilo. Entender que os acontecimentos não necessariamente te definem, o que define é como você responde a eles - eu acho que várias canções desse projeto tocam nesse determinado lugar. (Créditos: Siso) Em "Quebra-Mundo" você enfatiza que foi no quebra-mundo que enxergou quem era. Olhando para trás, acha que mudou muito? Você é realmente quem idealizou? Olha, eu não sei se eu sou quem eu idealizei ser mas, de certa maneira, existe um certo reconhecimento. Talvez eu não tenha me deixado perder tanto quanto as circunstâncias poderiam ter me levado [sorri] . Quando eu fiz "Quebra-Mundo" foi muito pensando nessa coisa de quando a gente vive um momento muito difícil, tudo que é acessório, tudo que é meio fútil, desimportante, cai por terra porque deixa de ser prioridade. Quando eu fiz essa música, eu fui falar com a minha mãe e falei "a gente já viveu muito" e é isso, todas as pessoas tem vários quebra-mundo no decorrer da vida. Você acha que em um futuro breve, você ainda vai mudar muito e vai se conhecer melhor em outros quebra-mundo? Acho possível. Eu tenho certeza que eu vou mudar pra caralho, mas eu tenho certeza que em alguma instância algo vai permanecer. É estar aberto para o que manifesta ao longo desse caminho. Em "Linha de Plutão", você reconhece que aquilo que te move também pode te derrubar. Existe uma espécie de risco inevitável em seguir aquilo que nos atravessa? Não seria mais fácil abandonar aquilo para não ser atravessado? Eu acho que abandonar é sempre mais fácil [risos] , mas eu não sou a pessoa que segue o caminho mais fácil - é aquela coisa de assumir o risco do desejo: se é aquilo que desejo, vou atrás, não importa o que aconteça, eu tenho esse tipo de relação com a música. É super interessante você ter trazido "Linha de Plutão" porque essa música - voltando na questão da intuição e tudo mais - eu sonhei. Acordei no meio da noite, peguei meu celular [pega o celular e mostra o que fez] e blábláblá e voltei a dormir até que no dia seguinte eu pensei "acho que isso é uma música, tá decente isso aqui". Eu fui ver minhas anotações para pensar na letra para estruturar e tudo mais… Ela era uma coisa muito vinda do subconsciente, essa coisa do eco familiar também, essa cultura que me atravessa, né? O ponto de vista dessa música tem a ver com duas coisas que passaram pela minha cabeça: o primeiro é um texto da Joan Didion que tá aqui atrás [se vira para a estante de livros que está atrás dele] , que tem um texto específico que fala a respeito sobre como a geografia de onde você cresce te define ou define certos traços da sua personalidade. Eu fui cruzando isso com uma das coisas que eu fui estudando sobre a espiritualidade que é a questão da astrocartografia que é uma teoria da astrologia de que você pode pegar o seu mapa astral e colocá-lo no mapa mundi ou no mapa de uma cidade e ali se formam linhas energéticas que são positivas ou negativas, intensas ou não nas experiências. Nesse processo eu fui olhando os mapas dos lugares que cresci, as casas que morei, e eu sempre morei em lugares próximos da minha linha de plutão - e plutão é essa energia, esse planeta da destruição e da criação, essa coisa completamente intensa e desestruturadora, mas muito forte e muito potente. O início da música, justamente essa frase que você citou, vem da minha história familiar: quando eu era criança, eu tava dormindo no colo da minha mãe e veio um tio que me pegou no colo e me jogou pra cima e eu acordei no ar caindo e isso gerou uma série de coisas em mim… Eu precisei fazer tratamento psicológico quando criança [porque] comecei a ter grande medo de altura, medo de espaços abertos… Precisei passar por todo um processo [risos] por um gesto amoroso e é isso, aquilo que é do afeto pode ser também do desafeto. Essas questões que você traz, você conseguiu enxergar durante o processo do disco ou já conseguia ver antes? Eu já enxergava, mas, talvez, essas experiências espirituais foram me acomodando em um lugar mais de aceitação, sem julgamento e acolher. Isso é cíclico, isso é parte da vida. Já em "Ferro e Fogo" você deixa explícito sobre quem cortar o caminho terá sua viagem desviada. Você já encontrou o seu caminho ou está encontrando? Como tem sido essa trajetória? Olha, existe uma sensação pessoal - e eu recebi uma mensagem através da espiritualidade ao longo desse processo - em certa instância, pelas circunstâncias, talvez o caminho que eu desenvolvi até determinado ponto da minha carreira possa ser interpretado como um desvio, por isso, que eu vou e volto nessa coisa de experimentações diferentes. Houve certas transformações da minha vida, principalmente entre 2019 até 2023, que foram, em certa maneira, me tiraram de um determinado eixo que eu tava e até mesmo em uma percepção artística e de um entendimento de mim mesmo enquanto artista… Eu sinto que S2 (2020) e Vestígios são trabalhos-resgates, um resgate de mim mesmo inclusive. Eu acho que esse álbum é como se fosse uma retomada do caminho original: eu dei a volta e cai onde tinha que ter caído. Agora eu quero jogar com as minhas forças e só quero saber de coisas que me interessam, sabe? Ferro e Fogo de Siso no Sesc Pinheiros Na próxima quarta-feira, 25, Siso leva sua ancestralidade ao Sesc Pinheiros . O show de Ferro e Fogo contará com um formato que reúne voz, teclados e bateria híbrida. O repertório será ampliado com músicas de fases anteriores, contando com as participações especiais de Tiê e Virgo Virgo.

Conheça: Animal Invisível
Conhecido por sua trajetória na música brasileira, o guitarrista e compositor Guri Assis Brasil apresenta um novo capítulo em sua carreira com Animal Invisível, projeto que revela uma nova faceta de sua produção artística, agora voltada à música instrumental. (Créditos: Guigo Calvin) O projeto começou a ser desenvolvido durante o período de isolamento provocado pela pandemia de Covid-19. Nesse contexto, Guri passou a compor e gravar novas ideias musicais, inicialmente sem a intenção de transformá-las em um álbum. As primeiras gravações foram realizadas de forma remota, com músicos registrando suas partes em estúdios domésticos e enviando os arquivos ao compositor. Com o avanço do processo, o trabalho ganhou forma e passou a reunir diferentes instrumentistas. Em uma etapa posterior, o músico decidiu levar parte do repertório ao estúdio e gravá-lo ao vivo com nove músicos, sem ensaio prévio, buscando preservar a espontaneidade das interpretações e a interação entre os participantes. Algumas dessas sessões também foram registradas em vídeo, com direção de Rafa Rocha. Sonoramente, Animal Invisível dialoga com a música instrumental contemporânea, incorporando elementos de jazz, funk e hip-hop, além de grooves marcantes e referências de sintetizadores associados à sonoridade dos anos 1980. Entre as primeiras faixas apresentadas estão "Didi", "Dendê" e "Que Delícia É Viver", lançada recentemente com as colaborações de Antonio Neves e Rodrigo Campos . A faixa propõe um respiro de leveza e celebração, sem abrir mão da sofisticação estética que atravessa todo o álbum, previsto para abril deste ano. O título da canção nasce de uma expressão recorrente na vida do artista. "'Que delícia é viver' era um jargão meu, que surgiu na boemia, nessas saideiras infinitas de bar. Para quem me conhece, essa frase me representa bastante. Ela traduz momento", afirma. A faixa antecipa o clima do álbum de estreia do Animal Invisível, que será lançado em abril pela NuBlu Records, reafirmando a força da música instrumental brasileira contemporânea e seu diálogo cada vez mais consistente com a cena internacional.

Kiss All The Time. Disco, Occasionally
Desde que iniciou sua carreira solo, em 2017, Harry Styles não tem desapontado. O quarto álbum de estúdio do britânico, Kiss All the Time. Disco, Occasionally (2026), marca não apenas o retorno do cantor após alguns anos sem lançar material inédito, mas também um deslocamento artístico que parece refletir um artista mais interessado em experimentar atmosferas do que em reafirmar fórmulas pop já consagradas. O disco chega depois de um hiato de quase quatro anos desde Harry's House (2022), período em que Styles se afastou parcialmente da indústria musical para repensar sua relação com a criação e redescobrir referências sonoras. Após o fim da boyband One Direction, Harry construiu uma trajetória marcada por reinvenções graduais. Seu primeiro álbum, Harry Styles (2017), ainda carregava o desejo de distanciamento da estética do grupo, apostando em um pop rock clássico que evocava referências setentistas. Já Fine Line (2019) ampliou o espectro emocional e sonoro do artista, equilibrando baladas confessionais e canções pop sofisticadas, consolidando sua persona de astro pop sensível. Esse processo culminaria em Harry's House , disco vencedor do Grammy de Álbum do Ano e responsável por hits globais como "As It Was" e "Late Night Talking". Leia também: Emaranhados em Gambiarras Mal-Ajustadas Show: Caminhos Selvagens It's Never Over, Jeff Buckley Em Kiss All the Time. Disco, Occasionally , no entanto, o cantor parece menos preocupado com a construção de grandes sucessos radiofônicos e mais interessado em atmosferas noturnas, dançantes e, paradoxalmente, intimistas. O álbum reúne 12 faixas e foi produzido por colaboradores recorrentes como Kid Harpoon e Tyler Johnson, mantendo uma continuidade estética com os trabalhos anteriores, mas ampliando o repertório para elementos de disco. (Créditos: Divulgação/Reprodução) O resultado é um disco que oscila entre dois polos: a energia do clube e a introspecção do compositor. Faixas como "Aperture" e "Dance No More" evocam o pulsar da pista de dança, enquanto outras canções mergulham em reflexões sobre identidade, fama e vulnerabilidade - temas que atravessam a obra do britânico. A proposta parece dialogar com experiências pessoais vividas pelo artista durante o período de afastamento, quando redescobriu a liberdade criativa e a potência catártica da música de pista. Se nos discos anteriores Harry Styles se apresentava como um herdeiro contemporâneo do pop clássico, agora ele se aproxima de uma estética mais contemplativa para poder viver as experiências da pista. A disco prometida no título surge menos como espetáculo exuberante e mais como clima: luz baixa, batidas suaves e um senso de liberdade noturna que transforma o álbum em uma espécie de trilha sonora para momentos de suspensão. Essa mudança de tom também revela um artista em outra fase da carreira: em alguns momentos, o músico fica em segundo plano para que os sintetizadores e as batidas frenéticas ganhem espaço, como é o caso de "Taste Back". O resultado é um disco que não tenta provar nada: ele simplesmente existe como registro de um momento em que o cantor decide dançar, refletir e experimentar ao mesmo tempo. No fim das contas, Kiss All the Time. Disco, Occasionally reforça aquilo que vem se tornando uma marca da trajetória do artista: a recusa em permanecer no mesmo lugar. O disco aponta para um artista que ainda parece curioso demais para repetir fórmulas, ou seja, alguém que prefere testar novos ritmos, experimentar climas e deslocar sua própria imagem dentro do pop contemporâneo.

Emaranhados em Gambiarras Mal-Ajustadas
Muitas vezes esquecemos que é possível ignorar a realidade e ir contra esse tempo que nos engole constantemente. Não é fácil, isso já sabemos, mas, com esforço, é possível. Veja o que o catarinense Gustavo Kaly e o gaúcho Wander Wildner fizeram: a dupla desafiou o próprio tempo para criar Emaranhados em Gambiarras Mal-Ajustadas (2025), um disco-crônica desacelerado. As faixas parecem ter sido criadas em mesas de bar, em trocas demoradas, em confissões atravessadas por ironia e melancolia entre amigos de longa data. Nove delas são assinadas por Kaly, compostas ao longo de diferentes fases da vida, mas reorganizadas aqui sob uma mesma atmosfera: personagens deslocados, a precariedade urbana e a sensação de inadequação diante de um mundo acelerado demais. O resultado é um álbum que soa como uma longa conversa. As canções não parecem correr para chegar a lugar algum; preferem permanecer no meio do caminho, observando o entorno. A escrita de Kaly aposta em pequenas histórias, quase crônicas urbanas, nas quais o humor sutil convive com um certo desencanto cotidiano. São retratos de gente comum tentando se equilibrar em uma realidade que raramente oferece estabilidade. Leia também: Ficando Longe do Fato de já Estar Meio que Longe de Tudo Dance Para Se Salvar Conheça: Bitle A faixa de abertura, que dá nome ao disco, já apresenta esse espírito. A narração inicial, na voz de Wildner, conduz o ouvinte para dentro de um cenário urbano caótico, visto a partir da lente improvável de um pardal fictício que observa a chamada “floresta de cimento”. A imagem é simples, mas eficaz: Emaranhados em Gambiarras Mal-Ajustadas parece observar o mundo de cima, com certo distanciamento irônico, enquanto acompanha personagens aquém das próprias possibilidades. (Créditos: Reprodução/Divulgação) Para dar forma ao material, Kaly e Wildner recorreram ao produtor Gabriel Guedes, músico ligado à banda Pata de Elefante. A produção é sóbria e aposta na organicidade. As guitarras aparecem com textura, a base instrumental sustenta as narrativas sem disputar protagonismo e os arranjos evitam excessos. Essa escolha funciona bem porque mantém o foco nas letras que são, afinal, o verdadeiro motor do disco. Nesse sentido, Emaranhados em Gambiarras Mal-Ajustadas se destaca pela consistência narrativa. Kaly escreve como quem observa o cotidiano com um misto de curiosidade e resignação, transformando pequenos impasses da vida urbana em matéria poética. Quando essas histórias passam pela interpretação de Wildner, ganham uma camada extra: sua voz, marcada pelo tempo, carrega experiência, ironia e uma certa elegância desgastada que combina perfeitamente com o tom das canções. Há também espaço para diálogo externo. "Deixa Isso pra Lá" adapta um poema de David Tattersall, do grupo inglês The Wave Pictures, ampliando discretamente o horizonte do álbum e reforçando seu caráter literário. Ainda assim, o disco permanece profundamente ancorado em uma sensibilidade brasileira - especialmente na tradição da canção que se aproxima da crônica. No fim, Emaranhados em Gambiarras Mal-Ajustadas encontra sua força naquilo que o título anuncia. As “gambiarras” não são defeitos, mas estratégias de sobrevivência criativa. Kaly e Wildner transformam imperfeições em linguagem e fazem da amizade um método de composição. O disco soa como uma coleção de histórias contadas sem pressa e, em um tempo que exige velocidade o tempo todo, isso é um gesto radical.

O pertencimento de Táia
A primeira vez que o vermelho apareceu no trabalho de Táia foi no EP Tormento (2019). A cor, que representa poder, fogo, revolução, paixão e energia, reaparece agora em OBÁ TAJÁ (2026), disco recém-lançado, assim como a máscara criada por Sônia Melone, símbolo das múltiplas facetas da cantora e multi artista sergipana. A partir desses pontos, o álbum aprofunda a pesquisa estética no encontro do brega pop, elementos orquestrais e performance, a partir de uma busca íntima por identidade e pertencimento. O título também carrega camadas de sentido: OBÁ TAJÁ surge da investigação sobre o significado de "Tajá", variação sonora próxima de seu nome artístico e denominação popular da planta caladium bicolor, que nasceu espontaneamente à porta de seu antigo quarto. Ao pesquisar a origem da espécie, Táia encontrou a lenda de uma planta que brota da lágrima de um amor perdido. A temática amorosa, recorrente em sua obra, ganhou então contornos míticos. "A música que dá nome ao disco nasceu como bomba-relógio e se transformou, inclusive na letra, com o nascimento de Obá Tajá, na inquietude dessa eterna autodescoberta e como um grito de alerta para conhecermos nossa história verdadeira", afirma. Leia também: Conheça: Serafim O universo emocional de Janu: amor, brega e outras delicadezas A procissão de Pero Manzé Em OBÁ TAJÁ , o popular é tensionado: o brega, gênero muitas vezes marginalizado, desloca-se para um espaço de sofisticação sonora e potência simbólica, sem abrir mão de sua vocação dançante e afetiva. A obra articula música, visualidade e presença cênica como partes inseparáveis de uma mesma narrativa. (Créditos: Pritty Reis) O projeto surgiu do desejo da artista de se cercar de pessoas que fizeram parte de seu cotidiano e de sua construção afetiva. Entre os colaboradores estão os músicos Jotaerre (Psirico), Julico (The Baggios), Diane Veloso (A Banda dos Corações Partidos), Maysa Reis, Cah Acioli, Alessandro Mongini, Jim Morrisom, Gabriel Farani e o produtor Talibã, que assina a direção musical de OBÁ TAJÁ . A captação de voz ficou a cargo da FabSound, enquanto a mixagem e a masterização são de Léo Airplane. Ao mesmo tempo, Táia reafirma o Nordeste como centro de criação, propondo novas narrativas para o pop brasileiro e ampliando a circulação da música autoral sergipana para além de seu território de origem. OBÁ TAJÁ nasceu de uma busca íntima por identidade e pertencimento. Em que momento você percebeu que essa investigação pessoal precisava se transformar em obra? Acho que tudo que me atravessa vira "obra". Não intencionalmente, mas justamente por meu trabalho ser feito através do que eu vivo. E virando arte passa a ser possibilidade de identificação de outras pessoas, aí, já racionalizando o trabalho feito, percebo que ele se transforma em muitas histórias que foram apagadas e o quanto é importante a gente se rever e, com isso, se conectar a nossa história e àqueles que vieram antes de nós, entender uma parte do porquê de estarmos onde estamos. A busca por sua ancestralidade atravessa a narrativa do álbum. O que essa investigação mudou na forma como você se enxerga como artista e como mulher? Que preciso cada vez mais ser honesta com a minha verdade. Somos atropelados pela indústria musical do que é vendável e algumas vezes pensei que estava no caminho errado por falar e tocar algo que podiam considerar misturado demais, mas penso que é, justamente, o que faz minha música ser autêntica e verdadeira e isso é que faz as pessoas de verdade se conectarem. Não tenho como desassociar a artista da mulher, a indústria é patriarcal, assim como o mundo, buscar minha ancestralidade é me fortalecer, fortalecer as minhas e fortalecer todes que se identificam. Algo na sua postura em cena mudou ao ver que a obra envolve memória familiar e ancestralidade? A performance agora é sobre o eu real. Quando iniciei minha carreira, criei a personagem "Táia" para conseguir subir ao palco. E ela era imbatível, femme fatale [risos] . A eu real não é, é forte, mas é cansada, é sensual, mas é desajeitada, é bipolar, às vezes quer tudo e às vezes luta pra sair da cama. Minha construção enquanto pessoa e o que a família e ancestralidade atravessou e me ensinou até aqui. Isso está na cena, essa sou eu e meu trabalho a partir daqui. O disco aparece operar entre o grito de alerta e a inquietude da autodescoberta. Quais alertas você percebeu e/ou recebeu para auxiliar no desenvolvimento do mesmo? Primeiramente, os alertas do corpo preu entender que eles vinham do exterior. Sou diagnosticada com TAG e tive algumas crises (agora menores) que extrapolavam para o físico, com travamento de musculatura e desmaios, por exemplo. Sempre estou conversando com minha psicóloga o quanto é difícil ser uma adulta, mulher, mãe, profissional e tantas coisas funcional no mundo atual e o quanto me sinto culpada por ter dificuldade, sendo que, dentro da realidade da maioria, ainda tenho meus privilégios. É angustiante estar dentro da minha cabeça [risos] , aí já se vão a hiperatividade e a instabilidade de humor. E aí vou tentando equilibrar tudo pra não ficar me justificando e tentando entender tudo que acontece comigo e ao meu redor e analisando onde foi que eu me meti até aqui [risos] . Acho que só de ler já dá pra ver um pouco de onde vem os alertas. (Capa: Sônia Melone e Taíme Gouvea) OBÁ TAJÁ tensiona o contemporâneo a partir do popular, deslocando o brega para um lugar de sofisticação. Como foi construir esse equilíbrio entre afeto e elaboração orquestral? Morro de medo desse lugar de brega com sofisticação. O brega vem dos boleros e não tem nada mais sofisticado que isso. Acho que a gente tem uma mania de colocar o erudito e o virtuosismo como coisas de qualidade, enquanto consideramos o popular ou os poucos acordes sem valor. Isso se reflete em tudo. Ao mesmo tempo, a grande massa tá aí consumindo o dito "simples" e a indústria se aproveitando do jeito que pode. Minha música é diretamente influenciada pelo o que ouvi e ouço e a ideia, principalmente, de sopros, foi por meu bisavô ser multi instrumentista e lá em casa ter o trompete de vara e bombardino antigos dele ficarem na casa da minha mãe por um tempo. O produtor e diretor musical, Talibã, é super conhecido aqui pelos seus bregas e nossa troca foi super rica, eu amando as malemolências dele e ele se desafiando com as métricas e timbres do meu agrado [risos] . A temática amorosa atravessa o álbum de diferentes formas. Esse amor - que vai além do romântico - também se manifesta na sua busca por pertencimento e identidade? Totalmente. Minha história na música começa escrevendo sobre o amor. Na época, o amor romântico e agora ele abre um leque para auto amor, amor familiar e desamores também. Amar fala sobre nossa forma de se relacionar com o mundo. Em "Disfórica", ao dizer que gostaria de falar com o tempo e fugir de si, você transforma um conflito íntimo em linguagem artística. Esse desejo nasce mais de uma angústia pessoal ou de uma sensação geracional de inadequação ao ritmo do mundo? Quando escrevi, especificamente, foi de uma angústia pessoal. Eu escrevi essa música depois de ler o livro Favor Fechar os Olhos: Em Busca de um Outro Tempo de Byung-Chul Han. Já tive ideações s* em momentos de depressão e hoje, nesses mesmos momentos, consigo determinar que com o tempo vai ficar menos pior. Depois de terapia e do meu reencontro com o Candomblé, que também tem o Orixá Tempo (Iroko), venho aprendendo muito e é aí que "Disfórica" se transformou também num grito geracional de adultos que aprenderam a buscar sonhos e parece que tudo virou pesadelo e o sonho ficou para pouquíssimos já selecionados no berço. A faixa-título nasceu como uma "bomba-relógio" e se transformou ao longo do processo. O que detonou essa mudança? Eu queria só reclamar nela e nem seria a faixa principal [risos] . Aí percebi essa bomba-relógio como angústia de um apagamento histórico, que trago como o meu cruzado com a história brasileira e, ainda, o quanto o sergipano não se conhece e não se gosta. Infelizmente, vejo muito aqui a cultura de se gostar do de fora ou de quem é reconhecido fora. Temos uma identidade que tem tudo pra ser super forte, mas que se balança entre os estados da fronteira ou grandes eixos, por insegurança, talvez, não sei, é outra área que me sinto totalmente incapaz, mas que acredito que ainda vamos conquistar de volta. Temos as bençãos do cacique Serigy nas nossas terras.

Ficando Longe do Fato de já Estar Meio que Longe de Tudo
Quando eu estava no primeiro semestre da faculdade de jornalismo, há quase uma década, tive um professor que despertava em mim sentimentos conflituosos toda vez que entrava na sala de aula. O motivo era o seu tradicionalismo: defendia que os textos deveriam ser escritos a partir do lead e conter, pelo menos, cinco personagens. Mas não só isso: o texto deveria ser atrativo. Concordo que algumas regras precisam ser consideradas, mas como tornar interessante uma pauta que, à primeira vista, é chata? Durante quatro anos, procurei técnicas que ajudassem na escrita, foram poucas, nada útil. Dois anos após a conclusão do curso, encontrei ferramentas que poderiam - com esforço - deixar o professor satisfeito no livro Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio que Longe de Tudo (Companhia das Letras, 2012). Antes de abordar a obra, é importante ressaltar três pontos: 1) David Foster Wallace era escritor e professor, não jornalista; 2) o jornalismo literário existe há uns bons anos, mas Wallace conseguiu deixar sua marca; 3) é difícil imaginar que um jornalista, hoje, teria o mesmo espaço que o autor teve em grandes veículos, ainda assim, há lições valiosas ali. Dito isso: é possível escrever um bom texto sem começar pelo lead. Reconhecido como um dos principais escritores contemporâneos do século XX, o jovem escritor ganhou destaque com Graça Infinita (Companhia das Letras, 2014), romance ambientado em um futuro distópico em que Estados Unidos, Canadá e México se unificaram e os anos passam a ser patrocinados por corporações. Antes do sucesso do romance, porém, ele escreveu ensaios e críticas para revistas e jornais nos anos 1990. Nesses textos, transformava experiências banais em reflexões profundas, narradas com humor, ironia e um uso obsessivo de notas de rodapé. Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio que Longe de Tudo reúne alguns desses ensaios sobre temas variados. Leia também: Dalloway O colapso sonoro de Gloios Is It College Yet? O texto de abertura, que dá título ao livro, apresenta as impressões do autor sobre a Feira Estadual de Illinois, uma das maiores celebrações agrícolas e culturais dos Estados Unidos. O que poderia ser trivial ganha força com a escrita de Wallace, que relembra um trauma de infância (quando foi bicado por uma ave), critica a adultização precoce de crianças e observa, com ambivalência, o esforço coreográfico das balizas em busca de um espetáculo perfeito. O ensaio assume a forma de diário, aproximando o leitor da experiência subjetiva do autor. "15/08/8h40. Um Ronald inflável do tamanho de um carro alegórico, sentado e perturbadoramente semelhante a um Buda, reina no lado norte da tenda do McDonald’s. Uma família está tirando foto em frente ao Ronald inflável, arrumando as crianças numa pose calculada. Anotação no bloco: Por quê?" (Capa: Elisa von Randow) O segundo ensaio é o mais longo do livro e, consequentemente, o mais cansativo. Em "Uma coisa supostamente divertida que eu nunca mais vou fazer", ele narra os excessos de uma semana a bordo do navio de cruzeiro MV Zenith, rebatizado por ele como Nadir. A partir da viagem pelo Caribe, o autor aprofunda sua crítica ao consumismo e à lógica da satisfação permanente vendida pela indústria do lazer. Já no terceiro ensaio, o mais curto, defende que Franz Kafka é engraçado, mas que, para enxergar o humor do autor austro-húngaro, é preciso atenção e repertório. "Pense na lagosta" é um dos textos mais provocativos da coletânea. Com humor e ironia, Wallace questiona a moralidade de cozinhar lagostas vivas, deslocando o leitor do conforto gastronômico para um debate ético desconcertante. O famoso discurso de formatura de 2005 no Kenyon College também integra o livro. Em "Isto é água", o autor propõe um exercício de atenção ao outro e às pequenas banalidades do cotidiano como forma de escapar do automatismo da vida adulta. "(...) O tipo realmente importante de liberdade requer atenção, consciência, disciplina, esforço e a capacidade de se importar genuinamente com os outros e de se sacrificar por eles inúmeras vezes, todos os dias, numa miríade de formas corriqueiras e pouco excitantes. Essa é a verdadeira liberdade. Isso é ter aprendido a pensar. A alternativa é a inconsciência, a configuração padrão, a "corrida de ratos" - a sensação permanente e corrosiva de ter possuído e perdido alguma coisa finita." Por fim, "Federer como experiência religiosa", escrito durante um torneio em 2006, descreve o tênis de Roger Federer como uma experiência estética sublime, quase celestial. O texto se transforma em meditação sobre beleza, técnica e transcendência. O próprio título da coletânea antecipa o paradoxo central da obra: a sensação de afastamento constante, mesmo quando se está cercado de estímulos, pessoas e discursos. Wallace escreve a partir desse deslocamento, isto é, um lugar de observação em que participa do sistema que critica, sem fingir neutralidade. O resultado de Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio que Longe de Tudo oscila entre reportagem cultural, reflexão filosófica e confissão pessoal, sempre atravessado por notas de rodapé que ampliam, tensionam e por vezes desviam o argumento do escritor. Talvez meu antigo professor ainda exija um lead mais direto. Mas, depois de Wallace, fica claro que a força de um texto pode estar justamente na recusa em começar pelo óbvio e na procura de conversar com o leitor.

Conheça: Bruno Tenório
Bruno Tenório, artista pernambucano radicado no Reino Unido, construiu sua narrativa sonora e visual em torno da mistura de gêneros musicais. Baterista desde os 12 anos, o músico apresenta NAUPENC (2026), seu álbum de estreia, que marca a passagem de uma atuação majoritariamente instrumental para uma identidade mais definida como compositor e produtor, sem romper com a força rítmica que sempre guiou seu trabalho. Com dez faixas, NAUPENC é um projeto essencialmente eletrônico, estruturado a partir do ritmo como eixo central. Três músicas contam com bateria acústica, enquanto as demais exploram padrões eletrônicos interligados, pensados minuciosamente em textura e timbre. O resultado é atravessado por uma psicodelia mutante, que se adapta a cada composição, criando um ambiente sonoro de estética retrô-futurista e em constante transformação. (Créditos: Divulgação/Reprodução) O álbum é fruto de um processo longo de maturação. As ideias que o sustentam acompanham Bruno Tenório desde sua formação no conservatório pernambucano de música, especialmente os estudos de polirritmia desenvolvidos ao lado de Hugo Medeiros, além da vivência em práticas coletivas de frevo e forró. Essas referências emergem de forma sutil nos ritmos nordestinos que atravessam o disco, dialogando com influências internacionais que vão de King Crimson e Tool a John Frusciante, Aphex Twin e a pulsação pop eletrônica do Daft Punk. "A música é construída por meio de ostinatos e polirritmos sobrepostos, frequentemente executados por sintetizadores, com o conceito orientador de que instrumentos melódicos podem funcionar como vozes rítmicas", explica Bruno. "A percussão e o design de som são intencionalmente focados em polirritmia, criando momentos em que o ritmo se torna melodia e a repetição se torna narrativa emocional", complementa o artista. Além do disco, a obra se desdobra em uma experiência audiovisual. Em parceria com o artista visual e designer gráfico Raul Luna, Bruno Tenório lança o filme experimental NAUPENC , dirigido por Luna. A história se passa em um passado alternativo, que imagina um Brasil dos anos 1980 transformado em potência nuclear, onde o programa NAUPENC funciona como uma espécie de terapia futurista.

Escuta aqui!
No próximo sábado, 28, a partir das 13h, o Paço das Artes, inaugura a exposição de arte sonora Escuta aqui!, que coloca o som no centro da experiência artística. Além disso, o espaço recebe, no mesmo dia, Novas Frequências, festival dedicado à música experimental, à música de vanguarda e à arte sonora. A exposição coletiva Escuta aqui! selecionou obras e artistas variados, que pensam suas poéticas através de outras linguagens sonoras, para além das visuais, a partir de instalações, objetos sonoros, vídeos interativos, tecnologia, memória e cultura popular. Escuta aqui! Local: Rua Dr. Albuquerque Lins, 1345 - Higienópolis, SP Horário de funcionamento: terça a sábado, das 11h às 19h | domingos e feriados, das 12h às 18h Ingresso gratuito

O colapso sonoro de Gloios
Ninguém pensa em morte. E, quando alguém pensa e tenta falar sobre o assunto, costuma ser ignorado com violência ou com um sinal da cruz apressado. Nas artes, porém, acontece o oposto: aquilo que é silenciado na realidade ganha forma, corpo e linguagem. Prensado (2026), de Gloios, projeto musical de Rafael Xavier, explora a fragilidade da existência a partir de referências literárias e musicais. (Créditos: Divulgação/Reprodução) Antes de se tornar um álbum, a obra surgiu como um conto surrealista: um homem esmagado pelo próprio apartamento. A imagem, ao mesmo tempo absurda e brutal, carrega uma força simbólica. A partir disso, a narrativa se desdobra em múltiplas camadas - vergonha, morte, ansiedade e opressão - enquanto São Paulo surge não apenas como cenário, mas como presença ativa que aperta, acelera, sufoca. Dessa maneira, a morte não aparece como espetáculo, mas como consequência de um acúmulo de pressões sociais, arquitetônicas, mentais. Esse mesmo fio emocional que costura o conto conduz sua transformação em um álbum de post-rock experimental brasileiro. Em sua versão musical, Prensado amplia as sensações já instauradas na narrativa e as traduz em som, mostrando as oscilações da vida. "É sobre pegar um tema pesado - não necessariamente um tabu, mas algo complexo, difícil até para mim - e talvez deixá-lo um pouco mais leve com a música. É sobre seguir entre dias bons e ruins, que oscilam, e também mudar a ótica dessas coisas que, às vezes, são boas e ruins, como a própria vida", explica. Leia também: Sentimental Value Os ruídos sonoros da Cambaia A paisagem sonora de João Castellani O fio emocional está presente desde Lide (2022), primeiro álbum do músico. Ali, Gloios já ensaiava contrastes entre tensão e delicadeza, ruído e introspecção, inaugurando a ideia de que a música poderia traduzir estados emocionais instáveis. Mas foi em Natureza Errada (2024) que o artista encontrou sua narrativa com mais clareza ao incorporar gêneros brasileiros, como baião, forró e xote. Já em Polvorosa (2025), essa construção ganhou novas camadas, aprofundando a investigação sobre instabilidade, ruína e reconstrução. O trânsito entre diferentes gêneros tornou-se ainda mais fluido, preparando o terreno para a radicalidade conceitual de Prensado . Assim, Gloios constrói uma obra que atravessa linguagens sem perder coesão. Do acontecimento surreal ao conto, do conto ao álbum, da trajetória iniciada em Lide à consolidação narrativa em Natureza Errada e ao amadurecimento em Polvorosa , tudo permanece conectado por um mesmo núcleo afetivo. Prensado não trata a morte como espetáculo, mas como sintoma de um mundo que esmaga o indivíduo simbolicamente e literalmente. "O nome Gloios me apareceu numa aula de história que eu gostei muito e o nome da coisa fez total sentido para o que eu pretendia lançar. Gloios, no período da Grécia Antiga, era considerado uma poção que as pessoas criavam a partir do suor de gladiadores, então uma coisa feita de sujeira, de suor, de lixo praticamente, para se criar uma coisa bonita. Então a ideia era meio que servir para que esses gladiadores tirassem todos esses resquícios sujos para que eles passassem no corpo depois e aí isso deixasse eles fortes, deixasse eles com muito vigor." Você define o projeto como "um carnaval de pós-música que, por si só, recusa-se a ser uma única coisa". Partindo dessa imagem tão plural - o carnaval como espaço de encontro entre ritmos, corpos, linguagens e contradições - de que maneira essa ideia de mistura e excesso se traduz no seu processo criativo? A interpretação que você teve é justamente isso, tanto em questão de som, porque é como eu falei, eu não vou me limitar - se eu quiser misturar samba e black metal na mesma música, vou fazer isso. Volta muito também para a coisa da temática, [sobre] trabalhar o que eu acho feio, desengonçado, desagradável, de uma forma - não diria organizada - leve, talvez… Não digo também bonita em todos os casos… Acho que é um espaço controlado pra fazer música desesperada, tipo, eu quero falar de coisas desesperadoras, de um sentimento muito incômodo, mas, de novo, é um espaço controlado dentro de uma composição e dentro dessa composição acho que ser desesperado tá liberado e é leve, sabe? É tudo muito conflitante no Gloios e é intencionalmente conflitante, tanto a sonoridade quanto a letra. Eu acho que uma coisa que representa muito bem toda essa ideia é o final que eu pensei para Natureza Errada , com a música "Pés de Vento", que é uma música enorme - acho que é uma das músicas mais enormes que eu já fiz - que [traz] o baião, xote, forró, misturados com post-rock; e nessa faixa final eu tento [fazer] algo que soe como metal pra justamente ter essa quebra de expectativa, só que o fim da música é coisa mais calma do álbum inteiro. É uma bagunça, mas é organizado porque pensa onde cada parte da bagunça entra, mas é pra ser conflitante, pra ser desordenado, por isso, essa ideia de pós-carnaval. Capa de Prensado (Créditos: Divulgação/Reprodução) O momento em que você coloca suas músicas no ar geralmente a obra não é mais sua porque cada um vai ter a interpretação desejada, né? Você não fica com receio de que um ouvinte possa compreender de outra maneira ou que você, Rafael, por trás da persona seja muito descoberto? Eu acho que, às vezes, eu tenho um pouco de receio que eu, Rafael, seja descoberto nesses contextos, mas eu gosto muito assim da coisa ir para um rumo totalmente diferente do que eu planejei. Eu já ouvi, por exemplo, as pessoas falarem que acham algumas músicas do Polvorosa, meu álbum anterior, uma coisa meio otimista, pra cima… Eu acho muito legal essa perspectiva, eu não consigo exatamente encaixar a coisa nessa perspectiva, mas eu não quero também impor essa minha perspectiva de "nossa, é uma música sobre ansiedade!" Eu acho foda ver que a coisa e também acho que é um benefício da música instrumental, né? Porque a música é uma coisa muito dinâmica. Eu passo por vários gêneros, às vezes, eu misturo uma coisa ali de baião com sei lá, samba e post-rock metal e não sei o que é e acho que isso vira, de alguma forma, uma narrativa que faz sentido para as pessoas, mas zero da forma que eu planejei e isso é um negócio que eu gosto muito. Inclusive, com o Prensado que tem o conto, teve uma página gringa que divulgou o Prensado e eles disseram que - eles baixaram o conto no Bandcamp , traduziram o conto, eu não entendi exatamente o porquê já que eu traduzi também, mas eles traduziram do português para inglês - o conto embananou a cabeça deles, porque era uma coisa meio "eu não sei se é um literal apartamento que esmaga um personagem, ou se é uma coisa que aconteceu na cabeça dele, ou se é uma coisa metafórica", e assim em português também é para gerar essa confusão, não é só para gringos, sabe? Eu gosto da ideia de gerar essa ambiguidade no que a coisa fizer sentido para você tá ótimo. Aproveitando essa palavra ambiguidade, o que você quer causar no ouvinte? Eu acho que eu quero confundir, sabe? Eu acho que eu quero quebrar as expectativas toda hora… Quando eu lancei Natureza Errada , que era uma coisa muito voltada para a música nordestina, que é muito importante para o meu contexto familiar e tudo mais, eu gostei muito de ter trabalhado essa identidade e eu pensei "acho que agora eu vou lançar um álbum simplesmente de black metal, de death metal, de gritaria, de alguma coisa e acabou. Depois eu lanço um de música ambiente e acabou também." Mas eu também gosto de trabalhar muito essa ideia com essa identidade que eu criei e ficar brincando com essa identidade… Mas, às vezes, eu tenho muito vontade de lançar um projeto mais pesado ou, às vezes, uma coisa até mais leve que eu já lanço no Gloios… Acho que eu nunca fiz nada tão… [olha para o lado] Ser fora da casinha já é uma coisa meio que esperada e para que o próximo [disco] seja uma coisa meio alucinada; mas em algum momento eu ainda quero fazer, por exemplo, essa ideia de lançar um álbum de metal que, talvez, encaixe essa identidade…. Eu gosto muito de explorar, eu gosto muito de música no geral e a ideia pra mim sempre é tentar brincar com o que eu acho interessante no momento, sabe? Mas eu sempre tenho vontade de alguma forma surpreender mais, dentro de uma identidade do projeto, sabe? Existe apenas uma identidade? Visto que Gloios tem muita coisa… Poxa, eu acho que sim. Acho que uma só, mas que essa uma só é essa identidade muito… Ela muda, ela é estranha, não é estável - esse é o ponto. Eu acho que é uma [identidade e] que em uma música você percebe essa variação maluca, sabe? Eu nunca pensei em ter mais, uma coisa de tipo "agora é isso e depois é isso" porque justamente em uma única música eu mudo tudo… E aí eu acho que acaba sendo só essa, a identidade mesmo do Gloios de ser sujeira e coisa bonita com um propósito bonito em uma única coisa, sabe? Você lançou suas primeiras músicas e eles tinham uma cara de trilhas de filmes, algo mais experimental. Conforme o tempo foi passando, sua música foi se transformando. Como você vê sua trajetória nos dias atuais? Eu acho que eu tive uma evolução musical que eu julgo ter sido muito interessante pra mim. Eu tenho zero conhecimento teórico de música, eu conheço muito pouca coisa em teoria e eu tenho um conhecimento muito prático mesmo de tocar, né, não de saber exatamente o que eu tô fazendo… Isso é engraçado porque ano passado eu fui tocar ao vivo com o Gloios e eu nunca tinha tocado ao vivo, nunca pensei também em tocar ao vivo, porque eu faço tudo sozinho, tem guitarra, baixo, tudo mais que eu toco os instrumentos mesmo e gravo, só que tem muita coisa que eu faço digitalmente, então, eu componho peça por peça da bateria, eu componho peça por peça dos sintetizadores dos pianos… Eu fiquei meio confuso de como passar isso pra um show ao vivo, né? Mas um amigo meu me deu o suporte, um amigo meu completamente aleatório que sequer trabalha com música, ele só quis me dar o suporte eu chamei ele pra me ajudar, e aí eu nem sabia explicar pra ele exatamente como tocar as músicas, "sei lá, faz assim…" [faz gestos como se tivesse tocando] Não tem muito a coisa da teoria, sabe? Eu não sei que nota é essa, faz isso e acabou. Mesmo fazendo tudo assim, sempre foi desse jeito, eu acho que a grande coisa que tem desde o meu início é ter a identidade que eu acho que é minha mesmo, não sinto que eu tô copiando nada e isso é engraçado, porque enquanto você faz as coisas eu acho que você não percebe - pelo menos eu não lembro de ter isso muito claro quando eu comecei a fazer música -, mas quando eu escuto hoje as coisas que eu lancei no passado eu acho… Puta, beira o brega pra mim, eu acho a coisa copiadíssima do Deftones, copiadíssima de um monte de banda [sorri] . Aí eu fico pensando "puta por isso que eu só montei um Frankenstein ali das coisas que eu gosto." É um recorte legal de pensar, pô quando eu comecei a fazer música eu gostava muito dessas bandas e agora sim, o meu leque de referências ficou muito maior né, então eu acho que as coisas que eu fazia elas eram muito genéricas justamente porque eu só ouvia o tipo de música que eu queria fazer. Quero fazer post-rock, então vou ouvir tudo de post-rock, ou sei lá, quero fazer uma coisa meio black metal, ouvi tudo de black metal… Desde esse período eu comecei a expandir demais meu gosto musical, ainda gosto muito de todas essas coisas de post-rock, de shoegaze e de black metal, mas eu comecei a ouvir muito música brasileira, eu expandi muito meu gosto também com hip hop - e eu já gostava bastante de hip hop na adolescência -, mas nunca tinha de fato colocado nada de hip hop nos projetos que eu fazia; mas de alguma forma também trabalhar com os samples é uma coisa que vem desse meu gosto pro hip hop - eu não trabalho beats, né, mas eu trabalho muitos de sample, então tem muito diálogo de filme, de entrevista, de tudo quanto é coisa [nas minhas músicas] . O que eu vejo de legal dessa evolução é esse leque de referências que eu expandi que é de ouvir coisas novas, eu tô sempre propondo ouvir coisa nova e coisa nova mesmo [ênfase na palavra] . Eu gosto muito de me desafiar musicalmente. Essa ideia de expandir o leque de referências nem é só pra uma questão de coisas que eu gosto, até eu acho, tipo, "nossa, achei isso legal e talvez me inspire pro futuro", às vezes é uma coisa de produção, um detalhe que eu fiz de um jeito em uma gravação anterior e aí eu ouvi alguém fazendo um detalhe mínimo de como aquilo foi mixado que me interessa e aí eu me proponho também a fazer uma coisa melhor, mais desenvolvida, sabe? Então eu acho que é muito de um conhecimento de escuta mesmo, não tem nada muito além disso, sabe? Você falou que tocou ao vivo com o projeto, mas quando ouvi pela primeira vez, eu tive a impressão de que era um tipo de música que era para ser ouvida repetidamente apenas pelo fone, sem ter a apresentação ao vivo. Como foi levar essa experiência para outro lugar? Foi esquisito, eu achei bem esquisito [sorri de canto] . Eu tinha esse meu amigo que tocava as coisas que eu falei "ó, toca isso" e aí, enquanto ele tocava o que eu pedia, que era a base das coisas, eu fiquei tocando a maior parte das coisas, esses trechos mais ambientes. Eu usei uma guitarra com muito delay, com muito reverb, que só ficava com um som super de fundo, sabe? Era uma coisa muito etérea, não tinha percussão, eu decidi não colocar nada de percussão pra deixar mais simples e ficou mais calmo para o padrão de uma coisa do Gloios, e eu separei alguns samples pra tocar no momento… Na verdade, alguns samples até eram de percussão, mas era uma coisa muito mais sutil do que uma bateria; era um triângulo, sabe? Eu deixava ali o triângulo de um xote tocando… Foi uma experiência interessante e foi uma coisa que eu não planejava também, foi só uma coisa que chegaram a mim e falaram "gostei do seu som, quer tocar ao vivo?" Eu ainda fico conflitado porque eu achei legal, só que eu também achei meio desembolsado, porque… É justamente o que você falou, eu acho que não combina muito a ideia… Você não pretende fazer mais shows? Não agora, pelo menos. Talvez em algum momento, mas eu teria que encontrar uma forma que me satisfaça de brincar com essas dinâmicas porque eu acho que no show… Aí é que tá a coisa do show também, os trechos que eram mais calmos, mais tranquilos das músicas, eu acho que foram ótimos, acho que soou muito legal, mas tudo que era um pouco mais alto, distorcido e rápido não soou legal, então, eu acho que eu queria encontrar uma forma de casar essas dinâmicas de um jeito legal, porque eu não queria tocar só música calma ou só música rápida e caótica, sabe? Assim que eu encontrar uma forma de fazer isso e que me agrade aí, talvez, eu pense na ideia de fazer um show mesmo, de uma forma concreta. Mas eu também acho que o foco do projeto é muito mais [para por um momento e pensa] escutar o álbum do início ao fim com o fone na sua casa, sabe? Acho que você aproveita muito melhor do que curtir no show, porque ali não tem toda a brincadeira da produção, da mixagem. "É legal ver que o projeto faz sentido para pessoas que eu não conheço, sabe? Perceber que o projeto saiu do meu alcance é muito legal." Cada álbum traz um tema que se expande em uma narrativa intimista. Como funciona esse processo de criação? Os temas surgem de acordo com o que você vive e/ou sente? Muitas das vezes sim, mas às vezes é um processo bagunçado também. Eu não sei exatamente se é por escolha, essa ideia de "vou trabalhar com este tema", mas acho que a coisa do Natureza Errada, álbum mais forte nesse sentido, eu tinha muito claro que a ideia fosse sobre luto. Quando eu comecei a criar, eu pensava como eu lidava com o assunto e até digo na página do Bandcamp que é "um álbum para os meus mortos", essa coisa de não só relembrar essas pessoas que já estiveram vivas, mas também um período de lidar com o luto, né? Acho que é uma coisa que só flui mesmo. Polvorosa também foi muito nesse sentido de pensar em ansiedade e trabalhar com coisas que envolvessem o tema… É complexo dizer de onde surgiram os temas, mas os temas são todos meus - é sempre [sobre] uma coisa que vi ou vivi de alguma forma. Por ser uma coisa muito fragmentada, às vezes, eu tenho essa coisa de pensar que a graça do projeto vai ser pegar esses problemas, esses conflitos que tenho, e trabalhar de uma forma leve, sabe? Às vezes não completamente leve mas, ao menos no processo, eu estou fazendo alguma coisa para aliviar esses temas, sabe? Em Natureza Errada você trabalha o luto, já em Polvorosa , o disco seguinte, você traz a ansiedade, depressão e até mesmo a morte como temas principais, porém, existe um toque de esperança. Quando você completa esse caos, consegue alcançar o controle e imaginar o futuro com essa esperança? Eu acho que sim, sabia? Eu acho que desde Natureza Errada crio as coisas com esse propósito. Tudo que eu faço é questionavelmente melancólica, as coisas são bastante pra baixo, mas eu não gosto que as músicas sejam extremamente infelizes. Acho que nada do que eu fiz me dá uma sensação muito pra baixo, desestabilizante pra mim… Acho que a única coisa que eu criei, que eu acho bastante pra baixo, tá no álbum Lide - acho que o Lide no geral é desesperador -,mas eu ainda tento colocar coisas leves no meio. Esses espaços de respiro [que estão nas músicas] não são apenas espaços de respiro, eles são justamente, como você comentou, para que reine a esperança de alguma forma. Pra mim, os temas pesados estão sendo trabalhados de uma forma… Eu acho que tem dois pontos aí: é um desafio artístico: falar sobre temas pesados sem ser muito pra baixo, sem ser desesperador, eu gosto de ter um contraste ali no tom que eu tô trabalhando só pra pensar mesmo nesse esforço criativo; outra grande parte da coisa é eu não querer criar uma coisa sem o propósito - eu quero ter um propósito no fim das coisas. Eu acho que tudo que eu faço tem uma coisa de esperança, um toque de saudosismo, sabe? Eu realmente tento fazer com que as coisas sejam agridoce, nem felizes e nem tristes, agridoce. "(...) Eu simplesmente sinto que não tenho mais corpo e às vezes, quando luto para fazer algum esforço (já não sei se físico ou mental), sinto pequenos pedacinhos de pedra se movendo em algum lugar. Claro que pode ser apenas a minha imaginação, mas e se essas pedrinhas forem o meu novo eu, ou até mesmo os meus descendentes? Que situação virar um só com os escombros." (página 19 do conto Prensado)

Dalloway
Em 1929, Virginia Woolf escreveu sobre os obstáculos sociais que impediam a produção intelectual feminina em Um Teto Todo Seu . Para ela, "uma mulher precisa ter dinheiro e um teto todo seu, um espaço próprio, se quiser escrever ficção." Quase um século depois, o cenário mudou: é possível escrever no bloco de notas do celular durante o trajeto ao trabalho, em cafés, bibliotecas e até em aplicativos que corrigem, sugerem e até completam frases. A partir dessas transformações culturais, Dalloway (Yann Gozlan, 2025) propõe uma crítica ao avanço da Inteligência Artificial na contemporaneidade. O filme parte de uma premissa contemporânea - a integração entre vida cotidiana e tecnologia - para explorar o quanto delegamos às máquinas tarefas que antes considerávamos íntimas, como organizar ideias, escrever textos e tomar decisões. Nesse contexto, Dalloway (voz de Mylène Farmer), uma IA, auxilia o dia a dia de Clarissa (Cécile de France), escritora que já experimentou o sucesso, mas agora enfrenta um bloqueio criativo. Leia também: Sentimental Value Memórias de uma Beatnik Johnny Panic e a bíblia de sonhos (Créditos: Divulgação/Reprodução) Instalada em uma conceituada residência artística voltada à inovação tecnológica, Clarissa recebe o suporte necessário para reencontrar sua voz. A narrativa, porém, ganha novos contornos quando ela conhece Matias (Lars Mikkelsen), membro da academia. Para ele, os artistas participantes do programa são, na verdade, cobaias para modelar e aperfeiçoar futuras versões de Inteligências Artificiais. Sentindo-se constantemente observada por Dalloway, a protagonista inicia uma investigação para descobrir as verdadeiras intenções de seus anfitriões. Tendo uma pandemia global como pano de fundo, Dalloway se passa em um cenário futurista saturado de dispositivos e interfaces digitais. Esse excesso, contudo, revela uma fragilidade: ao tentar ampliar sua crítica à atualidade, Gozlan dispersa o foco e não aprofunda plenamente seu tema central. É a atuação de Cecile que se destaca, sustentando o suspense que atravessa o drama familiar e acompanha a transformação da escrita de Clarissa. O diálogo com Virginia Woolf não é mero ornamento intelectual. Ao escolher o nome Dalloway, o filme propõe uma inversão simbólica: se em Mrs Dalloway (1925) o fluxo de consciência é singular e profundamente humano, na obra ele se torna simulável, isto é, a IA imita a introspecção, mas não vive, portanto, não é verdadeira. A pergunta final de Dalloway é urgente: quando a tecnologia começa a escrever conosco, ainda somos plenamente autores?
