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  • Foto do escritorMichele Costa

A luta de Pexera HC

No poema "Rondó da Liberdade", escrito no presídio de São Paulo em 1939, Carlos Marighella retrata a necessidade de enfrentar o medo para alcançar a independência. Seguindo a coragem do militante baiano, o trio Pexera HC apresenta canções que refletem o cotidiano e as dificuldades da periferia nas cidades, além das negligências dos últimos governos.


Formado por Erison Silva, Magno Fox e Victor Max, a banda surgiu em 2022 no Alto José do Pinho, zona norte do Recife. Com letras potentes e elementos do punk, hardcore e metal, Pexera HC denuncia o retorno da extrema direita, fascismo e os desmandos do governo anterior em "Pexera" (2023), primeiro álbum do trio. Inclusive, os músicos retratam Marielle Franco e Marighella em "Vão Me Matar", canção política que não nos deixa esquecer dos assassinatos diários contra os brasileiros que lutam por um país justo.


"A Pexera HC tem como iniciativa levar junto a poesia da periferia de onde vive. Esperamos que isso seja feito em todo novo disco que lançamos", comenta Magno, baixista do trio. Com letras do vocalista Erison, o álbum foi gravado entre o final de 2022 e início de 2023 no estúdio O Palco, por Daniel Farias.


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Além do retorno do fascismo no Brasil, a pandemia impactou na criação do trio?

Erison: Impactou de forma bem presente, pois a raiva, a revolta e até mesmo o ódio de ver um absurdo diferente todo dia no brasil fez com que eu pegasse a guitarra e começasse a trampar nas músicas, ou seja, foi uma forma de canalizar toda aquela revolta que sentia naquele momento, e com isso as letras começaram a ser feitas de formas rápidas e natural, pois o que tinha de inspiração naquele momento não era brincadeira.

Magno: Isso também foi um fator importante para criação de uma banda com 3 componentes, a logística ficava bem melhor com poucos problemas e até as marcações dos ensaios ficaram melhores com esse número de componentes e com isso tentamos manter ao máximo o distanciamento.


"Pexera" mistura diversos gêneros musicais para relatar o cotidiano da periferia das cidades, mostrando as dificuldades. Como foi o processo de escrita até o momento da gravação? Cantar a realidade é difícil?

Erison: Como eu disse, vendo o atual momento do país em que ele se encontrava foi válvula de escape para as letras surgirem de forma rápida e natural, eu pensava numa frase e em seguida já vinha outra e outra, até que chegou o momento de eu escrever de forma muito fluida, podendo usar até o "speed flow" na hora de cantar, ou seja uma estrofe inteira de 3 ou 4 linhas cantado de uma vez só, sem parar. Magno: Não se torna difícil falar do nosso cotidiano porque é aquilo que vivemos desde sempre, o que é difícil mesmo sempre foi arrumar grana pra tocar, comprar instrumentos que na maioria sempre foi emprestado, pagar os estúdio para ensaiar e poder até se deslocar para os shows, ainda bem que com a Pexera HC nós já somos adultos e com os seus empregos.


Estamos em um novo cenário político, no entanto, poucas mudanças aconteceram. Pergunto: como vocês veem o futuro do país?

Erison: Eu não vejo muitas mudanças num futuro próximo, mas tirar o Bolsonaro do governo já surtiu efeito como, melhoria de vida dos povos originários, melhoria de vida dos povos quilombolas, precisamos mais, muito mais, como melhoria de vida dos trabalhadores honestos, para as pessoas que vivem em situação de vulnerabilidade e também a classe LGBTQIA+. Nos shows deixamos claro que não estamos aqui pela a figura de ninguém e por nenhum partido, e sim pela luta popular.

Magno: Como em uma de nossas letras tem a indicação que não temos políticos de estimação, seguimos firme na oposição de todo e qualquer político que estiver no poder, é claro que nesse governo podemos combatê-lo dentro do campo democrático, enquanto que no anterior tínhamos claramente uma forma de fascismo à brasileira que se continuasse poderíamos virar uma Itália do início dos anos 40, acredito que estamos vendo os erros cometidos pelo grupo anterior e entendo que iremos evoluir a um ponto onde a desigualdade beire a não existir.



Em "Vão me Matar", vocês evocam Marighella e Marielle, dois brasileiros assassinados. Como manter a cabeça erguida e não morrer em uma sociedade preconceituosa?

Magno: Gritando e mostrando em nossas letras que estamos aqui, mesmo com o medo e o receio de ser calado de alguma forma, estaremos sempre tentando implantar a plantinha de uma sociedade mais justa para todos e sem níveis, classes ou raças, todos iguais em uma só forma. Erison: Marighella amava o país e morreu por ele, apesar de não concordarmos com a luta armada o amor pelo o nosso país faz com que seguimos sua ideologia de vida, essa é a real essência: lutar pelo trabalhador honesto e suas melhorias. Marielle lutou diretamente contra o fascismo contemporâneo no Brasil, contra a milícia armada, gritar que vão me matar assim como mataram Marighella e Marielle é uma baita de uma péssima ideia, sabendo que seguidores do fascismo voltaram a se esconder nos seu altos prédios e condomínios de luxo, o fascismo é rico e manda pobre de extrema direita matar pobre. Tivemos um show marcado onde uma das bandas foi cancelada por seguir a extrema direita, confesso que fiquei com medo de tocar nesse show, de levar nossas bandeiras antifascistas e levar um tiro ou uma facada na trairagem, porque é isso que acontece, só atacam na trairagem.

E no fascismo vem tudo num pacote só, racismo, homofobia, machismo e xenofobia, que deixou de ser apenas aversão ao estrangeiro, e passou a ser também aversão a quem é de outro estado, no qual eles dizem ser mais humildes, mais pobres e até mais burros.

O álbum termina com "Oco", poema de Jailson de Oliveira. Qual o impacto do poeta em vocês? Magno: Aprendemos nas escolas públicas diversos tipos de arte como o teatro, a música, as artes plásticas e a poesia como um transformador de vidas e tendo Jailson como um dos principais poetas da cidade do recife, nada melhor que abrilhantar o nosso trabalho com a participação dele.

Erison: Eu conheci Jailson em 1997 e desde então eu o sigo nas suas loucuras. Passei alguns anos sem frequentar o POESIS devido a trabalho e família, porém o POESIS sempre esteve presente nas atividades culturais do Alto José do Pinho. Infelizmente várias bandas do alto nunca o deram total crédito por sua dedicação à comunidade e é daí que vem a frase “As pessoas não são mais as pessoas” - que eu só vim entender treze anos depois que o conheci, e sabendo disso e sabendo que nenhuma outra banda do alto o teve em seus trabalhos, fez com que eu falasse com Victor Max e Magno Fox para ter uma faixa de um poema dele, só dele e com o nome dele.

O centro cultural POESIS hoje é que está fazendo toda a movimentação do Alto José do Pinho desde de 1988 e hoje junto com nós da Pexera HC e que também formamos o coletivo Fervo estamos aqui para fazer com que as atividades nunca parem e que todas elas sejam dadas 100% de prestígio e valor a Jailson de Oliveira.


O fogo da capa do álbum vai além de uma ilustração: Erison, Magno e Victor estão queimando, assim como tantas pessoas que não suportam conviver com fascistas - por isso, a letra de "Churrasco" ganha potência. No entanto, é com a palavra "cuidado", repetida diversas vezes por Jailson de Oliveira, professor, ator e criador do grupo Poesis, que trabalha com luta política pela comunidade local através da arte, em "Oco" - última canção do álbum - que relembramos que é preciso se organizar para virar o jogo.


Os brasileiros resistem desde o descobrimento do país. Por isso, relembro a frase de Marighella: "Quero ser apenas um entre os milhões de brasileiros que resistem". As sementes foram criadas: de Chico Mendes a Nise da Silveira; de Padre Julio Lancellotti, a Mano Brown, passando pelas Mães de Maio até Pexera HC, que tem um único objetivo: nunca esquecer. "Tem aquele ditado que diz que o brasileiro tem a memória curta, pois estamos aqui pra lembrar a todos que tivemos um governo irresponsável, deixa de falar disso é passar pano pra fascista", comenta o vocalista.

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