OVM: Senóides
- Michele Costa

- há 1 dia
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Entre ondas de estabilidade e colapso, a mente humana não se move em linha reta. Pelo contrário, há desvios, espirais, ruídos internos difíceis de nomear. No EP Senóides, a banda OVM utiliza esse terreno instável para construir um trabalho que transforma desconforto psíquico em linguagem sonora, sem romantizar e sem amenizá-la - mostrando como ela é.
Composto por “Vestida” e “Senoide 1 / Senoide 2”, o lançamento aprofunda a pesquisa estética e conceitual que o trio vem desenvolvendo em torno da saúde mental. Formada em 2014 por Mancin, Dan Nascimento e Eddie, a OVM construiu uma identidade própria dentro do rock alternativo brasileiro ao equilibrar densidade emocional e energia instrumental.

Produzido, mixado e masterizado por Gui Godoy, da Casalago Records, Senóides encontra força justamente em suas contradições. “Vestida” nasce de uma revisita ao universo de “Nua”, reaproveitando uma base construída no violão por Dan Nascimento para revelar outra perspectiva da mesma narrativa. A faixa oscila entre melancolia e um sentimento de alegria contida, criando um ambiente de aparente suavidade que nunca se acomoda totalmente. Existe delicadeza ali, mas ela convive com um desconforto silencioso, como quem tenta reorganizar emoções ainda mal resolvidas.
É em “Senoide 1 / Senoide 2” que o EP alcança seu ponto mais inquietante. A música aborda os ciclos da esquizofrenia a partir de duas fases distintas: o período ativo, marcado por pensamentos intrusivos, paranoia e delírios, e a fase residual, quando a estabilização dos pensamentos surge acompanhada pelo medo constante de uma nova crise. O verso “e se o ciclo vencer, eu não vou suportar os olhos desse povo” sintetiza um dos aspectos mais violentos da experiência do sofrimento mental: o peso do julgamento externo.

A própria construção musical acompanha esse estado de instabilidade. Desenvolvida a partir de um compasso incomum em 7/8, surgido de uma linha de baixo criada por Mancin e posteriormente expandida com contribuições de Dan e Eddie, a faixa cria uma sensação de deslocamento contínuo. O ritmo parece impedir qualquer sensação completa de conforto, escolha estética que dialoga diretamente com a proposta narrativa.
Em Senóides, a OVM demonstra entender algo fundamental: falar sobre saúde mental na música não exige respostas prontas nem discursos didáticos. Às vezes, basta criar um espaço onde o desconforto possa existir sem ser simplificado. E, nesse território de delicadeza, estranhamento e tensão, o trio encontra uma das expressões mais interessantes de sua trajetória até aqui. Em outubro deste ano, a banda prevê o lançamento de Exúvios, novo álbum do grupo.




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