• Gustavo Geraldo

Impressões: The Beatles: Get Back

Revisitar o passado pode ser uma tarefa ingrata - à luz do presente, existem duas possibilidades: descobrir que as coisas não foram tão ruins assim ou perceber que o resultado é ainda pior do que se pensava. Para a nossa sorte, o revisionismo histórico do fim dos Beatles feito pelo australiano Peter Jackson (diretor da trilogia "O Senhor dos Anéis"), faz parte do primeiro grupo.


Em "The Beatles: Get Back" (2021), especial lançado em três partes pelo Disney+, Jackson reescreve a história e derruba alguns mitos que cercam o fim do maior fenômeno pop do século passado, há mais de 50 anos. O documentário traz uma perspectiva completamente diferente do gosto amargo deixado por "Let It Be", filme de 1970 dirigido por Michael Lindsay-Hogg.


Para começar, a animosidade e o ódio mútuo que sempre foram atribuídos aos últimos meses de vida da banda caem por terra. O que se vê na maior parte das quase dez horas de conteúdo é um grupo de amigos fazendo o que gosta. É claro que a tensão estava ali, mas boa parte das cenas mostra uma rotina não muito diferente de uma banda ensaiando na garagem de um dos integrantes (dadas as devidas proporções, é claro).


A banalidade captada nos ensaios (da conversa fiada aos covers de antigas canções) nos leva ao próximo grande feito de Jackson: a humanização da banda. É claro que, quando se fala de Beatles, o ato de retirar os "Garotos de Liverpool do Olimpo da música" e transformá-los em "quatro meros mortais" podem gerar debates acalorados, por isso, vou tentar elaborar com clareza esse pensamento.


Faz parte do imaginário popular tratar o processo criativo como um lampejo de genialidade que chega de repente, com todas as pontas amarradas. Bobagem. O nascimento de uma ideia envolve mais transpiração do que inspiração - prova disso é o tempo que a banda passa ensaiando e aperfeiçoando músicas como "Don’t Let Me Down" e "One After 909".


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Um dos momentos mais marcantes da série é protagonizado por Paul McCartney: ao perceber que a banda está sob pressão, o baixista começa a murmurar uma melodia ainda irreconhecível. Sob o olhar atento de George Harrison e Ringo Starr, o rascunho começa a tomar forma e, em poucos minutos, a estrutura de "Get Back" está pronta. Coisa de gênio? Com certeza. Mas, Macca não espera a inspiração divina, ele persegue a melodia até encontrá-la.


E por falar em Paul McCartney, a história de que o baixista teria se tornado um ditador no período final dos Beatles não parece totalmente verídica. Seu papel é mais parecido com o de capitão fazendo o possível para não deixar o navio afundar - mesmo que essa embarcação estivesse com problemas desde a morte de Brian Epstein, empresário e figura paterna da banda, em 1967. Apesar da determinação, até mesmo McCartney já imaginava que a banda estava chegando ao fim - mesmo que contra sua vontade; prova disso é a cena em que os olhos do baixista enchem de lágrimas ao pensar na separação do grupo.


Outra reparação histórica, que demorou pra chegar, é sobre a suposta influência de Yoko Ono, então namorada de John Lennon, no fim da banda. Yoko, que já tinha uma renomada carreira como artista antes mesmo de conhecer o beatle, está o tempo todo sentada ao lado de Lennon, ora pintando, ora lendo revistas, mas parece não se importar muito com o que está acontecendo - e é claro que ela está coberta de razão: essa é a prova de que ensaio de banda só é legal para quem está tocando, mesmo que a banda em questão seja a maior de todos os tempos. Para além da fantasia de groupie inconveniente que a história tentou colocar sobre ela, a artista parece personificar o afastamento de Lennon do resto da banda; não por tirania dela, mas por uma escolha consciente dele.


Acompanhar a gestação de músicas que apareceriam no álbum "Abbey Road" (1969), como "I Want You" e "Oh, Darling!" e a antológica "Something", de Harrison, ainda como um esboço, e outras canções que se tornariam clássicos nas carreiras solo de cada membro, como "Gimme Some Truth" de Lennon a "Another Day" de McCartney - é de emocionar qualquer fã. Uma passagem curiosa que mostra que até mesmo os Beatles cometiam alguns erros é o fato da banda não ter se animado com "All Things Must Pass", preferindo colocar "I Me Mine" no álbum. Ok, todo mundo erra, até mesmo a maior dupla de compositores de sua geração.



Em alguns momentos, a banda parece andar em círculos, sem conseguir encontrar o caminho certo para algumas melodias e arranjos. Paul é o mais rápido na hora de apresentar possíveis soluções para cada problema, tentando compensar o desânimo de Lennon e Harrison. Vale a pena dizer que a sobrevida que a banda ganha no momento em que Billy Preston chega no estúdio é evidente - tocando um teclado que vai do jazz ao soul sem nunca perder o brilhantismo ou pesar a mão, Preston é um membro tão importante quanto qualquer um dos outros quatro em "Let It Be". Se você acha que essa afirmação é um exagero, tente imaginar "Don’t Let Me Down" sem o toque de Billy. Pois é.


A forma como a ideia da apresentação ao vivo vai tomando forma ao longo dos três episódios chega a ser cômica: começa com propostas mirabolantes que vão de possíveis shows em hospitais infantis e orfanatos até que, com a data marcada cada vez mais próxima, a banda decide tocar no telhado do escritório da Apple, em Londres. Aos poucos, curiosos se aproximam de todos os lados da rua (e até mesmo do alto de outros prédios) para ver o que estava acontecendo. A eterna briga geracional sobre o que é bom ou ruim, música ou barulho, fica nítida quando um repórter entrevista os ingleses na frente do prédio: para os garotos e garotas, o entusiasmo com a banda é praticamente unânime. Já para alguns dos mais velhos, o show é uma arruaça.


Apesar da obra de Jackson mostrar uma banda que ainda se divertia fazendo música, é nítido que algumas feridas que surgiriam nos anos anteriores não foram cicatrizadas. Os quatros sentiam que o fim estava próximo. Em determinado momento, Harrison chega a manifestar a vontade de fazer um álbum solo com suas próprias músicas, enquanto Lennon parece estar ali apenas para bater ponto, como se trabalhasse em um escritório.


Seja por mágoas não superadas ou por decisões de negócios que aumentaram a distância entre os quatro, é difícil definir um único motivo que levou ao fim da banda. Na verdade, essa é uma questão meramente coadjuvante. O mais importante (e fascinante!) é pensar que quatro garotos de Liverpool se encontraram e, em apenas uma década, antes de alcançarem os 30 anos, criaram algumas das maiores pérolas da música pop e influenciaram o mundo muito além da música. Talvez a beleza disso tudo se aproxime da concepção do wabi sabi: de que tudo é imperfeito é transitório; e já que Peter Jackson conseguiu humanizar os Beatles, aceitemos suas imperfeições e transitoriedade.

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