Misturando rock, samba, grunge, eletrônica e música latino-americana e tantos outros gêneros musicais, a ZANZAR é uma banda independente que dialoga com os dias de hoje, ou seja, suas canções denunciam as atrocidades do governo genocida, questionam o futuro do país e pedem a igualdade financeira e social da população. É difícil rotular a banda, formada por Sara Nina (voz), Kevin B. (guitarra e voz), Bruno Muck (guitarra), Leon Gui (baixo) e Gui Lopes (bateria), pois possuem uma sede para fazer arte com tudo que está disponível - e se não tiver, eles criam! "A gente nem sabe o que faz", comenta Sara aos risos. Também não importa definir a banda, porque resistência e expressão são duas características da banda de Porto Alegre - e isso basta. Inclusive, por ter um diálogo tão forte com os dias de hoje, parece que a banda saiu de "O Ódio", filme de Mathieu Kassovitz; ao cantar com raiva pelo desprezo do governo com o povo brasileiro, a ZANZAR busca entregar de volta o Brasil para os verdadeiros patriotas que deveriam comandar o país: a classe trabalhista. ZANZAR é uma banda do ao vivo, ou seja, a essência da banda é mostrada quando eles tocam no palco e é desse modo que os ouvintes conhecem as facetas e a selvageria que cabe dentro de cada um. Por conta da pandemia, não é possível compartilhar essa energia, mas o EP "mó fita", lançado recentemente, pela Tal & Tal Records, mostra que a banda quer celebrar o caos, dar vozes aos excluídos e chegar em todos os cantos. É isso que a gente precisa! Leia também: A ossada de Gabriel Sanpêra AIUKÁ: o uivo dos dias de hoje Marcelo Cabral e o mundo pós-apocalíptico Uma coisa que me chamou atenção foi ver que vocês trabalham com vários gêneros musicais. Cês tem algum objetivo ao misturar todos os gêneros? Sara: É a nossa grande incógnita [risos]. A gente mistura muito porque cada um tem uma influência, né. O Bruno [guitarrista] estuda música, então, ele é um cabeção, um gênio, já escutou muita coisa e traz muita coisa também. O Gui, nossa batera, escuta muita música latina também, então a gente mistura tudo que a gente consome, absorveu durante o processo criativo. Kevin: Essa coisa louca que é a vida [há um corte na transmissão]. A canção "Meu País" foi composta em 2016, mas continua atual. Como é para vocês verem que pouca coisa mudou? Kevin: Eu escrevi no dia do impeachment da Dilma. Só saiu. Peguei o violão e usei essa vibe de tristeza… Eu escrevi isso [suspira] e ela foi se tornando cada vez mais atual, o que é bem triste. Sara: Foi a forma de prever o futuro - a gente tem isso também. Somos uma banda que prevê o futuro. Kevin: Tem muito essa vibe também. Pra mim é muito difícil falar da ZANZAR e sobre as coisas que eu faço, falar dos outros é muito mais fácil. Eu ajo e penso de outro jeito, porque tem aquela coisa que a gente fica soando como… O álbum todo não, mas tem essa vibe de prever o futuro, essa coisa de "Meu País" continuar piorando… Tá tudo bem conectado. A Sara disse sobre celebrar o caos e eu acho que é sobre ser mais uma pessoa falando sobre isso. Criar uma banda foi o momento que mais frustrou a gente, porque até na cena local, para a gente ser ouvido, é muito difícil a difusão… Ela existe, mas é meio monopolizada - de quem toca, de quem é ouvido… A gente, atualmente, tem uma banda em ascensão, promessa da cena gaúcha. Eu queria que a música tocasse aqui, no Leblon, tocar nesses lugares para a galera… É difícil! Vamos lembrar de 2016, quando a gente era um pouco mais feliz. Por que dar continuidade? Kevin: Uma forma de existir, mais do que resistir - pra mim faz parte de estar vivo. Eu tenho um selo de música e a minha vida é basicamente… Já era bem voltada a música, mas parece que ficou mais ainda afunilada para música. A gente continua todo o processo da ZANZAR, eu faço essa parte mais técnica, que nem a Sara falou, de mixar - sou meio nerd de mexer, então essa coisa de gravar em casa… No início de 2020 a gente gravou um disco em casa, só que a gente ficou super desmotivade de seguir fazendo isso, né. A gente acabou ensaiando. Ano passado teve o RS Music Lab que foi um evento aqui, que vem também da Natura, que a gente participou, e foi muito legal, mas enfim, faltou coisas no disco - porque a gente tem essa coisa de ter um som quente, de show. Então, a gente ficava tipo "por que vamos lançar um disco agora, quando não dá para tocar música?", sabe? Por isso que o "mó fita" nasceu - a gente meio que juntou tudo pra pelo menos esperar feliz… Não sei se é esperar… Acho que a Sara pode… Sara: É pra galera… O "mó fita", eu vejo ele como… Ele seria algo onde as pessoas comecem a enxergar o que é a gente. Acho que ali, no "mó fita", tá 60% da gente. E a gente tem muito mais, a gente cria muito mais coisas, mas no momento foi o que a gente conseguiu juntar para botar no mundo para a galera realmente conhecer a gente, pra gente botar material… Foi isso, colocar no mundo para a galera conhecer a gente, porque a gente tinha os materiais, mas eles estavam fragmentados na internet: tinha um pouco no Youtube, tinha duas faixas no Spotify, algumas fotos nossas em nossas redes… Então o Kevin teve a ideia de fazer "mó fita" e foi mó legal! [risos]. Kevin: Um cartão de visitas da gente mesmo, nem que seja na pandemia - uma forma digital, até por isso, tem diversos sons ao vivo, a gente gosta muito disso. A gente é uma banda de tocar, sabe?! Tem muita banda… É engraçado, sabe?! É um som bom de ouvir ao vivo. A gente tava muito nesse lugar. Tem uma coisa muito louca, você trabalhando também, essa coisa de pesquisa, sabe que a gente fala, e eu acho engraçado de falar no tal mercado da música, porque a gente é uma banda diferente, como você falou "que mistura tudo"... É muito difícil entrar em um nicho, sabe. Uma bolha, um lugar… O nosso lance é tocar ao vivo para as pessoas verem - você vai ver uma coisa que não conhece, teu amigo te leva no show da banda que você não conhece, e você vai lá e ouve… Sara: Tem aquela experiência do show, né. Kevin: Que é diferente de tal som… É meio que isso. A gente tá fazendo música hoje, porque é o que a gente quer fazer da vida, para além de sobreviver, trabalhar com a arte. Vocês são uma banda do ao vivo, lançados na pandemia, mas não podem tocar. Como tem sido? Sara: Engraçado tu falar isso, porque na semana do lockdown, do ano passado, a gente tinha o primeiro show do ano! Nossa! Puta merda! Sara: Todo mundo fica assim quando eu conto [risos]. Eu penso que a gente ainda tem um respaldo emocional porque a gente fez um show muito lindo no final de 2019. A gente tocou em um palco com uma estrutura incrível e foi lindo [suspira], né Kevin. Mas ao mesmo tempo foi muito frustrante essa parte do lockdown, porque a gente ensaiou, se preparou, tinha mais dois artistas que iam se apresentar com a gente dentro dessa banda do ao vivo, a gente teve que se reinventar. A gente teve que nadar junto com a maré. Hackear esse novo sistema, essa nova maneira de fazer arte para que ela não morra. A gente passou nesse edital do RS Music Lab e a gente teve a oportunidade de gravar no estúdio da Marquise 51, então a gente teve algumas faixas que foram gravadas lá, que foram ao vivo, e outras que gravamos no estúdio do Olímpio, e aqui na Tal & Tal Records. Kevin: E uma coisa que a pandemia fez foi a gente ouvir mais música, produzir mais músicas e soar nesse meio do mercado, de como ter esse lugar no ao vivo e o lugar no fonograma, no disco, no streaming, que é uma coisa que eu acho que vai fazer com que a gente gravou lá em 2020… Com certeza se a gente tivesse gravado e feito todo o processo em 2021, o mundo não tivesse passado por uma grande pandemia, será outro disco, sabe? As mesmas coisas que foram gravadas, agora que a gente vai começar esse processo de finalização… Sara: Mas é bem isso que tu falou mesmo, a gente conseguiu parar e enxergar a gente como uma banda para escutar em um radinho, no fone, no Spotify… Não só uma banda de show! Mas uma banda do "como as pessoas vão escutar a gente? como que o nosso show vai sair?". A gente teve que pensar nisso também, não só na hora da apresentação em si. E como foi essa redescoberta? Sara: Olha, da minha parte, eu acredito que tenha sido muito orgânico. O Kevin já trabalha com música, ele produz diversos artistas, então a Tal & Tal tá sempre lançando faixas novas, então eu acredito que isso foi sendo orgânico. A gente foi conversando, trocando informações, vendo o que a gente poderia fazer, quais seriam os próximos passos, qual seria a melhor estratégia e aí a gente chegou nisso. O Kevin chegou nisso, da gente se enxergar como uma banda de escutar e não só como uma banda de show. Kevin: Acho que a gente é tudo bem maluco [risos]. Isso é bem verdade! Sendo bem sincero. Eu sou musicólotre e nerd ao mesmo tempo e eu tento passar essa coisa… Eu cato esse lugar de produzir música desde moleque, mas na banda - a gente é uma banda mesmo! -, tem cada vontade, cada característica, e a pessoa faz que a gente seja diverso, como a Sara falou. Tem um pouco de cada ali. Quando a gente parou pra se escutar mesmo, o que eu notei foi… Como a gente sempre se encontra e ensaia, eu comecei a parar e me ouvir como se eu fosse… [Ver] para quem vai essa música. Inclusive tem isso, tem o lockdown, tá todo mundo no streaming, mas esse rolê todo fez com que eu começasse a pensar qual seria o nosso público mesmo, sabe? Quem vai ouvir isso? Porque aqui… Talvez se a gente fosse uma banda de São Paulo, acho que a gente tivesse mais… Mas também a gente não existiria! Quero dizer sobre cenário, essa diversidade… A ZANZAR tem muita força de ser social, política, de ser uma música que é... Sara: Celebração ao caos! Kevin: É! E essa coisa de ser, de tentar fazer alguma coisa… Não só pra gente sobreviver de música, no sentido de ganhar grana, mas de fazer uma música que seja… Uma nova vanguarda, alguma coisa nesse sentido, sabe? Isso é muito pretencioso de dizer, mas eu acho que a minha megalomania é nesse sentido mesmo: de buscar, de inventar coisas. Eu não quero fazer uma parada igual a outra pessoa porque eu quero ganhar muita grana com uma música produzida de tal jeito, eu quero produzir novas formas de fazer música. Acho que a ZANZAR se encaixa nesse lugar, nesse sentido. Agora, a gente tá prestando atenção de como fazer para direcionar o nosso som. Vocês buscam passar alguma mensagem aos ouvintes? Já que vocês são uma banda que celebram o caos, vocês esperam que os ouvintes se joguem com vocês? Sara: Também. Eu acredito que as pessoas que escutam e que vão escutar a gente, algumas se identificarão, mas eu, pessoalmente, quero que o nosso show chegue aos ouvidos de quem se nega a nos escutar. [Aquele] que se nega a ver a verdade, o nosso contexto de vida. Eu acho que a nossa música é isso. O meu objetivo pessoal é atingir uma classe para que eu não ache que tô fazendo isso a toa também. A gente faz música para botar para fora, mas também para expressar o que a gente vive diariamente - e a gente vive realidades diversas. ZANZAR está em todas as plataformas de streaming.

ZANZAR celebra o caos