Na infância, Patti Smith acreditava que poderia viver como Peter Pan e seus amigos na Terra do Nunca, vivendo diferentes experiências, sem alcançar a maturidade. A recusa em crescer tinha o objetivo de preservar a liberdade e sua imaginação. A artista, no entanto, precisou atravessar as experiências da juventude para abandonar essa ideia e compreender que sua criança interior não desaparece, ela apenas se transforma e encontra novas formas de existir. Em Pão dos Anjos (Companhia das Letras, 2026), Patti narra sua infância humilde à consagração artística; da descoberta da poesia ao punk sem perder o brilho de uma criança. (Créditos: Divulgação/Reprodução) Escrita ao longo dos anos a partir de fragmentos de memória, a obra aposta em uma linguagem que oscila entre a poesia e a confissão, evidenciando que recordar, para Smith, é uma forma de manter vivos aqueles que já se foram. Dessa maneira, Pão dos Anjos é uma celebração da arte como força transformadora. O ponto de partida é a infância no pós-guerra americano, período em que viveu com a família em quartos de pensão e conjuntos habitacionais prestes a serem demolidos na Filadélfia. Grant e Beverly Smith, seus pais, e os irmãos Toddy, Linda e Kimberly são apresentados e estão presentes no livro inteiro, evidenciando a influência de cada um na formação da artista. Assim, o livro se constrói como um mosaico de lembranças, sonhos e impressões, em que o tempo se dobra e a memória opera por associações afetivas. "Eu não era ingrata à oportunidade de gravar, mas havia muito a proteger. A poeta permanece só, porém ao se unir a uma banda é obrigada a se render ao maravilhamento do trabalho coletivo. Agora eu tinha aliados leais, assim como tivera na juventude com meu exército de irmãos. Nossa banda havia parido uma obra em conjunto. Apesar das falhas, mantínhamos o desejo de criar algo novo. Compreendi, à medida que gravávamos, que aquilo não iria agradar ao grande público, mas senti que poderia alcançar e me conectar com as margens da sociedade, que também eram a minha sociedade." Leia também: Flea: Honora No Muro da Nossa Casa Mulher em Fuga Após visitar o museu com o seu pai, Patti Smith decide tornar-se artista, escolha que, para ela, significava liberdade. O segundo ato de Pão dos Anjos começa com sua chegada em Nova York, levando poucos pertences, alguns poemas e muitos sonhos. Esse período já foi relatado em Só Garotos (Companhia das Letras, 2010), mas, no novo livro, ela expande suas memórias e convoca paisagens vividas ao lado de mestres e amigos. Quando relata como conheceu Fred "Sonic" Smith, é difícil não se emocionar. O encontro de almas foi rápido e fulminante, como Rita Lee e Roberto de Carvalho. No entanto, quando escreve sobre o marido, Patti adota um tom mais contido e reservado. Não se sabe se isso se deve à dificuldade de descrever o homem para além do músico ou ao caráter íntimo dessas memórias, que pertencem apenas a ela. De todo modo, isso pouco importa: o essencial está no sentimento que atravessa suas palavras. "Antes de voltar a Detroit, parei em Nova York para visitar William Burroughs. Ele ficou sentado em silêncio, com as mãos cruzadas, enquanto eu lhe contava o que havia feito e para onde estava indo. Depois ele apenas perguntou, O que ele tem a te oferecer? Ele mesmo, respondi. Disse adeus a William, que sete anos antes me aconselhara a manter meu nome limpo. Eu havia perseguido o que foi aparecendo no caminho; era hora de perseguir o que era meu. O rock and roll me deu o cenário para reconhecer, e também renunciar, à nossa herança musical e espiritual. Com minha velha mala xadrez coberta de adesivos de turnê, voltei para Detroit. Fiz isso por amor. Fiz pela arte. Mas, acima de tudo, fiz por mim. Era hora de abandonar meu velho manto. A corcova rebelde estremeceu. Esse afastamento foi minha segunda declaração de existência." O luto atravessa as páginas de Pão dos Anjos - Patti perde os pais, o marido, o irmão e o seu mestre, Robert Mapplethorpe. A emoção está presente, mas não de forma trágica, ela transforma a dor em uma beleza singular, mostrando ao leitor que é possível sobreviver às perdas e que, no fim, as pessoas não desaparecem, permanecem em nós. Hoje, Patti segue escrevendo, viajando, se apresentando com sua banda, enquanto continua a explorar novos mundos. Ela reconhece não ter mais a mesma energia de antes, mas mantém intactas a curiosidade e a capacidade de sonhar, como uma criança. "Encontrei minha voz ao longo de minhas viagens.", conclui.

