De acordo com o dicionário Michaelis, a palavra normal significa: "de acordo com a norma. Exemplar, modelar". Em um mundo pandêmico, a denominação da palavra foi alterada - o normal virou "novo normal": com máscara, distanciamento social, isolamento e álcool em gel. Neste novo mundo, que continua soando distópico, os indivíduos também passaram por mudanças profundas: desenvolveram novas "características" que estão englobadas como "doença do século", ou seja, ansiedade, pânico e depressão. Nesse novo normal, a multiartista Kaya Rodrigues iniciou uma pesquisa de linguagem que busca encontrar novas formas de se expressar. Em sua casa, longe de um mundo com tantas diferenças sociais, Kaya refletiu sobre o que estava vivendo, sentindo e assistindo de sua janela os sofrimentos de outras pessoas - conhecidas ou não. Dessa experiência, saiu "Normal", seu primeiro single lançado, que reflete sobre o novo. Se o normal é exemplar, um modelo a ser seguido, o "novo normal", com uma crise sanitária como enredo principal, deveria ser uma ruptura que acabasse com os problemas econômicos que a sociedade brasileira está enfrentando. Ao lado de Nina Nicolaiewsky e Viridiana, Kaya discute sobre a normalidade em uma pandemia que já deixou 600 mil famílias com um vazio, diversas pessoas em situação de rua e com fome. "Que normal é esse fio, linha e agulha? / Costurando aos poucos a crueza que fura? / Que normal é esse que silencia a fagulha? /Que enquadra, entulha?", questionam. Aceitaremos o que estamos vivendo? Leia também: As ondas de Pratanes A ossada de Gabriel Sanpêra A poesia de Pedro Cassel Durante o isolamento social, você se refugiou na música. Como foi? Acho que todo esse processo, pandemia, isolamento… Posso confessar aqui que eu nunca imaginei que eu ia passar por isso em vida [risos]. Isso é uma daquelas coisas que a gente vê em filme e fica pensando: "nossa, como as pessoas passaram por isso?" e claro, hoje eu penso que é uma bobagem falar isso, porque era uma tragédia anunciada. Ouvir os biólogos falando sobre o colapso ambiental, já se desenhava pra que gente passar algo do tipo assim… Mas era uma coisa muito distante pra mim. Eu vejo como uma ferida, causou uma fissura, nas pessoas, na nossa sociedade… Uma fissura que para alguns está inflamada e para outros não… Claro que é uma ferida social para todes, mas alguns estão mais machucados, tem pessoas mais vulneráveis do que outras, né. Pra mim, assistir isso, participar disso, ser uma pessoa dentro disso, foi um turbilhão de emoções. Eu me enquadro num lugar hoje que é um quadro muito vulnerável. Eu sou uma mulher negra, crescida e criada na periferia, mas que conseguiu fazer faculdade, conseguiu entrar no mercado de trabalho - por um lado, eu me considero uma pessoa com muitos privilégios, estive na pandemia e consegui pagar o meu aluguel e isso a gente vê que muitas pessoas não conseguiram fazer. O quadro brasileiro de pobreza, de miséria, cresceu muito, infelizmente, então, eu me considero uma pessoa com muitos privilégios - apesar de não estar no patamar do rico, mas eu ascendi socialmente do mesmo lugar que eu vim, mas ao mesmo tempo, eu não ascendi o suficiente para ajudar o seio de onde eu vim. Por mais que eu tenha conseguido pagar o meu aluguel, meu entorno não consegue, não conseguiu e se mantém de pé com muita dificuldade, muita ajuda - isso é muito sofrido, muito doloroso, né. Ver quem tu ama passar por dificuldade… Me faz pensar em muitas coisas. Pra mim, no primeiro período, tinha uma euforia assim [breve riso], eu vivo com ansiedade, então… Não sei se eu posso chamar de doença, mas parece um pouco a doença do século, parece que muitas pessoas estão tendo e eu sou uma delas - então eu lido com essa ansiedade, o que traz às vezes uma euforia que tu fica projetando o futuro, eu vivo um pouco no futuro e tive esse momento e aí aconteceu de ter uma baixa muito grande. E nesse momento de baixa, trancada em casa, não tem fuga. Eu sempre fui muito uma pessoa que me refugiei em uma vivência cultural, estar nas ruas, cantar, dançar, estar com outras pessoas e tal e eu não tinha isso. Qual seria o meu refúgio? O que eu poderia…? Pra mim, o que me salvou, de certa forma, foi poder compor. Então, a minha ansiedade, minhas dores, o que eu olhava em meu entorno, tanto da minha vivência familiar quanto das próprias questões da pandemia; o que chegava de notícias e vendo a política brasileira, foi um espaço, para pelo menos, para jogar as minhas sensações, minhas concepções, minhas angústias. Eu passei a me sentir muito angustiada durante todo esse período, ainda me sinto, mas um pouco menos. Você é uma artista multimídia. A pandemia alterou o medo que você cria e/ou consome arte? Eu sou uma artista que começa no teatro. Com onze anos, eu fiz um projeto na Casa de Cultura Mario Quintana e isso me modificou inteira. Uma arte que depois eu fui fazer, cursar faculdade de teatro na UFRGS, eu me joguei inteira. Foi o teatro que me levou para outros espaços. Foi através do teatro que eu conheci intimamente a música e as movimentações sociais. Foi com o teatro que eu comecei a pensar sobre a ocupação do espaço público e é pensando no espaço público que surge "O Bloco da Laje", que também é uma banda, mas que surgiu com a movimentação de artistas, de pessoas que pensavam sobre revitalização do espaço público na época. Eu me lembro que se falava muito sobre isso, porque os órgãos públicos tinham essa vontade de revitalizar, mas trazer essa revitalização com construções de prédios, trazer setores privados para determinados espaços e pra mim e para esse público, fazia todo sentido pensar sobre ocupação do espaço público, a revitalização em trazer vida para esses lugares - revitalizar. Enfim, minha construção artística passa por isso, sobre trazer vida, sobre habitar, sobre trocar com [outras] pessoas. Aí vem a construção de um bloco de carnaval e muitas peças de ruas, de teatro de rua, então, a pandemia veio para bagunçar essa minha forma de criação que passava por uma coisa coletiva. Uma coisa feita através da troca, através de… Enfim, estar em grupo. Então, a pandemia mudou completamente a forma como eu faço arte hoje e também a forma de como eu consumo arte. Eu sempre fui uma pessoa muito do toque e isso sumiu. Eu passei por um processo de passar pela introspecção, de vê-la como uma coisa, uma aliada, uma amiga - antes era uma coisa que eu tinha muito medo. Então, fiquei adiante de mim mesma. Até a forma de como eu escuto uma música hoje, a forma de que vejo um filme, é de uma forma de introspecção, de uma amiga, de uma aliada. Isso é bem diferente de como eu costumava fazer antes da pandemia. O isolamento social fez com que você escrevesse "Normal". Qual o significado de normal para você? A música "Normal" surge de uma observação profunda do que eu estava vendo e sentido. Tem uma parte de me sentir passiva e observadora de um momento histórico e tem, de certa forma, essa sensação sobre o pensamento do momento. Eu lembro que muitas pessoas diziam: "quando tudo voltar ao normal", ainda no início da pandemia tinha uma ideia de que a pandemia ia durar pouco tempo… Em algum momento, as pessoas tiveram a consciência de que não seria algo simples, que não acabaria tão cedo e aí as pessoas começaram a falar sobre um novo normal. A palavra normal me feriu de alguma forma. Como eu falei no início, para quem vem de uma realidade, de uma família onde a vulnerabilidade tá ali dando as caras, que normal é esse? O que é normal? Voltar ao normal para quem? O que seria isso? Pra mim não fazia sentido. O novo normal também me machucava em um sentido que a gente procurava um novo padrão, sabe? Não acho que eu proponha alguma coisa na música [risos]. Uma ruptura da normalidade… É mais uma contestação de que "estamos aqui, sofrendo, porque o normal não existe" - e em busca de um novo normal que vai continuar nos esquadrando de certa forma. A [música] fala sobre essa necessidade que a gente tem de voltar para um passado, como se o passado fosse correto só porque a gente passou por ele e acabar repetindo erros e machucando as pessoas. Quando aparece na letra: "Dizem que o passado é que é perfeito / E o sofrimento condição de se escolher" fala muito… Eu gostaria de imprimir isso, porque é esse o reflexo, tipo, parece que ao nosso pensamento, a gente sempre recorre a esse passado como lugar de conforto, mas ele já é desconfortável de certa forma - não, não de certa forma, ele é desconfortável de todas as formas; mas por algum motivo, nosso cérebro vê como confortável e não é atoa que se ergam tantos nomes na política com essa bandeira, do reforço do passado. "Make America great again" ou sei lá, coisas desse lado - tem a ver com o apelo do ser humano que olha conforto só porque passou por alguma coisa e não amadurece a experiência, que não é porque tu passou por algo… Eu penso muito assim: quando a gente é criança e chega o natal, revisitamos muitas coisas ruins que aconteceram naquela festa - tem algumas pessoas que atravessam essa ponte e vêem as coisas que aconteceram, mesmo as memórias boas… Tem pessoas que querem preservar [essas memórias] e não amadureceram. "Normal" tem a participação de Nina Nicolaiewsky e Viridiana, artistas que trabalham bastante com elementos eletrônicos, diferente do que você propõe no seu trabalho. Como foi a experiência? "Norma"” tem a participação de Nina Nicolaiewsky e Viridiana que são duas artistas que são daqui da cidade, Porto Alegre. Eu fiz com a Nina uma residência artística e foi incrível! Acho ela brilhante, além de uma grande musicista, ela é uma grande pessoa e foi ela que me apresentou a Viridiana, de certa forma. Eu já a conhecia, mas não aprofundadamente. Quando eu pensei em "Normal", me veio a letra e a melodia e eu estava em um momento de querer dividir [a canção] com algumas pessoas, mas muito num lugar de conforto, tem uma coisa com a introspecção e volto à ela. No momento em que eu estava mais introspectiva, estava trazendo para perto, mesmo que seja virtualmente, algumas pessoas que estavam com problemas de sociedade e me refugiei em algumas pessoas que eu tinha trabalhado já e a Nina foi uma delas. Mandei para ela um audiozinho cantando a música e falei: "pensei em você. queria muito fazer ela com você" e ela prontamente veio com tudo - tudo que ela é! Ela é muito diferente de mim. A pandemia me fez questionar tudo, até sobre porque eu sou tão rígida ou como componho… A Nina veio com coisas que talvez eu nunca tivesse pensado que é uma inserção eletrônica, uma outra coisa, outra pegada. Eu com muito receio, mas com muita certeza na Nina, apostando nela, amei o resultado! Quando entrou a Viridiana com uns beats, nossa… Foi transformador! A entrada da Viridiana, com a música já desenhada, estava faltando um tempero e ela trouxe - um tempo que dialogava com a Nina e comigo. Era eletrônico, mas também tinha um beat que se catar lá no fundo, tu vai ver um funk que é mais ligado a mim. Ela foi muito sensível. A Viridiana colocou muito dela, mas também muito de mim e da Nina - e muito de quem era Nina e de quem eu era. Aí juntou tudo… Sou muito feliz com essa experiência, cresci muito e aí que é o maluco: eu sou carnavalesca, de percussão - aí, de repente, isso apareceu e eu pensei que também sou outras coisas - um espaço para se multiplicar e acho que é um presente que vieram com elas. A letra de "Normal" é forte e bem reflexiva. Como foi o processo de criação? Por que tratar o "normal" pós-pandemia? A letra de "Normal" surgiu quase inteira, acho que inteira… Eu tenho uma coisa que durmo pensando em uma coisa e acordo às vezes com sons e palavras e preciso sentar para escrever. Vem a música como um fio, como uma coisa muito de ascensão do inconsciente com alguma conexão que eu não sei… Essa letra veio disso. Foi um dia que eu dormi pensando em muitas coisas e querendo muito organizar essas coisas, muitos sentimentos e acordei com essa organização. Pra mim foi importante falar sobre isso, sobre essa normalidade de enquadrar que não tá fazendo bem para ninguém - não conheço ninguém feliz plenamente com essa normalidade, com esse padrão de normalidade… Acho que isso acaba sendo importante de falar justamente para trazer um pensamento em cima disso - será que a gente não pode fazer diferente? Será que a normalidade precisa ser essa casa mofada que não faz bem pra ninguém? Será que a gente não pode ver tudo isso com outro filtro? Além da canção, você de início em uma pesquisa profunda para encontrar novos meios para se expressar. Como foi esse processo? Aliás, você encontrou um caminho para se expressar? Acho que esse momento que eu tô vivendo hoje, como eu disse no início, é um pouco de mãos dadas com a introspecção, com uma reflexão de mim mesma… Fui achando os passos para colocar para fora o que me vinha através dessas reflexões, desse pensamento. Sempre tive dificuldade para ter foco nas coisas, o que acaba sendo um problema para um lado.. Voltar quem eu sou para o outro e é meio isso. Sempre tive muita dificuldade de dizer: "tá, eu sou isso!" e fechar outras portas, sabe? Por algum motivo, eu gosto de todas portas abertas e gosto de circular em diversas portas, então, essa introspecção, essa reflexão, me levou para me expressar na música e essa porta eu passei por ela e foi muito importante pra mim, mas também aprendi a me expressar através de outras portas. Eu começo com o teatro, fiz faculdade de teatro, depois fui pra música, depois para o cinema… Eu vivenciei o cinema como atriz mesmo e tenho tentado me aventurar como diretora, me expressando assim também - como é contar o que estou sentindo em imagens e refletir o que reflito com as palavras e com imagens, com cores - como é isso? Tenho tentado descobrir e eu acho que não vou conseguir me fechar numa só coisa, não vou conseguir escolher apenas uma coisa, mas tenho aprendido a colocar tudo isso para fora [risos]. Quais os planos para o futuro? Podemos esperar novas músicas? Eu tenho muitos planos para o futuro. Se tudo der certo, se a humanidade não acabar, se a gente não destruir o planeta [risos], pretendo lançar novas músicas ainda esse ano. E tô bem feliz com isso, tô bem empolgada! Teatro, cinema, música e muita arte. Não tente enquadrar Kaya em apenas uma palavra ou categoria, isso é impossível. Kaya é imensa e espera ansiosamente que o novo normal seja alterado e que as pessoas voltem a ocupar e dançar lugares públicos. Acompanhe os próximos passos da artista pelo Instagram.

O novo normal de Kaya Rodrigues