A capa de Sol Quimérico (2026) parece abrir um portal antes mesmo que a primeira faixa comece. Em meio a personagens, figurinos e imagens que atravessam o sagrado, o exótico, o estranho e o futurista, Leandro Serizo surge como parte de um universo em transformação, onde corpo, máquina, mito e espiritualidade deixam de ocupar territórios separados. A imagem antecipa a simbologia que sustenta o álbum: o Sol Quimérico é uma entidade paradoxal, construída a partir de contradições e convertida em força de resistência diante de um mundo que tenta controlar desejos, identidades e imaginações. (Créditos: Fernanda Ferreira) Ambientado no ano de 2222, Sol Quimérico transforma inquietações contemporâneas em uma ficção científica musical, povoada por personagens, conflitos e mundos que se expandem ao longo de 13 faixas. O futuro imaginado pelo artista, no entanto, não parece tão distante: nele, a tecnologia invade os vínculos humanos, a imaginação é ameaçada e a música pode se tornar uma ferramenta de controle. A origem do projeto remonta a uma imagem real. Durante as queimadas da Amazônia, em 2023, Leandro Serizo observou o céu escurecer e se perguntou se ainda veríamos um sol. Daquele instante nasceu uma centelha que, aos poucos, ganhou personagens, mitologias, canções e uma dimensão política. Dessa maneira, o álbum fala sobre destruição ambiental, guerras, hegemonias e a robotização do ser humano, mas não se limita ao diagnóstico de um mundo em crise. Mesmo com ruínas e máquinas, o álbum dá espaço para o amor, a espiritualidade, a resistência e a transformação. Leia também: Bruno Berle: Sem Fronteiras O manifesto de MONCHMONCH no fim do mundo Vice is Broken No centro da narrativa está MΣGΛPΘLIS, uma metrópole governada pelo império alienígena de Ciborgue Tyrannus. Suas avenidas são atravessadas por uma mesma música robótica, repetida em um ciclo interminável e capaz de transformar os habitantes em corpos sem sonho. Do outro lado desse universo estão os Abutrons, quimeras meio humanas e meio abutres, rejeitadas como aberrações e lançadas às margens da sociedade. É nesse exílio que elas constroem uma identidade própria e encontram no culto ao Sol Quimérico uma forma de enfrentamento. A trajetória de Leandro ajuda a compreender a amplitude do projeto. Nascido em Campinas e de origem periférica, o artista começou a tocar aos oito anos na igreja do bairro onde cresceu. Mais tarde, passou pelos saraus, estudou música na Unicamp e aprofundou pesquisas sobre as tradições latino-americanas, mediterrâneas e árabes. Entre experiências coletivas, apresentações no Brasil e no exterior e projetos como o FORRÓBAILE, construiu uma linguagem que entende a música como encontro, rito e espaço de resistência. Em Sol Quimérico, essa bagagem se transforma em uma obra que recusa caminhos previsíveis. Sua trajetória começou na igreja do bairro onde cresceu. O que daquela experiência ainda permaneceu na sua forma de enxergar a música? Eu comecei de forma autodidata, muito livre, muito experimental. O que ficou daquilo foi a música como brincadeira, como jogo de possibilidades. Eu dava cor para cada tonalidade, explorava os sons de forma sinestésica, e isso me formou um ouvido e um músico singular. Até hoje é esse o farol pelo qual eu me oriento. E ficou minha mãe cantando. Ela cantava na igreja, e era muito bonito ver a verdade dela ali que não era sobre técnica, era sobre entrega. Acho que foi vendo minha mãe cantar que eu entendi, antes de saber explicar, que a música serve para atravessar alguém. Desde aquela época eu sinto que a música é um portal para despertar sentidos e sensações no corpo. Gosto de estados de transcendência, e de modo geral as religiões usam esses estados para moldar pensamento. Cabe à gente poetizar o mundo para os valores em que a gente acredita, sonhando com um mundo onde as pessoas sejam mais livres. Mesmo sendo um ambiente fechado naquela época, a música foi o tapete mágico que me permitiu viver uma jornada de descoberta e diversão pelas muitas coisas que eu faço como músico independente: cantor, sanfoneiro, percussionista, pesquisador, educador, produtor. O trabalho exige que a gente se desdobre, e eu encaro isso como uma jornada de aperfeiçoamento. Meu trabalho autoral é o lugar onde eu evoco essa magia. Seu trabalho costuma unir performance, narrativa e pesquisa. Quando você percebeu que não queria fazer apenas canções, mas construir universos? Quando reconheci em mim um espírito nômade: sangue de movimento, de liberdade, de êxtase e de transe. Foi aí que percebi que a música, sozinha, já não dava conta daquilo que eu queria expressar. Conforme fui estudando e trabalhando, percebi que existe uma tendência de especialização muito forte. É natural: você entra num campo e passa a responder às expectativas daquele meio. Eu admiro quem escolhe esse caminho, mas comigo aconteceu o contrário. Não quis abandonar as muitas coisas que me fizeram amar a arte. Meu trabalho nasce justamente desse encontro. Música, teatro, performance, imagem, literatura, corpo e pesquisa convivem porque foi assim que aprendi a me encantar pelo mundo. Construir universos acabou sendo uma consequência dessa necessidade de deixar todas essas linguagens conversarem entre si. Quero continuar me surpreendendo em cada artista que encontro, em cada voz, em cada solo improvável. Porque acredito que a criação acontece justamente quando a gente permanece disponível para o encantamento. Você diz que sua obra é um “território de encontro entre linguagens”. Como essa ideia orienta suas escolhas artísticas? Meu primeiro trabalho, Saudoso Amarais (2023), eu disse por aí que era uma ode à louvação espacial. Desde o primeiro show, a gente foi construindo pequenas performances, a ideia de um show onde coisas diferentes acontecem, onde não é só sobre a música. Já o Sol Quimérico eu tenho entendido como uma ode à louvação da teatralidade. Percebi que os artistas performáticos e as artes que se misturam são minhas grandes paixões. Performar com diferentes linguagens exige uma jornada de aperfeiçoamento em áreas onde a gente não necessariamente já se deliciou tanto e aprender, aperfeiçoar o próprio caminho, é algo que faz sentido para mim. Por isso gosto de levar comigo nos shows a Maria Cabral e a Zalla, duas performers que trazem corpo e presença para o jogo. Isso vale até para a composição: eu compus as músicas desse disco pelo título. Imagino a força visual de cada título e as esferas sonoras que ele pode abrir. Me encanto pelas artistas performáticas, e são elas que orientam minha trajetória. A imagem do céu escurecido durante as queimadas na Amazônia foi o pontapé para a construção do disco. Como uma inquietação tão específica se transformou em uma narrativa ampla? Acho que é uma centelha que eu carrego desde que me apaixonei pela música brasileira, especialmente pela música de protesto dos anos 60 e pela psicodelia dos anos 70. Ver como Chico Buarque e Milton escreviam letras cheias de significado e poesia. A liberdade dos tropicalistas, a visceralidade nos discos de Edu Lobo, a voz incrível de Tetê Espíndola, são marcas que me moldam até hoje. Eu queria, ao menos uma vez, criar uma obra rica de significados explícitos e ocultos, em forma de sonoridade e de poesia. Foi um pacto comigo mesmo: fazer algo extremamente político, que refletisse a maluquice desse mundo que a gente está construindo. Mas tem uma coisa que eu preciso dizer, porque ela orienta tudo: denunciar a distopia é o assunto do disco, não a missão. A missão é evocar transe e reencantamento como método político. As religiões sempre souberam que estados alterados moldam pensamento e eu quero usar isso a favor da liberdade das pessoas, não contra. É por isso que o disco vira ritual, vira teatro, vira língua inventada em “SOL QUIMÉRICO II”. "Tenho esperança, mas ela não é ingênua. Minha esperança é para o depois." O disco é uma distopia que aborda IA, robotização, guerras e crise ambiental, mas também traz espiritualidade e afeto. Como você encontrou equilíbrio entre esses extremos? Não enxergo tecnologia e espiritualidade como opostos. O disco parte justamente dessa tensão. Quanto mais avançamos tecnologicamente, mais urgente me parece perguntar o que continua nos tornando humanos. Minha relação com a espiritualidade é muito pessoal. Passei por diferentes tradições, filosofias e formas de pensar o sagrado, sempre buscando aprender sem transformar nenhuma delas em verdade absoluta. Hoje encontro muito sentido nos saberes indígenas e afro-brasileiros, cultivo uma dimensão cristã ligada à amorosidade e carrego comigo uma frase do Vipassana que me acompanha há anos: "que todos os seres sejam felizes". Isso não significa esperar que as pessoas sejam só boas. As pessoas erram, julgam demais, se reprimem. Cada ser está em sua própria jornada, e não cabe a mim salvar ninguém, mas cabe compartilhar. Oferecer não é converter, e despertar talvez não seja sobre salvar. Quando eu digo que falar sobre isso desperta outras pessoas, eu quero dizer que o disco é uma oferta: quem quiser entrar, entra. Para mim, espiritualidade é reconhecer nossas contradições e seguir cultivando presença e responsabilidade diante delas. Por isso o disco atravessa atmosferas sombrias, violentas e caóticas, mas nunca perde completamente a possibilidade do afeto e do encantamento. Reconhecer o caos é justamente o que me permite vislumbrar alguma luz. (Capa: Fernanda Ferreira) Sol Quimérico é cheio de tecnologia, mas também dá ênfase à espiritualidade. Você acredita que, quanto mais avançamos tecnologicamente, maior será a necessidade de buscar e/ou se refugiar no sagrado? Acredito que sim, desde que a gente comece separando espiritualidade de religiosidade, e desde que a gente entenda que essa missão é íntima, é no dia a dia, é você com você mesmo. E não vejo o sagrado como refúgio. Refúgio é onde você se esconde mas o sagrado é onde você encara como um bicho selvagem. A história humana é cheia de violência e de dores que a gente vai carregando, e é difícil alguém que não precise, em algum momento, olhar para as dores da própria vida ou para o que a gente carrega enquanto humanidade. A espiritualidade é essa relação mais profunda, a que dispensa as máscaras que a gente coloca para sobreviver. Num mundo cada vez mais fragmentado, em que as máquinas pensam e produzem no lugar do ser humano, o risco é a gente se fragmentar junto virar função e produto. O sagrado, para mim, é o que reintegra. É o que devolve a pessoa inteira para ela mesma. Quanto mais a máquina avançar, mais isso vai ser necessário. Por que você escolheu ambientar a história especificamente em 2222? Gosto de citar as obras que me moldam, esse disco tem vários “easter eggs”. Aqui eu quis homenagear um grão-mestre da canção popular: Gilberto Gil. Gil é um artista tão brilhante que, ainda vivo, se tornou o próprio sagrado da música. Expresso 2222 é uma música dele que sempre me passou uma imagem futurista. Imagino que quem chega em 2222 conhecendo a obra dele vai perceber a associação sem que eu precise dizer nada. Eu queria continuar esse expresso e contar a minha história em 2222. O enredo que você constrói, utilizando 2222, parece distante, mas é familiar - algo que já estamos vivendo. Ainda existem meios para parar essa distopia? Você tem esperança? Tenho esperança, mas ela não é ingênua. Minha esperança é para o depois. Acho que a gente vai ter que chegar a um extremo que a humanidade ainda nem imagina ser possível e digo isso olhando para o que já está acontecendo: as queimadas, as guerras em curso, o quanto a gente normaliza a bizarrice. A história mostra que o ser humano costuma mudar depois do colapso, não antes. Minha esperança é para o depois. E é justamente por isso que ela precisa de gente construindo sentido agora, para que sobre alguma coisa de onde recomeçar. Acredito que é falando sobre isso que a gente vai despertando outras pessoas. Seja elegendo gente desperta para enfrentar quem usa a fé para maquinar mentes, seja quem está na linha de frente da educação, seja quem usa a própria criação para também falar de coisas urgentes. O disco nasce dessa vontade. Falar sobre essas urgências não para viver angustiado com o futuro, mas justamente para conseguir viver o presente com mais consciência. Quero falar sobre coisas importantes mas também quero poder curtir os encontros, aproveitar as coisas boas da vida e relaxar também. É encontrar esse meio do caminho entre a responsabilidade política e social e o direito à alegria me dá algum sentido nisso tudo. “Androide 2222” traz o amor em um cenário apocalíptico. Você acredita que o afeto pode ser uma forma de resistência? Vejo o afeto norteando as poéticas de vida da maioria das pessoas, tanto de quem vive essa busca em silêncio quanto de quem a atravessa em desespero. Para mim, se libertar das próprias couraças é um gesto de amor. É entender que ninguém é posse e que a comunicação transparente talvez seja uma das alianças mais verdadeiras que podemos construir. Então, como um aquariano meio romântico, quis abrir espaço para que esse disco respirasse e deixasse uma mensagem que não fala apenas do amor romântico, mas também das amizades verdadeiras e da família. Tem uma música no disco, "Santuário", que comecei a escrever para minha mãe. A primeira imagem da canção era ela saindo cedinho para pegar o ônibus rumo ao trabalho. Na época, a música se chamava "Passageira", mas, quando passei a escrevê-la junto com Graciela Soares, que também é mãe, a letra encontrou outro lugar: deixou de falar apenas do deslocamento e passou a falar do cuidado. Minha mãe trabalhou a maior parte da vida como empregada doméstica e cuidadora, mas, antes de qualquer coisa, ela foi minha primeira referência artística num campo próximo. Foi vendo ela cantar na igreja, com uma entrega absoluta, que entendi que a arte, primeiramente, não depende só do palco ou técnica, mas de verdade. Hoje em dia, eu acesso lugares através da arte e da universidade que minha família talvez nunca imaginem e que nunca faço sentido pra eles. E, justamente por isso, sinto que a chance de criar um disco com tantas camadas, nasce também do desejo de um dia poder retribuir tudo o que eles me ofereceram. "Num mundo cada vez mais fragmentado, em que as máquinas pensam e produzem no lugar do ser humano, o risco é a gente se fragmentar junto virar função e produto. " Em “Abutre” você diz que logo voltará a renascer. Como imagina esse cenário? Imagino a cada dia mais desperto e consciente de que as nossas criações importam. Sendo artista independente, existe uma violência simbólica muito forte sobre como inserir seu trabalho no mundo. Parece que, se você não for um número, seu trabalho não é validado, não tem relevância. E infelizmente tem muita gente que consome arte assim. Eu escolhi não pensar em caixa, em gênero, nesse tipo de coisa e escolhi sabendo o preço no agora. Decisão de continuar garimpando cada oportunidade que me aparece, cada palco que me aceita, cada revista que a de vocês, que realmente me dá um espaço para existir. Porque o que eu quis mesmo foi fazer um álbum para olhar para trás e ver que eu realmente permiti que minha criação louvasse a teatralidade. Esse era o combinado comigo, era me autorizar. Espero ter, no futuro, mais estrutura para continuar criando obras feitas para performar. Que meu trabalho continue somando e movendo o trabalho de outros artistas das artes corporais, musicais e visuais. E que possa ser um encontro para a gente ritualizar a nossa fagulha mais íntima. Já que Sol Quimérico é o primeiro capítulo de um projeto transmídia, o que podemos esperar das próximas etapas? O primeiro desdobramento é o palco. O show de lançamento é em 19 de agosto na Casa Gambá em Campinas, e a ideia é levar o Sol Quimérico pelo estado de São Paulo junto do ao selo que me filiei, a vintesete records, que apareceu neste momento da carreira e tem movido coisas por aí. Em paralelo, sigo buscando recursos para o livro, que é o segundo capítulo: um trabalho com artistas da literatura, dos quadrinhos e das artes visuais, para que o universo de 2222 exista fora do som. Gostaria também de lançar pelo menos mais um clipe para amarrar a história do disco, mas financeiramente é o mais difícil agora. No meio disso, vou para o Cairo fazer um intercâmbio técnico-artístico com uma aprovação no PNAB estadual. Enquanto sanfoneiro e forrozeiro na minha cidade, Campinas, minha pesquisa nessa viagem é sobre as influências árabes na música brasileira, o forró tem essas raízes, e eu quero ir até a fonte. Espero voltar com material que ligue a natureza mítica das minhas músicas às consciências que eu reverencio naquele lugar tão importante para a humanidade. Gostou da leitura? Apoie financeiramente o desalinho e ajude a manter um espaço independente dedicado à crítica, às entrevistas e à divulgação da cultura independente. Toda contribuição faz diferença.

