“Às vezes, eu dou nomes às pessoas neste livro, mas na maioria das vezes, não. Às vezes, as pessoas vão aparecer com seus nomes num lugar, e em outros, não. Mas elas são todas reais, e o que eu escrevo a respeito delas fez realmente parte de minha vida.” São com essas palavras que Liv Ullmann apresenta o leitor sobre o que será encontrado nas próximas páginas. Seu livro "Mutações" (Círculo do Livro), conta a história de Liv. No entanto, não espere uma autobiografia comum: a atriz mistura passado com sua realidade (o livro foi escrito há muitos anos); amores e desamores são alguns dos temas relatados. Liv escreve sobre tudo, sem esconder sua fragilidade. Porém, ela deseja (e consegue!) ir além: “Quero escrever sobre o amor - sobre o ser humano - sobre solidão - sobre ser mulher. Quero escrever sobre um encontro, numa ilha. Um homem que mudou minha vida”. Liv começa a primeira parte do livro, sob o título “Mutações”, abordando rapidamente o seu nascimento. Ela nasceu em Tóquio, mas foi para Noruega ainda pequena construir sua vida com a família. Aliás, a segunda parte da obra (título que carrega o nome de onde morou) relata sua vivência no país. Foi ali que perdeu o seu pai e ficou com um buraco no peito, como descreveu. Liv odiava a escola e foi no teatro, na arte, que se encontrou. Quando disse à família que queria ser atriz, uma parte a deserdou. É engraçado ler como aconteceu a “separação” da família com ela - Liv trata o assunto com diversão. Por que a vida nunca é como a gente sonha e planeja? Por que o tempo é tão implacável, roubando-nos as oportunidades, se não somos suficientemente rápidos para agarrá-las imediatamente? Por que assusta tanto chegar aos sessenta, quando um dia se teve dezesseis anos, e se acredita que o tempo era interminável? Como não descobrimos que o tempo se movimenta com crescente velocidade e destrói tudo que pensávamos poder deixar para o futuro? Por mais que tivesse a mãe e a irmã, Liv sentia-se sozinha. A solidão sempre esteve com ela. No livro, a autora escreveu: “Existe uma menina em mim que se recusa a morrer..”. Essa é a frase que demonstra sua insegurança, seu medo - a criança nunca foi embora. Anos se passaram e Liv continua a mesma. Ao tornar-se uma mulher, começa a compreender a solidão, seu significado, e aceita. Essa é a sua vida, foi o que construiu. Enquanto escreve, Liv pensa sobre o futuro de sua filha, Linn Ullmann Bergman. Ela se sente culpada por trabalhar, ficar longe de sua prole e não ser a mãe perfeita, idealizada por há séculos passados. Quando esses assuntos surgem, a atriz desconstrói os estereótipos que sua profissão exige, mostrando - de novo - as fraquezas da sociedade que a mutila constantemente. São as suas mutações que a fazem mostrar sua verdadeira face. “(..) Não confio inteiramente naquela vida, posso sentir a tentação de trocar minha alma por honrarias e fama, buscando admiração e comerciando meus encantos. Sei que hoje ainda é possível investir em meu talento e minha personalidade. Mas o que vai acontecer, quando eu ficar velha? Quando não for mais uma mercadoria desejável? Quando tudo ficar silencioso em torno de mim? (...) A solidão se torna insuportável, porque o contraste é demasiado intenso com o que existia antes.” Liv também comenta sobre o relacionamento com Bergman. O amor não suporta as dores de um adulto que se comporta como criança, que procura constantemente em mulheres a sua mãe que faleceu. O pai ausente de Linn. Liv continua trabalhando com o diretor que admira, sabendo que ele nunca mudará. Os anos continuam passando. Em suas palavras, ela se pergunta como será sua velhice, onde ela estará, com quem e se seu rosto vai envelhecer tanto. Ela sabe que é impossível fugir disso. Ela tem medo, mas a coragem não a abandona. Hoje, Liv tem 81 anos. Muito tempo passou desde que ela escreveu "Mutações", porém a vivacidade dos seus olhos azuis continuam presentes. Ela continua em mutação.

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