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Na série McCartney 3, 2, 1, Paul conversa sobre música, inspiração, processo de composição, vida e muito mais com o Rick Rubin. A série toda é ótima, mas uma passagem específica desse papo entrou na minha cabeça e nunca mais saiu de lá. Paul está contando sobre como compôs "Yesterday". A história não é nova para quem é fã do homem: ele sonhou com a melodia, passou dias perguntando para os outros se eles a conheciam de algum lugar e a resposta era sempre 'não'. Em algum momento, Paul entendeu que ele mesmo tinha escrito a melodia em sonho. Ou, olhando por outro ponto de vista, ele teria recebido a melodia de alguém no seu sonho. A conclusão dele? Quando as pessoas perguntam se ele acredita em magia, ele passou a achar difícil dizer 'não'. Já que o assunto desse texto é bem casca grossa, eu precisava começar com um pequeno devaneio sobre o inexplicável para introduzir o maior disco de jazz da história (segundo a minha própria opinião): A Love Supreme (1965). Mas, elaborando os pensamentos em tempo real enquanto escrevo esse texto, acho que a ideia de mágica não é o suficiente para explicar a Magnum Opus de Trane. Talvez esse disco seja o mais próximo da prova de que existe um poder superior por aí. E essa constatação, vindo de um completo cético sem qualquer inclinação para a religião, diz muito sobre o que o álbum representa. Não é apenas magia. É a manifestação de algo maior. Leia também: Animal Invisível ocupa o mundo após nascer no silêncio The Beatles: Get Back Pupillo (Créditos: Divulgação/Reprodução) Antes de entrar de vez em A Love Supreme, deixa eu começar falando sobre o elefante na sala: não, o jazz não é famoso por ser um gênero de fácil assimilação para novatos. Sim, nos últimos 100 anos ele esteve mais ligado à intelligentsia, os beatniks, os universitários, os intelectuais e um seleto grupo de seres que parecem saber mais do que os meros mortais. Deveria ser assim? Não. O jazz é, sim, complexo, cheio de camadas e nuances, tempos e compassos diferentes, mas isso não quer dizer que ele também não pode ser acessível. Dito isso, se você ouvir A Love Supreme uma vez, será tocado pelo Espírito Santo e entenderá tudo? Também não. Tá achando que a vida é mole? Pense que esse é o tipo de obra que exige persistência. Você ouve uma, duas, três, dez vezes e não entende nem metade do que está ali, mas a beleza é justamente essa: quanto mais você volta ao disco, mais camadas escondidas acaba descobrindo. Com um pouco de sorte, talvez você descubra uma coisa ou outra sobre a vida ouvindo o sax de Coltrane. Em tempos de imediatismos, scroll infinito e viralizações musicais de 15 segundos, passar meses lutando com um único disco pode ser a salvação para o cérebro (e quem sabe para a sua alma também). Agora sim, vamos ao que interessa. O ano é 1957. Coltrane acredita ter passado por um despertar espiritual que o levaria a uma vida mais produtiva e com mais significado. Ele pediu a Deus que o abençoasse com os meios para fazer as pessoas felizes através da música. O que aconteceu a partir daí é praticamente um milagre: Trane largou o álcool e a heroína e passou a produzir música em um ritmo absurdo, com uma inventividade sobre-humana. A Love Supreme é o ponto mais alto desse caminho que o acompanharia durante o restante de sua vida. Em algum momento em 1964, o músico se isolou em um cômodo acima da garagem de sua casa em Long Island e passou dias amadurecendo ideias e rascunhos que seriam transformados em uma suíte completa. Quando finalmente desceu de lá, foi como "Moisés descendo da montanha", nas palavras da esposa Alice Coltrane. Pela primeira vez, Trane tinha tudo pronto antes mesmo de entrar em estúdio. Cada nota em cada compasso estava perfeitamente escrita na partitura de sua cabeça. O álbum é uma suíte dividida em 4 partes: Acknowledgement, Resolution, Pursuance e Psalm. Segundo Lewis Porter, autor de "John Coltrane: His Life and Music", “as quatro partes de A Love Supreme sugerem uma espécie de jornada de peregrinação, na qual o peregrino reconhece o divino, decide segui-lo, sai em busca dele e, por fim, celebra em forma de canto aquilo que foi alcançado” [tradução livre]. (Créditos: Divulgação/Reprodução) Acknowledgement abre o disco com uma melodia rápida e direta do sax de Coltrane. Quando o ouvinte começa a se perguntar o que acabou de acertá-lo, a bateria, o baixo e o piano entram, um a um, dando a atmosfera do que acontecerá nos próximos sete minutos. A base sólida dessa trinca fornece o que Coltrane precisa para solar até estar próximo do seu limite. Acha que é um exagero? Ouça aquele trecho próximo dos quatro minutos. Aquilo é a representação sonora de um homem que caminha no limite do precipício apenas para voltar sã e salvo. Quando o ambiente parece seguro novamente, Trane repete algumas variações de uma frase hipnótica no sax que emula a pronúncia do título do álbum para, logo em seguida, entoar "A Love Supreme" repetidas vezes como um mantra, uma reza, uma oração. É a voz de um homem em profunda devoção que encontrou o que tanto buscava. Resolution começa com a base repetitiva e hipnótica do baixo de Jimmy Garrison. Quando você acha que a calmaria dará o tom da música, Coltrane aparece e te pega pelo pescoço. Quando o sax diminui o ritmo, McCoy Tyner toma as rédeas com sua dissonância organizada. Ouça aquele solo mais ou menos no meio da música; enquanto a mão esquerda martela os acordes que criam movimento sem mudar a base, a mão direita parece possuída tocando a melodia como se fizesse isso pra salvar a sua vida e redimir os pecados da humanidade. A bateria que cresce em Resolution anuncia o que está prestes a vir em seguida: um minuto e meio de solo das baquetas de Elvin Jones em Pursuance. De repente, todos os instrumentos trabalham em perfeita harmonia numa espécie de caos controlado, e cada músico mostra o próprio virtuosismo sem nunca roubar o protagonismo. De repente, chegamos em Psalm. A bateria parece anunciar a abertura dos portões do Paraíso. E a melodia do sax de Trane é calma e contida, mas tem uma confiança definitiva. É a voz de quem já fez muitas perguntas e finalmente encontrou as respostas. Os poucos mais de 30 minutos que compõem A Love Supreme foram gravados em apenas um único dia: 9 de dezembro de 1964. E o semblante de Coltrane na capa do álbum é indecifrável. Ele está bravo? Pensativo? Contemplativo? Feliz? Satisfeito? Meditando? É difícil classificar. Assim como o conjunto da obra aqui: A Love Supreme é jazz modal, mas também é free jazz, hard-bop, blues, gospel, misticismo e um monte de outras coisas que eu ainda não descobri. Se depois de ler esse texto você achar que A Love Supreme é intimidador demais como porta de entrada do jazz, tá tudo bem. Dá pra começar por Blue Train (1958) ou My Favorite Things (1961), duas obras de Trane mais fáceis de assimilar. Outro bom ponto de partida é o disco-de-jazz-mais-vendido-da-história-e-também-o-mais-cool, Kind of Blue (1959), do Miles Davis (adivinha quem é o saxofonista desse álbum? Touché), ou o Time Out (1959) do Dave Brubeck Quartet. Agora, se você entrou na onda mais religiosa-espiritual do álbum, vai fundo em coisas como Journey in Satchidananda (1971) da Alice Coltrane, um álbum profundamente espiritual, com influência indiana, o sax do Pharoah Sanders e o espírito de John Coltrane. Se não quiser começar por nenhum deles, tá tudo certo também, encontrar o seu próprio caminho é a grande beleza da coisa toda. No encarte de A Love Supreme, Coltrane escreveu um longo texto argumentando que o álbum era um presente espiritual para Deus. Como toda obra é uma via de mão dupla, e a elaboração do receptor é tão importante quanto a intenção do artista, eu gosto de pensar que esses 32 minutos também são um presente para a humanidade. Se você é uma pessoa cética e pouco apegada à crença em divindades, tá tudo bem, eu tô com você. Mas eu acredito na música; e no meu altar pessoal, todo dia é dia de louvar John Coltrane.

John Coltrane: A Love Supreme

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