Uma respiração profunda, é assim que se inicia o novo álbum de Jair Naves. Existem algumas interpretações para este som: o cantor precisa de forças para interpretar as treze canções-porradas, é uma respiração cansada após ter (sobre)vivido ao descaso (que continua e cresce diariamente) de governantes durante o ápice da pandemia; por fim, essa respiração ruidosa se mistura com a do ouvinte, que também está saturado de viver uma realidade tão dolorosa e absurda. Independentemente da interpretação, é a respiração que dá o tom de "Ofuscante A Beleza Que Eu Vejo". Lançado em maio deste ano, o disco ganha novos significados toda vez que é ouvido (por isso, a dificuldade e demora de escrever sobre o álbum). Explico: em dois anos, mais de 675 mil pessoas morreram por conta da Covid-19. 33 milhões de pessoas passam fome no Brasil, segundo levantamento realizado pelo Instituto Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan). Em junho, o indigenista Bruno Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips foram assassinados durante uma viagem pelo Vale do Javari. Segundo uma juíza, uma criança de 11 anos pode (e deve!) ser mãe. Nos Estados Unidos, mulheres não possuem mais o direito do próprio corpo. Como sobreviver a tantas atrocidades? Como canta em "Meu Calabouço (Tão Precioso É O Novo Dia)": "Como ousam relativizar / Tamanha monstruosidade? / Quão baixo se deixaram levar? / E se eu te vingar? / E se essa dor for impossível de assimilar?". Raiva e frustração são dois sentimentos que estão presentes no álbum - "Todo o Meu Empenho" e "De Arder" são canções que despertam essas sensações. Política é o tema central de "Ofuscante A Beleza Que Eu Vejo", no entanto, existem outras camadas: memórias e angústias são algumas delas, que ao se misturarem entre os ruídos sonoros, resultam na belíssima "Vai". O quarto álbum do músico mineiro mostra um Jair solitário, afinal, o processo de criação foi feito durante o isolamento social. As letras são singulares, mas tão plural, retratando as angústias que estamos passando. Não é um disco fácil de ser ouvido (nem de descrever), mas necessário: lembra que estamos vivos e que não vamos tolerar mais as atrocidades.

Impressões: Ofuscante a Beleza que Eu Vejo