No livro "O Que É Loucura?: Delírio e Sanidade na Vida Cotidiana" (Zahar, 2013), o psicanalista Darian Leader questiona o significado de loucura analisando casos que fogem da normalidade. Segunda Darian, a loucura é uma resposta aos conflitos internos, ou seja, loucura e vida normal se misturam, tornando-se compatíveis. Se é através do dia a dia que o indivíduo fica louco, é possível compreender a evolução psíquica de Maura Lopes Cançado. A autora de "O Sofredor do Ver" (1968) apresentou seus primeiros surtos psíquicos ainda na infância. Foi uma criança de saúde frágil, sempre deitada em sua cama e sendo paparicada pelo seu pai (segundo a psicologia, essa extrema atenção que recebeu do pai, resultou no Complexo de Electra: ainda na infância, a filha passa a se sentir atraída pelo próprio pai, disputando sua atenção com a mãe). É necessário ressaltar que em um determinado momento, sua mãe fez uma promessa à Nossa Senhora - se ela melhorasse, vestiria a menina apenas de branco e azul, imitando a santa. Já adulta, Maura descreveu sua infância como "superangustiante", já que fora colocada em uma redoma de vidro. É preciso compartilhar outras informações sobre Maura: desde pequena gostava de criar histórias, era muito criativa. Dos onze filhos, era a preferida pelo seu pai, José Lopes Cançado; sua família tinha influência sob Minas Gerais e era mimada por todos, ganhando tudo que desejava - de utensílios a pessoas, qualquer coisa. Agora que o leitor tem novas informações sobre Maura, é possível montar um breve perfil da mineira. Perfil que será alterado para sempre após a morte repentina do pai. Leia também: Os pedaços de Edith Elek Impressões: Vermelho Amargo Impressões: Um Amor Incômodo Segundo Darian Leader, escrever para o sujeito psicótico é importante, pois está dando voz aos seus sofrimentos, incômodos, neuroses e paranoias. Em "Hospício É Deus" (Círculo do Livro, 1965) conhecemos os sofrimentos, incômodos e medos de Maura. A obra começa com a escritora relembrando sua infância e adolescência: casou-se aos 15 anos e engravidou em seguida. Em luto por conta da morte do pai, Maura fica perdida e tentar encontrar em alguém o que o pai a deu no passado, carinho e proteção. Se separa do marido, deixa seu filho com a mãe e parte para o Rio de Janeiro com o objetivo de ser escritora. Vivendo com a herança do pai, teve uma vida boêmia na terra carioca, não conseguindo aquilo que desejava. Mesmo com contos publicados no Jornal do Brasil e Correio da Manhã, Maura não estava feliz e tenta suicídio pela primeira vez em 1955. Maura também retrata, no começo do livro, sobre a sua primeira internação, aos 18 anos - desde então, seu futuro foi reservado para manicômios. Escrito em forma de diário, "Hospício É Deus" narra em tom megalomaníaco, a loucura (termo com diversos significados) de Maura Lopes Cançado, suas vivências em instituições psiquiátricas, o amor platônico pelo psiquiatra e denuncia, sobretudo, as barbaridades que os internos passavam pelas mãos de enfermeiros e médicos. "O que me assombra na loucura é a distância - os loucos parecem eternos. Nem as pirâmides do Egito, as múmias milenares, o mausoléu mais gigantesco e antigo, possuem a marca de eternidade que ostenta a loucura. Diante da morte não sabia para onde voltar-me: inelutável, decisiva. Hoje, junto dos loucos, sinto certo descaso pela morte: cava, subterrânea, desintegração, fim. Que mais? Morrer é imundo, é humilhante. O morto é náusea, e se observado, acuso alto a falta do que os distinguia. A morte anárquica com toda dignidade do homem. Morrer é ser exposto aos cães covardemente. (...)" Elogiada por Ferreira Gullar e outros escritores, Maura nunca recebeu o apoio dos jornalistas e intelectuais que escreviam para O Pasquim, Jornal do Brasil e Correio da Manhã, veículos que publicaram seus escritos. Em um determinado momento, escreve sobre a ingratidão daqueles que diziam que eram seus amigos. Ninguém a visita, deixando-a mais deprimida e sozinha - mas comemora quando conseguia escrever e publicar. Nem trabalhar nos veículos conseguia, o preconceito pela doença mental não deixava Maura ter uma vida. Maura é também contraditória. Em um momento diz que quer proteção, mas quando Dr. A. tenta ajudá-la, foge. Mesmo desejando paz, fazia rebeliões com as amigas e quebrava as coisas. Não aceitava o tratamento e a necessidade de aprofundar sobre o pai na terapia. No fim, Maura vivia em dois mundos: o verdadeiro e aquele que ela criou, onde é necessária para todos, principalmente para a psicologia. "Se me tornar escritora, até mesmo jornalista, contarei honestamente o que é um hospital de alienados. Propalam uma série de mentiras sobre estes hospitais: que o tratamento é bom, tudo se tem feito para minorar o sofrimento dos doentes. E eu digo: É MENTIRA. Os médicos permanecem apenas algumas horas por dia nos hospitais, e dentro dos consultórios. Jamais visitam os refeitórios. Jamais visitam os pátios. O médico aceita, por princípio, o que qualquer guarda afirma. Se é fácil desmentir um psicopata, torna-se difícil provar que ele tem razão. Em prejuízo de um considerado "não-psicopata". Que é um caso a estudar: as guardas deste hospital são quase todas loucas. Ou oligofrênicas." Os hospícios brasileiros A ideia de construir o primeiro hospício brasileiro surgiu em 1852, no Rio de Janeiro, por Dom Alberto Gonçalves. A instituição tinha o objetivo de "curar" os alienados, ou seja, os desajustados, em um ambiente que tivesse regras que fossem impostas através do isolamento. O Hospício Nossa Senhora da Luz foi inaugurado em 1903, mesmo ano que começa a funcionar o Colônia, em Barbacena, Minas Gerais. Conhecido como o maior hospício do Brasil, o Colônia tinha todo o tipo de pessoa, sendo que 70% deles não tinha nenhum diagnóstico psiquiátrico - eram alcoólatras, homossexuais, prostitutas, viciados em drogas, pessoas em situação de rua; os desalinhados da sociedade. Cerca de 60 mil pessoas foram brutalmente assassinadas na instituição. Em "Holocausto Brasileiro: Vida, Genocídio e 60 Mil Mortes no Maior Hospício do Brasil" (Geração Editorial, 2013), a jornalista Daniela Arbex relata a história do local e o tratamento que funcionava à base de tortura. "25-10-1959 Estou de novo aqui e isto é ------- Por que não dizer? Dói. Será por isso que venho? - Estou no Hospício, deus. E hospício é este branco sem fim, onde nos arrancam o coração a cada instante, trazendo-no de volta, e o recebemos: trêmulo, exangue - e sempre outro. Hospício são as flores frias que se colam em nossas cabeças perdidas em escadarias de mármore antigo, subitamente futuro - como o que não se pode ainda compreender. São mãos longas levando-nos para não sei onde - paradas bruscas, corpos sacudidos se elevando incomensuráveis: Hospício é não se sabe o quê, porque Hospício é deus." O redescobrimento de Maura Lopes Cançado Maura ficou esquecida por ser louca e por ter matado uma interna estrangulada com um lençol. Pouco se sabe sobre sua vida, porém, em 2015, a Editora Autêntica a redescobriu. "Hospício É Deus" e "O Sofredor do Ver" ganharam novas (e belíssimas) edições, com perfil biográfico escrito pelo jornalista Maurício Meirelles. Três anos depois, a obra de Maura Lopes Cançado inspirou a peça de teatro "Diários do Abismo". Com direção de Sérgio Modena e adaptação de Pedro Brício, a atriz Maria Padilha encena Maura durante o período em que passou em diferentes instituições psiquiátricas, como narra em sua obra. Maria encarnou a escritora, trazendo aos seus olhos o desespero, o medo e a vontade de vingar daqueles que davam eletrochoques em si e nas outras doentes. Em uma entrevista para a Folha de São Paulo, a atriz comentou sobre religião e loucura na obra de Maura: "Deus para ela, é uma ideia que está além da nossa compreensão, a loucura é um estado que a gente não consegue compreender". (Foto: Reprodução) No posfácio da primeira edição de "Hospício É Deus", a jornalista Margarida Austran visita Maura que está presa após matar a interna. Em poucas palavras, Margarida narra como estava Maura naquele período, enquanto faz paralelos com o livro que conquistou (e assustou) muitos no fim dos anos 60. Em conversa com a autora, descobrimos o porquê de ter se internado pela primeira vez em um sanatório: "Ninguém entendeu essa internação a não ser eu mesma: necessitava desesperadamente de amor e proteção... O sanatório parecia-me romântico e belo. Havia um certo mistério que me atraia". Em 1980, foi liberada do sanatório - mesmo com a pequena "liberdade", Maura nunca foi livre e não obteve o sucesso que merecia. Morreu em 1993, em decorrência de um infarto. Morreu cega e sozinha, em decorrência do hospício - o deus não a protegeu, não a amou e nem deu o tratamento certo. "Maura, procure ter-me dentro de você, assim nunca me perderá. Mas dentro de você, sem a presença física. Não adianta me reter aqui por mais uns minutos. Eu estarei junto de você, não tenha medo; de qualquer maneira."

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