Após nove dias de programações, a 24° Mostra de Cinema de Tiradentes, maior evento do cinema brasileiro em formação, reflexão, exibição e difusão, terminou. Em formato online pela primeira vez, a Mostra conquistou o coração de muitas pessoas, obtendo mais 550 mil acessos de 92 países. Sob o tema “Vertentes da Criação” proposto pelos curadores Francis Vogner dos Reis e Lila Foster, a Mostra debateu o futuro do cinema, seja ele filmado em externas ou feito em casa, sem orçamento. A criação seguirá a mesma linha? Filmar sem orçamento é possível? Qual o futuro do cinema de gênero? O tema foi (e ainda é) extremamente importante para o momento, afinal, o cinema brasileiro continua passando por diversas dificuldades. No ano passado, o governo Bolsonaro cortou cerca de 43% do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). Agora, com as variantes e o ápice da pandemia, o setor cinematográfico passa por mudanças e está se reinventando. Além de expor 114 filmes, entre longas e curtas-metragens, de 19 estados brasileiros, a Mostra também contou com o 24° Seminário do Cinema Brasileiro que contou com a participação de 112 profissionais para os 24 debates e rodas de conversa; e o Programa de Formação Audiovisual que ofereceu 10 oficinas e certificou 225 alunos. Para melhorar, a Mostra também contou com a realização da performance audiovisual, exposição e cinco shows com artistas da cena musical contemporânea. E a homenageada dessa edição foi a cineasta, produtora, escritora, artista multimídia, Paula Gaitán, que apresentou “Ostinado”, recente filme que conta o processo de criação de Arrigo Barnabé. Leia também:
Priscilla Rozenbaum e Renata Paschoal: os amores de Domingos Oliveira As pedras de Morris Documentar Raphael Erichsen: aprendizados sobre a sétima arte A 24° Mostra de Cinema de Tiradentes começou na sexta-feira, com abertura de um filme artístico, onde pequenos artesãos de Tiradentes falavam e mostravam sobre os processos de criação. Chamou atenção do escultor que precisava olhar a pedra para depois dar um formato. Leva tempo para criar uma obra e toda obra carrega uma história. Como disse um dos artesãos: “Ao comprar uma peça, a pessoa está comprando uma história”. Em seguida, foi a vez de apresentar o trabalho de Paula Gaitán, para, depois, iniciar o “Debate Inaugural - Percurso de Paula Gaitán”, mediado por Francis e com convidados que (con)vivem com Paula por muito tempo: Arrigo Barnabé, Ava Rocha, Clara Choveaux e Eryk Rocha. A artista iniciou com uma frase que mostra o motivo de fazer cinema: “Acho importante entender quem somos”. O cinema de Paula é forte, cheio de emoções, resultado de trazer a realidade aos seus filmes. Talvez nunca saibamos o que é o ser humano, qual o seu papel nesse mundo, mas Paula faz com que o telespectador se veja em seus filmes. As angústias, saudades, amores e dúvidas de seus personagens são as mesmas que nós temos. Como disse Eryk: “A vida e a criação se misturam”. Somos uma criação imperfeita. Os debates da Mostra foram importantes para a reflexão do cinema brasileiro. Destaco “A Poética do Cinema de Gênero”, mediado por Marcelo Miranda, crítico de cinema. Para compor a discussão, estavam presentes Armando Fonseca (Skull: A Máscara de Anhangá), Kapel Furman (Skull: A Máscara de Anhangá), Marco Arruda (Magnética), Otto Cabral (Animais Na Pista) e Rodrigo Aragão (O Cemitério das Almas Perdidas). Todas as obras estavam na programação da Mostra. O que seria Cinema de Gênero? Talvez nunca tenhamos uma resposta concreta, já que, como trouxe Marcelo, o conceito foi criado nos Estados Unidos para deixar todos os filmes categorizados. Esse cinema busca se comunicar com o imaginário dos espectadores por meio de uma relação franca. Ao buscar atingir os espectadores, esse cinema deseja atingir de maneira frontal. Por outro lado, existem filmes que não se afirmam "de gênero", mas dialogam amplamente com esse repertório. Para Kapel, quando essa arte passa em outros países, as pessoas já reconhecem que a obra é brasileira. Já para Armando, o preconceito que os brasileiros tinham com a própria sétima arte, não é como antigamente, ou seja, a aceitação e o reconhecimento estão acontecendo. Marco apresentou um ponto de vista que talvez defina o cinema de gênero: “O cinema de gênero representa primeiro uma sensação, para depois verificar seu gênero. O diretor coloca tudo que gosta em sua obra”, explica. O Desalinho acompanhou de perto os nove dias de programação e separou os filmes que mais gostou. São eles: Sapatão: Uma Racha/Dura No Sistema (Dévora MC - Experimental - 2020), Se Hace Camino Al Andar (Paula Gaitán - Documentário Experimental - 2021), Todas As Melodias (Marco Abujamra - Documentário - 2020), Diário de Sintra (Paula Gaitán - Documentário - 2007), Primeiro Carnaval (Alan Medina - Ficção - 2020) e Milton Freire: Um Grito Além da História (Victor Abreu - Documentário - 2020). Conheça os vencedores da 24° Mostra de Cinema de Tiradentes Melhor longa-metragem da Mostra Aurora, pelo Júri Oficial: “Açucena, de Isaac Donato Melhor longa-metragem pelo Júri Jovem, da Mostra Olhos Livres, Prêmio Carlos Reichenbach: “Nũhũ yãg mũ yõg hãm: essa terra é nossa!”, de Isael Maxakali, Sueli Maxakali, Carolina Canguçu e Roberto Romero Prêmio Helena Ignez para destaque feminino: Ana Johann, diretora e roteirista de “A Mesma Parte de um Homem” Prêmio Canal Brasil de Curtas: “4 Bilhões de Infinitos”, de Marco Antônio Pereira Melhor curta-metragem da Mostra Foco, pelo Júri Oficial: “Abjetas 288”, de Júlia da Costa e Renata Mourão Empregos e economia Para a realização da 24° Mostra de Cinema de Tiradentes, em ambiente digital, a Universo Produção, responsável pela idealização e realização do evento, montou uma infraestrutura especial na Casa da Mostra. Foram contratadas mais de 100 empresas que atuaram na prestação de serviço para o evento. Estima-se que foram gerados mais de 500 empregos diretos e indiretos. 49 profissionais integraram a equipe de trabalho nas etapas de pré-produção e produção. Viva o cinema!

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