"O caos é bom", Henri Vasques me diz quando iniciamos nossa conversa por Zoom. Falamos brevemente sobre a vida em São Paulo e como a grande metrópole nunca dorme, afinal, todo dia acontece alguma novidade. Diferente de mim, que adoraria sair dessa loucura, o artista se encontrou por aqui, mas enxerga as dificuldades diárias. Inclusive, essa atmosfera está presente em sua obra: há pulsação e inquietação que provocam, acolhem e, por vezes, desestabilizam. (Créditos: Tauana Sofia) Em uma cidade que abriga milhões de histórias diferentes, Henri transforma sensações individuais em algo coletivo. Em Músicas de Gaveta (2021), seu primeiro lançamento, o artista utiliza a melancolia e a memória para refletir sobre a vida adulta e as dores desse crescimento, enquanto atravessava o luto e a pandemia. "Acho que esse EP nasceu nessa solidão e dessa vontade de experimentar também, me testar. Foi um registro daquele meu momento", explica. Esse caráter de registro, marcado pelas vivências, é uma característica forte em sua obra. Em Outro Planeta (2022), seu primeiro disco, o trabalho nasce a partir do amor, sentimento que, por vezes, esquecemos em meio ao neoliberalismo. Com influências de new wave, Henri Vasques percorre as diversas facetas de um relacionamento após um processo de autoconhecimento: paixão, desejo, cumplicidade, crises e até o fim. Já em Tudo Que Não Pode Ser Mais Nada (2026), EP lançado neste mês, ele retorna ao início para propor uma nova mudança, agora com coragem. Leia também: A prova calma de Serafim Show: Viagra Boys e Interpol Conheça: Bruno Tenório Você acha que o EP Músicas de Gaveta também foi uma maneira de se conhecer? Como foi revisitar essas memórias, abrir essa gaveta, para colocar para fora o que você tinha sentido no passado? Eu acho que foi uma maneira de lidar com algumas coisas e é engraçado que elas reverberam até o EP de agora, né? Em "Criança Adulta", música que tem nesse primeiro EP, eu já falava um pouco disso. Então acho que era, sim, uma forma de desabafo e de revisitar algumas coisas que eu estava vivendo ali de um passado não tão distante, de 2020. E é engraçado porque agora, tem a música "Antes da Morte Chegar" que teve algumas mudanças e teve vários processos, foi a primeira que eu fiz e foi bem difícil de fazer, mas ficou um pouco desse tema ainda. Eu não esperava que você ia falar sobre esse primeiro trabalho, mas foi legal você puxar isso porque acho que esses dois EPs se dialogam muito. Talvez eu não tenha pensado antes, mas talvez Tudo Que Não Pode Ser Mais Nada seja resposta à Músicas de Gaveta . Como você se sente ao expor esses sentimentos? Aliás, como você se sente hoje em dia ao relembrar a trajetória que você teve ali na pandemia, que saiu pós-pandemia, que conseguiu lançar Músicas de Gaveta ? Eu tenho o costume de compor [músicas] autobiográficas. Eu tenho dificuldade de criar personagens, gostaria de fazer isso mais. Acho que tem um pouco em Outro Planeta , eu consegui fazer minhas músicas mais pop e eu só queria falar sobre romance, sobre amor… Ainda pegando coisas biográficas ou de histórias que eu escutava de outras pessoas, mas eu consegui ainda fazer isso, mas esses dois EPs são totalmente autobiográficos. Eu acho que as pessoas estão entendendo essa vulnerabilidade, fica claro nas canções, que são muito confessionais. Foi como eu fiz as músicas, de uma forma vulnerável mesmo: estar ali no meu quarto sozinho, nos meus momentos íntimos, colocar no papel e ter coragem de passar pra frente. Algumas pessoas até brincam comigo [falando] “você tá bem?” [risos] Às vezes as pessoas estão muito tristes, né? É por isso que eu faço música, eu quero tentar passar as coisas que eu tô sentindo e [espero] que alguém possa se identificar com o que tá sendo dito ali. Mas não é difícil? Eu acho que não. Eu acho que pra mim o mais difícil é fazer o personagem. Eu gosto de fazer personagens imagéticos, eu trabalho com audiovisual, eu adoro pensar nos visuais, nas capas, nos clipes - é uma das minhas partes favoritas. Mas quando eu tô escrevendo, eu nem consigo... É meio terapêutico. Você só vai lá, senta e faz, sabe? Você não tá pensando... Pelo menos eu não tô pensando muito no depois. Eu acho que quando vai lançar, vem o medo, e talvez esse medo venha atrasado. Ele não vem na hora que tá sendo feito. Ele vem na hora que vou ter que expor. Quando você olha pra trás, você consegue fazer as pazes também com o passado, e consegue entender o porquê de ter se transformado no adulto de hoje? Acho que sim, mas são altos e baixos. Em "Ruído", canção em Músicas de Gaveta, você canta: "eu até gosto do mistério de não saber o que vai dar". Você continua gostando do mistério? Gosto. [risos] Devia gostar menos. [risos] Eu acho que eu romantizo o mistério. Na minha vida artística eu escolheria o mistério, já na vida real escolho a certeza. Em Outro Planeta você deixa de lado a nostalgia para dançar as diferentes fases de um relacionamento. Por que essa mudança? Eu me apaixonei [risos] no meio da pandemia, olha que coisa! Eu odeio falar isso porque ninguém estava bem, mas como 2019 foi um ano muito difícil pra mim, a pausa da pandemia me fez olhar para dentro, foi uma época em que eu me descobri muito e o que eu queria pra minha vida. Quando mudou para 2021, eu tava muito esclarecido - eu sei que o mundo estava horrível, eu estava muito chateado e preocupado, mas comigo eu tava em paz. Eu acho que Outro Planeta vem muito do lugar de estarmos nos descobrindo, o corpo do outro, a vida do outro. Em um momento em que o mundo é outro lugar. Eu tinha sido muito inspirado pela Jessie Ware, como álbum What’s Your Pleasure? (2020). Eu lembro [quando ouvi o álbum] de ter um efeito muito especial: tava todo mundo triste em casa, mas [ao ouvir o] álbum, a gente podia pegar uma tacinha [gesticula com as mãos e mexe o corpo], botar o som e curtir, ter um pouco de leveza, um momento dançante, gostoso para se ter em casa. Eu falei “invés de fazer um disco triste, vou fazer algo pop, dançante que explique um pouco esse meu amor, vou botar isso pra fora”. Aí chamei um amigo que eu tinha conhecido há pouco tempo, o Joe Irente [produtor do álbum] , que tem umas referências totalmente opostas a mim, ele gosta de música industrial, techno… Ele é do ambiente, mais do experimental e eu sou super popzinho. [risos] Mas aí eu pensei “o que é uma coisa que eu amo de paixão e que eu acho que ele vai gostar também?” A gente achou o nosso ponto em comum que era o new wave. A gente [resolveu] fazer [o álbum a partir do] disso, mas o combinado foi: vai ser colaborativo. Não tinha verba, diferente desse que eu tô lançando, por isso, o projeto tinha que ser dele também, ele tinha liberdade pra colocar o DNA dele. É o meu primeiro disco, mas tem muito do DNA do Joe. A nova fase de Henri Vasques (Créditos: @tauanasofia) Vestindo um terno e segurando sua guitarra, Henri Vasques aparece sentado no chão de uma sala paulistana, olhando para um ponto que só ele vê. Não sabemos exatamente o que é, mas talvez tenha relação com o universo que construiu neste novo trabalho. Dialogando com diferentes vertentes artísticas, as faixas do EP foram compostas em um período atravessado por dúvidas e descrenças. Agora, após esse processo de compreensão, o artista parece pronto para se transformar mais uma vez. Depois de dançar, a melancolia retorna em Tudo que Não Pode ser Mais Nada . Por que? Como foi o processo de retornar a esse sentimento para o EP? Mais uma loucura que eu vou falar. Igual quando eu falei que o mundo ia se acabar na pandemia e eu tava olhando pra dentro de mim e isso foi bom, quando voltou a vida, foi o inverso. O mundo pode respirar de novo, todo mundo pode voltar a ver a luz do sol, ir em shows, eu tive uma crise do tipo “como eu volto?” Acho que era a sensação de proteção… Uma coisa que era comum de se ouvir falar era sobre fobia social - “eu tô com fobia social” -, eu não sei se eu chegava nessa fobia social, mas era um momento depressivo. Eu acho que teve muitas expectativas frustradas sobre o mundo ser melhor, lembra desse papo? A gente vai sair melhor, com aprendizados… E ta aí, ano de eleição e de tantas coisas horríveis. Em "Resoluções" você canta "seria tão difícil por segundos entender o que minha mente por anos não compreendia". Hoje você consegue entender sua mente e, consequentemente, entender quem é você? Acho que vou ficar em cima do muro igual a outra pergunta: para algumas coisas sim, outras coisas não. Falando especificamente dessa frase, essa música é sobre o relacionamento que eu vivo atualmente e é muito difícil… Uma das coisas mais difíceis é se relacionar [risos] por vários motivos: quando se é adolescente é aquela paixão avassaladora e a chance de você viver um amor tóxico é gigante, tudo é demais. Aí você vai envelhecendo… Tem a questão da falta de comunicação, onde as pessoas se amam, se gostam, mas não conseguem se comunicar, é uma coisa impressionante! Acho que “Resoluções” fala da fase adulta que é uma coisa… Se a gente achava que na adolescência, só porque tinha aquela coisa da paixão [gesticula os braços, olha para os lados e solta um ruído] , o adulto é muito mais complexo e ele pode ser complexo dentro de um relacionamento saudável porque começa essa coisa de “vai ter filhos?” “estamos envelhecendo, você quer morar onde?” e é muito complicado porque, às vezes, você tem que se separar mesmo amando essa pessoa, né? Essa música, de forma do improviso e espontânea, eu fui compondo e depois eu fui só mexendo nela para melhorar a letra. Já em “Antes da Morte Chegar” você reforça que sempre buscamos algo antes da morte chegar, já que é a única certeza da vida. O que você busca? [breve silêncio] Acho que tranquilidade. Eu quero saber que eu fiz todas as coisas que eu sinto que devia ter feito. Eu sei que é meio clichê, mas eu espero que eu esteja vivo para envelhecer e quando eu envelhecer e for partir, eu saiba que, talvez, algumas conquistas eu não realizei, mas pelo menos eu pense que eu fiz tudo que eu devia fazer pra ser feliz, pra tentar alcançar os meus objetivos. Em uma cidade que não desacelera, onde o caos é regra e o silêncio parece inexistente, Henri Vasques encontra espaço para sentir tudo. Se antes suas músicas registravam dúvidas, perdas e descobertas, agora também apontam para um movimento adiante, reforçando que viver em meio a rupturas constantes é também aprender a recomeçar. Tudo que Não Pode ser Mais Nada ao vivo Na quinta-feira, 26, Henri apresenta seu disco no A Porta Maldita, além das canções de sua discografia. Garanta o seu ingresso aqui .

