"Viver é melhor do que sonhar", canta Elis Regina em "Como Nossos Pais", canção de Belchior. É com ela que a cantora abriu "Falso Brilhante" (1976), um álbum poderoso que mostra as diversas camadas da eterna Pimentinha. Em 10 canções, o ouvinte se transporta para o mundo que Elis estava vivendo nos últimos tempos: composto por músicas, influências circenses, os anos de chumbo e a vontade de ser livre - marcada por cada nota que sua voz alcançava. Conhecida pelo temperamento forte e por nunca ter medo de apostar em seus sonhos, Elis era a cantora preferida de minha tia. Com a xícara de café cheia na mão direita, enquanto seus dois dedos esquerdos seguravam um cigarro aceso, tia cantava suas canções e relembrava os momentos de sua juventude - com trilha sonora que incluía Roberto Carlos, Jovem Guarda e samba. Assim como a cantora, minha tia repetia constantemente que "viver é melhor do que sonhar". Em uma das diversas entrevistas, Pimentinha disse: "Aprendi que a vida é feita de dois lados. Você precisa conhecer o lado torto para conhecer o lado bonito. Então, nesse sentido, todas as experiências pelas quais nós passamos são absolutamente válidas" - hoje, anos depois, acredito que quando disse essas palavras, a cantora queria dizer que ao viver os dois lados, pré e pós-fama, chegou à conclusão de que a vida de artista é um falso brilhante; ou seja, não é aquilo que sempre pensamos - a fama consegue destruir vínculos e a vida; e que viver é melhor do que sonhar. Leia também: As diversas facetas de Gabriel García Márquez A divina comédia de Nick Cave Moraes Moreira: sempre cantando O título do décimo quarto álbum de estúdio fora retirado do bolero "Dois pra lá, dois pra cá" de João Bosco e Aldir Blanc - o nome foi usado como metáfora para sua vida; quando era questionada sobre o nome, Elis respondia: "Não há brilhante mais falso que a vida de artista". O álbum surgiu após o sucesso do espetáculo que fez entre 1975 a 1977, no Teatro Bandeirantes. Sob direção artística de Myriam Muniz e direção musical de César Camargo Mariano, o espetáculo era composto por um ambiente circense, onde Elis, ao lado de músicos, cantava e interpretava músicas que contavam a história de sua vida pessoal e profissional. (Fotos: Reprodução) "Fascinação", quinta música do álbum, era a preferida da tia. Enquanto cortava as verduras para fazer o almoço, sussurrava as frases em um ritmo lento. Quando chegava na parte do "amor", olhava para mim e dizia - "Amor!" com letra maiúscula e ênfase. A gente ria e fazia confissões silenciosas, acreditando que era possível conversarmos pela mente. "Velha Roupa Colorida" outra canção de Belchior fez sucesso na voz de Pimentinha. Diferente do cearense, Elis interpretava com unhas e dentes, mostrando sua força ao público. O protesto da cantora fica por conta de "Los Hermanos" e "Um Por Todos" - em um ritmo flamenco, Pimentinha canta para a população latino-americana que passava por diversas ditaduras, redimindo-se após cantar em um quartel brasileiro anos atrás. Já a segunda, pedia para que os brasileiros se unissem para derrotar o fascismo que durou 21 anos. "Jardins de Infância", outra composição de Aldir Blanc, mostrava Elis solta - de forma divertida, criticava o governo ao ritmo do jazz. Enquanto "Quero", a canção mais bonita do álbum, guia Pimentinha para um mundo que está em sua imaginação. "Gracias a la vida" celebra a vida. Com o cenário circense e a mistura de gêneros musicais, a Pimentinha enfatiza o que apresentou no início: viver é melhor do que sonhar. O falso brilhante também está fora da fama - em "O cavaleiro e os moinhos", Elis mostra ao público que existe um lugar para todo mundo e que cada um tem o seu valor: "Eu, baderneiro, me tornei cavaleiro". Lembro que em uma das diversas crises existenciais durante a puberdade, tia me lembrava que eu poderia ser tudo; se meu sonho era fazer jornalismo, me tornaria uma. Ela não conseguiu acompanhar essa parte, mas sempre que ouço essa música me recordo dos seus dizeres e lições. "Falso Brilhante" termina com "Tatuagem", de Chico Buarque. Acompanhada apenas do piano, Elis dá um show e brilha com a música, marcando-se na pele do ouvinte. A potência é forte e é finalizada quando está em seu auge. Quarenta e seis anos depois, o álbum continua potente e chamando atenção de jovens. Elis não está mais aqui, mas seu brilho continua forte, crescente a cada dia que passa. É bom dizer que sou brasileira, como Elis Regina e minha tia - duas mulheres que me inspiram e que me trazem confiança para ir além. Viver tem sido difícil, mas resistir ainda é melhor do que sonhar.

Elis Regina: "viver é melhor do que sonhar"