Em "Linha M" (Companhia das Letras, 2016), Patti Smith inicia seu livro com a seguinte frase: "Não é tão fácil escrever sobre nada". O vaqueiro, de seu sonho, ganha força com o diálogo que teve com a cantora . Não é fácil escrever, Patti. Digo isso e repito o tempo todo. Escrever sobre algo, com sentimentos, não é fácil. Mostrar o verdadeiro eu, é difícil. Já na página 13, ainda de Linha M, ela dá continuidade sobre a escrita: "(...) Tenho certeza de que poderia escrever infinitamente sobre nada. Se ao mesmo eu tivesse nada a dizer." Todo mundo tem algo a dizer. Seja uma frase, um pensamento ou palavras que estavam trancadas há anos no fundo da garganta. No entanto, poucos conseguem dizer o que realmente querem dizer. Patti é uma dessas pessoas. Ao escrever sobre suas viagens ou a rotina que conta com diversas xícaras de café, Patti faz de seu cotidiano, poesia. "Linha M", uma biografia e ficção, tem muito sobre isso. Em todas as frases, Patti relembra sua história de forma poética, deixando o leitor emocionado, perto dela. É impossível não se sentir amigo dela. O Desalinhando, especial deste site, traz a vida e arte da pessoa mas, dessa vez, farei algo diferente: Desalinhando Patti Smith é uma carta aberta para a cantora, compositora, escritora e poetisa que me salvou na adolescência, quando estava com uma depressão profunda. Muito tempo se passou desde esse tempo horrível e ela continua aqui. Leia também: Desalinhando Sylvia Plath: a escritora imortal Desalinhando Bruce Springsteen: o dono de Nova Jersey Os melhores álbuns lançados em 2020 Querida Patti, Durante a pandemia, tenho revisitado suas obras. Livros, poesias, releituras e canções. Me apeguei, mais ainda, ao seu livro "Linha M". Ele é o meu preferido, pois trata de sua vida, seu amor por Fred, sua vivência e a importância das palavras em sua vida. Toda vez que pego o livro em mãos, me emociono. Se me perguntar o motivo, não vou conseguir responder... Talvez seja a poética ou seus sentimentos ou a história de sua casinha que foi destruída por um furacão ou por citar Murakami. Tudo e nada. Na adolescência, quanto te descobri após ouvir seu dueto com Bruce, me perguntei se poderia escrever como tu. Ou ser você. Ou fazer as perguntas certas. Ou entender que perdas são necessárias. Enfim, não precisei ir longe para ficar apaixonada por você - profissional e pessoal. Não precisei ouvir duas vezes "Birdland" para chegar a conclusão que é a melhor música cantada por ti. No final, é tudo sobre poesia. Ainda na adolescência, me perguntava quando iria ao um show seu. Isso aconteceu no ano passado - e foi um dos momentos mais lindos de minha vida. Lembro do momento em que as luzes se apagaram e você entrou com a banda. Gritos, assovios e aplausos tomaram conta do Memorial da América Latina. Eu, perto da grade, estava chorando (e olha que eu não choro com frequência). Do começo ao fim da apresentação, chorei, gritei, pulei e abracei estranhos. É engraçado o que você pode fazer com a gente, seus fã: tu une pessoas desconhecidas, sua energia entra em nossas almas e acreditamos que um mundo melhor será possível. Relembro, também, o discurso que fez durante o show, após cantar "People Have the Power" - é possível construir um novo mundo, sem fascismo, sem ódio e com arte. Mesmo com o pessimismo tomando conta de meu coração, acredito em suas sábia palavras, afinal, a esperança não pode morrer. Ficaria mais fácil escrever essas palavras se eu conseguisse expressar minha admiração por Patti. Penso, enquanto digito no bloco de notas. Se eu tenho um tema, a escrita deve ser mais fácil, certo?! Não, escrever continua difícil, as palavras pesam para aquele que escreve. Vejo que estou perdendo o foco e peço desculpas por isso. Nesse momento difícil, Patti, sua obra ganha um novo sentido pra mim: sobrevivência. Como disse no vídeo acima, a vida é difícil e curta, por isso, precisamos aproveitar. Nascemos, vivemos e morremos. É preciso fazer algo com a existência. Encontrar alguém, conhecer a felicidade, rir, abraços apertados, amar - viver intensamente, criar memória e dizer que passou pela vida. Valer a pena. Nada dura para sempre. A pandemia e os ratos do poder também não durarão. A esperança de Patti, em um corpo jovem, contagia o próximo. Ela sussurra: não tenha medo, abrace, fique comigo. Fico, Patti, fico sim. Agora, mais do que nunca, sobreviver é um ato de vingança. No dia do seu aniversário, aos 74 anos recém completados, finalizo essa carta. Ou algo do tipo. Mais uma vez, falhei na escrita, mas vou sempre tentando. Escrever é aliviar, certo? Deixo o meu obrigada - por músicas, show, ensinamentos, livros, poesia. Com sorte, daqui alguns anos nos reencontraremos de novo para viver e criar novas memórias. Feliz aniversário, Patti Smith, obrigada por existir.

Desalinhando Patti Smith: das xícaras de café a pandemia