No dia 5 de agosto de 1962, o Dr. Ralph Greenson, arrebentou a porta do quarto de Marilyn Monroe após receber o telefone de Eunice Murray, governanta da atriz. Em uma ligação rápida, Eunice disse que Marilyn estava trancada no cômodo há horas e não respondia os chamados. Ao entrar no quarto, o psiquiatra encontrou a atriz morta, deitada de bruços, segurando o fone do telefone com a mão direita e com diversos frascos de pílulas abertos sobre o criado mudo. No dia 5 de agosto de 1962, o brilho da queridinha de Hollywood foi apagado. Marilyn Monroe surgiu em 1946, poucos dias antes de assinar o contrato com a 20th Century-Fox. Antes de ser obrigada a descolorir os cabelos e criar a pinta falsa em sua bochecha, a atriz era apenas Norma Jeane Mortensen, uma mulher de Los Angeles que sonhava em conhecer seu pai, ter um bom casamento e estabilidade emocional. A história de Norma começa turbulenta ainda no útero de sua mãe Gladys Pearl Monroe. Filha de Gladys e, talvez, Edward Mortenson, Norma nasceu no dia 1° de junho. Ao registrar a filha, Gladys adicionou o sobrenome do ex-segundo marido. De acordo com o biógrafo J. Randy Taraborrelli, autor de "A Vida Secreta de Marilyn Monroe" (Planeta, 2010), após o desquite, "Gladys passou a imitar o comportamento da mãe e se tornou notoriamente promíscua". Após envolver-se com diversos homens, no final de 1925, descobriu-se que estava grávida e não sabia quem era o pai. Por um tempo, dizia que sua filha era fruto do relacionamento com Charles Stanley Gifford, mas nunca soube a verdade. Desse modo, estava sozinha para criar seu bebê. É necessário lembrar que Gladys já tinha sido casada pela primeira vez. Aos 16 anos, entregou-se de corpo e alma a um jovem empresário chamado John Newton Baker, tendo dois filhos: Robert e Berniece. Ao pedir divórcio do marido que a espancava, John se mudou com os filhos para Kentucky, fazendo com que a mãe nunca mais visse seus descendentes. Nunca saberemos se Norma soube da existência dos dois irmãos. Dizem que um raio nunca cai no mesmo lugar (ou na mesma família), mas para essa história, três raios caíram na mesma genética. Della Monroe, mãe de Gladys, tinha problemas psiquiátricos, nunca diagnosticados e tratados, e morreu cedo, aos 51 anos. A filha, além da depressão de ficar longe dos dois filhos, após dar à luz de novo, teve depressão pós-parto e, mais tarde, foi diagnosticada com esquizofrenia. Recebeu o tratamento adequado tardiamente, não podendo ser a mãe que sempre sonhou para seus filhos. Norma Jeane tinha dias bons e ruins, com algumas crises, mas quando tornou-se Marilyn Monroe, o símbolo sexual, uma fama inesperada, suas crises pioraram, levando-a aos remédios e consequentemente à morte. Leia também: Impressões: Vermelho Amargo Desalinhando Andrei Tarkovsky: o cineasta da vida Desalinhando Sylvia Plath: a escritora mortal Muito foi escrito e falado sobre Marilyn Monroe, mas nunca saberemos a verdade sobre quem era e o que realmente queria aquela mulher. Vivendo em lares temporários e orfanatos, cresceu sendo manipulada e com vontade de ser amada e aceita. Sonhava acordada com um marido que a protegesse e que a deixasse livre para atuar no teatro e no cinema do jeito que sonhou ao construir sua carreira. Mesmo tendo se casado três vezes com homens diferentes de sua persona, Marilyn nunca encontrou a felicidade sonhada. Após "Os Homens Preferem As Loiras" (1953), Marilyn ficou conhecida como a "loira burra" do cinema. Se isso a incomodou? Não no momento, somente no futuro, assim como o símbolo sexual que foi imposto. A crítica de cinema, Molly Haskell, escreveu sobre a estrela: "Marilyn era a ficção dos anos 50, a mentira de que uma mulher não tinha necessidades sexuais e que ela estava lá apenas para atender ou melhorar as necessidades de um homem". Marilyn estudou teatro por muitos anos, leu diversos livros, escreveu poemas e histórias, mas nunca foi levada a sério pelo estigma imposto à ela. Há uma confusão sobre o QI da estrela ser 168 ou 169 e como as pessoas chocavam com a informação. "Como é possível um número tão alto para uma mulher que não sabe fazer nada?", perguntavam. Marilyn não era burra, a atriz estudava, escrevia poemas, tinha planos de montar uma peça com o dramaturgo norte-americano Arthur Miller, seu último marido. Ela era fã de William Shakespeare, Walt Whitman e James Joyce. (Talvez, pelo passado conturbado, a fama, os diversos remédios que tomava e o impacto das pessoas que passavam em sua vida, Marilyn aceitava os estigmas que colocaram nela; no entanto, quando chegava em casa e escrevia em seu diário, ali conhecemos a verdadeira atriz de cinema.) Existem diversas teorias que Monroe foi assassinada pela CIA, por comunistas, pelos Kennedys - a lista é enorme, mas John Miner, oficial de justiça que esteve presente quando encontraram o corpo de Marilyn, discorda: "Não é possível que essa mulher tenha se suicidado. Ela tinha planos específicos para o futuro. Ela sabia exatamente aquilo que queria fazer". São mais de 50 anos sem Marilyn Monroe e ela continua sendo um mistério, além de uma necessidade para ser desvendada. É descoberta por jovens. Textos, poemas, diários e cartas continuam sendo encontrados e vendidos. O interesse pela atriz é vivo. Marilyn morreu pedindo ajuda e sozinha, como Elis Regina e Kurt Cobain, mas o seu legado continua. Lembremos de Marilyn como atriz, muito mais do que um símbolo sexual.

Desalinhando Marilyn Monroe: muito mais do que um símbolo sexual