Em "Banquete Coutinho" (2019), filme de Josafá Veloso, que tenta conhecer um pouco mais do maior documentarista brasileiro, Eduardo Coutinho desdém do próprio trabalho: "Eu faço uns filmes aí eu fumo". Como se fosse simples viajar pelo Brasil em busca de histórias reais, personagens brasileiros que retratam o Brasil, entrevistar, montar uma estrutura, entrevistar, editar e lançar no mercado. Fazer um filme nunca foi fácil, ainda mais quando Coutinho tinha a missão de apresentar ao público a vida dos brasileiros como ela é, ou seja, real. A história de Eduardo Coutinho com a arte começou cedo, mas não temos uma data definida. Sabemos que ele já foi ator, diretor de cinema, revisor, crítico e jornalista - e essas passagens o ajudaram a moldar o diretor de cinema que foi em vida. Inclusive, foi na década de 1960, ainda jovem e cheio de vida, que concluiu o curso de direção e montagem em Paris. Quando volta ao Brasil, em 1962, acompanha a caravana UNE Volante, da União Nacional dos Estudantes (UNE) e encontra a história e a personagem que buscava. Elizabeth Teixeira era viúva de João Pedro Teixeira, integrante da Liga Camponesa, e carregava seus filhos, dores, perdas e sentimentos oscilantes no peito. A partir disso, Coutinho decide contar a história dessa família. A ideia foi interrompida pelo golpe militar em 1964 e o filme foi aprendido. O diretor só consegue colocar as mãos no projeto já filmado na década de 80. Por conta dos anos "perdidos" em alguma prisão do Rio de Janeiro, o diretor decide dar um novo panorama ao filme; desse modo, surge "Cabra Marcado Para Morrer" (1984), onde Eduardo Coutinho apresenta uma nova linguagem para o documentário brasileiro. O cinema de Coutinho é uma junção entre jornalismo e perguntas básicas, curiosas. O diretor já disse várias vezes: "Bom é o filme que faz perguntas, o que tem respostas, você joga no lixo". É justamente isso que Coutinho fez em sua carreira: não apresentou filmes que contenham respostas, apresentou os brasileiros de maneira crua, expondo-os. Os entrevistadores é que dão rumo aos trabalhos, ditando suas regras. Como disse o diretor João Moreira Salles, após apresentar o filme inacabado de Coutinho, "Últimas Conversas" (2016): "A cada novo filme, Coutinho aprofunda as questões de método, sem jamais transformá-las em exercícios de teorização". Leia também: Possa Nova: a persona madura de Filipe Mariz Impressões: Diante Da Dor Dos Outros Desalinhando Lima Duarte: o brasileiro esperançoso Em 2014, o diretor foi assassinado pelo seu filho Daniel Coutinho, que sofre de esquizofrenia. Coutinho morreu em sua casa. A morte do diretor foi retratada durante todo o dia em todos os veículos de comunicação. Quando foi morto, eu estava trabalhando - e foi no boteco da esquina, ao pedir um salgado para comer no almoço, que recebi a notícia de que o responsável pelos filmes "Jogo de Cena" (2007) e "Edifício Master" (2004), melhores filmes nacionais, morreu. Na faculdade de jornalismo, tive um professor de TV que era obcecado por Coutinho. Ao ensinar os alunos sobre os princípios da televisão, como escrever uma lauda e a importância do VT, esse professor utilizava os trabalhos de Coutinho para o "Globo Repórter". Então, quando eu achava que já estava bom os exemplos e que o professor poderia trabalhar com outros jornalistas, ele continuava batendo na tecla que "Coutinho é um mestre, precisamos dar continuidade ao seu trabalho". No penúltimo ano da faculdade, volto a ter aula com esse professor de TV, agora sobre documentários. Eduardo Coutinho volta para a sala de aula. Cada quinta-feira um aprendizado novo sobre o mestre do documentário. Eu brincava, piscava os olhos, ficava cansada pela devoção do professor ao diretor, mas digo agora, alguns anos depois da conclusão do curso: o trabalho de Coutinho é necessário para todos os jornalistas e aos amantes da sétima arte. Seu trabalho é único, inspirador, verdadeiro e revolucionário. Para escrever esse texto/carta aberta ao diretor que não está mais presente, revisitei alguns dos seus trabalhos. É impossível não se emocionar com os ângulos, frases, perguntas e histórias que são compartilhados com o público. Em "Banquete Coutinho", o mestre diz para Josefa: "Meus filmes são a favor da vida, eu só existo pelo lado do outro". Entre um cigarro e outro, Coutinho reflete sobre sua vida e os motivos para continuar criando, filmando. Em um momento, diz que a realidade é horrível, que viver machuca, que não contém a mágica que existe no cinema e é por e para isso que ele continua vivendo - entrega-se de corpo e alma para o cinema para poder esquecer da sua existência e seus problemas. "Eu só existo pelo olhar do outro", disse. "O tempo passará e nós partiremos para sempre. Vão esquecer nosso rosto, nossa voz; vão esquecer que nós éramos três. Mas o nosso sofrimento se transformará em alegria para aqueles que virão depois de nós. A felicidade e a paz reinarão sob a terra e aqueles que vivem agora serão lembrados como boas palavras e abençoados. Minhas queridas irmãs, nossa vida ainda não terminou. Vamos viver, vamos trabalhar." Schopenhauer dizia que precisamos da morte para filosofar sobre a vida. Porém, se perguntava: o tempo preenche nossa existência? Coutinho sabia, assim como todos nós, que a morte é a única certeza que temos, mas dizia que tinha medo da morte. É engraçado pensar que o diretor tinha medo da morte e continuava fumando mesmo com o enfisema pulmonar que o acompanhava há anos. Inclusive, ele tira sarro da doença em "Banquete Coutinho". Em "Sobre A Morte" (Martins Fontes, 2013), o filósofo alemão escreve que "a morte é a grande ocasião para se deixar de ser EU". Então, quando acaba a vida, o indivíduo encontra a sonhada liberdade para ser quem sempre desejou. Coutinho não esperou a morte, para relatar sua existência. Em entrevista Elsa Fernández-Santos, do El País Brasil, o cineasta encontra uma saída para sua vida: "Abandonei a ficção pelo documentário para livrar-me de mim mesmo. Era a única possibilidade de esquecer minha própria história: falar dos outros". Em "Últimas Conversas", Coutinho explica para Bruna, uma das personagens do filme, o que ele estava fazendo naquela sala em que filmava enquanto conversava com crianças e adolescentes: "Vou te fazer várias perguntas normais sobre a vida, e você pode responder com verdades ou mentiras, dá na mesma. Eu já não sei se a verdade existe… Vocês, jovens, são complicados porque estão vivendo, mas no entanto não tem recordações, não perderam ninguém, não amaram ninguém. Então, só perguntarei coisas idiotas, como se fosse um marciano ou uma criança de quatro anos". Através dessa fala mansa, ficando no mesmo nível do personagem, Coutinho conquistava todos. Sete anos se passaram desde sua morte e o diretor continua vivo. Seus filmes continuam construindo personas, inspirando novos jornalistas e sua arte está tão viva como era sua vontade de mostrar o outro. Eduardo Coutinho foi e continua sendo o maior documentarista brasileiro.

Desalinhando Eduardo Coutinho: o maior documentarista brasileiro