“A Little More Blue” dá o tom do álbum de Caetano Veloso (1971). As primeiras estrofes da música relatam o exílio do cantor, que vivia há dois anos em Londres, após ser expulso do Brasil durante a ditadura civil militar: “One day I had to leave my country, calm beach and palm tree. That day I couldn’t even cry”. Em entrevista ao Jornal do Brasil em 1991, Caetano disse que o disco era “deprimidérrimo”. Além de deprimido, o cantor estava melancólico. A capa mostra a dor em abandonar seu país, sua família e viver em outro país, sem a praia calma e suas palmeiras. Suas canções são influenciadas pela temperatura britânica, céu cinzento, chuva e umidade. Sem sol, gingado e sotaque baiano não é possível ser feliz. O primeiro disco feito em Londres foi feito através de memórias e saudades. Em “If You Hold A Stone”, Caetano deixa o tropicalismo de lado e mistura inglês e português, relatando a solidão que sentia: “Eu não vim aqui / Para ser feliz / Cadê meu sol dourado / E cadê as coisas do meu país?”. “Shoot Me Dead” diz sobre a repressão militar, desde a prisão até os interrogatórios que dava para ouvir os gritos de quem estava sendo torturado na sala ao lado. Já em “Asa Branca”, última faixa do álbum, é possível sentir sua dor, principalmente na frase “Eu perguntei a Deus do Céu, uai / Por que tamanha judiação”. No final, a canção de Luiz Gonzaga que retrata as transformações do homem sertanejo também falava do momento que o país vivia. Caetano é um dos diversos artistas que fizeram da dor arte - e que dá aula sobre os anos sombrios que o Brasil passou. O país que tem Caê, é aquele que tem esperança.

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