Bob Dylan e verdade absoluta são coisas opostas. Assim como Borges fez na literatura, sua obra é um jogo onde realidade e ficção se misturam a ponto de tornarem-se indissociáveis (especialmente na sua obra pós-65). Enquanto parte da crítica e dos fãs esperavam que Bob fosse um cronista de seu tempo - e protestasse contra sabe-se-lá-o-que-estava-acontecendo, ele nadava contra a corrente e fazia exatamente o oposto com um sorriso maléfico no rosto. Tem sido assim há mais de 50 anos. Começo com essa constatação para justificar esse texto sobre os recém-completados 80 anos de Dylan estar sendo postado fora de sua data de aniversário. Gosto de pensar que o homem que passou as últimas seis décadas desafiando as convenções e rindo dos status quo, aprovaria essa minúscula transgressão. É impossível falar da obra de Dylan no singular. Tão rico quanto o universo de personagens que habitam suas músicas são as encarnações que o cantor teve desde o começo dos anos 60: de trovador da música folk a herege beatnik. De pai de família no campo a cristão convertido em plena meia idade. Da busca da identidade norte-americana através da música ao comercial milionário de uma montadora de carros exaltando o orgulho estadunidense. Dylan foi - e continua sendo - um pouco de tudo, sem medo da contradição ou do ridículo. Como ele mesmo disse em "Things Have Changed", música que faz parte da trilha sonora de "Garotos Incríveis": I used to care, but things have changed. O rótulo de cantor de protesto sempre foi muito pequeno para sua grandeza. Sua caneta não poupou nenhum detalhe da psique humana: amor, ódio, saudade, dor, alegria, raiva, traição, coração partido, redenção, morte. Se o ser humano é capaz de sentir, Dylan certamente escreveu sobre isso. Quem ouviu o álbum de estréia em 62 sem conhecer o rosto rechonchudo daquele garoto de 19 anos com aspirações à la Woody Guthrie deve ter pensado que, na verdade, Dylan era um homem beirando a terceira idade. Convenhamos: como alguém pode cantar: "In my time of dying" com tanta convicção antes mesmo de atingir a maioridade legal?! Há duas possibilidades para explicar esse fato: a primeira delas é que, apesar de ainda ser jovem, Dylan já carregava uma espécie de sabedoria que costuma vir acompanhada apenas com a experiência. A segunda é que ele já interpretava um personagem (tendo consciência disso ou não). Falando nessa primeira fase da carreira de Bob, é notável a devoção daquele jovem à pureza da música folk, em especial ao trabalho do já citado Woody Guthrie. Tudo bem, a gente sabe que foi exatamente essa devoção cega à imaculada tradição do folk que fez com que os puritanos comprassem Dylan ao homem que traiu Cristo, mas, isso é assunto para outro momento. Leia também: Impressões: Carnage Desalinhando Jack Kerouac: o vagabundo iluminado Desalinhando Lou Reed: do lunático ao artista centrado É compreensível que Dylan rejeitasse (e até mesmo temesse) o título de porta-voz de sua geração. Kennedy e Martin Luther King carregaram a mesma sina e acabaram assassinados. Bob não estava muito interessado em entrar para a história como um mártir; ele sabia que é preciso se manter vivo - literalmente e artisticamente -, e sua próxima encarnação iria resgatar as raízes roqueiras de sua adolescência. A virada roqueira de Dylan (que não é tão chocante ao lembrar que, como a maior parte de sua geração, ele cresceu ouvindo Elvis Presley, Chuck Berry e Little Richard) também foi influenciada pelo que estava acontecendo no velho continente. Enquanto os Beatles estavam em turnê pelos Estados Unidos, John Lennon pediu ao jornalista Al Aronowitz, amigo de Dylan, que arranjasse um encontro entre eles. Nas palavras do biógrafo Howard Sounes: "Bob incluiu o uso de um rock n’ roll estilo Beatles em sua música, e os Beatles começaram a escrever letras que tinham a profundidade e a seriedade das canções de Dylan". Se o encontro rendeu bons frutos? Bem, no ano seguinte, Dylan deu ao mundo "Like a Rolling Stone", o maior pugilismo verbal musicado até então (superado, provavelmente, só por alguma outra composição do próprio Dylan). E os Beatles começaram a enterrar de vez a ingenuidade da fase yeah-yeah-yeah com Rubber Soul. Depois de lançar uma das maiores trilogias da história da música ("Bringing It All Back Home" e "Highway 61 Revisited" em 65; e "Blonde On Blonde" em 66), a encarnação de 'Orfeu elétrico' foi interrompida por um acidente de moto em julho de 1966. Quando reapareceu, Dylan usava uma nova máscara: o homem do campo que flertava com a música country. É verdade que Dylan não estava em sua melhor forma durante a primeira metade da década de 70, mas o jogo virou com o lançamento de "Blood On The Tracks" (1975) e "Desire" (1976). No ano seguinte, uma nova incursão dylanesca: acompanhado de gente do calibre de Joan Baez, Allen Ginsberg, Sam Sheppard, Ramblin’ Jack Elliott e muitos outros, o cantor decide criar uma verdadeira caravana cigana chamada "Rolling Thunder Revue". Aqui, Dylan se transformou em um performer bem diferente de suas encarnações anteriores, como é possível ver/ouvir nos novos arranjos para seus antigos clássicos e na catártica versão de "This Land is Your Land", hino do sempre presente Guthrie. Após um período com mais erros do que acertos durante os anos 80, Dylan voltou à boa forma nos anos 90, especialmente com "Time Out of Mind" (1997). O terceiro milênio chegou e Bob conseguiu manter a consistência do seu trabalho: de "Love and Theft", lançado em 2001 ao inspiradíssimo "Rough and Rowdy Ways" do ano passado. Para terminar, é difícil resistir à tentação de voltar à cultuada fase elétrica de Dylan. Na concepção de boa parte da crítica e dos fãs (confesso que eu também me incluo aqui, mas me policio para não fazer coro com esse pensamento), existe uma espécie de sebastianismo com aquela fase rimbaudiana de Bob. As pessoas continuam esperando que aquele rapaz de óculos escuros, cigarro entre os dedos, cabelos desgrenhados e língua afiada volte para nos levar ao apogeu de glórias passadas. Ainda bem que Bob não acreditou nesse monte de bobagens - por mais que as pessoas tenham tentado puxá-lo para esse lado durante os últimos 50 anos. Hoje, ao olhar sua obra completa, fico feliz em assimilar a figura de Dylan mais à sabedoria anciã de um Whitman do que à rebeldia juvenil de Rimbaud. No fundo, a idade é uma benção. Vida longa a você, Zimmermann.

Desalinhando Bob Dylan