A psicologia diz que é impossível não seguir os passos dos pais. Seja consciente ou inconscientemente, a genética influencia o comportamento do ser humano. David Dafré sabe bem disso: ele seguiu os passos de seu pai e tornou-se músico. Aos 13 anos, quando chegou no Brasil, David aprendeu a tocar guitarra e sonhava em participar de uma banda. “Inicialmente a música era uma brincadeira entre irmãos e primos. Foi aos 12 anos de idade que comecei a sonhar em formar uma banda com meus melhores amigos, a fim de eternizar a nossa amizade”, ele explica. Não demorou muito para que esse sonho ganhasse forma. Morando em Cuiabá, descobre que a música brasileira era relevante e batia com seus gostos e ideias, assim, David se junta com alguns amigos e forma a banda Vanguart. Em 2006, a banda estourou com o single “Semáforo”. Muita coisa mudou desde a adolescência. A banda ficou famosa, músicas foram lançadas, cds gravados, muitos shows, dvd… A lista é longa. O início foi difícil: “Nós cuiabanos, em São Paulo, tivemos que compartilhar muitos pratos feitos entre nós e dormir na sala dos amigos até sermos capazes de alugar um apartamento. Inicialmente os únicos festivais de rock que aceitavam a nossa banda eram os festivais feitos por nós mesmos”, relembra David. Atualmente, David está no Canadá, seu país de origem. Ele relançou seu projeto solo, “To Dorothee From Leonard” que lembra Lou Reed com Leonard Cohen e uma mistura de Walden (a energia da natureza vai além das capas de singles), livro de H. D. Thoreau, que celebra a vida e dá esperança - principalmente nos dias de hoje. A ideia saiu do papel durante as andanças de madrugada com Calil Barros, técnico de som do Vanguart. “Ele era sócio de um estúdio na Teodoro Sampaio. Foi lá que começamos a tocar juntos e fizemos a pré produção de “To Dorothee From Leonard”. O objetivo do projeto era conseguir um bom som de rock com um power trio, simples”, comenta. “To Dorothee From Leonard” é composto por um repertório indie experimental, diferente de Vanguart. Como foi o processo de criação? Como foi chegar nessa base? O material para este trabalho já estava escrito e guardado há muito tempo. Bem antes de começar a gravação em estúdio. Em Cuiabá, entre 2005 e 2007, usávamos o meu computador para registrar, editar, mixar e replicar os CDs singles que Vanguart levava para se promover em festivais. A minha casa era o nosso Home Studio. Músicas como “You Seldom Let Me Down” e “Fatherly Man Mystical Friend” foram criadas e registradas lá naquela época, mas sem letras e títulos oficiais. As letras, em grande parte caíram no meu colo. Em dezembro de 2006, voltei para o Canadá para visitar meu pai e irmão e discutir meus planos para o futuro. Eu disse a eles que a banda estava indo bem e que eu me dedicaria a ela por mais tempo. Foi daí que meu pai tirou da gaveta um velho caderno de poemas e cartas que ele havia escrito para seus amigos e familiares quando ele ainda era aspirante a músico. Fiquei impressionado, eu com meus vinte e poucos anos, lendo aquilo que ele escreveu com a minha idade… Foi como olhar por uma janela no tempo, consegue me sentir na pele de outra pessoa. Usei para completar as minhas letras musicais e mergulhar em um processo de autoconhecimento. Todas as suas músicas são em inglês. Tem planos para compor e cantar em português? Eu gostaria de cantar minhas composições em português. Sinto que as apresentações ao vivo são mais íntimas quando se canta em português no Brasil e as relações são bem mais próximas. O efeito que a canção tem é mais poderosa. Quero me comunicar e ser compreendido por inteiro pelo público brasileiro. No momento, você está no Canadá. O mercado musical por aí é diferente do que no Brasil? Estou estruturando uma base e pontes para me aproximar de amigos e familiares que estão nos dois países. Não sou expert em mercado musical, mas aqui sinto que começar do zero é mais fácil. Como canadense tenho acesso a projetos e fundos de incentivo que apoiam o desenvolvimento artístico, trazendo paz e conforto para poder trabalhar na arte sem medo de passar fome ou ser despejado. O Canadá é um país multicultural muito generoso e que realmente investe na indústria das artes com a finalidade de produzir arte local e levar a arte para toda parte. Como é o seu processo de criação? Meu processo de criação começa na maioria das vezes no violão. Se tenho uma ideia, gravo no celular e volto a escutar no dia seguinte e assim vou elaborando. Recentemente tenho escrito sequências usando meu software DAW no computador. Nesses casos eu ainda pego no violão, mas menos. Para criar arranjos eu me limitava aos instrumentos que tinha em casa - e ainda passava horas experimentando com cada um até conseguir um resultado que me agradasse. Agora consigo fazer em menos tempo e com qualquer sonoridade graças a escrita e aos instrumentos virtuais. O que mais te inspira? Sou inspirado por ideias boas e pessoas sinceras que trabalham com paixão para realizar estes sonhos e ideias. Ser sincero não é ser perfeito, mas é ser honesto o suficiente para admitir um erro e continuar na busca da sua verdade, procurando saber e se informar. Na minha família brasileira tenho bons exemplos de pessoas talentosas que me inspiram: o mestre Luiz Pardal e sua filha Sara Moraes, em Belém. Na minha casa tenho a Germinando Ideias [Aná Dafré], que é criação da minha esposa. David tem muito para dizer e ensinar. Nas redes sociais, ele compartilha tablaturas e cifras de suas músicas e do Vanguart. E não é só isso! Em um ano conturbado, onde o conservadorismo e o fascismo ganharam forças, assim como o genocídio negro e indígeno, o músico questiona o presente parar criar um futuro melhor para ele e todos os habitantes do planeta. Não existe momento melhor para adicionar as palavras de Thoreau: "Por mais mesquinha que seja sua vida, aceite-a e viva-a; não se esquive a ela nem a trate com termos duros. Ela não é tão ruim quanto você é. Quem vê defeito em tudo verá defeitos até no paraíso. Ame sua vida, por pobre que seja. Talvez você possa ter algumas horas agradáveis, emocionantes, gloriosas, mesmo num asilo de pobres". É importante viver. O seu processo de criação foi alterado por conta da pandemia? Eu me considero entre as pessoas que dizem que a pandemia mudou tudo. O jeito que aprendemos, trabalhamos, consumimos, nos transportamos, viagens internacionais. Digo isso porque a forma na qual eu lido com aquilo que estou criando mudou. Não quero voltar ao normal pré Covid-19 se isso engloba ignorar todas as grandes pautas que estão sendo levantadas no mundo este ano. Racismo estruturado, falta de segurança público, inacesso à educação, o sofrimento de mulheres e jovens brasileiros, especialmente aqueles de cor de pele negra, são acontecimentos que precisam parar. O mundo todo está questionando este assunto e olhando para dentro. Ser sincero e reconhecer o privilégio que a cor da cor pele tem na sociedade é um exercício bom para analisar como melhorar pessoalmente e vejo a comunidade artística aqui no Canadá fazendo muito isso, além de acolher quem está sofrendo. Queremos criar oportunidades iguais e vidas sem sofrimentos para todos. São problemas complexos e que eu espero que possam ser tratados se todos no planeta conseguirem chegar em um acordo global. O lixo que eu produzo aqui no Canadá tem efeitos na qualidade de vida de países como o Brasil, e vice versa. Estamos todos no mesmo planeta, não temos tempo a perder achando que um país é melhor do que o outro ou que uma crença religiosa é mais verdadeira do que a outra. Se diminuir o sofrimento e preservar a vida de todos os seres é a coisa mais importante, então porque não aceitamos as diferenças culturais, lidando com elas e focando nos ideais que temos em comum? Vejo que muito discurso de ódio no Brasil é feito com base nas diferenças sociais de classe e de crença religiosa ou espiritual também. As autoridades brasileiras, na minha opinião, deveriam respeitar todos com tolerância à classe ou crença e não usar isso para ampliar a segregação da comunidade. Como gringo no Brasil, posso falar algo sobre privilégios. Muitas pessoas privilegiadas vivem suas vidas com total crença no algoritmos que auxiliam em assuntos abrangentes que vão de dieta à vida social. E os números, representando por estatísticas, comprovam que mulheres e jovens estão morrendo mais do que o necessário e não são levados com a mesma crença e seriedade. Por que? Em uma entrevista, você disse que estava tentando se decidir como apresentar, verificando se é mais instrumental ou cantor. Conseguiu chegar em uma resposta? Como artista solo vou continuar cantando as minhas canções e estarei sempre sendo representado por meu instrumento principal nas redes e com conteúdo sempre voltado para guitarra. Continuarei a me desenvolver como instrumentista até quando a vida me permitir. Você cria primeiro a melodia para depois ir à letra? Não tenho regra certa para isso. O caminho mais fácil e qual estou mais acostumado é esse. Mas nem sempre é assim. Recentemente, encontrei palavras que por si só formavam uma linda melodia e só depois os acordes vieram. Foi o caminho inverso. Vejo outros compositores fazendo de forma diferente e às vezes experimento mimicar. Por exemplo, me limito a usar uma escala ou uma tonalidade pré estabelecida ou criar algo aleatoriamente usando elementos da música eletrônica. O que você tem ouvido ultimamente? Estou procurando uma peça de música para aprender no violão. Vale qualquer coisa entre os séculos XVIII a XX. Estou muito a fim de aprender algo de Heitor Villa-Lobos [se alguém tem uma sugestão de algo fácil, por favor, entre em contato!]. No meu Spotify tem uma playlist de músicas que ando ouvindo e aprendendo. Sempre ouço o mesmo do Lap Steel, Jerry Byrd para aprender algo. Recentemente descobri uma banda de Montreal [David mora nessa cidade] chamada Clay & Friends. Eles citam MPB no título do último trabalho deles. Tem uma baixista daqui que eu sou fã e com quem eu adoraria tocar. O disco dela é “Nuance”, por Marika Galea e é incrível. O primeiro show que foi cancelado que eu iria ver era do canadense Andy Shauf do álbum Neon Skyline. Quais são os seus cinco álbuns preferidos? Aqui são cinco álbuns que furei de tanto ouvir: Bags Meets Wes! (Milt Jakson and Wes Montgomery), Terras Brasilis (Antonio Carlos Jobim), MTV Unplugged in New York (Nirvana), Desire (Bob Dylan) e The John Lennon Collection (John Lennon). Quais são os seus planos para o futuro? Quero me integrar na comunidade artística na cidade da qual me encontro atualmente. Estou criando laços e descobrindo estúdios, bandas e festivais de Montreal. Já conheci muitos músicos e devo entrar no estúdio novamente este ano. Em 2019, gravei três canções autorais por aqui. Não vejo a hora de compartilhar com todos! Quero voltar a fazer shows e descobrir o Canadá tocando, como descobri o Brasil. Aproveitei estes de isolamento para me matricular na universidade no curso de música e concluir minha certificação - quem me acompanha nas redes sociais vai ver muito disso nos próximos meses. Para conferir o trabalho do David, acesse seu Spotify.

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