A primeira vez que o cavalo apareceu no trabalho de Bruna Lucchesi foi no álbum Quem Faz Amor Faz Barulho (Pequeno Imprevisto, 2023), em homenagem a Paulo Leminski. Sem se afastar do animal que simboliza força, resistência, liberdade e graça, a imagem retorna em Bandoleira (Pequeno Imprevisto, 2026), mas com um novo contorno: celebrar sua travessia com urgência. Dessa maneira, a artista utiliza o símbolo para narrar sua estrada, marcada por pausas, redirecionamentos, encontros e um amadurecimento que se reflete tanto nas letras quanto na sonoridade. (Créditos: Camilla Loreta) Parte da energia criativa de Bandoleira nasceu do contato intenso da artista com a obra do poeta. A ousadia literária de Leminski acabou contaminando o processo de composição. "O trabalho com a obra do Leminski despertou uma certa irreverência em mim. Uma energia meio caótica de querer colocar essas canções em tudo: pixar muros, descolorir o cabelo, virar uma certa pára-raio de poeta maluco", diz Bruna. Acompanhada de seu violão, a curitibana segue o caminho confessando seus olhares e mostrando - sem medo - o que vem de dentro, sempre com poesia. O folk é o ponto de partida, nunca o limite. A guitarra elétrica se entrelaça com a música brasileira, ampliando os horizontes e aproximando de Patti Smith, Bob Dylan e Gal Costa, referências da cantora. Bandoleira é também um trabalho de parcerias. Bruna Lucchesi se une aos músicos Mariko Reid, Sissy Dinkle, Helio Flanders, ao poeta Fabricio Corsaletti e à produtora Alice Coutinho para comunicar sensações através de canções reacendendo a vontade de viver, mesmo quando o mundo insiste em arder em guerras. Leia também: A Estrada de Kerouac: O Beat de uma Nação A selva de Luís Perdiz Canções do Velho Mundo É o seu primeiro álbum autoral, como você se sente? Bom, eu senti muita ansiedade quando os dias foram se aproximando desse lançamento, né? Acho que foi um trabalho que eu desenvolvi ao longo dos últimos dois anos enquanto eu estava circulando com o meu último disco, Quem Faz Amor Faz Barulho, um trabalho que eu gravei as canções do Paulo Leminski. Então ele foi meio que acontecendo. Eu sabia que meu objetivo final era um álbum, mas eu não comecei esse projeto já, tipo, tendo uma visão muito clara do que ele ia ser. Eu sabia o que eu estava fazendo, mas eu não sabia o resultado. Quando os dias foram chegando, eu falei, "meu Deus, as pessoas agora vão ouvir", [dá um sorriso largo] dá um desespero. "O que eu inventei de fazer?" [risos] E agora eu tô me sentindo realizada, tá sendo muito legal ouvir as impressões das pessoas com as músicas, o que elas estão sentindo, algumas surpresas do repertório, por exemplo, tem uma canção que surgiu a partir de uma ideia de fazer o spoken word, que é "Distrito Maravilha" e foi uma ideia meio maluca. Na época, eu não sabia muito bem qual era o seu resultado e quando todo mundo tocou e a gente fez, aconteceu, pensei "ah, talvez essa seja a barriga do disco" e tem sido a música que muita gente tem comentado. Algumas coisas têm me surpreendido, então está sendo gostoso, estou surfando, assim, nessa ondinha da novidade. É interessante você falar que começou um projeto, mas que não sabia muito como seria a forma dele. Em que momento você percebeu que tinha um disco e que você tinha que colocar seus sentimentos para fora? Eu acho que eu já sabia que ia ser um disco, mas eu não sabia muito bem que cara ele ia ter, porque como o meu último projeto foi um trabalho especial, né, homenageando outro compositor, foi uma experiência muito interessante porque a gente vestiu as canções do Leminski naquele projeto, né? São canções que ainda foram muito pouco gravadas, não tinha um lastro de sonoridade para a gente estudar, além da obra escrita do Leminski, né, e para as canções que estavam, a maior parte delas, só transcritas… A banda foi formando e amadurecendo essa sonoridade, falei "hum, eu preciso preencher agora com as minhas próprias ideias" e assim foi acontecendo. (Foto: Camilla Loreta; Capa: Marcus Braga) Inclusive, a poesia tá muito presente em sua obra, ela vem muito forte em Bandoleira. O que a poesia representa para você e por que ela é tão importante? Ah, eu acho que a poesia tá nas coisas, né? Há um modo também de olhar para as situações, para os encontros, para o que é dito... Eu acho que nesse caso é um trabalho muito dos encontros. Eu acho que eu fui atravessada e atravessei, né, estou dentro desse ambiente literário-musical e comecei a me relacionar com pessoas que também estão interessadas nesta travessia da palavra entre o papel, o tempo e o espaço. Até pelo fato do Paulo Leminski ser, primordialmente, um escritor, ele é muito mais conhecido pela sua obra escrita do que pela sua obra musical, acho que isso intrigou muita gente que gostaria de ver os seus textos musicados e começaram a me enviar… A princípio eu falava "ai gente, não sei, também não fui exatamente eu que musiquei essas canções, essas canções já existiam…" mas agora eu falei "ah, sabe o quê? Vamos nessa!" [sorri] Com isso nasceram muitas amizades, essas pessoas estão muito presentes no meu trabalho, estão muito presentes na minha vida. E, puxa, que bom se cercar de poesia, se cercar dessas ideias e ver como isso também atravessa a cidade. Então, por exemplo, eu vim morar, coincidentemente ou não, né, a minha analista diz que é o inconsciente, mas no meio disso, eu vim morar muito perto da Livraria Simples aqui em São Paulo, eu sou vizinha deles e, coincidentemente, encontro os escritores no bar aqui da minha rua e vou ficando amiga das pessoas… Tô meio nessa piscina boa de ideias. É curioso como a literatura e a poesia estão presentes em você e na sua obra. No novo disco temos dois personagens principais que são o cavalo e a estrada. O cavalo vem com você no álbum anterior e aparece em diferentes momentos em Bandoleira. O que essa figura representa para você? Eu acho que essa figura representa justamente a jornada. Quando eu trouxe o cavalo pro Leminski, tinha a ver com o não lugar, talvez, porque foi um disco que foi gestado durante a pandemia. É também um signo que me conecta muito ao meu estado, que é o Paraná. Eu tive uma vivência muito forte no interior do estado, durante a minha infância. Meu pai é agrônomo, então a gente sempre foi visitar umas propriedades rurais ao longo da minha infância e tal, eu sempre andei muito a cavalo com meu pai, então, tinha essa coisa de viagem. Nesse disco agora, eu acho que ele continua representando a minha própria viagem, mas também um símbolo que faz essa travessia do urbano pro rural e também discute um pouco o que ele representa dentro disso, porque ele empodera o ser humano pra trabalhar, né? Ao mesmo tempo, a gente pode ter um animal, um animal pode ser propriedade e o que é propriedade discute um pouco também… Um tema que também tá muito em voga, que é a propriedade de terra, a produtividade da terra e o mundo acabando, enfim. Eu acho que ele traz toda essa discussão à tona. Eu não acho que eu trago uma ideia formada pra responder todas essas perguntas, eu acho que é uma discussão que tá em curso, mas eu acho que ele, junto com a poética das canções, tá aí presente. No final desse disco, o cavalo pode ser visto, além de um personagem, como metáfora ou também uma extensão do que você é? Eu acho que um pouco dos dois, talvez. Sim. Até relacionando essa ideia com trabalhos de outras artistas da minha geração, né, a Maria [Beraldo] traz a cavala no primeiro álbum dela [Cavala, 2018]. Eu tava pensando nisso hoje de manhã, inclusive, lembrando dessa canção. Maria é muito minha amiga. A Júlia Branco tem Soltar os Cavalos (2018), que é um disco bastante feminista. E eu também, em algumas partes de músicas que não citam diretamente a figura do cavalo, eu falo de relinchar, soltar, me libertar, e ser essa figura forte e doce, também, que é o cavalo, a égua, a cavala. Eu acho que, sim, tem um pouco disso, com esse traço particular do meu trabalho, que é também falar sobre o ambiente onde se encontram, né? Eles, claramente, o ambiente rural. É legal ver que em algumas músicas o cavalo vai mudando de significado também. Ao mudar, ele se transforma indo além do significado de cavalo pra você? Olha só! Mas, sim, eu acho que ele vai além, sim. Mas aí, talvez, mais nessa coisa do que o cavalo simboliza mesmo. E a gente tá constantemente falando do cavalo no signo chinês… Exato. Foi tudo planejado? Não! [risos] Gente, eu tô toda conectada! Eu acho que, na verdade, ele se transforma, mas acho que também eu vou muito no vínculo, né? Eu acho que é muito bonito e muito histórico o vínculo do ser humano com os equinos, porque eles ajudaram a gente, ajudam a gente, a ter o nosso alimento até hoje, né, e tem esportes, mas ao mesmo tempo… Mesmo assim nos ambientes onde, nesse caso, né, principalmente os homens, porque eu acho que ainda é um ofício muito masculino, a lida do campo, eu percebo na minha convivência, até com o meu pai, assim, como nessa lida, esses caras gostam muito do bicho, aparece neles uma ternura que muitas vezes não aparece em outros lugares. Porque o cavalo, na verdade, ele é muito forte, ele é muito valente, por um lado, mas por que ele é perigoso quando a gente está na lida? Porque ele é muito assustado, ele é presa. Ele não é predador, ele é herbívoro. Então, os perigos dele, porque ele é muito grande, ele se assusta e ele não vê. Então, o cuidado com o cavalo e o manejo, inclusive para fazer ele trabalhar, para ir com a gente, ele demanda muita delicadeza e muita ternura. Eu acho que o aprendizado, essa sublimação, acho que está nesse vínculo, na sabedoria desse vínculo. Então, por exemplo, quando a gente vai pensar em doma, a primeira coisa para se aproximar do cavalo é você tá muito sereno, sem nada que chame muita atenção, os braços para baixo, você não olha diretamente nos olhos dele, tem que descobrir pelas beiradas… Eu acho que essa calma, essa estratégia, no melhor dos sentidos, é uma coisa boa para a gente observar, ainda mais num tempo em que está tudo muito superficial e muito, sei lá... "Meu último álbum permitiu que eu viajasse muito com as canções e me conectaram com muita gente que queria essa troca poesia-canção. Como interpretei Leminski, comecei a receber vários textos de gente interessada em ouvi-los na minha voz. Me dei conta que Bandoleira surgiu a partir desse movimento todo, entendi essa ‘personagem’ que viaja, cria e canta com as pessoas que encontra pelo caminho. Eu carrego essas pessoas comigo e deixo um pouco de mim nelas." A figura do cavalo dialoga com a estrada, dois personagens que estão sempre juntos, ainda mais quando o disco traz o desejo de viver. Dito isso, a estrada é um percurso ou um destino? Ah, eu acho que essa é a beleza da estrada, né, porque ela é as duas coisas. Eu acho que tem uma poesia nessa pergunta, porque eu acho que depende como você olha para a estrada, né? Você pode pegar uma mesma estrada e pensar "caramba, eu preciso chegar lá em quatro horas cravados, então eu vou me ferrar" é uma realidade, muitas vezes; ou, sei lá, uma parada na estrada pode mudar tudo, sei lá, um imprevisto, um pneu furado pode proporcionar uma história. Depende de quando você se entrega para ela e acho que essa é a beleza. Eu peguei a estrada sábado, fui pra Curitiba de carro com um amigo e essa estrada especificamente é uma estrada bem desafiadora, porque é a única conexão, a Régis Bittencourt, a BR-116, é a única conexão de São Paulo com o porto de Paranaguá, então, tá cheio de caminhão e se ela trava, ela trava. Eu já fiz essa viagem em cinco, já fiz essa viagem em quinze horas. No caso de sábado foi cinco horas, graças a Deus. [sorri] Mas eu pensei, tipo, as paradas de estrada têm uma coisa muito pitoresca, né? Elas podem ser meio pseudo-chique, tem muitos dinossauros, lugares muito fantasiosos… E um mistério sobre a vida das pessoas que habitam, que moram nessas paradas e que trabalham nessas paradas, devem ser histórias muito interessantes. E a minha vida como artista também é o que eu almejo - acho que de alguma maneira também tô manifestando, acho que de alguma maneira também estou manifestando. Eu quero estar na estrada, quero rodar, quero cantar, quero tocar. Acho que também retomar essa coisa que hoje em dia está muito difícil. Nunca esteve tão fácil levar só para os lugares virtualmente, tá muito difícil de circular, e ao mesmo tempo também esse ofício de pegar o instrumento e tocar lá ao vivo, em pele e osso, não é uma coisa que é tão comum mais, talvez, dentro do universo da canção, tá tudo muito bidimensional. Eu fui uma pessoa que estudei música, cantei, gosto de cantar [dá ênfase na frase], gosto de tocar, gosto de estar com as pessoas, gosto de recebê-las também no meu espaço - é esse desejo mesmo do encontro também. Como tem sido a sua estrada, do início até agora? Em que momento você tá? Ai, que momento que eu tô? É difícil de olhar para ele quando a gente tá nele, né? Mas pensando, assim, nos últimos [breve silêncio] dez anos, eu terminei os meus estudos formais, eu fiz graduação em música, depois eu fiz mestrado fora do Brasil, e eu lembro que naquele momento que foi de 2015 para 2016, eu voltei para o Brasil, e meio que entendi na minha cabeça, eu falei "acho que deu de instituição por enquanto". Tinha um objetivo depois de continuar a carreira acadêmica no Brasil. Falei "daqui a pouco eu volto" não bateu vontade ainda… Mas pensando, acho que eu preciso um pouco de mundo, de vida. Desde então, estou trabalhando em diversos formatos. Na época eu fui morar em Curitiba para me reorganizar. Foi muito legal porque eu entrei em contato com a cena de Curitiba e daí eu vim para São Paulo. Eu lembro que eu cheguei e vim morar com umas amigas, enfim, depois de dividir apartamento, e uma delas falou "ah, você veio aqui tentar a vida?" e naquele dia, aquela pergunta me pareceu uma coisa tão... [gesticula com as mãos] - até falei para ela esses tempos - me pareceu um negócio tão assim… [faz cara espantada] Falei "caralho, eu vim tentar a vida, sim!" [risos] É uma cidade que tem seus desafios, mas que tem muitas belezas, tem muita gente e a cidade tem sido muito generosa comigo. O trabalho com o Leminski, que foi um trabalho que eu comecei o seu processo criativo durante a pandemia, me abriu muitos caminhos, tive algumas sortes também. Lancei o disco em 2023, em 2024, o Leminski fez 80 anos, tiveram muitos eventos em homenagem a ele naquele ano… Também não foi uma coisa pensada, foi um acaso, eu não fazia ideia. Não foi uma coisa planejada, o inconsciente muito treinadinho. [risos] E com isso, começaram esses encontros nesse momento presente. Acho que eu tenho estado muito atenta ao meu momento. Acho que eu estou conseguindo produzir coisas boas com o que a vida me oferece no instante. E percebo que eu tô com força, tô com uma estrutura legal para justamente percorrer as estradas. Então, acho que agora é a primeira vez que estou indo com um pouquinho mais de força até os lugares e isso tem trazido boas ressonâncias, pessoas que estão ressoando com o meu trabalho. Você acha também que se não fosse a estrada que você percorreu, você não teria chegado onde está até esse momento que a gente está falando? Não. Estaria em outro lugar. Pode ser que fosse um lugar muito interessante, mas... E eu acho que no meu caso especificamente, falando de uma forma um pouco mais prática e menos poética, a estrada também exige uma certa casca. "Falando da minha trajetória, eu acho que meu trabalho com o Leminski me possibilitou estar em lugares que antes eu não tinha acesso: palcos, programações. A intenção é essa, né? Cada vez estar em espaços com oportunidades mais legais e as coisas que a gente faz no amor que sejam também com trocas significativas, com muita identificação. Fazer cada vez que as situações sejam mais interessantes." O seu trabalho é marcado por uma urgência, uma intensidade que também convoca o outro a participar junto. De onde vem essa necessidade de se expressar? Ah, que legal. Obrigada por falar isso assim. Tenho as minhas escolhas muito calculadas, algumas ideias que me veem, eu compro também e é muito bom saber quando isso é percebido de fora. Não sei se eu sei explicar exatamente de onde vem essa necessidade… Em geral, quem gosta muito de cantar tende a ser meio exibido. Sempre gostei, a partir do momento em que eu comecei a entender melhor o que eu tava fazendo e adquiri ferramentas pra fazer isso melhor. Fui me sentindo mais à vontade, fui me sentindo mais confiante… Mas é interessante você falar isso do encontro, porque também sempre gostei muito de estar cercada de pessoas, sempre fui uma pessoa de muitos amigos, sempre gostei muito de cuidar das pessoas, de estar perto delas e eu acho que isso transborda pro meu trabalho mesmo. Que bom, na verdade, perceber que aos olhos de algumas pessoas isso transborda. Falando sobre esse transbordamento, pensei muito na canção "Fundo" que levanta questões filosóficas, mostrando como a vida é. Você canta que ficou em pedaços ao descer e que foi encontrar sua voz. A partir das imagens que você construiu, é preciso ir ao fundo, viver essa experiência, para se reencontrar e ir além? Ah, eu acho que é um dos caminhos. Eu acho que pra quem topa viver as experiências com intensidade, sem dúvida é um trajeto que do fundo não passa, né? Então quando se encontra o fundo do chão não passa. Mas, às vezes, pode ser muito doída, né? Essa coisa da angústia, do sofrimento, que são coisas que também não tem muito como evitar. É claro que eu não recomendo o fundo do poço pra ninguém, mas se ele tá lá, né? Tentar viver essa experiência procurando amparo e procurando as melhores ferramentas pra voltar. Encontrar a voz pode significar muitas coisas, né? Encontrar quem escute, quem acolha os recursos que que sejam necessários para se reerguer, né? Acho que também dá pra ir além um pouco nessa coisa de encontrar a própria voz, também encontrar "onde eu vou me sentir amparada também pra me expressar de novo?" É interessante essa música, sempre quando eu penso em como a gente fez, sempre me deixa muito pensativa porque eu me senti muito ouvida pela Alice, que é a letrista dessa canção. Quando ela me enviou essa letra, a gente mal se conhecia, e eu tava atravessando um período em que eu tava me sentindo exatamente dessa forma… Esse trabalho foi, tipo, um grande desafio pra mim também ao longo desses últimos anos, ao mesmo tempo que tem sido a minha cura. Eu tava indo atrás de repertório e tal, e aí eu tava em conversa com o Peri Pane, que é um dos compositores do disco, que é companheiro da Alice, e eu conheci a Alice assim "oi e tchau", em festa amigas em comum, nada muito profundo… E ela é uma letrista genial, tipo, uma super artista, me escreveu num dia do nada, "oi, eu soube que você tava pedindo músicas pro seu disco, sei lá, dá pra eu letrar não?" Ela se achou na cara de pau e me senti ganhando na loteria, óbvio! Eu tava vivendo esses altos e baixos e tinha feito essa melodia com o violão, basicamente o violão que tá lá [na música]. Falei "Alice, que massa, vou te mandar uma melodia que eu fiz semana passada, nem vou reouvir eu acho que é só um esboço. Fica à vontade, vamos ver o que que sai daí" e quando ela me devolveu, tipo, poucos dias depois ela tinha letrado exatamente que é toda a parte A da música e ela não sabia de nada o que tava acontecendo na minha vida. Nada! Ela escreveu exatamente como eu tava me sentindo. Tem uma coisa, sei lá, coincidências e tal, mas uma sensibilidade profunda dela de me ouvir naquela gravação eu achei realmente assim, muito impressionante. Aí todo o [lado] B, que é a parte mais forte, que a harmonia muda, a gente falou "beleza vamos tirar essa pessoa do buraco", aí eu criei uma melodia, mandei pra ela e foi assim, um papo tipo ping pong. A partir daí nos tornamos amigas, mais amigas. Foi muito bonito esse encontro, ela realmente teve uma sensibilidade ímpar e essa é outra canção que tem chamado a atenção das pessoas. Já em "No Lombo de um Cavalo", tem uma parte muito bonita em que você reforça que não tem mais idade para não ser o que não quer. O que você quer? Vixi, eu já não sei se eu sei responder a essa parte. [risos] Essa veio de um papo também. O Fabrício Corsaletti, que é o escritor que fez essa letra, ficamos muito amigos no percurso, a gente foi fazer uma viagem para Birigui com Trovadores do Miocárdio, papo vai, papo vem, muita cerveja… Foi uma viagem muito legal e nos identificamos muito. Nessa coisa de estar no universo literário, eu falei "Fabrício, o que você me indica pra eu estudar poesia?" ele falou "eu vou aí na sua casa e vou te deixar uns livros." Ele apareceu aqui, era tipo fim do ano, a gente tomou um café lá embaixo, e me deu uma pilha, juro, deste tamanho [gesticula com as mãos], de um monte de livros para estudar. A gente tomou um café lá embaixo, não lembro, mas ele ficou conversando comigo, me fazendo muitas perguntas, daí eu contei pra ele um pouco daquelas férias passei com a minha família, contei pra ele um pouco das minhas contradições da minha própria vida e acho que soltei essa - venho de Curitiba, de um contexto muito tradicional, não tem muito como ser mais curitibana do que eu - "assumir quem eu sou, vou fazer o que eu quiser." Eu acho que o que quero é viver em paz, sem me sentir que tô devendo algo pra ninguém, sem ofender ninguém e fazer as escolhas que faço. A estrada, para Jack Kerouac, é um gesto contínuo de busca, liberdade e reinvenção. É nesse espírito que Bruna Lucchesi recomeça seus passos com Bandoleira. Ao lado de seus parceiros, a cantora prepara uma sequência de shows que expandem esse caminho para além do estúdio, levando ao palco a mesma urgência, liberdade e poesia que atravessam o álbum. Acompanhe o Instagram da compositora para mais informações. Se a estrada é, um lugar de descobertas e deslocamentos constantes, Bruna Lucchesi parece decidida a não parar. E talvez seja justamente aí, entre partidas e chegadas, que sua música continue encontrando novos rumos.

