Assim como Drummond, o caminho de Morris contém pedras. De acordo com o dicionário Michaelis, a palavra pedra significa: mineral da natureza das rochas, duro e sólido. Sabendo que essa rocha é um pedaço da matéria, podemos compreender que ela também faz parte da vida, mesmo que seja um obstáculo - porque a vida é assim mesmo: complexa e cheia de restrições. Ao escrever "Homem Mulher Cavalo Cobra" e dar melodia às canções que compõem o álbum, Morris se expõe e entrega ao ouvinte suas regras, simbologias e mitologias. Tudo está nas pedras que carrega em suas mãos. A canção "If You Hold A Stone" de Caetano Veloso também traz o tema pedra: "If you hold a stone, hold it in your hand / If you feel the weight, you’ll never be late". Morris, ao segurar suas pedras, sente o peso da morte, identidade, mitologia e das pessoas. Inclusive, quando pergunto para o artista quais são as suas outras inspirações, ele me responde: "A vida e toda a sua complexidade, o que inclui também as mortes". Lançado no ano passado, "Homem Mulher Cavalo Cobra" foi inspirado na exposição do artista chinês Ai Weiwei, que esteve em cartaz em São Paulo há dois anos. As obras de Weiwei são feitas a partir de suas próprias experiências, mostrando as belezas e os horrores da sociedade e sua luta pela democracia e igualdade. Utilizando sementes, raízes, madeira e tecidos que compõem a obra do artista chinês, Morris escreveu "Pátria Bipolar" e "Boia de Pedra". Leia também:
Desalinhando Haruki Murakami: os territórios sombrios de Norwegian Wood Marcelo Cabral e o mundo pós-apocalíptico Marcela Brandão e sua nova música popular brasileira Antes, você usava o "Dr." antes do nome. Qual foi o motivo para removê-lo e se apresentar apenas como Morris? Quando adotei esse "Dr.", apelido carinhoso recebido de um amigo músico pernambucano, foi uma forma de me estabelecer como solista dentro da canção autoral. Também acompanhava um lugar mais humorado que havia em meu trabalho. Ao voltar ao disco, dez anos depois do 5 ["Dr. Morris e Os Vivos: 5"], tive vontade de tirar as máscaras e ser simplesmente "Morris". Seu álbum "Dr. Morris e Os Vivos: 5" foi lançado em 2009. No ano passado, você lançou "Homem Mulher Cavalo Cobra". Houve um hiato de mais de dez anos entre eles. Nesse espaço de tempo, você pensou em fazer algo novo? Aliás, o tempo foi necessário para você mergulhar e construir "Homem Mulher Cavalo Cobra"? Sim para as duas perguntas. Nesse hiato continuei fazendo trilhas para teatro, que é onde fiz meu caminho de formação como músico, e construí um projeto de 33 canções inspiradas nos 33 contos escritos pelo mineiro Murilo Rubião. Alias, vou lançar o primeiro volume desse projeto este ano ainda. "Homem Mulher Cavalo Cobra" tem um par de canções mais antigas, porém a maneira e todo o conceito vem de 2018, após a visita à retrospectiva do artista chinês Ai WeiWei. A exposição do artista chinês Ai Weiwei te impactou muito e acabou influenciando todo o álbum. Como foi o processo em abordar questões tão humanas como Ai Weiwei? A inquietação com os retrocessos que vivíamos desde 2013 era muito grande e asfixiante. Vendo as obras e as ideias de Weiwei, percebi que era possível e necessário elaborar um projeto artístico para trazer, à minha maneira, as ideias e sensações que estavam pulsando. A partir dali foi muito natural a chegada das canções. Mas o disco transcende a exposição da Oca. Muita coisa foi sendo somada no processo. Cada canção do álbum é como se fosse uma pedra. O que as levaram a serem consideradas pedras? Carregar essas pedras, cantando, escrevendo, recitando ou apenas pensando, foi doloroso, em algum momento, para você? Cada canção tem uma pedra pintada por meu filho, Alê Picciotto. São escombros urbanos que nos remetem às pinturas rupestres e revelam uma mitologia escondida em cada rachadura, mancha ou ferrugem. Com a pandemia, optamos por fazer o lançamento em 13 singles, ou melhor, pedras, e exploramos à exaustão sua dramaturgia. Carregá-las foi um processo que envolveu muitos sentimentos, mas, sobretudo, a sensação de uma missão, como se fosse pavimentar minha estrada. No minidocumentário que leva o título do álbum, Morris explica o que o levou a compor um disco intimista, livre, poético, com as pedras que eu, você, ele, a sociedade carrega. Para dar vida a obra, o artista chama Romulo Fróes, músico que conheceu em 2011. Com trocas de músicas, surge a parceria e o início de "Homem Mulher Cavalo Cobra". Romulo assina a direção artística do álbum. Outros artistas também participam do projeto: Maurício Pereira, Juliana Perdigão, Juçara Marçal, Benjamin Taubkin, César Lacerda, Marcelo Cabral, Rodrigo Campos, Allen Alencar, Igor Caracas, Felipe Rose e o Fróes que participa de "Dois Irmãos". Ao escrever o release de seu próprio álbum, Morris notou uma estrutura que poderia ser dividida em quatro partes temáticas. Logo, foi feita a partilha dos temas: Morte (Um Dia Lindo Para Morrer, Doía, Espelho Cego), Identidade (Longe Da Árvore, Alguma Algum Ninguém, O Meu Lugar Nenhum Lugar), Mitologia (Homem Mulher Cavalo Cobra, OnÇa-Çá, Dois Irmãos) e Pessoas (Pátria Bipolar, Exausta, Boia De Pedra, Desalento). No pequeno documentário que aborda a construção do álbum, Romulo diz que "existe um disco dentro do disco". É verdade! "Homem Mulher Cavalo Cobra" é dividido em quatro partes temáticas. Como foi essa divisão? Por que tratar sobre a morte, identidade, mitologia e pessoas? Essa divisão não foi pensada. Ela veio quando escrevi o release do disco e percebi que as canções se encaixavam nos núcleos. Mas isso é uma visão minha. Qualquer um que escutar pode encontrar outros assuntos e questões e montar sua própria visão, isso é da arte. Esses temas, especificamente, são aspectos humanos profundos, que me acompanham nas minhas criações e nos espetáculos em que trabalho. Seu álbum conta com diversas parcerias. Como foi o processo de escolha dos artistas? Inclusive, vocês chegaram a compor as canções juntos? Foi muito natural. Algumas canções já tinham parceiros, outros vieram com o compositor e cantor Romulo Fróes, diretor do disco. São artistas que eu admiro e que me ajudaram a escrever e cantar o álbum. Você lançou o álbum no meio da pandemia. Como está sendo o isolamento para você? Sua visão sobre o mundo artístico foi alterada? Eu tenho a sorte de ter um sítio e de ter conseguido instalar uma internet razoável. É claro que houveram muitas interrupções, agendas que caíram, momentos complexos, mas, ainda sim, sinto que estou tirando um aprendizado de crescimento. As preocupações são enormes com as pessoas que estão sem dinheiro, sem companhia, doentes. Em relação à arte, tenho estudado muito e buscando encontrar caminhos para seguir produzindo, difundido e ganhando, mas não está fácil. Mesmo com todas as dificuldades, Morris continua trabalhando - com ou sem pedras. Principalmente com o teatro, onde começou. Para o futuro (agora e a longo prazo), o músico deve lançar o primeiro caderno de canções inspiradas pelo contista Murilo Ribeirão (o projeto que estava engavetado, tomou forma) em breve. Mais tarde, após a vacina, Morris quer fazer um show de lançamento com a banda completa, apresentando o seu álbum. Ainda mais: "Também tenho algumas trilhas para documentários e adaptações de espetáculos teatrais para o audiovisual", conta. No fim, Morris mostra para nós que é possível viver sem se afundar com as pedras que também estão no bolso.

As pedras de Morris