Existe uma espécie de ambiguidade na maneira como Luiz Amargo observa o mundo. Basta olhar para o "sobrenome" escolhido pelo músico. A transformação de Luiz Amaro em Luiz Amargo oferece uma pista importante sobre sua obra: há humor onde existe desconforto, ironia onde há tragédia e beleza justamente nas contradições. É como se o artista sussurrasse para quem o ouve: "o amargo cura". Ao abordar inquietações de diferentes gerações - como o amor em tempos de crise, as mudanças climáticas e a sexualidade fluida -, Luiz Amargo transforma aquilo que muitas vezes não conseguimos controlar (e nem mesmo nomear) em matéria para a criação. Em Amor de Mula (2024), seu primeiro disco, o compositor parte de uma expressão popular arcaica que define um amor dúbio, tão obstinado que acaba por matar o ser amado. A partir dessa imagem, o álbum transforma os afetos em uma lente para observar também a maneira como nos relacionamos com o mundo, com o outro e com as próprias contradições do presente. (Créditos: Divulgação/Reprodução) As canções não apenas falam sobre sentimentos: elas constroem personagens, situações e pequenas dramaturgias para investigar o que existe por trás deles. O amor aparece como desejo, excesso, insistência, perda e até destruição. Ao mesmo tempo em que olha para o íntimo, o músico amplia o enquadramento e encontra nas relações pessoais os reflexos de um mundo atravessado por crises coletivas. Essa predisposição aproxima Amor de Mula de Canções Para Cinema (2026). Se no trabalho anterior Luiz Amargo constrói histórias dentro das próprias canções, no EP ele desloca essa narrativa para o território da sétima arte. As músicas passam a nascer em diálogo direto com filmes, diretores, personagens e dramaturgias, recuperando uma tradição do cinema brasileiro em que compositores populares escreviam canções originais para as imagens. As 5 faixas, nas quais Amargo é compositor, letrista e produtor, dialogam com a atividade autoral do artista, mas também exploram outras sonoridades e gêneros, de acordo com as necessidades de cada filme. O trabalho reúne canções inspiradas pelo brega brasileiro dos anos 1970 ("Sonhei Contigo", do filme O Retrato, de Taline Caetano), o rock francês dos anos 1960 ("Janette" do filme Janete, de Rebecca Cerqueira), e até mesmo música instrumental de vanguarda, combinando atonalismo e música eletroacústica ("Filme Noir", do filme Filme Noir. de Rodrigo Pires). A faixa "Quem Ficou Fui Eu", do filme homônimo dirigido por Maria Garé e Luísa Pacce, conta com interpretação comovente da atriz Georgette Fadel, que também atua no filme. Leia também: Conheça: Mau k O colapso sonoro de Gloios Ludovic: Ludovic Sua música transita por diferentes referências e gêneros. Essa diversidade já estava presente desde o começo ou foi sendo construída ao longo da trajetória? É uma coisa que sempre esteve presente. Eu comecei a tocar relativamente tarde, só com uns quinze ou dezesseis anos, mas, antes disso, sempre fui um ouvinte muito dedicado. Eu gostava de parar para ouvir álbuns, ler os encartes (era a época dos CDs), eu decorava as letras de álbuns inteiros de tanto ouvir, embora ainda não cantasse. Hoje em dia eu dou bastante importância a esse período e ainda tento preservar esse hábito. Durante a maior parte da infância e adolescência, eu nunca imaginei que seria músico, na verdade eu tinha mais intimidade com a literatura e o cinema, mas essa escuta musical atenta me influenciou bastante, e me fez buscar ouvir muita coisa diferente. Os meus pais também tiveram bastante influência nisso, eles gostavam de me apresentar diversos tipos de música, de diversas épocas e diversos lugares do mundo. Amor de Mula traz ironia, crítica social, melancolia e, claro, amor - questões que carregamos. Quando você percebeu que gostaria de abordar esses temas no primeiro álbum? Dificilmente eu penso: “gostaria de abordar tal tema em uma canção” e daí faço a canção. Quase nunca dá certo. Isso só funciona quando é um pedido que vem de fora, quando é composição por encomenda, para trilha sonora, como as músicas deste EP que estou lançando agora. Aí é legal, eu gosto bastante de ter esse direcionamento externo. Mas, no caso do meu álbum, da produção autoral, esses temas surgem durante ou depois da composição. É uma coisa mais intuitiva. Eu pinto o que eu vejo. Só depois de um tempo dá para perceber os temas que surgiram em um conjunto de canções. O título do álbum remete a um significado dúbio. Na sua percepção, o amor carrega essa ambiguidade, isto é, cuidado e posse, desejo e destruição, aproximação e afastamento? Com certeza. Por muito tempo eu evitei fazer canções de amor, achava clichê, evitava até o uso da palavra amor. Mas tem aquela frase, "todas as canções são canções de amor", e é verdade. Então eventualmente eu me rendi ao tema. E é um tema inesgotável, justamente porque é muito ambíguo. Você tem o amor romântico, mas também muitas outras formas de amor… inclusive as destrutivas. Muitas atrocidades são cometidas em nome do amor. Eu gosto de trabalhar com essa ambiguidade. No Amor de Mula isso aparece bastante. O amor que aparece no disco é uma "força" capaz de salvar ou uma "força" que também pode colocar tudo em risco? Ambos. Embora parte de mim talvez acredite nessa salvação através do amor, que é algo que permeia toda a nossa produção de canções no Brasil, e talvez toda a nossa produção artística de fato, eu não consigo deixar de perceber e retratar essa ambiguidade. Sabe, eu gosto muito de Star Wars. A tragédia de Darth Vader é justamente essa: ele se tornou um agente do fascismo e perdeu sua humanidade, literal e figurativamente, muito por ambição, mas principalmente por amor. Ele temia perder a pessoa amada, e fez um pacto com o diabo para adquirir o poder para salvá-la. No final (spoiler, risos) suas próprias ações o levaram a perder aquilo que amava. É uma reinterpretação pop do mecanismo das tragédias clássicas, as profecias que se cumprem de maneira inesperada, as ações realizadas por amor ou heroísmo que produzem o resultado oposto. Isso tudo me interessa bastante e de alguma forma aparece nas minhas composições. Ao compor para um filme, você parte das imagens, do roteiro, das personagens ou das sensações que a narrativa provoca? Aliás, como costuma começar esse processo? Geralmente tudo parte de uma conversa com a direção do filme, antes de ver qualquer coisa ou ler o roteiro. Quando o filme pede uma canção, a letra vem muito dos personagens. “Quem Ficou Fui Eu”, por exemplo, tem uma letra que propositalmente mistura a perspectiva das duas personagens principais: a mãe com alzheimer e a filha que cuida dela. Depois da conversa inicial, a direção dá algumas referências musicais. Às vezes é uma referência bem específica, e você sabe exatamente para onde ir, outras vezes é uma coisa mais aberta, e daí entra um pouco mais de autoralidade, digamos assim. Mas o processo varia bastante. Às vezes, eu entro só com o filme já montado, e daí é um trabalho mais padrão de trilha sonora, de fazer a música se encaixar na duração de cada cena. Outras vezes eu entro antes, nesse processo de conversa envolvendo direção e roteiro, antes mesmo das filmagens. Uma coisa que eu adoraria fazer, mas ainda não tive a chance, é trilha sonora para videogame. É um processo bem diferente, quero aprendê-lo um dia. Você afirma que a colaboração com diretores e a dramaturgia de cada obra pode inspirar algumas de suas melhores composições. O que muda quando a canção nasce em diálogo com o olhar e o universo criativo de outra pessoa? Muda muita coisa. Acho que eu tive sorte de, até hoje, ter trabalhado com diretores (as) com bastante sensibilidade musical, que souberam trazer referências acertadas e ao mesmo tempo dar espaço para a criação de algo original. Como eu disse antes, essa coisa de compor a partir de um pedido externo é muito legal, e por causa disso eu acabei me conectando com assuntos muito diversos, desde a questão do alzheimer (Quem Ficou Fui Eu) até o drama de um robô aspirador esquecido pela dona (Janete). Ao longo da história do cinema, algumas músicas se tornaram mais conhecidas do que os próprios filmes para os quais foram criadas. Você pensa na permanência ou na autonomia dessas canções quando está compondo? Quando se trata de canção mesmo, letra e música, sim. A canção, além de servir ao filme, tem que andar com as próprias pernas. É por isso que estou lançando esse EP, porque acho que essas canções fazem isso, não a toa eu as toco nos meus shows. Mas o trabalho de trilha sonora geralmente envolve mais do que isso. A trilha deve servir ao filme, não necessariamente chamar atenção para si, a não ser que essa seja uma intenção do próprio filme. Muitas vezes, inclusive, quando eu faço uma canção para um filme, ela aparece de forma meio picotada no filme em si, em versões instrumentais e/ou mais curtas, pois tem que ser assim para caber na montagem. Quais elementos de uma narrativa cinematográfica despertam sua imaginação musical? Isso também varia. Às vezes é a trama em si, às vezes são os personagens. Quando eu recebo um filme já montado para fazer a trilha, também existe uma inspiração pictórica, uma coisa das sensações das imagens, isso contribui muito para trilhas instrumentais. Quando se trata de canção, o roteiro e os personagens ajudam mais na escrita da letra, na parte literária da coisa. Quando uma canção é criada a partir de uma história já existente, ela se torna uma extensão do filme ou também acaba revelando algo novo sobre o próprio compositor? Geralmente revela algo novo para mim. Essa coisa de compor por encomenda deixa a gente mais versátil. Eu não teria composto uma balada brega como "Sonhei Contigo", com arranjo de cordas sintetizadas e tudo, se não fosse a pedido de um filme. Também não teria mergulhado em música atonal e eletroacústica, como fiz para a trilha de Filme Noir. Essas experiências com certeza aparecem na minha música autoral. Mas isso é uma consequência que eu mesmo tiro do trabalho, pois o objetivo principal é sempre servir ao filme. O título do álbum sugere músicas feitas para acompanhar imagens, mas também convida o ouvinte a criar seus próprios filmes mentais. Você imagina que as canções possam provocar novas imagens em quem as escuta? Imagino que sim. Antes de eu começar a tocar e compor, eu tinha muito essa coisa de pensar em imagens a partir da música. Ouvir música me sugeria muita coisa, imageticamente. Acho que isso acontece para muita gente e espero que seja algo que as músicas desse EP provoquem. Curiosamente, conforme eu fui adquirindo um ouvido mais musical, mais atento à mecânica da coisa, eu fui perdendo isso de criar filmes mentais a partir de músicas. Hoje em dia, para mim, acontece mais o contrário, as imagens que me sugerem ideias musicais. Por fim, em "Sonhei Contigo", você reforça a ideia de que sempre queremos o impossível. Você deseja algo "inalcançável"? É lógico. Ou, como diz a letra dessa música, "é natural do ser humano". Todo mundo que se lança no trabalho criativo deseja o inalcançável, porque você sempre tem um ideal de perfeição que é irreal, e você tem que abrir mão disso para poder fazer as coisas, mas por outro lado você também nunca vai deixar de perseguir esse ideal em alguma medida. E tem uma coisa mais profunda, se você me permitir empregar aqui um Lacan de boteco: o desejo humano nunca se satisfaz, pois na verdade o que o desejo deseja não é alcançar o objeto de desejo, mas sim realizar a sua própria perpetuação enquanto força, vetor de energia ou seja lá o que for. Por isso, a questão também não se restringe ao trabalho criativo. Todo mundo que está vivo deseja que a vida melhore, e está constantemente à procura disso. Esse ideal nunca se realiza completamente, mas não podemos abrir mão da busca, pois, no fim das contas, isso significaria morrer. Apoie financeiramente o desalinho e ajude a manter um espaço independente dedicado à crítica, às entrevistas e à divulgação da cultura independente. Toda contribuição faz diferença.

