O escritor tem o poder de alterar sua história. É como se ele tivesse jogando um jogo de xadrez: a cada jogada, os personagens passam por transformações, o enredo muda e palavras são cortadas e/ou adicionadas. Ao finalizar uma história, o escritor está mostrando ao leitor que é possível transformar palavras em um novo mundo. DIMAS é um escritor, compositor, músico e comunicador. Foi na infância que descobriu que ao misturar palavras e sonoridade, conseguia fugir da realidade. Na adolescência, o jovem artista sofreu bullying e perseguição por um grupo supremacista durante seus anos no colégio. Como sobreviver sendo perseguido e não ter a liberdade merecida? Como cuidar da vida quando o significado dela é alterado? "Essa história mudou minha vida, pois eles fizeram um inferno na terra. Tive de me esconder, fui agredido fisicamente, ameaçado de morte, me assumi de forma forçada para a minha família e sai da escola escoltado pela ronda escolar. Todo o imbróglio durou cerca de 4 anos, e só acabou no meu primeiro ano de graduação", relata. As agressões resultaram em "Violência Visual", primeiro álbum de estúdio lançado pelo Selo Rockambole. Escrito em formas de cartas, DIMAS procura enterrar medos e demônios do passado, retomando a vida que foi afastada de forma cruel. Leia também:
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Brunner: o artista incendiário Quem é DIMAS?
Então, quem é DIMAS? Eu acho que essa é uma resposta que eu só descobri depois dos vinte e cinco anos de idade. Eu passei a minha vida toda buscando essa resposta, quem eu era... Ou eu sabia muito intimamente, mas eu tinha medo de lidar com essa pessoa que queria se expor e queria fazer arte, que queria ir além do que já era possível, porque numa realidade que eu não me expunha, eu sofri essa violência que tá descrita aí e, então, pra mim, era muito difícil conceber a ideia de artista, conceber a ideia de me vestir da maneira que eu queria me vestir, porque hoje eu vejo que eu tenho uma conexão muito grande com a moda e com a maquiagem, então, pra mim, era muito difícil expressar minha própria identidade. Quem é o DIMAS? Acho que é uma pessoa que não consegue viver num mundo sem arte, sem música... Pra mim, eu não sei de que artista eu li isso, mas "nós artistas não conseguimos viver na realidade", acho que essa é uma expressão muito real pra mim. Eu sou uma pessoa que não consegue viver na realidade, então, eu creio que eu seja uma pessoa que vive numa utopia ou distopia [risos], mas que tá no mundo a parte que tá imaginando outra coisa. Hoje, eu olho a realidade com outros olhos, um olhar muito mais inspirador... Até em momentos difíceis, esses momentos se tornam poesia, algum tipo de expressão visual... Acho que eu sou uma pessoa que não vive na realidade, eu não consigo, eu não tenho essa capacidade. Pra resumir, pra te dar essa identidade concatenada, talvez eu seja uma pessoa imaginativa, uma pessoa das palavras, acho que sou muito mais letrista do que músico – eu tenho essa concepção muito grande em mim -, e é isso, acho que tô escrevendo a minha história. Eu [dá ênfase na palavra], tenho controle dela. Hoje em dia, você sabe quem você quer ser?
Acho que quero ser alguém que contribuiu pra entregar para as pessoas que não se sentem compreendidas de alguma forma aquela música que elas vão ouvir aquilo e vão entender o que elas estão passando. Por muito tempo eu não tive isso. Eu criei o "Violência Visual" com a ideia de fazer música no cenário nacional que falasse abertamente sobre assumir o trauma – é uma coisa que não é muito comum. A gente tem [artistas que cantam sobre traumas], é claro, não inovei e nem sou pioneiro nisso, mas acho que a gente tá no momento musical de que isso não é tão aceito. Se fala muito sobre a dor do amor, mas no momento em que a gente tá isolado, no momento em que a gente tá mais distante do que nunca, depois de tudo que aconteceu no mundo, acho que é muito importante assumir o trauma, ao em vez de sair de uma pandemia, sair de momentos difíceis e dizer que tá tudo bem. Eu quero ser uma pessoa que sempre vai dizer que não tá tudo bem, eu quero ser sincero. E se tiver tudo bem, claro que eu vou falar [risos]. Eu me vejo no futuro tendo construído um catálogo importante pra isso, pra falar sobre saúde mental na música. Você encontrou o conforto necessário na música?
Encontrei escapismo na música, era uma maneira de... Eu disse hoje, numa carta, em minhas redes sociais, eu podia não ter amigos, podia não ter família, mas eu tinha a música. Eu lembro que era a única coisa que eu tinha e que eu tinha certeza que ela tava ali. Então, pra mim, foi sempre muito natural usar a música para escapar, pra imaginar um futuro onde eu seria essa pessoa que talvez eu esteja me tornando hoje. Eu lembro de criança, desde muito cedo, de usar a música para escapar ou pra desaguar os meus problemas. O que eu tô fazendo hoje, música pra chorar, é o que eu sempre fiz a minha vida toda. Eu usei a música pra chorar, pra sorrir, pra comemorar os meus melhores momentos... Eu não sei explicar de onde isso vem, é uma onda que toma conta de mim. O cantar, por exemplo, pra mim, eu não sou um cantor de estudo, eu nasci cantando, nasci sabendo cantar – e eu descobri na igreja que eu sabia cantar. Precisavam de alguém que soubesse fazer um agudo, numa determinada música, eu ouvi aquele agudo e imitei na brincadeira e todo mundo virou e falou "como assim? Como você alcança essa nota?". Naquele momento, as mulheres cantavam uma música nos cultos de domingo e eu ficava ali, dentro do grupo das mulheres, no fundo, eu não aparecia, mas eu fazia essa nota inicial que era muito alta e foi aí que eu descobri que sabia cantar. Comecei cantando dentro da igreja, fui da igreja evangélica muito tempo, então, pra mim, mesmo na igreja... Eu não gostava daquele ambiente, desde criança, eu achava que o ambiente me oprimia de alguma forma – não entendia o que que era, mas sabia -, e eu utilizava a música lá dentro, como era obrigado a ir, eu utilizava a música lá dentro para escapar daquilo, era um momento de prazer ínfimo quando eu tava lá na frente cantando e colocando, de alguma forma aquela espiritualidade (eu tinha espiritualidade) pra fora... Acho que isso conecta muito com o do eu ter ido pra umbanda, depois de adulto ter ido pra umbanda. Porque a umbanda é uma religião muito musical, 90% da cerimônia é música e parece um paraíso pra mim, parece que eu tô envolta de alguma coisa que me tira todas as minhas dores e que sara aquilo. Quando eu ouço uma boa melodia, quando ouço uma letra... Eu não posso falar dessa pessoa Rita Lee, porque eu me emociono fácil – mas quando eu descobri a discografia da Rita Lee, eu me senti entendido. É uma inspiração, né?
Não, talvez... Ela é a coisa mais especial da música pra mim hoje. Ela é... Eu não sei explicar, cara. Não tinha regras para a Rita, sabe? Eu ouvi a Madonna falando, num discurso, que ela só via o David Bowie quebrar regras, mas a gente tinha aqui no Brasil uma mulher que fazia o que ela queria, pop, bossa, rock e letras do jeito que eu quero fazer, sinceras, honestas. Ela não tinha medo de dizer como as coisas são, sabe? Ela cai de uma sacada na casa dela, quebra o queixo e ela faz um álbum inspirado nisso – e é esse tipo de coisa que me toca, porque a sensação que eu tive a minha vida toda foi que eu tive um sofrimento muito grande, um trauma muito grande e eu não achava a música, não achava a obra artística, não achava o livro, não achava o que me retratasse com toda a complexidade que tinha acontecido. Quando eu descobri a Rita foi... Sei lá. Eu tenho vários compositores que eu amo, mas a Rita... Eu endeuso essa mulher em um nível [risos]. Quando a gente é criança, temos que seguir muitas coisas que os pais determinam, muitas coisas centralizadas. Quando descobrimos que o mundo não é como a gente achava, criamos as nossas opiniões. Como que foi esse processo de encontrar uma saída, se encontrar na música?
Eu vou começar daqui pra você entender essa lógica. Quando isso [a violência] aconteceu, eu tava num processo de me descobrir como pessoa, tava bem no auge do emo, eu gostava muito disso, eu tava encontrando o que eu gostava ali, tava no caminho de me descobrir. Quando isso aconteceu, tudo isso parou. Eu não tive a chance de ter uma juventude normal, eles me perseguiram de verdade por anos, então, eu vivia me escondendo, vivia com medo, o meu emocional se destruiu. Com isso, hoje, eu descobri que naquela época tudo isso me tornou sucessível a abusos, vários abusos. Quando eu entro na minha fase dos 20 e 21 anos, eu começo um relacionamento, acontece várias formas de abuso e eu percebo que isso é uma constante na minha vida. Quando eu saio de toda essa carga abusiva que eu não tava entendendo o que tava acontecendo comigo... Eu tentava construir uma carreira na comunicação, eu tentava com o trabalho, com o que eu tinha pra fazer tapar o sol com a peneira e não ver o que tava acontecendo comigo. Mas quando chegou em um momento que era muito difícil pra mim, quando aconteceu a ultima situação abusiva que eu ainda não entendia que eu tava suscetível a isso, não fazia terapia, não fazia nada, eu entendi que eu não tinha mais nada a perder [risos]. Foi literalmente isso! Eu sou uma pessoa muito racional e ao mesmo tempo, isso não me ligou a um pensamento, perdão pela palavra, suicida, veio o pensamento "eu não tenho mais nada a perder, então, por que eu não faço o que eu sempre quis fazer?". Aí aquilo foi me perturbando, perturbando, perturbando e com o início da pandemia eu me vi sozinho em casa, comigo mesmo, eu não tinha com quem conversar, não tinha com o que me distrair, né. Naquela época eu tava trabalhando como jornalista numa revista e é muito sozinho o processo de escrever, você bota o seu fone, apesar da gente entrevistar, fazer a apuração e tudo mais, é um processo muito solitário. Eu me vi muito sozinho e eu tive que lidar com essa face que tava implorando pra sair de mim. Acho que foi, isso que você tá dizendo de se encontrar, acho que foi um processo de entender que eu não tinha mais nada a perder – era unicamente o medo de se expor, o medo de saber o que os outros iam achar de mim, o medo de colocar tudo isso pra fora, o medo de falar sobre o assunto, eu tinha medo de denunciar as coisas que me aconteceram e falarem que eu tava mentindo. Tem uma música no disco que se chama "Medo" que define muito bem isso. A maioria das pessoas fizeram críticas muito boas, mas outras chegaram pra mim e ficaram "mas aqui você diz que tem medo de tudo", naquele momento, nessa transição, eu tinha medo de tudo! Medo de descobrir quem eu era, porque eu tinha medo do que isso ia fazer pra mim, o raciocínio era: não sendo nada do que eu sou hoje, eu passei o que eu passei, imagina se eu me tornar algo que vai ser um alvo, muito mais exposto. Quando eu cheguei nesse raciocínio de não ter mais nada a perder, eu literalmente falei "eu vou fazer isso!" É totalmente compreensível esse medo, você sofreu uma perseguição e diversos tipos de violência...
Exatamente, eu acho que também tem um lugar muito... Eu não gosto muito desse termo "masculinidade tóxica" porque eu acho que é uma justificativa muito ruim frente a luta das mulheres, mas ao mesmo tempo, eu acho que como homem a gente não diz tem medo. A gente é condicionado, lembro muito bem de ouvir, quando criança do meu pai e do meu irmão eu não ter medo, que era besteira dizer que eu tinha medo de alguma coisa. A gente é muito condicionado a não expressar esse sentimento e aí leva para um lugar que, por exemplo, como eu te falei, como que eu vou cantar sobre as coisas que eu vivi, como eu vou falar sobre abuso, sendo homem? As pessoas não vão acreditar. Porque em um relacionamento homoafetivo vão virar pra mim e falar "mas você é homem, né". Como que isso aconteceu com você? Então, eu tinha um medo muito grande porque pra mim era do tipo "tá eu passei por isso e eu não preciso falar para as pessoas", mas ao mesmo tempo é como uma casca de ovo, ela se quebrasse dentro. O trauma, o abuso fazem isso com você, ele vai te impulsionando de dentro, ele faz esse movimento de querer sair. Como eu digo na música, eu não queria ter medo de sentir medo. Conforme eu fui fazendo o álbum, ganhei uma confiança gigante, no fim dele, cheguei outra pessoa. Fazer um disco te transforma! O álbum inteiro tem músicas autobiográficas e você revive toda a violência que você passou. Como foi reviver dores, fantasmas e cicatrizes em canções? E como foi cantá-las?
Quando eu compus a primeira música que foi "Veneno Fatal", eu virei um canhão. Em dois dias, eu tinha todas as ideias prontas, eu tava com as músicas escritas e sabia que tinha alguma coisa. Eu meio que vomitei. Acho que tava tão preso na minha garganta, tão pronto para sair que não foi tão difícil o processo de cantá-las. Foi muito bom e útil para o processo criativo e artístico porque hoje, ouvindo o disco, eu consigo entender as emoções por trás de cada música e eu as vejo retratadas na minha voz, então acho que isso foi muito positivo. Eu juro pra você que o sentimento era de tá atirando de dentro mim, literalmente me senti muito mais leve, foi um sentimento de expurgo, real. Acho que não foi sofrido, eu não revivi, eu literalmente botei pra fora, contei o que nunca tinha contado, o que eu não conseguia falar para as pessoas. As canções foram escritas em formato de cartas. Geralmente, escrevemos cartas para envia-las ou como uma confidencia que fica guardada no armário e talvez um dia a gente a tire. Ao escrever essas cartas, você propõe direcionar cada canção a cada pessoa que te causou mal?
Eu sabia que queria criar uma narrativa coesa no disco que fosse uma história onde você ouvisse a primeira faixa até a última e cada uma fosse um capítulo, um pedaço dessa história que evoluísse de forma cronológica, mas cada musica é direcionada a um momento especifico ou a uma pessoa da minha vida, alguém que me infligiu a um tipo de violência nesse momento. "Veneno Fatal" é para esse grupo de ódio, literalmente para essas pessoas. Tem outras musicas que escrevi para situações, para pessoas que... "Melancolia" que só vai sair em setembro, minha musica favorita do disco, é uma carta pra mim. É uma letra que eu falo comigo mesmo, sobre olhar o passado e entender o valor de todas essas coisas que eu passei e que tá tudo bem ficar triste com isso e que tá tudo bem fazer isso. É uma letra que narra uma situação... Acho que cada carta foi desenvolvida pensando na situação e no que aconteceu depois dela. Não é uma carta endereçando o que aconteceu, mas quais foram as consequências. Hoje em dia, as suas cicatrizes e os seus demônios acabaram?
Não, eles não acabaram, eles se transformaram [risos]. Acho que alguns acabaram, mas outros continuam comigo. Eu tô fazendo uma trilogia de discos, esse é o primeiro e justamente no segundo é sobre onde tô agora. Acho que a seguir vai ser muito mais difícil pra mim gravar essas músicas, são musicas que eu já escrevi, mas eu tenho dificuldade de ouvir a nota de voz, de ouvir a demo inicial. Eu ainda tenho demônios, mas eles se transformaram e criaram novos, mas acho que o meu olhar pra vida é muito melhor – eu não olho com um olhar tão trágico, eu consigo pegar esse demônio, botar ele aqui e falar "tá bom, eu vou assumir você" [risos]. Acho que o processo do primeiro disco me ensinou a fazer isso, transformar esses demônios. Como que vai ser essa segunda parte da trilogia que você já está fazendo? E como vai ser a terceira parte?
A segunda parte é uma parte que descreve essa sensação de uma adolescência exploratória, de conhecer a raiva, a autoestima, sensações, de botar o pé na areia ou na água, de sentir o calor na pele, é sobre a minha intensidade. Esse segundo álbum tem uma linha narrativa, da maneira que eu escrevi e desenvolvi o projeto, ele começa falando sobre raiva, diferente de "Violência Visual" que começa falando de tristeza, começa falando sobre raiva, onde foi "Veneno Fatal" deixou a história e ele termina falando de amor, sobre entender, se eu sei amar ainda. Esse segundo álbum se chama "Inferno de Verão", saiu da segunda estrofe de "Violência Visual" que virou um inferno de verão onde a dor queimava no asfalto – eu quis fazer esse intertexto porque eu acho muito interessante, gosto de conectar a minha vida com coisas que eu já disse lá trás. O último disco, o nome vai ser "Distopia Total" que eu já comecei a escrever e trabalhar nele, porque eu vou entrar no estúdio para gravar os dois. O "Distopia Total" vai ser sobre entender – eu falo muito nas letras de que eu não sabia que era possível ser da minha maneira. É possível ter autoridade sobre a minha vida... Acho que essa história termina muito mais leve e realista também. Você pensou numa trilogia, está fazendo as músicas, você já pensou no show?
Eu penso nesse show, sei que ele tenha três atos como os discos são três atos. Eu comecei a escrever em 2020 e nesse tempo de espera por conta da pandemia, que cancelou várias sessões, tive muito tempo útil para imaginar. Então, eu quero que o show tenha três atos e eu quero conseguir incorporar a entidade de cada disco porque eles vão ser diferentes. Acho que o "Violência Visual" traz um rock pesado com um rock progressivo e dá uma pisada da mpb. O "Inferno de Verão" eu sei que ele vai ter uma identidade muito mais pop rock, um Red Hot Chilli Peppers à brasileira, o "Distopia Total" eu não sei como vai ser, mas ele vai ser diferente, quero que a sonoridade dos discos não seja nada parecidas. Quero ao vivo exprimir isso, quero ter a capacidade de ter essa estrutura de conseguir contar essa história da maneira que ela merece ser contada, quero que seja um show que eu consiga explorar minha capacidade vocal e visual. DIMAS, com letras maiúsculas, mostra a sua potência e força. Após passar pelo inferno, o artista retorna as ruas, dando seus próprios passos, pois sua vida retornou para ele. "O "Violência Visual" é muito um resumo disso [da minha vida], é sobre o resultado do luto e o que aprendi com ele", finaliza.

A violência visual de DIMAS