Cabeça, pescoço, tronco, braços, mãos, abdome, pernas e pés. Um indivíduo. Cérebro e coração. Um indivíduo que pensa e sente. Veias e artérias. Tendões e ossos. Lágrimas e sorrisos. Palavras e melodias. Poesia e prosa. Sentimentos e música. Tudo e nada. Nada e tudo. Mais e mais. Pedro Cassel é um ser humano que pensa, sente e vive. Conta também com outras características: professor, cantor, compositor, músico e poeta - mas é impossível rotular o artista multimídia; no entanto, tudo que Pedro faz contém poesia. Mas o que é poesia? Existem diversas definições e nenhuma resposta concreta. O poeta pode retratar a realidade, adicionando situações imaginadas, criando outras personas, denunciando crimes ou apenas utilizando suas palavras para criar uma realidade paralela, onde seja possível sentir outros sentimentos - amor, felicidade, compaixão e nostalgia são alguns efeitos. Não tenha medo, leitor. Pedro, um indivíduo que pensa e sente, utiliza seu cérebro e seu coração para criar suas obras, abrindo-se por completo, abraçando o ouvinte, tirando-o da realidade. Em "Abrir" (Escápula Records, 2020), seu primeiro álbum, conhecemos quem é Pedro Cassel de verdade. Suas letras dialogam com a literatura, com o silêncio, com o corpo, imagens, inconsciente e consciente, synths e beats. Essa é a sua poesia - aquela que toca na alma. O artista conta com outra carta na manga: ele dá voz a outros poetas que estão no álbum: Pedro musicou o poema "Este Silêncio", de Marília Kubota e fez de Paulo Leminski protagonista de "Qualquer Um", ao lado de Juliana Perdigão. No fim do mês de maio, alguns meses depois do lançamento do seu primeiro álbum, Cassel volta a musicar outro poema, agora de Bruna Beber, "Merthiolate", com a participação de Letrux. Leia também: A sensibilidade de Gui Flor As pedras de Morris Mariana Godoy continua se afogando em Virginia Woolf Além de cantor e compositor, você também é professor e poeta. Desdobrar-se na arte te ajudou a criar a persona que você é hoje em seus projetos? Um amigo já me disse que eu sou mais engraçado pessoalmente que no palco; da mesma maneira, acho minhas canções mais meditativas que os poemas que faço. Tudo isso é eu, mas também me ajuda a ser outra coisa - talvez maior, talvez apenas diferente. Mas acho que isso não responde a pergunta, né? Você teve passagem por trabalhos na área do teatro e da dança. Como tem sido misturar todas as áreas artísticas em seus projetos? O pessoal da escrita e da música tem uma tendência de esconder o corpo atrás de cadernos e instrumentos. Já o povo da dança e do teatro é muito do toque e do gesto: é uma galera que se expõe ao ridículo - e por isso se diverte muito mais. Aprendi muito estando em cena com essas pessoas e tento levar comigo essa disposição, essa presença de espírito que tanto falta em alguns saraus e shows. Suas canções vão além da música popular brasileira, contendo outros gêneros - e suas músicas trazem um respiro para os ouvintes. Como foi chegar nesse ponto? Fico muito feliz que tu veja meu trabalho dessa maneira. Penso que quando a gente faz qualquer tipo de arte, pelo menos no início vai ter uma turma da qual vamos querer aprovação. Isso pode ser bom pra aprender, tanto a técnica quanto um pouco sobre o estilo de vida de quem nos inspira. Mas em algum momento a gente precisa reconhecer de onde viemos e quem somos, pra não acabar fazendo um trabalho que se encaixe em algum padrão mas não nos satisfaça. Eu ouço Itamar Assumpção e Britney Spears na mesma playlist; tentar ser um ou outro, ignorar meu apreço por ambos, seria bobagem. "Abrir", seu primeiro álbum, conta com poemas musicados. Como surgiu essa ideia e qual foi o critério ao escolher poemas de Paulo Leminski e Marília Kubota? Aproveito o gancho para saber o que a poesia significa em sua vida. A música brasileira tem uma transa muito antiga com poesia, né? Foi uma coisa que sempre me encantou. Lembro de escutar "Canção Amiga" do Milton Nascimento e achar aquilo uma letra inacreditável. Fui conferir e pimba: Carlos Drummond de Andrade musicado. Para o meu álbum, eu musiquei poemas que conversavam com algumas canções que eu já tinha escrito, como "Piscina" e a própria faixa-título. O Leminski e a Kubota pareciam falar o idioma que eu imaginava pro álbum, então cantá-los foi inevitável. Quanto ao significado da poesia na minha vida, é um negócio que me alegra muito e acho que isso deve bastar. Há muito de você em suas canções e apresentações. Mostrar-se por inteiro para a plateia não é difícil? Por que continuar fazendo arte? É difícil sim, mas imensamente prazeroso também. Sinceramente, tento não pensar muito nisso; é mais um fazer, uma prática que escolhi pros meus dias. Acho que isso também responde à segunda pergunta. Como tem sido fazer arte durante o isolamento social? Olha, desde antes da pandemia a coisa já estava complicada pra todo mundo das artes. Galera pegando trabalho paralelo, matando cachorro a grito… Se continuar fazendo já era nadar contra a corrente, agora é isso na décima potência. Ainda assim, ano passado consegui fechar um álbum que estava há tempo em processo, bem como começar outra nova etapa de lançamentos agora em 2021. Isso não só porque consegui fazer um financiamento coletivo continuado, repassando o que ganho aos profissionais que trabalham comigo e botando a coisa pra girar, mas também porque tenho um selo (Escápula Records) e uma produtora (Juba Cultural) que me ajudam a organizar tudo. "Então exclamo / Um quarto de cachaça / Deveria lhes bastar, biscateiras / E me manter vivo quando não há / O que privilegiar / Ou preferir", interpretam Pedro e Letícia Novaes em "Merthiolate". Por se tratar de um poema musicado, os esforços foram concentrados em preparar uma atmosfera sonora que combinasse com a letra. Também existe uma atuação dos artistas enquanto interpretam o poema de Bruna. Dois indivíduos que pensam e sentem. Palavras e melodias. Sentimentos e música. Mais e mais. Esse mês, você lançou "Merthiolate" com a participação da Letrux. O que te chamou atenção no poema de Bruna Beber? Sou muito fã do que a Bruna faz, mas demorei um tempão pra ler o primeiro livro dela, "A Fila Sem Fim dos Demônios Descontentes" (7Letras, 2006). Assim que bati o olho em "Merthiolate", soube que tinha uma letra de música ali. Gosto de como ele é um poema bem humorado e melancólico ao mesmo tempo - a Letícia trafega muito entre esses humores e tê-la cantando comigo foi perfeito. Além disso, conversa bastante com as outras músicas que tenho na gaveta. Seu próximo lançamento continuará dialogando com "Merthiolate". O que podemos esperar? A faixa também foi produzida por mim e pelo Eduardo Iara, meu parceiro musical, então a sonoridade é bastante próxima. Além disso, teremos cellos, alguns compassos de bolero e uma citação de abertura de anime. Estamos nos divertindo à beça no processo de gravação e espero que isso apareça no resultado final. "Abrir" e "Merthiolate" já estão disponíveis em todas as plataformas de streaming de música.

A poesia de Pedro Cassel