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  • Foto do escritorMichele Costa

A renovação de ritmos da Zepelim e o Sopro do Cão

Para compreender a sonoridade da Zepelim e o Sopro do Cão é necessário revisitar o passado. Em 2006, ano que a banda surge, havia uma efervescência na cena musical de Campina Grande, interior da Paraíba, que buscava misturar o hardcore com outros ritmos regionais. Ao unir os diferentes estilos, a ZSC entrega uma explosiva experiência mundial ("torando uns zepelins", como se dizia antigamente). 


Desde sua fundação, a Zepelim e o Sopro do Cão passaram por três momentos de atividades: de 2006 a 2009, outro em 2012 a 2014, e de 2019 até os dias de hoje. Formado por Babu (vocais), Dede Guima (guitarra), Igor Punk (guitarra) e Igor Carvalho (bateria), o grupo retrata sua história em Caranguejo de Açude, primeiro álbum da banda, após aprovação na Lei Aldir Blanc. Em oito canções, ZSC compartilha suas vivências e percepções locais, a partir de uma linguagem única que se comunica com qualquer pessoa - "Corona Haze" é o melhor exemplo: é possível sentir (e relembrar, infelizmente) as inseguranças e ódio durante a pandemia. 


"O som da ZSC consegue ser pesado mantendo elementos variados e letras e melodias marcantes que atraem um novo público. A Zepelim conta com uma estética acessível e de fácil assimilação que faz a banda circular bem tanto pelo nicho do rock quanto num ambiente de festival", comenta Babu. 


Em entrevista por e-mail, o vocalista refletiu sobre os anos da Zepelim e o Sopro do Cão, as mudanças, o álbum e muito mais. 


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ZSC surgiu em 2006, são quase duas décadas de existência. Como tem sido estes anos?

Anos de tentativas, erros e acertos, mas sobretudo de bastante aprendizado e amadurecimento do projeto, da ideia e do conceito do que vem a ser a Zepelim e o Sopro do Cão. Campina Grande é uma cidade de bandas autorais que vem e vão devido a um contexto desfavorável à cultura alternativa. Nesses 18 anos foram 3 períodos de atividade, sendo o atual o mais longo, desde 2019, que marca a minha entrada na banda. E isso foi um marco que ajudou a solidificar a energia que o Punk (guitarra) e o Frango (baixo) sempre depositaram nesse sonho que é a ZSC. Então tem sido anos de um sonho que se concretizou agora em 2024 com o lançamento do disco Caranguejo de Açude, e que ao virar realidade, nos permitiu ter ainda mais ambição artística e maturidade. Por mais que a gente só tenha se conhecido realmente no momento em que entrei na banda, acredito que a gente sempre sonhou junto, sempre imaginou parecido, até que um dia nossos caminhos se cruzaram e esse sonho em comum de se expressar artisticamente se consolidou.


A banda passou por três momentos de atividades. Essas mudanças foram necessárias para o som e apresentações da Zepelim e o Sopro do Cão?

Foram demais! Todos os períodos de atividade foram importantes para que a formação atual, com o Punk e Frango como remanescentes da formação original, pudesse ter um ponto de partida mais sólido. Nessa formação, a gente conseguiu agregar mais maturidade e, portanto, mais elementos e dinâmica, tanto na lapidação do nosso som, quanto do nosso show. Mas pra que fosse possível essa lapidação, os outros momentos e membros que passaram pela ZSC foram de total importância, pois só assim teríamos o que lapidar. Escrevi numa postagem de manifesto em lançamento ao nosso disco que esse lançamento representa o passado, o presente e o futuro da Zepelim por tudo e todos que representa. Então um salve aos antigos membros da banda, sei que se sentem da família e tenho bastante apreço por isso.


A efervescência de 2006 ainda é vista nas canções. Como vocês conseguiram continuar com a áurea do passado nos dias de hoje?

Acredito que essa efervescência observada sempre vai tá ligada a energia e a “jovialidade” que acompanha o rock e o hardcore. Mas também nessa formação, a ZSC deu uma renovada nos seus ares através da minha entrada e a de Dede. Eu sou mais novo que o Punk e o Frango, e Dede é ainda mais novo que eu, então existe essa relação de gerações dentro da banda. A gente é muito inquieto artisticamente, eu e Dede formamos uma boa parceria desde os tempos em que trabalhávamos com pesquisas na área de urbanismo, nós somos arquitetos e urbanistas. Então a gente tá sempre buscando dar pano pra manga, referenciar, criar histórias e contextos. Essa inquietude levou a gente a lapidar a criação de flyers mais elaborados e temáticos, roteirizar e editar vídeos, como é o caso do clipe de faixa "DOMÍNIO” que tá disponível no YouTube. Então a banda tem esse encontro geracional e a gente conseguiu estabelecer uma sintonia coletiva muito boa, é uma nova banda, uma nova aura.



"Caranguejo de Açude" é o primeiro álbum da banda. Como foi gravá-lo e agora poder compartilhá-lo com o mundo?

Véi, em suma, foi a melhor experiência da minha vida. Desde os ensaios de pré-produção até as gravações de fato, foi tudo muito massa. A experiência em si já foi a realização de um sonho, poder compartilha-lo com o mundo foi ainda mais foda. Mas não foi tudo mil maravilhas não, rolaram várias pausas durante a pandemia por Covid-19, ansiedade, desesperança, paciência e perseverança. Foi um combo de acontecimentos que precisou de muita dedicação de toda a galera envolvida. E o disco também só pôde sair nesse momento devido aos editais da Aldir Blanc, com a grana de um desses editais a gente pôde alugar uma casa em janeiro de 2021 e passar o mês ensaiando cerca de 4 vezes por semana num quintal, única forma de mantermos o distanciamento, evitar contaminação pela corona e iniciar o processo de pré-produção. Já pra gravação em si, foram várias pausas, como o estúdio é um ambiente fechado, a gente teve que ter paciência, civilidade e respeito pelas nossas vidas e das pessoas que nos cercam. Foram meses e meses sem gravação, sem saber se esse disco ia dar certo, mas a gente manteve o foco e conseguiu. Já no momento de compartilhá-lo com o mundo, a gente conseguiu criar todo um clima de expectativa com criação de um "mocumentário" sobre o Caranguejo de Açude, tem gente aqui em Campina Grande até hoje acreditando que existe caranguejo no Açude Velho (cartão postal aqui da cidade) haha!


Falando ainda sobre o álbum, Caranguejo de Açude comunica as vivências e percepções de Campina Grande, além de celebrar o interior da Paraíba. Como tem sido ir na contramão do que é visto hoje no mainstream no Brasil?

A música vive em tempos de afirmação, de pautas, de mostrar cenários, vivências, diferenças e indiferenças. No nosso caso a gente tem como contexto o interior da Paraíba, acho importante mostrar pro mundo o que é fazer rock no interior do Nordeste, na cidade do maior São João do mundo. Porém, nos apropriamos desse contexto tentando utilizar uma linguagem mais global, sem se apegar a ritmos e instrumentos que revelem uma regionalidade sonora muito forte. O sotaque já nos entrega demais (que a gente é do Nordeste), e a gente preza por esse diferencial, que pode parecer negativo pra algumas pessoas, mas a gente enxerga como algo positivo, um molhinho que poucas bandas de hardcore tem a possibilidade de ter haha!  Apesar de o rock ser a contramão do mainstream no Brasil hoje, a gente tem as "manha" de fazer um som mais acessível, com letras mais líricas, melodias marcantes e vocais mais limpos que tragam o consumidor de música mais universal pro nosso mundo. Além disso, a gente curte ter uma identidade visual que dialoga melhor com as pessoas, cores, fontes e textos que leve o público a se identificar e se aproximar mais da gente. E o rock tá se tornando tendência mundial novamente, várias bandas novas em evidência, e aqui no Brasil acredito que a tendência também seja essa. Esperemos! hehe


"Corona Haze" foi composta durante a pandemia. Babu canta: "tô guentando bater de frente / acendendo todo dia a chama que me faz viver" Hoje, após anos de isolamento, vocês continuam batendo de frente com a chama acesa?

A chama tá mais acesa do que nunca, haha! Esse sistema que nos entrega todo esse contexto de desigualdade regional e cultural precisa ser enfrentado e a gente tá aí, produzindo sempre, ensaiando sempre, nos articulando e mantendo nossa amizade e nossos sonhos em dia. A gente tem vários lançamentos pela frente, Caranguejo de Açude é só o começo. Todo dia a gente acende essa chama e renova a vontade de viver e fazer música. Isso que nos move!



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