• Michele Costa

Mayra e Leandro ensinam sobre Semana da Arte Moderna aos pequenos

Três anos atrás, o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) de São Paulo recebeu a exposição de Jean-Michel Basquiat, gênio neo-expressionista que conquistou o mundo em pouco tempo. Enquanto eu caminhava pelas obras do artista, acabei encontrando uma mãe com dois filhos que mostrava as pinturas para, em seguida, perguntar aos pequenos o que eles sentiam ao ver as formas, cores e texturas. “Gostei do vermelho, mamãe. Parece que tá vivo”, respondeu a filha. E assim eles seguiram pela exposição, analisando, conversando e aprendendo.


A arte na educação infantil é extremamente importante, já que traz inúmeros benefícios para a criança, contribuindo para o amadurecimento de habilidades cognitivas. Além disso, a arte também auxilia no desenvolvimento do senso crítico, a sensibilidade e a criatividade, deixando a criança livre para ter uma visão do mundo e de si própria. De acordo com a escritora Aurora Ferreira, responsável pelo livro “Arte, Escola e Inclusão”, a arte na vida escolar é essencial e deve ser gradativa e respeitada de acordo com cada criança.


O casal Mayra Correia e Leandro Thomaz, pais de dois meninos meninos, sabem muito bem a importância da arte na primeira infância, por isso, lançaram recentemente o livro infanto-juvenil “Colorindo a Semana de 22”, que ensina de forma didática e lúdica sobre a Semana de Arte Moderna e os artistas que revolucionaram a arte brasileira, como é o caso de Anitta Malfatti, Di Cavalcanti, Lasar Segall, Mário de Andrade e Oswald de Andrade. O livro foi lançado pela Editora Datum e contou com o apoio do Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria de Cultura e Economia Criativa.


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Vocês são formados em enfermaria e geologia, profissões distantes da arte. Como foi para vocês criarem um projeto artístico? Vocês já tinham pensado em trabalhar com livros infantis?

Como nós dois temos dois filhos pequenos [Rodrigo, 7 anos e Felipe, 3 anos], a nossa vida se deslocou para o mundo infantil. Então, em 2019, já sentindo essa onda negacionista, anti-ciência e anti-cultura passamos a pensar numa forma de nos posicionarmos e como resposta resolvemos publicar nosso primeiro livro infantil sobre ciências: o “Meu Amigo Darwin”. Essa experiência foi tão positiva que decidimos continuar criando novos livros infantis em prol da educação e, assim, nasceu também o nosso “Colorindo a Semana de 22” sobre arte.


A ideia do livro “Colorindo a Semana de 22” surgiu quando seus filhos começaram a ter contato com grandes artistas. Como foi aprender com os pequenos? A visão deles ajudou na construção do livro?

O Rodrigo, na época com 5 anos, estava aprendendo sobre Mondrian e Miró na escola, esses artistas foram apresentados a ele por uma professora com muita sensibilidade. Com esse trabalho, percebemos que ele desenvolveu a capacidade de reconhecer as obras e artistas com facilidade. Foi ali que entendemos a importância de tornar a arte acessível às crianças desde cedo. Então, decidimos que o próximo livro infantil que faríamos seria sobre um personagem da história da arte brasileira. Essa intenção se expandiu e se transformou no “Colorindo a Semana de 22”.

A participação deles foi fundamental durante toda a confecção do livro. Como é um livro de atividades, eles eram os nossos “testadores” oficiais. Se não fosse algo intuitivo ou que não despertasse o interesse deles, a gente cortava ou modificava. Além disso, eles mesmos chegaram a sugerir atividades com base na obra de algum artista. Um exemplo é a atividade do Vicente do Rego Monteiro, que utilizava cores terrosas típicas da arte indígena, o Rodrigo sugeriu fazer pinturas com café e carvão. O resultado é bastante parecido e o material é fácil de achar em casa. Já o Felipe, com menos idade, necessitava de atividades mais cenestésicas, como manipulação das tintas e manuseio de massa de modelar.



O livro ganhou forma por conta de um edital sobre a Semana da Arte Moderna de 22. Queria que vocês contassem um pouquinho do processo do edital.

Estávamos estudando sobre uma artista modernista, quando o ProAC lançou o edital para a publicação de obras relacionadas à Semana de Arte Moderna. Essa coincidência nos trouxe uma ótima oportunidade e decidimos aproveitá-la. Foram muitas noites escrevendo e detalhando o projeto, de forma que ficasse o mais claro possível qual era a nossa proposta.

Como somos apreciadores da arte, porém sem formação específica em artes plásticas, buscamos estudar e pesquisar ao máximo. Sabíamos que a banda do ProAC seria bastante rigorosa… E foi!

Após a aprovação, o ProAC divulgou o nome dos avaliadores, que contava inclusive com a Aracy Amaral, autora de diversos livros sobre a Semana de Arte Moderna e artistas modernistas. O suporte do edital foi fundamental para a realização do projeto, sem esse recurso teria sido muito difícil torná-lo possível.


Vocês tratam grandes artistas que contribuíram para a Semana de 22, como é o caso de Tarsila do Amaral, Lasar Segall e Mário de Andrade. Como foi criar o perfil e obras desses artistas para as crianças?

A gente buscou ter um equilíbrio entre ser profundo sem ser cansativo. E também retratar a forma mais humana possível, mostrando inclusive como eles a conheceram.

Essa humanização é importante para a criança, para que ela entenda esses personagens como as pessoas comuns que eram. E que se a criança quiser ela pode ser um artista também. A arte é um espaço de criação, não existe certo ou errado, o que conta é a liberdade para se expressar.


“Colorindo a Semana de 22” é composto por páginas teóricas e práticas. Em uma página, por exemplo, é apresentado uma obra modernista, com análise lúdica de como o artista utilizava técnicas de pintura. Na outra, uma atividade na qual a criança é incentivada a pintar e desenhar. As tarefas são dirigidas para que a meninada aprenda a compor novos cenários, mude os padrões fazendo sua releitura e identifique as particularidades de cada artista. “Os desenhos e pinturas contribuirão para a experimentação artística, autonomia e desenvolvimento da coordenação motora. As análises das obras originais servirão para a criança compreender o movimento modernista, de forma leve e lúdica”, explica Leandro.


Com o livro, as crianças compreenderão o movimento modernista de forma leve e lúdica. Para chegar nesse fim, vocês contaram com ajuda de pedagogos e psicólogos?

Acessamos conhecimento de diversas áreas, mas não tivemos participação de outros profissionais além da nossa revisora. Foi um trabalho independente e exclusivo nosso. Entretanto, recebemos diversos retornos positivos especiais, vindos de professores de educação artística, letras e pais de crianças com necessidades especiais. Isso nos enche de ânimo e significa que estamos trilhando um bom caminho!


Para vocês, que são pais de duas crianças com pequena diferença de idade, qual a importância da arte na infância? Aproveito para perguntar como vocês tratam o assunto com os pequenos.

Além de ajudar no desenvolvimento cognitivo e motor, a arte tem o papel, inclusive, de auxiliar no desenvolvimento emocional. Uma vez que a arte é uma forma de expressão, quanto mais uma criança aprende a retratar seus sentimentos, mais ela se torna consciente deles.

Nesse sentido, considerando o contexto de pandemia, percebemos o aumento significativo da ansiedade nas crianças, decorrentes da diminuição da interação social e da redução do espaço físico. A arte, as atividades manuais, o ambiente livre de criar surgem como um alento no meio dessa realidade.


Para o futuro, vocês pensam em criar novos livros infantis? Se sim, pretendem abordar novamente a arte ou algum outro tema?

Sim e será num futuro muito breve. A cada passo que damos, mais ideias para livros vamos tecendo. Nosso eixo de criação, que nos atrai e motiva, é referente a ciência, arte e cultura. Já temos mais alguns projetos pensados, um deles será sobre a trajetória de uma artista modernista brasileira e outro sobre um arquiteto. Seguimos na busca de recursos para tirá-los do papel ainda esse ano.


Para mais informações sobre o livro, acesse: https://www.catarse.me/colorindo22

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