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  • Foto do escritorMichele Costa

O baile de João Albino

Não é possível falar de João Albino sem falar dos Últimos Escolhidos do Futebol, banda que participa ao lado dos amigos. Suas histórias são cruzadas. Ao falar de um é necessário tratar do outro - eles se complementam, como yin e yan, Lennon e McCartney e os países da América do Sul. 


Ao revisitar sua trajetória como compositor, Albino percebeu que havia histórias em canções que necessitavam serem compartilhadas. A perspectiva foi transformada ao revisitar o passado: com mais de vinte composições para artistas como Gaby Guima, Os Últimos Escolhidos do Futebol, Negros Albinos e Zandare, estava na hora de preparar novos voos, alcançando novas pessoas que se identificam com o momento do músico. 


A partir de histórias e visões do cotidiano, João Albino apresenta uma nova faceta - ainda poética - ao público com canções originais, doces e reflexivas. Neste ano, o artista compartilhou quatro canções - “Dona Dilce”, “O Baile do Icaraí”, “Ensaios (Que Pena)” e “Valparaíso (etc…)” - que incorpora elementos contemporâneos de R&B e pop com MPB. Esta última surgiu após algumas viagens de João com Sinuhe LP (Os Últimos Escolhidos do Futebol) pela América do Sul. Quando retornaram ao Brasil, os amigos tiveram a ideia de compor algo baseado nas experiências que vivenciaram pelo nosso continente. 


"Quando voltamos, entendemos que existe uma realidade muito parecida entre os países sul-americanos, nesse sul global, na verdade, né? E aí, acho que esse foi o grande gatilho para a letra: entender que uma realidade de desigualdade está ali interligada” explica João.


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Quando foi o momento em que você descobriu que gostaria de iniciar sua carreira solo? 

O momento que eu me identifiquei - tendo uma data [exata], foi três anos atrás. Com Os Últimos Escolhidos do Futebol, uma banda autoral, acho que influenciou essa questão da composição nesses últimos anos, mas é uma coisa que eu fui entendendo como pessoa compositora - é que cada música se encontra dentro de um projeto; e tinham músicas dentro de projetos que participei que elas se encaixavam com aquilo que me identifico como música minha, música solo. Aí, nesses últimos três anos foi o momento que eu olhei para esse baú de composições e falei: “cara, tem composições o suficiente pra falar que é um som que tem a minha cara”; e tendo a minha cara, preciso colocar para fora, começar a divulgar - entrou um ponto de identificação, talvez essas músicas se comuniquem com outras pessoas, e olhando para esse baú que estava um pouquinho cheio, era o momento de colocar pra fora, e isso aconteceu nos últimos três anos, muito porque eu vim sendo influenciado a compor mais pelos Últimos Escolhidos. 


Os Últimos Escolhidos do Futebol te ajudou para você conseguir fazer essa mudança?

Sim, acho que a resposta anterior se comunica muito com essa aqui: acho que tem um ponto dos Últimos, a gente vem compondo nos últimos cinco anos e aí… Eu acho que essa composição contínua ajuda a lapidar aquilo que faz sentido para essa questão que eu comentei sobre se entender enquanto pessoa compositora e entender o que se encaixa nessas composições próprias. Os Últimos ajudou muito a balizar isso, a entender “acho que isso é uma questão solo, isso aqui é outra questão”. Obviamente, nos Últimos, a gente vem publicando canções pelo menos nos últimos quatro anos e isso dá uma maneira de… Funciona muito como testar e errar, né? Nos Últimos, a gente tem muito essa abordagem que deu para entender muito dos acertos e erros dentro desse processo também. Então, Os Últimos foi um grande laboratório de composição.  

 

Este ano, você apresentou quatro canções. Como foi pra você? 

Vem sendo uma experiência maravilhosa. As quatro canções, e o disco que vem neste ano, é um acúmulo de vontade, não só desses últimos anos que comentei, mas também uma vontade desde a adolescência, eu componho desde os 15 anos, e acho que vê-las, essas quatro canções, no mundo me dá uma alegria muito grande porque é uma vontade que tava aqui dentro enquanto pessoa compositora de vê-las no mundo. E é interessante também analisar que cada lançamento é um aprendizado, cada lançamento tem um processo, cada canção comunica de uma maneira e acho isso maravilhoso! Me dá mais vontade para ver a publicação do álbum.


Suas músicas despertam muitas imagens. Como é o processo de criação, você pensa nessas imagens ou elas surgem como consequência das palavras? 

Tem um ponto aí - um gatilho talvez? - para a criação das músicas vem mais sobre as histórias que eu escuto ou vejo do que de fato pensando em uma imagem. O que eu quero dizer com isso? Vou usar como exemplo a música “O Baile do Icaraí”, eu escutei [a história] em um almoço de família, [sobre] os meus tios irem em um baile, em um bairro em Bauru, Bela Vista, que tinha um sentimento muito de comunidade, onde as pessoas normalmente juntavam uma grana, para ir nesse baile porque lá, dentro desse baile, elas se sentiam belas, se auto afirmavam enquanto beleza e isso me pegou muito [faz o som de estalo com os dados] porque me deu o gatilho pra imaginar esse baile acontecendo nos anos 50, em Bauru, com essas pessoas e toda essa questão, de saber o que essas pessoas estavam escutando, como estavam agindo… Tudo isso fez com que eu criasse a imagem na minha cabeça para criar esse som. Então, acho que é mais sobre as histórias que eu escuto, que eu vejo e que me atravessam de uma maneira, que me dão os gatilhos para criar essa imagem no som, entendeu? 


“Valparaíso” traz paisagens que você conheceu, mas que se misturam com outras vivências que são despertadas. Como foi compor a canção baseado nas experiências que você teve pela América do Sul?

Tem um ponto, enquanto brasileiro cantar em espanhol… Toda vez que eu escuto uma pessoa brasileira cantando espanhol, eu vejo uma parte de exaltar uma identidade latino-americana - exaltar em suas belezas, em suas dificuldades também. Então, toda vez que eu escuto um brasileiro cantando em espanhol, eu vejo essa identidade de falar “nós somos brasileiros, mas estamos olhando para os países sul-americanos, se identifica como sul-americano e eu acho isso muito potente. “Valparaíso”, por mais que seja uma cidade chilena, ela tenta aproximar essas questões de dificuldades e belezas, identificando um processo histórico muito parecido, né? Acho que é uma exaltação sendo brasileiro e olhando para outros países e falando “cara, a gente tem isso também, a gente se identifica nas belezas e dificuldades”. “Valparaíso”, pra mim, preenche esse âmbito, esse universo de união, de ideias e identidades. 



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