• Michele Costa

Impressões: A Pior Pessoa do Mundo



Durante a adolescência fazemos planos para o crescimento. Acreditamos que quando nos tornarmos adultos, teremos o mundo em nossas mãos. Somos invencíveis, sabemos e queremos mais. Nunca nos machucaremos, não seremos iguais aos nossos pais (pois assim que o primeiro traço surgir, cortaremos) e encontraremos a alma gêmea com facilidade. Grandes planos. Então, você cresce e começa a responder por si mesmo… Quando você fica mais velho, descobre que nada é tão simples. No final, não sabemos de nada.


O filme "A Pior Pessoa do Mundo" (Joachim Trier, 2021) inicia com o prólogo, onde temos algumas informações sobre Julie (Renate Reinsve), uma jovem que estudou por alguns anos medicina, mas não gostava da ideia de exercer a função. Troca o curso por psicologia, mas desiste ao ver que os colegas são parecidos (o humor dela é ácido). Descobre a paixão pela fotografia e investe. Durante as trocas dos cursos, acompanhamos as mudanças - físicas e psicológicas - da protagonista que, em seguida, se envolve com Aksel (Anders Danielsen Lie), um cartunista mais velho e experiente. Prestes a completar 30 anos, Julie começa a refletir sobre sua vida - ela chegou onde queria estar? Por que se sente tão perdida? A pressão aumenta quando ela e o namorado passam um fim de semana com os amigos que são casados e têm filhos. Julie se assusta, principalmente com a "falta" do instinto materno.


Julie é uma jovem adulta dos dias de hoje, ou seja, cheia de vontades, desespero, inseguranças, sonhos e abandonos. Por que é tão difícil crescer e ser quem sempre desejou? A pressão para encontrar o seu caminho a sufoca, pois seu namorado é estável e bem sucedido (se comporta como um adulto, fala de trabalho e teorias psicanalíticas), enquanto ela é apenas uma vendedora de livros.


A história passa por uma virada quando a heroína entra de penetra em uma festa de casamento. Neste lugar que ninguém a conhece, ela está livre para ser quem quiser - aproveita para brincar com os convidados, dizendo que é médica e explicando uma pesquisa absurda que está desenvolvendo. Julie bebe, dança e conhece Eivindi (Herbert Nordrum), um barista de café. Os dois começam um jogo de sedução, mas não se relacionam pois namoram. É interessante acompanhar até onde eles podem ir para encantar o outro. Ao se despedirem no dia seguinte, não trocam nenhum contato, aliás, apenas Julie diz o seu nome (assim, fica difícil stalkear e saber mais informações). Novos capítulos se iniciam, até que os dois se reencontram e se beijam pela primeira vez - agora sim a traição foi concretizada. Logo, Julie precisa decidir com quem ficar e quem quer ser no futuro.


O filme retrata as mudanças da protagonista que se permite rir, chorar, amar; sentir felicidade, tristeza e nostalgia. O humor está presente até mesmo nos momentos mais tristes, realçando que Julie existe de verdade - nós somos (ou fomos) ela. "A Pior Pessoa do Mundo" não traz nenhuma lição de moral, pelo contrário, o filme retrata fielmente nossas mudanças enquanto tentamos nos descobrir.


Quando você finalmente chega aos 30 anos, percebe que os planos que tinha feito são apenas planos e que no fundo, você quer apenas viver - ser você (com sorte, criará um nome importante).

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