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  • Foto do escritorMichele Costa

Fé, Esperança e Carnificina

A vulnerabilidade de Nick Cave começou a ser vista em Push The Sky Away, lançado em 2013. Ao optar por este caminho, conhecemos novas facetas do músico. Se no passado ele era selvagem, agora, aos 66 anos, está relaxado e mais místico do que antes. Essa nova "personalidade" ganhou espaço após Arthur, seu filho de 15 anos, falecer - afinal, nenhum pai continua o mesmo após perder o seu maior amor. Conviver e viver o luto é difícil e o músico sabe bem disso. No entanto, não se pode fugir deste momento. 


Nick conhece todas as fases do luto, isto é, negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Por isso, desde 2018 - três anos após a perda do filho - criou o The Red Hand Files, uma newsletter que expõe sua vulnerabilidade ao responder questões dos fãs. Ao ser transparente, Cave auxilia outras pessoas. Neste espaço, ele já falou sobre suas músicas, esperança, fé, angústia, família e como imagina ser a voz de Deus. Suas respostas variam de tamanho, mas trazem reflexões pertinentes para o leitor. 


Durante a pandemia, as demandas de perguntas aumentaram. Em muitas delas, as pessoas queriam saber como continuar com esperança enquanto acontece uma carnificina. As respostas do cantor misturavam poesia com religião, criando imagens que nos tiravam da realidade. Inclusive, esse "processo de criação" pode ser visto em seus últimos álbuns: Carnage (2021), Ghosteen (2019) e Skeleton Tree (2016). "Acho que o que tento fazer por meio das músicas e do Red Hand Files é ressaltar que nossas vidas são mais valiosas do que às vezes pensamos que são ou do que nos dizem que são. Que nossas vidas são feitas, na verdade, de enormes consequências e que nossas ações reverberam de maneiras que mal desconfiamos", explica. 


Foi seguindo essa linha que surgiu o livro Fé, Esperança e Carnificina (Terreno Estranho, 2023). A ideia surgiu durante a pandemia: Nick - que não dava mais entrevistas - concordou em responder algumas perguntas do jornalista Seán O’Hagan. A princípio, seria um ensaio para a revista Paris Review, mas com o passar do tempo, ambos perceberam que o projeto deveria ser um livro. Desta maneira, repórter e músico dialogam sobre crença, arte, música, liberdade, dor e amor. 


"(...) Minhas canções se tornaram definitivamente mais abstratas, na falta de uma palavra melhor, e, sim, menos dominadas por uma narrativa tradicional. Em certa medida, simplesmente fiquei cansado de escrever canções na terceira pessoa que contassem uma história estruturada, começando no início e se movendo obedientemente em direção à conclusão. Passei a desconfiar dessa forma. Parecia injusto jogar essas histórias nas pessoas o tempo todo. Parecia um tipo de tirania. Era quase como me esconder atrás dessas narrativas bem elaboradas e desenvolvidas por estar com medo das coisas que estavam borbulhando dentro de mim. Eu queria começar a compor canções que, de algum modo, fossem mais verdadeiras, mais autênticas em relação às minhas experiências."

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Durante as 360 páginas da obra, acompanhamos a fragilidade de Cave aumentar ao falar das perdas do filho, da mãe, de Anita Lane e demais amigos que estiveram presentes em sua vida. Em um determinado momento, Nick fala sobre a mudança de visão que teve em 2015: "Arthur morreu e tudo mudou. O senso de disrupção, de uma vida interrompida, contaminou tudo". A partir do luto surgiu o disco Skeleton Tree que traz uma atmosfera fantasmagórica com pouquíssimos recursos instrumentais, soando como uma missa para o filho. 



A conversa entre Seán e Nick não é formal, pelo contrário, soa como dois grandes amigos que se reencontram depois de um tempo. Em alguns momentos, o diálogo entre os dois vai para outro caminho e o músico dá as melhores respostas, criando imagens lindas e dolorosas. 


Após falar sobre o seu luto, Cave comenta sobre a criação de Ghosteen, um disco que tem a morte do filho como ponto de partida. Para o músico, Arthur esteve ao seu lado enquanto gravava o álbum, acompanhado do Bad Seeds. Inclusive, por mais que a perda de uma pessoa querida, o músico relata a importância de continuar vivo para enaltecer aqueles que não estão mais aqui. Como canta em "Waiting for You": "Your soul is my anchor never asked to be freed / Well sleep now, sleep now, take as long as you need". 


"Para ser forçado a viver o luto publicamente, tive de encontrar meios de articular o que tinha acontecido. Encontrar a linguagem se tornou, para mim, a saída. Há uma grande carência na linguagem em torno do luto. Não é algo para o qual somos treinados, enquanto sociedade, porque é muito difícil de falar a respeito e, mais importante, muito difícil de ouvir. Então muita gente em luto permanece em silêncio, aprisionada em seus próprios pensamentos secretos, em suas mentes, tendo os próprios mortos como única forma de companhia."


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Nick Cave e Seán O'Hara (Foto: Divulgação)

Fé, Esperança e Carnificina não é apenas sobre o luto, a teologia é o tema central da obra. Aliás, ele foi o motivo para o desenvolvimento do livro: segundo O’Hagan, a ideia veio de uma conversa em que Cave comentou sobre sua relação com a religião. É interessante ver a fé do músico, que vai além da crença por Deus, ou seja, os mistérios, milagres e energia o convencem de que exista um espaço místico e que o mundo é maravilhoso. Nick diz repetidamente vezes que ele ama todo mundo. O ordinário é belo e cheio de esperança.


O artista também fala sobre sua esposa Susie, sua paixão pela pintura, o perfeccionismo durante a criação de um novo projeto, sua amizade com Chris Martin do Coldplay, a saída de integrantes do Bad Seeds, a parceria com Warren Ellis e sua relação com sua mãe. No entanto, Nick Cave não gosta de revisitar o passado - quando Seán relembra entrevistas e citações do passado, o músico fica bravo e diz que o passado não o interessa mais, é necessário viver o presente. As canções de Carnage também são debatidas entre os dois. 


"Então você não vê a música simplesmente como escapismo? 
Não, é mais do que isso. Acho que a música tem a habilidade de penetrar em todas as maneiras fodidas que aprendemos para lidar com este mundo - todos os preconceitos, afiliações, interesses e defesas que basicamente se somam em uma espécie de sofrimento em camadas - e chega àquilo que repousa sob a superfície e é essencial para todos nós, que é puro, que é bom. A essência sagrada. Acho que a música, de tudo que podemos fazer, pelo menos artisticamente, é o grande indicador de que algo mais está rolando, algo inexplicado, pois nos permite experienciar momentos genuínos de transcendência."

Após o término da leitura, as palavras continuam ecoando - acredito que elas ganham força no decorrer da trajetória. Torço para que cada um consiga tirar os melhores ensinamentos do músico e ter uma vida plena e bela.

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