• Michele Costa

Dia do Nordestino: a resistência no cinema

Bacurau, A Vida Invisível, A Noite Amarela, Abril Despedaçado e Auto da Compadecida são alguns filmes que ganharam os holofotes, prêmios nacionais e internacionais nos últimos vinte anos. No entanto, ainda existe uma resistência dos brasileiros assistirem filmes nacionais, seja por ignorância ou complexo de vira-lata.


Para melhorar a vida daqueles que dizem de boca cheia que o cinema internacional é muito melhor e que “brasileiro não sabe fazer nada”, temos uma péssima notícia: o cinema "made in Nordeste” está ganhando espaço em diversos países e tudo indica que nos próximos anos, o quadro passará por um aumento - roteiros, ideias, scripts e filmagens são feitas todos os dias.


Em uma entrevista, o diretor Karim Aïnouz disse que “o sucesso do cinema é uma “coincidência irônica””, já que o presidente Jair Bolsonaro e sua trupe diminuíram o orçamento para projetos culturais, a Ancine passou por mudanças e a cultura brasileira vem sendo destruída constantemente.


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O nordestino já foi retratado de diversas maneiras: no Cinema Novo, em 1960, a realidade (nua e crua) brasileira ganhou destaque nas telas. Em “Vidas Secas”, filme de Nelson Pereira Santos, o nordestino era castigado pela fome e pela seca. Já em “Os Fuzis”, Ruy Guerra retrata a história de retirantes famintos que chegam na cidade. Em 1996, a personificação do nordestino ganha outro rumo: a força. Em “O Baile Perfumado”, o diretor conta a saga do libânes Benjamin Abraão, que conviveu com Lampião e seu bando.


Nos anos 2000, a linguagem muda: histórias de malandros viram comédias, como é o caso de Auto da Compadecida, inspirado no teatro de Ariano Suassuna, e Lisbela e o Prisioneiro, de Guel Arraes. Pobreza, fome, furtos, mentiras estão no filme, seguindo o objetivo que era utilizado no Cinema Novo: mostrar a realidade. Com o passar do tempo, novos filmes surgiram, mostrando a resistência, beleza e poesia do Nordeste. “Bacurau”, “Som Ao Redor”, “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo” são alguns exemplos.


10 filmes nordestinos para assistir


Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo (Karim Aïnouz e Marcelo Gomes): José Renato é um geólogo e foi enviado para uma pesquisa de campo que atravessa o Sertão - região semi desértica, situada no Nordeste do Brasil. O objetivo da pesquisa é avaliar o possível percurso de um canal que será construído a partir do desvio das águas do único rio caudaloso da região. No decorrer da viagem, percebe-se que há algo comum entre José e os lugares que ele passa: o vazio.


Deus e o Diabo na Terra do Sol (Glauber Rocha): Manuel é um vaqueiro que se revolta contra a exploração imposta pelo coronel Moraes e acaba matando-o em uma briga. Por isso, ele passa a ser perseguido por jagunços e foge com a esposa Rosa, juntando-se aos seguidores do beato Sebastião, que promete o fim de qualquer sofrimento.


A História da Eternidade (Camilo Cavalcante): em um pequeno vilarejo, três histórias de amor e desejo revolucionam a paisagem afetiva de seus moradores. No decorrer do filme, personagens se misturam, seguindo seus instintos humanos.



Amarelo Manga (Cláudio Assis): Lígia, Kika, Wellington, Dunga e Isaac são os personagens principais do filme. Suas vidas se entrelaçam e os desejos, por vezes reprimidos, surgem. Um filme sobre dominado e dominador.


Cinema, Aspirinas e Urubus (Marcelo Gomes): dois homens, totalmente diferentes, se encontram: Johann é um alemão fugido da Segunda Guerra Mundial, que dirige um caminhão e vende aspirinas pelo interior do país; o outro é Ranulpho, homem simples, que após ganhar uma carona de Johann, vira ajudante dele. Viajando pelas estradas, a dupla exibe filmes promocionais sobre o remédio “milagroso” para pessoas que jamais tiveram oportunidade de ir ao cinema.


Febre do Rato (Cláudio Assis): “Febre do rato” é uma expressão típica da cidade de Recife, que designa alguém que está fora de controle. É assim que Zizo, um poeta inconformado e com atitudes anarquista, chama seu pequeno tablóide. Um dia, todas as convicções parecem ruir ao se deparar com Eneida, a consciência contemporânea e periférica.


Estou Me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar (Marcelo Gomes): em Toritama mais de 20 milhões de jeans são produzidos anualmente em fábricas caseiras. Orgulhosos de serem os próprios chefes, os proprietários destas fábricas trabalham sem parar em todas as épocas do ano, exceto o carnaval.


Barravento (Glauber Rocha): o filme acompanha a volta de Firmino à aldeia de pescadores em que foi criado para tentar livrar o povo do domínio da religião e crenças antigas.



A Noite do Espantalho (Sérgio Ricardo): com trilha sonora feita por Alceu Valença e Geraldo Azevedo, o filme conta a história de um barão arrogante que quer expulsar uma família pobre de sua propriedade, no nordeste brasileiro.


Cabra Marcado Para Morrer (Eduardo Coutinho): baseado na narrativa semidocumental, o filme conta a história de João Pedro Teixeira, um líder camponês da Paraíba, assassinado em 1962. Contado através das palavras de sua viúva, Elizabeth Teixeira, “Cabra Marcado Para Morrer” relata também a história das Ligas Camponesas de Galiléia e de Sapé e a história dos seus filhos, humanos que João não viu crescer.

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