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A selva de Luís Perdiz

  • Foto do escritor: Michele Costa
    Michele Costa
  • 31 de mar.
  • 8 min de leitura

As visões que atravessam a obra de Jack Kerouac e Allen Ginsberg nunca foram apenas imagens: eram estados (vividos e sentidos) de percepções. Em Os Vagabundos Iluminados (L&PM, 2004), por exemplo, Kerouac busca a iluminação na natureza, enquanto Uivo (L&PM, 2005), de Ginsberg, projeta visões urbanas e delirantes que expandem o real até o limite. Em ambos, ver é ultrapassar o visível, ou seja, acessar uma camada mais intensa e sensível da existência. Ao seguir o caminho dos expoentes beatniks, Luís Perdiz desacelera para construir uma poética em que o corpo, a paisagem e a linguagem se fundem, apresentando sua visão. 


Em A Selva nos seus Olhos (Primata, 2026), o escritor, editor e compositor paulista transforma a natureza em experiência sensorial e imagética em estado de visão. A ideia - iniciada em Desejo de Terra (Primata, 2019), que narra uma poética da ecologia, do xamanismo e do encontro amoroso - segue presente desde o início: "Eu vi a selva nos seus olhos e vivi / tanto tempo que me aqueço ao lembrar". Dessa maneira, a selva deixa de ser território físico para se tornar imagem interior, no olhar e no corpo. 


Escrito em diferentes locais, o poeta destaca o "tempo da floresta", que conduz os poemas: um tempo mais lento e sensorial, em que tudo parece mais vivo. O importante é sentir, tocar, enxergar de outra maneira - como mostrou Walt Whitman em Folhas de Relva (1855). "A natureza é um ambiente que convida a esse olhar mais rico, um olhar com mais mistério, com mais infinito", explica.


Mais do que cenário, a natureza de Luís Perdiz é um organismo que se revela ao olhar e se transforma através dele. Em seu movimento de retorno ao essencial, o livro dança entre corpo e terra num ritmo próprio, distante do mundo tecnológico e de sua lógica apressada. É o tempo da floresta que orienta esse olhar desejante, criando um espaço onde o cotidiano deixa de ser pragmático para se tornar erótico, quente e sinuoso.


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selva luís perdiz
(Crédito: Daisy Serena)

A natureza está presente em suas obras há muito tempo. Por que ela é tão especial e por que ela chama sua atenção?

Eu acho que tem uma parte autobiográfica. A relação com a natureza é uma coisa que eu busco, é uma coisa que me energiza, me faz bem. Eu até percebi que esse livro, de certa forma, é uma continuação do meu livro anterior e é uma continuação da vida. O primeiro livro dessa série é o Desejo de Terra que eu publiquei tem sete anos, mais ou menos. Ele, em parte, é autobiográfico e é essa busca pela construção de imagens poéticas com o cenário da natureza. A natureza é um ambiente que convida esse olhar mais rico, um olhar com mais mistérios, com mais infinito, e me faz bem, claro, então tem a questão da vida. 

O que você sente quando você está na natureza? 

Eu acho que a natureza tem essa força de contato com algo maior. Eu acho que ela nos lembra do infinito e nos lembra que existem realidades não-humanas, e a poesia, em certa linha, trata de realidades não-humanas. Eu acho que um poeta que se aproximou muito dessa linguagem do xamanismo, da transmutação, é o Roberto Piva, que é um poeta muito importante para mim. Tem o Cláudio Willer também, eu fui monitor dele por um tempo, leitor dele, foi uma grande referência, um grande mestre para mim. Tem uma tradição de contemplação, de convite à reflexão - isso desde os haicai que são pinturas com o olhar… Então a natureza, pessoalmente, me traz energia para viver e traz esse olhar poético, que é um olhar que eu busco.


É interessante ver como você construiu a relação entre o corpo humano com a paisagem. Como foi esse processo?

Eu acho que o que faz essa mediação para mim é o erotismo, é essa carga erótica que eu procuro nos poemas. Ela vem como um potencial de metamorfose, um potencial de conexão com a natureza, uma percepção do nosso lado bicho, que nos leva para outros estados de consciência, aquelas realidades não humanas da poesia, então parece que a gente deixa de ser humano por uma suspensão das identidades, dos papéis... 

Como o desejo surgiu em sua escrita? Como você conseguiu ver o erotismo na natureza para ter essa visão?

Eu acho que veio muito das referências literárias mesmo que já mostravam essa ponte. É uma tradição, vamos dizer, que eu acabei fazendo parte [sorri], que já apontava esse veículo do erotismo, essa transição do desejo para a natureza. Mas essa busca, no que começou com esse contraste da vivência urbana com a natureza, eu acho que agora é mais uma busca de como vivenciá-la da maneira mais rica possível, mesmo estando na cidade.


Anteriormente você trouxe a relação do humano com o bicho e me fez pensar na atual sociedade, onde estamos domesticados, não conseguindo nos expressar e nos mostrar por inteiro. Você acha que conseguimos recuperar o que nos foi domesticado? 

[breve silêncio] Recuperar o que foi domesticado? Acho que não. Acho que seria melhor pensar em como exercer nosso lado animal nessa vida domesticada. Tem um poeta muito marcante para mim, que é o Michael McClure, que tinha uma proposta de poesia biológica, a poesia era um organismo vivo, toda uma visão. Ele dizia que o homem que não se vê como um mamífero é menos que um mamífero. Então acho que é muito importante o olhar, o nosso imaginário, o que a gente tem de liberdade. A domesticação dos corpos, a domesticação social vai existir, mas a gente pode trabalhar nosso imaginário, e claro, ter práticas ecológicas, práticas de comunhão com a natureza, isso sim é uma coisa que a gente pode lutar politicamente, que a gente pode buscar. Mas no aspecto individual, eu acho que é mais esse reconhecimento da natureza, essa abertura para o que não é humano também. 

Como trabalhar o imaginário quando a realidade é caótica e dolorosa? 

Eu acho que a poesia tem uma força para isso, ela é uma das... É que eu não gosto de pensar em utilidade para a poesia, não vejo dessa forma, mas eu acho que é um dos papéis da poesia, ela mexe com nossas verdades, com nossas certezas, e com as possibilidades. Acho que a transformação material, ela passa por essa transformação imaterial antes, essa transformação das ideias. Dá para ser otimista, dá para ser pessimista, mas a imaginação permanece ativa. 


Em alguns poemas, o encontro amoroso parece assumir uma dimensão quase ritualística e mística. O amor, pra você, é uma consequência dessas duas características?

Seja amor, seja erotismo, essa ideia da conexão, da fusão, como conexão para algo maior. Uma possibilidade de conexão para isso, para o infinito. Aparece muito no livro, porque ele tem essa ambiguidade de ser, de certa forma, memorialístico, narrativo, e, ao mesmo tempo, fragmentário. Ele não é linear e ele não tem uma identificação específica de pessoas, gênero - a ideia é justamente essa multiplicidade, tem os animais, têm as árvores, têm os humanos, têm as experiências sensoriais.


"Eu acho que a natureza tem essa força de contato com algo maior. Eu acho que ela nos lembra do infinito e nos lembra que existem realidades não-humanas, e a poesia, em certa linha, trata de realidades não-humanas."

Cogumelos, mantras e visões são alguns símbolos que aparecem ao longo do livro. A poesia pode ser uma forma de expansão da consciência?

Eu acho que ela é uma forma de expansão da consciência. Ela é uma ferramenta e, ao mesmo tempo, é a expansão em si. Seja a imersão em um poema, seja uma viagem física ou uma viagem de cogumelo, eles são ampliações da consciência. 

No meio desse processo, não só durante esse livro, mas em toda a sua bagagem, você teve alguma visão? 

Tive várias. Esse livro tem um termo, citando de novo Roberto Piva, que eu gosto muito, que é estilhaços de visões. Eu acho que, como eu sigo essa linha mais da poesia imagética, ou seja, da construção de uma imagem por meio das palavras, só que é uma imagem que a gente vê por dentro e não por fora e acho que muitos desses poemas são essas visões. São essas visões como se fossem pinturas, mas são visões. Acho que isso é uma coisa que guia minha escrita, tem essa possibilidade de ver a poesia como você se atirar para o desconhecido e você traz o que puder e acho que essas são as visões, as epifanias, as revelações que a poesia pode trazer. 

Alguma visão te ajudou a imaginar o futuro? 

Eu penso muito poeticamente na transformação do presente como uma peça de arte. Então, não tem muito espaço para o futuro do jeito que eu busco na poesia, ela vem do presente. 


selva luís perdiz
(Créditos: Divulgação)

Quando você está no meio da mata, você consegue enxergar a insignificância do indivíduo nesse mundo?

Sim, acho que tem até um momento em Alter do Chão, quando entra mesmo na floresta, tem uma das formas de fazer esse trajeto, é passar uma noite num redário, no meio da floresta, no escuro. Então é o infinito, o mais infinito possível que você encontra, porque é uma escuridão total… Mas eu acho que é libertador, é uma coisa de você também desapegar de tudo, até dessa experiência específica dessa vida, né. Acho que perceber nossa insignificância é libertador, é positivo, é uma coisa que dá potência de vida, não é que reduz a vida.


Em alguns momentos, o poema parece mais próximo de um mantra ou de uma revelação do que necessariamente uma narrativa. Que tipo de experiência você busca provocar no leitor com esse livro?

Esse livro eu vejo como um convite pra essa selva sensorial, uma experiência sensorial que estimule esse desejo com essa carga erótica da vida. É um livro que é uma imersão nesse cenário que eu proponho, mas também é um convite pra pensar sobre a nossa humanidade e nossa não humanidade. 


Há momentos em que o tempo parece suspenso dentro da paisagem. A poesia seria uma forma de prolongar o instante?

Nas epifanias que muitos poemas trazem, a consequência é também a suspensão do tempo, a suspensão de todos os apegos que temos, seja o corpo ou o tempo, né?


Se a selva está nos olhos, como o título sugere, como reaprendemos a enxergá-la no mundo atual?

Acho que um caminho importante é justamente esse convite pro olhar. A poesia, no meu caso, é um veículo pra isso, mas acho que com a natureza pode se dar de várias formas - o autoconhecimento é um contato com a natureza também, são várias as vias, mas nada supera estar na natureza. A poesia, quem sabe, pode incendiar um pouco esse olhar para uma perspectiva maior. 


Em tempos de crise ambiental e hiperconectividade digital, escrever poesia a partir da natureza, dá esperança para mudanças? 

[olha para baixo em silêncio] Eu vejo um otimismo em uma perspectiva maior: na perspectiva humana, eu não vejo muita esperança. Teve grandes movimentos ecológicos vinculados a poesia, o próprio McClure que falei, os beatniks, sempre vai ter uma relação da arte com o aspecto ecológico, mas às vezes me deixo levar para um olhar ainda mais amplo, de pós humanidade, imagino que deu tudo errado, mas continuam crescendo árvores nesse planeta e terá coisas depois da humanidade… O otimismo vem desse infinito, a vida se transformando constantemente. 



O verão amazônico começa em nossas peles coladas, sedentas de sol. Folhas macias, folhas ferozes carregamos nos lábios os estilhaços de uma flor. Sinto o relâmpago do seu sangue a terra perde o controle somos engolidos pela vida.



Devaneio das chamas no berço da selva na alma do sol no transe da vida. O aroma entorpece onde as plantas sonham.



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